Sustentar a nota, de David Remnick (e a leitura?)

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Há entre os formadores de leitores uma espécie de ditado que é mais ou menos assim: “não é que você não gosta de ler, você apenas não encontrou o ‘seu’ livro ainda”. Esse “seu” livro é aquela obra que vai fisgar aquela pessoa e que fará dela uma leitora a partir dali.

Mas como funciona esse negócio de encontrar “o” livro? Não chega a ser difícil, em muitos casos. Basta que a pessoa seja apresentada a alguma obra que tenha a ver com uma área que essa pessoa goste muito. Por exemplo: se a pessoa gosta de futebol, que tal uma biografia de um grande jogador ou técnico de sua admiração? Ou as crônicas futebolísticas de Nelson Rodrigues? Há muita coisa boa com futebol na área da ficção, mas eu recomendaria começar “de leve”, com uma não-ficção no primeiro momento.

Mas ainda que essa pessoa hipotética esteja disposta a ler um livro sobre futebol, é necessário que a obra tenha qualidade literária suficiente para não somente fisgá-la, mas também mantê-la presa até o fim do livro, com desejo de ler um próximo. Se a obra escolhida não for “suculenta”, é possível que essa pessoa não abra novamente a guarda para os livros tão cedo.

Entretanto, quando a magia acontece, ou seja, quando o leitor encontra uma obra cativante sobre um assunto que aprecie muito, a parceria com os livros vai longe.

Foi nisso que pensei quando estava perto de finalizar a leitura do perfil de Bruce Springsteen escrito pelo jornalista David Remnick que está no livro “Sustentar a nota – Perfis musicais“, publicado (com tradução soberba de Isa Lando e Mauro Lando) no início deste ano pela editora Companhia das Letras.

Como nos discos e shows de Springsteen, a magia aconteceu: o cantor e compositor estadunidense é um personagem como poucos, com cantos mal iluminados merecedores de uma luz; o autor escreve brilhantemente bem, não é à toa que há quase trinta anos é editor de uma das revistas mais respeitadas do mundo, a New Yorker; e o leitor (eu!) é fã do Bruce, da boa escrita e dos bons personagens.

Remnick também é fã de Springsteen, o que fica demonstrado não apenas dentro do texto mas também em sua extensão: “Estamos vivos” (título do perfil) tem 54 páginas, sendo o maior do livro, correspondendo a 1/6 dele – são 11 perfis, no total. Essa discrepância pode revelar talvez uma certa benevolência do autor com o perfilado disfarçada pelo tamanho do texto. Porém, isso não passa de uma suspeita; nada no texto dá a entender que Remnick deixou de lado questões polêmicas ao falar de Springsteen.

Se os outros ensaios tiverem tanta qualidade quanto esse, “Sustentar a nota” vai ser um dos melhores livros que li até hoje – de não ficção, no caso.

No momento, ele está lutando pelo posto de minha leitura principal contra outros livros que comecei a ler recentemente, então não sei até quando poderei sustentar a sua leitura (tinha que ter trocadilho, ora essa), porque a vontade de ler os outros também é grande. Seja o que for, darei notícias – quando algum deles terminar.

Contra Thomas Pynchon

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Tenho um amigo com quem troco fotos de nossas últimas aquisições literárias. Agora há pouco ele me enviou a imagem de “Contra o dia”, romance-tijolão do escritor estadunidense Thomas Pynchon. De imediato me lembrei das histórias colocando em dúvida a real existência do autor. Houve quem dissesse que Pynchon era, na verdade, o Unabomber. Outros rumores o colocavam como um agente da CIA, por isso sua reclusão. E houve até quem afirmasse que o também escritor recluso J.D. Salinger era a verdadeira mente por trás da obra de Pynchon. Mas todas essas teorias esbarram em fotos antigas de Thomas Ruggles Pynchon. Recluso, sim; fantasma, não.

Pynchon pertence a um grupo seleto de escritores que, de fato, existem, mas preferem não aparecer em público. No Brasil nossos reclusos mais conhecidos são/foram Rubem Fonseca e Dalton Trevisan. Caso aconteça de eu chegar à glória em vida, serei mais um nesse clube. Nos EUA, o caso mais famoso é o do já citado Salinger, seguido do próprio Pynchon. Globalmente, Elena Ferrante é o caso mais conhecido, porém, recai sobre Elena a dúvida sobre a sua existência material, corpórea; há quem diga que ela é um pseudônimo utilizado por um escritor – sim, do sexo masculino. Um dia saberemos a verdade, acredito eu.

Mas eu dizia que meu amigo me enviou uma foto de “Contra o dia”, um catatau de 1088 páginas, e que isso me lembrou das histórias sobre a “verdadeira identidade” de seu autor. E então me lembrei – veja só você como a nossa mente é fascinante – do Mister M. Se por uma infelicidade do destino você não faz ideia de quem é o Mister M, fique tranquilo(a), farei um breve comentário sobre esta entidade.

A trajetória do Mister M se confunde com a do Brasil em 1999, quando ele ganha um quadro no Fantástico. O que ele fazia: mostrava um truque de mágica e depois revelava como o truque era feito. Isso num clima de mistério com narração do eterno Cid Moreira, dono do “boa noite” mais famoso do país. (Agora, se você não sabe quem foi Cid Moreira, tenha santa paciência.) Detalhe: Mister M usava uma máscara, e, se não me falha a memória, não falava, pois sua identidade, tal qual a do Superman, era secreta. Acho que ele chegou a conceder uma entrevista ao próprio Fantástico ou a outro programa da TV Globo, se (de novo) não me falha a memória, mas obviamente teve sua voz dublada e, para dar mais segurança ainda, distorcida.

E foi por isso que lembrei de Mister M ao dar de cara com Thomas Pynchon. Inegavelmente um dos autores mais festejados nos Estados Unidos, Pynchon não aceita convites para participar de eventos literários, afinal, não quer que saibam quem ele é. Imaginei então que tudo seria facilmente resolvido se ele adotasse a tática de Mister M. Sim, participar de eventos literários usando uma máscara e distorcendo a própria voz. Sua identidade seria mantida em segredo, os leitores poderiam pegar seu autógrafo e o próprio Pynchon sairia ganhando, adicionando à sua conta bancária os inúmeros cachês que receberia ao redor do mundo.

Parece piada, mas falo sério. Ver ao vivo seu autor favorito e pegar seu autógrafo é o sonho de milhões de leitores. Pedir para vestir uma máscara e empostar a voz não me parece uma exigência assim tão esdrúxula.

Não que eu advogue em causa própria: nunca li Thomas Pynchon. (E, pra falar a verdade, acho que ninguém o leu – pelo menos não aqui no Brasil. Publicada no Brasil pela Companhia das Letras, a obra de Pynchon é em grande parte composta por livros com pelo menos 500 páginas – “Contra o dia”, 1088 págs.; “O último grito”, 584 págs.; “O arco-íris da gravidade”, 740 págs.; “Vineland”, 504 págs.; “Mason e Dixon”, 848 págs. Apenas “Vício inerente” e “O leilão do lote 49” têm menos de 500 páginas, 464 págs. e 184 págs., respectivamente – e uma grande mistura de gêneros e estilos, o que torna a leitura de qualquer um desses títulos um grande desafio até mesmo para os leitores mais experientes.) Apenas tenho empatia com seus admiradores, afinal, também tenho o meu panteão e há reclusos nele.

Mas, confesso, já tentei ler Pynchon, com “Vício inerente”, que foi adaptado para o cinema com direção do sempre genial Paul Thomas Anderson e protagonizado pelo sempre brilhante Joaquin Phoenix. Geralmente – mas não sempre – obras adaptadas para o cinema são mais “palatáveis” para meros mortais, como eu. Entretanto, não consegui avançar na leitura e desisti, vendi o livro outro dia. Mas não desisti dele: “Vineland”, “O último grito” e “O leilão do lote 49” estão no meu radar. Mais cedo ou mais tarde tento de novo. E atenção fãs do Pynchon: em outubro ele lança seu mais novo romance, “Shadow ticket”.

* Texto escrito com o auxílio de inteligência natural e informações da Wikipedia, Companhia das Letras e Vulture.

O avesso do avesso da pele

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A convite da Folha de São Paulo, 100* profissionais do mundo do livro – escritores, críticos, jornalistas etc. – escolheram os melhores livros brasileiros (de literatura) do século XXI – ou seja, publicados de 2001 até quando foram colhidos os votos, no fim de 2024. A lista foi publicada anteontem, dia 24/05. No mesmo dia, no mesmo jornal, foi publicado um texto da crítica literária Walnice Nogueira Galvão comentando o resultado. A “ideia” do texto está resumida na imagem acima.

Primeiro pensei em nem comentar, ou comentar desaconselhando a leitura, mas depois achei que seria melhor comentar e aconselhar ler esse texto que chegou a me deixar nauseado. Explico: esse texto me parece mais uma prova daquela Lei de Newton que diz que para cada ação haverá uma reação no sentido oposto e de força correspondente. A cada avanço civilizatório que temos, surge uma turba de descontentes esbravejando ou choramingando, se sentindo ofendida ou procurando chifre em cabeça de cavalo. 

Apesar de Walnice, em seu texto, ter colocado passagens em que demonstra não ser racista, seu texto, infelizmente, é, e isso fica nítido em trechos como “A lista dos melhores livros deste século 21 não desmente ninguém [sobre o Brasil ser o país mais africano do mundo], é apenas um sintoma. Se não bastasse, era só olhar para os programas de televisão, dos mais broncos aos mais ambiciosos, e verificar como mudaram de cor. Até na publicidade: não se faz propaganda de nada, nada mesmo, sem feições morenas”.

Depois de trechos que eu não tenho mais estômago para reproduzir aqui, Walnice pincela o seguinte: “Essa hipertrofia do significado, em detrimento do significante, pode estar implicando uma inclinação da literatura mais para o lado do entretenimento, e menos para o lado da arte”. Ou seja: além de racista, é um texto elitista, porque coloca o que ela chama de arte num nível acima do que chamamos de entretenimento – e autoras(es) negras(os) como incapazes de fazer o que ela considera como sendo arte.

Venho dizendo há anos e anos: a crise em que estamos, na qual estamos presos desde 2013, também é editorial. Esse texto jamais deveria ser publicado num jornal do porte da Folha de São Paulo. Não se trata de censura. Inúmeros veículos adorariam publicar esse texto. O Estadão, por exemplo, caramba, deve estar aos prantos por não tê-lo publicado. Se trata de selecionar, criteriosamente, o que será impresso nas páginas do jornal, de ter um padrão de qualidade e de sensatez, para não dizer outra coisa.

O texto de Walnice é racista, elitista, errado e raso. A discussão de conteúdo sobre a forma na literatura é tão patética que chega a ser engraçado uma crítica do porte dela lançar mão desse argumento. Conteúdo e forma variam no protagonismo a depender da obra e do objetivo do(a) autor(a). A discussão entre uma coisa e outra até é válida, mas depende muito do (con)texto.

Meu estágio de conclusão da graduação em Letras foi numa escola pública estadual. Coube a mim ficar com uma turma do terceiro ano do ensino médio, e fiz com eles uma oficina de leitura e escrita de contos e crônicas. Nunca vou esquecer da minha surpresa e da minha emoção ao ler os textos que aqueles(as) jovens – predominantemente negros(as) – produziram. Contos, crônicas e relatos belíssimos, que poderiam figurar em qualquer antologia de contos e crônicas destinada a revelar jovens autores. Mas o mundo da literatura não era uma possibilidade para eles, assim como vários outros “mundos”.

Não me recordo no momento, por exemplo, de negros em postos altos nos meios literário e editorial brasileiro. Nenhum crítico “de ponta”, nenhum publisher de um “grande grupo”, nenhum editor de caderno cultural. Pode ser ignorância minha, espero que seja e que chovam comentários me corrigindo, mas à minha mente só vêm nomes brancos. E me vem à mente também a lembrança de que, quando a Conceição Evaristo candidatou-se à Academia Brasileira de Letras, houve boicote.

Que negras(os) estejam em maior número numa lista de melhores livros do século é fato a ser comemorado, mas é também para ser analisado com profundidade. É uma oportunidade para lembrarmos quanto tempo isso demorou para acontecer, quantos escritores(as) negros(as) geniais morreram sem ser reconhecidos e quantos sequer tiveram a oportunidade de escrever e publicar, devido ao abismo econômico, social e de cor da pele que existe em nosso país.

*Além dos 100 convidados, houve também a participação do editor de livros da Folha, Walter Porto.

O patriarcado é uma barbárie

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Antes de ir para o texto de fato, acredito ser necessário fazer os apontamentos a seguir:

  1. Tenho enorme admiração e carinho pela escritora Vanessa Bárbara, mas não a conheço pessoalmente, e, se falei com ela, por mensagens privadas, em três ou quatro momentos ao longo de 20 anos, foi muito;
  2. “Operação impensável”, romance de Vanessa publicado em 2015 pela editora Intrínseca, é um dos melhores livros publicados no Brasil no século XXI. O fato de ele não ter o reconhecimento que merece tem a ver com muitas coisas, mas, aparentemente, tem a ver principalmente com o fato abordado neste texto;
  3. Tenho enorme admiração e carinho pelo escritor Paulo Scott. Não nos conhecemos pessoalmente ainda, mas, ao longo desses mais de 20 anos em que “entrei” no mundo da literatura, o Paulo foi um dos dois ou três escritores de sua geração com quem desenvolvi uma amizade. Foi o Paulo quem escreveu a quarta capa de meu livro mais recente, a propósito.

Na última segunda-feira, dia 20/01, fui surpreendido por uma imagem contendo fotos de rostos de alguns homens com os dizeres “Os homens de Chernobyl”. Um amigo tinha me enviado um link para a imagem e perguntava: “viu isso?”.

Não, eu não tinha visto, mas reconheci alguns rostos e nomes, todos eles profissionais do jornalismo e da literatura. Alguns eu conheço de nome; outros sequer de nome conhecia; com um deles tive um certo contato mais de quinze anos atrás; e um deles, você sabe, é meu amigo, o Paulo Scott.

E então fui colocado e me colocando a par do que estava acontecendo. Há poucos dias, o podcast Rádio Novelo tinha divulgado seu episódio de número 112, com o título de “CPF na nota?“. No segundo e maior ato do podcast, a escritora Vanessa Bárbara narra um período no mínimo delicado de sua vida: o fim de seu casamento com Tito (pseudônimo), fato ocorrido em 2011. Esse “no mínimo delicado” é só um modo de dizer, porque a história vai muito além de uma situação “delicada”: principalmente no ano final do relacionamento, Vanessa foi vítima de traições e violências psicológicas por parte de seu então marido.

Na busca pela verdade e por entender o que estava de fato acontecendo ao seu redor, Vanessa descobriu uma lista de e-mails chamada “Fotos pós-Chernobyl”, composta por 15 homens – Tito entre eles. Nessa lista, os amigos trocavam mensagens sobre diversos assuntos, mas também se dedicavam a falar das mulheres com as quais se envolviam, das conquistas amorosas, das traições, entre outras bizarrices.

O conteúdo das mensagens não foi divulgado, então não se sabe até onde iam essas trocas, nem quem falou exatamente o quê. Mas foi através delas que Vanessa soube que estava sendo traída.

Esses acontecimentos já tinham sido abordados pela escritora em seu romance “Operação impensável”, publicado em 2015, pela editora Intrínseca. Arrependo-me, até hoje, de não ter tentado entrevistar a Vanessa e escrever uma resenha para publicar em algum lugar, ainda que no meu blog. Na minha opinião, esse livro é um acontecimento. Não à toa, foi o vencedor do Prêmio Paraná de Literatura de 2014. E talvez pudesse ter levado outros prêmios, se parte de sua história não envolvesse justamente o Tito. A essa altura, o Tito era editor de uma grande editora. E aqui vai uma explicação que talvez seja óbvia demais, mas se faz necessária: muitas vezes, uma pessoa num cargo de poder não precisa fazer absolutamente nada para prejudicar outra pessoa. Ela pode prejudicar alguém mesmo sem fazer absolutamente nada.

Não vou aqui parar para fazer um levantamento de quantas resenhas foram publicadas de “Operação impensável” nem quem as escreveu, nem quantas matérias foram escritas sobre o livro. A questão é a seguinte: praticamente todo o mercado editorial/jornalístico do Rio de Janeiro e de São Paulo sabia quem era o Tito. E poucos são aqueles dispostos a correr o risco de desagradar a um desses “Titos”, afinal, fazer isso pode fechar portas não apenas com esses “Titos”, mas também com seus amigos.

“Operação impensável” me foi recomendado como um retrato de como funciona parte do meio literário brasileiro. Não lembro quando li o romance, mas deve ter sido em 2016, ano em que o comprei. A questão é que, quando fiz a leitura do livro, eu já sabia que ele trazia traços autobiográficos e eu já sabia quem era o “Tito”- ninguém me falou, mas liguei os pontos. Trata-se de André Conti, que foi editor da Companhia das Letras e atualmente é editor da Todavia, da qual é um dos sócios fundadores. Além disso, André é filho de Mário Sergio Conti, um dos jornalistas mais importantes e talentosos do Brasil. Ou seja: além de ocupar posições de poder, André tem “pedigree”.

Difícil dizer por que nada fiz com o romance de Vanessa, uma vez que gostei tanto dele. Vejo que o comprei pela internet, no dia 17 de abril de 2016, dia da famigerada sessão da Câmara dos Deputados que aprovou a abertura do processo de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff, e suspeito que, apesar de ter gostado muito do livro, minha prioridade era acompanhar não apenas o cenário político brasileiro, mas também o dos Estados Unidos. Nessa época, eu escrevia artigos sobre os dois assuntos para a versão brasileira do site Huffington Post, que veio a ser extinto poucos anos depois. Talvez tenha sido esse o motivo, mas não posso garantir que o fator André Conti não tenha interferido – sou escritor, revisor e preparador de textos, e o mercado editorial é muito restrito. Talvez eu tenha pensado que escrever sobre o livro da Vanessa pudesse, de alguma maneira, me prejudicar, fechar portas. Talvez eu tenha me acovardado.

Enfim, a questão é que eu sabia quem era o Tito, tive conhecimento – através do romance – sobre seu comportamento abusivo com a Vanessa e eu tinha “voz”. Poderia ter usado meu espaço no Huffington Post para escrever sobre o livro, ou, pelo menos, poderia ter enviado uma mensagem de elogio e apoio para a autora. Mas nada fiz, e, ao arrependimento de não ter contribuído para a divulgação de uma obra literária de extrema qualidade, soma-se o fato de não ter sequer sido solidário com a vítima.

E eis que chega o momento de explicar por que estou escrevendo sobre essa história, mesmo que nada tenha a ver com ela: da mesma forma que não basta não ser racista, é preciso ser antirracista, não basta não ser machista, é preciso ser antimachista. Nós, homens, somos protegidos por um sistema social que nos favorece a todo momento: o patriarcado. Em maior ou menor grau – isso varia de acordo com a classe econômica, a cor da pele, o cargo ocupado -, nós sempre escapamos do que quer que seja. Olhe para os lados, para as notícias, para a História. Veja quantas gigantescas atrocidades e canalhices cometidas por homens foram “perdoadas” por eles serem “um menino”, por terem sido cometidas num momento de “perda de razão”, por ter acontecido “há muito tempo” – ou qualquer desculpa parecida.

Isso tem que acabar. Precisamos ser responsabilizados por nossos atos, seja lá quando eles foram cometidos. Sim, as pessoas mudam, o mundo mudou, muitos dos assuntos discutidos intensamente hoje não eram tão discutidos assim em 2011. Mas não basta aprendermos, evoluirmos. É necessário que nós, homens, além de fazer a nossa parte enquanto indivíduos, estejamos no front combatendo o machismo alheio. Mesmo sendo um homem “pró-feminismo” – não acho correto me autointitular feminista -, já fui machista, já fui tóxico, e posso ser a qualquer momento, porque o machismo está entranhado em mim, de forma que ele pode dar as caras sem que eu sequer perceba, ou só perceba depois. Mas isso não serve de justificativa para quando eu cometer um deslize. Preciso estar alerta, preciso ler sobre masculinidade saudável, preciso ler sobre feminismo… Precisamos. Nós, homens, precisamos ser melhores. Assumir a nossa culpa e pedir desculpas é o mínimo. É preciso ir além.

O depoimento da Vanessa é extremamente importante por vários motivos, tanto pessoais quanto coletivos, e não pode ser invalidado por ninguém. A história da Vanessa é da Vanessa, e ela faz com essa história o que ela bem entender. Que Conti e outros envolvidos nessa história tenham melhorado enquanto pessoas é meio que aquele meme do “não fez mais que a obrigação”.

Alguns deles se pronunciaram publicamente sobre o assunto, entre eles Paulo Scott, que publicou uma postagem admitindo ter participado da lista, mas afirmando que pouco participava das conversas. O Paulo é meu amigo, então eu acredito no Paulo. Sobre os outros, não cabe a mim fazer qualquer tipo de julgamento. Mas faço questão de encerrar este texto com uma alfinetada: essa história toda, além de ser mais um alerta de que mesmo homens progressistas podem ser tóxicos e abusivos, serve para mostrar, que uma das bases do funcionamento do meio literário brasileiro (e de todo lugar, provavelmente) é o seguinte: muitas vezes, as amizades certas valem muito mais que o talento.

P.S.: Quem fez a imagem “Os homens de Chernobyl” cometeu o erro gravíssimo de colocar a foto de um homônimo no lugar da imagem da pessoa correta, o que obviamente trouxe problemas para o homônimo. Esse é mais um exemplo, entre tantos que já vimos, de que é necessário ter muito cuidado e muita responsabilidade ao fazer qualquer tipo de acusação, principalmente se ela for feita num meio tão veloz quanto o da internet.

Tratamos o Presidente Biden como “m**da”, diz Trevor Noah

Já faz algum tempo que venho pensando em escrever sobre como Joe Biden vem sendo tratado nos EUA, principalmente pelos humoristas, mas não apenas. Também a mídia e personalidades influentes tiveram atitudes que cruzaram a linha do bom senso – por exemplo, o ator George Clooney comprou uma página no The New York Times para publicar um artigo seu pedindo que Biden desistisse da corrida presidencial deste ano.

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O presidente dos EUA vinha dando sinais de cansaço, desgaste e… velhice. Velhice, sabemos todos, é aquilo que acontece quando envelhecemos. Ano após ano, mês após mês, dia após dia, segundo após segundo. Estou mais velho agora do que quando baixei e printei as imagens desta postagem. Quando postá-la, estarei mais velho do que quando comecei a escrevê-la.

Biden fará, no dia 20 deste mês, 82 anos. Sua trajetória, tanto na vida pessoal quanto na política, é admirável. Ao tomar posse do cargo de senador pela primeira vez, Biden tinha 30 anos, se tornando, assim, um dos seis senadores mais jovens da história do país. Sua vitória foi uma surpresa, pois ele contava com muito menos dinheiro e muito menos capilaridade que seu concorrente, um político tradicional do estado de Delaware. Pouco depois da eleição, a então esposa de Biden e sua filha caçula morreram em um acidente de carro. Seus outros dois filhos se feriram, mas não de forma tão grave. Décadas mais tarde, Beau, o primogênito, morreu aos 46 anos, de câncer. Hunter, então o do meio, muitos anos depois travou uma batalha terrível contra as drogas. Passado o tempo e “superados” os traumas, Biden foi talvez o vice-presidente “mais legal” dos EUA, muito embora tenha cometido diversos erros. Nos últimos anos, como presidente, seu maior erro foi a desastrosa retirada das tropas estadunidenses do Afeganistão, e outro de seus grandes erros é continuar passando a mão na cabeça de Israel, mesmo que em privado ele já tenha deixado claro seu desprezo por Benjamin Netanyahu.

A propósito, a intenção desta postagem não é passar pano para Joe Biden. Como presidente dos EUA ele tomou algumas decisões terríveis, mas é preciso reconhecer que ele também fez história. Foi o primeiro presidente a apoiar uma manifestação sindical – pessoalmente! -, perdoou dívidas estudantis de mais de 153 mil estudantes e conseguiu aprovar um plano ousado para investimentos em infraestrutura e geração de empregos com duração de dez anos, fazendo com que a taxa de desemprego nos Estados Unidos tenha caído a um de seus menores níveis da história, em fevereiro de 2023.

Mas, como eu dizia, já faz algum tempo que venho pensando em escrever como Joe Biden vem sendo tratado nos EUA. E, se fui impelido a fazer isso agora, foi graças a um vídeo que o humorista Trevor Noah publicou hoje em seu canal no YouTube.

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No que parece ser um trecho de uma apresentação sua em um clube de stand-up comedy, Noah fala que estão tratando Biden como “mer**”, apenas pelo fato de Biden estar… velho. Em algumas ocasiões, Biden trocou nomes de líderes de países, nomes de cidades, e demonstrou estar “perdido” em algumas aparições públicas, mas nada muito diferente do que pode acontecer a qualquer pessoa com mais de 40 anos passando por momentos de estresse e/ou burnout.

Noah, que também tem uma trajetória de vida admirável, estende sua indignação à forma como Biden vem sendo tratado a todas as pessoas idosas, fazendo um importante desabafo sobre etarismo e nos chamando à reflexão – tudo isso sem perder a oportunidade de fazer piadas. Mas não ridicularizando Biden, e sim o ridículo que é esperar que uma pessoa de 81 anos de idade não sofra com as circunstâncias que o tempo e a idade nos impõe.

O que mais causa espécie é que parte do tratamento debochado destinado a Biden vem de personalidades liberais – os “liberais” são a “esquerda” (com muitas aspas) estadunidense. Clooney é liberal. Jon Stewart, que fez comentários extremamente desagradáveis sobre Biden, é um liberal. O Saturday Night Live, programa de humor histórico dos EUA, é liberal – ontem, 02 de novembro, Kamala Harris, a candidata do Partido Democrata à presidência, participou da abertura (o famoso “cold open”) do SNL. Eu poderia continuar citando vários e vários exemplos, tanto de humoristas quanto de jornalistas, comentaristas políticos e também de políticos. Um dos poucos que vi falando de forma empática sobre Biden foi o comentarista político Van Jones – que, assim como Trevor Noah, é negro, e que, assim como Trevor Noah, é um dos melhores no que faz. Outra personalidade que tratou Joe Biden de maneira minimamente humana, segundo relatos de bastidores, foi a deputada democrata Nancy Pelosi, uma mulher. Empatia vinda de dois homens negros com consciência de classe e de uma mulher. Que coincidência, não?

Biden tinha que desistir da corrida presidencial. Seu desempenho no debate com Donald Trump foi, para dizer o mínimo, preocupante. A bola que levanto aqui é que Biden não merecia nem merece ser alvo de certas atitudes e comportamentos. Seria possível convencê-lo a desistir da campanha sem o editorial do Clooney ou as “piadas” de Jon Stewart e companhia.

A eleição estadunidense começa a ser apurada daqui a 2 dias, em 5 de novembro, último dia para votação. Se tudo der certo, Kamala Harris será eleita, fazendo com que o fantasma de Donald Trump não possa mais assombrar os Estados Unidos e o mundo. Kamala Harris é a melhor opção para a presidência dos EUA? Para este momento, sem dúvidas, apesar de não ser a opção ideal. Torçamos por ela, afinal, problemas para os EUA são problemas para o mundo inteiro, ou seja, estamos todos no mesmo barco.

Entrevista exclusiva com Pablo Marçal

ImageQuem conhece Pablo Marçal sabe que ele sempre foi um exemplo de coragem. Mas, depois de se lançar como candidato à prefeitura de São Paulo, Marçal sentiu pela primeira vez o amargo sabor do medo. O bem-sucedido empresário e ex-coach afirma, nesta entrevista exclusiva, autorizada a ser veiculada apenas após o resultado da eleição municipal de São Paulo, ter triplicado a quantidade de seguranças pessoais nos últimos meses e diz também que atualmente vive em constante estado de alerta. Ao buscar uma pessoa para comparar a sua situação, Marçal faz um comentário que surpreenderá até mesmo seus mais fiéis seguidores.

Candidato, gostaria de começar essa entrevista dando a chance de o senhor explicar por que não autorizou que a nossa conversa fosse publicada antes das eleições. Acredito que os eleitores precisam saber disso.
Candidato, não: próximo prefeito da cidade de São Paulo. Mas vamos lá. Olha, Gabriel, eu não tenho nenhum problema em falar sobre isso não. Quem me conhece sabe que eu parto pra cima mesmo e dou a cara pra bater. No caso dessa entrevista, eu prefiro que ela seja publicada após a eleição porque não quero que ela interfira no resultado da votação, não quero que os eleitores sejam influenciados pelo que vou falar aqui. Sou muito verdadeiro em tudo que falo, e muitas vezes a verdade pode ser decepcionante para alguns.

Entendi, candidato. Falando em verdades, o senhor se arrepende por alguma coisa que disse durante a campanha? Por exemplo, o senhor acusou o candidato Datena de ser um criminoso sexual e o candidato Boulos de ser usuário de drogas, mesmo sem haver provas ou mesmo indícios desses crimes.
Vou te ser sincero: não me arrependo, não. Eu até pedi desculpas à Tabata pelo que falei sobre o pai dela, mas foi só pra acalmar ela um pouco, porque também não me arrependo do que disse. Cara, eu não gosto do Datena, não gosto do Boules, não gosto da Tabata. Se o Datena não é estuprador, se o Boules não é cheirador e se a Tabata não fez o pai ir de arrasta pra cima, eles que provem, isso é problema deles, não meu.

Mas foi o senhor que fez essas acusações, candidato…
Uai, e qual é o problema? Quando alguém me acusa, eu me defendo. É simples. Se tivessem me acusado de alguma coisa durante a campanha, eu iria me defender, e tá tudo certo.

Na verdade, eles acusaram, candidato. Disseram, entre outras coisas, que o senhor participou de uma quadrilha que aplicava golpes financeiros, que o senhor provocou a morte de um funcionário e que colocou em risco as vidas de 32 pessoas numa escalada ao Pico dos Marins, em São Paulo…
E eu me defendi de todas as acusações. No caso dos golpes, o crime prescreveu. Se a justiça brasileira é lenta, a culpa é minha? No caso do funcionário que morreu, ele correu a maratona porque quis, e, no caso da escalada, eu não obriguei ninguém a subir comigo. Cada um é responsável pelos seus próprios atos. Eu não posso ser responsabilizado por alguém cair num golpe. A culpa é de quem caiu no golpe. E nem fui eu que dei o golpe, eu só era uma peça na engrenagem da gangue, tanto que nem foi nessa época que comecei a ficar rico. A mesma coisa com o moleque que morreu: vê se tem alguma prova de que obriguei ele a correr a maratona. Não tem. Vê se tem alguma prova de que forcei aquelas pessoas a subir o Pico dos Marins. Não tem. Tudo isso é mimimi desse consórcio comunista que está tomando conta do Brasil. Eles querem me destruir, mas eu vou pra cima!

A propósito, candidato, o senhor disse recentemente que triplicou o número de seguranças particulares nos últimos três meses. O senhor tem sido alvo de ameaças?
Sim, muitas ameaças.

Que ameaças são essas, candidato? Sua equipe sabe quem são essas pessoas? Elas fazem parte do que o senhor chama de “consórcio comunista do Brasil”?
Tão me ameaçando de tudo quanto é jeito. De porrada, de morte… Mas sabe que não são do consórcio comunista? É até curioso isso, vou te contar. Esse pessoal da esquerda é bunda mole, eles não têm coragem de fazer nada contra mim. Vê se o Boules me deu uma cadeirada. Quem deu foi o Datena, que se diz de direita… As pessoas que estão me ameaçando são de direita e de extrema-direita, e quase todas elas dizem nas mensagens e e-mails que o verdadeiro líder da direita é o Bolsonaro. Essa gente, sim, pode fazer alguma coisa contra mim, e é delas que estou me protegendo. Eu sou a versão antissistema do Marcelo Freixo.

Estamos nos encaminhando para o fim da entrevista. O senhor pode fazer suas considerações finais, candidato.
Agradeço a vocês pelo convite. E se você, eleitor, estiver assistindo a esta entrevista após a minha vitória na eleição, fique certo de que…

Candidato, esta entrevista não está sendo gravada. Está sendo transmitida ao vivo.
COMO ASSIM???

Demos um golpe em você, seu filho da puta arrombado do caralho.

Nada contra os paulistanos, tenho até amigos que são

ou O São João é, sim, do Nordeste, Marcos Nogueira

Saber ler, às vezes, é um portal para aborrecimentos e decepções, e talvez por isso eu tenha me afastado um tanto dos veículos de notícias.

Há muitos anos que abrir um site de notícias é garantia de tristeza e indignação. A bem da verdade, para sentir tristeza e indignação basta estar vivo, mas o que antes era dependente do boca a boca e de jornais e veículos impressos, televisivos ou radiofônicos, a internet popularizou ainda mais, de tal forma que, mesmo fazendo esforços para evitar, é quase impossível não saber de assuntos tristes e/ou acontecimentos revoltantes ao entrar em qualquer rede social ou acessar qualquer portal de notícias.

Agora há pouco, por exemplo, entrei no site do jornal Folha de São Paulo. Antes um hábito diário – assim como o de acessar, também, os sites dos jornais O Globo e O Estado de São Paulo -, hoje é uma ação que luto todos os dias para não fazer todos os dias (a repetição foi proposital). Os inúmeros desastres naturais, políticos, sociais, econômicos e de caráter, entre outros (inclusive pessoais), dos últimos anos me obrigaram a fazer uma escolha entre conhecimento e saúde mental. Na impossibilidade de me recuperar plenamente de uma depressão, escolhi pouco me informar, depois de anos e anos consumindo informação ferozmente. Mas tergiverso. Voltemos ao site da Folha.

Agora há pouco acessei o site da Folha. Li diversas manchetes, e algumas me chamaram a atenção, mas uma delas fez mais que isso. Uma delas me causou espécie. Ei-la: “Nordeste não é dono da festa de São João”, título de um artigo escrito por um tal de Marcos Nogueira.

Falou em Nordeste, tem minha atenção. Tentou dar uma aula ao Nordeste, tem minha reprovação, principalmente se a pretensa aula vier de um sudestino. Longe de mim ser xenófobo ou jogar lenha na já flamejante fogueira da rivalidade, por assim dizer, entre Sudeste e Nordeste, mas, farto que estou de tanto preconceito vindo de lá para cá, às vezes chuto o balde e dou uma carteirada em sudestinos que merecem.

É o caso de Marcos Nogueira. Foi com muito desgosto que li seu suposto artigo, ou coluna, ou opinião. Não bastasse se assumir, como que por orgulho, paulistano – mas tudo bem, eu respeito, tenho até amigos que são -, Nogueira tenta ensinar, em seu texto, que as festas juninas não são uma invenção do Nordeste, e que as festas caipiras paulistas existem há tanto tempo quanto existe a tradição nordestina de comemorar o São João.

Ora, Marcos, por favor. Antes de mais nada, lave suas mãos antes de escrever sobre o Nordeste. Você diz que “um pessoalzinho exaltado”, membros de um – também palavras suas – “certo estrato da juventude nordestina”, se arvora para reivindicar a originalidade de nomes de comidas típicas do São João e da própria gênese dos festejos. Mas, novamente, tergiverso. Eu dizia “ora, Marcos”.

Ora, Marcos, por favor. Não pense você que seu preconceito contra os nordestinos, ainda que inconsciente (vou te dar essa colher de chá, até porque não te conheço), não tenha ficado explicitamente implícito em seu “artigo”. “Na posição de paulistano com alguma noção”, você diz, “entendo e relevo a antipatia que o resto do Brasil tem por nós.” Você entende mesmo, Marcos? “Na posição de paulistano”? Você “releva”, Marcos? Nós, nordestinos, devemos te agradecer por você relevar a nossa “antipatia” por “vocês”? Quanta nobreza, Marcos!

Antes de prosseguir para o desfecho deste texto, peço desculpas ao leitor – menos se você, leitor, for o próprio Marcos Nogueira – pela demasiada ironia do parágrafo anterior, mas ela era necessária (mentira, não era, mas eu quis que fosse).

Eu dizia que dizia “ora, Marcos”, tergiversei mais uma vez, com a adição de uma boa dose de ironia, e perdi novamente o foco. Mas, sigamos. O que eu queria dizer, na verdade, era o seguinte: independente do que escreve Marcos Nogueira, do que ele releve ou do que ele pense, os festejos juninos no Brasil nasceram, sim, no Nordeste, trazidos da Europa pelos portugueses no século XVI. É só “dar um Google”. O século XVI, talvez o Marcos não lembre, começou em 1501 e terminou em 1600. E a invasão portuguesa ao Brasil, talvez o Marcos também não lembre, data de 1500 e teve seu início pelo Nordeste. Não precisa ser muito inteligente para ligar os pontos. Por mais que, com o tempo, os festejos tenham se espalhado pelo nosso país, eles nasceram aqui. O Brasil nasceu aqui, no Nordeste. Não gostou? Morda os cotovelos.

É isso. Já chega. Este texto termina sem um desfecho digno de ser chamado de conclusão, porque já perdi tempo demais rebatendo uma bobagem – mais uma! – escrita por um paulistano. Mas, repito, nada contra os paulistanos, tenho até amigos que são.

Now and Then – A última música dos Beatles

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Foi divulgada hoje nas plataformas musicais de streaming a música “Now and Then”, dos Beatles. Um clipe dela será divulgado amanhã, dia 03/11.

Vale muito a pena ler o texto que Marcelo Orozco, colunista do Gizmodo, escreveu sobre a canção e sobre as várias ocasiões em que os Beatles inovaram na música usando métodos nada ortodoxos nas gravações e composições.

Sobre “Now and Then”, em resumo, aconteceu o seguinte: em 1994, Yoko Ono, viúva de John Lennon, entregou a Paul McCartney uma fita com três músicas do beatle assassinado por um fã maníaco em 1980. Duas dessas canções foram recuperadas, tiveram instrumentos dos integrantes remanescentes adicionados e foram lançadas no início da década de 1990. O mesmo não pôde ser feito com uma terceira música, intitulada “Now and Then” por uma razão que não vou expôr aqui pois acho que o texto do Marcelo deve ser lido pelo maior número possível de admiradores da banda – e por quem gosta de música e de boas histórias.

Sem tecnologia suficiente para recuperar e adicionar instrumentos em “Now and Then”, Paul, George e Ringo arquivaram a canção. Recentemente, com a ajuda de inteligência artificial, finalmente ela pôde ser “gravada” e lançada pelos dois Beatles vivos, Paul e Ringo.

“Now and Then” tem uma letra comovente que fala sobre o quanto o eu lírico ama alguém, e o quanto esse amor o move. Seu belíssimo arranjo faz lembrar, anacronicamente, alguns trabalhos do Oasis – na verdade, até a voz do John lembra a do Liam Gallagher, vocalista principal do Oasis. Nada surpreendente, uma vez que os Beatles foram uma das maiores influências dos irmãos Gallagher. Mas, apesar das semelhanças, há duas coisas impossíveis de serem confundidas: uma é a voz de John Lennon, cuja suavidade a voz de Liam não tem (por mais que às vezes ele tente); a outra é a guitarra de George Harrison. Há um determinado momento da participação de George que me fez lembrar da estupenda “While my guitar gently weeps”, do “Álbum Branco”.

Quis o destino que “Now and Then” fosse o fecho da carreira dos Beatles. A última canção dos Beatles representa tanto o legado da banda quanto a filosofia de vida de seus integrantes, que, ali pelo fim dos anos 1960 e início dos anos 1970, adotaram o lema “paz e amor”. Menos importante, e por último, é também mais uma prova de que, se usada para o bem, a inteligência artificial pode ser muito útil.

Uma curiosidade: a saga de “Now and Then” me fez lembrar do filme “Inteligência artificial”, que tem origem numa ideia do Stanley Kubrick que não foi levada a termo e que ele deixou, em 1995, para Steven Spielberg dar prosseguimento quando houvesse tecnologia para tanto. Foi por pouco que Kubrick não viu sua ideia nas telas: ele morreu em 1999, o filme foi lançado em 2001.

Outra curiosidade: há uma versão de “Now and Then”, com letra ligeiramente diferente, cantada por um certo Claus Nielsen, gravada em 2017 para um tributo a John Lennon. Tentei encontrar mais detalhes sobre o cantor, o disco e a gravação, mas não consegui. Estranho, não?

Pra finalizar, um merchan: em 2012 foi lançado “O livro branco – 19 contos inspirados em músicas dos Beatles + bonus track“, pela editora Record. O livro traz um conto meu, “Amor incondicional”, inspirado pela música “Don’t let me down”. É uma excelente pedida para quem gosta de música e literatura.

A Folha sabota o país

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(Capa do jornal Folha de São Paulo em 31 de março de 1970.)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Partido dos Trabalhadores) tem trabalhado para reverter os estragos causados pela gestão federal anterior. Ocupa-se de dialogar com inúmeros líderes estrangeiros para mostrar que o Brasil voltou a ter um governo responsável, pacífico, democrático e republicano em todos os aspectos. Além disso, tem dialogado com opositores tanto do executivo (prefeitos e governadores) quanto do legislativo (deputados federais e senadores).

Lula talvez não imaginasse que a imprensa brasileira, tão atacada, inclusive fisicamente, pela gestão anterior, seria tão mesquinha a ponto de fazer críticas injustas e desproporcionais a ele mesmo e ao seu governo com um todo.

À guisa de exemplo: a Folha de São Paulo, que sempre foi contida com o ex-presidente, a quem demorou de se referir como sendo de extrema-direita, contribuiu para a normalização de comportamentos reprováveis e repugnantes do ex-mandatário, de seus asseclas e de parte considerável de seus eleitores, que, ao longo dos últimos 5 anos, vêm perturbando o país.

Em resumo, a Folha alega que Lula tem dado muitas declarações despropositadas. O mais recente despropósito, de acordo com o último editorial da Folha (de 28/10/2023), foi o presidente afirmar que “sua gestão não chegará à meta de déficit primário zero em 2024 (…) pois não haverá cortes ‘em investimentos e obras’”.

Para reforçar o total descolamento com a realidade e o desconhecimento da situação do Brasil e de seu povo, a Folha cita como exemplo de despropósito a seguinte frase proferida pelo presidente Lula: “o mercado é ganancioso demais e fica cobrando uma meta que eles sabem que não vai ser cumprida”.

Trata-se de uma demonstração cristalina do chilique da classe A+ tupiniquim. Afirmar que a meta de déficit zero não será cumprida e que não haverá cortes em investimentos e obras não significa desconhecimento do problema por parte do presidente. É rigorosamente o contrário: por ter consciência dos problemas do Brasil e da vulnerabilidade em que se encontra parcela considerável da população brasileira é que o presidente Lula faz esse tipo de declaração.

Enquanto isso, os grandes empresários e os conglomerados de comunicação, indiferentes ao destino do país e certamente despreocupados com os menos favorecidos, têm combatido as medidas do governo que visam aumentar as receitas dos cofres públicos.

Colocam, ou pretendem colocar, na conta federal a culpa pelo desarranjo em que ainda estão, por mais esforços que o atual governo esteja fazendo, as contas públicas. Fingem esquecer os sete anos anteriores, período em que sistematicamente contribuíram com a pavimentação de um soft coup e com a ascensão de um líder que representa o (neo)fascismo.

O editorialista da Folha parece se comportar como uma criança birrenta que foi derrotada em uma partida de Fifa e perdeu a sua vez. Como resposta, ele tira videogame da tomada, para que ninguém mais possa jogar. Ademais, mesmo supostamente lidando diariamente com notícias, ainda não parece ter familiaridade com a realidade do país em que vive. Um país cujos principais jornais, há não muito tempo, noticiaram haver pessoas revirando lixos em busca de comida.

De fato, fazer com que cidadãos nascidos em berço de ouro se importem com quem não tem emprego, casa ou segurança alimentar talvez seja pedir demais. Mas, quando esse alguém é o editorialista de um dos principais jornais de um país, temos um grande problema.

Que fique claro: a Folha não está cumprindo o seu próprio moto, que diz estar “a serviço do Brasil”. Na verdade, ela está sabotando o país. E isso, além de danoso, é incompreensível.

*Existem, no texto, algumas passagens exatamente iguais à do editorial da Folha. Não se trata de plágio, obviamente, mas de galhofa.

O encontro marcado: 50 anos

*** Texto publicado originalmente no site Digestivo Cultural em outubro de 2006. ***

Fernando,

Passei dias pensando em como iniciar esta carta. É de extrema audácia escrevê-lo, pela pessoa que é e pelo que representa para a nossa literatura. E é no mínimo ambicioso esperar uma resposta. Sendo assim admito: sou audacioso e ambicioso. Fico feliz em ver estas linhas escritas, e melhor, as palavras fluindo naturalmente.

Acho que fiquei inspirado ao iniciar a leitura de Cartas a um jovem escritor, no volume três de sua Obra Reunida, o qual tomei emprestado da biblioteca da faculdade. Isso me faz lembrar um detalhe: ainda não me apresentei.

Meu nome é Rafael, tenho 19 anos e estou cursando Licenciatura em Letras Vernáculas na Universidade Estadual de Feira de Santana. Para lhe ser sincero, não me recordo do primeiro contato com alguma obra sua. Quero dizer, a forma como se deu esse contato. A obra me lembro muito bem: A volta por cima, que rapidamente li, em uma tarde. Gosto muito de crônicas, ainda mais quando elas passam uma mensagem positiva e são bem-humoradas, como as suas. A partir de então, tenho lido livros seus um atrás do outro. Os romances O menino no espelho, O grande mentecapto e O encontro marcado. Algumas novelas suas (6 delas), e vários livros de crônicas e histórias (7 por enquanto). E ainda vem mais por aí. Definitivamente, tornei-me seu fã.

O senhor deve estar se perguntando: “o que é que esse cara está querendo?” Bem, talvez não esteja, mas mesmo assim, responderei a pergunta acima.

Em primeiro lugar, escrevo com a intenção de demonstrar minha profunda admiração pela sua obra e pela sua pessoa. Tenho aprendido bastante com seus textos. Percebi afinal que no fim dá certo. Se não deu, é porque não chegou ao fim. Também escrevo com a intenção de ter notícias suas, afinal, escritores no Brasil não costumam ser alvo de curiosidade e pouco dão as caras na mídia. Espero que esteja tudo bem com o senhor.(*)

ImageOs parágrafos acima fazem parte da primeira carta que enviei ao escritor Fernando Sabino. Isso foi em janeiro de 2003.

Um dos maiores escritores de nossa literatura (o maior, para mim), Fernando Sabino exerceu, e continua exercendo sobre mim, uma influência muito forte.

Em alguma manhã de 2002, encontrei em uma das estantes da biblioteca da UEFS, um exemplar do livro “A volta por cima”, de crônicas. Lembro que li o livro naquela mesma tarde, como escrito está na carta. A partir daquele dia, tentei ler todas as obras de Fernando Sabino disponíveis na biblioteca. Hoje me orgulho de poder apontar quais livros do escritor mineiro eu não li. Apesar de admitir que preciso reler muita coisa. As leituras que fiz, naquela época, foram as de um jovem deslumbrado, que acabara de redescobrir a paixão pela literatura, no ginásio perdida.

Mas uma dessas leituras fora especial. Me refiro ao romance “O encontro marcado” (Record, 2006, 288 págs.), que completa, neste mês de outubro, 50 anos de publicado, e acaba de ganhar uma edição especial comemorativa. (**)

Considerado por muitos como a obra-prima de Fernando Sabino, “O encontro marcado” é um romance como poucos. Por quê? Responderei fazendo algumas perguntas.

Um clássico literário, uma obra-prima, é: um livro bem escrito que – caindo naquele velho clichê – faz uma análise da condição humana? Que é um divisor de águas na carreira do escritor e na própria literatura produzida em seu país, na época em que publicado? Um livro que é capaz de abalar o leitor a tal ponto de ele mudar sua maneira de ser e de ver o mundo?

Tratando-se de “O encontro marcado”, a resposta para todas as perguntas acima é “sim”.

É quase impossível passar ileso por sua leitura. Eduardo Marciano, o protagonista do romance, pode ser qualquer um de nós. Qualquer um de nós pode se identificar com Eduardo Marciano. E muita gente gostaria de ser o próprio. Principalmente jovens aspirantes a escritor. Até porque o protagonista é um.

Mas Eduardo Marciano não é só isso. Ele é o menino que cria uma galinha, a Eduarda. Ele é o jovem campeão de natação que busca no esporte uma via de escape para os seus conflitos. Jovem esse que cedo se casa e logo se vê preso a uma relação que em pouco tempo resulta em fracasso. Um homem que quer ser escritor mas não tem coragem (ou teria ele medo?; há uma grande diferença entre uma coisa e outra…) de começar a escrever um livro. Ele não sabe ao certo o que procura ou onde quer chegar. A vida o empurra depressa demais e o coloca frente ao inevitável. Era o seu destino. Como diz o personagem em algumas oportunidades: ele não escolheu, fora escolhido.

Conflitos de toda uma geração. E de gerações seguintes. Eduardo Marciano é, ao mesmo tempo, Fernando Sabino (pois muito do personagem se confunde com a vida do autor) e, também, toda a juventude da década de quarenta, época em que se passa a história.

“Em ‘O encontro marcado’ pretendi deliberadamente usar minha vida como tema. Foi escrito num momento decisivo para mim. (…) Não teria condições de sobrevivência se não escrevesse sobre o que havia vivido até aquele momento”. (***)

Fernando terminou de escrever o romance em julho de 1956, poucos meses antes de completar trinta e três anos.

“Ao todo, levei dois anos para terminá-lo. Tive de reescrever tudo três vezes. Enveredei por vários atalhos sem saída, escrevi 1300 páginas para aproveitar só 320. Ao fim, posso dizer que meu irmão espiritual Eduardo Marciano me proporcionou, ainda que breve, um encontro comigo mesmo”.***

Quando li “O encontro marcado” pela primeira vez eu tinha dezenove anos. Desde então, todo ano leio trechos do livro. De lá para cá, duas foram as releituras completas. E não tenho vergonha de dizer: choro em todas elas. É como se o livro fosse uma fonte de energia para mim. Sem ele, não conseguiria avançar os anos, nem perseguir meus objetivos.

Porque eu também puxo uma angústia.
Porque eu também tenho pressa de viver.
Porque eu também sei que preciso, sempre, recomeçar.

“Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro”. (****)

* Relendo a carta, percebi uma série de erros. Como o texto foi enviado a Fernando Sabino com os tais erros, mantive o texto tal qual ele leu.

** A edição comemorativa de “O encontro marcado” vem com fotos do álbum de família do escritor, um selo especial na capa e depoimentos de leitores sobre a importância que teve o livro em suas vidas. Um dos leitores é este que vos escreve.

*** Trechos de O tabuleiro de damas, um esboço de autobiografia, segundo o próprio Sabino.

**** Trecho de “O encontro marcado”.

Eu recomendo: “O encontro marcado”, de Fernando Sabino

Em dezembro de 2011 recebi, por e-mail, um convite irrecusável: inaugurar uma nova seção do jornal Rascunho chamada “Eu recomendo”, em que leitores e escritores recomendariam, como dá a entender o nome do espaço, uma obra literária.

Apesar de ter que enviar três títulos de livros para o jornal fazer um filtro, com o objetivo de evitar que o livro recomendado fosse também resenhado na mesma edição, eu queria mesmo era recomendar “O encontro marcado”, romance do escritor Fernando Sabino. O texto, publicado na edição de janeiro de 2012, e reproduzido abaixo, é curto, mas dá uma ideia do porquê esse livro é tão importante para mim e por que recomendo a sua leitura.

No dia 12 de outubro comemoraremos os 100 anos do nascimento de Fernando Sabino. Tenho, com Sabino, uma dívida eterna, e divulgar a sua obra foi a maneira que encontrei de tentar minimamente pagá-la.

Image“O encontro marcado”, romance do escritor mineiro Fernando Sabino (1923-2004), possui algumas das características indispensáveis para um bom livro, além do enredo cativante, como
o bom humor e a leveza do texto, que não deixa a leitura se tornar cansativa.

Mas não é apenas por isso que “O encontro marcado” é reconhecido por muitos leitores,
escritores e críticos como um dos principais romances de nossa literatura entre os escritos no
século passado – eu diria até de todos os tempos, e não me restringiria apenas à literatura
brasileira, mas talvez isso seja exagero de um fã apaixonado.

“O encontro marcado” é o que é porque, como críticos da época em que foi lançado (1956)
declararam, ele é o romance de uma geração, a da década de 1940; e, como críticos da
atualidade volta e meia dizem, é também o romance de outras gerações que vieram depois.

Costumo dizer que “O encontro marcado” é minha “Bíblia”, porque mudou completamente a
maneira como vejo o mundo. E é por isso que recomendo veementemente a sua leitura.

O encontro marcado, de Fernando Sabino

*** Republicada aqui com alterações e correções, a matéria abaixo, de minha autoria, foi publicada originalmente na edição de outubro de 2013 do jornal Cândido ***

Retrato de uma época – e da juventude mineira da década de 1940 – e sensível às angústias e anseios juvenis de gerações subsequentes, “O encontro marcado” não envelhece

ImageQuando começou a escrever “O encontro marcado”, romance considerado por muitos leitores, escritores e críticos literários como a obra-prima de Fernando Sabino, o escritor mineiro, nascido em Belo Horizonte em 12 de outubro de 1923, estava com 30 anos de idade. Àquela altura, Fernando já havia publicado quatro obras de ficção: o volume de contos “Os grilos não cantam mais”, de 1941, quando o autor tinha 17 anos; “A marca”, novela publicada em 1944; “A cidade vazia”, volume de crônicas sobre Nova York, onde Fernando morou entre 1944 e 1946; e “A vida real”, reunião de novelas, de 1952.

Não se pretende argumentar, com esse preâmbulo, apenas que “O encontro marcado” é obra de um escritor consolidado. É também um romance escrito por um homem que, apesar de jovem, era muito experiente. No volume sobre Fernando Sabino da série de livros “Perfis do Rio”, Arnaldo Bloch diz que “Quando os 20 anos batem à porta, Fernando se vê atado às responsabilidades de um homem de 30: casado, esperando o primeiro filho num Rio [de Janeiro, para onde se mudara em 1944, antes de partir para NY] inebriante, com dois livros publicados e emprego de responsabilidade: titular de um cartório, presente de Getúlio [Vargas], a quem acaba agradecendo [a contragosto, pois Fernando era antigetulista] pessoalmente o rentável afago oficial”. O motivo do presente: Fernando foi casado com a filha de Benedito Valadares, governador de Minas Gerais entre 1933 a 1945, aliado e amigo de Getúlio.

Aos 30, quando iniciou a escrita de “O encontro marcado”, a situação era completamente diferente. Fernando havia se separado da esposa, tinha abdicado do cartório e estava vivendo sozinho. Sobre esse momento, ele próprio revela, em entrevista à escritora Edla Van Steen (“Viver & Escrever – V.2”, L&PM) que “estava diante de um impasse, meus valores ruíam, o casamento, a família e todas as instituições em que acreditava até então eram postas em xeque. Em vez de partir para o tom confessional, apenas autobiográfico, optei pelo romance, porque deixava em liberdade a imaginação, para poder jogar com a realidade, alterá-la, recriá-la à minha maneira”.

E foi exatamente o que Sabino fez. Utilizando-se deliberadamente de sua própria vida, dando destaque ao período entre o início da década de 1940 até os primeiros três anos da década de 50, o escritor mineiro escreveu o livro que ficou conhecido, desde o seu lançamento, como o romance de uma geração. Para tanto, Sabino seguiu um conselho de Mário de Andrade. Em carta enviada a Fernando em 1945, Mário diz, à guisa de orientação para o romance do pupilo: “não economize nada, gaste tudo, jogue todas as suas cartas na mesa e não blefe. E si o livro não sair bom, diga: perdi. E comece outra partida”. Deu certo.

Atualmente, “O encontro marcado” está em sua 93ª edição, tendo vendido, desde 1977 – ano em que o livro passou a ser editado pelo selo Record – mais de 500 mil exemplares. Desde quando foi publicado, no fim de 1956, pela editora Civilização Brasileira, até sua mudança para a Record, estima-se que o romance tenha vendido cerca de 50 mil exemplares.

É importante destacar que a primeira edição de “O encontro marcado”, de 3 mil exemplares, foi toda vendida em apenas 2 meses, segundo o jornalista José Carlos Oliveira, em texto publicado na edição do Jornal do Brasil de 5 de janeiro de 1958. Sobre o livro, Oliveira declarou que “O encontro…” era “um bom romance de um… existencialista sartriano, de uma alma perdida, empírica, incrédula, cheia de náusea e sem fé de espécie alguma”. Aqui, vale um parêntese: esse último pedaço do comentário de José Carlos Oliveira chega a ser curioso, sabendo-se que Fernando Sabino era um católico convicto.

Sucesso de público

ImageAté dez, quinze anos atrás, qual autor brasileiro poderia vangloriar-se de vender 3 mil exemplares de um romance em dois meses? Atingir esse número num país que, no censo demográfico realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2000, tinha aproximadamente 170 milhões de habitantes, e cuja população lê, em média, 4 livros por ano (segundo pesquisa do Instituto Pró-Livro divulgada em 2012), é um grande feito. Hoje, com o mercado editorial aquecido devido à ascensão de milhares de brasileiros à classe C – parafraseando uma música do grupo de rock Titãs, as pessoas não querem só comida, mas também diversão e arte – e com o Brasil beirando os 200 milhões de habitantes (de acordo com o último censo, realizado em 2010), já não é um assombro uma tiragem de alguns mil exemplares ser vendida em tão pouco tempo. Mas estamos falando de 1956, quando o país não tinha ainda 70 milhões de habitantes, número que seria alcançado no fim da década de 1950.

Nascido em 1924, o escritor e jornalista Wilson Figueiredo, que foi amigo do quarteto conhecido como “Os quatro mineiros do apocalipse”, grupo formado por Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, acredita que “O encontro marcado” foi tão rapidamente consumido por causa do elemento geracional que a obra carrega: “Naquela época, os amigos faziam um oba-oba dos livros uns dos outros, é verdade, mas ‘O encontro marcado’ foi publicado após o mundo ter passado por um choque muito grande, que foi a Segunda Guerra. O livro fez todo esse sucesso devido à sua qualidade e ao resgate de uma realidade vivida por muitos de nós. Fernando tinha um espírito de repórter, então o livro acaba sendo também um retrato daquela Belo Horizonte dos anos 40”.

Humberto Werneck, escritor e jornalista mineiro, é da geração seguinte (ele nasceu em 1945), e tem uma opinião semelhante à de Figueiredo: “Para mim e para alguns outros jovens escritores da minha geração, o grupo formado por Fernando, Paulo, Otto e Hélio foi uma referência muito forte, e não apenas literária. ‘O encontro marcado’, do Fernando, não era só um texto no qual podíamos aprender truques narrativos, e mesmo, no nosso verdor, imitar escancaradamente. A gente sabia que ali estava a história de quatro talentosos conterrâneos nossos que brilhavam nacionalmente. A certa altura, na adolescência, eu queria ser um deles, num Rio de Janeiro que sempre me fascinou, longe da pasmaceira e do moralismo da vida belo-horizontina de então”.

E por que o romance continua atingindo um público tão grande até hoje? Wilson Figueiredo responde: “O livro sobrevive porque toda juventude tem a mente muito parecida com a dos protagonistas. É aquela coisa da autenticidade que tem o livro, do encanto da juventude, da descoberta da vida que acontece nessa época de nossas vidas. E ele não se esgota, porque é o retrato de uma época, da juventude de uma época”.

Algo parecido disse a escritora e jornalista Eneida Vilas Boas Costa Moraes, que assinou durante mais de vinte anos, apenas com o nome “Eneida”, a coluna “Encontro Matinal”, no jornal carioca “Diário de Notícias” (edição de 20 de dezembro de 1956): “(…) história de um jovem em desesperada busca de si mesmo, como diz a lombada, ‘O encontro marcado’ é também a história de uma geração angustiada, vítima das mais tristes determinantes históricas e sociais, geração vítima de duas grandes guerras, de tremendos choques, de incompreensões, de tantos descalabros”.

Criador x Criatura

ImageEm seu esboço autobiográfico, como costumava se referir ao livro “O tabuleiro de damas”, Fernando Sabino disse que “Num levantamento da minha vida literária, vejo nela que não tenho feito outra coisa senão me revelar, me expor, contar aquilo que vivi, testemunhei, pensei, aconteceu e chegou ao meu conhecimento – sempre através da mais torturante maneira de recriar a realidade”.

É possível, portanto, traçar alguns paralelos entre Eduardo Marciano, protagonista do romance, e Fernando Sabino, seu criador. O primeiro queria ser escritor, assim como o ainda garoto Fernando; ambos tiveram contos premiados antes de chegarem à adolescência; no livro, Marciano namora e se casa com a filha de um ministro, na vida real, como dito acima, Sabino foi casado com a filha de Benedito Valadares; além disso, Marciano e Sabino eram grandes nadadores, e ambos tiveram os casamentos desfeitos.

Mas Fernando não gostava de ver os personagens e acontecimentos de “O encontro marcado” enquadrados nos fatos de sua vida e nas pessoas que o cercavam. Até porque, assim como há semelhanças, há muitas diferenças entre o personagem e seu criador. Eduardo é filho único, Fernando tinha irmãos. Eduardo não teve filhos, já Fernando teve – só com a primeira esposa, foram quatro.

Ainda em “O tabuleiro de damas”, Fernando Sabino explica essa espécie de amálgama que ele fazia com a ficção e a vida real:

“Numa de minhas novelas [“Martíni seco”, publicada no livro “A faca de dois gumes”], um escrivão está jogando damas com um comissário de polícia e pergunta se o tabuleiro é preto com quadrados brancos ou branco com quadrados pretos. O comissário diz que é branco com quadrados pretos. O escrivão, raposa velha da polícia, diz que não.

– Então é preto com quadrados brancos.

E o escrivão:

– Também não. É de outra cor, com quadrados pretos e brancos.

Com isso eu quis sugerir que, por baixo da realidade que se apresenta aos nossos olhos, existe outra que é a verdade.

Esta verdade, de certa maneira, pretendo alcançar com o que escrevo.”

E assim pode ser definido “O encontro marcado”: uma ficção que tem, por baixo dela, algumas verdades. Verdades essas que, no fim das contas, não importam muito. Livro impactante e vigoroso como poucos – e que, sem exagero algum, pode ser considerado o maior romance geracional da literatura brasileira –, “O encontro marcado” é muito maior do que todos esses detalhes.