Escrever torto por linhas tortas. Os Oiticicas voltam ao noticiário.
José, o avô, anarquista, professor, ativo na Insurreição Anarquista de 1918 no Rio de Janeiro, envolvido em varias ações e teses libertadoras.
Hélio, o neto, artista plástico, filho do neoconcretismo, que produziu uma obra inconformista e libertadora no final da década de 1960.
Os dois, de alguma forma, estão nas manchetes.
Organizações anarquistas são criminalizadas, com as sedes invadidas no sul do país. Na última quinta, a Operação Érebo, comandada pela 1a Delegacia de Polícia de Porto Alegre, Invadiu a Federação Anarquista Gaúcha, fundado em 1911, acusação é de que seus membros se utilizam de táticas terroristas para destruir instituições públicas e privadas. Há muito da inspiração de José Oiticica, o precursor, nesse episódio.
PM entra no campus da Universidade Federal da Paraíba, da voz de prisão a uma estudante, inconformado com uma frase pixada, num espaço reservado aos alunos: “Seja Marginal, Seja Herói”. A frase é o título de uma instalação de Hélio Oiticica, na qual ele problematiza a figura do marginal, como inimigo da sociedade, como alguém a ser dizimado. Não é uma apologia ao crime, mas um alerta contra o maniqueísmo.
Os Oiticicas voltam às manchetes sem o glamour e a reificação. Não mais José, descrito nos românticos e restritos zines anarquistas, ambiente folclorizado por quem dele tripudia. Não mais Hélio, nos sofisticados catálogos das galerias de arte ou nos sites do Itaú Cultural. Os Oiticicas voltam a ser perigosos, recuperaram o élan. A direita mudou de tática, partiu pra cima. Nesse momento, criminalizar os símbolos é mais eficiente que tentar neutraliza-los.
Há algo de positivo nos dois episódios. Tanto o avô, como o neto, preservaram a vitalidade. Essa vitalidade deve ser considerada por quem está lá e cá. Lá já considerou e está agindo, cá entre nós como vai ser? Há muito potência a ser desvelada.
Pra finalizar, deixo o poema “Anarquia” do avô, José, para pensar:
“Para a anarquia vai a humanidade
Que da anarquia a humanidade vem!
Vide como esse ideal do acordo invade
As classes todas pelo mundo além!
Que importa que a fração dos ricos brade
Vendo que a antiga lei não se mantém?
Hão de ruir as muralhas da Cidade,
Que não há fortalezas contra o bem
Façam da ação dos subversivos crime,’
Persigam, matem, zombem… tudo em vão…
A idéia, perseguida, é mais sublime,
Pois nos rude ataques à opressão,
A cada herói que morra ou desanime
Dezenas de outros bravos surgirão.”










