No auge do rock megalômano, sobravam poucos espaços para bandas básicas. Na primeira metade da década de 70, ser básico era um ato heróico. Algumas bandas enfrentaram esse desafio e, em vez de arenas lotadas, ocupavam espaços apertados, sujos e esfumaçados. Foram elas que serviram de alicerce para o que viria a ser chamado de punk.
Há várias teorias sobre a origem do punk, cada uma com sua defesa apaixonada. Mas as chamadas pub bands já soavam notas sofridas em becos escuros, prestando tributo aos pais: o rock’n’roll, o blues e o rhythm and blues. O punk bebeu direto dessa fonte.
Um modelo perfeito dessas pub bands veio de Canvey, no condado de Essex, Inglaterra. Com Lee Brilleaux (voz), Big Figure (bateria), John Sparks (baixo) e Wilko Johnson (guitarra), o Dr. Feelgood começou em 1971 e, em 1974, lançou “Down by the Jetty“. Já tinha um público fiel na Ilha antes mesmo de o disco sair.
Não vou me alongar recontando a cena inglesa dos anos 70. Para isso, há um veículo mais apropriado: o filme de Julian Temple, “Oil City Confidential” (2009). O protagonista é o próprio Dr. Feelgood, e sua discografia e trajetória explicam perfeitamente essa história.
Logo depois veio a hecatombe punk. À distância, há quem minimize sua importância, e há quem exagere. Mas qualquer polêmica de almanaque se dissolve no momento em que se ouve o Dr. Feelgood. Havia algo ali—não necessariamente novo, mas algo que frutificou.
O discurso do “ser básico” no rock sempre serviu para encobrir intenções nem sempre honestas. Ser cool pode ser tocar simples, mas sem desprezar a música ou torná-la volátil. O do it yourself do punk, por vezes, foi mais retórica e truque de marketing do que essência. Muitas bandas sabiam tocar bem, mas baixaram o nível para se encaixar na cena; outras permaneceram na trilha dos poucos acordes e foram engolidas pela indústria.
Não era o caso do Dr. Feelgood. Eles seguiam a tradição fina das bandas britânicas de tocar rock negro com um sotaque branco e faziam a molecada pular.
Os fãs mais puristas dizem que o Dr. Feelgood acabou em 1977, quando Wilko Johnson saiu da banda—coincidentemente (!?!) o ano do auge do punk rock. Parece que a banda já tinha cumprido sua função reprodutora. Lee Brilleaux, um grande cantor de rock, seguiu com o grupo até sua morte, em 1994. A banda existe até hoje, mas sem nenhum dos membros fundadores.
Wilko Johnson seguiu carreira com seu trio em várias formações. Renega o título, mas é, sem dúvida, uma lenda da guitarra. Guitarra seca, econômica, sem palheta, solos curtíssimos e performance peculiar. Ele afirmou que sua maior influência foi outra lenda da guitarra britânica: Mick Green, do Johnny Kidd and The Pirates. Da mesma escola, podemos citar Mo Witham e Mickey Jupp (que merecem posts à parte).
Tive a oportunidade de assistir ao Wilko Johnson Trio em 1997, num pub de blueseiros em Londres. Direto, visceral. Ele e sua fiel e monogâmica Telecaster.
Wilko detesta o termo pub bands e relativiza a importância da cena punk. Não importa. Querendo ou não, ele foi um dos responsáveis por essa presepada toda.
Dois momentos históricos:
- Em 1975, um show do Dr. Feelgood em sua melhor fase.
- Em 27 de setembro de 2011, Wilko Johnson no programa de Jools Holland na BBC. Resgate merecido.




