O Jardim do Éden – Ernest Hemingway

Tradução: Roberto Muggiati
Editora: Bertrand Brasil

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O Jardim do Éden, de Ernest Hemingway, é um dos livros mais intrigantes e menos óbvios que já li do autor, este romance foge da imagem clássica do autor associada à guerra, à bravura e à masculinidade rígida, para explorar territórios mais íntimos, ambíguos e psicológicos.

Aqui acompanhamos a história de David Bourne, um jovem escritor, e sua esposa Catherine durante uma longa lua de mel pelo sul da França e pela Espanha. O cenário é luminoso, quase idílico, mas serve apenas como pano de fundo para uma relação que se torna progressivamente complexa. Catherine propõe jogos de identidade, mudanças de aparência e inversões de papéis que desafiam convenções de gênero e colocam o casal em um delicado equilíbrio entre desejo, amor, poder e criação artística.

O grande mérito do livro está no que ele sugere mais do que no que afirma. Hemingway mantém sua escrita contida, direta e econômica, mas carrega o texto de tensões silenciosas. Pequenos gestos, diálogos aparentemente simples e cenas cotidianas revelam conflitos profundos. O amor, aqui, não é idealizado: ele é instável, provocador e, muitas vezes, destrutivo.

Outro eixo central da obra é a relação entre vida emocional e processo criativo. David só consegue escrever quando encontra uma certa ordem interna, enquanto o relacionamento com Catherine caminha na direção oposta, mergulhando no excesso e na instabilidade. Essa oposição transforma o romance em uma reflexão sobre os limites entre inspiração e autossabotagem, intimidade e perda de identidade.

O Jardim do Éden é um livro fragmentado, resultado das muitas versões deixadas por Hemingway.além disso, publicado postumamanete. Essa fragmentação acaba reforçando sua força. A sensação de incompletude dialoga com os próprios temas do romance: personagens em busca de si mesmos, relações que se desfazem enquanto tentam se reinventar, verdades que nunca se apresentam por inteiro. Apesar de eu ter achado a Catherine extremamente mimada e David, passivo demais diante das vontades da esposa.

Não é uma leitura confortável, nem imediata. Mas é justamente aí que reside seu impacto. Para leitores que desejam conhecer um Hemingway mais introspectivo, ousado e disposto a questionar normas sociais e emocionais, O Jardim do Éden se revela uma obra surpreendente, delicada e profundamente humana.

Frases:

“Se eu não o amasse por nenhum outro motivo, eu o amaria por suas decisões”

“Todos temos coisas estranhas que significam algo para nós”.

“Quando você começa a viver fora de si mesmo, tudo é muito perigoso”.

“Felicidade entre pessoas inteligentes é a coisa mais rara de se ver”

“Perdera a capacidade de sofrimento pessoal ou pensou tê-la perdido, e só ficava magoado de verdade com o que acontecia aos outros. Acreditava nisso, erroneamente, é claro, já que não sabia então como as capacidades de uma pessoa podem mudar, nem como os outros podiam mudar, e esse era um pensamento confortável.”

“Tinha só uma tristeza que vinha do próprio cansaço, o que lhe dera uma compreensão de adulto.”

A pintora de henna – Alka Joshi

Tradução: Cecília Camargo Bertalotti
Editora: Verus

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Em A Pintora de Henna, Alka Joshi nos convida a atravessar as ruas cor-de-rosa de Jaipur, na Índia dos anos 1950, para conhecer uma mulher que insiste em existir por conta própria em um mundo que prefere decidir por ela. Lakshmi não é apenas a protagonista do romance, ela é o próprio gesto de resistência que o livro desenha, camada por camada, como os delicados arabescos de henna que cria na pele de outras mulheres. Muitas vezes veste uma carapaça como defesa: da sociedade, mas principalmente, por seus sentimentos. Não é fácil abandonar o passado, mesmo sendo doloroso.

Fugindo de um casamento abusivo, Lakshmi constrói sua independência como artista da henna e curandeira, conquistando espaço em uma sociedade rigidamente patriarcal. Seu talento a coloca em contato com mulheres da elite, guardiãs de segredos, frustrações e desejos que jamais seriam ditos em voz alta. Cada desenho que ela traça carrega histórias silenciosas, e é nesse jogo entre o visível e o oculto que o romance encontra sua maior força.

Alka Joshi escreve com sensibilidade e inteligência, usando a henna não apenas como elemento cultural, mas como metáfora poderosa: assim como os desenhos na pele, as escolhas de Lakshmi deixam marcas profundas, algumas belas, outras dolorosas, mas todas permanentes à sua maneira. O passado da protagonista insiste em reaparecer, especialmente quando sua irmã mais nova, Radha, surge de forma inesperada, trazendo à tona dilemas morais, afetivos e sociais que desafiam tudo o que Lakshmi construiu.

Mais do que uma narrativa sobre tradição e emancipação feminina, este livro é um romance sobre pertencimento, culpa e liberdade. Joshi não romantiza a luta da protagonista, tampouco oferece soluções fáceis. Em vez disso, apresenta uma mulher complexa, falha e profundamente humana, tentando equilibrar sobrevivência, ética e afeto em um contexto que raramente permite escolhas simples.

Leitura envolvente e visual, o livro seduz tanto pelo enredo quanto pela ambientação rica em aromas, cores e rituais. É uma obra que fala de mulheres, mas não apenas para mulheres; fala de coragem, mas sem heroísmo exagerado; fala de arte, não como ornamento, mas como ferramenta de transformação.

Ao final, A Pintora de Henna permanece no leitor como os próprios desenhos que inspira: mesmo quando começam a desbotar, continuam ali, lembrando que toda história, quando bem contada, deixa marcas difíceis de apagar.

Recomendo a leitura!

Vale lembrar que este livro é o primeiro de uma trilogia, que se segue: O guardião de segredos de Jaipur e  A perfumista de Paris.

Os nomes – Florence Knapp

Tradução: Juliana Romeiro

Editora: Record e TAG

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Em Os Nomes, Florence Knapp constrói uma narrativa delicada e profundamente humana sobre identidade, pertencimento e as marcas invisíveis que carregamos ao longo da vida. Com uma escrita sensível e ao mesmo tempo precisa, a autora transforma algo aparentemente simples como o nome, em um poderoso símbolo de memória, herança e conflito interior.

A obra parte da ideia de que os nomes não são meros rótulos, mas histórias condensadas. Cada nome guarda expectativas, afetos, traumas e silêncios, mas principalmente, podem replicar o temperamento e a personalidade, como uma herança, no caso de filhos com nomes de seus ascendentes. A história se envereda nesse caminho, somos conduzidos por uma trama intimista, na qual personagens lidam com o peso de seus próprios nomes e com aquilo que eles representam: laços familiares, escolhas impostas, identidades herdadas e, por vezes, rejeitadas.

A narrativa se destaca pela sutileza. Não há excessos dramáticos, mas sim uma construção emocional gradual, que se apoia em gestos cotidianos, lembranças fragmentadas e diálogos carregados de subtexto. Não é fácil tratar de violência doméstica sem tocar em pontos sensíveis e despertar gatilhos. Knapp demonstra grande habilidade ao explorar a psicologia dos personagens, permitindo que a gente se reconheça em suas dúvidas, fragilidades e tentativas de reinvenção.

Outro ponto forte do livro é a forma como Florence Knapp aborda o tema da linguagem. O nome, enquanto palavra, torna-se um território de disputa entre quem somos, quem esperam que sejamos e quem desejamos nos tornar. Essa reflexão confere ao livro uma dimensão quase filosófica, sem jamais perder a acessibilidade ou o envolvimento narrativo.

Com uma prosa elegante e contemplativa, Os Nomes é uma leitura que convida à introspecção. Ao final, o leitor se vê questionando não apenas os nomes dos personagens, mas também o próprio, o que ele carrega, o que silencia e o que revela. Trata-se de um romance sensível e profundo, que confirma Florence Knapp como uma autora atenta às complexidades da experiência humana.

Recomendo fortemente!

Frases do livro:

“Liberdade talvez seja só escolher a vida que você quer.”

Nos filmes, parece que o amor está escondido nas pétalas de rosas vermelhas e na vista da Torre Eiffel, mas é um alívio encontrá-lo ali, sentados um ao lado do outro, numa estufa de vidro abafada em Willesden, aninhados no cheiro forte de adubo e nos primeiros frutos verdes brotando na videira.”

“Existe um poder sutil em abandonar a luta”.

Leituras 2025

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Este foi um ano de boas leituras e quis me aventurar em “sagas”, algumas, herança de 2024. Livros com continuação nunca foram minha escolha, assim como filmes, porque ao longo do caminho o autor acaba se perdendo, assim como o meu interesse, exceto algumas franquias, claro, por exemplo: Harry Potter.

As minhas leituras não seguiram critérios, li conforme a minha vontade e me aventurei com autores e estilos que não estiveram nas minhas preferências ultimamente. Ativei a minha assinatura com a TAG livros Inéditos e gostei da maioria dos livros que recebi. Enfim, cultivei o hábito da leitura nos intervalos do trabalho, horário de almoço e preenchi alguns momentos ociosos deste ano difícil.

Das sagas que comecei, destaco aqui a tetralogia napolitana de Elena Ferrante, a série acompanha a vida de duas amigas, Elena (Lenu) Greco e Raffaella (Lila) Cerullo, desde a infância na década de 1940 até a velhice, em um bairro pobre e violento de Nápoles. A narrativa serve como um retrato fiel da Itália do pós-guerra, abordando a ascensão da Camorra, o machismo estrutural e as transformações sociais do país. O encerramento da tetralogia é marcado pelo desaparecimento de Lila, que busca “apagar seus rastros”, e pela entrega final de duas bonecas da infância para Lenu, simbolizando o fechamento de um ciclo de décadas. Eu recomendo a obra tanto pela sua profundidade psicológica quanto pela sua análise sociológica da condição feminina no século XX. Agora acompanho a série produzida pela HBO, que indico, aliás.

Mas vamos aos livros do ano:

1 – Melancia – Marian Keyes;

2 – A biblioteca da meia-noite – Matt Haig;

3 – Eu sei que vou te amar – Arnaldo Jabor;

4 – História do Sobrenome – Elena Ferrante;

5 – Violeta – Isabel Allende;

6 – Um outro amor (minha luta 2) – Karl Over Knausgard;

7 – Como arruinar um casamento – Alison Espach;

8 – Storytelling – Carmine Gallo;

9 – Depois de você – Jojo Moyes;

10 – Fora do tom – Sting;

11 – Pactos Mortais – Steve Cavanagh;

12 – É assim que começa – Collen Hoover;

13 – A lista de Schindler – Thomas Kenealy;

14 – O poder do hábito – Charles Duhigg;

15 – E se eu morrer amanhã? – Filipa Fonseca Silva;

16 – Cartas a Theo – Vincent Van Gogh;

17 – História de quem foge e de quem fica – Elena Ferrante;

18 – Alta tensão – Harlan Coben;

19 – A contagem dos sonhos – Chimamanda Ngozi Adichie;

20 – A casa dos espíritos – Isabel Allende;

21 – Invasores del Norte – Isabel Cañas;

22 – Bala na Agulha – Marcelo Rubens Paiva;

23 – Uma casa na areia – Pablo Neruda;

24 – Antes de nascer o munndo – Mia Couto;

25 – A ilha da infância (minha luta 3) – Karl Ove Knausgard;

26 – Uma rosa só – Muriel Barbery;

27 – Deus na escuridão – Valter Hugo Mãe;

28 – Um rio na escuridão – Masaji Ishikawa;

29 – Uma hora de fervor – Muriel Barbery;

30 – Ainda sou eu – Jojo Moyes;

31 – O namorado – Freida McFadden;

32 – O lobo da estepe – Herman Hesse;

33 – Tudo que deixamos inacabado – Rebecca Yarros;

34 – Maya e Natasha – Elyse Durhan;

35 – O rei está morto – Jim Lewis;

36 – História da menina perdida – Elena Ferrante;

37 – Ecos da Floresta – Liz Moore;

38 – O peso do pássaro morto – Aline Bei;

39 – A vida em um dia – A.F. TH. Van Der Heijden;

40 – A vida dos Elfos – Muriel Barbery;

41 – A estrada – Vassili Grossman;

42 – Seis dias em Bombaim – Alka Joshi;

43 – Senhor das moscas – William Golding;

44 – Temporada no escuro (minha luta 4) – Karl Ove Knausgard;

45 – Pequena Coreografia do Adeus – Aline Bei;

46 – Todo dia – David Levithan;

47 – O menino que desenhava sombras – Oriana Ramunno;

48 – O ano do nirvana – Walther Moreira Santos;

49 – Uma delicada coleção de ausências – Aline Bei;

50 – Quando os pássaros voam para o sul – Lisa Ridzén;

51 – O chamado do cuco – Robert Galbraith;

52 – Noite. Sono. Morte. Astro. – Joyce Carol Oates;

53 – Longe do ninho – Daniela Arbex.

Dados das leituras

Releituras: O rei está morto – Jim Lewis; O peso do pássaro morto – Aline Bei; O chamado do cuco – Robert Galbraith.

Autores mais lidos: Elena Ferrante; Karl Ove Knausgard e Aline Bei.

Top 10 de 2025:

10 – História da menina perdida;

9 – História de quem foge e quem fica;

8 – A biblioteca da meia noite;

7 – A ilha da infância;

6 – Ainda sou eu;

5 – O menino que desenhava sombras;

4 – Pactos mortais;

3 – O namorado;

2 – Todo dia;

1 – Tudo que deixamos inacabado

Que 2026 venha com muito mais histórias inspiradoras que, além de servir como um momento de paz e descanso, sirva como ensinamento, reflexão e objeto de transformação, como acredito que toda leitura seja.

Desencanto

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O desencanto é um rito silencioso da maturidade. Crescer não é acumular certezas, mas sobreviver à perda delas. As ilusões são a primeira forma de abrigo psíquico: servem para dar contorno ao caos, para proteger o sujeito da vastidão do real. Desencantar, portanto, não é empobrecer, é passar a ver. É o instante em que o olhar infantil, encantado com a coerência do mundo, percebe que o mundo não tem coerência alguma, e que ainda assim vale ser vivido.

Freud chamava esse processo de desilusão cultural: a necessidade de abrir mão das idealizações que sustentam o narcisismo. O amadurecimento implica suportar a castração, aceitar que nem o mundo nem o outro existirão para satisfazer nossos desejos. Essa perda é o preço da liberdade simbólica. Quem não suporta a desilusão permanece dependente da fantasia de completude, buscando pais, deuses ou ideais para ocupar o lugar da falta. A maturidade começa quando o sujeito deixa de esperar que alguém saiba o que ele deve fazer.

A confeiteira que o público amou odiar: o fenômeno Marina Queiroz

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Desde o início da temporada, a participante Marina Queiroz foi “cancelada” na internet, intensificada pela saída do participante John Lee.  Mas o que levou a participante a ter uma rejeição tão expressiva?

Toda temporada de precisa de um vilão. E, nesta, o papel caiu, sem chantilly e sem filtro, em Marina Queiroz. Não foi por acaso. Foi por uma soma de ingredientes que, juntos, renderam o cancelamento: uma pitada de arrogância, uma dose generosa de autoconfiança mal interpretada, e uma cobertura espessa de suspeita de favorecimento.

Desde o primeiro episódio, Marina dizia saber o que estava fazendo, afinal, é professora de confeitaria, dizia possuir técnica, estudo, formação sólida, inclusive um histórico na Le Cordon Bleu, uma das escolas mais prestigiadas do mundo. Teoria é uma coisa, prática é outra, em diversas provas, a participante foi insuficiente tanto aos jurados, quanto para o público, entregando pratos feios, que não condiziam com o que a artista plástica demonstrava saber. Feedback negativo? Ela não concordou com nenhum, exceto o último, em partes. Sabia que iria embora?

O fato é que o Masterchef é um reality show. E como todos, são sujeitos a julgamentos. O público pode ser implacável e ele não julga apenas o prato: julga o temperamento. E Marina parecia sempre em guerra com o ambiente, discutia com colegas, retrucava jurados e fazia comentários que, mesmo talvez sinceros, soavam presunçosos. O momento em que ela rebateu Helena Rizzo com um “me poupe” foi simbólico. Não porque estivesse errada, afinal, discordar de jurado não é crime, mas porque ali ela se colocou fora do jogo. E o público ama o jogo. Quem se posiciona acima dele, perde.

O poder de ser odiada

Marina virou o assunto preferido das noites de terça-feira, que se estendia pela semana inteira. Aliás, na semana da eliminação do John Lee, falou-se tanto dela e da sua suposta vantagem por fazer parte da Le Cordon Bleu, que eles fizeram uma declaração de que ela não ocupa nenhum cargo na instituição desde 2023 e nunca ocupou cargo docente. (confira aqui). E há uma ironia nisso tudo: o público que dizia não a suportar era o mesmo que não perdia um episódio. A rejeição virou entretenimento. Ela ocupou o espaço do “personagem que movimenta a história”, aquele que dá sentido à temporada e mantém viva a discussão.

Ser vilã, em um reality, é também ser combustível de audiência. E, convenhamos, poucos desempenham esse papel com tanta precisão. No fim, pouco importou se Marina tinha técnica, que ficou foi a sensação de que faltava humildade e sobrava defesa. Em um programa onde o público se conecta pela emoção, falar de si com soberba soa pior do que errar o ponto da calda. Reality show é sobre vulnerabilidade, e o público perdoa erros, mas não perdoa quem parece incapaz de errar.

Marina Queiroz foi eliminada ontem e o que fica de lição? Ela provocou debates sobre meritocracia, favoritismo e, acima de tudo, sobre o limite entre confiança e arrogância. Num mundo que prega autenticidade, talvez o problema seja que ainda não sabemos lidar quando alguém confia demais em seu potencial, isso não é pecado algum, mas para sustentar esse papel, no mínimo, você precisa entregar o que promete.

Excesso de IA atrapalha o processo criativo

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A minha mãe sempre repetiu a seguinte máxima: tudo o que é demais, faz mal. E eu cresci com essa verdade pontuando e pautando muitas coisas na minha vida e, claro, ela sempre esteve com razão: dormir demais faz mal, comer demais faz mal, até água demais faz mal, ela dizia. Eu zombava e, óbvio, ela me esfregava a razão na cara: eu te avisei.

A tecnologia da geração de minha mãe era restrita. A minha, em transição, nos proporcionou muito mais facilidade e o mundo se tornou mais acessível, fácil, mais otimizado. Otimizado é a palavra do momento, inclusive. Mas os excessos sempre nos deixaram em maus lençóis, sempre. Carros mais velozes causaram mais acidentes. Culpa da facilidade ou da ação humana? Existe aí uma reação em cadeia óbvia, mas prevenível (existe essa palavra, né?) Nestes casos as vítimas têm culpa, não seria este, o caso de uma tragédia anunciada, afinal, conduzir um veículo requer responsabilidade e instinto de sobrevivência. Peço desculpas ao meu leitor pelo preâmbulo mal ajambrado para falar de um assunto tão sem consequências drásticas na nossa vida, mas nocivas em quantidades desenfreadas, principalmente por inábeis nas construções elaboradas, nestes casos, não-leitores e escritores primevos.

A Inteligência Artificial é muito íntima em nossas vidas, mas esta realidade não é nova, vem de…pasme…1943. Um olhar mais acurado percebe as suas nuances rumo à modernização. Hoje nos parece mais evidentes por causa da popularização e das maravilhas que os GPT, Gemini, Perplexity, DeepSeek, Alexa, Siri, Google translate, Google Maps, isso para citar as mais conhecidas, mas há muito mais, muito mais. E, a boa notícia: vem muito mais por aí! Saber disso te conforta ou te assusta? Vamos com calma, desde a revolução industrial, a primeira, entre 1760 e 1850 especula-se que a mão de obra humana deixará de ser necessária. Seria fosse verdade, quem ganharia com isso? Seria mesmo o homem o lobo do homem? Sem entrar ao fundo da questão, o trabalho é uma valiosa moeda de troca e a inteligência humana, muito mais. Para que haja funcionamento há de se ter um operador, para que haja mercado, é preciso que haja quem compre. E não é o intuito do texto falar de desigualdade social, mas tentar suscitar que a expertise humana jamais perderá valor em detrimento de alguma máquina, elas estão aqui para facilitar a vida e para otimizar o nosso tempo, e, em larga escala, produzir-se mais com o auxílio delas.

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Se eu posso ter alguém com capacidade de produzir seis textos de 2000 palavras por dia, por que eu contrataria alguém que faria apenas um texto por dia? Falando em produtividade, é melhor ficar com o de 12000 palavras. Mas se mensurarmos produtividade x qualidade, talvez escolhêssemos um profissional de 2000, espremendo, mais umas 500 palavras… Isso porque com o auxílio da IA nos tornamos muito mais produtivos, em contrapartida, um leitor atento e acostumado a uma leitura mais criteriosa e crítica sentirá falta de algumas particularidades como marcas. Todos nós, amadores ou profissionais, temos um estilo de escrita, uma forma única de transmitir sentimentos, produtos, pensamentos, a menos que você seja um Fernando Pessoa com seus heterônimos, mas creia até eles têm uma marca. A marca é o seu DNA e isso faz toda diferença na hora de redigir um texto.

Lembro-me de uma ocasião em que fui contratada por uma instituição de ensino e já no primeiro dia publiquei um comunicado em uma rede social, a gestora ao ler, sabia que havia sido eu, porque a escrita era diferente, não havia certo ou errado, mas estilos diferentes em comunicar uma notícia ou informação. Em todos os meus textos há uma marca minha impressa. Assim como, ao ler um texto ou livro, consigo identificar traços de algum autor, permitindo-me entender as suas influências diretas ou indiretas, bem como identificar a que estilo literário pertencem. E cá para nós, é isso que deixa tudo mais interessante, né? Porque parafraseando ditado de que até papagaio fala, escrever, qualquer IA faz, mas com estilo, emoção, conexão e “particularização”, somente a gente tem capacidade.

O que tirar dessa preleção? Que tudo o que é usado com moderação é bem-vindo. Faço sim uma Ode à inspiração, que toda tudo muito mais bonito, ousado e aproximado ao que somos de verdade, mas sem renunciar a uma ajudinha, inha, bem inha mesmo de alguma inteligência que acelere o processo e nos complemente com algum plus. A utilização de inteligência artificial para a escrita deve ser usada com cautela, de modo que não fique tão generalista, porque quem lê entende que ali não há traço, nem marca e nem substância.

Eu não sou totalmente contrária ao seu uso, acredito que ela realmente ajude quando a nossa rotina está cheia, o fluxo é grande e a criatividade se escasseia, mas que esses artifícios seja apenas um braço, um apontamento, um apêndice ao caminho que podemos seguir.  E eu espero que a gente, criadores de conteúdo, redatores, tenhamos tempo para respirar entre um texto e outro, procure oxigenar o cérebro de modo que as ideias cheguem, para que nossas palavras encantem e conectem, não apenas sejam uma verborragia sem toque humano. Espero que tenhamos menos textos generalistas e mais conteúdo, mas conteúdo mesmo, sabe? Daqueles que imprimem a sua etimologia, muito mais que o seu significado.