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Arquivo mensal: setembro 2022

Rede social traz o céu ou o inferno do dia a dia. Os antigos polaroids usados como metáfora, se fizeram posts, memes e comentários.

As surpresas podem ser boas, ruins, algumas delas emocionante.

Uso muito youtube para ouvir música e gosto de ficar stalkeando comentários para caçar as histórias das pessoas relacionadas às músicas que gosto.

Ja li, comentei e interagi com muita gente que conta histórias sobre shows em que conheceram músicos, bandas e canções ou mesmo quando ouviam na rádio ou vitrolas e aquela música ilustrava momentos de suas vidas.

Ja me emocionei pacas com essas interações. Muitas vezes essas comunicações se desdobram por anos e as histórias têm uma sequência candente ou dramática.

A última teve um capítulo ontem e vou contar a seguir:

Há treze anos um perfil postou a música Labios de Mel do Tim Maia de 1979, canção que ouço e amo desde a minha adolescência. Ouvi.

Continuei ouvindo porque a postagem ainda está viva. Há sete anos um perfil postou um comentário emocionante que eu vou reproduzir aqui:

” Essa música me faz lembrar meu irmão, ele era feliz, fanzaço do Tim Maia. Hoje ele está internado numa clínica para se recuperar de um vício. Saudade de quando ele estava bem, essa música me lembra dos bons momentos dele.”

Três anos depois voltei lá pra ouvir o som e fui ver os comentários e alguém perguntou: seu irmão se recuperou? Nada de resposta.

Há três semanas, fui eu que perguntei, seguido de outro rapaz e veio a resposta:

“Infelizmente não mano, ele morreu de AVC há dois anos, saudades!”

Me solidarizei logo em seguida, perdi um irmão em circunstâncias similares e aquilo calou fundo em mim.

É uma história triste, apesar da música bela e solar do Tim Maia. Não conheci o rapaz, mas temos uma música e uma história em comum.
Um emoção forte, que vem provar que o mundo virtual pode ser tocante.

PS: hoje o nosso Tim Maia faria 80 anos.

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Ele nasceu no mês de janeiro de 1927 em Fortaleza.

Sua casa, na capital cearense, ficava ao lado de uma rádio.

A paixão pela música começou ali, as ondas sonoras encantaram o menino que cresceu curioso e amante das melodias, harmonias e canções.

Adulto, Jairo Severiano se transformou num dos maiores pesquisadores da história da música brasileira, rigoroso e generoso por compartilhar informação com rigor e qualidade.

Seu masterpiece foi o livro “Discografia Brasileira em 78 rpm (1902-1964)”, lançado em 1982, junto com Miguel Ângelo de Azevedo, Gracio Barbalho e Alcino Santos. Uma obra que sozinha valeu uma vida.

Jairo lançou outras coisas importantes como os dois volumes de “Canção do Nosso Tempo” (1901-1957/ 1958-1985) escritos em parceria com o Zuza Homem de Melo e uma bela biografia do Braguinha.

Severiano nasceu em 1927, o mesmo ano em que nasceu meu pai, infelizmente, sua morte foi anunciada ontem no Rio de Janeiro.

Adeus camarada, você nos deixou um belo e consistente relato da história da nossa música e um fio longo que ainda vai durar muito tempo.

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Em 1973 a minha família deu uma virada nacionalista. Mudamos da Avenida Kennedy para a Rua Ipiranga. Não foi um endosso ao “Pra Frente Brasil”, mas uma mudança de uma avenida para o meio do bairro, quatro travessas acima.

Mudança de residência para um menino de seis anos, ainda que seja pra um lugar próximo, é como virar o mundo de ponta cabeça. Novos vizinhos, novo quintal, novos horizontes. A vida nova no pular de quatro transversais.

Uma das vantagens da casa nova é que ela ficava na rua de trás da escola onde fiz o primário e o ginásio. A então Escola Estadual de Primário Grau Caminho do Mar, que em 1976, viria a se chamar EEPG Professor Geraldo Hipólito, homenagem ao diretor da escola que teve morte prematura.

Morar perto da escola tem vantagens e desvantagens. Um exemplo: a princípio é mais difícil de se chegar atrasado, na prática a facilidade pode se tornar dificuldade, na medida em que você sempre acha que pode esperar um pouco mais pra ir. Mais uns minutos na cama, mais um tempo no chuveiro, mais um pão molhado no café.

Todo dia atrasado, entrando pela diretoria, tomando pito, levando vaia na sala. No entanto, haviam os subterfúgios. Um deles era o portão de trás da escola, que ficava exatamente na minha rua.

Por uma, duas, três vezes, pulei o portão, com toda a dificuldade imposta a um gordinho, e entrava sorrateiro, atravessando o pátio do pré primário e me misturando ao povo na fila indiana, onde éramos obrigados a cantar o hino nacional. Me sentia o perfeito malandro dos anos 20.

Mas, como dizia o Bezerra da Silva, malandro é malandro, mané é mané…

E logo tive o meu dia de mané. Fui flagrado pelo simpático, porém rigoroso, servente que fazia as vezes de bedel, o Sr Lázaro. Um sorridente corintiano, que era muito querido pelos alunos. Naquela quarta pulada de muro, quando coloquei o primeiro pé pra dentro da escola, ouvi a voz do Seo Lázaro:

  • Que coisa feia, Ricardão Provolone…

Era assim que ele me chamava e foi assim que me senti o mais mané dos malandros ao ser levado para a sala da Dona Terezinha, diretora da escola, para ouvir um sermão que juntava a vergonha que era morar tão perto da escola e chegar atrasado com a deslealdade em relação aos colegas que cumpriam o horário direitinho. Um pequeno capítulo do meu grande romance de fracassos.

Sim, essa é uma história prosaica, como tantos prosaismos que recheiam as nossas vidas. Mas, ganha muito sentido e uma inesgotável emoção, quando se volta ao cenário quarenta e seis anos depois e olhamos pra escola, pro muro e pro portão, que hoje tá diferente, se tornou impulável, e percebemos que até cresceu uma arvore bem do ladinho, pra enfeitar mais ainda a paisagem dessa lembrança tão prazerosa.

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Em 1973, Gilberto Gil gravou uma canção que juntava duas grandes marcas da cultura brasileira, o futebol e a música. Na poética, o jeito de jogar e a personalidade de um dos grandes personagens do futebol brasileiro:

“Prezado amigo Afonsinho
Eu continuo aqui mesmo
Aperfeiçoando o imperfeito
Dando um tempo, dando um jeito
Desprezando a perfeição
Que a perfeição é uma meta
Defendida pelo goleiro
Que joga na seleção
E eu não sou Pelé nem nada
Se muito for, eu sou um Tostão”

Afonso Celso Garcia Reis nasceu em Marília em 03 de Setembro de 1947, saiu pelo mundo para jogar bola. Jogou, e jogou muito, foi um estilista, de toques e dribles sutis, de organização do meio de campo e, sobretudo, de postura inconformista, posicionamento político e contestação da exploração do trabalho no meio futebolístico.

Jogou no XV de Jaú, Botafogo, Vasco, Flamengo, Fluminense, América RJ, Olaria, Santos…o estilo refinado dentro de campo se refletiu na atitude fora das quatro linhas, ao contestar e levar à justiça o direito de ser livre e se desamarrar de um clube, driblando a Lei do Passe e tendo direito à escolha em plena ditadura militar.

Afonsinho foi o primeiro jogador a receber o passe livre, trinta anos antes da Lei do Passe cair em 2001. Logo após, negociou nos seus termos com o clube que quis e foi jogar o jogo da vida com os cabelos longos e a barba que incomodavam o técnico Zagalo e a diretoria do Botafogo.

Pioneiro, ao abandonar o futebol, foi militar em outro campo de muitos desafios, formou-se em medicina e na psiquiatria, no âmbito da saúde pública, fez a grandiosa luta pelos direitos e o respeito às pessoas com sofrimento mental.

Gil não vacilou e foi sensível ao escrever que a nós resta aperfeiçoar o imperfeito, pessoas como Afonsinho nos ensinam os atalhos desse campo, com luta e dignidade.

Obrigado Afonsinho, você faz parte do seleto grupo daqueles pioneiros que resistiram e seguem resistindo. Que seja bem feliz nesse aniversário de 74 anos.

Saúde e paz, camarada!!!!

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