Guapuí-una no quintal

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Neste verão de 2025/26 uma pequena árvore de meu quintal, que pensei várias vezes em cortar, frutificou após quase dez anos. Parecia uma amescla-de-cheiro, mas havia algumas particularidades, como a casca branca do tronco, o fruto roxo, quase preto, e a ausência de cheiro na resina. Pesquisei nos meus velhos volumes do Lorenzi (Árvores Brasileiras), e só cheguei no gênero, Protium.

O site Colecionando Frutas matou a charada. Trata-se de uma rara espécie endêmica de SP, PR e SC, com poucos registros: a amescla-roxa, amescla-de-tronco-branco, breu-de-fruta-roxa, guapoí-una ou guapuí-una (Protium kleinii). Adotei o nome indígena, e já comecei a coletar algumas sementes.

Mas pra que serve, afinal? É que quando a casca dura se abre revela um arilo branco e doce muito atrativo para as aves. Em apenas uma hora registrei 6 espécies diferentes se alimentando, e no dia seguinte mais duas: sanhaço-cinzento, tiê-preto, sabiá-barranco, sabiá-laranjeira, trinca-ferro, saíra-amarela, cambacica e bem-te-vi.

Diz o site que os frutos também são apreciados pelos macacos e quatis. Saguis costumam aparecer por aqui, mas fico satisfeito com a passarada. Preparei uma ficha da planta e publiquei no Wikiaves, com fotos de algumas aves, espie. Tomara que em breve eu possa estar distribuindo mudas dessa raridade para os amigos!

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Apocalipses na América Latina

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A editora Bandeirola publicou em 2025 uma interessante coletânea de contos fundadores da literatura fantástica latino-americana, tendo como tema comum o fim do mundo, o apocalipse.

Dois autores argentinos, dois brasileiros e um mexicano foram os escolhidos pela dupla de pesquisadores Camilla Cattarulla e Giorgio de Marchis. Ela é professora titular de Língua e Literatura Hispano-Americanas na Universidade de Roma, enquanto ele é titular de Literatura Portuguesa e Brasileira, na mesma universidade.

Ambos assinam um substancioso ensaio sobre utopias, distopias e catástrofes na literatura do continente, completando o volume com informações preciosas. Analisam a conjuntura política e social da época em que os contos foram publicados, onde o avanço científico e tecnológico muitas vezes convivia – e ainda convive! –  com modelos coloniais e escravistas de sociedade.

Joaquim Manuel de Macedo, o autor de A Moreninha, abre a coletânea com o conto O Fim do Mundo. Publicado no suplemento do Jornal do Commercio, em 1857, parte de um argumento explorado posteriormente à exaustão na ficção científica: o mundo vai acabar. Em tom satírico, Macedo evoca o cônego de Liège (famoso por profetizar o fim do mundo num 13 de junho de 1857, por causa de um cometa) e consegue fazer uma escada até a Lua construída com… juros bancários! Na volta, encontra todos cozidos pela passagem do tal cometa. O protagonista passeia pelas ruas do Rio de Janeiro, entrando em teatros e até na Câmara Municipal, vendo afetos e desafetos imóveis como frangos assados.  

Aluísio Azevedo, partindo da mesma ideia, cria uma ficção mais elaborada e sombria. Demônios, de 1891, mostra um Rio de Janeiro afundando-se em lodo e fungos gigantescos, onde o protagonista tenta encontrar a sua amada para que juntos refaçam uma nova humanidade. Num clima dantesco, eles vão pouco a pouco se metamorfoseando em… bom, vale a pena a leitura.

Leopoldo Lugones, um dos mestres de Borges, escolhe como fim do mundo uma chuva de cobre incandescente. Um personagem recluso, dedicado apenas a curtir os prazeres da literatura, da mesa farta e de sua adega, descreve o cataclismo em A Chuva de Fogo, publicado em 1906. Abrindo com uma citação bíblica que remete a Gomorra, Lugones reelabora o mito primordial do apocalipse através de uma visão desencantada e um gesto final inesperado.

O mexicano Amado Nervo destoa do conjunto pela originalidade do enredo. Antecipando Orwell, publica em 1906 o conto A Última Guerra, onde animais se rebelam contra a humanidade opressora. Futurista, a ação se passa milênios depois da última Revolução Social, ocorrida em 2030. Existem duas classes, a humana, dominante, e a dos animais, que são servos, embora já dominem uma linguagem própria e um discurso articulado.

O argentino Roberto Arlt encerra a coletânea com A Lua Vermelha, de 1933. Explora também o contraste entre classes sociais, numa distopia plena de imagens delirantes, onde os ricos vivem no alto de edifícios enormes, dançando e namorando, quando de repente garçons, músicos e cozinheiros largam seus afazeres e abandonam seus postos de trabalho. Como bem aponta a professora, o conto foi escrito sob o impacto da crise de 1929, que colocou em cheque políticas e convicções em todo o mundo. Todos caminham num cortejo fantasmagórico rumo ao previsível final.

Os organizadores da coletânea destacam outros autores e obras que ajudaram a construir um acervo ficcional distópico ou fantástico no continente. Do pioneiro Manuel Antonio de Rivas, frade mexicano que em 1773 descreveu uma viagem à Lua, passando pelo argentino Holmberg, que em 1875 criou uma história com extraterrestres. Nesse mesmo ano o português naturalizado brasileiro Augusto Emilio Zaluar publicou seu romance O Doutor Benignus, considera a primeira obra de ficção científica publicada no país.

Como definir o fim do mundo, num continente onde nações e povos foram exterminados de forma apocalíptica? Um cronista inca ou maia descreveria o fim do mundo através de guerras, fogo e doenças. Terrível foi o fim do mundo para os habitantes de Hiroshima e Nagasaki, que viram o céu se transformar em fogo e as pessoas derreterem à sua volta. O fim do mundo teve como um de seus sinônimos o Holocausto, revivido sadicamente por Israel na Palestina do nosso século. O mundo acaba todos os dias, desde os tempos imemoriais, para povos, animais e biomas. Depois de exterminada a última nação indígena, quem virá?  

Vale observar que todos os escritores da coletânea editada pela Bandeirola são brancos, viveram em cidades “modernas”, e ali desenvolveram sua ficção. Não há povos nativos, incas, maias, astecas, tupis ou guaranis nos enredos. Não há floresta, caatinga, pampa ou cerrado. Animais, só os do quinto milênio, do mexicano Nervo, ou os do zoológico (tigres, elefantes) no conto de Roberto Arlt. É um curioso recorte, que talvez seja mais explicado pela Psicologia que pela História.

Há de se considerar, por óbvio, que publicar livros até meados do século XX só era possível nas capitais federais (Rio de Janeiro, Buenos Aires, Cidade do México), com raras exceções. E os autores escolhidos, filhos da classe média, dedicaram-se a analisar, e muitas vezes criticar, a classe dominante. Aluísio Azevedo é o único que se debruçou sobre o proletariado e o lumpesinato, em obras como Casa de Pensão (1884) e O Cortiço (1890). Mas todos os cinco militaram no jornalismo, muitas vezes mantendo colunas periódicas, ora como cronistas, ou comentaristas de costumes, ora em suplementos literários. Viver da escrita, desde aqueles tempos, nunca foi ficar escrevendo poemas ou prosa na tranquilidade do lar. A militância política, num cenário urbano em transformação física e social, acabou inspirando as  visões apocalípticas e distópicas representadas nesta curiosa antologia.

APOCALIPSE – Ficção científica latino-americana, a origem –  157 p, Ed. Bandeirola, 2025.

O Filho de Mil Homens, revisitado

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O Filho de Mil Homens é um dos mais queridos romances de Valter Hugo Mãe, escritor luso-angolano que tem grande afinidade com o Brasil. Sua prosa poética e envolvente conquistou leitores em vários países, e colocou seu nome entre os grandes autores humanistas de nossa língua.

Ao enfocar personagens disfuncionais numa pequena aldeia à beira-mar, o autor elaborou um pequeno tratado sobre a tolerância, a compaixão, a amizade e o amor, sem ocultar o pano de fundo do preconceito, do machismo e da hipocrisia que permeia aquele restrito grupo social.

Com o lançamento do filme, em outubro de 2025, dirigido pelo brasileiro Daniel Rezende e distribuído pela Netflix, a sinopse já deve ser de conhecimento geral. A narrativa entrelaça a vida de um pescador solitário de quarenta anos que deseja ter um herdeiro, um menino filho de uma anã que teve relações com vários homens da aldeia, uma jovem que é desprezada por não ser mais virgem, e seu noivo, fruto de um casamento de conveniência que desmorona na incontornável opção sexual do rapaz.

O grande desafio foi traduzir a torrente verbal rica e poética do romance em imagens. Assumindo várias liberdades de adaptação, o filme valoriza os silêncios, e através de imagens deslumbrantes consegue o feito de sintetizar o romance sem grandes perdas.

Obviamente, somos privados das delícias narrativas da escrita de Valter Hugo Mãe, mas ganhamos em troca interpretações tocantes, cenografia e cenários de sonho, uma trilha sonora adequada e sem excessos, tudo coroado por uma direção segura. Em vez de falar de perdas, o mais adequado é falar de trocas. Trocas de significantes, não de significados. O filme não é fiel ao livro – e nem poderia ser! -, mas ao espírito do livro.

Seres desajustados e rechaçados pela sociedade criam elos de afeto que os fortalecem e abrem uma possibilidade de felicidade. Em mãos menos habilidosas poderia soar como uma ode à pieguice, mas é aí que entra o talento narrativo, tanto do escritor quanto do diretor e roteirista do filme. Em tempos de violência extrema em todas as formas de ficção, de crueza descritiva, de sexo exibicionista, de personagens cruéis, cínicos e desonestos, retomar o “tempo da delicadeza” cantado por Chico Buarque é um ato de coragem. Rezende não tem pudor de lançar mão de imagens oníricas, criadas por computação gráfica, provando que esta pode ser utilizada de forma inteligente e não deslumbrada.

A pequena aldeia e seus personagens, recriada com perfeição de detalhes em Búzios, RJ, e Chapada Diamantina, BA, recupera a universalidade da obra original, e vira cenário de sentimentos profundamente humanos que nosso acelerado e monetizado cotidiano urbanoide despreza com intensidade cada vez maior. O filme é um acerto estético, e traz a melhor interpretação da vida de Rodrigo Santoro, que pronuncia pouquíssimas palavras no entrecho, apoiado por ótimos coadjuvantes. Reafirma também o talento de Daniel Rezende e faz uma releitura respeitosa do belo romance de Valter Hugo Mãe.

Nesta fase tão rica e produtiva do cinema brasileiro é animador ver propostas de narrativas tão diversas chegarem ao público. E o fato de recolocar a boa literatura em circulação, despertando o interesse de novos leitores, só aumenta nosso discreto otimismo.

 Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=Q7F-uj7oWFw

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda).

Memórias do que Queremos Esquecer

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Em O Agente Secreto, Kleber Mendonça Filho entrelaça dois temas centrais em sua obra:  a memória e o amor pelo cinema. Ambientado num período tenebroso da história política do país, os anos 70, o retrato do ditador da época, Ernesto Geisel, aparece duas ou três vezes pendurado em repartições públicas, de forma discreta. O que está onipresente é a violência escancarada, a corrupção policial e civil, a imprensa sensacionalista, o desregramento civilizatório de uma sociedade erigida sobre uma colonização escravagista.

Não que o filme pretenda ser histórico ou assumir um viés sociológico, longe disso. É ficção plena, exercida com talento e criatividade. E é um filme sobre afetos, antes de tudo. Os refugiados que são acolhidos em uma casa comunitária, o amor de um pai que procura se reencontrar com o filho, a lembrança da mulher ausente, a rede de apoio que se forma sob um ambiente hostil.

A memória, para o diretor e roteirista do filme, é marcada pelo cinema. Ou melhor, pelos cinemas. Desde o início, nos créditos, quando fotogramas de filmes brasileiros dos anos 70 vão se mesclando com outras imagens da época, até o fato de boa parte da ação se passar em um velho cinema. O grande blockbuster da época era Tubarão, de Spielberg, que está presente em boa parte das cenas. O filho de Marcelo, o protagonista, é um menino que tem pesadelos com tubarões, e quer muito ver o filme mas ainda não tem idade. Outro tubarão, este “real”, é pescado na costa recifense e dentro de sua barriga encontram uma perna humana.

Essa cena macabra abre espaço para outra lembrança da época: a lenda urbana da Perna Cabeluda, divulgada pela imprensa popular, principalmente a radiofônica, e que virou até tema de cordel. A perna surgia a noite em parques públicos e ruas escuras e perseguia as pessoas, causando terror.

São memórias de Recife, cenário recorrente na obra de Kleber Mendonça Filho. Outros filmes aparecem discretamente, projetados na tela do cinema. O tal agente secreto não é o protagonista, é apenas mais um filme. Filmes dentro do filme, memórias dentro de memórias. Essas camadas sutis se sobrepõem, criando um mosaico de significados de resultado envolvente.

Poderíamos falar do elenco esplêndido, da direção ousada, de um Wagner Moura perfeito, da reconstituição de época impecável, da fotografia aliciante, da riqueza da trilha sonora. Tudo isso já foi bem comentado, e o filme realmente merece os prêmios e aplausos que tem recebido em toda parte. Mas retorno à questão da memória, e do que não queremos relembrar. No surpreendente final, o personagem recebe de uma jovem um pendrive (sim, estamos no século XXI) com gravações de 1977. Ele não quer lembrar do período, diz que não tem nada de bom pra guardar da época. Contraditoriamente, relembra que o local onde agora trabalha foi um antigo cinema, onde ele assistiu Tubarão pela primeira vez.

Esta é uma das chaves do filme. Queremos realmente esquecer, ou melhor, não lembrar, daquele clima pesado da ditadura, as perseguições a opositores do regime, as mortes e desaparecimentos? É natural do ser humano guardar as boas lembranças, e tentar apagar os momentos de sofrimento. Lembrar das dores é senti-las novamente.

Mas os males do passado continuam presentes, e o filme mostra isso de várias formas, sem discurso panfletário. A corrupção sistêmica continua viva, a violência policial, as patroas que deixam o filho da empregada morrer por falta de atenção, o sexo em praça pública, está tudo aqui, agora, mas gostaríamos de esquecer. Ou de não enxergar.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda)

anônimas, mas inesquecíveis

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 Alguém já deve ter relacionado a proliferação das formas de prosa curta, os famigerados microcontos, com a era da internet. A necessidade do mundo pós-moderno de velocidade cada vez maior, de urgência da informação, contamina a música de consumo, as artes plásticas (de consumo), o cinema (de consumo), e é inevitável que a literatura também seja envolvida por esse turbilhão.

Claro que o microconto já existia – Monterroso que o diga! – assim como as fábulas moralistas e o milenar haikai. O que as redes sociais propiciaram foi a multiplicação destas formas curtas, que se mostram muito mais adequadas aos novos meios. É inviável ler um conto de vinte páginas num celular, suponho. Aliás, nunca tentei, confesso.

Esse processo de emagrecimento literário acarreta na maioria das vezes uma escrita menos elaborada, reflexões rasas, sentimentos mais descartáveis. Ser breve é uma coisa, ser sintético é outra. A síntese é um processo intelectual de concentração de sentidos, de significados, que poucos autores de fato conseguem alcançar.

Wilson Gorj, no recém lançado volume Vidas Sem Nome (Litteralux, 2025) mostra que é possível conjugar economia de palavras com riqueza literária. O autor, também editor, é devotado à microficção, tendo volumes publicados e, obviamente, uma militância contínua na internet.  Tem um romance publicado, A Inevitável Fraqueza da Carne, onde demonstrou perícia em desenvolver uma narrativa longa.

Vidas Sem Nome não é uma coletânea de microcontos, mas sim de contos com duas, três, até cinco páginas. Gorj esbanja criatividade nos argumentos, com cenários e personagens surpreendentes. Lança mão de elementos de fantasia em alguns momentos, mas também é totalmente realista em várias narrativas. Tinge algumas histórias de lirismo, pincela humor em outras. Pode ser cruel e piedoso, às vezes no mesmo texto.

Esta complexidade de sensações só é alcançada com sucesso por quem domina o labor da escrita. Como diz Mario Baggio, outro craque da ficção enxuta, na orelha do livro, “é uma celebração da palavra mínima com efeito máximo”. E Wilson Gorj não tem receio de adicionar mais duas ou três páginas a uma boa ideia para obter o efeito desejado, para acrescentar nuances ou aprofundar o desenvolvimento da narrativa, preparando desfechos sempre surpreendentes.  Uma escrita madura, fluente, de elaborada simplicidade, que nos convida à releitura assim que terminamos o livro.

(Publicado originalmente em A Terra é Redonda, em outubro de 2025).

O exílio interior

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Existe uma profusão de romances, geralmente de autores iniciantes, que colocam como protagonista um escritor em crise. É como se o ato de enfocar um “escritor” tornasse o enredo mais “literário”, ou a escolha desse tema o tornasse mais apreciado pelos seus pares. Uma dupla bobagem, já que contraria a história da literatura universal e sua infinidade de grandes personagens não-escritores, e porque um escritor não deve escrever para outros escritores, mas para leitores.

Marcos Kirst, em seu segundo romance, Exílios (Ed. Patuá, 2025) contorna de forma original essa armadilha. Seu personagem também escreve, mas é um jornalista investigativo, em pleno século XXI. Uma categoria em extinção, por sinal, nas redações dos tradicionais jornalões (e jornalecos) brasileiros.

Félix Garcia Leone, o protagonista, é filho de exilados, que fugiram da ditadura argentina de Videla e seus asseclas, em 1976. Mesmo sendo brasileiro, é chamado de “castelhano” pelos colegas. Formado em jornalismo, trabalha numa pequena cidade fictícia no Vale dos Sinos, no interior do Rio Grande do Sul. Um crime ocorrido anos antes desperta sua atenção, por envolver filhos de membros influentes da sociedade local. Num fim de semana movido a álcool, drogas e sexo, numa chácara pertencente a um figurão local, uma jovem prostituta morreu em condições pouco esclarecidas. Para aumentar as suspeitas o principal acusado do possível assassinato, e posteriormente condenado, é o único negro presente no evento. 

Félix vê na reabertura do caso a possibilidade de conquistar um sonhado Prêmio Esso de jornalismo, vendendo a reportagem para a grande imprensa da capital e até para a televisão. Não tem noção exata das forças conservadoras que terá de enfrentar, do diretor do jornal em que trabalha até o tabelião da cidade.

O romance se desenvolve com fluência, ganhando tensão e complexidade. Kirst alterna as vozes narrativas, ora em primeira, ora em terceira pessoa, e não perde tempo em descrições de cenário ou divagações dispersivas. Rápido nas caracterizações, ágil nos diálogos, insere pitadas de humor ferino em calculada dosimetria. Quando a barra pesa, o personagem é obrigado a fugir para São Paulo por algum tempo, tornando-se redator publicitário para conseguir pagar as contas. Mas deslindar o crime volta a ser uma obsessão, uma maneira de reaprumar sua fracassada carreira de jornalista e acertar contas com o passado. Volta a Porto Alegre e ao Vale dos Sinos, e mais não pode ser dito aqui, sob risco de revelar o desfecho. A trajetória errante de Félix será também marcada pela presença discreta, porém marcante, das mulheres que irão balizar a sua vida, estendendo-lhe as mãos quando o naufrágio parece próximo. Estela, Soraia, Lina…

Escrito durante a pandemia, conforme revela o autor em um breve posfácio, o romance desnuda o painel social brasileiro com todas as suas desigualdades e distorções. O poder das pequenas elites econômicas encasteladas nas cidades do interior, mescladas com o conservadorismo, os preconceitos de classe, de cor e de origem (o apelido de “castelhano” não está aí à toa), a submissão dos pequenos jornais regionais aos anunciantes e políticos de plantão, o coronelismo regional e a onipresença de capangas e pistoleiros prontos a ameaçar quem coloque em risco a hegemonia da autointitulada “gente de bem”.

Marcos Kirst em alguns momentos parece brincar com os clichês de romance policial, mas evita cair nas facilidades do gênero. A narrativa não é linear, a linguagem é trabalhada em vários níveis de fala, e os personagens secundários nunca aparecem de forma gratuita. Kafka é evocado explicitamente no início da narrativa e Faulkner vai pontuar o desfecho, dando pistas do angustiado estado de espírito em que vive Félix Garcia Leone. O resultado é um romance contemporâneo, pulsante, onde as pequenas imperfeições fazem parte da construção de um personagem profundamente humano e pungente, cuja trajetória parece muito próxima de todos nós.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda)

A poesia desconcertante de Airton Paschoa

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Airton Paschoa é poeta renitente, com vários volumes lançados nos últimos 30 anos. Também experimentou a prosa, com a novela Dárlin e vários microcontos, antes desse formato se tornar moda. Seu livro Contos Tortos, de 1999, foi a carta de apresentação de um autor irônico, culto e trocadilhesco, que nunca cedeu às facilidades mercadológicas. Mestre em Literatura Brasileira pela FFLCH/USP, passou pelo ensaio machadiano e flertou com a crítica cinematográfica, mas cultivou o eterno retorno à poesia, sina e exorcismo dos demônios que lhe (nos) atormentam.

E não são poucos. Paschoa investe contra as mazelas do capitalismo insensato, lamenta os genocídios planetários, suspira o avanço implacável da idade, cutuca a mesquinhez da classe média, cospe na retórica acadêmica. Seu humor cáustico às vezes cede algumas brechas para o lirismo desolado, contemplação de um mundo em ruínas, ou para o pequeno deslumbre de uma graça infantil ou um canto de pássaro.

Airton Paschoa surpreende agora o seleto grupo de leitores com o anúncio de seu último volume: Post Streptum: Espólio (e-galáxia, 2025). Declara-se um autor defunto (nada mais machadiano!) desde 2022, e jura ter abandonado a labuta literária. Afirma no posfácio que “teve a bondade de poupar os amigos do mister sagrado de reunir os escritos espalhados pelos cantos e dá-los à luz em forma de Miscelânea, como de costume em preito a poetas desavisados”.

Paschoa derrama em mais de 270 páginas sua original receita de prosa poética e poesia ipsis litteris, reafirmando todas as qualidades e cacoetes de sua produção literária. A tentação ao trocadilho vem acompanhada de citações eruditas, às vezes inalcançáveis, que muitas vezes oculta o verdadeiro sentido da empreitada. Pra quem detesta facilidades, é uma delícia. Para os apreciadores da poesia declamada em festinhas de família, pode ser um pesadelo.  É, enfim, e o que não é pouco, um autor de estilo próprio e inconfundível, espécime raro hoje em dia.

Os exemplos são muitos. Um primor de síntese é o poema Manhã:

Em si nua

Em meio à coberta

Promessa aberta

Se insinua.

Mas estes rompantes de lirismo são vagalumes errantes dentro da noite perversa que o poeta descreve. No poema-prosa Histórias da Ironia, abraça “a extinção do homo pestiens”. E vai além:

Gaza se recobria de gaza, o mais que podia, tripinha a vazar, tripinha de morte ferida, tripinha terminal. Quem te há de recordar? Alfarrábio esfarrapado, esquecido. Mas nós vimos! Acompanhamos ao vivo o genocídio que te varreu. Mas quem há de crer em nós, que também passamos e deixamos passar?

O autoproclamado “defunto autor” mostra-se dolorosamente atento ao mundo, à crueldade da vida. Descreve o próprio fim, sempre com fino humor, como em Cruzadas:

mão sobe

mão desce

verso sobe

verso cede

mão sobe

peito desce

peito sobe

mão desce

hora cruzam.

E o poema se completa quando voltamos ao título, num jogo bem característico do seu estilo. Brinca com significados, dá pistas enganosas, sugere ecos de poesia clássica, e subverte tudo com piruetas encantatórias.

Embora declare-se “enjoados/ um e outro/ o mar de devolvê-las/ eu de lançar”, não é demais supor que o “autor defunto” ainda se levantará da tumba, indignado e chistoso, atirando suas garrafas no oceano literário que banha as praias do século XXI.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda)

O raso e o profundo

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Pense em poças d’água refletindo o céu. Você pisa nelas, e no máximo sente alguns respingos na barra da calça. Mas uma delas esconde um poço, e você ao pisar mergulha fundo, surpreendido. Muitas vezes abrimos um livro de contos contemporâneos, desses que parecem feitos para serem divulgados nas redes sociais, e cruzamos uma longa calçada cheia de poças rasas. Às vezes um ou outro molha as canelas.

Vozes para Tímpanos Mortos (Editora Litteralux, 2025), de Mario Baggio, é o oposto disso. São contos curtos, alguns com meia página, pouquíssimos chegando à terceira página. Porém, mal acabamos de cair num poço e entramos em outro. E precisamos respirar fundo por alguns minutos para recuperar o fôlego. Mestre da história curta, Baggio se diferencia da grande maioria dos cultores das formas breves por evitar a facilidade da piada e a ligeireza da crônica. Quanto mais sintético, mais contundente. Quanto menor a poça, mais fundo o poço. Deixa a impressão de que se esticar um pouco mais o enredo a coisa se esgarçará, perderá a tensão.

Sabemos que escrever um romance, um conto ou um poema exigem talentos e ferramentas diferentes. Não é apenas técnica, domínio da forma, do artesanato específico que envolve cada texto. É também certeza do conteúdo, da mensagem, do que quer transmitir. Poucos mestres exercitaram o conto e o romance com a mesma qualidade. E raríssimos conseguem trabalhar as formas curtas como quem fabrica, a partir de um bom fermentado, um destilado superior.

O último – e mais sintético – conto do volume, Verdade, tem apenas quatro linhas.

Enquanto lia um livro, o menino chorava. Sua mãe perguntou:

– Querido, por que está chorando? Tudo o que está escrito aí é mentira.

O menino respondeu:

– Mas o que estou sentindo é verdade.

Isoladas do conjunto talvez estas poucas linhas não deem ideia da ficção do autor. Mas simbolizam, de forma precisa, a concentração de sentidos que o autor busca no conjunto da obra.

Mario Baggio usa com sabedoria o fecho de ouro, tão caro à literatura dos séculos anteriores – e tão esquecido neste -, conjugando-o com uma escritura fluente, sem floreios, que incorpora termos internéticos modernosos acompanhados de boa dose de ironia.  Não há descrição de cenários, e muitas vezes os personagens nem tem nome.

Ora em chave realista, ora em clima de sonho – ou pesadelo -, Baggio reafirma em Vozes para Tímpanos Mortos a capacidade de surpreender o leitor com enredos insólitos envoltos em escrita engenhosa e original.

(Publicado originalmente em https://aterraeredonda.com.br/)

As chamas da insensatez

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Um linchamento ocorrido em Chapecó, Santa Catarina, em 1950, é o ponto de partida do romance O Fogo do Fogo do Fogo (editora Penalux, 2023). Poderia ser apenas um romance histórico baseado em fatos reais, mas Eduardo Sens consegue, de forma engenhosa, criar uma narrativa tensa, totalmente contemporânea, ao inventar um personagem frágil, gago e socialmente inadaptado, que resolve ir em busca do seu próprio passado.

Bartolomeu, um programador de computação que vive em Porto Alegre, recebe a notícia de que sua avó morreu, em Iraí, interior de Santa Catarina. Há três anos longe da família, que se resume à mãe e à avó, enceta a viagem de ônibus para a despedida. Narrado em primeira pessoa, sabemos logo que ele nunca conheceu o pai ou avô. É filho e neto de mulheres solteiras e estigmatizadas por todo o preconceito que ocorre nesse contexto.

Nos pequenos guardados da avó, a mãe lhe entrega um cartão postal, com uma mensagem dubiamente amorosa. O remetente é um padre, e Barto, como a mãe o chama, resolve ir atrás de sua origem. Com prática em pesquisa na internet, logo descobre que o padre Ebbert atuava em Chapecó, município a 80 km de Iraí, na década de 1950, e está diretamente envolvido com o bárbaro evento.

Até certo ponto, Eduardo Sens não está inventando. Promotor de justiça, foi o responsável pelo resgate e transcrição do processo do linchamento de Chapecó, que ele disponibiliza através de um QR Code inserido no livro. Foi premiado em 2019 pelo romance De Quando Éramos Iguais, pela Academia Catarinense de Letras, e é autor de literatura infantil, obras jurídicas e romances. Como sua colega paulista Maria Fernanda Elias Maglio, defensora pública e escritora premiada com o Jabuti em 2018, utiliza o material bruto com que trabalha para criar ficção de alto nível.

Em linguagem enxuta e condizente com a construção psicológica de Bartolomeu, a narrativa trabalha em planos temporais diferentes, e na segunda metade das suas 228 páginas surge um elemento sobrenatural. Quando fantasmas começam a seguir o protagonista, formando um cortejo de linchados e linchadores, onde nem sempre está bem claro quem é quem, Sens insere sutilmente uma pista. Barto revela que na sua infância o único livro do qual se lembra na prateleira da pobre casa em que nasceu é um de Érico Veríssimo.

Quem conhece a obra do autor gaúcho, logo percebe que não se trata do épico O Tempo e o Vento, mas do alegórico Incidente em Antares, onde os mortos se levantam do cemitério para “fazer justiça”. De forma habilidosa, Eduardo Sens nos faz compartilhar dos delírios de Bartolomeu, em sua jornada palmilhada até Florianópolis, em busca dos autos do linchamento que teria sido causado pelo suposto padre-avô ao ter a igreja incendiada.

Além da originalidade do argumento, a forma com que o romance é escrito demonstra um autor consciente das ferramentas que utiliza, com as quais recupera um episódio nebuloso e especula sobre as possibilidades e limitações humanas perante crimes e tragédias que parecem, à distância, serem irracionais, mas cujas causas estão muito próximas de todos nós: intolerância, fanatismo religioso, preconceito e o maligno espírito de boiada, que tanto pode causar linchamentos quanto tentativas de golpe de estado.

Antropoceno, literatura e emergência climática

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A discussão acerca do Antropoceno já completa mais de duas décadas, e o termo ainda não é conhecido pela maioria das pessoas. Nomear uma era é diferente de nomear uma nova espécie, requer um consenso científico que ainda estamos longe de alcançar. No entanto, cada vez mais se torna urgente compreender o significado profundo do conceito, cada vez mais ligado às transformações climáticas que estamos vivendo. Dar nome ás coisas é um processo essencial da humanidade.

Ana Rüsche, no livro Quimeras do Agora*, destrincha minuciosamente a questão. Em 150 páginas o volume, que traz o subtítulo de Literatura, Ecologia e Imaginação Política no Antropoceno, a autora mapeia o surgimento da palavra-conceito, e a partir da definição mais aceita discute seu significado simbólico na ciência e na literatura de ficção. 

Antropoceno seria a era em que a ação humana (antropos) provocou alterações mensuráveis no planeta, seja no solo, na atmosfera ou nos oceanos, interferindo na vida de outras espécies. Ou da própria, uma vez que há uma tendência a considerar o início da era a chegada nas Américas, trazendo doenças e armas que exterminaram mais de 50 milhões de habitantes nativos e provocaram um desequilíbrio ambiental.

Há autores que propõem outras referências nominais (Plantationceno, Capitaloceno, Quintário), e a autora explana isso de forma didática na primeira parte do livro. Fruto de uma pesquisa acadêmica de pós-doutorado, seu objetivo é mostrar como a literatura antecipou essa discussão, através de utopias e distopias, representando a interferência humana na natureza e o surgimento de quimeras e monstros que fogem ao controle da espécie supostamente “dominante”.  

Ana Rüsche parte de pensadores clássicos, como Platão e Thomas More, dedica atenção a Mary Shelley (Frankenstein), chega a contemporâneos como Lovelock, Ailton Krenak, Naomi Klein, Fredric Jameson e Donna Haraway, e convoca uma série de autores da chamada ficção científica.

A chamada literatura de antecipação muitas vezes colocou a questão do desequilíbrio ambiental, da destruição de outras espécies, da poluição descontrolada e da superpopulação humana, e a autora trata isso como sintoma, prenúncio, zeitgeist, com numerosos exemplos do ciberpunk, solarpunk e outras correntes estéticas do gênero.

A literatura brasileira merece atenção, com destaque para o sombrio Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão, lançado (e censurado) em plena ditadura. Da utópica Pasárgada de Manuel Bandeira, passando pelo naturalismo científico de Euclides da Cunha, a noção de um país que já foi chamado poeticamente de “paraíso perdido” ganha a perversa denotação de paraíso perdido, mesmo.

Podemos encontrar ecos sintomáticos do desequilíbrio ambiental provocado pelo homem na conhecida obra de J. J. Veiga, A Hora dos ruminantes, publicada em 1966, e até mesmo na curiosa antecipação de Monteiro Lobato em A Reforma da Natureza, de 1939.

Obviamente a autora não pode ter lido toda a ficção contemporânea escrita no Brasil, mas certamente podemos estabelecer conexões com obras recentes como O Som do Rugido da Onça, de Micheliny Verunschk, que parte da expedição científica de Spix e Martius pelo Brasil em 1817/1820, ou do livro de contos Nós, cegos, de Sandra Godinho, onde o fio narrativo é conduzido por uma árvore na Amazônia, em chave mais fabulista.

O premiado O Poema Imperfeito, de Fernando Fernandez, professor da UFRJ, também pode ser considerada uma obra que gira em torno destes temas, e que virou até filme, apesar de não ser ficção. O subtítulo, Crônicas de Biologia, Conservação da Natureza e seus Heróis, é autoexplicativo. O autor também escreveu Os Mastodontes de Barriga Cheia, e suas crônicas podem ser lidas como pequenos ensaios. Fernandez defende a hipótese de que os grandes vertebrados do final do Quaternário (mamutes, preguiças gigantes, tigres-de-dente-de-sabre, gliptodontes, entre outros) não se extinguiram por mudanças climáticas, mas pela ação humana, o que poderia ser um novo marco para o nosso Antropoceno.

O cientista americano, filho de imigrantes, Jared Diamond, no seu livro Colapso, coloca outra assustadora possibilidade: a de que vários impérios e civilizações da Antiguidade não desapareceram por causa de guerras ou conflitos internos, mas por não saberem enfrentar seus problemas ambientais. Uma ideia que altera profundamente o conceito que temos da História, para dizer o mínimo.

Enquanto a ciência discute a questão, a literatura ficcional continua sendo um campo inesgotável de especulações e hipóteses. Como diz Ana Rüsche na abertura do trabalho, “Dar forma a ideias e retratar o mundo são o cerne do fazer literário. (…) Nomear é construir um mundo, um conceito, uma forma de compreender as coisas, mesmo que dependam da materialidade para de fato acontecerem.” A partir disso, propõe questões que estimulam leituras e releituras, e tornam ainda mais urgente a necessidade da ficção como elemento para compreensão do mundo em que vivemos, antes que este seja destruído.

(Publicado originalmente em A Terra É Redonda).


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