sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

São Cristóvão pela Europa (344).

 

 

 

E passemos ao Estado de Niederösterreich (Baixa Áustria), o maior da Áustria em área, situado na parte Nordeste do país.

Divide-se em quatro quartos, um deles sendo o industrieviertel ou o quarto industrial.

 

Em Rechenfeld, no município de Purkersdorf, uma pequena moradia tem um mural representando São Cristóvão.

 

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Gunstramsdorf foi palco de violentos combates entre soviéticos e alemães no final da II Guerra Mundial. Na rua principal, um edifício tem um nicho abrigando o nosso Santo.


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Em Steinfeld, no município de Ternitz, a igreja de São João Baptista é um exemplo de transição entre os estilos Românico e Gótico. No exterior, um mural representando São Cristóvão e São João Baptista parece bastante antigo, mas na realidade é de 1937 e é da autoria do escultor e pintor austríaco Karl Steiner (1902-1981).

Uma curiosidade é a presença no mural de um Volkswagen Carocha…

 

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Em Au am Leithaberge, numa praceta, uma escultura em grés.

 

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                                                Fotografias de 27 e 30 de Agosto de 2025

                                                                                            José Liberato




segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Geração Z ou os riscos de uma infância baseada no telemóvel.

 

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          Pela sua indiscutível oportunidade, pela evidência com que se mostra neste livro as consequências da mudança de uma infância baseada em brincar para uma infância baseada no telemóvel, e quais os danos que tal mudança já está a provocar à saúde mental e ao desenvolvimento social, a leitura de A Geração Ansiosa, por Jonathan Haidt, Publicações Dom Quixote, 2024, é mais do que necessária, e não só para pais e educadores.

          Este reputado psicólogo norte-americano socorre-se de uma comunicação fluída para nos falar de três questões fundamentais: o declínio da infância baseada em brincar; o surgimento da infância baseada no telefone; e qual a ação coletiva que se impõe para que se difunda uma infância mais saudável. Recorda-nos que os membros da Geração Z são hoje cobaias para uma forma radicalmente nova de crescimento, longe das interações da vida real que ocorrem nas pequenas comunidades em que os seres humanos evoluíram ao longo da história; ao fenómeno sociocultural em que vive a Geração Z que designa por A Grande Reconfiguração da Infância, onde avultam as tecnologias que moldam os dias e as mentes das crianças bem como as bem intencionadas e desastrosas medidas se tomam para proteger excessivamente as crianças e restringir a sua autonomia no mundo real; porque as crianças precisam de uma grande porção de jogo livre e, ao invés, os adultos consideram que os filhos não devem sair sem vigilância, preferem-nos em casa a jogar e nos chats. Para um mais claro entendimento do leitor, define interações sociais por quatro características: são corpóreas, no sentido em que usamos os nossos corpos para comunicar; são sincrónicas, isto é, ocorrem ao mesmo tempo e seguem pistas subtis quanto aos tempos e à interação; implicam principalmente a interação de um-para-um ou de um-para-vários, havendo apenas uma interação em cada momento; ocorrem no seio de comunidades com elevados padrões de inclusão e exclusão e por isso as pessoas estão fortemente motivadas a investir nas relações e a solucionar os conflitos quando estes surgem.

          Falando do declínio na saúde mental, este é manifestado por um aumento acentuado nos padrões de ansiedade e depressão, processo que começou no início da década de 2010 e que afeta as raparigas de forma mais acentuada. Os smartphones combinados com proteção excessiva dificultam o acesso das crianças e adolescentes às experiências sociais corpóreas de que mais precisam. Continuando o seu raciocínio quanto às origens da crise de saúde mental na década de 2010, destaca o crescente receio e superproteção parental que se terá instalado na década de 1990. A combinação entre o smartphone e a superproteção acabaram por dificultar o acesso das crianças e adolescentes às experiências sociais corpóreas. Seguidamente, o autor expõe as investigações que mostram que uma infância entrada no telefone perturba o desenvolvimento de múltiplas formas, e destaca quatro danos fundamentais: privação de sono, privação social, fragmentação da atenção e dependência. Igualmente o autor releva a dificuldade em fazer a transição da adolescência para a vida adulta. E conclui este ponto dizendo que a vida centrada no telefone afeta a todos – crianças, adolescentes e adultos. E faz propostas para práticas que nos podem ajudar a todos a viver melhor.

          E assim chegamos ao que se pode e deve fazer agora. Dá conselhos baseados em dados e investigações científicas, sobre o que as empresas tecnológicas, Governos, escolas e pais podem fazer para resolver uma série de problemas de ação coletiva – porque só uma ação coletiva e coordenada permite tomar ações que são melhores para todos a longo prazo. Como ele afirma, a Geração Z tem todas as qualidades necessárias para impulsionar uma mudança positiva. A primeira destas qualidades é não estar em negação, a maioria dos jovens mostra-se recetiva a novas formas de interação. A segunda qualidade será o desejo dessa geração em colaborar num mundo mais justo e solidário, desejo que se pode tornar realidade quando os jovens se organizarem e inovarem, encontrando novas soluções.

          Este psicólogo propõe quatro reformas que podem criar as bases para uma infância mais saudável na Era digital, e que são:

1-    Nada de smartphones antes do secundário. Os pais devem adiar o acesso permanente das crianças à internet, dando-lhes apenas telemóveis básicos (com aplicações limitadas e sem browser de internet), até ao 9º ano de escolaridade.

2-    Nada de redes sociais antes dos 16 anos. Deixem as crianças atravessar o período mais vulnerável do seu desenvolvimento cerebral antes de os ligar a uma fonte de comparação social e de influenciadores escolhidos algoritmicamente.

3-    Escolas livres de telefones. Em todas as escolas, desde a primária ao secundário, os alunos deveriam guardar os seus telefones, smartphones e quaisquer outros aparelhos pessoais que possam enviar e receber mensagem de texto, em cacifos ou estojos fechados durante todo o período letivo. É o único meio de lhes libertar a atenção para os outros e para os seus professores.

4-    Mais brincadeiras sem supervisão e mais independência durante a infância. É assim que as crianças desenvolvem competências sociais, superam a ansiedade e se tornam jovens adultos autónomos de forma natural.

E também nos adverte que os adultos da Geração X (1965-1980) e de gerações anteriores não experimentaram o mesmo aumento dos transtornos relacionados com depressão e ansiedade no período após 2010, mas muitos destas gerações acabam por sentir o desgaste, a dispersão e o esgotamento provocado pelas novas tecnologias e as suas incessantes interrupções e distrações, e conjetura que à medida que a inteligência artificial generativa permite a produção de fotografias, vídeos e reportagens noticiosas super-realistas, é provável que a vida online se venha a tornar bastante mais confusa. Impõe-se reagir e retomarmos o controlo das nossas mentes.

Tirando algumas apreciações que possam constituir particularidades específicas norte-americanas, este livro de Jonathan Haidt, é mais do que pertinente para nós, temos aqui ferramentas para dar novo caminho à Grande Reconfiguração da Infância. É por isso que classifico este livro como de leitura obrigatória.

 

                                                                                            Mário Beja Santos

 

domingo, 25 de janeiro de 2026

São Cristóvão pela Europa (343).

 

 

 

Ente 28 e 31 de Agosto de 2025 voltei à Áustria para nova deambulação pelo país, sempre atento aos São Cristóvãos.

E comecei por Viena, cidade que tem sido objecto de tantos posts nesta série.

No centro da cidade, a Capela de São Salvador tem uma história atribulada. Foi criada no final do Século XIII por dois irmãos, Otto e Haimo, da família Haimonen e dedicada à Virgem Maria.

Com o decorrer do tempo passou a ser conhecida pela Capela de São Ottohaim por referência aos dois irmãos que na realidade estavam longe de ser santos…

Em 1515, o Papa Leão X considerou que tal designação constituía uma heresia e determinou a sua reconsagração como São Salvador. Pouco depois, a capela passou a estar ao serviço do Conselho Municipal da cidade.

No âmbito do Concílio Vaticano I, o Papa Pio IX proclamou o dogma da infalibilidade papal. A rejeição do dogma foi o motivo da constituição de uma comunidade dirigida pelo teólogo Johann Joseph Ignaz von Döllinger (1799-1890). Chamaram-se a si próprios os “velhos Católicos e iniciaram um culto que ainda existe na Áustria, na Alemanha e na Suíça.

Em 1871, a Câmara Municipal atribuiu a capela a esta comunidade que a tem ocupado até aos dias de hoje. No mesmo ano, o Arcebispo de Viena lançou um interdito que só veio a ser revogado em 1969 pelo Cardeal König.

Na Igreja, distinguem-se um magnífico portal renascentista do início do Século XVI e um grande relevo representando São Cristóvão. Este é da autoria do escultor austríaco Franz Christian Thaller (1759-1817).

Infelizmente, perderam-se os braços esquerdos tanto do Santo como do Menino Jesus, talvez no bombardeamento que, em 1945, atingiu a igreja e o bairro em geral.

 

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Nos arredores de Viena, na Sieveringerstrasse, um São Cristóvão ocupa toda a altura de um prédio.

 

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Muito perto, situa-se o Währingerpark que tem uma curiosidade musical. Em 26 de Março de 1827 morreu o célebre compositor Ludwig van Beethoven (1770-1827), sendo enterrado aqui no Parque que era então um cemitério. No enterro, encontrava-se outro compositor, Franz Schubert (1797-1828), que terá mesmo ajudado a transportar o caixão. Mal sabia ele que em 19 de Novembro 1828 (ano e meio depois) seria a sua vez, com apenas 31 anos, de ser enterrado no mesmo local.

Em 1888 ambos os corpos foram transportados para outro cemitério. É um jardim desde os anos 20 do Século XX.

Hoje podemos ver os monumentos funerários dos dois grandes músicos, lado a lado, mas já vazios.

 

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 Em Rodaun, a Igreja barroca de São João Baptista foi consagrada em 1745. No seu interior, uma imagem de São Cristóvão.

 

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Finalmente, ainda nos arredores de Viena na margem Norte do Danúbio, existe a Igreja de São Cristóvão de Rennbahnweg, inaugurada em 1977. Faz parte de um complexo paroquial multiusos.

São várias as representações de São Cristóvão: uma estátua em madeira, um graffiti na parede, uma imagem num nicho.

 

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                                             Fotografias de 27 e 31 de Agosto de 2025

                                                                                         José Liberato






domingo, 18 de janeiro de 2026

São Cristóvão pela Europa (342).

 

Anras é um município da parte oriental do Estado austríaco do Tirol. Na minha passagem pelo município pude assistir a uma típica festa tirolesa.

A igreja paroquial foi consagrada em 1762 e é dedicada a Santo Estêvão. O estilo é barroco. Numa das suas paredes exteriores, um fresco representando São Cristóvão sobrevive atrás de um crucifixo.

 

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Abfalltersbach é um município contíguo. A sua igreja paroquial, consagrada em 1441, é dedicada a Santo André. Possui um fresco de grandes dimensões do nosso Santo de meados do Século XV numa parede exterior. É da autoria de Jakob Sunter.


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E aqui termina esta digressão por terras italianas e austríacas.

Mas voltei à Áustria ainda em Agosto…

 

 

                                                            Fotografias de 3 de Agosto de 2025

                                                                                                 José Liberato




Carta de Bruxelas.



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                                                                                Fotografias de João Tiago Proença





Na literatura de entretenimento há por vezes obras admiráveis, domina-as uma certa intemporalidade.

 

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Na chamada literatura de entretenimento, há obras que ganham foros de popularidade, ultrapassando o chamado ciclo efémero mesmo os best-sellers têm por natureza uma vida curta. Um livro como O Código da Vinci, de Dan Brown, está agora completamente esquecido, enquanto um romance como Rebecca, de Daphne du Maurier, ainda hoje atrai muitos leitores. Numa outra perspetiva, há romances que cabem no formato da literatura de entretenimento e possuem em si uma energia literária que assegura sucessivas edições, década após década, é o caso da literatura de crime e mistério de George Simenon, ainda hoje um dos escritores franceses do século XX mais lidos em todo o mundo.

Jeffrey Archer, como escreve na badana do seu romance Uma Questão de Honra, Bertrand Editora, 2024, tem 300 milhões de exemplares vendidos em 114 países e é publicado em 47 línguas, o mesmo é dizer que é um dos maiores autores de best-sellers do planeta. Qual o magnetismo deste livro? Obviamente que tudo vai arrancar com um problema de cariz mundial, em 1966, o líder soviético informa os seus pares do Kremlin de que o ícone São Jorge e o Dragão, que fora propriedade do Czar, era uma falsificação. A Segurança do Estado recebe ordens para descobrir onde está o original, este encerra um segredo de uma desmedida importância, trata-se de um documento estratégico, mexe com a ordem mundial. Vai ser desencadeada uma caça ao tesouro. E como um bom livro é sempre uma história bem contada, estamos agora na leitura de um testamento, ficamos a saber que um antigo coronel das forças britânicas caído em desgraça deixa nesse testamento uma carta misteriosa ao seu filho. Abre-se a caixa de Pandora.

Caçador e fugitivo vão estar no turbilhão dos acontecimentos. Adam Scott, capitão e filho do dito coronel, vê a sua vida virada do avesso, a sua amada brutalmente assassinada e ele passa ao estatuto de fugitivo, os caçadores são o KGB e a CIA e até será vigiado pelos seus compatriotas britânicos. A intenção de todos é silenciá-lo, o documento dentro do ícone original é uma verdadeira bomba atómica.

Voltando ao passado, ficamos a saber que o coronel acompanhava os presos nazis julgados em Nuremberga. O Marechal Goering, que ele vigiava permanentemente, recebera secretamente uma ampola de cianeto de potássio e suicidara-se, mas tinha deixado uma carta ao cuidado do coronel, este fora exautorado pelas suas autoridades pelo suicídio de uma das figuras proeminentes do III Reich. Aquela carta é o busílis da história.

O camarada Romanov é o agente que iniciou a caçada, foi escolhido pela Segurança do Estado para descobrir o paradeiro do ícone do Czar, põe a trabalhar uma equipa de investigadores, descobre-se que uma pretensa cópia fora oferecida a um Grão-Duque alemão, as investigações chegam a Goering, daqui chega-se ao coronel Scott, isto enquanto Adam procura um tradutor alemão, para saber do conteúdo da carta, vai batendo a várias portas. Há uma encomenda guardada num banco em Zurique, nesta altura o leitor já está completamente capturado, poderá ser uma história da carochinha, mas uma boa perseguição e uma estrutura narrativa bem condimentada entre o que faz o perseguidor e como o perseguido se vai desenvencilhando numa apertada teia, cresce o frémito da leitura com o aparecimento de determinadas figuras, como um competente financeiro soviético que a seu tempo preparará uma tremenda armadilha a Romanov.

Este chega ao banco suíço por onde andara Adam Scott, vem à procura de património seu, que poderá fazer dele um milionário. Estamos perante um elemento novo, Adam Scott, que tem a patente de capitão, é candidato a um lugar no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Romanov revela-se um assassino implacável, mata a sua colaboradora que o acompanhara na missão à Suíça, de regresso a Moscovo teve de explicar que a dita colaboradora desapareceu inesperadamente, a visita ao Banco de Zurique revelara um outro ícone que não o pretendido. A Segurança do Estado tem desconfiança do comportamento do Romanov, agora tem outro agente na sua peugada.

O leitor está mais absorvido do que nunca, Adam Scott é já um fugitivo, surge mais um elemento na história Emmanuel Rosenbaum, um velho também portador de um segredo, viremos a saber que se trata de uma caracterização de Romanov, estamos agora em Genebra. A maratona contra o tempo é sufocante, os britânicos vêm a saber que o ícone São Jorge e o Dragão fora deixado ao pai de Scott por Goering. Em Genebra espalham-se agentes no terreno, russos e suíços, Adam para fugir à vigilância dos seus perseguidores disfarça-se de elemento de uma orquestra filarmónica que anda em digressão pela Europa, chegou a altura de introduzir o elemento amoroso, trata-se de Heidi, esta aceita ajudá-lo, ele entra no autocarro que leva os músicos para outra cidade.

Como o leitor pode imaginar tudo irá acabar bem para Adam Scott, o seu perseguidor Romanov irá ter um fim trágico, o documento do ícone jamais abalará as relações entre os EUA e a União Soviética. Então, porquê o título Uma Questão de Honra? Quando finalmente Adam Scott compreende o que tem na sua posse, fica ainda mais determinado a proteger o documento que possui um segredo avassalador, a sua fuga desesperada pela verdade vai mais além do que é uma questão de vida ou de morte, é uma questão de honra, aquele segredo acabará por reabilitar o nome do seu pai, e aquele ícone que levara à morte de gente foi vendido por 14 mil libras em leilão.

E não digo mais, este thriller de um grande contador de histórias merece a melhor atenção do leitor que queira acompanhar uma caçada ao tesouro em 1966, em plena guerra fria, porque aquele envelope deixado em testamento podia pôr em marcha uma cadeia de acontecimentos, suscetível de alterar o equilíbrio entre as duas superpotências.

Lê-se com agrado, pode-se não acreditar na história bem contada, diga-se em abono da verdade que ela já foi tratada por outros romancistas, mas é um entretenimento desopilante de primeiríssima classe. 


                                                                Mário Beja Santos

 


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

São Cristóvão pela Europa (341).

 

 

 

Nos arredores de Lienz, duas localidades têm imagens de São Cristóvão.

Em Winklern, a Igreja de São Lourenço, reconstruída em 1521 após um incêndio, tem um fresco já desvanecido representando o nosso Santo.

 

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Em Dolsach, um edifício possui um grande mural de São Cristóvão.

 

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Junto a Assling, a igreja paroquial de Santa Justina ergue-se num esplêndido cenário a mais de 1200 metros de altitude. Foi construída por volta de 1500. Na torre sineira, um enorme fresco do nosso Santo, datado de 1513.

 

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Em Tessenberg, a igreja paroquial, consagrada em 1571, tem um fresco de São Cristóvão, infelizmente obstruído pela construção posterior de uma sacristia e a abertura de uma janela. A vista da igreja é extraordinária.

 

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                                            Fotografias e 2 e 4 de Agosto de 2025

                                                                                    José Liberato




quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Radiografia do país tal qual hoje o vivemos: Ensaios incisivos, todos a dar que pensar.

 

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Para comemorar os 15 anos da coleção Ensaios da Fundação reúnem-se textos de dezassete autores sobre temas da atualidade nacional. A obra chama-se Livros leves. Opinião de peso. Fundação Francisco Manuel dos Santos. No prefácio, o diretor de publicações António Araújo faz uma breve viagem pelas bibliotecas de difusão de conhecimento que fazem parte da história da cultura portuguesa dos séculos XIX e XX, até chegarmos a estes ensaios que somam 152 títulos, dois milhões de livros nas mãos dos portugueses.

Abre as hostilidades José Manuel Sobral falando da identidade nacional, discorre sobre as muitas metamorfoses por que vivemos concluindo “No mundo cada vez mais globalizado, e onde as migrações assumiram um carácter massivo, a identificação oficial continua a ser feita em termos nacionais, de que decorrem processos de inclusão ou exclusão em termos de direitos de cidadania, o que mostra a sua importância decisiva para os destinos individuais. E se a inserção dos Estados nacionais em organizações internacionais ou mesmo supranacionais, como, no caso português, a União Europeia, lhes retirou soberania, não parece ter afetado a preeminência dada pela população à pertença nacional.”

Tiago Fernandes responde pelo ensaio O regime democrático em Portugal (1974-2025). Mostra as suas reservas aos que agitam que está próxima uma crise demográfica em Portugal, lembrando que o sistema democrático conta com partidos liberais-democráticos robustos capazes de competir com a direita radical. “Embora enfraquecidos, o centro-direita e o centro-esquerda tradicionais não desapareceram, como em muitas outras democracias contemporâneas. E persiste a natureza interclassista do PS e do PSD. Embora o voto nos partidos de direita continue associado a maiores níveis de rendimento e prática religiosa, as bases sociais e apoio dos principais partidos portugueses são ainda socialmente diversas e plurais. Um último recurso para resistir a uma eventual crise democrática e derrotar a extrema-direita, caso esta chegue ao poder máximo do Estado, é a sociedade civil portuguesa, cujas raízes remontam à revolução de 1974-1975. Em Portugal, os símbolos, as canções e os temas expressos em eventos de protesto refletem uma forte memória do momento fundador da democracia, o 25 de abril.”

Luciano Amaral vem abordar a economia portuguesa no século XXI. Dirá que o grande problema social português, ao fim de 50 anos de democracia, é fundamentalmente económico. “O grande escolho no caminho do maior crescimento continua a ser o baixo nível de produtividade da economia. Não é fácil perceber como resolvê-lo. Já se tentou muito, especialmente com as reformas estruturais propostas pela Troika. Mas o impacto no crescimento foi limitado. Talvez porque o principal problema da economia portuguesa se mantém: a baixa intensidade de capital (isto é, a baixa relação entre os instrumentos de produção existentes, como máquinas, infraestruturas ou veículos de transporte e a mão-de-obra) e a fraca produtividade desse mesmo capital.” E convém não esquecer que estamos a enfrentar novas e grandes incertezas e se regressou em força ao protecionismo da economia mundial.

Nuno Garoupa é autor de um dos mais polémicos textos deste livro, sobre O Inconseguimento crónico da Justiça portuguesa. Não esquecendo que os ganhos conjunturais não ocultam a persistência de problemas estruturais e o agravamento de bloqueios, é profundamente crítico com os governos PS e PSD/CDS, diz terem uma visão míope da justiça. “Continuam a apresentar medidas avulsas para descongestionamento ou simplificação processual, como se o problema fosse de gestão corrente e não de bloqueio institucional. Após 30 anos de reformas pontuais, o que se impõe é uma mudança de paradigma. É necessário um programa coerente, sustentado numa visão estratégica de 20 anos, capaz de reestruturar o sistema judicial de forma integrada. Tal mudança exige mecanismos estáveis e institucionais para planear, debater, propor e avaliar reformas estruturais. A proposta de criação de uma comissão permanente e independente para a reforma da justiça permanece ignorada. Curiosamente, a AD recuperou essa proposta no seu programa eleitoral de 2024, mas abandonou-a assim que chegou ao poder. Esta recorrente ausência de continuidade revela um padrão de governação que privilegia promessas eleitorais vazia em detrimento de compromissos institucionais duradouros.” E elenca as diferentes dimensões que vemos abarcadas por uma reforma paradigmática.

Confesso que o texto que mais me impressionou pela sua originalidade é o de Sofia Guedes Vaz intitulado Um alfabeto do ambiente. Pôs-se em viagem, foi percorrer a Estrada Nacional 2 em bicicleta. “Queria construir uma cartografia pessoal do território a partir da perspetiva desse meio de transporte, uma visão lenta, silenciosa, sensorial e próxima do chão. Queria reencontrar a sustentabilidade do país em mim, percorrer um atlas vivo da geografia portuguesa e transformar os 738 Km de Chaves a Faro num percurso de dúvidas e incertezas, mas acima de tudo esperança.” E construiu um alfabeto suscetível de inspirar alguém. A: Amor, dá esperança quando tudo parece falhar. B: Bicicleta, não só pela paz que dá naquele caminhar, mas também porque tem sido o grande responsável por uma revolução suave na mobilidade. C: e se o Consumo fosse um ato de cidadania, porque consumir é um ato político e ético, por inerência um ato de cidadania. D: Descarbonizemos, porque descarbonizar está ligado às florestas, somos um país florestal, no qual mais de 30% do território contém árvores. E: Ecosofia, uma filosofia pessoal vivida em harmonia ecológica. A autora caminha para a letra I: Incêndios e diz-nos que foi de Castro Daire até Viseu poucos dias depois de um grande incêndio. “Foi doloroso ver, sentir e cheirar as paisagens desoladoras e escuras, carbonizadas”, irá depois falar em lixeiras, em plásticos, nos oceanos, na qualidade do ar, nas energias renováveis, não esquecerá as utopias. E despede-se do leitor com amenidade e um olhar num futuro melhor: “T de Tempo, a liberdade de não olhar para o relógio. Tempo para o Outro, Tempo para nos reconectarmos com a comunidade. G de Gratidão, por tudo, pela natureza e por quem me apoiou ao longo desta aventura. E S de Silêncio, claro. Apesar de ter encontrado gente gira, as horas de silêncio foram as mais especiais. Silêncio é para sonharmos com um mundo melhor.” Passei ao crivo algumas citações de ensaios de grande qualidade que abrem pistas para refletirmos sobre o país que somos e como ele poderá vir a ser mais livre, mais justo e mais desenvolvido.

De leitura obrigatória. 


                                                                    Mário Beja Santos

 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

São Cristóvão pela Europa (340).

 

 

 

A última povoação visitada no Estado austríaco da Caríntia foi a de Xaveriberg cuja denominação existe desde 1737 quando foi construída uma capela dedicada a São Francisco Xavier.

Muito perto, existe a pequena igreja de Santa Radegunda. Situada num local isolado à entrada de um desfiladeiro, aqui passava, desde o tempo dos romanos, um trilho de mulas muito perigoso. Daí, o grande fresco de São Cristóvão atribuído a Urban Görtschacher de que já aqui falámos. É de 1510.

A igreja comemorou recentemente os seus 950 anos de existência.

 

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 E entramos no Estado do Tirol. Este é separado em duas partes por um corredor cuja largura mínima é de cerca de uma dezena de quilómetros de largura. A parte leste é constituída por um único distrito: o de Lienz.

A cidade de Lienz é a capital do distrito. Está situada na confluência de vários vales

Já a tinha visitado antes. Mas havia ainda outras imagens a descobrir.

Um dos rios que atravessa a cidade é o rio Iser, afluente do citado Drau. Numa ponte sobre este rio existe uma estátua de pedra, muito estilizada, inaugurada em 1974, da autoria do escultor austríaco Gottfried Fuetsch (1909-1989).

 

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Mas o monumento principal de Lienz é seguramente o Castelo Bruck. Foi construído na segunda metade do Século XIII pelos Condes de Gorizia. Quando o Conde Leonardo morreu sem descendência em 1550, foi ocupado pelo Imperador Maximiliano I. Foi primeiro residência para senhoras nobres e depois sucessivamente hospital de campanha, quartel, hospedaria: Pertence à cidade desde 1943.

A Capela do Santíssimo Sacramento é um dos pontos mais importantes do castelo. Revestida de frescos pintados pelo mestre austríaco Simon von Taisten, nela avulta uma abside semicircular representando os catorze Santos Auxiliares entre os quais o nosso Santo.

 

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                                        Fotografias de 2 e 3 de Agosto de 2025

                                                                                José Liberato