Lamento muito a morte do teórico estadunidense Fredric Jameson. A perda, nesse contexto histórico, ressoa como um marco simbólico: o maior pensador do pós-modernismo nos deixa em um momento em que as utopias parecem se desfazer. Ele, que com sua análise da lógica cultural do capitalismo tardio nos alertou sobre a dificuldade de imaginar e construir futuros alternativos, agora parte enquanto o presente se esfacela em tragédias cotidianas. Como ele bem escreveu, “estamos diante de um novo tipo de superficialidade, uma nova profundidade, ou melhor, a ausência de qualquer profundidade, onde a cultura se torna um substituto de si mesma”.
Enquanto isso, no cenário internacional: na ONU, o presidente Lula, num discurso importante, tentou oferecer um raro fio de esperança. Falou de paz, justiça e de um mundo que precisa reaprender a olhar para si mesmo com humanidade. Mas suas palavras, embora reverberem, parecem pequenas diante do massacre contínuo na Palestina. Uma das principais demonstrações de violência extrema em curso. Quantos discursos são necessários para interromper bombas e balas? Quantas palavras bastam para consolar pais que enterram filhos? O mundo segue anestesiado, incapaz de reagir, enquanto a extrema-direita se alimenta do medo, da raiva e da desilusão.
O Brasil não está imune. Com a ascensão de figuras como Pablo Marçal (uma sequência cínica do bolsonarismo), que com seu discurso simplista e inflamado desperta ecos de um passado sombrio, lembramos do putsch da cervejaria de 1923, quando um movimento aparentemente inofensivo tentou tomar de assalto as estruturas do poder. Como naquela época, subestimamos o perigo que surge do caos, das frustrações e da desesperança.
Em cada canto, a distopia cresce. Não uma distopia futurista, mas uma distopia presente, feita de realidades fragmentadas e sonhos desfeitos. Como Jameson observou, “não há mais profundidade ou substância; o mundo tornou-se um conjunto de imagens”, e essas imagens são, muitas vezes, de morte e destruição. Sem esperança, o que resta senão um caminhar apático em direção a um abismo que parece cada vez mais próximo?
Perdemos a capacidade de imaginar um mundo diferente ou nos resignamos a este caos? Que tipo de futuro construímos quando nossos sonhos se tornam apenas fantasmas do passado? O adeus a Jameson é também o adeus a uma era que, apesar de tudo, ainda acreditava na possibilidade de mudança. Hoje, restamos presos entre o medo do presente e a ausência de futuros.
Seguimos, porque não há escolha de parar, esperando por uma fagulha de esperança que ainda insista em nascer à partir das lutas e dos embates. E novamente, como Jameson nos lembrou, mesmo na pós-modernidade, “a necessidade da reinvenção da visão utópica em qualquer política contemporânea é uma lição que não pode ser abandonada”.
Valeu, mestrão!
Fredric Jameson – 1934-2024

