Ontem li a entrevista do Lula para a Monica Bérgamo e calei. O ímpeto de falar sobre tudo é a válvula de escape das redes sociais. Resolvi pensar mais sobre o assunto.
Opinar e fazer repercussão sobre fatos pode criar uma estática, um zunido permanente que muitas vezes serve para encobrir dúvidas, angústias e incertezas.
Todos têm suas certezas sobre Lula. Quem defende o julga, quem acusa também o julga, e assim, resumimos todos o julgamento dos 13 anos de governo, dos 38 anos de PT, de todo campo popular e progressista e da esquerda pós ditadura, tudo isso na figura de Lula.
Da mais sofisticada e detalhada critica à mais rasa e apaixonada (contra ou a favor), há sempre uma observação ligeira ou profunda daquilo que Lula representa para o imaginário popular. As reações à entrevista de ontem apenas reforçaram essa escrita.
A proximidade de sua provável condenação, precipita um sentimento que nos avizinha há alguns anos: o de ausência de Lula. O que cria uma espécie de fim de uma muitas vezes exultante e outras conflituosa, adolescência da esquerda. Sem o Lula para exaltar ou espinafrar, o que faremos?
O pior papel, aquele que empobrece a critica tanto como o adesismo redentor automático que coloca Lula como deus, é a naturalização da “culpa do Lula”. Para além dos pedalinhos, reformas de sítio e triplex, Lula seria o culpado de tudo que deu errado para projeto da esquerda no país, é um exagero constante, que tende a empobrecer o debate, precipitar julgamentos (novamente ele) e esvaziar as alternativas.
Ainda defendo e para tal muitas vezes calo a minha crítica, que a figura de Lula é um legado do campo popular, esse simbolismo poderoso torna compulsória sua defesa. Não vou me juntar aos frias, mesquitas e marinhos e exercito subordinado para exumar cadáver nenhum, que o matem primeiro e paguem o custo disso. Nunca esquecendo que essa defesa não é uma chancela total.
Há que se afirmar a luta de classes e de que lado estamos e repudiar veementemente o discurso de que o grande mal está na polarização. Existe pelo menos um lado claro, que comporta 1% da população e onde não cabem os demais 99%, não? E hoje, é a figura de Lula que representa essa maioria, mesmo que parte dela o rejeite autofagicamente.
A esquerda vai ter que se acostumar a viver sem Lula, mas antes vai ter que entender melhor o fenômeno vivo.
