Provavelmente você já passou por isso: Está esperando para ser consultado pelo médico, tem 5 ou 6 pessoas na sua frente e, de repente, entra no consultório uma pessoa com uma mala preta. São os inconfundíveis representantes comerciais da indústria farmacêutica. Sem tempo para aperfeiçoamento, massacrados pela necessidade de atender o máximo possível, muitas vezes os médicos tomam conhecimento de novos medicamentos por meio destas visitas. Ganham amostras grátis, e brindes, e repassam aos seus pacientes.
Mas outras vezes o médico recebe patrocínio de laboratórios para participar de congressos, ocasionalmente fora do país, em que serão anunciados estes novos medicamentos. É claro que os médicos dizem que não são influenciados, nem pelos presentinhos, nem pelos presentões.
Em agosto de 2008, a Gazeta Mercantil publicou matéria, reproduzida pelo saudebusinessweb, em que se anuncia que o Conselho Federal de Medicina iria regulamentar estes procedimentos, inclusive definindo limites de valor para os brindes e determinando que a organização dos congressos médicos seja transparente ao informar que interesses estão sendo defendidos por quais patrocinadores. Tentamos saber se esta regulamentação foi criada, mas não encontramos nenhuma informação.
Entretanto, dia 18.12.2008, foi noticiada nova regulamentação da publicidade de medicamentos, por iniciativa da ANVISA. A Portaria RDC 96/08 tem alguns problemas, que poderão ser questionados judicialmente, ou que reduzem ou impedem sua efetividade. O que nos parece mais decepcionante é que a norma não impede o patrocínio, pelos laboratórios, de congressos e para profissionais de saúde participarem deles. Apenas proíbe que a participação seja vinculada à prescrição de remédios. É claro que a influência dos laboratórios é velada, não havendo nenhum contrato formal obrigando o médico a prescrever. Acreditamos que esta medida não terá efetividade, ou pior ainda, cria uma falsa impressão de que algo foi feito.
O fato é que os médicos sabem muito bem o que está acontecendo e quais laboratórios patrocinam o quê. Aceitam tudo isso porque estão inseridos na mesma lógica da cultura do consumo, que tanto temos falado aqui. Tudo é intermediado pelo mercado, inclusive a saúde, por meio dos mesmos mecanismos: a publicidade, o lobby, a influência nos meios acadêmicos, políticos e governamentais.
O problema é que a indústria farmacêutica também seduz e envolve a própria imprensa, como pode ser visto no LeiturasFavre, o que talvez explique encontrarmos tão pouco material sobre o assunto.
A medicina não pode seguir a ideologia do lucro acima de tudo. A sociedade precisa reagir.
