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Arquivo mensal: dezembro 2022

Cinquenta e seis anos compõem um mosaico variado de passagens de ano. Algumas gloriosas, um punhado esquecíveis e outro tanto significativas para a vida.

Em todas, a música tem presença garantida. Seja tocando alto ou silenciosa fazendo companhia para os pensamentos inquietos.

Lembrei de uma inesquecível. Com a companhia de um personagem que já não nos acompanha nessa viagem terrena.

Era 1982, eu com 16 anos e rolou aquele réveillon que todos amigos tinham viajado e eu duro e sem agenda, fiquei lá com meus discos e fitinhas k7, singrando a passagem para 1983.

Porém, não foram os discos e nem as fitas que reinaram na noite. O que tocou foi o Programa Rock Sandwich na extinta Radio Excelsior, em que os radialistas djs Kid Vinil e Leopoldo Rey dividiam duas horas para tocar rock and roll. Kid tocava punk e new wave, Leopoldo hard rock e heavy metal.

Embaixo de tanta adrenalina e hormônios teen, animados pela curiosidade e descoberta de bandas e sons que não haviam sido lançados aqui, eu mal lembrava que era passagem de ano, na verdade naquela vida não cabia interrupção.

No final do programa mais uma fitinha gravada, que seria ouvida ad infinitum, provavelmente com Buzzcocks, Exploited, Sham 69, Gary Numan, Stranglers, The Jam, Undertones, Dura Duran, Ultravox, X Ray Spex…com certeza não foram essas bandas, mas no set list de 40 anos depois, o que vale é o afeto, não a precisão da memória.

Leopoldo Rey ainda reina por aí, Kid Vinil nos deixou em 2017, um dos caras mais importantes da minha alfabetização roqueira. A rádio foi a grande abertura para o mundo musical.

Os dois radialistas e os sons foram a companhia da passagem de 1982 para 1983, a melhor notícia é que muita gente que amei e que amo me acompanhou nessa data nos anos seguintes, a música sempre junto.

Foi legal o réveillon de 1982, espero que seja bom também o de 2022 e o ano vindouro.

Feliz Ano Novo!!

Paz e Socialismo!

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Tomei consciência sobre o futebol nos anos de 1973/74, entre sete e oito anos. Meus irmãos dizem que na Copa de 1970, eu saí pela casa repetindo o nome do Tostão numa felicidade intuitiva, induzido pelo clima de Brasil campeão, Pelé era o outro nome que ressoava na aurora do mundo que eu descobria.

Logo, escolhi um time do coração, a Associação Portuguesa de Desportos, animado pelo futebol do atacante Enéias, pelo fato da Lusa ter dividido o título de campeão Paulista com o Santos e pela marra de contrariar o meu irmão, corintiano fanático.

Pelé entrou no imaginário do meu futebol como o gênio que nos deu o tri, mas também como o rival e algoz, que deixava os zagueiros da Lusa, Mendes e Calegari, em polvorosa.

E foi justamente na campanha do título dividido, que aconteceu um dos gols mais bonitos da carreira de Pelé, em cima da minha Lusa, no segundo turno do Paulista. A Lusa com o segundo uniforme todo branco e o Santos de camisa listrada.

Era 04/11/1973 no Pacaembu, a Lusa vencia o Santos por dois a zero no primeiro tempo, com um gol de Tata, outro do Enéias. Tomamos uma virada clássica do Santos no segundo tempo, sendo que o gol fatídico, o terceiro, foi uma pintura do Pelé.

Cruzamento da esquerda, matada e controle no ombro e uma virada de voleio . Um petardo, Zecão, o goleiro sorocabano da Lusa, só acompanhou. Virada histórica.

Se repetia uma rotina pesarosa para os times que jogavam contra o Santos. Não havia jogo ganho quando Pelé estava em campo. Era dramático para quem estava no lado de cá, mas era também lírico e belo.

Pelé foi o melhor jogador da história, o gol contra a Lusa naquela tarde de novembro de 1973, da minha infância, foi uma pincelada num quadro imenso e complexo, cheio de glórias e contradições. Foi bom ter vivido esse momento.

Adeus, Pelé, você é insuperável.

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Vinte anos sem Joe Strummer. Sim, o mundo, a nossa história é esse emaranhado de descobertas, auge de paixões e despedidas.

Foi assim com Joe Strummer, o cantor do 101’ers, o cara que viu o Sex Pistols e decidiu montar o Clash. O The Clash que apaixonou meninas e meninos no mundo todo.

Foi assim que descobri o que foi Joe Strummer.

O Joe Strummer que nós amamos olhou para a periferia do mundo, sem a piedade cruel do popstar colonizador arrependido.

Não, Strummer não teorizou, nem reproduziu lamentos improdutivos, ele agiu, se posicionou, ele foi para front e descobriu cedo que poderia combater as patifarias com sua voz e sua Telecaster. E transformou isso tudo em canções inesquecíveis.

Faz vinte anos que estamos sem o Joe Strummer, parece que foi outro dia, numa manhã parecida com essa, 22 de dezembro de 2002, que eu registrava em texto o adeus a Strummer.

São diversas razões para lamentar a ausência de Strummer, mas eu preciso me ater àquilo que não é lamento, preciso me agarrar ao legado de luta que esse rapaz nascido na Turquia, filho de mãe escocesa e pai indiano, deixou para quem ouviu, dançou e cantou suas canções.

Nós não temos a voz, não temos a Telecaster, mas temos a nossa história em comum e as canções.

São várias delas que eu poderia lembrar, mas uma frase cravada no meio da “Straight to Hell”, vai permecer para sempre, uma frase que nos une, para além dos territórios e dos tempos vividos:

Can you really cough it up loud and strong
The immigrants, they wanna sing all night long
It could be anywhere
Most likely could be any frontier
Any hemisphere
In no man’s land

Agora, sem culpa, podemos comemorar a ausência de Joe Strummer, a sua obra nos legitima.

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Desde sempre, Terry Hall mantinha o olhar triste e a voz serena, ainda que no meio da festa two tone, cheia de ska da segunda geração, de punk, de engajamento e confrontos com a extrema direita. Ele estava lá, atento, apesar do olhar perdido, a sua atitude era cortante.

Os Specials brilharam sob a liderança de Jerry Dammers e a condução elegante de Terry junto com Neville Staple, Linval Golding, Roddy Radiation, Rico Rodriguez completaram os dois tons da banda de Coventry e foi assim que forjaram toda a concepção diaspórica da Gravadora Two Tone.

O garoto Terry que poderia ter sido astro do futebol, que sofreu violência sexual quando criança, que lutou bravamente a vida toda para nao cair e morrer na depressão, que cresceu e cantou, largou o Specials, imediatamente após o estouro do single Ghost Town em 1981. Ironicamente, o maior sucesso da banda que anteviu a crise nas ruas das cidades inglesas no início dos 80, no coração da pancadaria da Era Tatcher:

“This town, is coming like a ghost town
All the clubs have been closed down
This place, is coming like a ghost town”

Terry Hall ganhou o mundo e formou novas bandas: The Fun Boy Three, The Colourfield, Terry, Blair & Anouchka, Vegas, Lighting Seeds, atravessou a década de 80 e 90 buscando o seu lugar no universo do pos punk, da new wave na trilha das boas canções.

No desenvolvimento da carreira manteve o ar de tristeza, o olhar perdido nos palcos, que contrastavam com o poder de entrar em cada projeto com a leveza de quem se inaugura continuamente, como fica expresso na canção “Sense” que escreveu com Ian Broudie:

“The taste of Love,
The more you get, the more you want,
And all because,
The only reason is just because.
It all makes Sense,
When you’re near
It all makes Sense”

Terry Hall andou por muitos palcos e estúdios, mas encontrou sentido e a acolhida do seu público ao reformular o Specials em 2008, sem o parceiro Jerry Dammers, mas com o viço e frescor que o fez ser admirado por Paul Weller, Elvis Costelo, Amy Winehouse, Kevin Rowland…Billy Bragg…seus contemporâneos.

Ao completar 60 anos, Terry disse algo numa entrevista que me fez gostar mais ainda do cara que cantou “Rudy, A Message to You” tantas vezes no meu ouvido: “sou feliz porque agora possou pegar o passe livre de ônibus e andar gratuitamente por Londres”, mais que uma frase conformista de sessentão, essa foi uma declaração sem ironia e verdadeira de alguém que amava vagar pela cidade.

O rapaz triste de Coventry nos deixou ontem aos 63 anos, porém, segue como referência daqueles que dançam com olhar perdido, sem perder jamais o contato com o horizonte desejado.

Too much too young.

Muito obrigado Terry Hall, você foi um grande companheiro de viagem.

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Olhando para o nada minutos antes do jogo Argentina x França.

A história (do futebol) me afastaria dos dois, algozes tantas vezes da seleção brasileira. De toda maneira, como eu misturo política, cultura, arte e futebol…vou torcer para a Argentina. Com menção honrosa à França.

E hoje de manhãzinha, eu não estava olhando para o nada, porque ouvia o grande Luis Alberto Spinetta.

Desde os anos 70, Spinetta é a própria história do rock argentino, amado em seu país, super popular em suas diversas bandas Almendra, Pescado Rabioso, Spinetta Jade e na carreira solo.

El Flaco, como era conhecido, misturou jazz, rock, Artaud, Rimbaud, os franceses em destaque em sua poesia, entre diversas referências da contracultura. Essa é a minha menção honrosa.

É com Spinetta que vou ver o jogo, é com sua canção “Todas Las Hojas Son Del Viento” que vou tirar os olhos do nada e ver o jogo:

“Todas las hojas son del viento
Ya que él las mueve hasta en la muerte
Todas las hojas son del viento
Menos la luz del Sol
Menos la luz del Sol”

Se vivo, Luis Alberto Spinetta iria estar feliz com a Argentina campeã.

Bóra ver o jogo.

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Os 27 anos de Noel Rosa foram intensos. A sua vida no Rio de Janeiro das décadas de 20/30 foi um mergulho numa cidade que crescia à luz e escuridão da desigualdade profunda, legado da escravidão, da República que ainda procurava a sua identidade acossada pelo Império e do caldo cultural que aprofundava a diferença de classes.

Noel é um dos protagonista de uma cena que deu forma àquilo que o historiador Bruno Carvalho chamou de cidade porosa.

O samba apresenta essa porosidade, mas não como mistura pacífica, muitas vezes é violenta, marcada pela apropriação, aliás, a cultura não é um território das amenidades de trocas gentis, não raro é um território de confrontos, de disputa ferrenha.

O cancioneiro de Noel tem esse peso do confronto de classe e raça, um sambista branco, estudante de medicina, diante de negros pobres que são o próprio samba, que lutam para serem reconhecidos como tal.

Eu fiz esse introito impreciso para chegar a um samba triste de Noel. Cor de Cinza é tido como um samba enigmático, uma letra imprecisa, impressionista, cheia de elementos pictóricos, com o relato de amor de amor dolorido, característico do compositor de Vila Isabel:

“Não durou muito a chuva
E eu achei uma luva
Depois que ela desceu
A luva é um documento
Com que provo o esquecimento
Daquela que me esqueceu”

Cor de Cinza é um samba poroso, cheio das galerias profundas de um compositor que ao lado de uma geração talentosa e profícua, inaugurou o tal Brasil moderno. A gente fica aqui pensando, oitenta e tantos anos depois o que queria Noel com aquela letra enigmática.

Antes de nós, pensaram sobre esse enigma Almirante, Paulo Mendes Campos, Sergio Cabral, Tinhorão, João Maximo…cada um inventou sua interpretação do samba mais esotérico de Noel:

“Ao ver um carro cinzento
Com a cruz do sofrimento
Bem vermelha na porta
Fugi impressionado
Sem ter perguntado
Se ela estava viva ou morta”

O primeiro registro de Cor de Cinza demorou a ser feito. Foi em 1955, dezoito anos após a morte de Noel, que a maravilhosa Aracy de Almeida gravou a primeira versão. Do que conheço, existem mais três: Jards Macalé, Grupo Rumo e Ivan Lins. Pela beleza, pela singularidade, é muito pouco.

É, acordei com Cor de Cinza na cabeça, hoje o dia tá lindo, parece mais um contraste. A verdade é que a música não marca hora, nem dia para nos visitar. Ela vem assim, na chuva, no sol, nos acaricia, as vezes nos atropela, nos incomoda, quase sempre nos ensina.

E tudo assim oculto ou evidente, pouco importa, é Cor de Cinza, o samba poroso que conta a história de um amor, um segredo que Noel levou consigo, que veio me visitar essa manhã.

“Não durou muito a chuva
E eu achei uma luva
Depois que ela desceu
A luva é um documento
Com que provo o esquecimento
Daquela que me esqueceu”

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Ali pelos anos de 1999/2000, eu trabalhava na Câmara de Cultura, no centro de São Bernardo do Campo.

À epoca, rolava um projeto chamado Sextas Musicais que muitas vezes lotava a velha casa amarela, que um dia foi a sede da Prefeitura Municipal. Tom Zé, Paula Lima, Duo Fel, Maurício Pereira e outros que não me recordo mais, passaram por lá.

Mas nem tudo era casa cheia. Haviam as sextas de pouco público, sem que isso representasse necessariamente queda na qualidade musical. Uma dessas trouxe um encontro genial.

O contratado era o extraordinário e inventivo percussionista Djalma Correa. O mineiro Djalma, aluno e discipulo do suíço Walter Smetak e do alemão Hans-Joachim Koellreuter na escola de música da Universidade FederaldaBahia, possuia um catálogo feliz de parcerias e colaborações, cujos destaques, pra nao ser exaustivo, eram Gilberto Gil, Paulo Moura e seu trabalho autoral.

No contrato, Djalma fez um pedido: ele queria a companhia de Stenio Mendes na apresentação. Stenio um musico que mora há décadas em SãoBernardo, tem como instrumento de execução e especialidade a craviola que foi inventada pelo seu tio, o violinista e compositor Paulinho Nogueira. Stenio é também um dos pioneiros no Brasil dos estudos de percussão corporal, sendo o mestre e inspirador do famoso grupo Barbatuques.

O desejo de Djalma foi realizado. A referência que eu tinha tanto de Djalma, como de Stenio eram os álbuns que ambos haviam gravado pela excelente coleção Musica Popular Brasileira Contemporânea (recomendo demais), no final da década de 70. Porém, sabia de orelhada que os dois tocaram juntos por diversas vezes em apresentações marcadas pela improvisação.

Assim foi. Musica de invenção, hipnótica, livre e inspirada, a apresentação da craviola e dos sons vocais de Stenio, somadas a percussão de Djalma Correa, tomou a Câmara de Cultura de SBC numa terça-feira chuvosa. Sim, o projeto chamava-se Sextas Musicais, mas exclusivamente no dia dessa jam aconteceu numa terça-feira.

Djalma chegou bem cedo no local. Sorridente, simpático, vivaz, conversou comigo sobre a sua vida musical, sobre sua casa no Recreio dos Bandeirantes no Rio de Janeiro, contou piadas e, no fim do papo, queria um cafe. Quebrei a cabeça pensando num café expresso no deserto centro de Sao Bernardo. Djalma percebeu meu embaraço e soltou:

  • Café de boteco sempre resolve, Ricardo – e lá fomos nós tomar o café.

Tomei um café com Djalma Correa e, logo depois, vi, ouvi e senti uma apresentação na qual dois representantes da liberdade musical, ele e Stenio Mendes, puderam dividir com o pequeno público que se dispusera a sair naquela noite fria da fria Sao Bernardo, a beleza possível de uma parceria pra lá de musical.

Obrigado Mestrão, foi uma honra ter dividido um café contigo.

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