Image

arquivo

Arquivo mensal: outubro 2017

Escrever torto por linhas tortas. Os Oiticicas voltam ao noticiário.

José, o avô, anarquista, professor, ativo na Insurreição Anarquista de 1918 no Rio de Janeiro, envolvido em varias ações e teses libertadoras.

Hélio, o neto, artista plástico, filho do neoconcretismo, que produziu uma obra inconformista e libertadora no final da década de 1960.

Os dois, de alguma forma, estão nas manchetes.

Organizações anarquistas são criminalizadas, com as sedes invadidas no sul do país. Na última quinta, a Operação Érebo, comandada pela 1a Delegacia de Polícia de Porto Alegre, Invadiu a Federação Anarquista Gaúcha, fundado em 1911, acusação é de que seus membros se utilizam de táticas terroristas para destruir instituições públicas e privadas. Há muito da inspiração de José Oiticica, o precursor, nesse episódio.

PM entra no campus da Universidade Federal da Paraíba, da voz de prisão a uma estudante, inconformado com uma frase pixada, num espaço reservado aos alunos: “Seja Marginal, Seja Herói”. A frase é o título de uma instalação de Hélio Oiticica, na qual ele problematiza a figura do marginal, como inimigo da sociedade, como alguém a ser dizimado. Não é uma apologia ao crime, mas um alerta contra o maniqueísmo.

Os Oiticicas voltam às manchetes sem o glamour e a reificação. Não mais José, descrito nos românticos e restritos zines anarquistas, ambiente folclorizado por quem dele tripudia. Não mais Hélio, nos sofisticados catálogos das galerias de arte ou nos sites do Itaú Cultural. Os Oiticicas voltam a ser perigosos, recuperaram o élan. A direita mudou de tática, partiu pra cima. Nesse momento, criminalizar os símbolos é mais eficiente que tentar neutraliza-los.

Há algo de positivo nos dois episódios. Tanto o avô, como o neto, preservaram a vitalidade. Essa vitalidade deve ser considerada por quem está lá e cá. Lá já considerou e está agindo, cá entre nós como vai ser? Há muito potência a ser desvelada.

Pra finalizar, deixo o poema “Anarquia” do avô, José, para pensar:

“Para a anarquia vai a humanidade

Que da anarquia a humanidade vem!

Vide como esse ideal do acordo invade

As classes todas pelo mundo além!

Que importa que a fração dos ricos brade

Vendo que a antiga lei não se mantém?

Hão de ruir as muralhas da Cidade,

Que não há fortalezas contra o bem

Façam da ação dos subversivos crime,’

Persigam, matem, zombem… tudo em vão…

A idéia, perseguida, é mais sublime,

Pois nos rude ataques à opressão,

A cada herói que morra ou desanime

Dezenas de outros bravos surgirão.”

ImageImage

Fui ver hoje a exposição do fotógrafo suíço, Robert Frank, no Instituto Moreira Salles.

Num dos textos de introdução da exposição, Frank é apontado como o “primeiro fotógrafo de rua” da história, título que eu nem sei se é verdadeiro, mas que de fato não importa. O trabalho é excelente e é no mínimo um registro importante da história do século XX.

A série “The Americans”, fotos tiradas na sua peregrinação por vários estados dos EUA entre 1955 e 1956 é o seu clássico.

Mas, foi outra obra que me chamou a atenção e me trouxe uma boa lembrança, a série de fotos London/Wales, feita entre 1952 e 1953.

Uma panoramica do pós guerra, através das ruas de Londres e seus banqueiros ricos e o povo das montanhas do País de Gales, os mineiros de carvão, a classe trabalhadora.

As temporalidades híbridas retratadas por um arguto observador social. Sensacional.

Então, a lembrança. No início da década de 1990, foi lançado no Brasil, um dos romances do crítico e pensador social, galês, Raymond Williams. O título: “O povo das montanhas negras”. Li e jamais esqueci.

Trata-se de uma ambiciosa empreitada não concluída por Williams. O livro foi a primeira parte de três volumes, no qual ele se propôs a contar a história do povo galês.

Numa noite, o personagem Glyn sai para procurar o avô perdido nas montanhas e no meio do caminho ouve vozes do passado contando a história do seu povo. Das origens, há 25 mil anos atrás passando resistência aos vários invasores, tudo isso permeado pela afirmação da cultura e das coisas em comum como elemento de luta e resiliência.

Williams, que nasceu e cresceu entre mineiros e trabalhadores ferroviários, morreu em 1988, antes de lançar o terceiro volume e completar a saga. Infelizmente, o segundo volume nunca foi lançado no Brasil.

O povo galês e sua resistente classe trabalhadora, deram o tom do meu domingo, nas potentes imagens de Robert Frank e na lembrança da leitura desse maravilhoso romance de Raymond Williams. Um grande encontro.

ImageImageImage

Faz uns vinte anos que eu conheço a Júlia. Nesse interim trabalhamos juntos algumas vezes. Desde janeiro estamos trabalhando no mesmo setor, o atendimento da Monteiro Monteiro Lobato SBC.

A Juju, como todo mundo a conhece, tem um jeito peculiar de atender. A resmungona doce, parece que está brava, mas trata todos com carinho e atenção. Sorri e disfarça quando perguntamos a sua idade, nunca revela. Com toda certeza tem muito mais do que aparenta.

Desde sempre homenageio a Juju e canto pra ela o clássico de Lamartine Babo:

“Jou Jou, Jou Jou

Que é meu Balagandan

Aqui estou eu

Aí estás tu

Minha Jou Joo

Meu Balagandan

Nós dois depois no sol do amor de manhã

De braços dados, dois namorados

Já sei

Jou Jou

Balagandan

Seja em Paris ou nos Brasis

Mesmo distantes somos constantes

Tudo nos une, que coisa rara”

Ela ri, às vezes fica brava, e sempre sustentou que essa música não existia, que era mero deboche que eu armava para encher sua paciência. E dizia: eu nem sei o que é balagandan…eu, seguia cantando.

Depois de todo esse tempo de dúvida alimentada pela minha displicência , agora à tarde, resolvi mostrar a canção pra Juju, na voz de Mario Reis. Ela finalmente conheceu a ladainha que cometi nesses vinte anos. E a Juju sorriu.

Esta história é em homenagem a todos aqueles que nas tardes tristes com simples gestos a tornam menos duras…

Image

Estou finalizando a leitura de “Recursos da Esperança”, coletânea de textos de Raymond Williams.

Na última parte do livro se encontra uma entrevista que ele deu para Terry Eagleton, seu aluno e seguidor.

Logo no início da entrevista, Eagleton pergunta como Raymond Williams estava se sentindo naquele momento em que grassava o regime mais brutal para a classe trabalhadora visto na história.

Era 1987, Margaret Tatcher, acabara de vencer a terceira eleição consecutiva e o Labour Party e todo o campo socialista britânico, estava destroçado.

Williams responde com serenidade, mas não esconde o desapontamento e uma desilusão que ele confessa antiga, que se construiu desde 1956 (ocaso do stalinismo). No entanto, ele reitera a legitimidade da análise socialista, sem negar a dificuldade de implementação e as armadilhas que esquerda armou pra si mesmo.

Faço uma inflexão para o Brasil 2017, trinta anos depois dessa entrevista. Olhar a história com o privilégio da perspectiva nos coloca nesse momento num lugar assustador, mas por outro lado cioso de serenidade.

Era trágica de fato, a sensação desses dois pensadores socialistas de ver destroçado o estado de bem estar social no auge do laboratório neoliberal tatcherista. A ilusão da vitória socialista do pós guerra se enterrava ali.

Não menos trágica, porém, é a nossa sensação na atual conjuntura brasileira, de ter vivido um arremedo de bem estar social, construído com muito sacrifício em treze anos, e ver tudo isso destruído em menos de um ano.

Fomos atropelados pelo aprofundamento da razão neoliberal. A ampliação daquilo que Tatcher construiu com o sangue da classe trabalhadora britânica, nos acossa diariamente embalado em uma nova racionalidade e a desilusão vem da esperança que se não era consenso, abria possibilidades na primeira eleição de Lula.

Pouco importa a simetria dos dois momentos. Vale mais a serenidade para entendê-los e a fortuna de não cometer velhos erros com a experiência vivida. Eagleton, em outra parte da entrevista, cita uma frase de Williams sobre um recorrente erro da esquerda:

“fazer ajustes de longo prazo para problemas de curto prazo

Quem sabe não seja a hora de avaliar de forma objetiva o que é curto prazo e longo prazo? Chorar, lamentar, esbravejar e disputar de forma paroquial a hegemonia dos erros e acertos passados, só serve à paralisação e ao debate inócuo.

O título do livro citado é muito apropriado para o momento.

Image

O que mais assusta no rescaldo da tragédia de Goiânia é quantidade de máximas, julgamentos e gritas moralistas sobre o acontecido. Vindos de toda parte, de onde é esperada a insensatez e de onde se espera um pouco mais de bom senso.

Em quase todas as falas pairam o totalitarismo, os delírios sobre um passado idílico e as sentenças peremptórias. Na sociedade das competências, o fraco sempre perde e suas derrotas são fruto da inaptidão e da falta de “valores elevados”.

Em tudo prevalece o silêncio dos jovens afetados e a falta de disposição de iniciar diálogos com eles sem lançar mão de fórmulas prontas e juízos apressados. Iniciar diálogo demanda esforço e abandono das grandes verdades. Julgar é menos trabalhoso que compreender.

É mais fácil partir do pressuposto que tratamos com uma geração de autômatos guiados pela tela de um celular e de que aí não cabe nenhuma subjetivade. Os jovens são mais do que nossa arrogância estabelece.

Com que autoridade julgamos um universo que pouco conhecemos e que não temos nenhuma disposição para conhecer? Não é apenas o clássico conflito de gerações, pois vem agravado por um mundo onde a velocidade é um importante parâmetro. Os gozos, os usufrutos, assim como as feridas e as dores veem em grande velocidade, isso pode gerar mortes, tragédias e silêncios.

Assusta mais ainda, isso tudo acontecer num ambiente onde as mordaças são usadas como pretenso freio de arrumação, escola sem partido, retorno “aos antigos valores”, guerra contra a “ideologia de gênero”, colégios militares impostos como modelos de educação pública, formas violentas de calar as vozes que já são tão pouco ouvidas, o que aprofunda os abismos e os silêncios que isolam e comprovadamente matam.

O sociólogo inglês Raymond Williams sempre defendeu nos seus escritos o estabelecimento do que ele nomeou como um “cultura comum”, que considera as sensibilidades individuais, mas que busca o estabelecimento daquilo que é aberto e acessível a todos, fruto de uma construção coletiva, na qual a educação popular ocupa papel central. Um ideal espinhoso de alcançar na sociedade da fração e do divisionismo, da competição, do discurso diversionista e da imposição de uma educação apartada do diverso e do diálogo.

O desafio maior é lutar no meio desse desequilíbrio com o objetivo de não perder vidas e de não cair nas artimanhas da opressão e da excludência. A única alternativa é mergulhar no esforço coletivo de construir um caminho através da educação e da cultura que diminua os abismos geracionais e os vácuos que hoje como nunca, são ocupados pela escuridão. Um caminho comum. É a pauta prioritária

Image

Não tenho filhos. Tenho um enteado. Não ter filhos nunca me afastou de crianças. Pela profissão (bibliotecário), por empatia.

Toda criança tem um brilho particular nos olhos. Não é algo genérico, é singular, principalmente quando descobre algo, quando inaugura.

Em meados da década de 1990 namorei uma moça que tinha dois filhos. Um deles tinha 6 anos. Pude presenciar um desses brilhos inaugurais.

Levei o garoto pra ver um jogo de futebol pela primeira vez. Foi no Canindé, num jogo da Lusa. Quando entramos no estádio, subimos e ele pode ver o gramado todo. Então, a frase:

– Noossa, é verdinho…que bonito.

E veio o brilho nos olhos, daqueles inaugurais. Foi intenso e emocionante compartilhar aquela sensação de descoberta. Claro que o menino não virou torcedor da Lusa, foi ser palmeirense, time do pai. Mas, o primeiro brilho pude vivenciar.

Tenho sorte, pois esse brilho não é apenas suscitado nos campos de futebol. Acontece muito, bastante mesmo em bibliotecas. As meninas e meninos veem os livros e os olhos também brilham.

Não é magia, é vislumbre de novas cores, de cores diversas. É o brilho das possibilidades, das descobertas, dos novos enredos.

Eles estão por aqui. Entram pequenos, às vezes voltam, continuam, somem, aparecem depois de anos. Muitos brilhos se apagam, outros modificam, outros tantos perduram. São diversos os caminhos. Não é pouco ver e viver isso.

A foto é das meninas, meninos, professora e professor do EMEB Bruno Massone, agradeço.

Image

Ontem à noite no táxi, 23:00 horas, percurso Leblon/Cosme Velho/ Flamengo:

– Vai virar a noite ou para logo?

– Tive problemas de saúde na família, dormi mal a noite passada, devo parar logo. Além do mais, a cidade está vazia.

– Realmente, tá sossegado aqui…

Em poucos segundos refleti sobre o que eu disse. Rio de Janeiro, feriado da santa padroeira, média de 34 graus e a cidade vazia.

Como bem disseram os amigos que moram por aqui o Rio está triste, baixo astral. O estereótipo é de cidade violenta e perigosa, mas o que fica patente é a tristeza e a falta de horizonte.

Falta de horizonte com o Pão de Açúcar e a Pedra da Gávea beijando os olhos? A exuberância da natureza deixa a coisa mais difícil de entender.

O Rio é a bucha de canhão, balão de ensaio das destopias. O exemplo que querem construir para fixar a ideia de que o remédio para a ausência de Estado é menos Estado ainda. A narrativa monolítica de globos e plutocratas afins prevalece.

Vou dormir com o sentimento nada inédito de que “os caras venceram” ao esvaziar o Rio de Janeiro no feriado da santa. A cidade responde em volúpia e amanhece assim chuvosa. É o jeito silencioso de dizer não.

Image