Hoje, Friedrich Engels faria 200 anos. É de Engels um dos livros que mais impactou a minha vida: “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, lançado em 1845.
Um livro intenso e que, segundo o professor José Paulo Netto, é um dos principais textos da tradição socialistas, que coloca pela primeira vez, o trabalhador como sujeito central na história.
Engels era rico, seu pai era empresário, e foi numa visita a uma das empresas do pai, em Manchester, que ele pôde entrar em contato com a vida cotidiana dos trabalhadores explorados que viviam nos cortiços da cidade inglesa.
Friederich Engels, um burguês de hábitos e vestimentas característicos, não teria acesso ao cotidiano dos trabalhadores sem a dileta ajuda de Mary Burns, operária de origem irlandesa, analfabeta e militante socialista.
Burns com a sua vivência e organicidade foi praticamente uma co autora do texto apaixonante, sem ter escrito uma linha sequer. Ela literalmente abriu as portas das quebradas para o rapaz de família rica.
Engels e Mary Burns casaram sem formalizações, foram companheiros de vida e militância ,até a morte prematura da operária irlandesa de forma prematura aos 41 anos.
Recomendo fortemente a leitura da “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra”, também comemorar os 200 anos de Engels e jamais esquecer Mary Burns, mulher socialista e protagonista da história da classe trabalhadora.
Uma lição que fica sobre a repercussão da morte de Diego Maradona, é que a ideologia estadunidense da guerra contra as drogas, sequestrou grande parte dos corações e mentes.
O moralismo e o punivitivismo sobre o uso de drogas, monopoliza o pensamento médio da média das pessoas. Tentar humanizar o viciado, contextualizar o uso de drogas, diante da violência da indústria proibicionista que mais estimula e visa os lucros do que educa, é um caminho inglório para o debate público.
Eu digo isso com muita tranquilidade e amparado numa triste experiência pessoal. O meu irmão faleceu, em parte pelo abuso de drogas, e a família toda embarcou por anos numa bad trip que misturou impotência, desespero e angústia, o que reforça a minha convicção de que não devemos julgar o adicto com sentenças morais reducionistas e totalmente descontextualizadas.
O moralismo do cidadão médio é um dos grandes aliados da ideologia da guerra às drogas estadunidense baseada no punitivismo e na repressão ao elo mais fraco da cadeia – viciados e pequenos traficantes – que mais agrava e aumenta os negativos impactos sobre a sociedade e veda um debate mais coerente e consequente sobre as distinções que devemos fazer entre o tráfico e o uso individual das drogas.
Julgar e punir os fragilizados para manter os lucros e o poder de quem se beneficia.
Acusar isoladamente os jogadores do futebol brasileiro de “não incorporarem o espírito latino americano” é um grande erro. O certo seria dizer “o brasileiro médio não se vê como latino americano”, como uma afirmação mais completa.
Nossas instituições educacionais não promovem o pertencimento do Brasil à America Latina, não se estuda história da América Latina na escola, somos esse anseio europeu e ianque nunca consumado.
A língua muitas vezes é uma desculpa esfarrapada para justificar a distância, aceitamos o falso inglês para desprezar o portunhol.
O que nos chega dos “hermanos” é a versão do colonizador espanhol, repleta de missões, extermínios, estupros, saques e omissões.
Isolar jogadores de futebol com a pecha de latinos americanos interrompidos é minimizar um fenômeno que é muito mais arraigado.
Se o Brasil não conhece o Brasil, como disse o Jobim, o restante da América Latina é para o brasileiro médio uma grande interrogação.
“Somos latino-americanos” é um slogan que depende de muito embate político e principalmente de dolorosos e profundos embates culturais para ser verdadeiro. Não se conquista somente com autodeclaração.
Entre silêncios que podem durar dias ou horas, aparece uma canção. E essa canção que aparece, quase sempre me diz muita coisa, inclusive diz muito sobre o silêncio que a precedeu, como se ele fosse um preparo para a canção que chega pra tomar o seu lugar.
E hoje de manhã, a canção que veio para substituir o silêncio foi “Última Forma” música de Baden Powell e letra de Paulo César Pinheiro na voz de Emilio Santiago.
É uma peça, um clássico do cancioneiro popular, que tem as harmonias intrincadas e oblíquas e aquelas letras sem refrão que parecem que nao vão caber na música, mas que no fim se revelam como uma canção perfeita.
E de novo uma canção salvou e reluziu meu dia:
“É, Como eu falei Não ia durar Eu bem que avisei Vai desmoronar Hoje ou amanhã Um vai se curvar E graças a Deus Não vai ser eu quem vai mudar”
Xinguei, vaiei, esperneei, vociferei contra Diego Maradona. Tudo intenso, tudo extremo, tudo muito, porém, tudo por amor. Amor ao futebol, amor ao futebol arte, amor a todos aqueles que se posiciona na vida.
Diego Maradona não foi um homem de sutilezas, tudo nele foi intenso, tudo nele foi demarcado, tudo foi bem posicionado. A rapidez e a genialidade no campo, acompanharam a firmeza de propositos e o engajamento fora dele.
Até quando vacilou foi intenso, apaixonado, ambíguo, barroco, transgressor, imprevisível. De golaços e pela mão de deus, de temporadas no inferno a pinturas impagáveis em dribles, deslocamentos e passes. Claro que algum deus deu-lhe muitas mãos, os deuses inversos também.
Maradona nos deixa num momento difícil, carente de referências e de pessoas que nao fogem às lutas. Leva com ele o amor do povo argentino e os xingamentos e apupos de outrem, eu incluso, que no fundo nada mais são do que reações de um amor transverso.
Um dos poucos grandes no futebol, um dos poucos grandes na vida, um cara atemporal.
Com muita dor e pesar digo: boa viagem, camarada!!!
O golpe de 2015, que destituiu uma presidenta da República democraticamente eleita, o neoliberalismo fisiológico de Michel Temer e a tosqueira ultradireitista de Jair Bolsonaro jogaram uma fina camada de areia sobre os tucanos e o grande mal que esses polidos e insípidos fizeram para política e a democracia brasileira.
Desde a derrota de Serra para Lula da Silva até o espetáculo grosseiro patrocinado por Aécio Neves, após a derrota para Dilma Rousseff, ao som da LavaJato e dos baixos e altos degraus do sistema judiciário, da mídia e do capital, tucanos de alta plumagem patrocinaram a desqualificação da política e a derrocada institucional brasileira, fatores que geraram o governo Bolsonaro..
Sem espaço para choradeira, temos que admitir que a frouxidão e permissividade de um certo petismo e o neoudenismo de uma camada psolista, contribuiram um tanto para a opera bufa montada em torna da história recente da política do Brasil, mas é inegável o protagonismo e a virulência pessedebista como maestros do espetáculo.
É nesse sentido que o pleito de São Paulo, no seu segundo turno, carrega um forte simbolismo e pode ser a grande chave para abrir novos caminhos. Ao contrário do que foi dito pelos repetitivos próceres do campo liberal, Boulos x Covas não representam a volta da disputa civilizada na politica, ao contrário, representam projetos antagônicos, onde a barbárie tem o rostinho polido.
Covas, o neto, é a prova mais bem acabada da dissimulação e da hipocrisia que o PSDB quer impor à politica com seus modelos fakes (falsos) de meninos polidos e eficientes. Covas é a imagem da mistura entre tecnocracia e plutocracia que quer destruir o Estado brasileiro e solapar numa versão suave a nossa soberania. O projeto de aniquilação tucano é de longo prazo, começou com FHC nos anos 90, despontado no governo Itamar.
Votar em Boulos 50 no domingo, alem de ser a melhor alternativa para São Paulo, é uma forma de comecar a desconstruir a hegemonia da direita tradicional e sua tácita aliança com a ultradireita populista representada por Jair Bolsonaro.
As forças progressistas devem estar ao lado de Boulos e Erundina no domingo. Aliás, desde o primeiro dia do segundo turno, o PCB que já compunha originalmente a chapa, o PT, PcdoB, e depois PSB, até o PDT, compõem essa frente. A coesão em torno da candidatura Boulos não se dá meramente por excludência, mas sim pela afirmação na retomada das políticas sociais e pela inversão de prioridades em favor das faixas vulneráveis e periféricas da cidade. É um bom prenúncio para um longo caminho, no qual a esquerda deve estar unida para viabilizar um projeto democrático e popular para os trabalhadores brasileiros.
É hora da virada, domingo é Boulos/Erundina 50, enfrentando os principais inimigos do povo brasileiro e abrindo um novo caminho.
Secos e Molhados foi um fenômeno da minha infância. O visual, a voz de Ney Matogrosso, as composições mezzo pop/folk/rock/prog do subestimado João Ricardo, encantaram, encantam, encantarão muitos, são atemporais.
Em 1973, foi uma explosão que mexeu com o coração e a líbido de muita gente. A ditadura não conseguiu censurar, adultos, jovens e crianças embarcaram, cantarolavam e assobiavam as canções. O mundo em minutos parecia menos cinza.
Particularmente, a canção que me toca e emociona até hoje é “Fala” de João Ricardo e do guitarrista Luhli, uma balada com letra impressionista que conta com um luxuoso solo de Moog, executado pelo convidado Zé Rodrix, que duela com as cordas e pode nos levar a imaginárias estrelas. Sempre que ouço “Fala”, na hora do citado solo de Rodrix, me desce uma emoção inexplicável, dessas que só a música pode nos proporcionar. E só sei dizer nada por dizer, escutem.