
Para aqueles que ainda tenham paciência: continuo a blogar no blog Nenhures. Agradeço as visitas, feitas convívio.

Para aqueles que ainda tenham paciência: continuo a blogar no blog Nenhures. Agradeço as visitas, feitas convívio.

(Ilha de Moçambique, Fotografia de Miguel Valle de Figueiredo)
Termino este blog. Entre a minha crescente falta de assunto e, também, de vontade de botar, fica este por aqui. Para os alguns que ainda têm a gentileza de por aqui passar deixo que ainda andarei, de vez em quando, pelo Delito de Opinião e pelo És a Nossa Fé.


Dizem os entendidos, e nisso deverão ter razão, que o melhor Craverinha foi o de mais tardia publicação, e de mais íntima verve (o livro “Maria”, em seu torno), assim algo desvalorizando, pelo menos comparativamente, as suas primeiras e mais programáticas décadas, aqueles de “Manifesto”, o da proclamação da legitimidade cultural e política local. Será, repito, talvez verdade. Mas regresso ao Xigubo, ao velho Craveirinha, então mais novo, claro. E há nacos de uma sapiência …
“Ajoelham-me aos pés dos seus deuses de cabelos lisos / e na minha boca diluem o abstracto / sabor da carne de hóstias em milionésimas / circunferências hipóteses católicas de pão. / E em vez dos meus amuletos de garras de leopardo / vendem-me a sua desinfectante benção … / Efígies de Cristo suspendem ao meu pescoço / em rodelas de latão em vez dos meus autênticos / mutovanas da chuva e da fecundidade das virgens / do ciúme e da colheita de amendoim novo.”
É este um trecho do seu célebre – e ideologizado dirão os “estetas” de hoje – “África“. Escrito lá pelos anos 1950s, presumo. Informo os que não sabem que “mutovana” é um amuleto. E que quase 70 anos depois continua a ser raro – entre boreais e austrais – quem diga, escreva ou pense algo assim. Principalmente lá pelo sul, cada vez com mais crendices cristãs e/ou corânicas. Mas também muito pelo norte.

Em 1999 o incansável António Sopa organizou este curioso pequeno livro duplo: “Contacto e Outras Crónicas” e, do outro lado em formato invertido, “A Seca e Outros Textos” de Rui Knopfli – uma glosa do “verso e anverso” que os dois autores seriam, mutuamente -, duas colecções de textos, textos de opinião de Craveirinha, idem e breves contos de Knopfli, publicados nas décadas de 50 e 60.
Releio bocados – francamente, pouco me diz este Knopfli, bem diferente de quando poeta. Mas Craveirinha? Ui, aguçado como lhe eram as unhas (alguém se lembrará das suas enormes e tratadas unhas?).
Deixo três breves citações, com dedicatórias. A primeira (de 1957) para todos. A segunda (também de 1957) para os sacralizadores lusos no “empreendedorismo” turístico – e lembrando-os que o texto é do poeta nacional moçambicano, que entre outras coisas esteve preso 4 anos por ser independentista; a terceira (de 1964) – que será necessário extrapolar – vai para os gauchistes multiculturalistas, mais ou menos pós-modernos pós-coloniais. E lembrando-lhes a mesma coisa. Se, claro, forem capazes de simples acto intelectual da extrapolação – coisa que, neste país carregadinho de académicos racialistas, muito duvido.
– “Oh, missão ingrata esta, a de escrever verdades” (p. 19).
– “Todos nós sabemos que Lourenço Marques é das cidades mais visitadas por turistas sul-africanos … Quando se faz turismo não se pretende encontrar fora da terra natal o que se nos tornou banal na nossa. Se não, qual o atractivo do turismo? … Não se requer subserviência de idioma … Os barbeiros, cabeleireiros, alfaiates, hoteleiros e outros que tais, estão menosprezando a esperteza do forasteiro, dando-lhe facilidades a mais na vida. Vamos puxar pelos seus reflexos, fazê-lo descobrir a bela língua portuguesa; língua bonita, língua com história … Escrevendo os letreiros somente em português continuamos amigos à mesma; a diferença é que passamos a dar ao que é nosso o justo valor: o valor das coisas que nos pertencem e fazem parte cá da Casa. Casa esta que é nossa.” (em “Barber’s shop, boarding house, ice-cream today e outras barbaridades”, pp. 21-22).
– “E é crença de muitos esclarecidos que uma temática estritamente enraízada no folclore de Moçambique só poderá ser interpretada por indivíduos de cor. Não.” (em “Canção da Angónia”, um elogio a Gouvêa Lemos, p. 25) – e, já agora, se me aparecer aqui algum intelectual a apoucar o uso da palavra “folclore” saiba de antemão que deve é ir estudar em vez de se “armar aos cucos”.

Voltar a casa, após um ano. É voltar às estantes, militantemente desarrumá-las, ler bocados, livros a reler, recomeçar os abandonados, reesquecer os esquecidos. Depois, uns dias depois do tal regresso, acampei aqui, esteira e tudo, debaixo das estantes moçambicanas. Reabri e releio, entre tanta outra coisa, dois livros de entrevistas a escritores moçambicanos (melhor dizer, de Moçambique), ambos publicados em 1998, este “Encontro com Escritores” de Michel Laban, 3 volumes, e o “Os Habitantes da Memória”, de Nelson Saúte.
Ambos começam com Aníbal Aleluia, o qual infelizmente nunca conheci, falecido antes de eu chegar a Moçambique pela primeira vez. Grande verve, excelente pensamento, e modo absolutamente excêntrico no país. Noto que perdi o seu MBelele e Outros Contos – e irrito-me comigo mesmo, pois é o tipo de livro que dificilmente reencontrarei, num mundo em que abunda tralha “autorada” por gente iletrada e Aleluia não é reeditado. Será lido? Mas vejo via motores de busca, e assim me “des-irrito”, que o Nelson Saúte escreveu, e bem, há pouco um “Elogio a Aníbal Aleluia” – que assim recomendo.

Vou agora reler o seu curto “O Gajo e os Outros“, o que dele me ficou. E deixo duas citações das suas entrevistas, que muito mostram o perfil: do intelectual e do cidadão. Decerto que foi daqueles homens, inquietos, com quem se aprende. Ao contrário de tantos simpáticos que para aí andam, perorando:
“Fui marcado por um tal de Romão Félix que, sob o pseudónimo de Parafuso, utilizou o método dos blackface minstrels usando um pseudo-linguajar de negro a que muito racicamente chamavam de “pretoguês” para fazer pouco, principalmente, do negro evoluído. Epígonos de Parafusos e macaqueadores de vária espécie recuperam esse linguajar que o nosso poeta nacional [Presumo que Aleluia se refira a Craveirinha] escalpelizou um dia. Na onda de desvios e anfibologias oraculizantes surgem os espíritos levianos e dão-se as mãos em elogios mútuos num cabotinismo concertado. E é assim que esses movimentos parecem vingar, até que um dia apareça um inocente a mostrar a nudez do rei. A tristeza é quando aqueles que de facto têm jeito e sabem distinguir os caminhos a percorrer batem palmadinhas nas costas dos imitadores desajeitados” (em Nelson Saúte, Os Habitantes da Memória, p. 29).
E depois (em Michel Laban, Moçambique: Encontro com Escritores, 37) ao apropriar-se de Guerra Junqueiro para referir a sua terra de então. Mas um dito que devemos reclamar de volta, pois radicalmente nosso, não sei dos outros: “Isso que para ai está é uma bacanal de percevejos numa enxerga podre”.

Anteontem, quarta-feira 31 de Julho, Pedro Ayres de Magalhães fez sessenta anos. Um mero aniversário, uma alheia idade redonda, poder-se-ia dizer. Mas este tem um significado especial, anuncia que a minha geração passou assim, oficialmente, a sexagenária. Pois se Pedro Ayres nunca foi um “homem da frente” – o “front man” da mística rockeira – foi, de facto, o “homem do leme” da geração subsequente ao 25 de Abril. Não me vou por aqui a botar sobre ele: nem o conheço pessoalmente nem sou especialista em música. Mais vale escutá-lo (entrevista radiofónica) ou lê-lo (entrevista à revista Sábado; entrevista ao jornal i). Dizem-me que Edgar Pêra sobre ele fez um filme, mas ainda não vi.
Fico-me pelo registo: um tipo que andou na linha da frente do punk em Portugal (aqui deixo ligação para “Bastardos“, um documentário sobre o punk português), desde os seus Faíscas, e seguindo para o grupo iconoclasta Corpo Diplomático. Eram tempos bem diversos (e aconselho mesmo as suas entrevistas, para se entender em particular o universo rural com que estes urbanos se deparavam, o tão diferente país de então, ainda espartilhado e sofrendo as mágoas das guerras coloniais recém-findas). Depois foi a alma-mãe dos Heróis do Mar, que tantos disseram (e continuariam a dizer, se se lembrassem de efemérides ou similares) como fascistas: quando de facto os Heróis anteciparam os anos 90s, esses que só terminaram em 2004, o reencontro do país Portugal consigo próprio, a celebração passada que fora a era do país pária. Uma nação, história e identidade, que comemoravam – mesmo que hoje o seu som surja imensamente datado, como “pop” que era -, enquanto também cantavam “este país é uma prisão“, no afã de pontapear o provincianismo então hiper-dominante, sufocante mesmo. A polémica que surgiu há algum tempo, quando Manel Reis morreu, mostra bem o quão provinciano ainda vai o meio – mas também que os locutores actuais, que então se dividiram numa “esquerda” celebrando-o e numa “direita” invectivando-o, em termos até paradoxais, não percebem nada daquela era, esses anos 1980s em que os Heróis foram marcantes. É certo que os hinos que ficaram foram os dos Xutos mas a atitude que frutificou foi, em parte (bom seria que mais tivesse sido) foi a dos Heróis. Entenda-se, a de Pedro Ayres.
Muito se celebra agora António Variações, feito ícone. Convirá então lembrar que foi Ayres (e o seu quase constante parceiro Carlos Maria Trindade) que lhe produziu o disco final. Como também foi ele que, através do Resistência, congregou repertórios e músicos – não só de diferentes estilos mas, algo tão difícil naquele tempo de cesuras constantes, também de diferentes aparências políticas. Assim concertando Portugal. Depois foi ele o verdadeiro Pigmalião do Madredeus, esculpindo não só a cantora mas também repertório e trajecto. E com este internacionalizando a música popular portuguesa, reabrindo caminhos (que décadas antes Amália havia percorrido sem deixar sucessores), os quais vieram depois a ser seguidos, ainda que sem o seu brilho, por artistas como Mariza ou Dulce Pontes.
É um trajecto musical fantástico, feito sem cedências ao meios dominantes, muito radicado num individualismo – meritocrático, parece-me. É diante disto que continuo a repetir, Ayres de Magalhães é o homem da nossa geração que maior impacto cultural teve no país. Tem tido. A alumiar. Obrigado. Parabéns. Que venham mais anos, com saúde e sucessos.
Na lusa pátria vai um burburinho por causa deste texto de Maria Fátima Bonifácio sobre quotas “étnico-raciais”. Tamanho que até o director do jornal Público veio gemer um editorial, desculpando-se, uma coisa patética:
1. O texto de Bonifácio é uma borregada, monumental. Porque é um bramido de disparates, próximos da demência senil. Ou mesmo já lá. E, fundamentalmente, porque na sua vetusta patetice dá força “àquilo” que quer combater, a turba dos “étnico-racialistas”. (Já aí está um texto de uma senhora do PSD, muito actualizada no “quotismo”, a mostrar como tudo se vai seguir).
2. Gritam que é um discurso de “ódio”, e o tipo do Público até com isso concorda. Se é certo que o texto é uma pantomina do que é a reflexão convirá ter algum cuidado nessa invectiva, que é proto-censura. Se eu, ou outrem, disser que as testemunhas de jeová (que agora alugaram um estádio em Carnide, Lisboa, para o seu congresso) ou os seus primos da IURD são uma mole de supersticiosos ignorantes, que não se integram no racionalismo desejável, estou a fazer um “discurso de ódio”? Não. E com toda a certeza que não serei apedrejado em Lisboa. Mas será exactamente o mesmo tipo de discurso, de menosprezo mas não de “ódio”.
3. Bonifácio critica o PS (por via da entrevista de Pena Pires) por causa das quotas “étnico-raciais”. Este dirigente daquele partido anuncia que o PS poderá vir a assumir a tal posição “étnico-racialista” na composição das suas listas de deputados. Isso é apenas assunto desse partido, no afã de ganhar votos até à maioria absoluta. Lembro que o PCP tinha (ou tem) quotas nos seus órgãos (a maioria tinha que ser operária) e isso não chocava ninguém. Face a essa possibilidade no PS só tenho uma questão, perfeitamente legítima e empiricamente justificada: será que as lojas maçónicas já têm as tais quotas ou as vão instalar, andam os maçónicos por aí com afã a recrutar ciganos e pretos (perdão, afrodescendentes)? E é essa a questão relevante, não a tralha dos deputados Benetton que vão agitar.
4. Pelo que leio no artigo do Público em que Pena Pires é entrevistado sobre a matéria (que está ligado no texto de Bonifácio, e por essa via a ele chego) o prestigiado sociólogo deixa entender que a visibilidade pública – na tv e na política – reduz a discriminação e impulsiona a mobilidade social. E que a frequência universitária também reduz o racismo. E daí que defenda o “quotizar”, tanto nas listas políticas como no acesso à universidade e também na tv – tudo isso me lembra um artigo do Público (jornal muito militante desta tralha) em que uma artista “afrodescendente” dizia ter emigrado por causa da discriminação em Portugal, pois não encontrava negros nos anúncios de shampoo, nem nas telenovelas, o que lhe causava enorme incómodo. O registo intelectual é o mesmo. Ainda que o prestígio intelectual de Pena Pires seja bem superior, e justificadamente, ao dos militantes jornalistas do Público.
5. Para qualquer tipo que queira evitar/confrontar o comunitarismo e respectiva “quotização” da população portuguesa e imigrada, para qualquer democrata republicano, a primeira coisa a fazer é mesmo pontapear a tralha bonifácia. Insalubre. E depois perceber uma coisa: o mundo não é o eixo Largo do Rato – (agora também) Buenos Aires, rua – Bairro Alto. Ou seja, o racismo será a ideologia dominante de XXI. Não se combate com a legitimação das suas falsas categorias. Nem anuíndo ao lumpen-intelectual local.

(Na morte de João Gilberto republico este postal de 2016 no Courelas, e que chamei “Autobiografia ideológica”)
Dizem-me reaccionário e coisas dessas, “como ficaste assim?” ri-se, amigo, um amigo … Não o sou mas lembro-me de momentos cruciais a formar-me, a sacudir os nichos pérfidos e impensantes do meu meio social, aquela “Lisboa” a fazer-se após 74, moles de gentes a malpensarem-se progressistas. Ideologicamente tive alguns momentos marcantes, alguns que terei esquecido com as décadas, outros que ficaram. Este foi o mais marcante.
Em 1984, aos meus 20 anos, João Gilberto veio a Lisboa, para dois concertos no Coliseu dos Recreios. Acorri. A gente foi temendo o que se passaria, na véspera o gigante tocara apenas 40 minutos, irritara-se dado que lhe tinham mudado a disposição dos micros que aprovara no teste sonoro, resmungou que não se ouvia a ele próprio e abandonou o palco, reportava a imprensa do dia. A fama de perfeccionista irascível precedia-o e nem percebo como tal teria acontecido, esse descuidado abuso. Enfim, lá fui, com amigos, no desejo que tudo corresse bem no dia. Já na sala galgámos ilegalmente da plateia apinhada para o balcão, mesmo sobre o palco. E o homem lá veio, para um espectáculo completo, absolutamente encantatório.
Em certo momento, casa já conquistada (estava-o, logo à partida), avança com o standard, que já dele também já era, Uma Casa Portuguesa (que só muito depois vim a perceber ser peça laurentina). E, espantosamente, da plateia surgiram alguns assobios, nada aclamatórios, que se vieram a repetir durante a canção. Pois para aquelas pobre mentes – a quem ainda não chamávamos “pós-modernos” e muito menos “bloquistas” – aquilo, a Uma Casa Portuguesa, era o símbolo, a Amália, o fado, o fascismo, sei lá mais o quê , e os símbolos a la carte eram-lhes odiosos – só uns anos depois, e já agora também por influência de alguns antropólogos portugueses, é que descobriram que o fado era popular, recomendável.
E lembro-me do nojo que senti, até envergonhado, daqueles parcos assobios, e do meu “estes gajos não prestam para nada”. Nunca me passou esse nojo. Eles, os assobiadores, cresceram em número. Mas também nós, os que aplaudimos, “sob um sol de primavera”. Fazemos é menos barulho, interrompemos menos o artista …