sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

O ismaelismo como experiência de civilização I

 

Tenho uma simpatia especial pelo sufismo e pelo ismaelismo, e de certa forma pelo xiismo em geral. Mas as minhas simpatias não são critério senão para mim, não para os outros. O mais importante é verificar quais os traços civilizacionais que caracterizam o ismaelismo e o mundo islâmico em que nasce e cresce. DAFTARY, Farhad, The Ismāʽīlīs. Their History and Doctrines, Cambridge University Press, Cambridge, 2007, mostra que sob o ponto de vista civilizacional os ismaelitas demonstram traços comuns do mundo islâmico.

Todas as denominações islâmicas perseguem as outras, e os de outras religiões:

1)    A hostilidade e perseguição pelas dinastias e grupos muçulmanos (pp. xv-xvi). Os wahabis destroem as tumbas de xiitas na época moderna (p. 86). O xiismo em geral é perseguido pelos Omíadas (p. 48). O muito tolerante califa Harun al-Rashid persegue os xiitas (p. 89). À sua morte, os ismaelitas de Alamut festejam (p. 356). Os Nizaris eram um alvo para os outros muçulmanos (p. 24). O califa al-Mansur em 758 toma medidas contra os xiitas (p. 79). Abu’l-Khattab, xiita, é preso e crucificado (p. 85). No século VIII o imã tem de se esconder para fugir às perseguições dos abássidas (p. 95). Em 900 o califa al-Mutahid mandou um exército de dois mil homens contra os Qarmatis (p. 110). Um dos juristas sunitas consegue instigar o povo de Rayy contra os ismaelitas (p. 111). No século X os ismaelitas do Khurasan e da Transoxiana foram severamente perseguidos (p. 113). Quando no século XII os sunitas sucedem aos fatímidas destruíram sistematicamente as bibliotecas destes no Cairo (p. 5). No século XI o sultão Mahmoud de Ghazna invade Multan e massacra os ismaelitas (p. 116). Os ismaelitas do Norte de África são massacrados pelos sunitas no século XI (p. 183). Perante o sucesso da propaganda ismaelita no século XI o califa abássida al-Qadir (991-1031) tomou medidas retaliatórias (p. 185). Em 1044-1045 os sunitas massacraram ismaelitas em Bukhara da Ásia Central (p. 203), e há novos massacres em Balkh no actual Afeganistão (p. 206). O sucesso da propaganda ismaelita, em especial no Iraque e na Pérsia, no século XI levou a uma reacção hostil dos abássidas (p. 209). Nos anos de 1990 os sauditas perseguiram fortemente os Sulaymanis de Najran (uma facção de ismaelitas) (p. 298). Os Ayyubids do Egipto, durante o domínio de Saladino, deixaram os líderes Hafizis fazer luto publicamente no Cairo para melhor os identificar, prender os seus membros e confiscar as suas propriedades (p. 254). Esta dinastia de Saladino impôs o sunismo como religião de Estado e com as suas perseguições tornou o ismaelismo clandestino (p. 261). Tanto os seljúcidas como Saladino queriam a extinção do xiismo nas suas várias modalidades (p. 316). No século XII ismaelitas matam-se entre si (p. 372). No século XI os abássidas atacam os ismaelitas (p. 318). Também no século XI há perseguições contra os ismaelitas (p. 320). Os assassinatos pelos ismaelitas incentivaram o seu massacre (p. 329). Quando no Iémen o ismaelismo foi substituído pelo sunismo como religião de Estado os ismaelitas foram severamente perseguidos (p. 263); também na Síria foram perseguidos (p. 261). Os Ayyubid, a família de Saladino, são os mais perigosos inimigos dos ismaelitas, os Nizaris sírios (p. 369). Nizaris mortos por ordem de sunita no século XIII (p. 384). Em 1125 os habitantes de Amid matam um grande número de Nizaris (p. 347). Em 1129, em Damasco, a população, em maioria sunita, mata mais de 6000 ismaelitas e rouba as suas propriedades (p. 348). No subcontinente indiano há perseguições periódicas de ismaelitas (p. 385). Em 1271 os sunitas Baybars, sultões mamelucos do Egipto, prendem um chefe ismaelita porque o suspeitam de colaboração com os cruzados (p. 401). No século XIII no Iraque os sunitas perseguem os xiitas (p. 370). No século XIII os sunitas mantêm a tradição de periodicamente matar ismaelitas (p. 374). Mais uma vez em ambiente multicultural a maioria religiosa sob a suspeição de duplicidade. Depois da queda de Alamut, Estado ismaelita, há uma perseguição geral dos ismaelitas pelos sunitas (p. 404). Sob os otomanos os Nizaris da Síria levam uma vida sem peripécias (p. 408), o que se pode explicar por serem irrelevantes na altura. As perseguições contra os Nizaris em ambiente sunita muito hostil (p. 412). No século XIV no Norte da Pérsia, quando Kiya Sayf al-Din Kushayji é abertamente Nizari, suscita as reacções hostis dos governantes vizinhos (p. 415). Em 1592 os Nizaris são perseguidos (p. 415). No século XIV na Pérsia um sufi influenciado pelo ismaelismo é condenado à morte por juristas sunitas (p. 421). No século XV há líderes sufi exilados (p. 427). No Norte de África do século X os sunitas odeiam os fatímidas (p. 141). Em 1598 o xá Abbas I continuou a política dos seus predecessores de perseguição contra os sunitas, a maioria das ordens sufis e alguns movimentos radicais xiitas (p. 437). Os Timuridas do século XVI, sunitas perseguiram os ismaelitas do Badakhshan (agora no Afeganistão) (p. 452). Os ismaelitas são perseguidos na India Mogol (p. 284). Só com a decadência do império mogol em 1707 os ismaelitas derem desenvolver-se com alguma liberdade. (p. 285). No século XVII os sunitas perseguem até à extinção o xiismo no Deccan (p. 456). No subcontinente indiano Muhammad de Ghazna perseguiu os ismaelitas do Sind e destruiu o seu Estado de Multan (p. 200). Mesmo na Índia entre os séculos XIV e XVI os sunitas perseguem os ismaelitas (pp. 277-279). No Iémen do século XVI os ismaelitas são perseguidos pelos sunitas otomanos (p. 280). No século XVII na India períodos de pacificação intercalam-se com períodos de perseguição (pp. 282-283). A História dos ismaelitas é uma de perseguições, em suma, por outros muçulmanos (p. 504) (convenhamos: nem cristãos nem hindus tiveram muitas ocasiões de os perseguir).

2)    Também os outros xiitas perseguem os ismaelitas (p. 262). Da mesma forma, a partir do momento que assumem o poder na Pérsia perseguem os sufis e os sunitas (p. 435), os ismaelitas são objecto da hostilidade dos duodecimanos (p. 435). Os xás da Pérsia no século XVI perseguem fortemente os ismaelitas (p. 422). Amri é cegado por ser herético (também a p. 422). No fim do século XVII um ismaelita é cegado e executado por um duodecimano (p. 462). Em 1817 uma multidão de duodecimanos ataca um imã ismaelita (p. 463). As comunidades Nizaris da Pérsia são perseguidas pelos duodecimanos no século XIX (p. 490). No século XX ainda os ismaelitas são objecto da hostilidade dos «ulama» duodecimanos (p. 492).

3)    Os ismaelitas também perseguem. Há perseguição pelos fatímidas dos sunitas no Egipto de século XI (p. 192). A criação da figura do Mahdi não surge como forma de superar a «sharia», mas antes a de legitimar o uso da espada para impor o ismaelismo (p. 119). No Egipto no início do século XI os fatímidas perseguem os drusos (p. 188). O califa al-Kakim tinha uma política contra os dhimmi, cristãos e judeus (p. 180). Os fatímidas usaram a Sicília como base para raids contra as cidades costeiras da Itália e da França, assaltando Nápoles e Salerno, e com os seus raids contra as costas lombardas e da Lombardia obtêm um tributo anual dos bizantinos (p. 144). Em 934 o califa fatimida manda vinte navios contra a Itália saquearam Génova (p. 144). Em 967 os fatímidas obtiveram dos bizantinos poder de impor a «jizya» aos cristãos da Sicília (p. 145). Há frequentes raids de kabiles na Calábria e da Apúlia (p. 145). O líder Nizari chamou a Alamut vários teólogos (supõe-se sunitas) e mandou queimar os seus livros (p. 376). Um xiita duodecimano tem medo dos ismaelitas (p. 379).

4)    Os governantes referidos pela imprensa como particularmente tolerantes no islão também não estão isentos. O califa abássida al-Radi (934-940) manda executar o sumo sacerdote dos zoroastrianos porque achava que este era cúmplice de um xiita (p. 150). O imperador mongol mandou executar em 1610 um xiita duodecimano persa (p. 168).

 

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segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

O que diz o presidente do TEDH?

 

 

 

 


O Presidente do TEDH interveio contra o populismo que tenta restringir os poderes do tribunal (https://eclj.org/geopolitics/echr/la-cedh-critiquee-jurisprudence-immigration).

 

A sua intervenção é política e por isso merece uma resposta política. Pretende ser um actor na política e como tal merece resposta.

 

Em primeiro lugar, o TEDH não foi criado por obra e graça do Espírito Santo. e ainda menos por juízes. mas por actores políticos através de uma convenção internacional. Os mesmos actores que criaram o TEDH podem extingui-lo quando entenderem, e por maioria de razão podem modificar os seus poderes, nomeadamente restringindo-os.

 

A função dos juízes é obedecer a normas que não criaram, não a de criar normas. Mesmo que a pura aplicação do direito não exista, mesmo que todos reconheçam alguma margem de criatividade na justiça, não há Estado de Direito se todos os poderes - todos incluindo os judiciais - não tiverem contra poderes.

 

O Estado de Direito não é uma criação democrática mas aristocrática. É em Roma e nas repúblicas aristocráticas, Veneza, Génova, Suíça que se encontra a sua origem, não nas revoluções democráticas. A sua relação com a democracia é por definição problemática. Quem acha que o relacionamento entre a democracia e o Estado de Direito é pacífica sofre do simplismo que gosta de acusar nos outros.

 

Os direitos do homem não são implicação lógica do Estado de Direito. Talvez o presidente do TEDH ache que o legislador constitucional português é medíocre mas eu acho que foi bem avisado ao determinar que Portugal é um Estado de direito democrático assente na dignidade da pessoa humana.

 

O primeiro requisito de um Estado de Direito é o cumprimento da lei. Grócio dizia que um dos mais imprescindíveis princípios do Direito é o de que ninguém pode ser beneficiado por violar a lei. Quando um tribunal diz que alguém que tentou imigrar legalmente e foi recusado não tem direitos, mas quem violou o Direito ao entrar ilegalmente na Europa adquire por isso direitos, está a violar um princípio fundamental do próprio Direito. O seu fundamento são uma concepção dos direitos do homem contrária à própria ideia de Direito.

 

Os direitos do homem são sob o ponto de vista intelectual uma teologia menor, um sucedâneo do cristianismo. Como todas as imitações, tenta esconder a sua origem e envelhece mal. Que uma pessoa estude direitos do homem não me revolta. Que os estude quando desconhece a filosofia escotista do ens infinitum e por isso é ignorante da sua filiação já é um problema de insuficiência.

 

Um dos princípios da interpretação é a sinépica, ou seja, a ponderação de resultados. Quando juízes dizem que um criminoso que está ilegalmente na Europa, tem ódio aos europeus e à sua cultura, pratica crimes contra eles, mas por ter fornicado em território europeu e nele ter tido filho passou a ter direito a nela ficar em nome dos direitos do homem, e não se considera responsável por ponderar os riscos que ele cria para os europeus, perdeu a noção de sophrosine em que assenta toda a possibilidade do Direito.

 

Finalmente esquece-se que perante o descalabro não foram os juízes a salvar os povos. Os juízes na Alemanha nazi passaram alegremente da defesa do Estado de Direito para a das leis raciais. Não há memória que a maioria se opusesse a Hitler. Publicamente foram bispos aristocratas como von Galen e Konrad von Preysing ,e pastores como Bonhoeffer e católicas como Sophie Scholl que se opuseram. Veja o senhor presidente que confio mais em bispos e em aristocratas para dar a vida por mim que no presidente  do TEDH. Salvo se ele fizer declaração pública em que afirme estar disposto a dar a vida por mim. Que a dê então.

 

Cada vez que alguém usa a palavra «populismo» está a demonstrar um desprezo pelo povo que só se justifica se estiver seguro da sua árvore genealógica. Se um plebeu despreza o povo tenho de me vergar porque ele melhor conhece a sua família. Se o Senhor Guyomar for plebeu inclino-me perante a sua razão de ciência. Mas não se diga democrata. Mitterrand tinha muitos defeitos, mas sabia História. E disse que os tribunais destruíram a monarquia e agora vão destruir a República. Se o presidente do TEDH acha que Mitterrand era populista posso até conceder em parte. Mas assim só prova que não conhece História ou não ouviu Mitterrand.

 

Veremos o que fará quando os narcotraficantes venezuelanos e os fundamentalistas iranianos pedirem asilo à Europa e mais uns milhares de pessoas que a odeiam serão nela acolhidos em nome dos direitos do homem. Nessa altura sugiro que montem as suas tendas à volta dos juízes para eles descobrirem como é refrescante conviver com outras culturas. E quando um for roubado e outra violada tentarão fazer como fez uma juíza em França quando a sua casa foi ocupada ilegalmente: ela conseguiu em dias a desocupação que não está ao acesso do cidadão comum em anos. Mas a violada não terá a paz restituída e o furtado que reze por não ter sido degolado em nome de Santa Bárbara.

 

Se o TEDH não se preocupa com a segurança dos europeus, os europeus não se preocuparão com a segurança do TEDH. O TEDH foi constituído por europeus para cuidar dos seus direitos. O TEDH acha agora que foi constituído por obra de graça do Espírito Santo para cuidar dos direitos de todo o mundo. Julga-se bafejado, mas não é pelo Espírito de certeza, nem por tantas outras coisas mais importantes que os direitos do homem. Caso o TEDH não saiba do que falo, veja o David do Miguel Ângelo e verá o que lhe falta.

 

O Estado de Direito não é um valor absoluto. A democracia não é um bem absoluto. Os direitos do homem não são um bem absoluto. Caso o fossem não haveria qualquer contradição entre eles. Ora é o próprio presidente do TEDH a ter medo do que o voto popular vai ditar em relação à Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Cuidassem mais dos direitos dos europeus em vez de se pretenderem universais, sofrendo da pior espécie de etnocentrismo, o que não se vê a si mesmo, do pior erro de direito, esquecendo a ponderação de bens, de uma cultura que é bem mais estreita que as suas pretensões. Criaram alergias junto dos povos europeus que não sabem como curar porque não vêem além dos manuais de Direito - estreita ranhura.

 

Não esperem dos povos que legitimam a sua existência e ordenado um respeito que não lhes dão, uma gratidão que por eles não sentem, e uma identificação quando lhes negam a identidade. De pouco robusta filosofia, julgam que um especialista pode cuidar do geral e exigem respeito da sua posição hierárquica quando negam hierarquias. Conhecedores de uma vulgata sem ontologia, de divindades sem rosto e encantamentos sem magia, abandonaram os povos que os criaram para os defender e não sabem História bastante para saber que os do Parlamento de Paris, depois de darem triste destino aos seus concidadãos, desse destino partilharam. Assim elimina a História os que negam o seu poder. E em profiláctica assim obedeçam os servidores a quem têm de servir, seus soberanos, os povos.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

 

 

 

 

 

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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

As mulheres devem ser forçadas a ter sexo?

A resposta da classe política europeia nos últimos trinta anos tem sido inequivocamente: sim.

 

Senão vejamos.

 

Zbigniew Brzezinski, o anterior secretário de Estado do tempo do presidente Carter, disse que os europeus deviam ser forçados à adesão da Turquia. E porquê? Completam os políticos europeus: porque é bom para a Europa. Aliás, eram os próprios turcos, que em 1992 forçaram a sua adesão em troca de aceitar novos países na NATO, a dizer que era melhor para a Europa que ara eles. Nenhum país europeu candidato tinha tido tal pretensão. O que é bom deve ser forçado. Nisso os turcos dão-nos lições. Forçaram os europeus a coisas que os próprios turcos acharam boas.

 

A Europa deve receber imigrantes, sobretudo de países muçulmanos. Porquê? Porque é bom para a Europa. Por isso os países que não os querem receber devem ser punidos. É tão bom ter esses imigrantes que todos esperávamos que todos os países quisessem ficar com todos eles. Mas não. Querem impor aos outros uma coisa que dizem boa. É o que se chama de generosidade agressiva. É bom, e portanto devemos forçar os outros a ter. Imigrantes, portanto.

 

A lógica completa-se com trinta anos no Reino Unido, em que raparigas brancas são violadas e tornadas em escravas sexuais. A polícia nada faz quando os pais reclamam. E se estes insistem são acusados de racismo. Em 2015, perante centenas de alemãs violadas por muçulmanos, as ONG defensoras dos direitos dos homens dizem que as alemãs têm de compreender que os muçulmanos têm o colonialismo incorporado que é a origem da sua revolta. Se tivermos em conta as potências imperiais nos países muçulmanos do Levante, esse argumento mandaria que fossem turcas e não europeias a ser violadas. Violemos turcas, portanto? Haverá alguém que o pretenda?

 

Seja. Já sabemos. Se for bom deve ter obrigatório. A imposição do bem é comovente sobretudo da parte de quem não vê além disso.

 

Ou seja, mandam os políticos europeus que as europeias devem ser violadas. E, quem gosta, assim lhes dê esse crédito.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O axioma da escolha e o pecado original

 A história é conhecida por quem sabe um pouco da História da matemática. Zermelo enuncia o axioma da escolha e muitos matemáticos, alguns deles grandes, sobretudo da escola francesa, acham a conversa uma perda de tempo.

 

Ou por o axioma ser evidente, ou fantasista, ou simplesmente inútil. Não interessa neste caso saber o que diz o axioma. O importante é que Zermelo muito argutamente estuda textos escritos por esses mesmos matemáticos que o criticam e mostra que são precisamente eles a usar esse axioma nas suas demonstrações, sem disso terem consciência.

 

Para o historiador médio, ensinado a desconfiar de teorias gerais (o que em si é toda uma teoria geral). qualquer menção a um axioma geral na História é simples tontice. Vira a sua cara e pensa noutra coisa.

 

Pior ainda, se lhe dizem que esse axioma tem natureza religiosa, é mesmo um dogma, e, pior ainda, um dogma católico, nada poderá haver de mais execrável no catecismo que lhe ensinam.

 

O problema é que toda a crítica histórica séria assenta nesse axioma: o do pecado original. Quando as fontes históricas dizem que os culpados são os outros, que só fizemos esta guerra porque fomos provocados, é de bom método desmontar esta afirmação e ver que contributos deram os ditos puros e imaculados para uma situação de violência.

 

Em suma, a premissa é a de que todos temos pecados, e que uma testemunha histórica é tanto menos credível quanto diz que vem de um lado imaculado, sem qualquer pecado.

 

Eis o conteúdo do axioma escondido da crítica histórica. Girard já tinha mostrado que a antropologia europeia apenas poude existir por causa da desconstrução cristã do bode expiatório. Da mesma forma, a História só existe caso se assuma o pecado original.

 

Como os matemáticos franceses agastados com a enunciação do axioma da escolha, o historiador médio também não vai achar graça a esta ideia. Não há problema. Que não se queira ver nu é compreensível. Mas todos temos de perceber que todos, sem qualquer excepção, estamos nus por debaixo das roupas. E que de uma forma ou de outra, um e outro axioma mandatam que seja possível a escolha.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

 A classe política portuguesa e os académicos deviam ler isto, publicado em 2023 por Behzad K. Khani no Berliner Zeitung (não num blog conspiracionista)

«I think we have reached a point now where we can acknowledge certain obvious realities. We can even do so together. Soberly, if you like. Let’s start with the simple observation that we – migrants, foreigners, people of ... call us what you want – will not be going away anytime soon. And neither will you, dear bio-Deutsche. Well, demographically speaking, you are definitely going away. You are dying off at such a clip that your country will require around 400,000 new workers over the next 15 years, which means about one million immigrants per year. We migrants will probably inherit this country. We could play for time here. Time that you don’t have. But that’s just a side note.»

(Behzad K. Khani on New Year’s Eve: Integrate your damn selves!)


Que triste época esta, que miseráveis (ditas) elites

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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Lévi-Strauss e a matemática

 

 


Levi Strauss é um dos autores importantes de ocultação e evitação que permitiram a ignorância contemporânea. Um bom exemplo é o da sua relação com a matemática. Os antropólogos não  falam da questão porque não sabem matemática. Os matemáticos não  falam do problema porque não  sabem antropologia. E a imagem do antropólogo passa impune, na intersecção de duas ignorâncias.

Em síntese esta relação desenvolve-se em quatro passos:

1) 1)  Parasitar;

2) 2)  Ocultar;

333)  Deformar;

4)  4)  Abandonar.

Na primeira fase tenta parasitar o prestígio da matemática. Procura Hadamard, e este recusa ajudá-lo. Dirige-se a André Weil e este estuda as estruturas do parentesco numa perspectiva de álgebra abstracta. O livro de Lévi-Strauss é publicado com o anexo de Weil. Lévi-Strauss ostensivamente queria dar à etnologia o prestígio da matemática. Conseguiu-o. Ele, que era ignorante de matemática, recebia a caução de um dos grandes matemáticos da época.

Na segunda fase oculta. Na segunda edição do seu livro sobre o parentesco apaga, não só o anexo de Weil, mas também toda a sua referência ao matemático. Quando tem poder suficiente, usa um matemático como seu auxiliar mas na sua correspondência refere «um matemático» nem o nominar. Trata a matemática como simples matéria ancilar e o matemático como amanuense.

Na terceira fase deforma. Diz que o sistema de axiomas não pode ser rígido, que os axiomas devem ser semoventes. O que até poderia ser possível num sistema formal, mas sob a condição estricta de que esta mobilidade dos axiomas deveria obedecer a uma regra invariante do sistema. Mas, como Lévi-Strauss nada sabe de sistemas formais, não percebe isto. Por esta razão está mais próximo do surrealismo que da lógica formal. Isto mesmo que tenha mostrado desrespeito em relação a Breton, no que se mostra parte integrante da nossa época, feita de lealdades oficiais que escondem desprezos.

Na última fase já não precisa de qualquer referência à matemática, já tem poder suficiente. E para a abandonar precisa de um pretexto: não se pode aplicar uma matemática que é europeia a culturas que não o são. O que é inteligente como argumento. Ele, que adorava visitar o Japão, viajava de avião. Devia ter usado o mesmo critério. O avião, quando saísse da fronteira europeia, deveria obedecer a outras leis da física e matemática que não as europeias. O avião teria caído e ao menos nisto Lévi-Strauss nos teria dado um ensinamento sério com a sua morte. Dizer disparates teria consequências.

Que nos interessa esta história na nossa época? Isto são águas passadas, podem-me dizer.

Não. Mostra que a fraude está instalada nas universidades há muito tempo e que quem se surpreende com a fraude actual apenas mostra que andou adormecido. Também ele é correligionário de Lévi-Strauss. Enquanto não sofreu as consequências pode dormir o seu sono de beleza.

Sokal e Bricmont mostraram muitos casos de fraude intelectual de criaturas que citaram a física e a matemática em pura ignorância e apenas para impressionar o parolo.

O caso de Lévi Strauss mostra algo mais profundo. A fraude intelectual foi montada e planeada durante décadas. Nada tenho contra a formalização das ciências humanas. Mas nesse caso o que deveríamos esperar? Que só pudessem entrar em antropologia e sociologia pessoas com sólida formação matemática. Mas não. São pessoas que deixaram a matemática aos catorze anos sem saber o que é um integral, um seno, um quantificador, uma relação de implicação, em boa verdade muitas vezes nem sequer o que é uma regra de três simples ou uma equação quadrática... São estas pessoas que durante décadas fazem exames, trabalhos e teses sobre o problema da formalização das relações de parentesco ou dos mitemas.

Para agravar o facto de não saberem grego nem latim, e por isso o Perseu ou a Arícia dos etnólogos ingleses lhes escaparem.

O século XVIII usou amplamente o conceito de impostura, sobretudo a propósito de Maomé. É natural, muita da impostura que actualmente vivemos começa no próprio século XVIII. Que uma época seja obcecada com um pecado nos outros mostra quanto é  tentação em si.

Mas desde a II Guerra Mundial que o mundo se instalou numa rede de imposturas. E o cidadão comum viveu na ilusão de que era tudo lúdico. Ou seja, de que nada tinha consequências. Mas o tempo destas não é o tempo da lucidez do comum. Lévi-Strauss é apenas um entre muitos dos agentes de uma fraude que vem de longe. E quem desde há décadas avisa do horror passava por exagerado. Agora que todos podem perceber os seus efeitos, mesmo que não vejam as suas causas, apenas posso lembrar que as pestes que não se evitaram só se vão embora depois de fazerem vítimas. E só espero que em justiça sejam estas os que as deixaram entrar nas cidades. Mas também a justiça adoece com as pestes e apenas nos resta aceitar isso.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

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segunda-feira, 20 de outubro de 2025

La douce décadence da la France

La télévision publique française promeut la diversité. Elle promet avoir dans le futur des gens intelligents.

 

Rousseau disait que les femmes étaient trop stupides pour étudier la science. Non, ce n'est pas Sandrine, ce ne sont pas des Confessions.

 

Elle considère que la société de consommation ne fonctionne pas. Elle a raison. Elle dépense un argent fou en produits de beauté.

 

Elle dit qu’elle vit avec un homme déconstruit. La pauvre, qu’elle rencontre des difficultés avec la langue français. Il vit avec elle. Il n’est pas déconstruit. Il est défait.

 

Moscovici dit qu'il ne voit pas de rapport entre le christianisme  et l’Europe. Il a la vision et la beauté de Tirésias.

 

Fabius parle de l’identité heureuse, celle où il n’y a pas de la culture chrétienne. Elle n’est pas heureuse : elle est ridicule.

 

Pourquoi Jean Michel Aphatie veut détruire Versailles ? Pour la même raison qu'il aime se contempler au miroir. C'est sa vocation celle de contempler des ruines.

 

Le moderne a commencé sans culottes: il finit en contemplant ses siennes.

 

Sartre était un humaniste qui a applaudi la mort de millions de personnes.

 

Durkheim a dit : Dieu ou la sociologie. Il était rusé. Il voulait une alternative qui pousse  des candidats pour une et autre chose. Il ne s’y est pas mis, donc.

 

Lévi-Strauss voulait un monde retourné au Néolithique pour qu'il puisse avoir l'autorité de dicter les règles d'étiquette.

 

Un homme intelligent peut se tromper. Un intellectuel doit le faire toujours pour inspirer des thèses de doctorat.

 

Mélenchon n'est pas possédé par le démon. Le diable a refusé.

 

Bourdieu disait qu’il n’y avait pas de différence de valeur entre Stravinsky et Petula Clarck. Je ne suis pas d’accord. Il y a des hiérarchies. «Point de Vue» a beaucoup plus de classe que ses livres.

 

Lacan aimait citer la topologie, dont il ne savait rien. Il a voulu connaître  le pape pour lui dire qu'il avait résolu le problème de la Très Sainte Trinité. Soit. Il a  toujours aimé parler de choses qu’il ne comprenait pas.

 

Le président  de la République  Française dit qu'il ne sait pas ce que c’est que la culture française. C’est claire la conséquence. Il y a le président de la république … et après c’est le vide.

 

Caron porte à l'enfer en espérant n'y pas entrer

 

Panot a raison. Quand je la vois moi aussi je suis en faveur de la burqa.

 

Panot sera canonisée. Elle sera la sainte patronne contre le priapisme.

 

Les fascistes inavoués voient partout de simples faits divers. Ils ne sont capables d’induction sans seringue.

 

Je ne sais pas s'il y en a un ordre en tout ça, mais c’est décroissant... et monotone.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

As culturas são todas iguais?

 Lévi-Strauss dizia que não há culturas superiores ou inferiores, as culturas são todas iguais, apenas são diferentes.

 

Poucos homens conseguiram dizer tanto dislate em tão poucas palavras.

 1. Dizer que as culturas são iguais é um juízo de valor. Tão juízo de valor quanto dizer que as há superiores e inferiores. É substituir um juízo de valor por outro juízo de valor. Nenhum passo científico foi dado com isto.

2. É desonesto intelectualmente porque dá a entender que finalmente se superaram os juízos de valor e passámos a uma análise científica.

3. Sob o ponto de vista lógico é uma proposição universal empírica. Para ser demonstrada teria de haver análise de todas as culturas. Ora Lévi-Strauss não as conhece todas. Nem a europeia conhece bem, porque nunca soube matemática, física, teologia, e de psicologia e filosofia era estreito o seu conhecimento. Está portanto a doutrinar sobre o que não sabe.

4. Sendo uma proposição universal positiva, sob o ponto de vista lógico basta dar um contra-exemplo para demonstrar a sua falsidade. E é fácil de demonstrar que a cultura grega clássica era superior à assíria ou a francesa é superior à turca. Quem achar o contrário tente usar um computador ou andar de avião com base na ciência turca.

5. É apenas um mandado moral. Uma mera imposição e não uma afirmação sobre facto. Mas porque quer fazer imposições morais em vez de falar da realidade? Porque se acoita em algo tão pequeno burguês como o mandado moral?

6. É uma tese de facilidade intelectual. Já na altura em que o defendeu, mas cada vez mais hoje em dia, quem defende a igualdade entre as culturas não tem de demonstrar mais nada. Posta-se rodeado por sorrisos de anuência. Entra triunfante num campeonato que já o decidiu como vencedor antes de começar a correr. Duro, exigindo conhecimento profundo de duas culturas pelo menos, é a afirmação fundamentada da superioridade de uma sobre outra ou outras.

7.  7. Dentro da cultura europeia, Lévi-Strauss não achava que todas as manifestações culturais eram iguais. Por isso não citava um artigo sobre modas e bordados como citaria um artigo científico. 

    8. Significativamente não há memória de que tenha dito que há, não só pessoas, mas inteiras partes na cultura Bororó que são medíocres como as revistas de modas e bordados. Se a elas não aplica os mesmos critérios que usa com a europeia quer apenas dizer que as aprecia de outra forma. Como um objecto. Tudo nelas é interessante, como para um naturalista é interessante a defecação de um elefante ou o metabolismo de uma amiba. E, caso nos queira convencer do elevado nível cultural da amiba, desmonta de um só golpe que acha que há coisas de elevado nível, e portanto tem de haver de baixo - um nível só é elevado por comparação - e o seu ridículo. As amibas serem de elevado nível cultural...

 

Afirmar a igualdade de todas as culturas revela assim até que ponto se percebe que há na sua mente apenas duas culturas: a europeia, que pode ser elementos e pessoas desprezíveis, e as outras que são sempre interessantes em todas as suas dimensões, mas como objectos. Nenhuma ideia separa mais a cultura europeia das outras que esta da igualdade. É quem afirma a igualdade das culturas que mais as separa.

 

Mas porque Lévi-Strauss quer impor este mandado? Talvez isso tenha a ver com o refeitório de casa do seu avô onde uma placa dizia: «mastiga bem para digerires bem». Está tudo dito. Uma casa destas não é fidalga, é o mínimo que se pode dizer. Ter feito um livro sobre os modos à mesa para demonstrar que somos todos selvagens... Ele poderá falar da família dele com mais autoridade que eu.

 

Ainda nos empesta este mandado moral da pequena burguesia. Nietzsche viu bem que era o ressentimento do plebeu. Se Lévi-Strauss se deliciava com Wagner sem perceber que os Bororós nunca poderiam fazer Wagner, é o problema dele. Quem tinha alguma razão era Bordieu que dizia que não há diferença de valor entre Stravinsky e Petula Clarke. Dou-lhe razão. Acho que os livros de Bordieu têm o mesmo valor que uma revista de bordados.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

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segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Proust era católico

Proust era judeu ou cristão?

 

1.     Foi baptizado em 5 de Agosto de 1871 na Igreja Saint-Louis d’Antin, paróquia dos Proust (DIESBACH, Ghislain de, Proust, Perrin, Paris, 2022, p. 26).

2.     O seu avô judeu, Nathan, embora respeitasse os rituais judeus, seguia as predicações de Quaresma em Notre-Dame de Paris (p. 28).

3.     A educação da sua Mãe é liberal sob o ponto de vista político e conservadora sob o ponto de vista moral, como era típico nas famílias judias da época (p. 35).

4.     Aceitou os usos da sua época, e fará baptizar os seus filhos, frequentará sem dúvida a igreja na suas estadas em Illiers, mas será enterrada civilmente (p. 36).

5.     A sua Mãe fá-lo seguir um curso de catecismo, a que assiste com o seu filho (p. 50).

6.     Num seu texto de juventude «L’Irreligion d’État» revolta-se contra o absurdo de querer uma sociedade sem Deus, quando esta descristianização é apresentada como uma nova fé, e lembra que a França deve ao cristianismo as suas maiores obras-primas (p. 180).

7.     Proust assistiu às conferências do padre Vignot (p. 192).

8.     Proust «aura sur les chrétiens l’œil ironique et sagace du Juif, et sur les Juifs le regard d’un chrétien sans tendresse et même sans charité» (p. 246).

9.     Mas a sua perspectiva irónica em relação aos cristãos é também comum entre os cristãos e os laicos da sua época, e o seu olhar sobre os judeus é o de muitos cristãos e laicos da sua época. Se ter sangue judeu da parte da sua Mãe pode ter dado um contributo para o seu olhar nada diz que era essencial para ele.

10.  O próprio diz «si je suis catholique comme mon père et mon frère, par contre ma mère est juive» (p. 282).

11.  A sua tia Amiot, sempre adoentada, fazia um papel dos primórdios do cristianismo e acabava por desarmar com uma doçura angélica (p. 387), ou seja, um cristianismo burguês, de paródia.

12.  Não concorda que o velho pároco de Illiers, que lhe ensinou os rudimentos de latim, não seja convidado para uma distribuição de prémios pelo poder laico (p. 422).

13.  «Que les anticléricaux fassent un peu plus de nuances et visitent au moins avant d'y mettre la pioche, les grandes constructions sociales qu'ils veulent démolir » (p. 423).

14.  Proust aproveita para dizer a Barrès que não é verdadeiramente judeu (p. 445).

15.  Mostra a sua hostilidade ao general André na altura do caso das fichas, como às leis anticlericais de Combes (pp. 467, 496-497).

16.  Paul Morand ouve-o contar anedotas anti-semitas (p. 830). Chamava a «Vida de Jesus» de Renan a «Belle Hélène do cristianismo» (p. 927) dando a entender que era uma obra de opereta e ficção.

17.  Sentindo-se morrer, pede à sua criada que chame o padre Mugnier (pp. 973, 975). O seu funeral foi feito na capela Saint-Pierre-de-Chaillot (p. 976).

 

Sintetizando: (1) A Mãe de Proust era judia? Sim. Mas não piedosa, nem catequizante, assimilada não apenas sob o ponto de vista da cultura laica, literária ou científica, mas também até por via da família, próxima da prática católica (por exemplo, o tio que assiste a prédicas pascais católicas). (2) A família paterna de Proust era católica? Sim, sem qualquer dúvida. (3) Proust era católico? Sim, sem dúvida nenhuma, como o seu irmão. Baptizado, catequizado e dizendo de si mesmo ser católico. Sim, como a imensa maioria dos franceses da época, que não carecem de ter êxtases místicas de Santa Catarina de Siena para se verem como católicos. Um catolicismo burguês, feito dos extremos da auto-lamentação e do estoicismo. Um catolicismo de práticas culturais, nos casamentos, baptizados, épocas festivas.

 

Mas agora enfrentemos a questão mais dura: (4) Proust era um fervoroso crente? E esta questão divide-se em duas: (4A) é sempre importante verificar uma fervorosa fé para se merecer esta qualificação? E (4B) qual seria o tipo de fé de Proust?

 

Quanto à questão (4A) quem ache que é fundamental que haja uma fervorosa crença para qualificar alguém como de uma religião terá de entender então que a maioria dos génios judeus não eram judeus. Nem Espinosa, nem Einstein eram fervorosos seguidores do judaísmo. Quem usar este critério está a afastar quase todos as pessoas relevantes na História com origem judaica da qualificação de judeus e quem usar esse critério esqueça a referência ao facto de Einstein ser judeu.

 

Quanto à (4B) é questão mais difícil. Em geral é muito difícil entrar na intimidade de alguém. Mas isto tanto mais quanto o século XIX, que é um século glorioso para o cristianismo, um século de expansão na Ásia e na África, é visto porque quem tem uma perspectiva provinciana como o século da dita «morte de Deus». No entanto, a cultura teológica dos homens cultos não era a mais aprofundada em geral. Poderiam conhecer muito bem a História das ordens religiosas, os clérigos mais conhecidos, as representações artísticas e literárias dos santos eram bem melhor conhecidas que pelos os homens actuais. Mas poucos saberiam pronunciar-se sobre a «homoousia» ou o problema da «theosis». Os místicos que eram estudados eram lidos numa perspectiva estética. Neste sentido, se Proust não era católico, a grande maioria da sociedade da sua época não o era. Isto a começar pelos reis de Portugal e Espanha até muitos bispos. Procurar a peculiaridade de Proust no seu impulso anticristão, ou judeu é assim algo ocioso. A sua recusa da perseguição laicista é também sintomática. Não significa forçosamente uma fé, mas antes o reconhecimento de um mérito (dos católicos e do catolicismo) e a repulsa pelo fanatismo laicista.

 

O facto de pedir a presença de um padre na hora da morte pode-se também argumentar não significa uma profunda fé católica, mas apenas um sintoma de conformismo social. E Proust tinha, como todos os seres humanos, aspectos de conformismo. Mas começam a ser elementos a mais para se descurar a profunda relação que tinha com o catolicismo. De sangue, de cultura, de admiração pela dívida que a cultura francesa a ele tinha, no momento final da sua vida. Se se esperar como prova da sua fé que Proust levite como São Francisco de Paula, temos de reconhecer que na História terá havido poucos, muito poucos, católicos. Como poucos judeus viram a sarça ardente ou maometanos receberam o anjo Gabriel.

 

 

Alexandre Brandão da Veiga

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quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Como reconhecer um filisteu

 

1.  1. Se um académico invoca a ciência junto do público é preciso ver o que anda a escrever nas universidades. Se diz que não existe «a verdade», «o referente» que a ciência mais não é que um ritual como qualquer outro, sem superioridade em relação a um ritual de selvagens, temos de o tratar como um selvagem e ignorar a autoridade que invoca e nega ao mesmo tempo consoante os destinatários.

2.    2.  Não dar a informação sobre os autores de crimes porque isso pode aumentar o racismo é sinal de que se acha que o povo é diminuído intelectualmente. São discípulos de Salazar: «se soubesses o que custa mandar querias obedecer toda a vida». Quem faz censura, quem quer censura defende a existência de uma polícia política.

3.  3. Os tiranos gregos sabiam como enfraquecer o poder dos povos que governavam. Importavam populações que diminuem o laço social entre os seus súbditos e assim enfraqueciam o poder de contestação dos povos. Mas exigir conhecimento de cultura grega a catedráticos é inglória esperança. Leram obras dos últimos cinquenta anos, porque o fiat lux nas suas pobres cabeças é de data tão recente quanto a sua nobreza. Quando peroram os que não sabem, só cativam quem não sabe o que eles ignoram.

4.   4. Quem acha que o povo não pode decidir algo ou não deve saber se algo está a dar-se um estatuto aristocrático. Havia um antigo critério entre a alta nobreza: se quiseres reconhecer a origem de alguém olha-lhe para o seu perfil e para as mãos. Quando se vir um perfil burgesso e mãos de talhante estamos apenas a ver um ressentido que gostava de ter nascido brâmane quando é de reles origem.

5.    5. Todas as sociedades multiculturais foram de violência cíclica. Assim em relação a cristãos e judeus na Pérsia sassânida, nos impérios árabe e otomano, e em relação aos judeus na Alexandria dos Ptolemeus e nos reinos cristãos. Querer multiculturalismo é aceitar violência cíclica.

6.    6. Todas as ciências sociais assentam num axioma: a recusa do sofisma da composição. O todo não é igual à soma das partes, há fenómenos colectivos. Quem acha válido o argumento «a maioria dos muçulmanos é boa gente» tem de ao mesmo tempo exigir o encerramento dos cursos de ciências sociais.

7.    7. Os que criticam o etnocentrismo são os mais etnocêntricos porque esquecem que ser outra cultura é ser efectivamente diferente. Dizer que todos querem ser livres é esquecer que em árabe e turco a palavra liberdade surge por influência cristã no século XIX, quando já no século XIII e XIV todos pensadores europeus nela falavam: Duns Scoto, São Tomás Marsílio de Pádua, etc.

8.    8. Se alguém disser que todas as culturas são iguais está a produzir uma afirmação universal empírica. Para o poder afirmar precisa de conhecer todas as culturas. Senão o que diz é arbitrário. Usemos os métodos dos matemáticos. Demos um contra-exemplo. A cultura alemã é infinitamente superior à turca. Quem ache o contrário use um telemóvel baseado na física e na matemática turca enquanto ouve as sinfonias turcas e os escritores e filósofos turcos. Está dado o contra-exemplo. Perante isto percebe-se que não é uma afirmação mas uma imposição, um mero exercício de poder.

9.     9. Da mesma forma, quem condena publicamente a pós-verdade - ou conceitos bárbaros quejandos que em bom vernáculo querem apenas dizer mentiras - tem de ser confrontado com obras que escreva para as faculdades dizendo que a verdade é conceito vazio, arbitrário, mera imposição de poder. Se diz que não existe a verdade não tem autoridade para condenar quem a nega.

1010. A quem se diz aberto a outras culturas tem de se perguntar porque não sabe nada da sua. Um europeu que não saiba latim, grego, matemática e teologia não percebe nada da Europa. Se quiser ir além do que não sabe apenas quer estender a sua ignorância

1111. Os primeiros que abandonaram o primado da História ou a desprezam e ignoram sem mais são também os primeiros a usar conceitos de síntese histórica como judaico-cristão patriarcado opressão das mulheres num eterno presente sem comparação informada no tempo e no espaço. Mais uma duplicidade: oráculos da História (de uma História congelada, ficcionada e estéril é certo) fora das universidades, descuram-na dentro delas.

1212. Esquerda e direita falam de valores mas nas universidades ensinam Foucault e Derrida que dizem que realidade são relações de poder. No fundo o que os fascina é o poder, mesmo se a sua língua apenas sabe falar de valores. Em todas as épocas os burros se babam com os tartufos.

1313. Poder exactamente. Os hindus acham as vacas sagradas e não fazem manifestações contra os MacDonalds. Os jinaístas são vegetarianos e não querem fechar matadouros. Os budistas acham graça a imagens de Buda gordos a sorrir. Há uma religião que se quer impor no espaço público não só exigindo a sua presença como impondo a ausência das outras. Imagine-se qual. A que pretende conquistar o poder e por isso gera o medo dos políticos de esquerda e direita. 

1414. São os que se dizem pós-modernos e negam essências que dizem que o islão é necessariamente tolerante e a Europa é necessariamente colonialista. Tanta contradição seria poética se não viesse de esfacelos.

 

Perguntam em que aspectos a nossa época será objecto de  risota pelos futuros? Acabei de dar alguns exemplos. Quando ouvimos mestres do positivismo e radicais socialistas do século XIX demonstrar a superioridade da raça branca achamos ridículo? Pois achemos desde já ridículas estas criaturas que nasceram para serem apenas fósseis. Daqui a cem anos este texto será mais visto como lúcido que as teses de doutoramento que apenas cacarejam que todos esperam ouvir. Deus tenha as sua almas em descanso, porque as suas inteligências os precederam na tumba.

 

Alexandre Brandão da Veiga

 

 

 

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Editorial

As democracias liberais em que vivemos não impõem objectivos sociais, nem quaisquer concepções normativas de bem. Estão ancoradas na ideia de direitos e liberdades individuais, recusando a imposição de valores absolutos ou de concepções pré-definidas de um bem comum. Sem negar a existência de uma Verdade última (isto é, sem negar a existência de um bem último ou comum), e nesse sentido afastando-se do puro niilismo, as nossas actuais democracias, assumindo a sua matriz liberal, negam ao Estado o direito de impor dogmaticamente uma concepção específica de bem. Ao invés, assentam no pressuposto de que o indivíduo pode, por si próprio e através de um processo racional de confronto de ideias, encontrar o caminho para a Verdade.

A pedra angular de todo este edifício demo-liberal, a condição mesma da sua existência, é um espaço público em que, de modo livre e incondicionado, sem preconceitos, sem dogmas e com uma atitude assumidamente tentativa, se confrontam teorias e concepções distintas, ideias e visões opostas, das quais, em última análise, acabarão por brotar valores que nos implicam com tudo o que tem a ver com a vida contemporânea, da filosofia ao sexo, da arte à política, da história à moral, da liberdade a Deus.

Como tal, este ‘marketplace of ideas’, à maneira de Stuart Mill, constitui uma das mais preciosas e poderosas garantias do respeito pela nossa liberdade individual. A sua construção e alimentação quotidianas são um direito, mas sobretudo uma responsabilidade de cada um de nós – que não pode ser inteiramente delegada nem em partidos políticos, nem em corporações, nem tão pouco no chamado sistema mediático.

Neste contexto, o «Geração de 60», enquanto espaço plural de debate que se deseja imodestamente sério e inteligente, é uma contribuição egoísta para a defesa da nossa própria liberdade.