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Arquivo mensal: dezembro 2019

O ano de 2019 acabando e o intervalo de respiro em casa, possibilita ler e ouvir coisas que gostamos muito. São nessas paradas que pensamos a vida, as coisas que importam. Sigo nessa tarde de calor e chuva e deixo rolar as musicas de dois discos que nunca abandono. São dois tempos diferentes da música, dois universos que só podem se juntar pelas paixões eletivas de nosso íntimo.

Edu Lobo gravou Cantiga de Longe em 1970, com ele dois quartos do recém extinto Quarteto Novo: Hermeto Pascoal e Aírto Moreira. O álbum é um capricho só, de Casa Forte ,Zumzum, Mariana, Zanzibar, Feira de Santarém, Cidade Nova, Água Verde. Não tem gordura, não tem excesso, é tudo parte da parte do todo.

Edu era um cantor e compositor extremamente popular naquele momento, mas optou pelo experimento, pelas harmonias sofisticadas, pela canção do amiúde, optou por pensar a carreira, respirou antes de ser engolido. Cantiga de Longe é um dos grandes registros da historia da musica popular brasileira, um disco que ficou perdido na discreta e brilhante carreira de Edu Lobo.

O outro álbum veio oito anos depois, de Manchester, na efervescência do punk: Real Life do Magazine. Magazine é uma das mais influentes bandas da cena punk e pós punk inglês, só não é devidamente reconhecida. O cantor Howard Devoto foi membro fundador de outra importante banda de Manchester, o Buzzcocks.

Foi em 1978 que Devoto saiu do Buzzcocks para montar com o tecladista Dave Formula, o baixista Barry Adamson, o baterista Martin Jackson e o guitarrista John McGeoch, o Magazine. Ouvi, reouvi, ouvi de novo, este que foi o debut de bando, de 1978. Tive em vinil, mas se perdeu em uma das minhas mudanças.

Hoje, tenho que recorrer ao youtube para ouvir Burst, Parade (maravilhosa), The Light Pours Out of Me, Shot by Both Sides. O Magazine deu forma à transição do punk com as suas derivações, momento preguiçosa e genericamente chamado de pós punk. Um dos destaques da banda de Manchester são as letras ácidas e poéticas de Devoto , um dos grandes bardos da virada punk, e a guitarra originalissima  do escocês McGeoch.

Recomendo os dois registros para quem não conhece e um novo mergulho para quem já conhece.

Que 2020 seja para todo mundo, o ano da virada, das (re)descobertas e dos prazeres grandes e pequenos. Todos sabemos que a luta vai ser compulsória, mas que seja mediada por silêncios, por respiros, por mergulhos em nossos prazeres e belezas.

Felicidade com música, a música melhora tudo.

Nas últimas semanas estou me reconectando com a música. Desde sempre foi assim, são ciclos de presença e ausência, a música chega como trilha determinante ou fica ali quase desaparecida, fazendo o pano de fundo.

Hoje à tardezinha eu fiz uma pausa no café de um magazine de utensílios domesticos e numa rádio interna tocava uma música do Morrissey, o cara que junto com guitarrista Johnny Marr, compôs e cantou um grande pedaço lírico dos anos 80 do século passado, à frente do The Smiths.

Descobri logo depois que o que tocava era último single do cara de Manchester, que veio de uma tradição que se iniciou com Howard Devoto e Pete Shelley, os fundadores do Buzzcocks, banda seminal da cidade inglesa.

A canção “Brow of My Beloved” tem letra dolorida, romântica e uma bela melodia, Morrissey é muito talentoso e conseguiu sair do estereótipo dos anos 80 e se manter criativo e relevante.

A mistura do fim de tarde e a canção do velho cantor conhecido chegariam como brisa boa, se não fosse a lembrança de um importante detalhe: Morrissey assumiu um novo perfil nos últimos anos, o misantropo e vegetariano radical se revelou um direitista hidrofobo e xenófobo, apoiador do For Britain.

Definitivamente o avanço do conservadorismo no mundo mudou a nossa bússola e embaralhou nossas memórias. O posicionamento político e ideológico de alguém que nos afeta de alguma forma é uma coisa relevante. Não dá pra viver disfarçando, por mais que tentemos separar as coisas, uma divergência de fundo pesa na simpatia, antipatia ou simpatia.

Não dá pra ouvir Morrissey sem pensar no tipo de política que ele apoia, que gera violência, perseguição e mortes. Não há beleza de canção que encubra esse peso. A canção continua bela, mas o contexto muda tudo.

E tem uma outra história recente pra se juntar a esse reencontro com Morrissey.

Na quinta feira à tarde fui fazer minha tradicional visita na Galeria do Rock, mais especificamente na Araça Azul, loja do camarada Dagoberto Macedo. No meio da boa conversa que mescla música, politica e papo furado, nos últimos tempos sempre calha de comentarmos o abismo ideológico que separa os músicos à esquerda e à direita.

No meio da conversa chegou o Zé, que é um cara muito conhecido na Galeria do Rock, pois trabalhou em diversas lojas ali, além de ser um longevo DJ de um dos meus antigos e ainda ativos salões de rock de São Paulo, o Fofinho Rock Club, que fica na Avenida Celso Garcia, Tatuapé.

Quando se junta um trio de cinquentões e suas referências políticas e musicais, a tendência é falar de coisas antigas. Dessa vez foi o álbum Caruá de 1980, gravado pelo guitarrista Paulo Rafael e o Zé da Flauta, ambos muito conhecidos como membros da banda do cantor Alceu Valença.

O disco, que está há muito tempo fora catálogo, é sensacional, uma mistura de musica regional com rock progressivo, um belo registro da música instrumental brasileira. Assim que citado, lembrei da música “Entardecer” e fiquei com um trecho da melodia tocando na cabeça.

E por que ainda não relaçaram, em vinil ou cd, esse álbum?

Segundo o dj lojista Zé, o próprio Paulo Rafael afirmou que enquanto o Zé da Flauta continuar com suas posturas direitistas, fã da LavaJato, Moro e Bolsonaro, o disco não será relançado. Portanto, o que a música uniu, a política separou.

Zé da Flauta e Morrissey se juntaram num coro improvável e bizarro.

Eu tô aqui agora, meia noite e vinte e dois, escrevendo esse texto e ouvindo a canção “Brow of My Beloved”e o tema instrumental “Entardecer”. A trilha é bela, o enredo nem tanto. No final das contas esse corte ao meio, esse abismo imposto, que separa as pessoas, é muito triste. Me pergunto se o mundo sem essa marca era uma ilusão ou era apenas um outro tempo.

Estamos no fim desse conturbado 2019, quis compartilhar com vocês esse entardecer com música e com as muitas indagações. Sei que as respostas são difíceis e diversas. Os dois registros estão nos comentários.

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Gosto muito de fotografar as ruas das cidades.

Desde moleque, um dos meus maiores prazeres é andar pela cidade, saber das ruas, observar a construção histórica das ruas e das pessoas.

História essa que se compõe diariamente, que junta as pessoas que passam, as pessoas que nelas vivem e a paisagem em constante mudança.

É assim que as ruas, e no conjunto final, a cidade, se fazem compreender.

A digitalização, os celulares e suas câmeras e apps abriram o acesso para um grande número de pessoas poderem registrar em fotos as muitas histórias, pessoas e momentos de nossas cidades.

O meu encontro com essa nova tecnologia foi de muita satisfação. Tudo aquilo que antes eu que capturava nas andanças e ficava apenas na memória, pôde ser registrado e compartilhado.

Lugares de afetos, flagrantes da vida cotidiana, as conjunções de personagens, o concreto e a natureza que levam a cidade a um status mais amplo e diverso.

As redes sociais especializadas como o Instagram potencializaram essa possibilidade de registro estético, afetivo e pessoal das cidades.

Até aqui tudo bem, tudo bom, mas algumas coisas têm me incomodado muito nos últimos.

A primeira delas é mais pessoal e digamos que pode até ser considerada frívola, que é a quantidade de imagens óbvias e descontextualizadas produzidas por esses registros. Admito que essa é mais de carácter pessoal e pode ser evitada, usando os mecanismos que as próprias redes sociais disponibilizam.

A segunda implicância considero mais grave: o uso indiscriminado e muitas vezes desrespeitoso de imagens das pessoas que vivem nas ruas, com o argumento de denúncia social, compaixão, peso na consciência, blábláblá…

Na maioria dos casos trata-se de estetização da miséria, glamourização da tragédia social, desrespeito à privacidade, uso oportunista da imagem alheia. A facilitação dos registros fotográficos trouxe consigo uma série problemas éticos, que nem existiriam se fosse usado um mínimo de bom senso.

Nas ruas estão o reflexo mais agudo das contradições e da produção perversa do capital. Isso não significa que as pessoas que vivem na pele o substrato da luta de classes, podem ser expostas como fenômeno sociológico, exotismo ou peça de sensacionalismo. Elas devem ser respeitadas, sobretudo por sua vulnerabilidade e pela dificuldade de ter momentos de privacidade.

A sociedade de espetáculo está ávida por mais e mais conteúdo.

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A partir de março do ano que vem, o ISBN (International Standard Book Number) – um registro que identifica os livros publicados de acordo com o título, o autor, o país e a editora
deixa de ser concedido pela Biblioteca Nacional e passa a ser um serviço oferecido pela CBL, a Câmara Brasileira do Livro.

Na prática, trata-se da privatização do registro dos livros lançados em território nacional que até o presente está sendo pela nossa biblioteca depositária.

Não é uma mudança pontual, é mais passo para o esvaziamento dos serviços públicos, ao colocar nas mãos de uma entidade privada, um mecanismo que se tornou obrigatório no mundo editorial.

É possível publicar um livro sem o ISBN? Sim, mas ele ficará automaticamente fora da possibilidade de ser comprado pelo estados, municípios e pelo próprio governo federal, visto que a maioria dos editais exige o ISBN como condicionante. Isso para ficar apenas num exemplo.

Eu gostaria de entender quais as qualidades que diferem a Câmara Brasileira do Livro da Biblioteca Nacional, uma instituição seminal e basilar do livro e leitura no Brasil, que a habilitem para emitir o RG da produção editorial?

Movimentos como esses me fazem acreditar cada vez mais que o tsunami Bolsonaro/Guedes não é tão prejudicial assim para alguns segmentos da cultura e educação. Há muito simulacro há ser mapeado, catalogado e nomeado.

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Pois, trabalhar no domingo é normal. Pra quê espaço pro respiro, pra poesia, pra pensar à toa, pra quê contemplar? No novo mundo do trabalho, o desejo tem que mudar. O homem tem que ser o novo homem do novo mundo do trabalho, apesar de ser o mesmo e precisar do respiro, da poesia, do tempo à toa, da contemplação. Que mude o homem ou que se emudeça de vez o seu desejo e o seu domingo.

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Hoje, uma breve conversa em comentários de um post com o camarada Sérgio Mitre, jogou luz numa questão que confesso ter subestimado até o momento.

Ao debatermos a suspensão de uso do MEI para os trabalhadores da cultura, imposta pelo governo Bolsonaro, surgiu o assunto emprendedorismo.

No meio do diálogo, fui eu usar a cartilha que joga a pecha de alienados e manipulados nos trabalhadores pobres que acreditam que empreendendo triunfarão, e em cima do lance, o Sergio me corrigiu:

“…tenho dito muito: temos que parar de tratar o empreendedorismo como palavrão. A gente conversa muito sobre como estamos distantes, o nosso discurso, do cotidiano da população pobre. Todos eles querem ficar ricos, todos eles querem ou foram convencidos a empreender. Todo mundo tem um pequeno comércio, fazem unha ou pintam cabelo ou vendem Avon. E a gente? Dando murro em ponta de faca, dizendo que empreendendorismo é isso ou aquilo.”

Perfeito.

A forma mais perfeita de inviabilizar um diálogo é desprezando o sonho e a utopia do outro. Mais ainda, você retira o outro do campo da dialógica, ao ignorar as poucas alternativas que lhe restaram para sobreviver. O modo de sobrevivência quase nunca é opção, mas o que resta. E pior ainda é tratar uma opção (como uma escolha entre outras) do outro, como burrice e inépcia.

Não se trata de aceitar de barato o discurso do empreendedorismo da cartilha neoliberal e sua adesão pelos mais pobres, mas de compreender como chegamos a isso e tentar conjugar o direito de empreender com a consciência dos outros direitos relacionados a carga horária de trabalho, saúde, previdência social, etc.

Não se combate uma narrativa farsesca chamando de idiota aquele que por ela se persuadiu, além do mais, há um historico e uma tradição das camadas mais pobres, que empreende, se vira, se joga na vida, sempre que o Estado se ausenta.

O fato é que, ao invés de tentarmos conjugar a luta pelos direitos a essa dinâmica empreendedora, sempre a consideramos como excludente à condição do trabalhador formal. E é assim que os mais frageis se fragilizam mais e ficam abandonados à própria iniciativa.

Em resumo: demonizar e ridicularizar de forma reducionista o empreendedorismo é a maneira mais eficiente de se deixar criar por abandono os empreendedores mais fragilizados.

Na política, todas as disputas devem ser consideradas, sobretudo aquelas que geram um impacto real na vida das pessoas. As dinâmicas do real podem não caber no mundo ideal, dos direitos e conquistas que sonhamos, mas é parte do mundo em que vivemos e, sobretudo, implica aqueles com quem convivemos e queremos dialogar.

Obrigado pela luz do debate, Sergio.

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Os esbofeteios contraditórios do purismo tocaram o rosto de Marcelo Freixo do PSOL nesse final de um 2019 conturbado.

Não foram poucas as vezes que Freixo, e parte da esquerda purista, criticaram o pragmatismo de parlamentares que, ao tentarem evitar um mal maior, negociam pontos polêmicos em aprovação de leis.

O mundo gira e foi exatamente assim que Freixo se portou na negociação para votação do “Pacote Anti Crime na Câmara Federal. Negociou corretamente para evitar que uma peça fascista se estabelecesse por completo.

Aliás, é exatamente assim que funciona quando não há maioria absoluta num parlamento, o único caminho é a negociação.

Minto, pois há também um outro caminho: abandonar a votação, para marcar posição contrária ao negociado. Nessa estrada, o máximo que se consegue é ilibar a biografia e lavar as mãos, pois o que for votado sem intervenção do contraditório, vai impactar diretamente na vida da população.

O pacote anti crime, uma peça punitivista proposta originalmente pelo ministro Sergio Moro, foi desidratado no Congresso. Aconteceu assim, depois de debates exaustivos, acordos, concessões, manobras, etc.

O tal pacote não foi desitratado apenas pela esquerda, por motivos pragmáticos e de autoproteçao, a centro direita tambem operou nesse sentido, tudo isso dentro de uma negociação ponto a ponto.

Claro que sobraram pontos terríveis no que se aprovou na Câmara, óbvio que o Senado, com sua forte bancada lavajatista, vai tentar inserir o veneno de rato morista na íntegra da lei, mas qual a alternativa? Radicalizar, bater o pé e abandonar a disputa?

Caros, a vida parlamentar não é o tribunal permanente do Facebook, nem coluna da Eliane Brum, o típico “campo neutro” no qual os discursos puristas emplacam, lacram. Há interesses pesados em jogo.

É preciso reconhecer que há uma direita fascista empossada no poder Executivo, que disputa diariamente espaço e agenda num parlamento onde o chamado campo progressista (não uso aqui nem o termo esquerda) opera em franca desvantagem.

Se formos criticar a democracia de coalizão e as regras limitadoras que o capital impõe à sua lógica, o cenário muda, mas falar em radicalismo no palco da democracia burguesa sem apresentar uma proposta viável de ruptura, no geral, é puro exercício retórico.

O deputado Marcelo Freixo é muito experiente para saber a diferença entre um discurso perfeito e a realidade cotidiana do Congresso Nacional. A sua performance na negociação do pacote anticrime, pode servir como bom exemplo de como funciona o mundo real da política, sem os heróis desejados e a pureza almejada.

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