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Arquivo mensal: janeiro 2025

Marianne Faithfull morreu hoje.

Não é exatamente uma surpresa—ela viveu tantas vidas dentro de uma só que parecia impossível que o corpo aguentasse para sempre. É mais um silêncio. Marianne não era só uma cantora, uma atriz, uma musa. Ela era daquelas figuras que atravessam as décadas como um espectro, sobrevivente do auge e dos destroços de várias épocas.

Em algum momento da vida, li Faithfull: An Autobiography. Entre a minha dificuldade com o inglês e a sua vida cheia de céus e infernos, o fato é que aquele livro me prendeu. Não era só mais uma história de rockstars e excessos, mas um relato brutal de alguém que esteve nos extremos e usou tudo na sua poética.

Filha de uma baronesa austro-húngara e de um professor excêntrico que fundou uma comuna com interesses utópicos, Marianne cresceu entre o refinamento e o caos. Depois veio Londres, As Tears Go By, os Stones, a beleza absurda, o romance tempestuoso com Mick Jagger.

Mas o que me assombrou mais no livro não foi essa parte, mas os anos 70. Quando ela perdeu tudo e foi parar nas ruas de Londres, dormindo ao relento, sem dentes, viciada, expulsa de cafés porque achavam que era uma mendiga. Uma mulher que já tinha sido um ícone do Swinging London virando uma sombra esquecida. Um mergulho profundo no sombrio.

E depois veio, o renascimento, 1979, o lírico, Broken English, um dos albuns mais verdadeiros da história; a voz dela já não era a mesma—era rouca, ferida, cheia de episódios. Nunca mais voltou a ser a mesma Marianne dos anos 60, mas também, quem precisa ser? A partir dali, era outra mulher, uma artista completa, rediviva e fez albuns memoráveis cheio de integridade.

É o que lembro.

Marianne tinha esse jeito de rir do próprio escárnio, de zombar da tragédia e da redenção. Uma vez perguntaram se ela foi a musa de Mick Jagger. “Mick Jagger foi meu namorado. Não o contrário.”

E hoje ela se foi. Como tantas vozes que um dia fizeram o mundo parecer um pouco mais interessante.

Adeus, Mariane!

Foto: Robert Mapplethorpe

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Não existe neutralidade em políticas públicas. A técnica, por mais que se vista de um manto de objetividade, carrega escolhas. Toda portaria, lei, resolução – tudo isso nasce de decisões políticas. Decisões que, em algum momento, refletiram interesses, valores, prioridades.

Como eu escrevi outro dia, apesar de ter gente que não gosta de ouvir: o problema do governo Lula não é de comunicação, mas político. Comunicação é importante, claro, mas ela não substitui a clareza de rumos, a construção de alianças e caminhos coerentes ou a capacidade de enfrentar disputas nos terrenos onde elas realmente importam.

O caso do Pix é exemplar. A extrema-direita, com seu arsenal de mentiras e distorções, mostrou como a política pode se infiltrar até naquilo que parece mais técnico. O ataque ao Pix foi desonesto, criminoso, mas eficiente. Criou pânico, espalhou desinformação. O governo teve que recuar e recorrer a redução de danos. Foi uma derrota que ensinou, da pior maneira, que o campo técnico não é uma bolha isolada. É um terreno de disputa política, por óbvio.

O erro aqui não foi apenas de comunicação. Não foi falta de explicação. Foi falta de leitura política para implantar. Foi subestimar como a oposição constrói narrativas, manipula medos e usa desinformação para determinar o debate. E chega nas pessoas. Comunicação não resolve isso. Se a política vacila, afrouxa, a comunicação não tem o que segurar, tampouco o que comunicar. A popularidade vai para o buraco. É a política que dá direção, consistência e substância às palavras. Sem isso, tudo vira espuma afeita à contaminação.

Não existe técnica dissociada da política, não existe nada que não possa ser explicado politicamente.

A Cracolândia expõe um projeto de cidade que segrega, descarta e escolhe quem merece viver com dignidade e quem deve ser confinado, isolado ou simplesmente ignorado. É o resultado de décadas de políticas que trataram as populações vulneráveis como uma mancha a ser removida do tecido urbano, enquanto ignoravam as causas profundas da desigualdade. O resultado é morte e degradação.

Quando Ricardo Nunes mandou erguer o muro na Rua General Couto de Magalhães, Santa Efigênia, ele institucionalizou o apartheid social. Oficializou que o poder público não tem interesse em transformar a realidade, apenas em esconder seus efeitos. Essa medida remete ao que há de pior na história moderna: segregação racial nos Estados Unidos, os guetos da Europa nazista, os muros de exclusão em regimes coloniais. As drogas são apenas a cereja podre do bolo.

O muro de Nunes é mais um capítulo de uma longa história de erros, omissões e medidas baseadas no preconceito e ignorância do poder público. A Cracolândia se consolidou porque sucessivos governos preferiram a repressão à inclusão, o espetáculo da violência ao trabalho paciente de reconstrução social. Esses governos escolheram ignorar a desigualdade, negligenciar a saúde mental e abandonar políticas públicas de moradia e reinserção.

Houve tentativas diferentes. Durante a gestão Haddad, o programa “De Braços Abertos” provou que era possível tratar os usuários como cidadãos. Oferecer trabalho, moradia e dignidade gerou resultados concretos: redução do consumo, melhora na qualidade de vida e a devolução de alguma esperança. Mas quem veio depois desmontou tudo, optando pela força e pela desumanização.

A direita, em sua busca por agradar as elites e manter o poder, perde a cada dia mais a vergonha de ser extrema. O muro é um exemplo de como o discurso autoritário não apenas resiste, mas ganha legitimidade em atos que institucionalizam a exclusão e a violência. A cada nova medida como essa, o limite do inaceitável é empurrado para mais longe.

O muro de Ricardo Nunes é uma das medidas mais cruéis da história recente da cidade. É a alvenaria do apartheid. Ele não resolve nada, não melhora a vida de ninguém e reforça uma lógica de exclusão e violência que perpetua o ciclo da miséria. Comparável aos guetos e campos de confinamento, é um marco do retrocesso na gestão de uma questão tão complexa.

O caminho correto começa com derrubar o muro, literal e simbolicamente. O problema da Cracolândia não está nos usuários, mas na ausência de ações estruturantes: políticas robustas de saúde pública, programas consistentes para tratamento da dependência química, moradia digna, empregos, assistência social. É preciso devolver a essas pessoas a condição de cidadãos e integrá-las ao espaço urbano.

A Cracolândia é fruto de escolhas políticas. Escolhas que priorizaram a especulação imobiliária, o higienismo, a repressão e o espetáculo, enquanto ignoravam a dignidade e a inclusão. O muro de Nunes é um reflexo dessa lógica de indiferença e abandono, uma engrenagem a mais no ciclo da miséria. A verdadeira transformação virá quando essas escolhas políticas mudarem.

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Trinta e dois anos dentro da mesma rede de bibliotecas públicas. Algumas grandes, outras pequenas. Algumas cheias de vida, outras silenciosas demais. Algumas projetadas para durar, outras já nascidas com prazo de validade. Já vi bibliotecas sendo defendidas como espaços essenciais, já vi sendo tratadas como um serviço a ser cortado na próxima gestão.

Já vi salas de leitura lotadas e mesas vazias, acumulando poeira junto com os livros que ninguém mais pega. A biblioteca pública nunca é apenas um prédio com livros — ela carrega as marcas do tempo, da política e das escolhas de quem tem poder sobre ela.

Ao longo desses anos, aprendi que nada é garantido. O que hoje é uma biblioteca cheia de gente, amanhã pode ser um depósito esquecido e mitigado. O que hoje é um direito assegurado, amanhã pode ser apenas mais um corte de orçamento justificado por “falta de demanda” ou irrelevância.

Foi assim que entendi: a biblioteca, além de um espaço de conhecimento, é um campo de disputa. Pode ser um lugar de acesso ou um filtro seletivo, um espaço aberto ou uma barreira invisível. Pode estar com portas abertas, mas com barreiras intransponíveis. Tudo depende de quem define as regras.

Talvez por isso eu tenha voltado a pensar em E. J. Josey, e ele é essencial.

Se, para mim, a biblioteca pública nunca foi um lugar neutro, para ele, foi um espaço ativamente negado

Quem foi E. J. Josey?

E. J. Josey (1924–2009) foi bibliotecário, professor e ativista dos direitos civis estadunidense. Desafiou a segregação racial dentro das bibliotecas e das instituições que as administravam. Ele foi um dos primeiros negros a se formar em Biblioteconomia nos Estados Unidos e passou a vida contestando um sistema que impedia bibliotecários negros de ocuparem espaços de liderança.

Mas Josey não se contentou em ser apenas aceito dentro da biblioteconomia branca. Ele queria transformá-la. Desmantelou barreiras institucionais, abriu caminhos para outros e levou a equidade racial para o centro do debate profissional. Foi presidente da American Library Association (ALA), fundou o Black Caucus of the American Library Association (BCALA) e lutou por mudanças estruturais muito antes de o ativismo virar marketing corporativo, antes de diversidade se tornar slogan e inclusão ser reduzida a números em relatórios institucionais.

Ele fez tudo isso antes que o filtro liberal transformasse o ativismo em marketing meritocrático, antes que diversidade se tornasse um slogan e inclusão fosse algo a ser quantificado em relatórios institucionais.

Para ele, não bastava ocupar espaços — era preciso mudar a estrutura que os tornava inacessíveis. Sua trajetória não foi uma história de “superação individual”, mas de luta coletiva e coerência.

Seu papel como líder classista foi uma extensão dessa luta. Josey não apenas questionou a exclusão racial na biblioteconomia, mas também denunciou as desigualdades dentro da própria profissão. Foi um crítico do elitismo institucional e defendeu que bibliotecários negros e de classes trabalhadoras tivessem acesso a cargos de decisão. Para ele, o direito ao conhecimento não se separava do direito ao trabalho digno e à representatividade real dentro das instituições.

Além de ativista, Josey foi também professor universitário e formador de gerações. Lecionou em diversas universidades, incluindo a Universidade de Pittsburgh, onde ajudou a moldar novos bibliotecários comprometidos com a inclusão e a justiça social. Sua atuação na academia foi uma continuidade de sua luta: ele não apenas abriu caminhos, mas garantiu que houvesse mais pessoas preparadas para seguir a luta.

Josey nasceu em Norfolk, Virgínia, em 1924, em um mundo onde bibliotecas públicas não eram para pessoas como ele. Se fosse negro, você não entrava. Se entrava, não podia sentar. Se sentava, não podia pegar um livro. Para Josey, a biblioteca não era um refúgio, mas um lugar onde sua presença era negada.

A exclusão não se limitava às bibliotecas. Filho de uma família pobre, perdeu o pai cedo e precisou trabalhar antes mesmo de concluir o ensino médio. A vida adulta chegou antes da hora, sem cerimônia.

Quando foi para o Exército, a segregação o acompanhou. Durante a Segunda Guerra Mundial, viu soldados negros arriscando a vida pelo país, mas sem o direito de usar os mesmos espaços que os brancos. Certa vez, ao entrar em um ônibus militar, o motorista ordenou que ele cedesse o lugar. Josey recusou. O motorista sacou uma arma. Ele continuou parado.

Não dispararam contra ele naquele dia. Mas ficou claro que esperavam que ele soubesse o seu lugar.

Talvez por isso tenha escolhido um caminho improvável.

Depois do Exército, Josey estudou História na Universidade Howard e fez mestrado em Columbia. Mas queria mais. Ingressou na Universidade Estadual de Nova York (SUNY) Albany para se tornar bibliotecário.

O diploma, no entanto, não mudou a realidade. Bibliotecas ainda não contratavam bibliotecários negros. As associações da profissão no sul dos Estados Unidos sequer aceitavam membros negros. A mensagem continuava clara: a biblioteca não era um espaço para ele.

Mas Josey não aceitava migalhas. Ele queria mudar as regras.

Nos anos 1950 e 1960, enquanto o país começava a desafiar a segregação, a biblioteconomia permanecia confortável em sua exclusividade branca. Algumas bibliotecas permitiam a entrada de negros, mas os relegavam a seções separadas, com acervos limitados e sem nenhum bibliotecário negro em posições de decisão.

Foi então que, em 1964, Josey propôs uma resolução dentro da American Library Association (ALA) proibindo a organização de manter vínculos com associações estaduais segregadas. Parecia óbvio, mas não era.

A ALA se orgulhava de sua “neutralidade”. Mas o que significava essa neutralidade quando bibliotecários negros sequer podiam se associar? Aliás, não é raro ouvir esse mesmo argumento em conselhos no Brasil atual. A pasmaceira resiste.

A resolução foi aprovada. A segregação acabou no papel, mas a exclusão persistiu.

Josey sabia que não bastava estar presente. Era preciso poder falar, decidir, transformar, antes, confrontar.

Foi por isso que, em 1970, ajudou a fundar o Black Caucus of the American Library Association (BCALA). Porque não basta ser permitido—é preciso ter poder dentro da estrutura.

E. J. Josey morreu em 2009. Seu nome deveria estar mais presente na história da biblioteconomia. Mas o tempo tem o hábito de suavizar figuras incômodas, tornando-as meras notas de rodapé em discursos mais palatáveis.

Agora, as bibliotecas públicas continuam frágeis, continuam alvos de cortes, continuam espaços de disputa. Ainda há livros que não chegam às estantes. Ainda há quem precise justificar sua presença dentro delas.

Josey abriu caminho. Mas caminhos não se mantêm abertos sozinhos.

A pergunta que fica é: quem continua andando por eles?

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Já pensou no que acontece quando mal começa o dia, e ainda sonados, abrimos as redes sociais? Parece um espaço livre, cheio de opiniões e conexões e possibilidades, mas, além de não ser isso, vai além. Essas plataformas são máquinas de vigilância e manipulação, projetadas para criar um lugar de negócios e, ao mesmo tempo, uma arena de dominação política. O espaço público, que deveria ser aberto, é, em resumo, moldado por interesses corporativos e, claro, por determinado projeto político. Os “gênios” Mark Zuckerberg e Elon Musk não estão apenas administrando negócios; comandam sistemas sofisticados que transformam a comunicação em ferramentas de controle guiadas por algoritmos.

Essas redes não foram feitas para construir conhecimento e ampliar mecanismos de participação. Seus algoritmos amplificam extremismos, reforçam bolhas de ódio e negação e promovem o pensamento alinhado à extrema-direita. Violência, ódio e autoritarismo são estimulados por sistemas que dividem, enfraquecem resistências e desviam a atenção de questões coletivas e avanços sociais. Política e plataformas se encontram na busca por engajamento, em que sensacionalismo, pânico moral e negacionismo substituem debates reais.

Fora do Brasil, as disputas são claras. Nos EUA, a ‘liberdade irrestrita de expressão’ serve de escudo para fake news e discursos de ódio. A Europa, por sua vez, busca combater a desinformação e exigir transparência com leis como a de Serviços Digitais. China e Índia, em contrapartida, optam por controles estatais em nome da soberania digital, sacrificando liberdades individuais. No Brasil, o Marco Civil e o PL das Fake News buscam equilibrar democracia e regulação, mas enfrentam resistências.

E agora o que fazer? Aceitar que algoritmos governem a política é desistir de mudanças reais para cair na negação. Como sociedade, precisamos pensar em alternativas que valorizem solidariedade, diálogo e transformação. Se não agirmos, corremos o risco de viver num mundo ainda mais dividido, manipulado e dirigido por Elons e Marks, sócios de Trump.

Que tal parar de negar tudo isso? Sair do Facebook, apagar fotos no Instagram e xingar Musk de fascista não é suficiente. Essas ações podem até trazer um alívio momentâneo, mas não enfrentam a raiz do problema: o modelo de negócios que lucra com a fragmentação social e o caos informacional. Precisamos ir além da indignação individual e construir alternativas coletivas. Isso significa exigir regulamentações que limitem o poder dessas plataformas, promover redes sociais públicas e descentralizadas e, principalmente, recuperar o espaço público como lugar de debate real, onde a política não seja reduzida a memes e curtidas e impropérios. A mudança começa quando enxergamos que a solução não está em ações isoladas e superficiais, mas em criar novas formas de conexão, baseadas em cooperação e na construção de uma luta política efetiva.

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Sinceramente, estou de saco cheio desse papo de polarização. Essa ideia é uma baita teoria despolitizadora, que mistura alho com bugalhos e relativiza tudo. Pior, é um parâmetro usado para análises políticas. De maneira geral, coloca a extrema-direita – com seus crimes reais, documentados e sistemáticos – no mesmo balaio de uma “extrema-esquerda” que só existe na cabeça de quem quer desviar o foco. Pior ainda: transforma qualquer crítica legítima em “extremismo” e joga o debate político na lama. Estou falando de fatos, não inventando. De um lado, temos ataques golpistas, ameaças de morte, mortes, produção industrial de fake news, assassinatos e até ataques físicos a quem se opõe ao bolsonarismo. Do outro, qual é o crime mesmo? Protestar? Ocupações? Apontar crimes? Isso aí não cola.

Essa ideia de polarização não caiu do céu. Ela é uma ferramenta velha, usada para demonizar a política, e especialmente aqueles que ousam questionar o sistema. A direita tradicional sempre recorreu a esse mecanismo para neutralizar qualquer tipo de mobilização popular que desafiasse o status quo. Volta lá na Guerra Fria e está tudo lá: qualquer movimento que pedisse justiça ou igualdade era tachado de extremista. Hoje, reembalaram isso com um toque moderno e empurraram pro nosso colo. Enquanto a extrema-direita apronta barbaridades, a direita tradicional finge neutralidade, mas tá o tempo todo jogando o jogo. Eles adoram criar um falso equilíbrio, como se houvesse “dois extremos”, só pra desviar a atenção e deixar tudo mais confuso, a ponto de ninguém mais saber o que realmente está em jogo.

E é essa confusão que serve ao propósito de demonizar a política como um todo, tornando a participação política cada vez mais desprezada, vista como inútil ou até perigosa. Se todo mundo é “extremo”, então quem se importa em entender as questões reais? O que importa é que, ao igualar movimentos populares a uma extrema-direita que defende o ódio, a violência e o golpe, a política se esvazia e qualquer luta por justiça perde legitimidade. No fim, quem se beneficia é quem quer barrar avanços, e pode continuar fazendo o que bem entende, sem ser questionado. Isso já aconteceu antes, na história, e é só mais uma tentativa de causar confusão e estimular o déficit cognitivo.

E agora eu pergunto: cadê os tais crimes dessa “extrema-esquerda” que tanto falam? Tá cheio de exemplos do que a extrema-direita fez – dos ataques às instituições até assassinatos causados por fanatismo. E quem não lembra dos ataques físicos durante a era Bolsonaro? Não é só ameaça, é assassinato mesmo. Mas e a esquerda, onde estão os crimes? Tudo que apresentam são casos inventados ou distorcidos. É como se lutar contra injustiça fosse equivalente a pregar ódio ou golpismo ou estimular teorias alucinantes. Não dá pra aceitar esse tipo de coisa, como se polarização fosse um conceito consolidado.

Por isso, é preciso abrir os olhos. A polarização não é uma explicação, é uma cortina de fumaça, um embuste com intenções óbvias. Ela é usada pra empastelar a luta política real, tirar o foco do que está em jogo e esconder a violência política real. Se até pesquisas de opinião e trabalhos acadêmicos estão sendo contaminados por essa falácia, é porque a ideia é realmente eficaz em deslegitimar a luta por direitos, por democracia e relativizar ditaduras e obscurantismo. Não dá pra cair mais nessa armadilha. É óbvio que tem estúpidos e imbecis em todo o canto, mas estúpido e imbecis nem sempre são criminosos. A política tem lado, sim. E, no fim, quem está realmente polarizando, atacando e colocando em risco nossa democracia não é a esquerda, mas quem defende o caos e o autoritarismo.

É extremamente necessário desconstruir esse embuste.

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De tanto ouvir blá-blá-blá sobre o termo “guerra cultural”. Resolvi escrever um texto simples sobre a sua importância na disputa política. É só uma contribuição modesta a quem interessar e creio que merece um debate mais cuidadoso e aprofundado.

O termo guerra cultural tem sido usado de forma indiscriminada nas redes. A guerra cultural, de fato, é um campo de batalha crucial no universo político, mas muitos ainda não entendem o seu real significado ou não percebem a sua verdadeira importância. Historicamente, a direita e a extrema direita souberam articular de forma eficaz essa disputa, transformando valores, moralidade e questões identitárias em peças-chave no jogo político. Eles não só criaram uma base de apoio sólida, mas também usaram essa pauta como uma forma de legitimar o desmonte de bandeiras e políticas públicas progressistas.

Enquanto isso, a esquerda frequentemente se perde em discussões de cunho técnico, em argumentos reativos ou na confiança no Judiciário, cujas instâncias são amplamente dominadas por conservadores. Essa estratégia de recorrer ao Judiciário, em vez de atuar no terreno das ideias e da mobilização popular, tem se mostrado cada vez mais equivocada a longo prazo. O Judiciário tem lado e derruba que convém a esse lado.

O conceito de “guerra cultural” tem origem no alemão Kulturkampf, termo usado no século XIX para descrever os conflitos entre o Estado alemão, liderado por Otto von Bismarck, e a Igreja Católica. No século XX, o termo foi recuperado nos Estados Unidos para descrever disputas entre progressistas e conservadores sobre questões como direitos civis, aborto, e religião. Nos anos 1990, figuras como Patrick Buchanan popularizaram o termo, associando-o a uma “luta pela alma da América”, reforçando a centralidade das disputas culturais no campo político. A era Trump retomou vigorosamente esse debate.

Essa reflexão me levou a propor, em 2021, um debate durante uma disciplina de doutorado, sugerindo a análise da guerra cultural no contexto do bolsonarismo. Contudo, minha proposta foi recebida com desdém pela professora, que descartou a estratégia bolsonarista como uma “bagunça sem sentido”, sem qualquer substância. Para ela, tais discursos e métodos eram irrelevantes e não mereciam ocupar espaço no campo acadêmico.

Naquele momento, a reação parecia apenas uma discordância comum. No entanto, com o tempo, ficou evidente o quanto essa visão estava equivocada. O bolsonarismo se sustentou justamente por meio da guerra cultural, que, longe de ser uma “estratégia louca”, revelou-se um mecanismo meticulosamente orquestrado. De fato, nos últimos quatro anos, o tema foi amplamente estudado em diversas pesquisas. A ideia de que a guerra cultural seria algo exótico ou irrelevante expôs a falha de parte da esquerda em compreender a importância dessa pauta nas vitórias políticas e eleitorais da direita, além de demonstrar como, muitas vezes, a esquerda reage tardiamente.

A guerra cultural transcende as pautas moralistas, abrangendo uma ampla gama de questões que influenciam profundamente a sociedade e a política. No Brasil, ela se manifesta em áreas como educação, com debates sobre a militarização das escolas e programas como o “Escola Sem Partido”; história, através de disputas sobre a interpretação de eventos históricos recentes; e saúde pública, com o negacionismo antivacina. Além disso, envolve a desvalorização do conhecimento acadêmico e uma rejeição à intelectualidade e à ciência como formas legítimas de produção de saberes.

Essa estratégia transforma percepções e cria divisões profundas, moldando a sociedade de forma que muitos começam a associar as vitórias da direita a um “projeto de salvação” contra uma suposta ameaça à ordem social promovida pelos “inimigos”. A esquerda, por outro lado, frequentemente adota uma postura reativa ou tecnocrática, que a afasta das disputas culturais mais amplas.

Esse erro reflete uma tendência de desvalorizar o impacto dos aspectos culturais na política, enxergando-os como questões secundárias ou superficiais. Essa abordagem negligente permite que o campo cultural seja ocupado de forma hegemônica pela direita, resultando em uma influência desproporcional sobre a opinião pública e na capacidade de moldar narrativas que favorecem seu projeto político.

Compreender a guerra cultural em sua totalidade exige uma análise que considere não apenas as pautas moralistas, mas também as diversas áreas em que ela se manifesta e as estratégias utilizadas para influenciar a opinião pública e influenciar o pensamento médio da sociedade.

A guerra cultural não é apenas um debate sobre moralidade ou crenças; ela é uma arena estratégica que molda o imaginário coletivo e define os rumos políticos de uma sociedade. A esquerda, ao subestimar sua importância, não apenas entrega esse campo à direita como também perde uma ferramenta essencial de mobilização popular e de caminhos para transformação social.

Para reverter esse quadro há um primeiro passo incontornável: é imperativo que a esquerda enxergue a cultura como um terreno de disputa tão importante quanto o campo econômico, a disputa pelas urnas ou as abordagens institucionais. Um caminho é a adoção de estratégias que combinem o reconhecimento da potencia do discurso, o engajamento popular junto à ações concretas. A vitória nesse campo é muito além de simbólica, ela alicerça as disputas por mudanças estruturais que podem transformar a sociedade de maneira mais efetiva e politizada.

Para terminar, peço licença para citar o sociólogo galês Raymond Williams
Raymond Williams, que em seu livro “Marxismo e Literatura” de 1971, já apontava para a relação intrínseca entre cultura e política ao afirmar que “a cultura é um modo de vida completo. Um modo de vida completo é a forma como vivemos, a forma como pensamos sobre o viver, os valores pelos quais vivemos. E a forma como vivemos é profundamente afetada pelas nossas relações sociais e econômicas, pelas instituições que nos governam.”

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