O ano de 2019 acabando e o intervalo de respiro em casa, possibilita ler e ouvir coisas que gostamos muito. São nessas paradas que pensamos a vida, as coisas que importam. Sigo nessa tarde de calor e chuva e deixo rolar as musicas de dois discos que nunca abandono. São dois tempos diferentes da música, dois universos que só podem se juntar pelas paixões eletivas de nosso íntimo.
Edu Lobo gravou Cantiga de Longe em 1970, com ele dois quartos do recém extinto Quarteto Novo: Hermeto Pascoal e Aírto Moreira. O álbum é um capricho só, de Casa Forte ,Zumzum, Mariana, Zanzibar, Feira de Santarém, Cidade Nova, Água Verde. Não tem gordura, não tem excesso, é tudo parte da parte do todo.
Edu era um cantor e compositor extremamente popular naquele momento, mas optou pelo experimento, pelas harmonias sofisticadas, pela canção do amiúde, optou por pensar a carreira, respirou antes de ser engolido. Cantiga de Longe é um dos grandes registros da historia da musica popular brasileira, um disco que ficou perdido na discreta e brilhante carreira de Edu Lobo.
O outro álbum veio oito anos depois, de Manchester, na efervescência do punk: Real Life do Magazine. Magazine é uma das mais influentes bandas da cena punk e pós punk inglês, só não é devidamente reconhecida. O cantor Howard Devoto foi membro fundador de outra importante banda de Manchester, o Buzzcocks.
Foi em 1978 que Devoto saiu do Buzzcocks para montar com o tecladista Dave Formula, o baixista Barry Adamson, o baterista Martin Jackson e o guitarrista John McGeoch, o Magazine. Ouvi, reouvi, ouvi de novo, este que foi o debut de bando, de 1978. Tive em vinil, mas se perdeu em uma das minhas mudanças.
Hoje, tenho que recorrer ao youtube para ouvir Burst, Parade (maravilhosa), The Light Pours Out of Me, Shot by Both Sides. O Magazine deu forma à transição do punk com as suas derivações, momento preguiçosa e genericamente chamado de pós punk. Um dos destaques da banda de Manchester são as letras ácidas e poéticas de Devoto , um dos grandes bardos da virada punk, e a guitarra originalissima do escocês McGeoch.
Recomendo os dois registros para quem não conhece e um novo mergulho para quem já conhece.
Que 2020 seja para todo mundo, o ano da virada, das (re)descobertas e dos prazeres grandes e pequenos. Todos sabemos que a luta vai ser compulsória, mas que seja mediada por silêncios, por respiros, por mergulhos em nossos prazeres e belezas.
Felicidade com música, a música melhora tudo.







