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No sábado, fui à Virada Cultural de São Paulo. Já fazia algumas edições que eu não acompanhava. Parte por cansaço com a gestão cultural da cidade, parte por um desânimo mais amplo — desses que o tempo vai impondo. Neste ano, minha companheira insistiu — e três shows quase consecutivos, no mesmo palco, acabaram vencendo minha resistência.

Tenho críticas à concentração de recursos na Virada. Ainda assim, desde a primeira edição, há vinte anos, reconheço que ela oferece à população uma experiência rara da cidade — especialmente do Centro — em outras camadas. Alternar apresentações e andanças, circular sem destino certo, ver São Paulo sob outra luz. Para alguns, parece um safári urbano; para outros, uma forma legítima de viver a cidade que nos é negada.

A partir das 22h30, três apresentações distintas ocuparam o palco República, uma depois da outra: Kid Creole and the Coconuts, Fred Wesley e, já pela madrugada, o tributo aos Soul Vendors & Sound Dimension. Três formas de traduzir, em som, a diversidade da música negra no mundo: a teatralidade pós-disco diaspórica, o refinamento rítmico da soul music e a base instrumental jamaicana. Não sei se foi intencional ou acaso, mas a sequência formou um arco expressivo raro e preciso.

Cada uma das apresentações apontava para uma vertente distinta da invenção musical negra. Kid Creole representa o som não branco de Nova York — tropical, mestiço, teatral, vindo da disco music, com o auxílio da new wave e do calor do Lower East Side. Uma fusão de calypso, funk, salsa e cabaré e capricho construída com ironia e presença cênica. Fred Wesley, com seu trombone preciso e sua trajetória ao lado de James Brown e do Parliament-Funkadelic, encarna a sofisticação do groove como arquitetura coletiva. E o show final foi um tributo às bandas Soul Vendors e Sound Dimension — formações essenciais da gravadora jamaicana Studio One, responsáveis por consolidar o alicerce instrumental do ska, do rocksteady e do reggae soul. Foi uma celebração respeitosa às fundações da música jamaicana moderna, muitas vezes esquecidas fora dos círculos especializados.

Kid Creole foi o primeiro show que vi. Elegância e ironia em forma de música e cena. A teatralidade tropicalizada, misturando cabaré, salsa, funk e calypso, veio embalada por uma banda afiadíssima. Músicos experientes, precisos, com arranjos limpos e inteligentes — nada sobra, tudo pulsa. As cantoras, carismáticas e afinadas, assumem o palco com autoridade, criando contraponto e tensão com o personagem de August Darnell. No repertório, clássicos como “I’m a Wonderful Thing, Baby” e “Stool Pigeon”, o hit “Annie, I’m Not Your Daddy” e até “The Sex of It”, parceria com Prince. O show é encenado, coreografado, estilizado — mas nada disso se impõe à música. É daqueles raros casos em que se propõe um espetáculo performático com qualidade musical — e ele realmente acontece.

Fred Wesley entrou em cena pouco depois da meia-noite, sem alarde. De terno claro, trombone em punho, caminhou até o centro do palco com calma e presença. Não há gestos desnecessários: o som vem antes da pose. E quando o trombone soa, tudo ao redor se ajusta. Wesley tem história — com James Brown, Parliament-Funkadelic, Count Basie —, mas o que impressiona ao vivo é a firmeza do groove, a clareza das intenções, o domínio absoluto do espaço entre uma nota e outra. O que se viu ali foi uma aula de groove e consciência histórica: um músico que sabe ter ajudado a construir um modelo rítmico que ensinou muitos caminhos. Em “House Party”, faixa explosiva e simples, cada instrumento se encaixa como engrenagem, e o público é levado por um balanço que não precisa de firula nem efeito especial. Um show com peso, mas sem rigidez. Maturidade de quem entende que groove é construção.

A banda-tributo aos Soul Vendors & Sound Dimension, já no fim da madrugada, foi a mais discreta das três — mas talvez a mais fundamental. As duas formações, ligadas à gravadora jamaicana Studio One nos anos 1960, foram responsáveis por criar a infraestrutura sonora do ska, do rocksteady e do reggae soul. Não estavam no centro dos palcos, mas eram a base de tudo. Músicos como Jackie Mittoo, Roland Alphonso, Leroy Sibbles e Vin Gordon moldaram uma linguagem instrumental que atravessou o tempo. No palco da República, a banda-tributo manteve a pegada original: arranjos secos, baixos hipnóticos, teclados econômicos, sopros no lugar. Em “Rockfort Rock”, o balanço era firme, concentrado. Já em “No No No”, eternizada por Dawn Penn, veio o momento mais hipnótico da noite — um lamento doce, espaçado, carregado de ausência. Uma homenagem sóbria, justa, sem afetação nem nostalgia forçada.

O que se viu naquele palco, ao longo de algumas horas, foi mais do que uma sequência de boas apresentações. Foi um recorte potente da música negra como força inventiva, estruturante, indissociável da história da cultura popular no século XX. Sons que não foram apenas trilha: criaram linguagem, forma, cadência, gesto. Que ensinaram o mundo a dançar e a pensar com o corpo. Não estavam ali por acaso — nem por nostalgia. Estavam porque continuam sendo medida e referência. E quando isso acontece ao vivo, com precisão e respeito, a cidade escuta um pouco melhor.
E como quase sempre, minha companheira tava certa.

Hoje a Folha de S.Paulo publica uma matéria denunciando a falta de servidores qualificados no Ministério de Portos e Aeroportos, o que pode travar dezenas de concessões e projetos de infraestrutura. É o tipo de alarme que, neste caso, revela uma realidade concreta: não há como fazer política pública sem gente. Sem quadro. Sem Estado.

O curioso é que a mesma Folha — com a mesma convicção sonora — tem publicado matérias acusando o “recorde” de servidores no Brasil, sem apresentar qualquer dado proporcional à população, às responsabilidades descentralizadas ou à carga de trabalho gerada por novas demandas. O que se afirma com alarde não é exatamente mentira, mas é uma meia verdade enviesada: o número cresceu nos municípios, em grande parte por causa da ampliação de serviços em educação e saúde, como prevê a Constituição. No governo federal, os números estão praticamente estagnados há mais de uma década.

O mesmo jornal que hoje aponta o risco de colapso por falta de técnicos é o que publicou em 2024 a seguinte manchete: “Brasil bate recorde de servidores públicos”. Sem dizer que somos um dos países com menor proporção de servidores por habitante entre os membros da OCDE. Sem dizer que os servidores sem carteira assinada (temporários) são os que mais cresceram. Sem dizer que mais da metade das cidades brasileiras não têm sequer um médico efetivo.

Mais curioso ainda é quando se convocam comentaristas — como o sempre prestativo Fernando Canzian — para repetir que “só servidor defende a existência da máquina pública”. Afirmação maliciosa, que tenta desqualificar quem conhece a estrutura desde dentro, como se não houvesse interesse público, projeto de sociedade, modelo de Estado em disputa. Não se trata de opinião: trata-se de militância ideológica travestida de jornalismo. Canzian, pena amestrada dos Frias, escreveu isso sem rodeios na edição da Folha de 21 de agosto de 2022, afirmando com desdém que “os servidores são os únicos a defender a máquina”. Seu objetivo era o mesmo: desacreditar a estrutura pública e promover o velho receituário liberal.

Esse tipo de abordagem revela mais do que erro de método. Mostra um projeto de deslegitimação. Quando é para denunciar a lentidão, falta servidor. Quando é para cortar gasto, servidor é excesso. Quando é para privatizar, servidor atrapalha. O alvo é sempre o mesmo.

Por trás dessa retórica contraditória está o objetivo histórico de enfraquecer os serviços públicos para justificar a transferência de suas funções à iniciativa privada. Um Estado desmontado não é apenas ineficiente: é funcional à lógica da mercantilização. O que não é entregue pelo serviço público passa a ser cobrado por fora, via contratos, concessões e terceirizações.

Esse movimento também está colado à ideologia do teto de gastos, que congela investimentos essenciais sob o pretexto de responsabilidade fiscal. Não por acaso, na própria matéria da Folha que denuncia o “apagão de servidores”, a resposta do governo é tímida, atravessada por amarras fiscais que desautorizam a reposição de pessoal mesmo diante de um colapso funcional iminente.

A realidade, no entanto, é teimosa. Os dados mostram que o funcionalismo brasileiro não só não está inchado, como é um dos que menos cresceu nas últimas décadas. A Pnad Contínua mostra que os aumentos ocorreram nos últimos anos exclusivamente no nível municipal, impulsionados por necessidades concretas e por uma população que segue crescendo e envelhecendo. O serviço público não é gasto, é investimento. Mas isso exige um jornalismo disposto a lidar com complexidade, não com slogans.

A manchete de hoje da Folha escancara a contradição: quando falta gente, o Estado para. O funcionalismo não é um privilégio. É condição de funcionamento da democracia.

O apagão no funcionalismo não é acidental, nem apenas fruto de desorganização administrativa. É parte de um arranjo estruturado para enfraquecer o Estado, comprometendo a capacidade de confecção, implantação e execução de políticas públicas. Isso é sentido nos três entes da federação: no âmbito federal, com a estagnação e terceirização; nos estados, com a precarização e os pacotes de ajuste; e principalmente nos municípios, onde as políticas ganham concretude. Ali, a escassez de servidores é sentida diretamente pelo cidadão, que vê a UBS com fila, a escola sem apoio, o CRAS vazio. E ainda ouve, nos telejornais e colunas, que o problema é o excesso.

Trata-se, em síntese, de uma engrenagem articulada: o discurso do inchaço justifica o congelamento de concursos; o congelamento esvazia a capacidade do Estado; o enfraquecimento abre caminho para a privatização e terceirização; a mídia chancela e reproduz esse ciclo, ao mesmo tempo em que finge espanto diante dos sintomas da ausência estatal que ela mesma ajudou a construir. É nesse vácuo que se impõem soluções de mercado para problemas coletivos. E assim, com manchetes que ora inflam, ora lamentam, se constrói a opinião que entrega a esfera pública aos interesses privados.

Links para as principais referências citadas:

Folha de S.Paulo – Apagão de servidores compromete concessões e infraestrutura

Folha de S.Paulo – Brasil bate recorde de servidores

Folha de S.Paulo – Estabilidade no Brasil vs. Suécia

Folha de S.Paulo – Coluna de Fernando Canzian (21/08/2022)

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“Werther”, 1970 é um álbum raro. O original se vende como relíquia, e eu mesmo nunca vi um de perto. Ouvi, sim — algumas vezes, em momentos espaçados dessa vida. No fim dessa sexta-feira, entre cansaços e algoritmos que às vezes se acertam, tocou Catavento. A música me parou. Fiquei ouvindo.

Gravado com cuidado extremo, cercado por músicos extraordinários — Arthur Verocai, Toninho Horta, Ronaldo Bastos, Naná Vasconcelos, Edison Machado — o disco nasceu no Rio de Janeiro, em meio a uma ditadura que quando podia abafava as coisas boas do país. Foi lançado por um selo pequeno, a Stylo Records, invenção de Peter Keller, outro personagem que some depois. O registro não teve divulgação, quase não vendeu, foram poucas cópias.

Werther Jacques Vervloet era da Tijuca. Fazia música com os amigos, compunha, tocava violão, escrevia letras delicadas. Era também estudante de ciência da computação. Um dia, decidiu que queria ser professor. A carreira artística não veio. Ficou o disco. Um único disco.

Entre as faixas, há uma religiosidade implícita, uma contenção, uma beleza singela. As harmonias são precisas, os arranjos, secos. Nada sobra. Tudo serve à atmosfera. “Terça-feira” abre a porta, com suavidade. “Ave Maria” junta Caetano, Naná e Edison num clima de terreiro e missa. Mas é “Catavento” que segura o tempo. Composição de Verocai e Paulinho Tapajós, é a música que gira e cai bem no ouvido. Feita de ar, de ausência, de sutileza. O arranjo é perfeito. Não passa batido.

Discos assim não aparecem sempre. São obras que parecem menores à primeira vista, mas sobrevivem porque não forçam, ficam pela música. Há algo neles que atravessa modas, que resta intacto. Talvez seja isso que define os discos singulares: são feitos por dentro, e não como projeto de mercado.

Confesso que sou desconfiado de discos raros (a versão original é raríssima), desses que viram objeto de culto mais por serem difíceis de encontrar do que pela música que trazem. Já caí em armadilhas assim. Mas Werther é outra coisa. Tem substância. Eu não o tenho fisicamente, ouço na rede e vale cada minuto.

O Werther, 1970 permanece vivo. A qualidade dos arranjos e o conjunto de boas canções, o preservaram. Quando ele canta, a voz entra mansa, mas firme. Não escorrega. É um disco que respirou bem o tempo esquecido, sem se dobrar a ele. Música que envelheceu bem porque foi bem feita.

Como disse, depois da música, Werther seguiu outro caminho. Concluiu o doutorado em ciência da computação, tornou-se professor universitário e construiu uma carreira sólida no magistério. Longe dos palcos, mas não da sensibilidade, levou a mesma delicadeza do disco para a vida discreta que escolheu — uma vida que também exigia precisão, escuta e silêncio.

Em 2019, o selo alemão Altercat relançou o disco em vinil, com encarte bilíngue, ficha completa, história restaurada. Li o próprio Werther falando em comentários do YouTube, corrigindo créditos no Discogs, contando bastidores. Disse que Ave Maria era pra ser uma faixa litúrgica, mas Peter aproveitou que Edison e Naná estavam no estúdio e criou uma atmosfera afro-concretista que, num primeiro momento, o assustou. Depois, ele reconheceu: era aquilo mesmo.

O disco não nasceu pra virar culto. Foi, sim, parte da fina cultura musical daquele Brasil complexo. Bossa com mais espaço, mais sombra, mais ar. O tempo passou. Agora respira outra vez. E segue tocando — de leve, como deve ser. Como quem sopra um cata-vento antigo, parado há meio século numa prateleira.

Tem discos que não passam. Permanecem. Porque carregam algo que se move fora do tempo — uma medida certa entre forma e beleza. “Werther” é um deles. Quem escuta sabe. Era bom que mais gente escutasse.

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Hoje fui visitar uma amiga. Há vinte e cinco anos dividimos a lida do trabalho. Não era só convivência funcional: ela sempre foi daquelas presenças cheias de personalidade, alguma turrice e ternura que marcam o tempo e o espaço, que imprimem caráter ao cotidiano. Está passando por um período difícil. Problemas de saúde, uma cirurgia delicada e, agora, um tempo numa clínica. Fui com receio. Imaginava um reencontro triste, e foi mesmo. Mas havia algo mais.

Antes da cirurgia, ela estava assustada. Nós, que compomos sua rede de amizades, também ficamos. A família é pequena — uma filha e poucos parentes. Mas o que a emocionou, e a mim também, foi ver que muitas pessoas do trabalho a visitaram. Ela disse isso com um sorriso pequeno, mas luminoso. Um sorriso que rasgava a névoa do medo.

Isso me fez pensar na ideia de rede. Não a rede idealizada das campanhas publicitárias ou dos manuais de autoajuda. Mas a rede real, imperfeita, feita de gente com conflitos, desacordos, rotinas pesadas, histórias atravessadas por disputas. Uma rede marcada por refregas, diferenças de postura, pequenas mágoas acumuladas ao longo do tempo. E ainda assim — ou talvez por isso mesmo — uma rede que sustenta, que ampara.

Num tempo como o nosso, em que tudo é capturado pela lógica da eficiência e do desempenho, falar de redes de afeto é um ato político. Porque são elas que desafiam a ideia de que cada um deve dar conta de si. De que sofrimento é fraqueza. De que vínculos são entraves. Ao contrário: a rede é o que nos impede de despencar no abismo do individualismo.

A alegria que vi no rosto da minha amiga, mesmo doente, mesmo frágil, era também um recado. Não era gratidão apenas — era uma espécie de afirmação silenciosa: “eu não estou só”. E isso muda tudo. Porque é esse sentimento que fortalece quem está no limite. E é também ele que nos convoca à responsabilidade com os outros.

Tenho insistido nisso: os laços que se criam no espaço do trabalho, apesar das tensões e limitações, não são menores. Não são descartáveis. Eles têm um valor político. Porque constroem uma cultura comum, produzem solidariedade concreta e resistem à lógica do descarte que o mundo do trabalho impõe. Ao visitar minha amiga, senti que aquela rede era uma forma de insurgência.

É preciso nomear essas coisas. Porque há uma tentativa constante de reduzir os afetos a algo estritamente individual, despolitizado, circunscrito ao privado. Mas a vida comum se sustenta, em grande parte, nesses pequenos gestos. E esses gestos têm consequências públicas. Quando alguém se sente cuidado, protegido, lembrado, isso interfere na sua forma de se relacionar com o mundo, com a cidade, com as instituições.

Não é fácil manter essas redes. Elas exigem esforço, atravessam zonas de atrito, implicam convivência com o desconforto. Mas talvez aí esteja sua força. Redes de afeto não são espaços idealizados de harmonia — são feitas de diferenças, de limites, de histórias truncadas. E, ainda assim, nos puxam de volta quando ameaçamos cair.

Nesse momento em que tudo é medido por performance e produtividade, onde o outro só importa se for útil ou admirável, reencontrar o valor do vínculo é uma forma de desobediência. Estar com, cuidar, visitar, escutar — são atos simples, mas profundamente significativos.

Voltei para casa com a imagem dela ainda viva. Um sorriso entre o medo. E pensei que talvez seja isso: o que nos sustenta não é um projeto heroico, nem uma resposta pronta. É a presença, mesmo hesitante. É o gesto de estar junto, mesmo sem saber direito como. Uma rede se faz assim: aos poucos, no tropeço, no gesto sem brilho, mas com verdade.

Não quero arvorar nenhum heroísmo por ter ido. Aquilo foi antes de tudo, parte da minha autocrítica. Por todos os momentos de egocentrismo, distração, esquecimentos. Por vezes em que fui absorto demais no meu próprio mundo para ver o outro. Esses esquecimentos nos despolitizam e, no limite, nos desumanizam. E talvez, mais do que isso, nos obriguem a pensar sobre as fronteiras cada vez mais frágeis — e perigosas — entre o que chamamos de esfera privada e o que entendemos por vida pública. Até onde vai o cuidado como valor coletivo? Até onde deixamos de enxergá-lo como política?

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Nas últimas décadas, o mundo do trabalho passou por mudanças profundas, muitas vezes tratadas como inevitáveis ou neutras. Flexibilização, terceirização, desregulamentação — termos que foram entrando no vocabulário das políticas públicas, das empresas e do cotidiano dos trabalhadores como se traduzissem modernização, mas que, na prática, resultaram em maior insegurança e perda de direitos para grande parte da classe trabalhadora. A ascensão da Inteligência Artificial se insere nesse processo. Mais do que uma ruptura, ela parece acelerar tendências que já vinham se consolidando: concentração de poder, invisibilização de vínculos e transformação do trabalho em dados, métricas e disponibilidade permanente.

Hoje cedo li uma matéria do ICL Notícias sobre um relatório da OIT que aponta que 25% das ocupações no mundo podem ser impactadas pela IA. A matéria é informativa, mostra que as profissões mais atingidas estão nas áreas administrativas e de atendimento, onde há predominância de mulheres. Também diz que países de alta renda serão mais afetados. A solução sugerida é a mesma de sempre: qualificar, adaptar, seguir em frente. Mas há algo que incomoda — como se o problema estivesse nas pessoas, não no capitalismo que as empurra pra fora.

No Brasil, onde o trabalho formal some com grande velocidade, a IA não chega como inovação que melhora a vida. Se apresenta com mais um pressão. Aqui, as plataformas digitais transformaram o trabalho em tarefa: sem vínculo, sem jornada, sem direito. O aplicativo é o patrão e o trabalhador é jogado num jogo de pontuação sem fim. A promessa de autonomia virou uma cilada. A IA apenas organiza e intensifica o que já estava em curso: mais controle, menos proteção, menos espaço para respirar e mais exploração. O que antes era precarização, agora vem travestido de personalização algorítmica.

Quando se diz que a automação ameaça os empregos, parece que o problema são as máquinas. Mas o que está em jogo é um modelo econômico que, há tempos, vem reduzindo sua dependência do trabalho humano estável e protegido — não por necessidade técnica, mas por escolha política e lógica de rentabilidade. A tecnologia apenas dá forma nova a uma exclusão já em curso. A lógica produtiva do capital — que já vinha desaquecida há décadas — encontrou na IA um novo modo de contornar sua própria estagnação. Não é a tecnologia que expulsa, é o capital que não consegue (ou não quer) mais empregar de forma digna. A automação entra como narrativa justificadora, quase moral, de uma exclusão planejada. A crítica não está em negar a tecnologia, mas em recusar o uso político que se faz dela.

O discurso sobre a digitalização do trabalho ganhou status de destino inevitável. No entanto, para quem já vive sob as dinâmicas das plataformas, o digital não aponta para um horizonte de emancipação. Aponta para um cotidiano de controle intensificado. Entre entregas, corridas e avaliações, o trabalhador é integrado a um sistema que coleta, mede e julga em tempo real. Os algoritmos não apenas organizam tarefas: instauram um novo regime de comando, opaco e ininterrupto. Não há negociação, apenas performance. A tecnologia, nesse cenário, se alia à lógica de exploração e não à promessa de liberdade.

Na lógica do capitalismo de vigilância descrita por Shoshana Zuboff, a Inteligência Artificial não apenas recolhe dados — ela molda comportamento. Sua arquitetura opera como um poder instrumentário: uma nova forma de dominação que transforma a experiência humana em matéria-prima para fins comerciais. Não se trata apenas de saber o que fazemos, mas de induzir o que faremos. É esse deslocamento — da predição para a modificação — que marca a nova fase do capitalismo digital. A IA, nesse regime, não serve ao usuário: serve ao mercado de comportamentos futuros. Cada gesto, cada escolha, cada hesitação vira dado — e o dado vira lucro. O trabalho é capturado não só como produção, mas como conduta: é extraído do corpo, da atenção, da emoção, da rotina. Nessa economia, somos menos sujeitos do que fontes — menos trabalhadores do que alvos de uma máquina de antecipação e indução.

Do outro lado, a falsa promessa de um futuro sem trabalho — aquele velho mito dos robôs substituindo todos os humanos — segue reaparecendo. Mas como argumenta, outro importante nome na pesquisa do mundo do trabalho, o sociólogo Aaron Benanav, o que define nosso tempo não é uma revolução tecnológica descontrolada, mas sim uma crise estrutural de baixo crescimento, baixa produtividade e alto desemprego. O capital estagnado recorre à automação não porque precisa, mas porque não consegue mais expandir de outra forma. E, nesse processo, repassa ao trabalhador o custo da transição, como se fosse falha individual não acompanhar o ritmo.

A aceleração tecnológica, articulada ao desmonte das estruturas coletivas de proteção, não apenas transforma o trabalho — reconfigura o campo do imaginável. A IA, nesse contexto, opera menos como inovação e mais como manutenção: reforça um presente gerenciado, onde a mudança estrutural é percebida como improvável ou indesejável. Mark Fisher não tratava o realismo capitalista como ideologia no sentido clássico, mas como um clima afetivo e cognitivo — uma colonização dos desejos e da percepção temporal. O que se perde não é só o emprego, mas a possibilidade de pensar o mundo de outro modo. O futuro é capturado antes de nascer, e devolvido sob a forma de atualização automática. A criatividade se esvazia em produtividade, o gesto em performance quantificável, o tempo em uma linha contínua sem rasura.

Discutir a Inteligência Artificial exige sair do terreno técnico e entrar no campo das decisões políticas. Está em jogo um projeto de sociedade, uma lógica de poder, uma disputa por direção histórica. A pergunta central não é se a IA vai criar ou eliminar empregos, mas quem está definindo seus usos, com que valores, e a serviço de quais interesses. Seus efeitos não se limitam à reorganização de tarefas: atingem diretamente a constituição das subjetividades, as formas de vida, os modos de trabalhar e de existir. O futuro, longe de aberto, está sendo programado.

Os algoritmos não apenas organizam tarefas: instauram um novo regime de comando, opaco e ininterrupto. Não há negociação, apenas performance. A tecnologia, nesse cenário, se alia à lógica de extração contínua — moldando um ambiente em que o trabalhador é reduzido a métrica. O dado da OIT, que estima o impacto da IA sobre um quarto das ocupações globais, não indica apenas uma tendência. É o sintoma de um processo em curso que combina precarização e automação, sob o disfarce de neutralidade técnica e o impulso de um determinismo que naturaliza a exclusão como se fosse progresso.

A matéria do ICL tá no primeiro comentário.

Fontes:

ZUBOFF, Shoshana. A Era do Capitalismo de Vigilância: A luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Tradução de Eduardo Carneiro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021.

FISHER, Mark. Realismo Capitalista: É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. Tradução de Gabriela Ventura. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.

BENANAV, Aaron. Automação e futuro do trabalho. Tradução de Pedro Davoglio. Publicado originalmente em New Left Review (nº 119, set/out 2019). Versão em português disponível na revista digital DMT – Democracia e Mundo do Trabalho em Debate, 2021.

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Escrevi esse texto há treze anos, agosto de 2012. Era outra cidade, outro tempo. Mas os dois meninos que se confundiam com as calçadas ainda me visitam a memória com frequência. Fico imaginando por onde andam. Se ainda andam. Se ainda estão vivos. Talvez tenham sumido de vez nas dobras da cidade que some da memória. Reposto este texto como quem deixa uma vela acesa (de esperança)na beira da calçada.

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Para João Antonio, sempre mestre.

E por aqui se viam dois garotos desses que se confundem com as calçadas. Pois vivem nelas, misturados, muitas vezes dormindo, sentados à beira de uma loja fechada, andando ao lado de todos os outros sem se misturarem. Deles, alguns têm medo, outros ignoram. São peças vivas em simbiose com as ruas. São os meninos que se confundem com as calçadas.

Lembro desses dois. Quase gêmeos. Não pela aparência — ainda que, para algumas pessoas, eles sejam todos iguais —, mas por andarem sempre juntos. Marcando território e presença. Viviam o centro. E centro de cidade, de qualquer cidade, é assim: triturador de identidades. São os tais meninos que se confundem com as calçadas.

Sendo idênticos, a roupa os diferenciava. Um deles usava sempre uma touca; o outro, uma camisa do Vasco. Sim, do Vasco. Apesar de estarmos em São Bernardo do Campo, ele reinava pelas ruas com a camisa cruz-maltina. O da touca, sorridente; o vascaíno, ranzinza e, algumas vezes, violento. Sem os nomes, só as vestimentas marcadas. São os meninos que se confundem com as calçadas.

Passou bastante tempo. Uma das constantes é que o da touca estava sempre com sua caixa de engraxate. Um romântico — sem ironia —, um romântico. A touca, que variava de cor, e a caixa de engraxate: marcas. O outro, colado à camisa do time carioca. E ela tinha uma peculiaridade: carregava o patrocínio do sabão em pó ACE. Não me recordo o número da camisa, mas ela estava sempre nele. Os tais meninos que se confundem com as calçadas.

O da touca — que por um tempo era vermelha — arrumou uma ocupação num projeto social. Participava das oficinas de sociabilidade, usava a camiseta, se envolveu, se aprumou um pouquinho. O vascaíno (nunca soube se era de fato) foi entrando na vida do crime. Corriam notícias: assaltante. Nenhum dos dois ficava de um lado ou do outro. Os tais meninos que se confundem com as calçadas.

Por um tempo, a dupla (que nunca assumiu que era dupla) frequentou a biblioteca pública, sempre juntos. Ficavam na parte dos gibis. Horas. O da touca dormia no sofá; o vascaíno, sempre em pose de conspiração, entre um olhar no gibi e uma olhada feia para os atendentes, para os outros leitores. Ficava por ali, agitado. Os tais meninos que se confundem com as calçadas.

Agitada de verdade foi uma tarde. O vascaíno saiu da biblioteca com um bolo de gibis debaixo do braço. Uma contravenção sem sutileza alguma. O da touca — acho que ainda vermelha — voltou com os gibis recuperados meia hora depois:
— A gente frequenta aqui. Não pode ser ladrão — sorriu, já quase sem dentes.
Eram doces, eram ácidos. Diferentes, próximos. Moravam nas ruas, brigavam entre si, viviam às turras solidárias. Os tais meninos que se confundem com as calçadas.

A surpresa foi que o vascaíno, do nada, virou celebridade. Apareceu no Datena. Trágica surpresa. Foi flagrado tentando roubar um cego aqui no centro de São Bernardo. O cego deu uns tapas nele. Do dia pra noite, virou celebridade num pastelão do mondo cane do Datena. Humilhante. Não gostava que tocassem no assunto. O da touca sempre falava alto sobre isso, zoando. Eles ralhavam um com o outro. Os meninos que se confundiam com as calçadas.

A vida apertou. A dupla não foi mais vista junta. Muitos rumores. O vascaíno teria sido preso. O da touca nunca confirmava — também não negava. Ele e sua caixa de engraxate. Começou a se entrosar com o povo do comércio. Pequenos bicos, guardando carro, carregando caixas. Dormia aqui e ali. A camisa cruz-maltina já não estava nas ruas. Os meninos que se confundem com as calçadas.

E chegou um tempo em que também sumiu o da touca — que já não era vermelha, creio. Ficamos sem a touca e sem o cruz-maltino. Perguntei para algumas pessoas. Inexatidão. Especulava aqui, acolá. Nada. O fim de uma dupla que teve o fim sempre anunciado. Dados relatados e passados. Mentiras e histórias inventadas. A cidade autolimpante. Não há retrato de cabeceira para recordar nas ruas. Os tais meninos que se confundem com as calçadas.

A história poderia terminar em dúvida, epílogo anônimo. Em parte, não. O da touca reapareceu. Quando me viu, sorriu — já sem dentes. Abaixou a cabeça. Sorriu de novo. Perguntei por onde andava. Disse, meio vacilando, que tinha resolvido mudar de cidade, mas voltou. Está morando numa ponte à beira da Anchieta. Disse que é mais seguro e confortável. Estava bonitão — elogiei. Sorriu…

Pergunto do cruz-maltino. Ele sorri pela quarta vez e desconversa. Passou. Sumiu na dobrada da esquina.
Os tais meninos que se confundem com as calçadas.

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Há algo de inquietante no centro da política brasileira em 2025. Um tipo de silêncio tenso, como se todos soubessem que estamos diante de um fim de ciclo, mas ninguém quisesse dizer em voz alta. Lula governa, mas já não galvaniza como antes — não por ter perdido a aura que o cerca, mas porque governa cercado por forças que não se reconhecem em seu passado, limitado por um pacto que exige renúncia de si mesmo e mediando contradições que paralisam a ação. O Congresso age, mas em função de interesses imediatos. A esquerda defende pactos que seus adversários e alguns “aliados” já abandonaram. E o país parece girar em falso — entre fantasmas do passado e promessas que já expiraram.

O PT, ao reassumir o governo em 2023, apostou numa frente ampla que, embora eficaz para vencer a eleição, mostrou-se estruturalmente instável. O apoio é errático. A aliança com setores fisiológicos do Centrão garantiu votos no Congresso, mas não produziu base social nem horizonte político. Governar com quem destruiu o país ontem para evitar que o país seja destruído amanhã é um paradoxo que cobra caro. E Lula, mesmo ainda sendo o maior nome da política brasileira, já não basta por si só.

No Parlamento e nos bastidores do Estado, a fronteira entre a direita tradicional e a extrema-direita se dissolve. Ambas compartilham a fé cega no ultraliberalismo, a disposição para desmontar políticas públicas e a naturalização da captura do Estado como projeto de poder. A diferença está no tom, não no conteúdo. Uma se vende como “responsável”, a outra como “revoltada”, mas ambas operam com os mesmos dogmas econômicos e métodos políticos. A esquerda, nesse cenário, enfrenta um bloco reacionário mais coeso do que parece.

O bolsonarismo, embora sem fôlego institucional, segue presente como gramática. Bolsonaro respira como zumbi, mas respira. Suas ideias circulam, seus quadros disputam espaço e sua base — entre milicianos, policiais e fanáticos — não arrefeceu. A derrota eleitoral não desmontou a infraestrutura política que o sustenta. Enquanto isso, o campo democrático se fragmenta entre gestos de conciliação e crises de identidade.

E como emblema do colapso da Nova República, o PSDB já não existe como força política. Seu fim não é apenas o de um partido, mas o de uma era. Aquele centro liberal, fiador da transição, mediador de conflitos e voz da estabilidade institucional, desapareceu. A Nova República, pacto firmado no pós-ditadura, não foi destruída por um evento único — mas sim por um processo contínuo de corrosão. Hoje, só a esquerda insiste em sustentá-la, como se ainda houvesse pacto a salvar.

Essa cena doméstica espelha, com suas assimetrias e distorções, uma cena maior: a erosão do pacto global gestado após 1945. A ordem liberal internacional, centrada no multilateralismo, na hegemonia americana e no equilíbrio entre capital e direitos, se desfaz diante da volta dos nacionalismos, da desregulação brutal e da ascensão de novas potências. Trump está de volta, agora no quinto mês do segundo mandato, sem freios nem mediações. A semelhança é imperfeita, mas reveladora: tanto lá quanto aqui, os velhos consensos ruem, e os que ainda os defendem o fazem mais por inércia do que por convicção.

O Brasil tenta se posicionar no Sul Global, articula nos BRICS, ensaia uma diplomacia altiva — mas a realidade impõe limites: dependência econômica, contradições internas, conservadorismo e banditismo da elite. A governabilidade possível, hoje, parece ser a do menor denominador comum: manter o governo funcionando, evitar rupturas, impedir retrocessos mais agudos. Mas isso tem um custo: o esvaziamento da política como espaço de transformação.

Essa posição arrasta consigo uma contradição existencial. Porque não basta evitar o pior. Realpolitik sem projeto degenera em gestão do vazio. E a política, como a história nos lembra, não tolera o vácuo por muito tempo. A esquerda precisa de mais do que fé em Lula. Precisa reconstruir sua imaginação, seu enraizamento, sua capacidade de propor futuro. O lulismo, com todas as suas conquistas, foi um ciclo. E ciclos, mesmo os vitoriosos, têm fim.

O desafio não é apenas eleger um sucessor. É disputar sentido num país em fratura, no fulcro de mais uma crise do capitalismo tardio, onde os valores democráticos foram desgastados, as instituições perderam prestígio e a população se vê exausta e descrente. A esperança não brotará de slogans nem de nostalgia. Vai nascer do trabalho cotidiano de reconstrução — nas periferias, nos territórios, nas escolas, nos sindicatos, nas redes de solidariedade que ainda resistem com uma linguagem compreensível.

2026 será mais que uma eleição. Será um ponto de inflexão. Ou a esquerda reencontra sua vocação histórica de ruptura com o injusto, ou será tragada pela lógica do menos pior. Chama-se de “progressista” esse campo amplo e fluido que hoje tenta conter o avanço reacionário — mas o termo, por mais presente que esteja, revela mais a crise de identidade do que uma proposta de mundo. “Progressismo” virou rótulo para um amontoado de gestos defensivos, que ainda não sabe dizer o que quer — apenas o que rejeita. Lula pode ou não concorrer — mas isso, no fim, é detalhe. O essencial é que a esquerda pare de administrar pactos moribundos e volte a parir utopias para atingir o possivel: força viva, popular, criadora de sentido em meio ao caos.

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