Vivendo de modo presencial

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É impossível hoje pensar em viver sem qualquer tipo de tecnologia digital, mas a vida não era tão ruim sem celular e todas as distrações (e facilidades) que temos hoje.

Nasci no início dos anos 80, em 1982 para ser mais exata, e vi todo esse mundo digital nascer, mas antes de tanta tecnologia, a vida era bem gostosa. Nós éramos obrigados a interagir de modo presencial com as pessoas. Fazíamos amizades no recreio do colégio, nos clubes e na rua de casa.

A gente paquerava por meio de brincadeiras como salada mista (quem nunca trapaceou pra beijar aquele menino ou menina desejados?), caderno de perguntas e as adoradas festas de aniversário: bolo quadrado e sem pasta americana, refrigerante de garrafa de vidro e um cômodo reservado para a discoteca, com música lenta e luz baixa para favorecer os casais. A rua também era um importante ponto de encontro, onde eu morava a gente se reunia diariamente para conversar, jogar bola ou simplesmente estar ali junto. Os encontros que aconteciam foram desse círculo eram marcados por telefone, mas nem todo mundo tinha o aparelho em casa, então recorríamos aos orelhões – umas cabines de telefone público que funcionavam com fichas e, posteriormente, com cartões (muitos, colecionáveis) – as ligações precisavam ser sucintas porque não eram tão baratas, as fichas e os “créditos” dos cartões eram rapidamente engolidos. O encontro o era ansiado e bem aproveitado sem muitas distrações, era importante ter assunto para conversar por horas a fio.

Sabe os memes? Não existiam, ou pelo menos não nos formatos de hoje, apenas replicávamos bordões da TV. Aliás, a TV teve um papel importante na formação desta e de gerações anteriores, assim como os jornais impressos, revistas e rádios. A nossa forma de adquirir cultura e informação era dependente destes veículos e as notícias demoravam um pouco para percorrer todas as cercanias brasileiras (menos as más, essas sempre voaram), isto nos dava a impressão de que o mundo era um lugar muito mais seguro, hoje, ao contrário, muito mais violento, mas acredito que hoje temos muito mais acesso ao que ocorre na realidade, haja vista, todos hoje têm uma câmera e o poder de divulgação na palma da mão.

Somos propagadores de informações e não damos a devida importância, mas nossos registros são um retrato do mundo, um lugar onde a crueldade sempre esteve presente. Mas há muita coisa boa também. Ainda bem!

E talvez seja justamente aí que esteja a diferença entre ontem e hoje: antes, o tempo era vivido em pequenas doses de presença, de olhares e conversas longas, enquanto hoje ele parece fragmentado em notificações, curtidas e distrações sem fim. Não que a tecnologia seja vilã, acredito que ela nos aproxima, encurta distâncias e democratiza o acesso à informação, mas, se não cuidarmos, também nos rouba a experiência de estar inteiro nos momentos.

Viver de modo presencial é um exercício que exige escolha: desligar o celular, olhar nos olhos, rir alto sem precisar registrar tudo em vídeo. É reaprender a se encantar com o simples, com o bolo quadrado da festa, com a conversa na calçada, com a música lenta que pede coragem para um passo à frente.

Se a vida digital veio para ficar, que ao menos a gente não esqueça da vida analógica que pulsa em nós porque, no fim, o que permanece são os vínculos que conseguimos construir fora da tela.

Sobre a gratidão

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Às vezes precisamos deixar de olhar para o que não está certo, não porque não vamos consertar tudo (algumas não têm conserto, para outras, só o tempo), mas porque o peso delas acaba nos impedindo de enxergar aquele montão de coisas que estão nos seus lugares,e que, de tão alinhadas, a gente acaba banalizando-as. 

Mas hoje de manhã eu olhei ao meu redor e vi quão abençoada eu sou. Tenho uma família que me acolhe quantas vezes eu precisar voltar para casa, sem julgamentos e apontamentos. E sabe aquela máxima que a gente ouvia quando era criança: “não tenho tudo o que quero, mas amo tudo o que tenho”? Nunca fez tanto sentido como agora, é realmente ‘confortador’ olhar para a metade cheia do copo, além disso dá menos trabalho ser otimista, primeiro porque saber que se tem rede de apoio traz mesmo uma sensação e a certeza de que, mesmo que as coisas pareçam desmoronar, você não está sozinho, segundo porque acredito (e há comprovações científicas) de que o otimista consegue vislumbrar as soluções com mais clareza do que o pessimista, que fica em um lamento eterno sem que enxergue o lado positivo das coisas que lhe sucedem, sem que consiga realmente encontrar uma saída para as suas agruras e desventuras.

Martin Seligman diz que o hábito de reconhecer aquilo que já está bem em nossas vidas não é apenas uma questão de pensamento positivo, mas uma ferramenta de fortalecimento emocional, já que as pessoas que cultivam esse olhar tendem a lidar melhor com as crises porque não se deixam aprisionar apenas pelo que falta ou pelo que dói. 

Carregamos menos pesos quando sabemos distinguir o que depende da gente e o que está além das nossas possibilidades. Quando nos concentramos apenas no que está ao nosso alcance, aprendemos a caminhar com mais serenidade, aceitando que a vida não se organiza para corresponder a todos os nossos desejos, mas que, ainda assim, podemos encontrar sentido.

Para a minha vida, escolhi olhar para a parte boa, não negligencio o que preciso melhorar, mas concentro-me naquilo que posso, apenas. Busco os meus objetivos com metas reais, às vezes me pego devaneando com o meu mundo ideal, deixo eles ali, esquentando no forninho do universo, quando ele achar que eu  mereço, aceitarei com os braços abertos. E, talvez, a vida seja sobre isso mesmo: viver com o que tem, traçar e buscar metas e melhores caminhos, melhorar, aprimorar. Viver sem esperar o dia em que tudo estará em ordem, mas reconhecer que, mesmo entre os desencontros, há alinhamentos silenciosos que nos sustentam.

Há sempre um convite para enxergar o essencial escondido no cotidiano, o melhor é sorrir nos breves intervalos em que a vida te dá uma trégua e você consegue olhar ao redor e gostar do que vê, apesar de tudo.