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Arquivo mensal: janeiro 2022

Estou relendo o livro “Nada será como antes”, coletânea de textos de uma das heroínas da minha adolescência/início da idade adulta, a jornalista Ana Maria Bahiana.

Concentrado em textos da década de 1970, o livro é um primor de exemplo de quem não está preocupada em escrever, mas acaba escrevendo a história do futuro. Ana descreve o momento musical, em que país jazia mergulhado na ditadura, mas vivia um momento especial de criação, de ideias, canções e gravações maravilhosas.

Desfilam no texto: Gil, Milton, Cartola, Belchior, Pepeu, Rita Lee, João Bosco, Hermêto, Egberto, Luiz Gonzaga, Caetano, Sueli Costa, Moraes Moreira, Walter Franco, Arnaldo Baptista…. há outros tão importantes quanto…

Um trecho me arrebatou nessa releitura.

Uma entrevista com Gilberto Gil para o Globo, em 1977, de início Gil comenta o ambiente, as ideias e os nexos das canções do disco “Refavela”. Chega o momento de falar de “O melhor lugar do mundo é aqui e agora”, Gil discorre:

“É uma música que ao fazer, pensava muitos nos presos, na prisão, como um lugar, uma dificuldade para a pessoa. Como realizar a tranquilidade, a mansidão, o bem estar interiores estando numa prisão? Como poder dizer o “melhor lugar do mundo é aqui e agora” dentro de uma prisão? (…) Será que eu conseguiria encontrar, essa leveza, esse desconpromisso mesmo estando preso? Eu conseguiria esse nível de liberdade que permite dizer “quando estar leve ou pesado deixa de fazer sentido”, como diz na música? (…) Num lugar onde eu não pudesse me movimentar à vontade, onde o uso dos meus sentidos estivesse reduzido às minhas migalhas do dia a dia de um lugar gradeado. Coisas do tipo. É a música mais política do disco, nesse sentido.”

A citação do trecho da entrevista é literal, nessa literalidade cabem muitas interpretações e exemplos. A canção que me acompanha há décadas, ganha um novo sentido com (re)leitura do texto e o contexto de vida. O exercício de olhar a dor, a falta, a privação, respirar e imaginar que há o melhor nisso tudo, é muito caro para mim, aqui e agora.

Fico pensando em quantas prisões metafóricas, que tem o peso das literais nos metemos em nossas vidas. Elas podem não ter grades e impor limitações físicas, mas nos podam, fazem faltar o ar. Pode ser tanta coisa: um abandono, a destruição de algo que ajudamos a construir e vemos ruir, ser destruído, a traição de confiança, a crueldade vinda de alguém que em algum dia voce estendeu a mão. São muitas as formas de aprisionamento sem as grades convencionais.

Mas a canção nos ensina que “o melhor lugar do mundo é aqui e agora” que seja “agora que é quase quando”. Deixemos o tempo dizer quando. São nesses momentos de trevas, 1977 ou “aqui e agora”, que devemos conseguir entender como seguir a dica de Gil em Refavela.

As tristezas contrastam num dia bonito de sol, talvez esse seja o mote. Cabe um tanto de coisa pra gente fazer e viver e, assim, deixar que o leve e, mesmo o pesado, deixem de fazer sentido.

Para Gil e para Ana Maria Bahiana, o meu muito obrigado.

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Elza Soares é tanta coisa que é até difícil escrever qualquer algo sobre ela sem lamentar as lacunas abertas. Ela cantou um Brasil inteiro.

Quando digo Brasil é importante frisar que esse Brasil que Elza cantou é complexo, cheio de abismos de desigualdade, cheio de violência, cheio de preconceito por um lado, e por outro tem todos os contrapontos que se colocam defronte a essas mazelas.

Tem a poesia, tem o ritmo, tem a beleza das vozes, harmonias e melodias, tem a força da palavra, do posicionamento, das atitudes políticas e estéticas que saem de corpos e mentes poderosos como os de Elza Soares.

Quando eu era menino, fã de futebol, ouvia das bocas machistas e maledicentes que Elza aproveitou da ingenuidade de Garrincha para subir na carreira. A mais grossa e estupida mentira que felizmente, Ruy Castro, ajudou a varrer da história nas páginas da primorosa biografia do ponta direita brilhante genial do Botafogo e da Seleção Brasileira.

Elza sobreviveu e lutou com dignidade para reconhecer o amor e paradoxalmente saber sair do abuso que o violento e irascível Mané Garrincha lhe impingia. Foi forte para se salvar, salvar o filho e seguir com brilho sua vida de lutas e conquistas e outros amores. É preciso frisar que entranhada nessas mil paixões havia uma pessoa extremamente politizada e posionada, sempre.

Na música, Elza foi soberana, múltipla, não convencional e mesmo convencional quando quis. Começou arrasando no fim dos anos 50 com “Se acaso você chegasse” e durante os anos sessenta com o samba suingado, bossa e canções na parcerias com Miltinho, Wilson das Neves e nos álbuns solos. Nos anos setenta se fixou no samba mais tradicional, para abraçar nas décadas posteriores todos os ritmos e ramos da composição que sua autoridade cunhada no sangue e na criatividade fez nascer.

Elza Soares foi uma explosão da cultura brasileira, ela é um presente que recebemos e que temos valorizar em cada segundo, em cada melodia, nas harmonias todas e no ritmo de suas canções. A mulher mãe negra e pobre, que no geral frequenta os números mais tristes de nossas estatisticas, inverteu a lógica e nos deu conforto e amor.

Poxa, eu ia escrever mais só que não tô conseguindo…

Eu sou um amante da música, muitas vezes me pego chorando emocionado apenas por lembrar de um trecho de melodia, de um verso. Elza é responsável por muitos desses trechos.

Para encerrar, vou deixar aqui um trecho de uma música de album em duo, de 1972, que traz uma dupla que sempre vou amar: Roberto Ribeiro e Elza Soares. Ela e ele estão nos lugares mais quentes das paixões que tenho na vida. Duas vozes e personalidades lindas que a cultura negro brasileira nos legou.

Em 1972, Elza e Roberto gravaram o album Samba, Suor e Raça e lá está um pout pourri de sambas que termina com um samba de Ismael Silva que diz muito de Elza e sua vida intensa:

Eu nada tive, o que tenho nesta vida são as rumas pra andar
O meu consolo é que essa gente que tem tudo no caixão não vai levar
(Mas no caixão não vai levar)
O que se leva desta vida
O que se come, o que se bebe, o que se brinca
Ai, ai…

Ela brincou, bebeu e comeu de tudo e deixou para nós tudo que resultou desses regozijos.

Adeus, Elza Soares, o seu melhor vai ficar conosco e como sempre você tem a liberdade para ir para onde quiser. De repente, um novo duo com Roberto Ribeiro surge no infinito.

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A fala do Lula na entrevista de ontem (19/01/2022) foi franca e direta. Entre convergências e divergências, o saldo é positivo e destaco uma parte óbvia: a ênfase que ele dará para a cultura em um possível novo governo.

É evidente que é algo louvável.

O caminho até a possível eleição de Lula ainda é longo. Quero distância daqueles que vivem um clima de “já ganhou”. É preciso reconhecer os conflitos no campo econômico e social que atormentam o capital diante de uma candidatura que fere parte de seus interesses e interrompe um caminho gerado por um golpe e a consequente ruptura institucional.

A cultura é um campo que a despeito do retrato cosmético que o senso comum lhe confere, afeta estruturalmente os interesses do capital. Os processos culturais produzem crítica e reflexão, estimulam a diversidade sem a necessidade de caminhos marqueteiros com altas doses de caô liberal, abrem a janela para a construção de identidade e para a liberdade estética e podem promover as ações coletivas em detrimento da egotrip suicida promovida pela razão neoliberal.

Tudo isso é lindo, maravilhoso e cheiroso, mas, só conseguiremos construir todas essas possibilidades com política pública e, principalmente, com a politização da política pública, sobretudo tendo como eixo e horizonte principal o conceito de cultura como algo comum, para todos e não apenas para os iluminados de plantão.

É nesse sentido que peço aos companheiros e companheiras de militância da leitura e do livro que se mobilizem e se unam, para que possamos construir (insisto nessa palavra) um projeto em comum que inclua e relacione dentre os vários eixos da área, para que a leitura ocupe um lugar merecido e necessário na política cultural de um futuro e possível (insisto nesse termo) governo Lula e exerça sua centralidade.

A leitura é o principal ponto de intersecção entre a cultura e a educação. Como um exemplo: bibliotecas públicas, escolares e comunitárias estão espalhadas pelos municípios brasileiros, regidas por políticas fragmentadas ou mesmo ausentes, sem integração e colaboração entre si, sem políticas de desenvolvimento de coleções e de mediação de leitura, para ficarmos no mais óbvio.

E há muita coisa a ser incluída nesse farnel: as médias e pequenas editoras, o estímulo àqueles que escrevem e/ou desejam escrever, as políticas oficiais de distribuição de livros, a bibliodiversidade, os diversos tipos de mediadores, os espaços não convencionais de formação de leitores…é amplo.

Quando Lula destaca a necessidade da volta da Cultura para o centro das prioridades, ele está apontando um rumo que demanda trabalho e politização e não mais uma sessão de comemoração laudatória. Há um longo caminho a ser percorrido nos próximos meses, espero e desejo que a leitura ocupe um papel de destaque nessa jornada.

À luta.

#LulaPresidente13

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Lembranças da biblioteca. Em 1997, eu estava completando três anos de atuação na biblioteca pública e atuava no atendimento da Biblioteca Malba Tahan no bairro de Rudge Ramos, São Bernardo do Campo.

A Malba fica numa área abastada da cidade, classe média com duas universidades (Mauá e Metodista)ao redor. Devido ao perfil socioeconômico, as doações recebidas pela biblioteca era muito variada trazendo títulos de qualidade, dentre eles muitas revistas em quadrinhos.

A diretora da biblioteca, Silvana Borin, infelizmente já falecida, sempre fazia observações sobre a perda de leitores adolescentes, frequentadores, que no fim da infância, abandonavam a biblioteca. É um caminho clássico: crianças encantadas pela biblioteca que a abandonam na adolescência.

Uma das soluções que sempre vinham à tona em nossas conversas era uma ideia antiga da Silvana: montar uma gibiteca. Desde que ela dividiu comigo a ideia me entusiasmei bastante. Em face da grande quantidade de doações de HQs que recebíamos, a gibiteca tinha um base, fomos pensando, articulando e com dificuldade e sob muita controvérsia conseguimos inaugurar, em 1999, a Gibiteca Municipal de São Bernardo do Campo. A Silvana teve grande importância na realização da Gibiteca.

De início, a Gibiteca Municipal funcionou na Câmara de Cultura Antonino Assumpção, no centro de São Bernardo do Campo, eu fiquei como responsável informal e atuava junto com o agente de biblioteca, Carlos Silva , um cruzeirense teimoso que foi muito importante na organização e disseminação do acervo nos seus primeiros anos. Eu fiquei incumbido de fazer a ação cultural e a relação com o público.

Os primeiros dois anos da Gibiteca Municipal foram um sucesso de público. Na prática, a Gibiteca era uma sala (que mudou para uma sala maior seis meses depois de inaugurada), que devido ao conservadorismo enfrentou resistência e nasceu desacreditada pela maioria do staff da Secretaria de Cultura, inclusive alguns colegas bibliotecários. Porém, a cidade quis e abraçou a Gibiteca, era emocionante no dia a dia, acompanhar a descoberta de crianças e adolescentes que surgiam dos bairros da cidade, fãs de quadrinhos, animes, mangás, ficção científica, meninos, meninas e até alguns adultos.

O aniversário de um ano da Gibiteca Municipal foi um acontecimento e o ponto culminante de sua primeira fase. Todo organizado em parceria com os frequentadores, com auxílio do Rubão, então administrador do espaço, que foi muito importante na manutenção e fomento do espaço. Oficina de quadrinhos, show de rock, cosplay, exibição de filmes, rodas de bate-papo, encheram aquela manhã e tarde daquele 19 de agosto de 2000.

Naquela fase heróica da Gibiteca se destacaram algumas pessoas que ficaram anônimas e nem sequer frequentavam o espaço. Um deles visitou a Monteiro Lobato ontem, depois de anos que não nos víamos. Conheci o Vitor Hugo em 1995, momento em que eu ainda trabalhava na Biblioteca Manuel Bandeira, bairro próximo ao centro de São Bernardo. À época, o Vitor, publicitário, assíduo leitor e frequentador da biblioteca, mantinha um bureau de serviços vizinho a biblioteca. Ficamos amigos e mantivemos contato mesmo depois de eu ter saído da Manuel Bandeira.

Onde entra o Vitor Hugo na história da Gibiteca Municipal? No final de 2000, resolvemos fazer um fanzine para registrar o trabalho e dar espaço para os frequentadores e colaboradores (foram muitos e muitas histórias) da Gibiteca. A ideia se transformou na construção da torre de babel, dificuldade, falta de estrutura e negativas internas, transformaram a confecção de um simples fanzine numa novela dostoievskiana.

Depois de muita controvérsia o fanzine saiu. Mas não foi por mágica. O Vitor, no seu bureau de serviços, fez a editoração eletrônica e a diagramação do bendito fanzine da Gibiteca Municipal. Fê-lo graciosamente, por camaradagem, mal receberia os créditos nominais, não fosse os meus gritos e tretas nos corredores da burocracia.

Ainda pretendo contar em detalhes a história da experiência (que foi dominantemente coletiva) que vivi na Gibiteca Municipal. Há outros capítulos posteriores, alegres e outros nem tanto. Nesse momento, gostaria de deixar meu agradecimento e a homenagem a todo mundo (foram muitos) que pública ou anonimamente contribuíram para esta história. O Vitor Hugo, que vinte e dois anos depois de toda essa história, está saudável, em plena atividade, feliz e com dois filhos bonitos, foi um desses caras, solidário e atento.

Como dizia a Nara Leão: os meus amigos são um barato.

Obrigado, camarada.

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Vi a minisérie da Nara Leão feita pela Globoplay. Excelente, abrangente como foi Nara. Ousada, atenta e docemente revolucionária.

Nara nunca foi musa, ser contemplada é muito pouco pra uma pessoa como ela. Como disse Chico Buarque, certeiro, lá pelas tantas: Nara foi desmusando.

Fiquei feliz de ver Nara artífice bossa nova, do Opinião, inspiradora da Tropicalia, gravando aquilo que a tocava, intensa no amor, uma mulher múltipla. Uma mulher que fez tudo que quis.

Mas, fiquei triste de lembrar de um homem que não namorou , nem casou com Nara, não compôs, cantou ou tocou com ela, porém foi seu amigo e biógrafo: Sérgio Cabral.

Cabral aparece no documentário entrevistando Nara, em imagem e voz, nas históricas gravações do Museu da Imagem e Som. Em 2008, Cabral lançou uma linda biografia de Nara, amorosa e muito bem escrita.

Por que a tristeza? Cabral desapareceu, foi enterrado em vida por força dos escândalos de corrupção e pelos absurdos do filho ex Governador do RJ, Sérgio Cabral Filho. Por ironia, Cabral Filho entrou na política por intermédio do pai que foi vereador da cidade do Rio. Além de tudo isso, Cabral sofre de Mal de Alzheimer.

Creio que Sergio Cabral merece mais do que o ostracismo e a pecha de ser pai daquele que errou. Cabral foi um dos jornalistas mais musicais desse país. Além de Nara, Cabral biografou Elizeth Cardoso, Ari Barroso, Ataulfo Alves, Tom Jobim, entre outros. Um homem dedicado à música do Brasil.

Nara Leão tem um álbum de 1977 chamado “Os meus amigos são um barato” – será que é possível lembrarmos de Sérgio Cabral como um grande amigo de Nara e também um jornalista e escritor que contribuiu demais para a nossa história musical?

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Veronica Greenfield nasceu no Harlem. Sua origem veio de um misto de afro-americanos, cherokees e irlandeses. Ela, uma prima, Nedra Talley e a sua irmã, Estelle Bennett, criaram as Ronettes e as canções “Be my Baby” e “Baby, i love you” e “(The Best Part of) Breakin’ Up” entraram para a história.

Em meados da década de 60, já uma cantora de sucesso, casou com o produtor gênio e monstro Phil Spector e passou a se chamar Ronnie Spector. Em 1974 se livrou do mala.

A maravilhosa e icônica cantora foi referência de gente como Keith Richard, Patti Smith e Joey Ramone emuuto provavelmente não saurá de perto de ouvidos atentos e mentes inquietas.

São poucas as pessoas que determinam o rumo do mundo musical, Ronnie Spector, talentosa, rebelde e influente, foi uma delas.

Boa viagem, querida!

1943-2022

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Quando convidada a gravar a canção Alfie em 1966, Cilla Black tripudiou. Não fazia sentido cantar uma canção que versa sobre um mulherengo, um conquistador. Disse ao seu manager, Brian Epstein que jamais a gravaria.

A canção teve como compositores simplesmente a dupla Burt Bacharach/ Hal David. Cilla disse que toparia gravar desde que Bacharah fosse arranjador, regente e a acompanhasse. Bacharach saiu dos EUA, foi a Londres e Cilla que duvidava, enfim gravou.

O mulherengo da música foi representando por Michael Caine no filme “Alfie”, um grande sucesso do cinema em 1966. A música é bela, o trio Bacharach, Hall e Cilla colocaram ela no mundo em janeiro, sete meses depois eu nasci em 01 de Julho. Ouvi essa canção a vida toda:

What’s it all about, Alfie?
Is it just for the moment we live?
What’s it all about when you sort it out, Alfie?
Are we meant to take more than we give
or are we meant to be kind?
And if only fools are kind, Alfie,
then I guess it’s wise to be cruel.

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