Image

arquivo

Arquivo mensal: abril 2022

Era como uma banda punk. Glauco, Luis Gê, Angeli e Laerte, o Toninho Mendes de manager e a Editora Circo agregando todos.

Os petardos imagéticos, para lá de sonoros, eram o Bob Cuspe, os Piratas do Tietê, Geraldão, Skrotinhos…as tiras do cotidiano.

Na verdade esse povo são pré punk, são beats, são filhos e parças de Crumb e Art Spiegelman, do underground, de uma longa contracultura.

A revista Circo fez parte da formação sentimental de um monte de gente naquela São Paulo saindo da ditadura. Nós crescemos com esses nomes animando nossas vidas e conseguindo exorcizar demônios, recalques, atrasos e solidões.

Como eu dizia, eles eram como uma banda punk. Glauco nos deixou tragicamente, Toninho Mendes foi em 2007. Restaram Laerte, Luis Gê e Angeli.

Angeli agora se calou, teve que se silenciar. Os punks também amam, choram e às vezes se calam. Para uma banda punk o silêncio é a negação, para uma banda punk imagética o silêncio é a imagem que se ausenta.

Valeu Angeli, as vezes gostei muito do que você fez, outras não, o fato é que você esteve presente na minha vida e de muitos da minha geração. Nos resta respeitar o silêncio.

Como disse a banda punk escocesa Exploited em algum momento do início dos anos 80: “Punks Not Dead”.

É verdade, a revista Circo vai sobreviver conosco, ainda que um dia só restem as histórias e as tirinhas, o que não é pouco.

Image

Passou a data, vacilo meu, esqueci que em março de 2022, o álbum Clube de Esquina completou 50 anos de idade.

É um prazer contar e adjetivar esse LP duplo protagonizado por Milton Nascimento e Lô Borges.

Fico sem palavras toda vez que chego na pausa dramática da música Caís, o piano de Wagner Tiso e o arranjo de cordas do então jovem, Eumir Deodato.

Antes:

…eu queria ser feliz
Invento em mim o sonhador…

Mesmo atrasado digo: Parabéns Clube de Esquina.

Obrigado por tudo que me proporcionou.

Image

Hoje, 31/03, nem existe, é de mentira. É a mentira que chegou adiantada.

Que os dias cinzas da década de 70, mesmo ensolarados, jamais voltem. Que os gritos calados, os corpos mutilados sejam o horror eterno de quem os patrocinou. Que aqueles hinos cantados à força no pátio da escola sejam destruídos nota a nota. Que a violência imposta seja a dilaceração eterna de quem a impôs. Que os livros e as biografias destruídas sejam a memória escrita e descrita da resistência simbólica e material. Que os homens de rayban e roupa verde sejam desprezados no além morte.

Solidariedade sempre àqueles que desapareceram e aos que ficaram esperando.

Ditadura nunca mais!!

Image

Eu ouvi meus tios, ouvi meus pais dizerem que chega uma hora na vida que a gente vê os contemporâneos irem embora. Gente que a gente gosta de perto, de longe, gente que faz falta.

Os 55 anos me põem nesse tempo, nesse lugar.

Outro dia (re)ouvi uma música que fala assim:

“Não sei, talvez amanhã eu não sou mais eu
De manhã nada aconteceu, aconteceu
Vejo a Ilha Rasa, longe no oceano
Cada um pra casa com o seu engano

Lua é tão vazia, vamos de mãos dadas
Na volta do dia, na volta do nada
O garçom sorrindo, já mudou a roupa
Mais um dia findo.”

Era a música “Dia 5 (famosa na versão do Taiguara) do Ruy Maurity, compositor e cantor, com muitos sucessos nos anos 70, tocou em novelas, tramou coisas no rock rural, regional, flertes com o candomblé, melodias bonitas, sem fronteiras, sem impedimentos.

Ruy é irmão do Antônio Adolfo, outro pianista, compositor e arranjador de muita coisa bonita.

Naquele dia, fiquei a ouvir Ruy, mostrei pra minha companheira, mandei para um amigo com o qual divido informações musicais. Fiz playlist com “Nem Ouro, Nem Prata” ; “Serafim e seus Filhos”; “Pelo Sinal”; “Comportamento”; “Passanharida”; “Bananeira Mangará”; “Senha de Lavrador”; “A Casa de Santa Branca”.

E o tempo chega e leva embora gente que amamos. Hoje foi o Ruy Maurity que alegrou esse nosso mundo com versos e melodias. Fiquei feliz pelo dia que retirei das minhas lembranças o Ruy que eu ouvi ainda menino.

Adeus, Ruy, boa viagem camarada.

Image