Estou relendo o livro “Nada será como antes”, coletânea de textos de uma das heroínas da minha adolescência/início da idade adulta, a jornalista Ana Maria Bahiana.
Concentrado em textos da década de 1970, o livro é um primor de exemplo de quem não está preocupada em escrever, mas acaba escrevendo a história do futuro. Ana descreve o momento musical, em que país jazia mergulhado na ditadura, mas vivia um momento especial de criação, de ideias, canções e gravações maravilhosas.
Desfilam no texto: Gil, Milton, Cartola, Belchior, Pepeu, Rita Lee, João Bosco, Hermêto, Egberto, Luiz Gonzaga, Caetano, Sueli Costa, Moraes Moreira, Walter Franco, Arnaldo Baptista…. há outros tão importantes quanto…
Um trecho me arrebatou nessa releitura.
Uma entrevista com Gilberto Gil para o Globo, em 1977, de início Gil comenta o ambiente, as ideias e os nexos das canções do disco “Refavela”. Chega o momento de falar de “O melhor lugar do mundo é aqui e agora”, Gil discorre:
“É uma música que ao fazer, pensava muitos nos presos, na prisão, como um lugar, uma dificuldade para a pessoa. Como realizar a tranquilidade, a mansidão, o bem estar interiores estando numa prisão? Como poder dizer o “melhor lugar do mundo é aqui e agora” dentro de uma prisão? (…) Será que eu conseguiria encontrar, essa leveza, esse desconpromisso mesmo estando preso? Eu conseguiria esse nível de liberdade que permite dizer “quando estar leve ou pesado deixa de fazer sentido”, como diz na música? (…) Num lugar onde eu não pudesse me movimentar à vontade, onde o uso dos meus sentidos estivesse reduzido às minhas migalhas do dia a dia de um lugar gradeado. Coisas do tipo. É a música mais política do disco, nesse sentido.”
A citação do trecho da entrevista é literal, nessa literalidade cabem muitas interpretações e exemplos. A canção que me acompanha há décadas, ganha um novo sentido com (re)leitura do texto e o contexto de vida. O exercício de olhar a dor, a falta, a privação, respirar e imaginar que há o melhor nisso tudo, é muito caro para mim, aqui e agora.
Fico pensando em quantas prisões metafóricas, que tem o peso das literais nos metemos em nossas vidas. Elas podem não ter grades e impor limitações físicas, mas nos podam, fazem faltar o ar. Pode ser tanta coisa: um abandono, a destruição de algo que ajudamos a construir e vemos ruir, ser destruído, a traição de confiança, a crueldade vinda de alguém que em algum dia voce estendeu a mão. São muitas as formas de aprisionamento sem as grades convencionais.
Mas a canção nos ensina que “o melhor lugar do mundo é aqui e agora” que seja “agora que é quase quando”. Deixemos o tempo dizer quando. São nesses momentos de trevas, 1977 ou “aqui e agora”, que devemos conseguir entender como seguir a dica de Gil em Refavela.
As tristezas contrastam num dia bonito de sol, talvez esse seja o mote. Cabe um tanto de coisa pra gente fazer e viver e, assim, deixar que o leve e, mesmo o pesado, deixem de fazer sentido.
Para Gil e para Ana Maria Bahiana, o meu muito obrigado.







