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Arquivo mensal: abril 2025

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Nana Caymmi morreu.
Fica a lembrança da intérprete que gravou alguns dos discos mais discretos, bem cuidados e belos da música brasileira.

Nos anos 80, Renascer (1976) da gravadora CID chegou por indicação de um amigo. Um disco de repertório bem escolhido, arranjos precisos de Dori Caymmi, e uma voz que sabia conter a emoção sem apagá-la.

Ali estavam “Mãos de Afeto” (Ivan Lins/Vitor Martins), “Boca a Boca” (Milton Nascimento/Fernando Brant), “Pois É” (Tom Jobim/Chico Buarque), “Viagem” (João de Aquino/Paulo César Pinheiro), “Canção do Amanhecer” (Edu Lobo/Vinicius de Moraes) e “A Dor a Mais”, de Francis Hime e Vinicius, com versos que ficaram:

Tanto tempo faz
Tens um outro amor, eu sei
Mas nunca terás
A dor a mais
Como eu te dei…

Renascer é um disco feito na medida e com precisão. Em meio a excessos tão comuns, impressiona ainda hoje a escolha pela delicadeza, pela pausa, pela escuta. Há intérpretes que dizem mais quando falam menos.

Nana foi assim.

Existem canções que narram histórias com uma força incomum. Outras reescrevem a trajetória de seus compositores e intérpretes. E há aquelas que reúnem ambas as forças. É nesse grupo que se encaixa Is That All There Is?. A música levanta uma pergunta que, com ceticismo, abre espaço para inúmeras respostas. É uma daquelas obras que só poderiam surgir no limite entre o niilismo e o desejo, entre a ruína e o reconhecimento. Ouví-la hoje é um privilégio raro.

A letra nasceu de um conto de Thomas Mann — Desilusão. Jerry Leiber o leu por sugestão da esposa, Gaby. Nele, um homem narra grandes eventos da vida com uma indiferença devastadora: um incêndio, o amor, a iminência da morte. Tudo leva à mesma sensação de desapontamento: “Será só isso que existe?” Leiber se agarrou a essa pergunta. Ele, que ao lado de Mike Stoller escreveu algumas das músicas mais vibrantes do século, queria agora encarar o vazio. Assim, criaram uma canção seca e cruel. E queriam uma voz feminina para interpretá-la.

Pensaram em Marlene Dietrich. Ela ouviu, adorou, disse que estava ali — mas recusou. Georgia Brown gravou, mas a música não aconteceu. Faltava alguém que dissesse aquela pergunta como quem viveu cada uma daquelas desilusões. Alguém com marcas e a sinceridade que a canção exigia.

A música chegou às mãos de Peggy Lee. E ela foi categórica: “Se outra pessoa gravar isso, esqueçam tudo.” Era 1969. A voz que sussurrou — e explodiu — Fever estava silenciosa nas paradas. Os jovens já não a procuravam. A gravadora não sabia o que fazer com ela. Mas Peggy não tinha desistido, apenas precisava de tempo. E agora sabia exatamente como queria voltar.

Ela recusou o arranjo sugerido, dispensou músicos e alterou o andamento. Queria que a música soasse como uma marcha de circo abandonado, um cabaré decadente. Uma festa sem graça que insiste em continuar — como quem não tem mais escolha. Foi ela quem pediu: “Chamem aquele garoto. Randy Newman.”

Randy, então com 24 anos, era um desses cantores e compositores incomuns e com imaginação singular. Tinha acabado de lançar seu primeiro álbum solo, Randy Newman (1968)— um fracasso comercial, mas um triunfo artístico. Um disco repleto de personagens patéticos, canções sobre racismo, ambição mesquinha e solidão cotidiana, tudo envolto em arranjos sofisticados e melodias tortuosas. Peggy ouviu e entendeu: aquele rapaz sabia traduzir o enredo de que ela precisava. Fez o convite. E ele aceitou.

O encontro dos dois foi, nesse contexto, improvável e perfeito: uma mulher madura, controlando cada detalhe de sua expressão artística, e um jovem compositor com ouvido para a tragédia do cotidiano e talento para o insólito. Juntos, construíram o arranjo da canção: uma marcha circense arrastada, com atmosfera de epitáfio. O ritmo oscila, tropeça. A melodia se insinua. E, no centro, a voz de Lee — sem vibrato, sem pressa, com uma ironia compassiva, quase recitando a letra.

“And then one day, he went away and I thought I’d die… but I didn’t.”

Segundo os registros, foi no 36º take. Nele, a canção se sustenta: dita com precisão, quase sem melodia. Cada palavra pesa. A voz não treme, mas algo pulsa. Não é fé, nem desespero. É uma clareza dura, sem ilusões.
A Capitol hesitou. Achava que ninguém ouviria aquilo no rádio. Era longa, falada, melancólica. Mas Peggy insistiu: exigiu cantá-la na televisão. E quando canta, não há como ignorar.

“I know what you must be saying to yourselves… if that’s the way she feels about it, why doesn’t she just end it all?”

A canção virou sucesso. Ganhou um Grammy. Recolocou Peggy nas paradas. Mais do que isso: devolveu a ela o posto de quem canta o desencanto com elegância, controle e arte — sem pieguice.

E Randy? Seguiu seu caminho. Tornou-se um cronista melódico e mordaz. Lançou álbuns brilhantes como Sail Away em 1972. Suas canções continuaram a zombar das ilusões com orquestrações grandiosas e discretos travos de ternura. Mas aqui, nesse encontro breve, ele e Peggy criaram uma peça que continua a nos assombrar. Porque a pergunta ainda paira no ar.

“Let’s break out the booze and have a ball… if that’s all there is.”

Volta e meia eu escuto de novo. Não é nostalgia. É para lembrar que há beleza no desencanto, nos segundos do flugelhorn — e que, por trás dele, havia dois artistas singulares: Peggy Lee e Randy Newman. Uma dama da canção e um cronista/arranjador. A ambos, minha admiração. Juntos, deixaram registrado um pedaço da vida como ela é: absurda, melancólica e, às vezes, estranhamente divertida.

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Wallace Stevens (1879–1955) foi um poeta modernista dos EUA que uniu filosofia e imaginação para repensar o sentido da realidade na era moderna. Seu estilo é preciso, abstrato e reflexivo, e sua obra é central na poesia do século XX. Reservado, advogado do mercado financeiro, um perfil incomum para a poesia.

Ele escreveu um dos poemas mais profundos sobre a absorção do ato de ler

Tradução de Paulo Henriques Brito

Em dezembro de 2017, o Brasil atravessava uma tempestade política e social. Vivíamos o rescaldo do golpe de 2016, o avanço da extrema-direita, a criminalização da diferença. A intolerância escorria pelas redes sociais como veneno cotidiano. Foi nesse ambiente tenso e carregado que escrevi um texto defendendo a cantora/performer Pablo Vittar. Um texto que nasceu menos da paixão estética e mais da urgência ética e política. Semana passada, ao reler o texto, senti que era hora de voltar a ele.

Pablo era alvo de ataques ferozes. Uma drag queen nordestina despontando no pop brasileiro era demais para um país que já não disfarçava mais seus ódios. Eu mesmo, confesso, não era — nem me tornei — fã da música da Pablo. Mas isso era irrelevante. O que eu estava discutindo não era a sonoridade das canções. Era o mecanismo social que operava por trás da rejeição: um julgamento arrogante, atravessado por preconceitos, disfarçado de opinião pessoal.

Quando escrevi aquele texto, eu já conhecia bem o debate sobre lowbrow, middlebrow e highbrow. Essas categorias sempre foram muito pouco uma discussão sobre arte e bem mais uma forma de marcar posições sociais: maneiras de separar o que é considerado “superior” ou “inferior” conforme o lugar de onde se olha. Não usei esses termos no texto porque quis atingir quem precisava ser atingido sem oferecer escapatórias acadêmicas. Mas minha crítica era consciente: era o gosto como instrumento de exclusão que eu estava desafiando.

O incômodo contra Pablo não era apenas estético, nem só moral. Era, sobretudo, simbólico. Ela representava a ruptura de fronteiras simbólicas que muita gente queria manter intactas: o que deve ser admirado, o que deve ser tolerado, o que deve ser eliminado. A reação raivosa era o reflexo de uma ordem simbólica ameaçada — uma ordem que se esconde atrás da régua invisível do “bom gosto”.

Escrevi, então, para enfrentar essa pretensão de superioridade que sempre aparece quando a cultura popular, sobretudo a que navega nas águas turvas da indústria cultural, invade os espaços reservados da distinção. Para afirmar que o problema não era a música da Pablo, mas o impulso automático de desprezar aquilo que desafia nossas hierarquias internalizadas. Para dizer que a cultura viva não pede licença e não se curva aos árbitros sociais do valor.

A publicação do texto curto, que nem bombou tanto assim, trouxe reações diversas. Houve quem entendeu o que estava em jogo. Mas houve também quem se apressou a tentar me corrigir, como se fosse obrigatório escolher um lado entre a indústria cultural e a cultura “de verdade”. E houve quem ficou nervoso e agressivo. Como se fosse preciso, antes de qualquer coisa, defender o prestígio do próprio gosto e quão distinto a pessoa se sente por tê-lo. A reação só confirmou aquilo que eu já sabia: o gosto, muitas vezes, é a linguagem elegante do preconceito.

Hoje, em abril de 2025, leio aquele texto com consciência ainda mais clara do que fiz. A indústria cultural se tornou ainda mais brutal, a velocidade das redes sociais transformou gostos e rejeições em algoritmos de mercado e a política que anda do ladinho da cultura mais violenta e discricionária. Mas o mecanismo que critiquei em 2017 segue ativo: a tentativa permanente de hierarquizar expressões culturais para manter intactas as velhas divisões sociais.

Olhando em retrospecto, vejo que meu gesto era duplo: defendia o direito de existir fora das normas estéticas e sociais, mas também atacava o automatismo do desprezo. Rejeitava o julgamento apressado que se disfarça de refinamento. Dizia, sem precisar teorizar: cultura é luta de mundos, não olimpíada de gostos.

E sigo acreditando nisso. Em tempos de reações rápidas, de tribunais simbólicos em tempo real, respirar antes de julgar é um ato de resistência. Mais do que nunca, é preciso romper com as hierarquias invisíveis do gosto e afirmar: a cultura que pulsa, que escapa, que incomoda, é a que nos obriga a repensar o que realmente significa viver num mundo aberto. Não se trata de ouvir o que você não quer. Trata-se de se indignar com o que realmente importa.

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Nos anos da ditadura, o Grupo Folha se movimentou com desenvoltura ao lado do regime. Octavio Frias de Oliveira, à frente do jornal, soube ler com rapidez os interesses em jogo. Não houve hesitação, nem temor: a empresa ofereceu veículos ao DOI-Codi, abriu espaço na redação para nomes ligados à repressão e acompanhou, com certo conforto, a reorganização autoritária do Estado. A Folha da Tarde, com linguagem mais crua, popular, fazia da adesão um expediente diário e direto.. A Folha de S. Paulo mantinha outro tom, mais contido, sob a papagaiada da objetividade, mas também alinhado. O suposto equilíbrio editorial escondia uma posição clara, embora mais polida.

A proximidade com o regime não se explica por coerção. Havia afinidade de projeto e interesses em comum. Parte importante do empresariado apoiou o golpe e sustentou seus desdobramentos com recursos, legitimidade pública e controle da informação. O que se defendia era a estabilidade de um modelo social centrado na propriedade, no crescimento sem distribuição, na repressão como ferramenta política. A Folha ocupava seu lugar nesse cenário, com desenvoltura empresarial e controle editorial.

Nos anos 80, com a ditadura já enfraquecida e os sinais da abertura se tornando mais visíveis, o jornal passou por um processo de reformulação. O chamado Projeto Folha pretendia renovar a linguagem, diversificar as vozes, dialogar com uma nova geração. Matinas Suzuki e seus óclinhos coloridos simbolizava. Nesse momento, eu tava saindo da adolescência Com pouco, lia o jornal quando a grana dava . Acompanhava as novidades musicais, os livros que escapavam dos catálogos escolares, os filmes debatidos na crítica cultural. Aquilo preenchia um vazio construído pela ditadura. A Folha, naquele momento, oferecia referências que importavam para quem cresceu sob censura e silêncio. A velha história da “a mesma mão que afaga, é aquela que joga pedras.”

Mas mesmo então, apesar da ingenuidade, havia um incômodo, uma distância entre o que se anunciava como pluralidade e o que efetivamente se publicava nos editoriais, no caderno político e no caderno de economia. O jornal inovava na forma, mas não arriscava no conteúdo quando o assunto envolvia as estruturas. A retórica da objetividade, tão valorizada na época, servia para manter o enquadramento dentro de certos limites. A pluralidade possível era aquela que não colocava em xeque os fundamentos do mercado, do Estado, das alianças consolidadas.

O tempo passou e os contrastes foram se acentuando. A Folha apoiou as reformas liberais dos anos 90, conduziu com habilidade a narrativa do “bom senso econômico”, abraçou a LavaJato com afinco, contribuiu para criar o ambiente de deslegitimação do governo Dilma, defendeu a lógica do impeachment como se fosse um imperativo ético. Em cada uma dessas encruzilhadas, o jornal se posicionou com clareza — e com a mesma empafia de sempre. O progressismo possível era o que cabia na moldura da governabilidade e dos interesses empresariais.

As pesquisas mais recentes, os arquivos acessados, os livros publicados sobre o período da ditadura colocaram as coisas em seu devido lugar. A atuação do Grupo Folha durante o regime não foi ambígua. A empresa colaborou com a repressão e se beneficiou politicamente do arranjo autoritário. Os documentos são públicos. O silêncio e a conivência sobre isso também tem peso. A tentativa de preservar a imagem de jornal independente soa cada vez mais como estratégia de marketing editorial do que como esforço de memória ou autocrítica.

Hoje, a Folha circula, mas já não conduz. É um grupo que depende do capital especulativo e seu papel no debate público é defender esses interesses. Muita gente se desiludiu, ainda que muito tarde, há quem persista.O jornalismo tradicional perdeu o lugar de intérprete autorizado da realidade. A multiplicação de fontes e formatos deslocou a centralidade dos antigos meios. Isso não quer dizer que o espaço foi substituído por algo melhor. Muitas vezes, o ruído tomou o lugar da escuta. Mas o que ficou evidente é que a antiga autoridade simbólica já não se sustenta com o mesmo prestígio.

Faz tempo que deixei de ler jornal com regularidade. A rotina de leitura se espalhou em fragmentos e busca de fontes razoáveis. Recolho pedaços — uma reportagem isolada, um boletim independente, um trecho de entrevista, um ensaio, uma reportagem de fôlego de órgãos independentes. Tento montar um quadro que me ajude a compreender o que se passa, mesmo sabendo que tudo permanece incompleto e passível de crítica. É um trabalho de aproximação, quase sempre provisório, mas mais honesto do que seguir uma narrativa pronta, embalada em rótulo de mainstream ou alternativo.

A Folha, nesse novo ambiente, virou uma espécie de ruína funcional. Continua sendo citada, replicada, consultada — mas sua potência de interferência real no mundo se esvaziou. Ainda serve como referência para quem busca uma posição intermediária entre o conservadorismo explícito e o compromisso com alguma ideia de justiça social. Mas esse meio-termo, hoje, não provoca ninguém. Apenas acomoda.

Guardo uma memória da Folha que li nos anos 80, com seus achados culturais e suas descobertas estéticas. Aquilo teve seu valor — talvez mais pela ausência de opções do que por mérito próprio. O jornal que restou hoje é outro, assim como o mundo ao redor. A Folha já não tenta mediar nada. Tornou-se um veículo explícito de defesa dos seus próprios interesses, disfarçados sob o verniz de imparcialidade e técnica. Não por falta de recursos, mas por falta de disposição em se desinstalar. Ainda circula, ainda reverbera em alguns espacos, mas já não conversa com quase ninguém — e talvez nem queira.

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A morte de Edy Star, no dia 24 de abril de 2025, reacendeu lembranças de um tempo em que brilhar era perigoso e cantar era desafiar. Foi pensando nele, nosso grande herói glam glitter do cabaret, que este texto nasceu: como quem acende uma vela em meio a um apagão de memória.

O glam rock na Inglaterra, nos anos 1970, foi mais do que espetáculo. Era a recusa em aceitar a decadência econômica e o mergulho na escuridão dos anos 70 como destino. Bowie, Bolan, Slade, Sweet — todos desenharam corpos novos, identidades mutáveis, saltos altos, androginia autêntica ou fingida, com a convicção desesperada de quem sabe que nada de sólido permaneceria. Glam era alegria na beira do abismo, plumas e purpurina como armaduras contra o vazio e a barra pesada.

No Brasil, o glam não encontrou solo fértil, encontrou concreto rachado e gosto de chumbo milico. O rock aqui já era uma ideia fora do lugar: um gênero nascido da rebeldia juvenil branca no pós-guerra americano, transplantado para uma terra com uma outra história de misérias, censuras e sincretismos. Sempre que floresceu, floresceu torto, híbrido, mestiço e, justamente por isso, criava incômodos, às vezes muito criativo.

Edy Star não esperou movimentos nem esperou plateias. Veio da Bahia para o Rio de Janeiro nos anos 1960, enfrentou repressões antes mesmo de haver nome para a repressão que lhe caía em cima. Cantou nas boates decadentes, foi do circo, teatro, riu na cara da caretice. Boleros, rock, blues e baladas. Com Raul “saindo da casca” Seixas, Sérgio Sampaio e Miriam Batucada lançou o ousado Sociedade Grã-Ordem Kavernista.Quando veio seu debut solo “Sweet Edy” em 1974, foi como abrir uma ferida perfumada: uma canção-tatuagem onde o deboche e a dor se entrelaçam confortavelmente.

Antes dele, em 1973 lampejos igualmente deslocados. Secos & Molhados, fenômeno nacional, levaram teatro, boas melodias e desejo à casa da família brasileira. As excelentes composições de João Ricardo e a voz de Ney Matogrosso, que foi um estilhaço de liberdade num país travado. Rita Lee, recém-liberta dos Mutantes, costurou solo e em Fruto Proibido o humor, a fúria e a melodia pop com uma precisão que a história ainda tenta alcançar. O Casa das Máquinas de 1974 de Netinho, Simbas e Cia. Made in Brazil dos Vecchione, com sua alma rude da Pompeia, era mais próximo da sarjeta que das estrelas e nisso residia sua autenticidade. O cantor Cornelius Lúcifer, à frente da banda, não era só um provocador: era um talento real, com voz, presença e invenção para perturbar qualquer ordem estabelecida, sumiu na vida, uma pena.

Se houve ou não uma cena glam no Brasil, não importa. Houve brilhos sobreviventes improvisando com o que tinham: spray barato, instrumentos surrados, roupas costuradas na pressa e a convicção teimosa de que brilhar, mesmo por um instante, antes que a vida passasse. Era o país procurando entender como sair daquele sufoco.Talento não faltava.

Se pudéssemos, agora, erguer um palco para esse glam que nunca existiu de verdade, ele não seria uma festa: seria um rito profano. Ney surgiria sem anunciar, cortando o ar como uma navalha dourada. Rita Lee explodiria com a mesma arrogância generosa que sempre teve: a mulher que nunca pediu permissão para ocupar o centro. Cornelius Lúcifer traria o hard boogie , anjo da guarda da Pompeia. E Edy Star entraria por último, não triunfante, mas debochado, como quem sabe que a vitória não é aparecer é não desaparecer nunca. É bom imaginar nesse tempo de tanto vazio.

Seria um espetáculo duro, sem efeitos especiais. Luz crua, rugas expostas, purpurina velha grudada no suor. Um palco para quem nunca pertenceu a lugar algum — e justamente por isso inventou lugares onde fosse possível fazer barulho.

Porque no final, como cantou Edy, e ninguém nunca poderá desdizer:

Não fique aí na mão rebatendo peteca, boneca
Pegue um avião e me alcance no ar
Boneca, não me canse
Sou estrela-do-mar, sou o céu, sou o mel
Pra passar no seu pão
Honey Sweet, Edy Star!
Flor da lapa, vulcão
Honey Sweet, Edy Star!
Marylin da Mauá
Honey Sweet, Edy Star!
Transcetê o Leblon
Honey Sweet, Edy Star!

Nosso glam favorito.

Adeus Edy Star. 1938-2025

Não faria esse texto sem o auxílio luxuoso do camarada André Girardi memória do rock and roll.

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Se há algo difícil de superar no cotidiano da esquerda, pior do que o Centrão e o teto de gastos, é conversar sem tropeçar em palavras que já vêm marcadas. Sem superar isso, em breve estaremos todos juntos chorando dentro de um boteco com os nossos manuais de verdades absolutas debaixo do braço.

Não é novidade que a disputa por sentido sempre foi parte essencial da política. O que muda, hoje, é a intensidade com que os conflitos simbólicos ocupam o centro da arena pública. Não se trata de um fenômeno novo, mas de uma aceleração: as palavras foram reativadas como território estratégico, e não apenas como meio de expressão. A esquerda, por sua vez, ampliou de forma consistente os modos de nomear e interpretar o mundo a partir das lutas concretas de grupos historicamente marginalizados.

Essa ampliação é uma conquista histórica, um avanço. Mas também traz um desafio importante: a fragmentação dos vocabulários pode dificultar a construção de um horizonte comum de ação. A dificuldade não está no excesso de vozes, mas na ausência de mecanismos capazes de ligar essas vozes em torno de um projeto político compartilhado.

A política institucional — especialmente nas disputas públicas mais amplas — exige objetividade e articulação. Não se trata de reduzir a complexidade das experiências, mas de encontrar formas de expressá-las de modo que possam ser reconhecidas também por quem vive outras realidades, com outros repertórios. Sem essa ponte, mesmo a formulação mais justa corre o risco de não mobilizar.

A extrema-direita percebeu isso e usou bem. Criou uma linguagem direta, emotiva, fácil de repetir, mesmo que cheia de distorções. Não é uma linguagem mais verdadeira ou justa, mas funciona como código comum para quem a consome. Com poucas palavras, ela mobiliza medo, pertencimento, hostilidade e ódio. Sua força está na repetição organizada, não na coerência interna.

Nesse cenário, o termo “identitarismo” se tornou um espantalho funcional — dentro e fora da esquerda. Criado como crítica à fragmentação sem projeto, passou a ser usado para desqualificar lutas legítimas por reconhecimento e redistribuição. Em muitos casos, virou um recurso fácil para evitar enfrentamentos reais — ignorando ou desprezando a complexidade política, histórica e afetiva dessas pautas. Parte da esquerda, ao aderir a esse uso superficial, contribuiu para desarticular alianças e obscurecer disputas fundamentais. A direita, com faro apurado, capturou o desgaste: juntou ao seu pacote de preconceitos, violência e generalização o uso da diversidade como sinônimo de desorganização, e tratou a diferença como sinal de fraqueza, desvio ou ameaça à ordem.

Enquanto isso, o neoliberalismo se aproveita do cenário. Ele não precisa apagar a diversidade, ele a exalta empastelando seus propósitos — assim, garante que ela não se organize politicamente de forma coordenada. Incentiva causas isoladas, transforma demandas em nichos e lutas em produtos. A multiplicidade sem articulação não ameaça o sistema; apenas o torna mais adaptável.

A solução não é abandonar a pluralidade, mas criar formas de comunicação entre diferentes campos da luta. Isso exige vocabulários capazes de carregar múltiplas experiências sem apagá-las. A articulação política precisa lidar com a diferença sem exigir uniformidade. E isso não é ignorar a realpolitik. Sem esse trabalho, a fragmentação continua sendo uma vantagem dos adversários e um ponto de enfraquecimento da esquerda.

Autores como Bourdieu, Gramsci e Angela Davis ajudam a pensar esse problema por caminhos diferentes, mas que se cruzam. Bourdieu mostra que a linguagem nunca é neutra — ela expressa e reproduz disputas por legitimidade, visibilidade e poder. Gramsci ensina que uma visão de mundo se torna dominante quando passa a parecer natural, quando ocupa o senso comum. Angela Davis reforça que nenhuma transformação radical se sustenta sem enfrentar as opressões cruzadas de raça, gênero e classe — e que as palavras, as narrativas e os silêncios fazem parte real dessa estrutura. Tratar da linguagem, nesse sentido, não é abandonar o marxismo — é atualizá-lo a partir das contradições que ele historicamente ignorou ou tratou como secundárias. Nenhum desses autores oferece atalhos. Mas todos deixam claro que disputar o sentido das palavras é disputar o terreno da política. E quem foge dessa disputa, enfraquece o próprio projeto de mudança.

Esse trabalho é de base, mas também de formulação e de enfrentamento político. Requer coragem para tensionar certezas herdadas, romper com padrões de fala que excluem e abrir espaço para vocabulários mais compartilháveis. Quem atua em partidos, movimentos, coletivos, redes ou escolas precisa se fazer entender — mas também se dispor a entender os outros. Traduzir não é diluir. É abrir canal de escuta. É construir discurso que acolha quem nunca pisou numa assembleia, mas que tem tudo pra estar nela.

Não se trata de escolher entre rigor e comunicação, nem entre complexidade e alcance. A tarefa é formular com responsabilidade, disputar com convicção e não terceirizar o sentido das palavras. Quem não entra nesse terreno deixa que outros o ocupem — e eles ocupam, está provado no cotidiano. A linguagem não é ornamento da política. É parte fundamental da luta. Quem foge dessa disputa, perde antes de saída.