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Arquivo mensal: agosto 2024

Sempre gostei de música. Desde sempre, ela foi contenção, refúgio e milagre na minha luta pela existência. Há algo de intangível nesse gostar. Falar sobre isso é difícil, não por hermetismo, mas por uma limitação em expressar plenamente essa dimensão. Para mim, gostar de música sempre foi compartilhar, dividir descobertas e emoções, nunca cultivar um isolamento elitista de bom gosto. Há uma insurgência nisso, não uma mera contemplação.

No entanto, o que sempre me incomodou é o caráter individualista que se atribui a ‘gostar de música’. Enquanto para mim a música é um ato de conexão e partilha, o senso comum a reduz a uma questão de consumo pessoal, de satisfação interior e isolada. O “bom gosto musical” torna-se um ideal de exclusividade, um culto ao belo e único que, paradoxalmente, priva a música de seu potencial transformador e coletivo.

Minha angústia aumenta ao perceber que a forma de ouvir música está se tornando cada vez mais associada ao consumo e ao isolamento. Plataformas de streaming, algoritmos e playlists personalizadas, embora convenientes, muitas vezes reforçam um consumo passivo e solitário da música.

Vou dar um exemplo.

Essa realidade contrasta com a experiência que se tinha ao ouvir música pelo rádio. O rádio, ainda que mediado pela indústria cultural, criava um espaço de compartilhamento, onde uma canção descoberta era ouvida por milhares ao mesmo tempo, espalhando uma energia coletiva. O rádio trazia uma intimidade que não se fechava em si mesma, mas que se expandia, criando uma sensação de conexão com outros ouvintes, como se estivéssemos juntos, apesar da distância.

Já o streaming, com sua promessa de liberdade de escolha, muitas vezes nos aprisiona em um labirinto de opções. A personalização, que deveria ampliar nossas descobertas, acaba nos isolando em bolhas de conforto, onde o novo surge apenas como uma variação do já conhecido. É o que chamo de “o medo do ouvinte diante do streaming” — a angústia de não lembrar, apesar do vasto repertório disponível; a angústia de não saber o que ouvir, mesmo diante de tantas ofertas nas plataformas. E mesmo quando decidimos, o ato se encerra em um ruído solitário dentro do fone de ouvido.

Gosto muito do que Mark Fisher diz no seu “Realismo Capitalista” que pode ajudar a traduzir essa angústia. Ele expõe como o capitalismo tardio nos aprisiona em um presente perpétuo, sufocando a possibilidade de um futuro que não seja mera repetição. O excesso de opções no streaming, em vez de nos libertar, nos paralisa. A angústia de não saber o que ouvir reflete a incapacidade de imaginar algo genuinamente excitante, fora da lógica do consumo e do individualismo.

É o “realismo capitalista” reduzindo a fruição daquilo que supostamente ele mesmo nos ofereceu. Pra finalizar, sigo com Fisher, que, apesar do seu pessimismo, nos fornece um caminho: a resistência é possível. A música sempre foi um espaço de contestação e de criação de futuros alternativos. É nesse ponto que brota a esperança: usar o poder coletivo da música para romper o isolamento, compartilhar de forma orgânica, desafiar o algoritmo e construir um futuro onde a experiência musical seja, acima de tudo, um ato de conexão e transformação coletiva.

Gostar de música significa encontrar maneiras de conectar nossas experiências, de compartilhar descobertas e emoções. E, acima de tudo, resistir à tentação do isolamento, buscando na música um meio de nos unir, em vez de nos separar.

Delírios de sábado de manhã para inspirar uma cerveja. Recomendo a leitura do “Realismo Capitalista”.

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