


No sábado, fui à Virada Cultural de São Paulo. Já fazia algumas edições que eu não acompanhava. Parte por cansaço com a gestão cultural da cidade, parte por um desânimo mais amplo — desses que o tempo vai impondo. Neste ano, minha companheira insistiu — e três shows quase consecutivos, no mesmo palco, acabaram vencendo minha resistência.
Tenho críticas à concentração de recursos na Virada. Ainda assim, desde a primeira edição, há vinte anos, reconheço que ela oferece à população uma experiência rara da cidade — especialmente do Centro — em outras camadas. Alternar apresentações e andanças, circular sem destino certo, ver São Paulo sob outra luz. Para alguns, parece um safári urbano; para outros, uma forma legítima de viver a cidade que nos é negada.
A partir das 22h30, três apresentações distintas ocuparam o palco República, uma depois da outra: Kid Creole and the Coconuts, Fred Wesley e, já pela madrugada, o tributo aos Soul Vendors & Sound Dimension. Três formas de traduzir, em som, a diversidade da música negra no mundo: a teatralidade pós-disco diaspórica, o refinamento rítmico da soul music e a base instrumental jamaicana. Não sei se foi intencional ou acaso, mas a sequência formou um arco expressivo raro e preciso.
Cada uma das apresentações apontava para uma vertente distinta da invenção musical negra. Kid Creole representa o som não branco de Nova York — tropical, mestiço, teatral, vindo da disco music, com o auxílio da new wave e do calor do Lower East Side. Uma fusão de calypso, funk, salsa e cabaré e capricho construída com ironia e presença cênica. Fred Wesley, com seu trombone preciso e sua trajetória ao lado de James Brown e do Parliament-Funkadelic, encarna a sofisticação do groove como arquitetura coletiva. E o show final foi um tributo às bandas Soul Vendors e Sound Dimension — formações essenciais da gravadora jamaicana Studio One, responsáveis por consolidar o alicerce instrumental do ska, do rocksteady e do reggae soul. Foi uma celebração respeitosa às fundações da música jamaicana moderna, muitas vezes esquecidas fora dos círculos especializados.
Kid Creole foi o primeiro show que vi. Elegância e ironia em forma de música e cena. A teatralidade tropicalizada, misturando cabaré, salsa, funk e calypso, veio embalada por uma banda afiadíssima. Músicos experientes, precisos, com arranjos limpos e inteligentes — nada sobra, tudo pulsa. As cantoras, carismáticas e afinadas, assumem o palco com autoridade, criando contraponto e tensão com o personagem de August Darnell. No repertório, clássicos como “I’m a Wonderful Thing, Baby” e “Stool Pigeon”, o hit “Annie, I’m Not Your Daddy” e até “The Sex of It”, parceria com Prince. O show é encenado, coreografado, estilizado — mas nada disso se impõe à música. É daqueles raros casos em que se propõe um espetáculo performático com qualidade musical — e ele realmente acontece.
Fred Wesley entrou em cena pouco depois da meia-noite, sem alarde. De terno claro, trombone em punho, caminhou até o centro do palco com calma e presença. Não há gestos desnecessários: o som vem antes da pose. E quando o trombone soa, tudo ao redor se ajusta. Wesley tem história — com James Brown, Parliament-Funkadelic, Count Basie —, mas o que impressiona ao vivo é a firmeza do groove, a clareza das intenções, o domínio absoluto do espaço entre uma nota e outra. O que se viu ali foi uma aula de groove e consciência histórica: um músico que sabe ter ajudado a construir um modelo rítmico que ensinou muitos caminhos. Em “House Party”, faixa explosiva e simples, cada instrumento se encaixa como engrenagem, e o público é levado por um balanço que não precisa de firula nem efeito especial. Um show com peso, mas sem rigidez. Maturidade de quem entende que groove é construção.
A banda-tributo aos Soul Vendors & Sound Dimension, já no fim da madrugada, foi a mais discreta das três — mas talvez a mais fundamental. As duas formações, ligadas à gravadora jamaicana Studio One nos anos 1960, foram responsáveis por criar a infraestrutura sonora do ska, do rocksteady e do reggae soul. Não estavam no centro dos palcos, mas eram a base de tudo. Músicos como Jackie Mittoo, Roland Alphonso, Leroy Sibbles e Vin Gordon moldaram uma linguagem instrumental que atravessou o tempo. No palco da República, a banda-tributo manteve a pegada original: arranjos secos, baixos hipnóticos, teclados econômicos, sopros no lugar. Em “Rockfort Rock”, o balanço era firme, concentrado. Já em “No No No”, eternizada por Dawn Penn, veio o momento mais hipnótico da noite — um lamento doce, espaçado, carregado de ausência. Uma homenagem sóbria, justa, sem afetação nem nostalgia forçada.
O que se viu naquele palco, ao longo de algumas horas, foi mais do que uma sequência de boas apresentações. Foi um recorte potente da música negra como força inventiva, estruturante, indissociável da história da cultura popular no século XX. Sons que não foram apenas trilha: criaram linguagem, forma, cadência, gesto. Que ensinaram o mundo a dançar e a pensar com o corpo. Não estavam ali por acaso — nem por nostalgia. Estavam porque continuam sendo medida e referência. E quando isso acontece ao vivo, com precisão e respeito, a cidade escuta um pouco melhor.
E como quase sempre, minha companheira tava certa.






