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        <title><![CDATA[Stories by aTrava on Medium]]></title>
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            <title>Stories by aTrava on Medium</title>
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            <title><![CDATA[Por que tantos homens têm medo da Lei contra a Misoginia?]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[aTrava]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 21 Apr 2026 18:09:37 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-04-21T20:01:07.606Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Uma análise sobre como o Estado brasileiro normalizou a submissão feminina e por que o dia 25 de abril é um marco inadiável.</p><p><em>Este é um ensaio-estudo em construção, publicado em caráter de urgência para subsidiar o debate e a mobilização para os atos nacionais do dia 25 de abril.</em></p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/201/1*-KpyZfw6RxA3j3q7ylA-KQ.jpeg" /><figcaption>Polêmico o PL ANTI-MISOGINIA pro Hugo Motta.</figcaption></figure><p><strong>Preâmbulo</strong></p><p>Infelizmente, inicio este ensaio, com pressa. Por quê? Gostaria de terminá-lo em menos de uma semana, mas este é o segundo dia de escrita (04/04/2026), e não sei exatamente quando vou publicá-lo — agora que reviso para publicá-lo ainda que incompleto é dia 21/04/2026; é difícil ter um espaço pra escrita e estudo sendo da classe trabalhadora. Sou professora de inglês, servidora pública de Educação municipal, e estudante de Direito (3º período), e agora estava estudando para a semana de provas da faculdade. Por coincidência, estou iniciando o estudo de Teoria do Crime — eu jurava que não ia gostar, tendo em vista que é uma área que gera muito interesse em homens misóginos, que desejam ser delegados ou sei lá o quê, porque não converso com eles, mas estou surpresa como estou interessada, e não, jamais me vejo sendo delegada ou nada parecido. Meu interesse, como quase sempre, está mais pra uma vontade de entender como as pessoas e as sociedades aceitam determinados comportamentos, e pra outros se revoltam. E o mais importante pra mim: como que elas fazem essa decisão? Em que momento elas decidem por exemplo que pra uma mulher assasinada um ‘poxa’ sentado do sofá basta, e segue o baile, mas pra um penalti perdido se quebra a televisão e a noite se torna insone? A pressa vem porque eu não deveria estar escrevendo, eu deveria estar estudando pra minha semana de provas, mas não consegui me segurar e não iniciar este ensaio, que é quase um diário, e ao mesmo tempo um estudo (um que não vai cair nas minhas provas, infelizmente). Eu já queria escrever sobre a discussão mais recente do PL 896/2023 após a aprovação de 100% do Senado —, o que me surpreendeu, com voto mesmo daqueles que atrasaram, discursaram, e discursam contra o Projeto de Lei, como Flávio Bolsonaro, que mesmo após votar a favor do Projeto, deu entrevista dizendo que vai articular com o Congresso pra arquivá-lo, na mesma entrevista, <strong>o candidato à presidência concorda</strong> que <strong>as mulheres sofrem de machismo, misoginia</strong>, mas argumenta que essa lei não irá resolver a violência contra as mulheres, porque é muito subjetivo e <strong>é uma censura a liberdade de expressão, especialmente nas redes sociais.</strong> — Eu, preciso escrever de tempo em tempo como forma de calcular meus pensamentos, então escrever é pra mim pesquisa e cálculo, é como se eu colocasse na lousa novos elementos das contas que venho fazendo por certo tempo. O cálculo aqui, pra mim, talvez seja mais de um, diversas perguntas, mas pra este ensaio essencialmente quero pensar sobre a pergunta quem tem tirado o sorriso de muitos brasileiros: homens não misóginos correm risco de pena pela futura lei contra misoginia?</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/318/1*lrTkNvCYt92WddwKwAs5pQ.png" /></figure><p><strong>1. O projeto de lei é vago?</strong></p><p>Assim que abrimos a atual Constituição Federal, temos como fundamento do Brasil a dignidade da pessoa humana. No art. 3º é objetivo do Brasil por exemplo promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, etc. Mas será que essas palavras não são vagas demais? Será que é por isso que o Estado brasileiro falha miseravelmente em materializar seus objetivos? E se é vago assim, seria melhor removê-lo do ordenamento jurídico? Me responde aí, o que é dignidade? Presidiárias sem acesso a absorventes é digno? Em 2022, Zambelli apoiou um veto de Bolsonaro, então presidente da República, à distribuição de absorventes a estudantes de baixa renda de escolas públicas, pessoas em situação de rua ou de extrema vulnerabilidade e presidiárias ou em cumprimento de medida socioeducativa, <a href="https://platobr.com.br/zambelli-reclama-de-nao-ter-xampu-mas-votou-contra-dar-absorventes-para-presas#:~:text=Zambelli%20reclama%20de%20n%C3%A3o%20ter,dar%20absorventes%20para%20presas%20%2D%20Plat%C3%B4BR">escreve a jornalista Bruna Lima para o portal platôbr</a>. Ao mesmo tempo, Zambeli que está agora presa na Itália reclamou de não ter xampu no seu presídio. Não me parece que o conceito de dignidade seja difícil de entender quando somos nós em condições de vulnerabilidade. Você acha que crianças e adolescentes, estudantes da rede pública dentro das favelas, almoçando sentadas no chão da escola porque estão de sobreaviso entre um tiroteio iniciado por operação policial alguns minutos atrás é digno? Para o STF e Cláudio Castro (os quais desconfiamos se são pessoas muitos dignas, né), em unanimidade, parece que sim, pois no último voto da adpf 635 (das favelas) decidiram criar excepcionalidade para a claúsula que impedia operações policiais nas proximidades de unidades de ensino (escolas/creches) e de saúde (hospitais/postos de saúde). Ora, promover o bem de todos assim é mole, né. Será então que o problema é que o artigo ‘promover o bem de todos’ não é objetivo e concreto? Ou será que o Estado se confundiu com os termos? Para um juiz do Paraná, receber 120 mil reais mensais com penduricalhos pareceu bastante indigno. O magistrado, da comarca de São Mateus do Sul, recentemente interrompeu uma sessão do Tribunal do Júri aos berros demonstrando extrema indignação sobre a decisão do STF de restringir penduricalhos que extrapolavam o teto de remuneração. Enfim, o problema sobre promover o bem de todos é realmente sobre não saber o que é bom pra todos? Seria esse o risco sobre o PL da misoginia? A misoginia é tão abstrata assim a ponto de magistradas/es/os não conseguirem garantir que a execução da pena será justa? Afinal, a sociedade está descobrindo que quase tudo o que sempre foi feito e falado contra as mulheres tem nomes: assédio, importunação sexual, misoginia. Nos últimos anos, a discussão sobre tudo agora é assédio aumentou. E atualmente, o debate sobre tudo agora é misoginia é uma das maiores vitórias dos movimentos feministas e de mulheres, na minha visão. A palavra misoginia não é comum e estamos popularizando-a, infelizmente, por medo de parte da população de estar futuramente cometendo crime. A misoginia é real, assim como outras estruturas de inferiorização para subjugar pessoas, por sua raça, etnia, religião, ou capacidade física e mental. E pra pensarmos a proposta de criminalizar essa violência é interessante trazer outras estruturas que passaram pelos mesmos questionamentos, e ainda passam, como o racismo.</p><p>Quando vamos para a matéria penal, fica ainda mais fácil, uma vez que o PL altera uma lei já existente, incluindo novo trecho nela. O <a href="https://legis.senado.leg.br/sdleg-getter/documento?dm=9279920&amp;ts=1774909615425&amp;rendition_principal=S&amp;disposition=inline">PL 896/2023</a> deseja incluir a misoginia no arts. 1º, 2º-A, e 20 da lei que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor, a lei 7.716/89, conhecida como <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7716.htm">Lei Caó</a>, ou, Lei do Racismo, iniciativa do então deputado Carlos Alberto Caó. — Se esse ensaio fizer o efeito desejado, você sairá desta leitura com outra visão sobre essa lei.</p><p>Essa lei é de 1989, um século e um ano após a falsa abolição. Ela visa definir os crimes do racismo. Então em 1989, ela traz os artigos de recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial, negando-se a servir, atender ou receber cliente ou comprador; recusar, negar ou impedir a inscrição ou ingresso de aluno em estabelecimento de ensino público ou privado de qualquer grau; impedir o acesso ou recusar hospedagem em hotel, pensão, estalagem, ou qualquer estabelecimento similar; impedir o acesso às entradas sociais em edifícios públicos ou residenciais e elevadores ou escada de acesso aos mesmos, etc. No entanto, injuriar alguém em razão de cor não se torna crime com essa lei, <strong>essa redação só foi dada em 2023, isso mesmo, 3 anos atrás, pela lei 14.532</strong>.</p><p>É muito recente, né. Eu tenho 34 anos, e o racismo é crime no Brasil há 36, excluído a injúria racial. E como era antes da Lei Caó? <a href="https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/arquivo-s/brasil-criou-1a-lei-antirracismo-apos-hotel-em-sp-negar-hospedagem-a-dancarina-negra-americana">De acordo com Ricardo Westin, em artigo para a Agência Senado</a>, o contexto era este: 1º de julho de <strong>1950</strong>, Katherine Dunham, artista especializada em danças de origem africana, antropóloga e ativista social nos Estados Unidos, foi impedida de se hospedar em um hotel no Brasil durante sua turnê. Katherine era uma mulher negra. De todas as reações, de longe a mais contundente partiu do deputado federal Afonso Arinos (UDN-MG). Em 17 de julho, ele apresentou à Câmara dos Deputados <strong>um projeto de lei para transformar determinadas atitudes racistas em contravenção penal</strong>. Assim quem as cometesse poderia ser condenado a pagar multa e cumprir até um ano de prisão. <strong>O movimento negro tinha conseguido levar à Assembleia Nacional Constituinte de 1946 um artigo que proibiria o preconceito por raça, mas, após acalorados debates, ele acabou sendo rejeitado pelos parlamentares e não entrou na Constituição</strong>. Em 1948, surge a declaração universal dos direitos humanos. O mundo acabava de sair da Segunda Guerra Mundial, e a ONU agia para impedir que se repetissem pelo mundo os crimes de cunho racista perpetrados pela Alemanha nazista. Sobre a Lei Afonso Arinos que tornava algumas atitudes racistas contravenção penal:</p><blockquote>“Foi uma lei histórica. A escravidão havia sido abolida seis décadas antes, em 1888, mas os negros continuavam sendo vítimas de preconceito e ocupando as posições mais baixas da sociedade sem que o poder público se preocupasse com isso. A Lei Afonso Arinos surgiu como a primeira norma destinada a punir e inibir atos racistas.”</blockquote><p>Parece bonito, né. Mas a opinião de Arinos, homem branco de família que vinha de estadia longa na política brasileira era a seguinte:</p><blockquote>“Atualmente ninguém sustenta a sério que a pretendida inferioridade dos negros seja devida a outras razões que não ao seu status social. Urge que o Poder Legislativo adote as medidas convenientes para que as conclusões científicas tenham adequada aplicação”</blockquote><p>Para Arinos, as organizações negras deveriam ser eliminadas porque alimentariam o racismo dos negros contra os brancos. À época foi sugerido que se apresentasse um projeto em separado classificando a formação de frentes negras como crime contra a paz pública.</p><p>Como conta Ricardo Westin em seu artigo, “até ser revogada, em 1989, a Lei Afonso Arinos não saiu do papel. Apesar de os jornais continuarem noticiando episódios de racismo com frequência, praticamente ninguém foi para a cadeia. Por um lado, delegados de polícia e juízes não fizeram a lei valer. Por outro, muitas pessoas negras não denunciaram a discriminação, temendo que a polícia e os tribunais acabassem se voltando contra elas próprias. Segundo <a href="https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-87752017000100163&amp;script=sci_arttext#aff1">um levantamento do historiador Jerry Dávila</a>, meras 23 pessoas acusadas de transgredir a Lei Afonso Arinos se sentaram no banco dos réus entre 1951 e 1989. Dessas, só seis foram condenadas, por atos como recusar a matrícula em colégio e barrar a entrada em baile por causa da pele negra. Houve ainda um sétimo indivíduo sentenciado, mas por preconceito racial contra um descendente de japonês.”</p><blockquote>“Em seus quase 40 anos de vigência, a Lei Afonso Arinos também foi enfraquecida pela negação generalizada do racismo. A imprensa brasileira vivia noticiando episódios de racismo explícito ocorridos nos Estados Unidos e na África do Sul. Ao fazer isso, segundo estudiosos do tema, os jornais buscavam mostrar que aqueles, sim, eram países verdadeiramente racistas. Ao mesmo tempo, tratavam os atos racistas praticados no Brasil, a exemplo do caso Katherine Dunham, como meras exceções. Dizia-se inclusive que a discriminação partia mais de imigrantes estrangeiros, que não estariam habituados à harmonia racial do país. A Lei Afonso Arinos, por esse <a href="https://www12.senado.leg.br/noticias/infomaterias/2020/06/negro-continuara-sendo-oprimido-enquanto-o-brasil-nao-se-assumir-racista-dizem-especialistas">raciocínio negacionista</a>, serviria apenas para disciplinar os casos excepcionais.</blockquote><blockquote>— Os filhos da nossa pátria são criados no aconchego da mãe preta. Felizmente, o nosso sentimento de igualdade e de justiça nos coloca numa exemplar posição perante o mundo enquanto assistimos à sobrevivência do racismo entre nações que têm as mais graves responsabilidades na história da nossa época — discursou o senador Attílio Vivacqua (PR-ES) em 1953, por ocasião do segundo aniversário da Lei Afonso Arinos.”</blockquote><blockquote>“Fatos isolados não podem ser entendidos como discriminação, mas como incidentes, que sucedem a todo instante e em qualquer parte. Quando se verificam com homens de raça branca, tomam-se efetivamente como incidentes. Quando se registram entre pessoas de cor diferente, já se invoca a discriminação racial. Essas afirmativas são para deixar claro ao Senado e à nação que não existe discriminação racial em São Paulo. Há incidentes, sempre corrigidos.”</blockquote><blockquote>“— De qualquer forma, temos que reconhecer que a Lei Afonso Arinos foi um divisor de águas. Em primeiro lugar, porque foi a primeira vez que o Estado brasileiro admitiu, ainda que implicitamente, que o Brasil é, sim, um país racista. Em segundo lugar, porque, quando surge uma lei que passa a proteger certos direitos humanos, não há como retroceder depois. A Lei Afonso Arinos foi o ponto de partida para todas as leis contra o racismo que vieram depois. Explica o doutor em história Walter de Oliveira Campos.”</blockquote><p>Lei Arinos: <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l1390.htm">link</a>.</p><p>Este ensaio é também um estudo, então acabei colocando muita citação do artigo de Ricardo Westin, por entender que é essencial compararmos a conjuntura social daquela época para compreendermos a resistência atual ainda existente contra ações afirmativas para a população negra, a disseminação do conceito de racismo reverso, e a falta de entendimento do que é a misoginia, uma vez que assim como o racismo é coisa tão natural, que a gente aprende em casa, na escola, e passa como coisa comum passa, desapercebida. Sim, na época da Lei Caó, também não foi fácil. Também parece ter havido dúvida se uma pessoa não racista seria penalizada por ser “excepcionalmente racista”, também houve discordância sobre a gravidade do racismo, também houve pressão para manter o racismo como contravenção penal.</p><p>No excelente artigo <em>Os 33 anos da Lei Caó</em>, por Rômulo de Andrade Moreira, disponível no portal do Instituto Geledés conhecemos melhor quem foi Caó.</p><blockquote>“Caó foi, sobretudo, um importante militante do movimento negro brasileiro, tendo participado, inclusive, da Assembleia Nacional Constituinte; é dele a redação do inciso XLII do artigo 5º. da Constituição Federal, que torna a prática de racismo crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão.”</blockquote><blockquote>“Participante da militância estudantil, integrando a UNE, foi filiado ao Partido Comunista (o seu nome de guerra era Betinho), quando “caiu nas garras do regime militar, que <strong>o condenou à prisão em 1970</strong>.”</blockquote><blockquote>“Caó, como um jurista negro, estava preocupado em utilizar o direito para promover a integração de grupos marginalizados, afastando-se do legalismo jurídico que leva à desconsideração do contexto social e histórico no qual as pessoas estão inseridas. Recusava a ideia que o direito contém todos os elementos necessários para a interpretação das normas jurídicas e as interpretava de maneira distinta daqueles que utilizavam essa perspectiva. A vasta maioria dos membros do judiciário são homens brancos heterossexuais de classe alta, que nunca sofreram qualquer tipo de discriminação na vida, e partem do pressuposto que todas as pessoas possuem a mesma experiência social, razão pela qual podem interpretar o direito apenas a partir de sua lógica interna.”</blockquote><p>Em 1988, o Constituinte Carlos Alberto Caó, justificou assim a emenda XLII — a prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à pena de reclusão, nos termos da lei:</p><blockquote>“Passados praticamente cem anos da data da abolição, ainda não se completou a revolução política deflagrada e iniciada em 1888. Pois impera no País diferentes formas de discriminação racial, velada ou ostensiva, que afetam mais da metade da população brasileira constituída de negros ou descendentes de negros, privados do exercício da cidadania em sua plenitude. Como a prática do racismo equivale à decretação de morte civil, urge transformá-lo em crime.”</blockquote><p>Se a gente concorda que o Brasil assim nomeado, como nome de mercadoria, invadido no século XVI manteve o racismo contra povos indígenas e africanos nos termos da escravidão até o fim do século XIX, podemos confirmar o seguinte: <em>os governos e o Estado brasileiro escravizou por quase 4 séculos.</em> 400 anos. — Sempre vai ter alguém dizendo que 400 anos é exagero, que formalmente foram menos anos. <strong>A vida não é vivida formalmente</strong>. Mais de 20 gerações impedidas dos direitos dos homens e das mulheres brancas. E se estiver vago demais aqui, vamos lembrar: uma pessoa escravizada em geral não podia estudar, 20 gerações de famílias brancas se formando doutor enquanto as pessoas negras sequer à família tinham direito; uma pessoa escravizada não podia juntar dinheiro, 20 gerações de famílias brancas enriquecendo, comprando imóveis, fazendas, enquanto as pessoas negras trabalhavam sem qualquer remuneração. Poxa, mas aqui eu cometo equívocos diversos: não foi bem assim, não havia lei geral que proibísse escravizados de aprender a ler, alguns até eram alfabetizados por seus senhores. Claro, e quantos deles eram encaminhados para a carreira de médico ou juíz? Ora, dizer também que não podia ter família é exagero, veja, a igreja católica reconhecia o matrimônio entre escravizados e, em 1869, uma lei passou a proibir a separação de casais e de filhos menores de 12 anos. Imagina então como era sossegada a vida de uma pessoa negra no Brasil em 1869 sabendo que agora o Estado promulgou lei proibindo a separação de casais e de filhos menores de 12 anos. Seguindo essa lógica, poderíamos afirmar que o Brasil não é mais composto de habitantes racistas, tem lei antirracismo desde 1989. Bom, e desde 1869 o Estado brasileiro garante na lei que não vai mais poder separar famílias negras escravizadas no ato da venda. Pergunto: E quando falamos de misoginia, ou sexismo, quantos séculos, quantos anos, quantas gerações nós estamos falando sobre a submissão (escravidão sexual, reprodutiva e doméstica) das mulheres em relação aos direitos privados (<em>privi-légios</em>) dos homens?</p><p>Sem deixar de ter em vista a pergunta se a misoginia é um termo vago, essa introdução quer mostrar que há diversas matérias penais que são ainda hoje consideradas vagas, o próprio racismo, que é matéria penal graças aos esforços gigantescos das resistências organizadas dos movimentos negros, ainda hoje, é comum as pessoas se perguntarem, por exemplo, se chamar um branquelo de leite azedo é injúria racial. Afinal, homens e mulheres brancas na sua escravidão imaginária eram frequentemente ofendidos com o termo. Essas mesmas dúvidas ainda são frequentes quando se questiona, foi importunação sexual ou foi tentativa de estupro. Como se comprova? O que é racismo? O que é misoginia?</p><p>Uma coisa parece ser certa, se pelo menos desde 1989 os brasileiros não sabem o que é racismo, e nem misoginia, <strong>a educação está sendo um problema grave</strong>. Nisso, eu não posso deixar de compartilhar aqui, uma lembrança recente, em que eu passeava com minha namorada e nossas cachorras, num bairro cuidado pela prefeitura, e numa esquina em que virávamos, tinha um grupo de quatro homens, amigos eu acho, numa mesa de uma barraca de rua de cachorro quente. Quando passamos por eles, eu ouvi um deles falar, olha lá, tua namorada! O tom era de deboche, veio acompanhada de risos. Eu sou travesti, mas desta vez eu sabia que não era pra mim a ofensa. Eu olhei pra trás, e o grupo de amigos estavam rindo de uma mulher negra retinta em situação de rua deitada sobre papelões. Aquele homem deve ter uns 35 anos. E existe lei pra caramba de educação, existe a 10.639, por exemplo, desde 2003. E em 2026, um homem que ficou mais de uma década numa escola com a lei em vigor, olha pra uma mulher preta em situação de rua e o seu primeiro pensamento é um deboche das suas condições de classe, raça e gênero. Portanto, fica aqui mais um alerta de uma professora de rede pública: a educação não está formando para a cidadania, nem para os direitos humanos, está formando apenas e exclusivamente para o trabalho, e trabalho sem condições básicas de dignidade. As escolas podem estar ensinando de tudo, mas não estão ensinando o que é racismo, muito menos o que é misoginia. E será que a escola sabe o que é racismo e misoginia? Se as trabalhadoras da escola não sabem, como podem ensinar? Então, a via da educação é atualmente uma impossibilidade para combater todos os preconceitos e discriminações oferecidos pela sociedade, inclusiva pela própria escola. A ampla maioria das pessoas que estudam Direito comigo, estão entre a faixa etária de 18 a 30 anos, e são contras as cotas raciais, por exemplo. E no trabalho na escola, outro dia mesmo, eu fui notificar uma professora que tinha registrado ocorrência contra um aluno de 7 anos porque ele estava repetidamente chamando seu colega de turma de tição, feijão, macaco. E a professora me alertou: mas tem que ver também que ele fica chamando o outro de leite azedo.</p><p>Agora, preciso pausar, pra levar minha gata na veterinária…</p><p>E pode ser que nesse caminho que escolhi de aprofundar as estruturas racistas faça você se perguntar, tá, mas o que o racismo tem a ver com a misoginia? Está claro que o Estado brasileiro impediu e subjugou a população negra durante séculos, mas as mulheres não passaram por nada disso. Se esse é o seu pensamento, você mesmo pode pesquisar alguns pontos: no Brasil, a mulher não teve equivalência civil ao homem por séculos, a mulher negra e indígena muito menos. Os casos que me chamam mais atenção são: até 1867, no Brasil vigorou as ordenações filipinas, que em seu livro V, expressa no ordenamento jurídico que o marido caso veja a sua esposa cometendo adultério é lícito o homem matar a mulher, nunca o contrário; A educação para as mulheres, nos níveis básicos e superiores não chegaram na mesma época que para os homens. E quando chegou os currículos nas escolas era segregado, para a mulher estudar era aprender a cuidar da casa e do futuro marido, para o homem a ciência; até 1962 no Brasil existiu código civil que tornava a mulher casada relativamente incapaz, incapaz de decidir por si sobre qualquer relação contratual privada, ela era legalmente dependente do marido; até 2005 o adultério era crime, válido tanto para o homem e para mulher, no entanto as jurisprudências de judicialização são dos homens; até 2022 a Justiça brasileira e o próprio STF absolvia casos de feminicídios com a defesa do réu alegando legitíma defesa da honra. Entre diversas outras proibições que o Estado brasileiro impôs claramente hierarquizando por sexo os poderes masculinos dos femininos. A misoginia existe. A misandria é apenas uma ignorância, assim como racismo reverso, e orgulho hétero.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*R835FnhcId6109CRucxfrw.jpeg" /></figure><p>Então, é vago ou não é esse PL contra a misoginia? É verdade que agora não pode mais falar que ela tá irritada porque tá de tpm? Pra responder a essas perguntas vamos recorrer a analogia com leis penais já existentes. Vamos imaginar a seguinte situação: Em 2020, uma mulher de 25 anos dorme na casa de uma amiga de 23 anos, e enquanto está dormindo sente que sua calcinha está sendo abaixada por um homem, esse homem (32 anos) é o namorado da amiga, a mulher corre do homem, se tranca no banheiro e grita por socorro. Quando ainda de madrugada consegue sair do local, de manhã cedo vai com uma outra amiga registrar um boletim de ocorrência na polícia. Essa mulher decide entrar com ação penal. 4 anos depois, na sentença, a juíza diz que em sua interpretação o que houve foi tentativa de estupro, apesar disso, o homem é sentenciado pelo crime de importunação sexual. Se você tiver interesse, pesquise os crimes de estupro (art. 213 CP) e o de importunação sexual (art. 215-A). Logo no início do CP (Código Penal) também é colocado no Art. 14. inciso II sobre a tentativa de crime: “tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente.” E agora? Então desde 2018 todo homem que tentou abaixar a calcinha de uma mulher sem sua autorização foi penalizado com tentativa de estupro? — Se fosse assim quantos maridos já estariam presos por tentativa de estupro? Então desde 2018 o marido tem que firmar contrato toda vez que pedir pra abaixar a calcinha da esposa? — Mas mesmo se ele nem ia cometer o crime? Como você vai me provar objetivamente que ele estava mesmo tentando estupro? Não são essas as merdas que a gente escuta sobre o PL anti-misoginia? Alegam que o conceito de misoginia é vago. E que se for assim, chamar uma mulher de piranha, o que pode ser misoginia, pode encriminar um homem de bem, de modo inafiançável e imprescritível. Pra não alegarem que eu estou esquivando da resposta, vamos lá: todo homem que tentar abaixar a calcinha de uma mulher sem sua autorização vai ser penalizado com tentativa de estupro ou importunação sexual? Bom, minha esperança era de que sim. Mas o que vemos é: essa mulher — porque essa é uma história real — não teve apoio da amiga o qual o namorado tentou estuprá-la, essa mulher após registrar queixa na polícia a qual a desincentivou a registrar, recebeu ligações da amiga constrangendo-a quando considerou entrar com ação penal, pois a amiga não queria isso pro namorado, essa mulher quando entrou com ação penal todo dia morria de medo de ser perseguida, pois o acusado pelo seu advogado poderia ter acesso a vários de seus dados, e, depois de 4 anos de espera, o réu apesar de ser sentenciado por importunação sexual não cumpriu pena prevista na lei, ele não foi preso, o que aconteceu depois desses 4 anos: o réu que segundo a juíza tentou estupro mas foi sentenciado por importunação sexual teve o seguinte: JULGO PROCEDENTE O PEDIDO a 1(um) ano e 6 (seis) meses de reclusão <em>em regime aberto</em>, convertida em duas penas restritivas de direito, a primeira de prestação pecuniária e a segunda de prestação de serviço, <em>pela prática do delito previsto no artigo 215- A do Código Penal</em>. Condeno, ainda, o Réu ao pagamento das custas processuais. Ponto. Ou seja, como a misoginia vai ser interpretada, processada, e penalizada não depende exclusivamente da lei. E se tem homem arriando a calcinha de mulheres sem autorização da mulher dentro da casa da própria namorada e esse homem sequer está sendo preso, infelizmente, não acho que será uma injúria que encarceraria essa horda de misóginos que nos cercam. O mesmo se dá com o racismo. É crime. Mas na lei Caó não tem qualquer definição do que é o racismo, no lugar tem-se uma série de atos que podem ser alegados como outras coisas que não o racismo, mas que estão na lei como crime de racismo. Exemplo, impedir o acesso às entradas sociais em edifícios públicos ou residenciais e elevadores. Uma pessoa negra pode hoje ser impedida de usar o elevador social, e o porteiro justificar que não é pela cor da pessoa, mas que o elevador é apenas para moradores, e ele é entregador, tem que usar o de serviço. Raramente, uma lei vai ser objetiva e clara a ponto de não ter interpretação. Um dos serviços do Direito é justamente a interpretação. E, digo mais, que o projeto de lei anti-misoginia após a aprovação seja revisitado e incluso nele novos artigos detalhando os atos misóginos, se necessário for. Como assim? Quando o PL for aprovado, os arts. 1º, 2º-A e 20 da lei antirracismo (Lei 7.716/1989) valerá igualmente para a misoginia. E isso será suficienteme claro para julgar como crime, por exemplo, compartilhar vídeo em rede de internet demonstrando como esfaquear uma mulher caso ela recuse namoro. Pois segundo a lei 7.716/1989 art. 20 “Praticar, induzir ou incitar a discriminação…” é crime. E o que não falta são casos de feminicídios por todos esses meios que aparecem nesses vídeos, justamente quando a mulher não quer estar num relacionamento com o homem. E no art. 20-A expressa que “os crimes previstos nesta Lei terão as penas aumentadas de 1/3 (um terço) até a metade, quando ocorrerem em contexto ou com intuito de descontração, diversão ou recreação. <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2023/Lei/L14532.htm#art1">(Incluído pela Lei nº 14.532, de 2023)</a>”. O que é exatamente o que os misóginos alegam, que é só uma brincadeira. E se tiver dúvida na hora da interpretação, a lei Caó, futura lei antimisoginia também, deixa claro em seu art. 20-C : “Na interpretação desta Lei, o juiz deve considerar como discriminatória qualquer atitude ou tratamento dado à pessoa ou a grupos minoritários que cause constrangimento, humilhação, vergonha, medo ou exposição indevida, e que usualmente não se dispensaria a outros grupos em razão da cor, etnia, religião ou procedência ou por misoginia. <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2023-2026/2023/Lei/L14532.htm#art1">(Incluído pela Lei nº 14.532, de 2023)</a>”. Curiosamente, os vídeos viralizados no mês das mulheres este ano foram os de homens fingindo espancar, esfaquear e fuzilar mulheres que se recusam a estar com eles. Nenhuma vez o contrário. Mais uma vez, e sem qualquer dúvida, não se imagina e não teve vídeos de mulheres fingindo espancar, esfaquear ou fuzilar homens que se recusassem a estar com elas. E, sem qualquer dúvida, quando se coloca outra pessoa que não uma mulher, no mesmo contexto fica claro a opressão. Imagine vídeos de homens brancos dizendo como agrediriam homens negros que se recusassem a servi-los. A lei não deixará qualquer dúvida de que fazer e compartilhar vídeo na internet demonstrando como espancar, esfaquear ou fuzilar sua pretendente a namoro ou casamento em caso de recusa é misoginia. E sobre pastores sendo gravados dizendo que a mulher tem de ser submissa ao marido é misoginia?</p><p>Óbvio que é misoginia também. Agora, será que a Justiça brasileira vai reconhecer isso? Ao meu ver, quando o PL 896/2023 for aprovado automaticamente já fica muito claro que o primeiro exemplo, assim como discursos redpill, já estão enquadrados como crime. Vai caber ao judiciário brasileiro concluir se demonstrar como esfaquear a namorada após recusa de casamento é brincadeira ou incitação a discriminação por misoginia; do mesmo modo será para alguns discursos cristãos que incentivam a mulher a rezar e não denunciar o marido apesar do marido estar lutando contra o alcoolismo e nessa batalha espiritual todo dia o marido agredir a mulher; ou ainda, que a mulher tem que entender o lugar dela, que é estar submissa ao marido, que deve transar quando o marido solicitar, e se a mulher não autorizar a importunação sexual e o estupro este é um direito do marido. Art. 215-A do CP: “Praticar contra alguém e sem a sua anuência ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiro.” Mas tá na bíblia! Efésios 5:22 “Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor.”; Colossenses 3:18 “Vós, mulheres, sede submissas a vossos maridos, como convém ao Senhor.”; Gênesis 3:16 “… o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará.” E chega, se não ia ser um parágrafo inteiro disso. Ué, mas então o Cristianismo é misógino? O Cristianismo como religião também é diverso. Parece, inclusive tenho de pesquisar, que alguns estudos apontam que a suposta virgem Maria gestou o filho de deus quando tinha entre 12 a 15 anos de idade. É inegável que a parte cristã fundamentalista, interpreta o livro doutrinário cristão de modo misógino. Embora seja possível ser cristã e feminista, ignorando e re-interpretando essas normas religiosas. Mas, ora, hoje no Brasil, não se mobiliza dezenas de pessoas nas portas de hospitais para lincharem médicos que asseguram o aborto a meninas estupradas? Se você é cristã sem seguir a biblía de modo fundamentalista, ótimo, mas se o seu Cristianismo interpreta a biblía para justificar a submissão de mulheres, então, não é possível negar que a sua doutrina é misógina, na minha visão, é claro. Agora, como o judiciário brasileiro vai interpretar tudo isso não posso dizer. Mas podemos comparar a como esse judiciário tem interpretado e julgado a lei Caó nesses 37 anos.</p><p>Para concluir essa parte 1, é fundamental ter em mente que a abolição da escravatura teve oposição, a lei de racismo teve oposição, a criminalização da homofobia e da transfobia teve oposição recente com mobilizações organizadas por religiões cristãs, que afirmavam que perderiam sua liberdade de serem lgbtifóbicos caso fossem criminalizadas. Nada disso impede todas as semanas que parlamentares coloquem suas perucas e façam sua blackface para atacar pessoas trans, por exemplo. A vida real não é formal. É consenso que criminalizar não resolve integralmente o problema. O estupro é crime e aumenta. O estupro de vulneráveis é crime agravado e é o maior dos casos, em especial nos núcleos familiares. O feminicídio é crime e aumenta. O racismo é crime mas não desapareceu. No entanto, eu dúvido muito que alguém defenderia remover essas tipificações da ordem penal, uma vez que não estão resolvendo o problema efetivamente. As tipificações penais são uma tentativa desesperada de coibir ações que são aceitas socialmente. Se o estupro de vulneráveis é amplo e ainda subnotificado é porque tem muita gente que o aceita, que não vê qualquer problema numa criança menor de 14 anos aceitar, consensuar, relações sexuais, ou ainda, que numa relação familiar patriarcal, onde o homem manda na família, as mulheres todas da casa, se sentem ameaçadas de denunciar esse homem, o marido, o pai, o tio, o avô. Se o racismo no Brasil é amplo e invisibilizado é porque tem muita gente que sequer entende que a polícia te esculachar porque você é um garoto negro é um problema, que a polícia invadir casa de moradoras de favela e roubar coisas da geladeira é um problema. O mesmo com a misoginia. A misoginia é ampla no Brasil e no mundo. E claramente não sem base histórica. Minha namorada estava me contando agora estarrecida que é prática comum na medicina o ‘husband stitch” ou ‘daddy stitch’, em português, o ponto do marido, que nada mais é que uma intervenção cirúrgica feita por obstetras que, sem o consentimento da mulher, adicionam uma sutura extra na entrada da vagina durante o reparo do perínio pós-parto como forma de um homem agradar outro homem, apenas para mais prazer sexual masculino em detrimento de que a mulher tratada como objeto pode sofrer dor crônica, dispareunia e traumas diversos. Isso tá acontecendo em 2026. A própria palavra ‘vagina’ significa literalmente ‘bainha’, ‘estojo’ ou ‘cobertura’ (especialmente para espadas). O termo anatômico foi adotado para descrever o canal sexual feminino por analogia, como o local que envolve ou guarda o pênis, metaforicamente chamado pelos romanos de <em>gladius</em>. <strong>Mais uma vez, a misoginia é real. Misandria é uma ficção.</strong></p><p>Encerro essa primeira parte com certa pressa pra publicar hoje com o objetivo de chamar todas, todes e todos para os atos do <strong>dia 25/04/2026</strong> que vão ecoar em todo o Brasil em defesa da criminalização da misoginia, pelo fim da misoginia. No Rio de Janeiro, a soma de coletivos de mulheres e feministas <strong>estaremos organizadas no Aterro do Flamengo, Posto 0, às 10 horas. Vamos juntas!</strong> A luta é longa, como vimos, e nós somos parte dela. Justifico assim qualquer erro de coesão, ou data que posso ter deixado sem revisão no texto, ou ainda a estrutura bagunçada dos próximos capítulos. De fato, eu tinha uma estrutura mas precisei mudar algumas coisas.</p><p><strong>2. O direito do marido de matar a mulher e o que é a misoginia</strong></p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/586/1*NSYl3pWsl8aLMbGYyC1ISw.png" /><figcaption>“licitamente poderá o homem casado matar sua mulher…”</figcaption></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1000/1*NS3ihtwmnxGZ1Lh47r2t-w.avif" /><figcaption>“fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser.”</figcaption></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/830/1*pxDnRP7HARGBoHvgt25V6Q.png" /><figcaption>“Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor. Vc contribui com carinho, atenção, amor e sexo”</figcaption></figure><p>De acordo com o PL, em sua justificativa, “misoginia é o sentimento de ódio, repulsa ou aversão às mulheres. É uma forma extrema e repugnante de machismo, que deprecia as mulheres e tudo que é considerado feminino, podendo manifestar-se de diversos modos.” É uma definição muito boa para uma justificativa de lei. Se eu fosse definir misoginia sozinha, eu diria de outra forma. Mas no fim e ao cabo, a misoginia é também um pensamento, uma ideologia; Uma maneira de entender o feminino e a mulher. Assim como diversas opressões históricas. Para entender a misoginia e qualquer opressão acho mais fácil entender primeiro o conceito de preconceito.</p><p>O preconceito é de fato o pensamento. Desde Aristóteles (384–322 AEC), a mulher é vista como o não-homem, aquela que não é homem. No sentido de que se o homem é valoroso, a mulher é a negação dele. Nessa forma de pensar, a mulher é um animal incompleto. Para Tomás de Aquino (1225–1274), a mulher é um homem imperfeito. E por isso sua natureza seria justificada para servir ao homem. Ainda no começo da Idade Moderna (1550–1700), no casamento, o corpo da mulher pertencia ao marido. No contexto da Revolução Francesa, quando é declarado os direitos do homens e do cidadão isso queria dizer direitos dos homens apenas, as mulheres estavam fora, assim como os imigrantes. A partir desse preconceito milenar, vai se criando pensamentos variados nessa mesma base. Essas ideias se disseminam, quando se estuda filosofia e qualquer outra ciência, em qual época se toma um livro de uma mulher pra ler? Como vimos, não era por falta de desejo das mulheres, mas por repressão patriarcal. Assim, se hierarquiza a mulher e o feminino em relação ao seu oposto. Separa-se as funções: ao homem a vida política, a mulher a vida doméstica, etc. Ao homem o direito da família, à mulher o dever de ser a família de um homem. Essa ideologia predomina desde muito tempo na maioria das sociedades. A partir desses pensamentos as pessoas agem. Se você acredita que a mulher é sua pra dominar, e se ela te desobedece, você se sente no direito de agredi-la. Acusado de ter matado a esposa com um tiro na cabeça, o tenente-coronel da PM Geraldo Leite em 2026, Brasil, respondia a esposa, também PM, Gisele Alves assim, “eu te trato <em>como todo homem</em> macho alfa trata sua esposa Com amor, carinho, atenção e <em>autoridade de Macho</em> Alfa provedor e <em>fêmea beta obediente e submissa</em>. <em>Como toda mulher casada deve ser</em>.” E se a maioria das pessoas concordam com isso, não existe repressão suficiente dessa prática para extinguí-la, principalmente porque os cargos de poder do Estado ainda estão lotados por pessoas misóginas. A mulher aprende isso desde criança, se na escola o professor dela fica tocando as coxas dela e ela reclama, a escola misógina vai proteger o professor; se a aluna na escola é chamada de piranha e reclama com a inspetora, a inspetora misógina vai questionar o short da aluna; grupos vulnerabilizados entendem desde muito cedo que estão num labirinto, quase toda tentativa de pedir ajuda é censurada, questionada e impedida de seguir. O direito nada mais é que decisão. Quem têm poder de decidir que um marido pode matar sua mulher e não ser preso pois o marido tem direito a sua honra? Quem estão decidindo que não vão atacar esse homem que matou sua mulher porque ela o traiu? Quem estão decidindo se vai colocar a polícia atrás desse homem que matou a mulher porque ela o chifrou? Ora, a quem pertence historicamente o direito? — E para além da decisão de julgar formalmente, cadê a decisão da sociedade de se indignar?Se um time de futebol perde um semi-final de campeonato, na mesma madrugada centenas de homens se revoltam e faltam o trabalho pra estar na sede do clube e pedir demissão de quem julgarem responsável e até agredir quem fez o time perder. Mas, quando mulheres são sem qualquer dúvida assassinadas quais homens se revoltam e quais se dispõe a somar nos movimentos feministas pedindo por justiça? Talvez o que não te incomoda seja o que você aceita. — De outro modo, a quem pertence historicamente as decisões? Homens decidindo o que fazer com outros homens e outras mulheres. Por isso é fundamental para o patriarcado manter a mulher fora do direito, fora do poder de decisão, fora da política. Esses pensamentos também são ensinados às meninas. Então, muitas mulheres desde crianças passam a crer que o lugar delas é de submissão se não ao homem, ao menos, do seu marido. E a sociedade vai te fazer entender isso, a mulher que é mãe é valorizada, a mulher que não é mãe é acusada de não ser mulher por completo. A mulher que cuida, faz papa e lava roupa do marido é glorificada, a mulher que decide não ter filhos e seguir carreira profissional é desvalorizada. O valor do homem está em submeter outras pessoas, por isso os meninos são desencorajados a serem delicados e gentis, não brincam de comidinha nem de bonecas; enquanto o valor do mulher na sociedade machista está na sua capacidade de ter filhos, cuidar e acolher. E como disse recentemente a atriz e ativista Jameela Jamil, os meninos são criados para não serem meninas. Por isso quando numa sociedade misógina se entrevista homens e se pergunta, me fala 3 mulheres que você admira, eles pensam pensam e dizem minha mãe e minha esposa. Mulheres artistas não tem valor, mulheres atletas não tem valor, mulheres cientistas nenhum valor, mulheres filósofas nenhum valor, ora, <em>essas mulheres não cuidam deles e nem têm os filhos deles</em>. Quando depois de 18 anos inteiros de vida, você não consegue pensar em 3 mulheres que você admira para além da sua mãe e esposa fica claro as qualidades esperadas e incentivadas nas mulheres. Desse modo, temos diversas sociedades que baseiam sua justiça, suas leis e sua administração normativa e social em ideias baseadas na submissão das mulheres, a isto chamamos misoginia, ou sexismo. É assim que eu costumo explicar; é uma maneira de explicar. Mas como explicar e definir isso de modo mais simples?</p><p>A misoginia é a repressão histórica às mulheres e ao feminino que rebaixa a mulher em relação ao homem. Essa é uma forma de definição, uma que me veio agora. É completa? Não. É possível criminalizar essa misoginia? Sim. Da mesma maneira como fez a lei Caó. A lei Caó define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. E em algum momento definirá os crimes que resultam de preconceito de misoginia. Logo, toda <em>ideia exteriorizada</em>, isto é, <em>que resultar em ato discriminatório negativo</em>, que for processada como misógina será interpretada com base no conhecimento de misoginia. E assim caberá a interpretação da Justiça. A preocupação dos misóginos têm sido, ué, mas é minha opinião, é assim que eu vejo, eu fui criado assim, eu penso assim e não vou mudar, mulher com barriga de fora é rapariga. Sim, não há qualquer dúvida de que sua visão de mundo é misógina. E se você ficar calado, a lei ainda não vai te punir. Existe um princípio do Direito Penal brasileiro que será tratado em capítulo posterior chamado Princípio da Ofensividade, uma de suas implicações é a exteriorização do fato. Dito de outro modo, nunca foi mais apropriado seguir aquela máxima: <em>um machista calado é um poeta</em>. Daí, a preocupação seguinte se torna: então vão tirar minha liberdade de expressão, eu não vou poder mais falar. Sim, é justamente esse o dever da lei penal proteger que os bens jurídicos, pessoas por exemplo, não sejam ofendidos, lesados. Mais uma vez, se você ainda não sabe dizer qualquer coisa que defina a mulher como histérica ou submissa pela sua condição natural, o direito penal visa justamente excluir as ofensas da sociedade, se a sua fala é ofensiva e incentiva outras pessoas a defenderem que a mulher deve ser discriminada negativamente seja porque ela está de topless ou seja porque ela não quer ficar com você, a sua liberdade de fala será encerrada quando misógina e apenada. As chateações não param: então, eu não vou poder mais falar com as mulheres. Sim, se toda vez que você falar com uma mulher você tiver dúvida se está sendo misógino, estude antes de falar. Ué, então, se for assim, eu não posso mais chamar uma mulher de piranha sendo que muitas mulheres elas mesmas dizem que são piranhas? Talvez seja assim. A palavra piranha em si não configura misoginia. Diversas mulheres se denominam piranhas de maneira orgulhosa, do mesmo modo como acontece com a palavra gay, viado, trans, negra, preta. Chamar alguém de viado não é sempre homofobia. Chamar alguém de preto não é sempre racismo. No entanto, esse é o saber passado pras crianças e adolescentes na maioria das escolas. Quando converso com minhas turmas do 2º ao 9º ano e pergunto, o que é o racismo, a metade da turma fala com convicção, é chamar alguém de preto. E sinto que se eu não explicar, quase ninguém mais faz isso. Quase sempre dou este exemplo: ano passado, em outro apartamento que eu alugava, nossas vizinhas era uma família negra. E quando no sábado eu estava em casa, eu sentia o cheiro do café sendo preparado ao lado e em seguida a avó chamando a neta, ela dizia assim, minha preta, vem cá, vem cá, minha pretinha. Isso é racismo? Pergunto na sala de aula. É uma tragédia que as escolas não estejam formando as crianças para entenderem o que de fato é o racismo. Claramente, a palavra preta não carrega em si o racismo, apesar de ter sido e ser usada para praticar racismo. O mesmo se dá com a misoginia diariamente nas escolas de ensino básico. Meninos aprendem logo cedo um monte de merda misógina, é menino apostando beijo em menina sem pedir a menina, é menino ofendendo meninas e outros meninos de ‘menininha!’, é menino dizendo que não vai jogar futebol se tiver menina no time, é menino dizendo que lugar de mulher é dentro de casa, e por aí vai. A palavra mulher, mulherzinha, menininha, filho da puta, é usada comumente pela sociedade brasileira para ofender, ela expressa uma ideia, ser mulher é menos, esse lugar aqui é pra sujeito homem, não é pra mulherzinha. Logo, o conceito de misoginia no PL não é um problema, tal como o conceito de racismo na lei não é um problema. A Justiça poderá ser o problema de acordo com a sua interpretação. Mas isso sempre foi inevitável, e quando é pra matar indígenas, pretas e pretos, pobres e faveladas, povos ciganos, não é uma preocupação geral da sociedade brasileira. Basta o apresentador da TV dizer que aquele preta baleada saindo da casa dos pais era bandida, que a sociedade não se preocupa assim com o devido processo legal, com a interpretação da lei. Meses atrás um desembargador determinou que uma menina estuprada pelo pai constituia núcleo familiar. A decisão foi revista porque teve revolta popular, especialmente dos movimentos de mulheres. A PM Gisele Alves Santana está morta. O marido também PM Geraldo Leite Neto é suspeito. Está sob investigação. Estamos falando de um possível caso de feminicídio. É impossível determinar que a Justiça não vá falhar em sua sentença, em sua decisão. E deve-se considerar que na própria lei como já foi colocado aqui existe artigos que deixam claro como interpretar. E sim, chamar uma mulher de mulher dependendo do tom e do lugar pode ser misoginia. E sim, dizer que uma mulher está irritada porque está de tpm pode ser misoginia dependendo do tom e do lugar, de como isso é veiculado, se isso incita aversão, crimes de ódio, e como já está expresso claramente na lei. Uma mulher pode dizer de si mesma que está irritada porque está de tpm, assim como por vários outros motivos, como estar gripada, com dor de dente, não ser valorizada no trabalho e em casa; mas não pode, por exemplo, um juíz questionar se a mulher em audiência que foi agredida pelo marido se ela não falou alguma coisa nervosa porque estava de tpm, como é o caso de vários juízes. Então, é isso, os machistas que mudem ou tomem cuidado com o que dizem.</p><p><strong>3. O debate</strong></p><p>A proposta de lei já está fazendo um efeito muito positivo na sociedade brasileira: a discussão sobre misoginia. E isso é um tema que não deveria sair do debate até que a misoginia tivesse fim. Eu nunca vi tanta gente, principalmente homens, pronunciando tantas vezes a palavra misoginia. Eu até sorrio com isso. Por mais que grande parte dos homens esteja falando misoginia para demonstrar preocupação se agora vai ser preso, a palavra misoginia está circulando. E isso é importante para o feminismo. Porque os próprios homens estão sendo forçados a se questionar, mesmo que com as perguntas mais imbecis, uma vez que em nenhum outro momento de suas vidas, eles tiveram que se questionar e pensar sobre o tema. Por isso as perguntas sobre pode falar que tá de tpm, e sei lá mais quais — porque eu esqueço essas merdas que falam — estão sendo questionadas a exaustão.</p><p>Os homens perguntarem se suas misoginias são misoginias é fundamental para começar a pensar o que é misoginia. Ainda que essa pergunta surja como uma preocupação de não estar cometendo crime, e não por preocupação em ofender mulheres. O que demonstra que a lei pode até inibir, fazer essas falas se esconderem, mas que para mudar de fato, no fundo, é necessário mais que a lei penal.</p><p>As partes 4, 5, e 6 deste ensaio ficarão pendentes para uma próxima publicação. Devido ao tempo que tenho. O capítulo 4, de forma breve, eu já coloquei aqui, mas talvez eu sinta que é necessário um aprofundamento maior. O capítulo 7 também será publicado em forma de rascunho. E posteriormente vou atualizando.</p><p><strong>4. Uma breve história do direito das mulheres no Brasil e o porque a misandria não existe</strong></p><p>[usar folha que usei na Regional 4]</p><p>[analogias racismo injuria, racismo reverso decisao STF, jurisprudencia e casos penais do crime de racismo]</p><p><strong>5. Quando a linguagem de amor é misógina</strong></p><p>[…]</p><p><strong>6. A misoginia como lucro</strong></p><p>[…]</p><p><strong>7. Como será no Brasil?</strong></p><p>Da redação do portal Migalhas, recorro pra abordar um caso interessante pra considerar como deve ser a judicialização dos processos de misoginia e injúria misógina no Brasil. A notícia do Migalhas é: <a href="https://www.migalhas.com.br/quentes/432254/stj-restabelece-condenacao-por-injuria-mesmo-com-reu-bebado-e-exaltado">STJ restabelece condenação por injúria mesmo com réu bêbado e exaltado</a>.</p><blockquote>“A 5ª turma do STJ restabeleceu, por unanimidade, a condenação de um homem pelo crime de injúria racial, ao concluir que a embriaguez voluntária e os ânimos exaltados não são suficientes para afastar o dolo específico exigido para a caracterização do delito.</blockquote><blockquote>O caso envolve uma ação penal movida contra um homem que, em Divinópolis/MG, após furtar o celular do padrasto, invadiu uma residência armado com faca, ameaçou os familiares e os coagiu a lhe entregar dinheiro. Segundo o MP/MG, o acusado também proferiu ofensas racistas contra o cunhado, chamando-o de “macaco”, “crioulo” e “pau de fumo”.</blockquote><blockquote>O juízo de 1ª instância condenou o homem a dez anos e sete meses de prisão em regime fechado pelos crimes de furto, extorsão e injúria racial. No entanto, o TJ/MG, por maioria, afastou a condenação por injúria racial, entendendo que as ofensas ocorreram de forma impulsiva, em contexto de revolta e perturbação emocional gerada pelo uso abusivo de álcool.</blockquote><blockquote>O MP/MG recorreu ao STJ sustentando que houve dolo específico, uma vez que o homem teria demonstrado a intenção de ofender a dignidade da vítima em razão da cor de sua pele.”</blockquote><p>Quando vamos para os autos, lemos o seguinte:</p><blockquote>“REGIME PRISIONAL IMPOSTO. — Se a prova dos autos, em seu conjunto, evidencia a prática de crimes de furto e extorsão, é de se manter a sentença recorrida, que condenou o ora apelante como incurso nas sanções dos arts. 155 e 158, do Código Penal. — Já no tocante ao crime de injúria racial, havendo a possibilidade de ter agido o recorrente sem a intenção, consciência e vontade de injuriar a vítima (dolo), impõe-se a sua absolvição, com fulcro no art. 386, inciso III, do Código de Processo Penal. — Afasta-se o pedido de fixação das penas nos mínimos previstos, porquanto tratar-se de réu que ostenta péssimos antecedentes criminais, sendo inclusive reincidente.”</blockquote><blockquote>“A sentença condenatória destacou o seguinte (e-STJ fl. 268): “A materialidade ficou demonstrada, não através de laudos periciais, mas no decorrer do processo e das investigações, ficando comprovada a prática delitiva. Passo à análise da autoria. O acusado negou a imputação em Juízo, dizendo que não xingou a vítima e sequer conversou com ela. Acrescentou que <strong>realmente possuía uma tatuagem de uma cruz suástica em um dos dedos de sua mão.</strong> O ofendido, por sua vez, declarou que, além de ameaçado por Simão, também foi por ele ofendido com palavras como: “macaco, crioulo e pau de fumo”. Em Juízo, confirmou o depoimento acima, asseverando que as ofensas lhe causaram constrangimento e que já sabia que Simão tinha o hábito racista, eis que a sua esposa lhe contou que <strong>ele possuía uma tatuagem nazista no dedo</strong>.”</blockquote><p>O Tribunal:</p><blockquote>o Tribunal a quo se pronunciou nos seguintes termos (e-STJ fls. 386–387): “Concernente, porém, ao delito de injúria racial, em que pese existirem provas das ofensas irrogadas pelo sentenciado, o qual teria constrangido o seu padrasto, J. G. D., chamando-o de “macaco, crioulo e pau de fumo”, verificase que tais adjetivos (palavras ultrajantes) foram por ele <strong>pronunciados de forma impulsiva</strong>, durante <strong>inequívoco contexto de revolta</strong>, agravado pelo estado de perturbação psíquica, <strong>em razão do uso abusivo de substância entorpecente</strong>. E não há dúvidas de que <strong>o teor das ofensas seja de fato reprovável</strong>. <strong>Contudo, interpretá-las fora do contexto em que verbalizadas</strong>, acabaria comprometendo <strong>a análise de culpabilidade do agente</strong>, que <strong>aparentemente é dependente químico e, ao que tudo indica, agiu sob os efeitos de droga</strong>.</blockquote><blockquote>o seguinte trecho do parecer do Ministério Público Federal carreado aos autos (e-STJ fls. 492–493): “(…) ao contrário do que foi defendido pelo Tribunal, <strong>não consta nos autos qualquer referência a processo de interdição judicial, declarando a inimputabilidade do Agravado</strong>, prova disso é que <strong>o Tribunal de origem manteve sua condenação pelos demais crimes de furto e extorsão</strong>, <strong>atestando por conseguinte sua plena capacidade mental em face das condutas que perpetrou</strong>, inclusive quanto ao delito de injúria racial, pois restou demonstrado nos autos que o Agravado também possuía plena consciência da natureza injuriosa das palavras que escolheu para proferir em desfavor do seu padrasto, dotadas de <strong>nítido caráter depreciativo à raça da vítima, ocasião, ao revés, em que poderia ter optado por propalar qualquer outra palavra para expressar seu descontentamento, que não de natureza racial</strong>.”</blockquote><p>STF* injúria -, é necessária a presença do elemento subjetivo do tipo, consistente no dolo específico, que é a intenção de ofender a honra alheia.</p><p>“Para o historiador Luiz Antonio Simas, os obstáculos não existem por acaso.</p><blockquote>— O sistema judicial historicamente incrimina negros e indígenas. Como podem confiar na punição do racismo por esse mesmo sistema judicial? A polícia e as instituições de combate ao crime historicamente são estruturas de reprodução do racismo — avalia o historiador. — Além disso, não há só o racismo explicitado em lei. Há o racismo estrutural e epistemológico que atua na desqualificação dos bens simbólicos, religiosos e culturais de negros e índios. Muitas vezes é difícil encontrar uma brecha legal para punir esse tipo de racismo.”</blockquote><p><strong>8. Esclarecimento sobre generalizações neste ensaio</strong></p><p>É sério que ainda é necessário alguma explicação da minha parte porque podemos e devemos generalizar os homens como misóginos, a Justiça e o Estado brasileiro como racista? Para não deixar margens, vamos lá. Quando o Estado brasileiro decidiu manter e mantém por mais de 500 anos atitudes escravigistas, racistas, patriarcais, misóginas, todas essas decisões do Brasil colônia, império, república, por mais que tenham sido tomadas por certas pessoas, é o Estado brasileiro quem responde. O mesmo é com o Brasil, com os homens brasileiros. Considerando todos os pontos que percorri, que a nossa educação familiar e escolar é sexista, e na escola muito pouco é esclarecido ou combatido, pior, muitas vezes é incentivado, entendemos que o caminho normativo mais comum pela hegemonia, pela maioria formada no Brasil é que todas as pessoas muito mais facilmente desenvolvam ideias que inferiorizam as mulheres, que as posicionarão em lugar inferior ao do homem. Assim é com todas as opressões. É claro que tem um homem ou outro que consegue se desvencilhar dessas ideias, mas o machismo pelo que se constata é a ampla maioria dos homens, e estão organizados. Falam abertamente em quase todos os espaços sobre a mulher como objeto, dos espaços formais a informais se sentem descensurados a se expressar, seja num tribunal, no trabalho, em casa ou na mesa de um boteco. Culturalmente, é fácil de entender as razões. Até hoje de manhã quando verifiquei, o Estado brasileiro normatizava diversas inferiorizações da mulher em relação ao homem, o que naturaliza a ideia de que a vida natural é assim mesmo.</p><p><strong>9. É hora de estarmos nas ruas</strong></p><p>Enquanto nos entendermos como grupo oprimido será momento de estarmos nas ruas manisfestando nossa posição para a sociedade. Não é possível esperar que a maioria das pessoas desenvolvam a consciência feminista, porque quando isso acontecer não seremos mais tão dependentes das leis penais. Eu, participante do coletivo feminista Combativas aqui no Rio de Janeiro, chamo para os atos nacionais do Levante Mulheres Vivas no dia 25/04/2026, em diversos municípios. <strong>Na cidade do Rio de Janeiro, nós do Combativas nos somamos ao Levante para ato no Aterro do Flamengo, posto 0, às 10 horas.</strong></p><p>Nosso coletivo feminista Combativas também está no instagram. combativascoletivo. E eu, Arrapha, também escrevo sobre política no substack professoranamira.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/945/1*gwc6rQtnMWEZztS826dUnw.jpeg" /></figure><p><strong>10. Referências</strong></p><p>WESTIN, Ricardo. Brasil criou 1ª lei antirracismo após hotel em SP negar hospedagem a dançarina negra americana. Agência Senado, 6 jul. 2020. Disponível em: <a href="https://www12.senado.leg.br/noticias/especiais/arquivo-s/brasil-criou-1a-lei-antirracismo-apos-hotel-em-sp-negar-hospedagem-a-dancarina-negra-americana">[link da fonte]</a>. Acesso em: 21 abr. 2026.</p><p>MOREIRA, Rômulo de Andrade. [Título do artigo do Jornal GGN]. Jornal GGN, 5 jan. 2022. Disponível em: <a href="https://jornalggn.com.br/memoria/os-33-anos-da-lei-cao-por-romulo-de-andrade-moreira/#_ftn7">[link da fonte]</a>. Acesso em: 21 abr. 2026.</p><p>GELEDÉS INSTITUTO DA MULHER NEGRA. Os 33 anos da lei Caó. Portal Geledés, [s.d.]. Disponível em: [<a href="https://www.geledes.org.br/os-33-anos-da-lei-cao/#:~:text=Hoje%2C%20dia%205%2C%20faz%2033,de%20ra%C3%A7a%20ou%20de%20cor.">link da fonte</a>]. Acesso em: 21 abr. 2026.</p><p>HELAL FILHO, William. Dia Contra a Discriminação Racial: Dez reportagens sobre casos de racismo desde 1988. [Nome do Veículo, ex: O Globo], 21 mar. 2019. Disponível em: [<a href="https://blogs.oglobo.globo.com/blog-do-acervo/post/dia-contra-discriminacao-racial-dez-reportagens-sobre-casos-de-racismo-desde-1988.html">link da fonte</a>]. Acesso em: 21 abr. 2026.</p><p>BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Racismo reverso: STJ afasta injúria racial contra pessoa branca em razão da cor da pele. Brasília, DF: STJ, 4 fev. 2025. Disponível em: <a href="https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/2025/04022025-Racismo-reverso-STJ-afasta-injuria-racial-contra-pessoa-branca-em-razao-da-cor-da-pele.aspx.">https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/2025/04022025-Racismo-reverso-STJ-afasta-injuria-racial-contra-pessoa-branca-em-razao-da-cor-da-pele.aspx.</a> Acesso em: 21 abr. 2026.</p><p>MIGALHAS. STJ restabelece condenação por injúria mesmo com réu bêbado e exaltado. Portal Migalhas, 2025. Disponível em: <a href="https://www.migalhas.com.br/quentes/432254/stj-restabelece-condenacao-por-injuria-mesmo-com-reu-bebado-e-exaltado.">https://www.migalhas.com.br/quentes/432254/stj-restabelece-condenacao-por-injuria-mesmo-com-reu-bebado-e-exaltado.</a> Acesso em: 21 abr. 2026.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=c77a4596195d" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[pequeno desabafo de uma professora no final de 2025]]></title>
            <link>https://medium.com/@atrava/pequeno-desabafo-de-uma-professora-no-final-de-2025-56b515dda5ce?source=rss-6fe6179f4433------2</link>
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            <dc:creator><![CDATA[aTrava]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 30 Dec 2025 13:41:11 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-12-30T19:13:08.459Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*foi5_nzqmYaWHzpHhX5zmA.jpeg" /></figure><p>quando eu passei no concurso<br>a prefeitura me levou pra um lugar<br>segundo ela essencial para o ínicio das minhas atividades,<br>a Escola Paulo Freire.<br>lá enquanto enfatizam o quanto especial nós somos,<br>na sala ao lado planejam nossa desvalorização.<br>depois somos colocadas pra escolher nossa escola<br>num lugar chamado Coordenaria Regional,<br>sequer bom dia alguém de lá sabe falar.<br>quando de fato entro na escola enquanto professora<br>descubro que existe um grupo que não é secreto<br>muitíssimo organizado e que me assusta dizendo me,<br>você tá chegando agora,<br>um dia você vai estar aqui do nosso lado,<br>sem esperança alguma.<br>é isso, jovem<br>não há o que fazer.</p><p>são 5 anos de magistério<br>exclusivo na rede pública da cidade do Rio de Janeiro,<br>a cidade maravilhosa.<br>Professora, um professor pode<br>forçar a gente a rezar antes da prova?<br>Professora, não, ele não fala nada<br>só escreve no quadro todo<br>e manda a gente copiar<br>Professora, a inspetora disse<br>o bonitinha, ele não mexeria com você<br>se você não estivesse com esse shortinho<br>Não, tia, ela não deixa a gente nem falar<br>a gente tá copiando aqui desde cedo<br>Dá um tempo livre pra gente,<br>por favor<br>O café da manhã hoje de novo<br>só café com leite<br>um dedo de carne no almoço.</p><p>de tempos em tempos nos reunimos<br>somente professoras<br>para dar nossa opinião fundamentada<br>sobre cada aluna.<br>esse é o viadinho da turma;<br>se não cuidar vai pro crime;<br>gente, ele tá no 8º ano<br>não sabe escrever<br>ele tinha que nem ter saído do 5º ano<br>mas passaram ele o que eu faço;<br>e então a coordenadora chega numa turma de 7º ano<br>passa pelo nome de uma aluna<br>uma criança<br>e explica que a menina está cheia de faltas<br>porque está gestante.<br>o professor de ciências coloca sua opinião<br>de modo que todas na sala tenham ciência:<br>quem foi o são jorge<br>que enfrentou esse dragão?<br>e riu.<br>todas e todos em silêncio.<br>todo ano a escola faz trabalhinho<br>com cartazes e mural visando a valorização das mulheres.<br>quando eu questionei a coordenadora a idade da aluna,<br>depois de 3 vezes que perguntei, ela me disse, 14<br>o professor de ciências explicou que foi consensual.<br>em Fevereiro e Março, quando estava extremamente calor<br>os cadernos ficavam molhados<br>de suor com a marca da mão,<br>lembro que quando eu sentia tontura<br>as crianças confirmavam o mesmo sintoma.<br>a direção quando procurada<br>me disse várias e várias vezes<br>na minha época era pior<br>eles tem que aprender o contéudo<br>você tá dando o contéudo, professora?<br>Cala a boca<br>ela me mandou calar a boca, tia<br>não gostei da forma como a professora falou comigo.<br>William, porque você não tá na educação física?<br>ah, o professor me proibiu, resmungou com indignação<br>e o que você tá fazendo nesse caderno?<br>a professora mandou eu escrever meu nome todo<br>nas duas folhas.<br>Queria falar com você sobre o Pedro Henrique<br>da turma 1201<br>ele outro dia reclamou que tão fazendo racismo com ele<br>eu conversei com ele 10 minutos<br>separadamente só eu e ele —<br>foi o que deu, eu falava pra mim mesma,<br>eu ouvia o ponteiro do relógio<br>me apressando, você está sobrecarregando outra professora<br>você já devia estar em sala com turma,<br>mas eu não quis dizer ao Pedro<br>Pedro, o prefeito tirou meu tempo de te ouvir,<br>infelizmente eu só tenho planejamento daqui a 3 dias.<br>eu ouvia o ponteiro, o prefeito, e o Pedro,<br>mas só o Pedro só — <br>ele tava cabisbaixo,<br>me parecia envergonhado da sua cor de pele<br>quando disse, tia,<br>eu nasci branco, sabe, mas depois eu fui ficando assim.<br>não pronunciou a palavra.<br>Então eu pensei da próxima aula falar sobre isso.<br>Mas, olha, professora, ele também não é santo.<br>Fica chamando o João Miguel de leite azedo<br>e depois não quer ouvir<br>Professora, você vai aprovar o Pedro?<br>O Pedro Lucas<br>Vou, eu não vou reprovar ninguém.<br>Mas você sabe que ele vai pro 6º ano<br>sem saber juntar sílabas e ler uma palavra inteira.<br>É<br>mas não é culpa minha, a família também tem <br>tem que fazer a parte dela.<br>e vamos então vir com as nossas roupas mais bonitas<br>na cerimônia de formatura<br>enviando uma dezena de alunas e alunos que não sabem ler<br>para os anos finais.<br>as mães e pais orgulhosas<br>os governos trabalhando noite e dia<br>para que as profissões recebam cada vez menos<br>para que deixem de ser empregadas e sejam empresas<br>por isso vão até estudar empreendedorismo no Ensino Médio<br>e descobrir como gerir a si mesma<br>no dia que forem buscar cidadania não mais como cidadã<br>mais como pessoa jurídica<br>Concurso pra advogada, 30 horas, R$3.500<br>Concurso pra psicóloga, 40 horas, R$ 3.500<br>Prefeito da cidade, não diz as horas na descrição, R$35.000<br>Agora, prestem bem atenção em mim!<br>Isso não é uma brincadeira!<br>falo já sentindo as lágrimas encherem meus olhos.<br>A gente vai deixar o material aqui, esquece o material<br>o importante é vocês<br>Vamos descer agaixados e lá em baixo vamos nos deitar no chão<br>Escutem suas professoras<br>por favor.<br>3 horas de rajada de fuzil no ouvido.<br>Não tem como saber o que é<br>o terror de centenas de crianças<br>sem qualquer segurança constitucional garantida<br>chorando em desespero<br>perguntando se a mãe<br>que é entregadora e trabalha na rua<br>vai ficar bem<br>perguntando se o passarinho Jorge<br>que viu seu vizinho de gaiola morrer<br>quando outra vez teve operação<br>vai ficar vivo dessa vez.<br>Um dia, este ano de 2025<br>um aluno<br>de 12 anos, se não me engano<br>foi baleado dentro da escola<br>enquanto começava uma operação policial.<br>Trataram logo de procurar a culpada<br>pelo disparo da bala que cruzou a perna da criança,<br>ou adolescente se quisermos tirar um pouco de piedade do indíviduo<br>a primeira culpada foi a professora<br>porque a professora estava na quadra<br>quando ouviu o águia efetuar os disparos?<br>o prefeito não deu uma palavra<br>o secretário disse que graças a deus<br>graças a deus a criança baleada está bem.<br>sou eu quem estou mal, sabe.<br>principalmente, porque no dia seguinte<br>no dia seguinte todas as trabalhadoras da escola<br>caminhavam normalmente<br>tomavam seu café normalmente<br>sorriam e falavam coisas bobas da vida.<br>eu acho que a criança baleada realmente estava muito bem.<br>eu que sou exagerada.<br>infelizmente, é a realidade, professora.<br>ouvi isso no primeiro dia que entrei numa sala de professoras<br>5 anos atrás.<br>ouvi isso em cada formação na Escola Paulo Freire.<br>ouvi isso no dia seguinte da criança que está muito bem<br>ser baleada dentro da escola.<br>É isso e não há nada que possa fazer, professora.<br>ouvia isso enquanto via a equipe de pedreiros<br>chegar pra tapar as marcas de tiro das salas.<br>Hoje deveria ser um dia de alegria, professora,<br>me dizia outra professora,<br>de alegria pra todos nós<br>por conta da nossa tão sonhada premiação<br>do 14º, sabe<br>Veja, a indignação sem objetivo não nos leva adiante.<br>Precisamos transformar, professora,<br>transformar essa indignação em combustível<br>combustível para continuar acreditando<br>que é possível<br>o 14º<br>É bem verdade que o prefeito tem se mostrado<br>irredutível, professora<br>Mas também existem pessoas que acreditam<br>acreditam na causa<br>do 14º<br>e estão dispostas a ajudar<br>com o 14º<br>Vamos continuar tentando<br>com todos os nossos esforços<br>juntas juntes e juntos<br>uma reunião<br>uma reunião com o secretário<br>com o prefeito seria o nosso sonho<br>eles vão ter que nos ouvir<br>nem que a gente lote aquela prefeitura<br>a tv mostrará a todas as pessoas<br>que estamos arrependidas<br>que não fizemos por mal<br>que não sabiamos o que fizemos<br>que o sindicato nos enganou<br>quando fizemos nossa histórica greve de 1 dia!<br>Como dizia o patrono da educação brasileira,<br>lembre-se, professora,<br>vamos esperançar!<br>O 14º vai ser nosso!<br>1 dia de anistia já!<br>Errar não é crime!<br>Greve sim!</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=56b515dda5ce" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[O racismo é um privilégio branco]]></title>
            <link>https://medium.com/@atrava/o-racismo-%C3%A9-um-privil%C3%A9gio-branco-1acb9d996c4e?source=rss-6fe6179f4433------2</link>
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            <dc:creator><![CDATA[aTrava]]></dc:creator>
            <pubDate>Sun, 30 Nov 2025 22:14:21 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-11-30T22:14:21.784Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/300/1*xHLzYXqexZCRFfqmh5tnJw.jpeg" /></figure><p>Dizer que alguém é uma sujeita histórica quer também dizer: toda indivídua carrega consigo as marcas feitas por ela mesma ou não do seu passado. Logo, minimamente, a família, o lugar e as condições desses 2 contextos são determinantes na realidade presente de toda gente.</p><p>Nesse sentido, eu entendo que o racismo só é uma violência porque ele reduziu certos tipos de pessoas à condição de propriedade, de não-humano, de não-cor, de não-sotaque, o racismo só é uma violência porque ele a partir desse pensamento que o fundamenta, violou não por 1 dia mas por séculos os direitos que certo tipo de pessoas sempre tiveram, o direito a família, o direito ao nome e sobrenome, o direito ao dinheiro e herança, o direito a terra, o direito a saúde, educação, lazer, e o direito a própria vida.</p><p>Eu tava com isso na cabeça desde que fui assistir a plenária do STF de 26/11/2025 do voto da adpf que trata sobre violação de direitos da população negra, e ouvi o Fux falar sobre o Brasil não ter uma estrutura voltada contra o negro. Fiquei puta de cara, não consegui assistir tudo numa só vez porque tive outros compromissos, mas depois terminei de assistir e entendi que Fux compreende o termo racismo estrutural com o termo racismo histórico. Em toda a sua argumentação ele expõe o quão fácil é observar o racismo, que sempre é estrutural, institucional e histórico. Não existe racismo sem história, não existe racismo sem instituições que asseguram o direito de ser racista contra certa raça, e por isso formam uma estrutura que pra quem é negra neste país já na primeira infância é sentida. Quando um policial é racista e prende um homem negro sem provas, esse homem negro vai reclamar de racismo onde? vai reclamar com a delegacia racista? vai recorrer a justiça racista? vai orar a um deus racista?</p><p>A palavra privilégio, é latina. Sua origem é privi-legium. ‘privi’ quer dizer particular, próprio, e, ‘legium’ quer dizer lei, regra, legislação. Certo tipo de pessoas no Brasil, não por 1 dia, mas, por séculos tiveram leis particulares, leis que davam direitos apenas a certo tipo de gente. As leis que permitiam comprar negras e negros não eram leis para negras e negros. Portanto, existe certo tipo de gente no Brasil que teve, não por 1 dia, não por 20 anos, nem por 100, mas por séculos muitos privilégios, isto é, leis só para elas, leis discriminatórias positivas, as tais das (discrimin)ações afirmativas, que davam vantagem via tratamento diferenciado em relação a certo tipo de gente no Brasil.</p><p>A <a href="https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l0601-1850.htm">lei 601 de 1850</a>, conhecida como Lei de Terras, na sua ementa expressa o seguinte: “Dispõe sobre as terras devolutas no Império, e acerca das que são possuídas por titulo de sesmaria sem preenchimento das condições legais. bem como por simples titulo de posse mansa e pacifica; e determina que, <em>medidas e demarcadas as primeiras, sejam elas cedidas a titulo oneroso, assim para empresas particulares</em>, como para o estabelecimento de colonias de nacionaes e de extrangeiros, autorizado o Governo a promover a colonisação extrangeira na forma que se declara.” De acordo com a jornalista Beatriz Santana, no <a href="https://vestibulares.estrategia.com/portal/materias/historia/6-leis-sobre-escravidao-sancionadas-antes-da-lei-aurea/">portal de estudos do curso Estratégia</a>, “A Lei de Terras determinou que só era permitido adquirir propriedades por compra, venda ou doação estatal. Sendo assim, a propriedade por usucapião — quando o ocupante de uma área passa a ser legalmente dono dela devido ao tempo em que ali esteve — estava abolida. A medida visava destinar a propriedade das terras apenas para os grandes senhores de terra, que lucravam com a escravidão, em detrimento dos negros e dos imigrantes que chegavam ao Brasil. Além disso, a Lei 601 possibilitou os latifúndios existentes até os dias de hoje, passados de pai para filho.” Aqui é muito relevante relembrar o primeiro parágrafo desse texto: a família e o lugar são condições determinantes na realidade presente de toda gente. Somos todas sujeitas históricas.</p><p>O portal Agência Pública tem um projeto muito interessante para o estudo do racismo estrutural ou institucional e os efeitos, as consequências, as marcas que uma prática escravocrata racista de séculos deixa na estrutura e nas instituições de um país. É o <a href="https://apublica.org/especial/projeto-escravizadores-investigacoes-sobre-escravidao-no-brasil/">Projeto Escravizadores</a>, procure. Segundo a investigação, “Metade dos presidentes brasileiros desde o fim da ditadura, quase metade dos atuais governadores dos estados brasileiros, e um quinto dos senadores do país em exercício têm antepassados diretos que teriam pessoas escravizadas, utilizaram mão de obra escravizada ou atuaram para conter revoltas de pessoas negras e pobres durante o Brasil colonial e no Império.” A pesquisa foi feita por Bianca Muniz, Leandro Aguiar, Pedro Ezequiel, Ricardo Oliveira (UFPR), Priscilla Cidral (UFPR), Sylvana Kelly Marques (UFPR) e Luiz Demétrio (UFPR) e a revisão histórica é de Patrícia Junqueira.</p><p>A pesquisa encontrou, por exemplo, que “o governador do Rio de Janeiro, <em>Cláudio Castro</em> (PL-RJ), é tataraneto do Tenente-Coronel Tomás Lourenço da Silva Castro, natural do Ceará, nascido em 1806 e falecido em 1881. Segundo registros, ele teria tido pessoas escravizadas. O Tenente-Coronel Tomás Lourenço da Silva Castro viveu entre 1806–1881.” Conforme o portal voz das comunidades declara, foi a gestão do tataraneto do Tenente-Coronel <em>Tomás Castro</em> quem marcou na história deste país dos privi-légios a chacina mais letal da história do Brasil no Complexo da Penha e Alemão que deixou mais de <em>120 mortos</em>. Em 2021, a operação anterior com mais mortes aconteceu no Jacarezinho, com 28 óbitos, também sob a mesma gestão de Cláudio Castro.</p><p>Que privi-légios são esses? O ministro do STF Luiz Fux no início da sua argumentação da adpf 973 diz que “não existe no Brasil uma estrutura voltada contra os negros”. Talvez não uma que tenha sido montada pela Constituição de 1988, mas o Brasil nasceu em 1988? Os efeitos, as línguas não faladas, as mortes, as separações familiares, as favelas, as consequências hoje de 3 séculos de todas as leis particulares para certo tipo de gente foram reparadas, indenizadas, compensadas? É possível compensar o genocídio? Existiu pós a Lei de Terras de 1850 alguma <em>legium</em> específica para todas as ex-escravizadas que pudessem reverter um quadro de 350 anos de todas as suas gerações? A Constituição Cidadã de 1988 tem algum artigo que reverteu as consequências de 3 séculos de legislação que deu privilégios mantidos até hoje por branquelos azedos?</p><p>O privi-légio o qual certo tipo de gente tem direito a polícia, juiz, terra e os meios de produção para escravizar outras ou torná-las suas trabalhadoras, enquanto certo tipo de gente tem a lei Feijó (1831), a lei Eusébio de Queirós (1850), a lei Nabuco de Araújo (1854), a lei do ventre livre (1871), a lei do sexagenário (1885), onde sexagenários libertos deveriam continuar morando com seus senhores e só poderiam mudar-se com a autorização de um juiz de órfãos. Esse é o mesmo lugar, mesmo país onde hoje, 2025, Sônia Maria de Jesus está na casa do desembargador Jorge Luiz de Borba. Talvez o privilégio da lei de cotas raciais (2012) já tenha resolvido toda essa merda destinando 20 a 30% de vagas em universidades, pra depois de 10 anos, 3 de residência médica, com salário de 5 mil, você não ter qualquer direito trabalhista ainda que trabalhe na rede D’Or do bilionário Jorge Moll, vai ficar caçando plantão em whatsapp e se você adoecer, atestado médico pra pj de cu é rola. Mais uma vez, temos que lembrar o que Paulo Freire dizia: todas nós somos sujeitas sócio-histórico política. E como coloquei no primeiro parágrafo destacando o histórico, geral sabe quem sem família tu se manter numa faculdade é uma odisséia.</p><p>No artigo <a href="https://www.geledes.org.br/nao-existe-racismo-fora-de-uma-relacao-de-poder-diz-jurista/?gad_source=1&amp;gad_campaignid=1495757196&amp;gbraid=0AAAAADnS6iC1n125E6sbSzOxvFbbDAd0p"><em>Não existe racismo fora de uma relação de poder</em></a> do portal geledés, o jurista Silvio de Almeida disse em entrevista que “o racismo é mais complexo do que um ato isolado de violência, um evento único. Ele é um processo histórico e político que cria um sistema em que alguns são beneficiados, e outros, prejudicados socialmente.” Está claro agora o sentido da palavra privilégio, de <em>privi-legium</em>? Afinal, eu apresentei muito muito brevemente um sistema de leis que beneficiou definitivamente certas pessoas a custa do prejúizo de outras. Por isso, leite azedo não está nem perto de racismo.</p><p>Na análise de Silvio de Almeida, “Não existe racismo que não seja estrutural. Ele é um mecanismo muito complexo que cria, de um lado, vulnerabilidade, e, de outro, poder. Não existe racismo fora de uma relação de poder. Ele depende de estruturas sociais para que a discriminação continue sendo sistêmica”.</p><p>Existem em torno de 300 bilionários no Brasil, e nenhum deles é negro ou negra, isso de acordo com a lista mais asquerosa do mundo, a lista Forbes. “Na última posição está Victor Civita Neto com patrimônio líquido de R$ 1 bi, é <em>herdeiro</em> de Roberto Civita (1936–2013), que deu continuidade à obra de Victor Civita (1907- 1990), fundador do grupo de comunicação Abril. A família tem um importante patrimônio imobiliário.” Importante pra quem? Outro bilionário de acordo com a mesma lista é Élvio Gurgel Rocha. A origem do seu patrimônio é das lojas Guararapes e Riachuelo. Ele é filho de Nevaldo Rocha (1928–2020), Élvio e seus irmão <em>herdaram</em> as ações do pai na Guararapes, maior empresa de moda do Brasil e dona da Riachuelo. Victor Civita nascido em 1907, Nevaldo Rocha nascido em 1928.</p><p>Se você nunca fez essa conta, eu faço aqui com você. Imagina que Jesus que nasceu bem no ano 0 da Era Comum, tivesse desde seu nascimento um salário de 10 mil reais. Ele se acha rico com esse salário, e consegue pagar suas contas com 6 mil reais ao mês. E junta desde seu nascimento 4 mil reais mensais. Se Jesus guarda 4 mil todo mês desde o seu nascimento até hoje 2025, ele tem hoje 97 milhões de reais. Jesus com 2025 anos de idade ainda tem menos dinheiro que Victor Civita Neto que deve estar hoje com 60 anos. E falta pouco mais de 902 milhões de reais (R$ 902.800.000) para Jesus chegar no seu primeiro bilhão. Mas, já com a fortuna de 97 milhões acumulada que Jesus tem, mantendo essa economia, Jesus alcançará 1 bilhão de reais no ano 20.833. Ele deve tá esperando chegar lá pra voltar. Pra deixar claro, num país onde o salário minímo em 2025 é 1.500 reais, pra alguem ser bilionário precisa haver muito privilégio branco escravocrata envolvido. E isso quer dizer roubo e exploração com toda a segurança que uma polícia e um tribunal pode lhe oferecer desde o tempo de lá vai cueca.</p><p>De acordo com a <a href="https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/rio-450-anos/noticia/2015/01/conheca-historia-da-1-favela-do-rio-criada-ha-quase-120-anos.html">reportagem de Janaína Carvalho</a>, do G1 Rio, “foi com a total abolição da escravatura que a cidade do Rio de Janeiro ficou cheia e sem ter moradias para todos. ‘Todos os escravos do Vale do Paraíba — 200 mil — invadem a cidade do Rio de Janeiro. Aqui eles não tinham onde morar, começam a surgir os primeiros mendigos e o conceito de multidão’, explica o historiador pra repórter. Em 1904, o governo tentou a primeira remoção da favela da Providência, frustrada por uma revolta popular batizada de ‘Revolta da Vacina’, onde muitos favelados participaram combatendo as tropas do governo. Depois disso, a situação se acalmou. O próprio governo percebeu que aquela população era fundamental como mão de obra barata para trabalhar na pedreira, nas obras públicas, no cais do porto e nas fábricas e usinas da região.”</p><p>Enquanto isso, “das origens familiares na burguesia italiana à crise da mídia impressa no início do século XXI” Roberto Civita (1936–2013), o dono da banca, papai do Victor Civita Neto, vai nascer e com mais dinheiro que Jesus. “No auge, seu império editorial — a Abril — teve 10 mil funcionários e mais de trezentos títulos. Workaholic, curioso, grande formador de talentos, homem de convicções fortes mas avesso a confrontos, Civita redefiniu o jornalismo no Brasil ao criar publicações como Veja e Realidade — e por influenciar os rumos do país e da sociedade por meio desses veículos.” E seu pai Victor Civita (1907–1990) foi um editor e empresário, naturalizado brasileiro, o fundador do Grupo Abril, uma das maiores empresas de comunicação da América Latina. Nasceu em Nova Iorque, no dia 9 de fevereiro de 1907. E vejam só, Victor Civita também é filho de papai empresário, o italiano Carlo Civita e de Vittoria. O casal teve três filhos, César (1905), e o Victor (1907), nascidos em Nova York e Artur nascido em Milão (1912). Em 1909 a família mudou-se para Milão na Itália. Victor Civita (1907–1990) em 1927 ganhou do papai uma passagem para os Estados Unidos e durante quase um ano, Victor percorre várias cidades, visitou fábricas e conheceu os costumes locais. Bom, qual o segredo do sucesso? Como Paulo Freire diz, e devemos todes redizer: família e lugar são determinantes para se tornar bilionário ou favelado. No caso de Victor Civita Neto, que tem pai empresário, avó empresário, bisavó empresário, sua condição no mundo enquanto sujeito histórico lhe troxe uma série de privilégios enquanto que para outras pessoas em 1904, menos de 20 anos da falsa abolição, as suas condições históricas de vir de famílias escravizadas lhes colocavam na favela da Providência, lutando pelo direito de não morar na rua, lutando contra o governo, contra o Estado. Em 1904 enquanto Victor Civita nasceria herdeiro, milhares de pessoas negras herdavam o que?</p><p>De 1904 pra cá, em termos de geração, não é muita coisa. Minha vó nasceu em 1935, minha mãe em 1964, eu em 1991. Minha vó não é negra, mas teria mãe indígena pelos relatos. E sendo branca não conseguiu desde lá juntar herança pra minha mãe. Minha vó cearense, migrou para o Rio de Janeiro forçosamente, pois era cotidianamente violentada pelo meu avô. Veio no exôdo nordestino pro sudeste. Pôde oferecer a minha mãe pequena um barraco de palafita na favela da maré, por volta de 1970, onde minha mãe conta com muita vivacidade quando chovia forte, ela via os ratos andar do lado dela. Minha mãe também não conseguiu me deixar muito mais que uma poupança de 15 mil reais que juntou durante 18 anos a qual ela precisou resgatar pra pagar dívida de condomínio, uma vez que ela está desempregada há quase 10 anos. Mas se tá difícil pra mim hoje que sou travesti branca professora concursada, imagina como seria se minha vó fosse negra em 1935, filha de ex-escravizada. Será que o patrão dela teria a mesma simpatia com uma mulher negra do que teve com a minha avó branca? Minha mãe me conta que em 1990, por mais de uma vez ela junta de suas amizades negras buscando emprego no centro do Rio, escutou que seus amigos negros teriam de subir os andares de escada, enquanto ela estava permitida ir de elevador. Fazia 2 anos desde a Constituição Cidadã de 1988.</p><p>Vou deixar esse texto como inacabado. E devo voltar com atualizações ou uma parte 2. Preciso trabalhar, não tenho pai, e minha mãe assim como eu é da classe trabalhadora. Escrever é resistência de manter a cabeça sã, o ori embrasado. Escrever não é privi-légio da classe trabalhadora.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=1acb9d996c4e" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Professora travesty: o mec permite?]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[aTrava]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 15 Mar 2022 20:59:24 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2022-03-26T17:41:44.901Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Professora travesty: o mec permite? Educação travesty, ministério da educação transfóbico e polarização eleitoral</strong></h3><iframe src="https://cdn.embedly.com/widgets/media.html?src=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fembed%2FBlSUHrmIKjM%3Ffeature%3Doembed&amp;display_name=YouTube&amp;url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DBlSUHrmIKjM&amp;image=https%3A%2F%2Fi.ytimg.com%2Fvi%2FBlSUHrmIKjM%2Fhqdefault.jpg&amp;key=a19fcc184b9711e1b4764040d3dc5c07&amp;type=text%2Fhtml&amp;schema=youtube" width="854" height="480" frameborder="0" scrolling="no"><a href="https://medium.com/media/728506ea8766a489e225b9f3691a236b/href">https://medium.com/media/728506ea8766a489e225b9f3691a236b/href</a></iframe><p>“não vou permitir isso/ isso é um compromisso do nosso presidente/ esse negócio de ensinar ‘ah, você nasceu homem pode ser mulher’/ respeito todas as orientações” “nós não vamos permitir que a educação brasileira vá por um caminho de tentar ensinar coisas erradas para as crianças/ coisa errada se aprende na rua/ dentro da escola a gente tem que aprender o que é bom, o correto, o civismo” São trechos das muitas coisas erradas que saíram da fala de mais ume desqualificade para a vaga de ministre da educação na quarta passada dia 9 de março de 2022.</p><p>O então atual ministro da educação Milton Ribeiro apresenta menos produção em seu currículo lattes do que ume universitárie do 2º ano de graduação. Segundo seu lattes, Milton Ribeiro tem um total de 1 (um) livro somado a 1 (uma) produção cultural. Segundo seu lattes, Milton Ribeiro tem um total de 0 (zero) artigos completos publicados em periódicos, 0 (zero) trabalhos publicados em anais de evento, 0 (zero) resumos publicados, 0 (zero) apresentações de trabalho, 0 (zero) trabalhos técnicos. Qualquer pessoa que já tenha se cadastrado na plataforma lattes, nota como é estranho um doutor com esses indicadores de produção. A efeito de comparação, basta ir na plataforma e digitar Fernando Haddad. No entanto, à lógica bolsonarista é completamente coerente, visto os outros ministros da educação que passaram vergonha a custo da nossa educação, visto que não precisa ter qualquer qualificação técnica na área para ser ministro da agenda bolsonaro.</p><p>“Possui graduação em Teologia — Seminário Presbiteriano do Sul (1981), graduação em Direito pelo Instituto Toledo de Ensino (1990), mestrado em Direito pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2001) e doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo (2006). Vice-presidente do Conselho Deliberativo do instituto Presbiteriano Mackenzie, entidade mantenedora da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atuou como reitor em exercício e vice reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Curso de aperfeiçoamento pelo CRUB (Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras) em Joplin USA, 2001. Atualmente é vice-relator da Comissão de Assuntos Educacionais do Mackenzie e Diretor Administrativo da Luz para o Caminho, instituição que cuida da área de mídias da Igreja Presbiteriana do Brasil. Também é membro do Conselho Deliberativo da Administração Geral da Santa Casa de Santos, instituição pública, como irmão mantenedor. Membro da Comissão de Ética da Presidência da República 2019. Residente do Conselho Deliberativo do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação, FNDE. Atualmente exerce cargo de Ministro de Estado da Educação desde julho 2020.” Essa é sua apresentação no lattes, texto informado pelo autor, Milton Ribeiro.</p><p>Milton Ribeiro doutor em educação pela universidade presbiteriana Mackenzie. Universidade que tem como identidade institucional: Confessionalidade, Missão, Visão, Princípios e Valores. Como nos informa o site da instituição. Vamos ilustrar alguns desses pontos.</p><p>“Confessionalidade</p><p>Cremos no Deus triúno — Pai, Filho e Espírito Santo — referência de toda a realidade, cujo Reino se manifesta em todas as áreas do conhecimento e da existência humana, como ensinado na Bíblia Sagrada.</p><p>Missão</p><p>Educar e cuidar do ser humano, criado à imagem de Deus, para o exercício pleno da cidadania, em ambiente de fé cristã reformada.</p><p>Valores e Princípios</p><p>Em todas as circunstâncias, agir com amor que é o vínculo da perfeição, para a maior glória de Jesus Cristo.”</p><p>Ponto. Esse artigo não é sobre Milton Ribeiro, é sobre o que ele representa, e representa muito bem. Nesse artigo, vamos analisar e traduzir o que há de real na ética que povoa uma religiosidade socialmente alienada dos temas sociais, uma religiosidade cisheteronormativa neoliberal. Aqui, vamos focar na norma cishetero. Primeiro, vamos entender brevemente o que estou chamando de ética. Vamos entender como ética uma ferramenta que todes temos. Essa ferramenta hierarquiza e valora tudo o que toca e sente, então daí prescreve normas de conduta, para andar sempre na trajetória do que é o caminho bom, o correto, o civismo. Todes temos ética. Algumas éticas são perversas, assassinas; muitas dessas éticas são fundamentalmente religiosas. Mas são éticas. E essas éticas perversas e assassinas não interessa a educação. Mas temos ciência de que elas existem. Ora, elas nos matam <em>norma-</em>lmente e são precisamente o que combatemos.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*MAx5lI3Icxi-0b9VeBE0rQ.jpeg" /></figure><p>Exemplo simples: um pai dá a seu filho um trocadinho e diz a ele para ir comprar suas próprias roupas pela primeira vez; seu filho escolhe uma blusinha rosa claro de alcinha com estampas floridas e volta pra casa; A ética vem e diz ‘não, isso não é assim, por quê? por que rosa não é de mulher? então meu filho homem gosta de coisas de mulher. Ele gosta da cor rosa e de flores. E eu aprendi que isso é errado, eu não sei bem por que, mas daqui a pouco ele vai querer virar mulher. E não pode isso de querer ser o que não se é. Isso eu proíbo. Expulso de casa. Eu mato até! Mas botar vestido nunca!’ Porque logicamente, essa ética diz que: não ser cis ou hétero é mais intolerável que assassinar, logo é justificado o extermínio, e se a lei não mais justifica, a lei de deus justifica, e se mesmo a lei de deus também não estiver consonante, a minha ética justifica meus atos, meus irmãos concordam comigo. O extermínio do que desvia da cisheterossexualidade é justificado por esse ética pois que é um meio para o fim que se deseja: o civismo, o correto, o andar no caminho bom. Na hierarquia de bem ou mal, a homossexualidade e transgeneridade está acima do assassinato, e do abandono. O que é lógica! Isso é lógica simples, maior-menor. Então prefere-se expulsar a conviver, prefere-se matar a conviver, prefere-se se matar a se reconhecer. Então, venho aqui com uma pergunta-chave: que respeito é esse, Milton Ribeiro?</p><p>Como se pratica esse ‘<em>respeito todas as orientações mas</em>’? Primeiro, quando respeitamos uma postura, a primeira coisa que fazemos é incentivar essa postura. Existe algo que você respeite que você não incentiva? Eu respeito as mulheres adentrando a política! Mas, peraí, não vamos incentivar também! Eu respeito a liberdade das mulheres! Mas isso quer dizer que agora ela pode sair com amigos? Eu respeito a educação superior pública de qualidade! Mas, não, não, calma, uma coisa é respeitar, outra é incentivar! Eu respeito cada vida de cada cidadão brasileiro, talquei! Eu respeito o uso de máscara sim! Mas, incentivar, peraí, gente, não é pra tanto também. Amores, isso é muito óbvio, né, mas não me parece que existe respeitar sem admiração ou incentivo. Mas nesse texto, aqui onde estamos não é onde eu quero chegar. Isso é muito lógico. Eu quero saber que sentimento é esse que Milton Ribeiro com a serenidade de um guia espiritual representa tão bem e que convencionou-se chamar maliciosamente de ‘respeito’?</p><p>Eu respeito as travestis, já vi algumas na rua e não taquei fogo; nem xinguei. Me segurei, me deu uma vontade de chamar de traveco escroto, mas aguentei firme; nunca se sabe se tem alguém por perto, tava de dia. Até me sento do lado de uma se estivermos em espaço público. Até tenho amigas. Eu namoro uma, quer dizer, eu pego uma, mas minha namorada não sabe. Mas eu te trato bem, eu te como gostoso, até uso preservativo, eu só não te admiro, sabe? É bastante vergonhoso pra mim se meus círculos sociais souberem que eu tô comendo travesty. Mas eu super te respeito, gostosa.</p><p>A ética que o até então ministro da educação Milton Ribeiro discursa, fala publicamente sem vergonha (e essa falta de vergonha é importante), é uma ética transfóbica. É uma ética que apequena ser humano. É uma ética demasiada simples, rudimentar, feita de pauzinhos. Essa ética perde espaço hegemônico, seus domínios, seus terrenos, e por isso reaça — falaremos disso em polarização mais a frente. Sabemos todes nós que é um governo anti-amor, anti-cuidado, uma gestão que fala publicamente sem vergonha alguma que é anti-Paulo Freire. Paulo Freire que em sua Pedagogia da Autonomia diz em 1.7 “Faz parte igualmente do pensar certo a rejeição mais decidida a qualquer forma de discriminação. A prática preconceituosa de raça, de classe, de gênero ofende a substantividade do ser humano e nega radicalmente a democracia.” Nessas terras Paulo Freire é crime.</p><p>Transfobia, claramente, não é a prática de bater nas travestis. Transfobia não é também a crença de que ser travesti é errado, e por isso elas devem estar nas ruas, não na escola pública, que é o lugar das coisa serta. Transfobia é um saber. U transfóbique sabe que ser travesti é errado, não há dúvida, é categórico. E assim como o transfeminismo é para todes. A transfobia também é para todes. É comum ver as travas hierarquizar uma travestilidade baseada em passabilidade cis — mas isso é tema para outro texto. Transfobia é saber que ser travesti é errado, mal, coisa ruim, não aconselhável, comportamento desviante, conduta inadequada, feio! Vamos de tradução? Uma coisa é não tacar fogo, mas agora incentivar? Aí é um outro passo. Não vou permitir que ninguém violente o machismo (cisheteronormatividade) nas crianças. Não vou permitir isso de crianças transfeministas. Isso é um compromisso do nosso presidente. Ora, por que alguém ético deixaria o mal pairar no mundo? Por que eu ia querer o mal do meu lado? Por que eu incentivaria o mal para as crianças? E o que podemos fazer para acabar com esse mal? Bom, veja bem, agora estamos num mundo onde é crime dizer que não respeitamos as travas, elas estão invadindo tudo, tão achando que não são mais uma doença, e elas estão amparadas na lei e é isso que fode; então, irmãs e irmãos, e irmãue@s também, agora tem que respeitar a linguagem neutra também, a gente diz que respeita sim, mas vocês sabem como respeitar, sim? Eu ouvi um toda a glória é para ti senhor? Eu vou sair como candidato agora nas eleições 2022. Sim, senti um chamado! Posso contar com vocês?</p><p>Vamos agora pensar sobre para quem é a mensagem de Milton Ribeiro. Assim, como eu falo com as minhas e minhes e meus camarades, Milton Ribeiro fala para os deles. Nós travestis para imaginarmos uma vida digna para nossus netinhes travas nbs (nãobináries), precisamos lutar por uma ética. Essa ética precisa chegar justamente em quem nos mata, em quem possui desejo ardente de nos matar. Precisamos pensar em uma pedagogia que aprenda com as travestis e ensine com as travestis o que é respeitar as travestis. Uma pedagogia sustentada por uma ética que respeita as travestis porque as admira, não porque a violência é crime. E então vem uma palavra que tentam ardilosamente nos convencer de que devemos evitar: polarização. Ah, devemos evitar uma polarização! Poxa, por que a gente só não acaba com as travestis e pronto tá resolvido? Vocês querem conversar! Eu sou a favor da tortura, vocês sabem. Ouvi algo parecido de algum presidente atual, outro dia. Uma boa educação é aquela que não é LGBTQIAP+, segundo Bolsonaro. Percebem os elementos dessa ética?</p><p>A polarização é essencial e inevitável. A polarização é um marcador social. A polarização surge quando uma ética é intolerante a outra ética. Existe uma ética 1 que diz sou travesti e quero viver, não machuco ninguém em minha existência. E existe uma ética 2 que prescreve que ser travesti é algo a não ser incentivável. O que nós não incentivamos, nós repudiamos. É dicotômico, ou é um ou outro, não há neutralidade. Aqui o sentimento de acatar uma lei social ou jurisdicional é trazida pela palavra ‘respeito’, que desmascarada se traduz em ‘eu acato leis que me impedem de te tratar mal, mas nos meus domínios, debaixo do meu telhado e sem a vigilância policial não!’. Existe uma ética que diz: o lugar de mulheres é dentro de casa submissa ao seu marido. Quando uma mulher se ergue contra essa ética, vislumbramos a beleza de uma polarização. A polarização pode talvez demarcar o fim/colapso de uma hegemonia ideológica; O que vai ser da economia com essas ideias abolicionistas? Brota a polarização. Tem pessoas num canto achando que não pode acabar com a escravidão, e todo trabalho da minha família, de anos? É justo? Tem pessoas num outro canto defendendo o fim da escravidão porque agora inventaram de ser livres como nós brancos europeus. Aimeudeus, o mundo está muito polarizado, que tristinho. A polarização no Brasil vem de conflitos de morte entre classes sociais, gênero, raça/etnia, identidade de gênero, intersexualidade, orientação sexual, intolerância religiosa, neuro divergências, infinito. A polarização é um marcador de resistência. Ela denuncia: nós existimos e estamos tirando os racistas e os machistas do poder. Os transfóbicos piram. Até orgulho hétero querem criar.</p><p>É uma falácia — não sei se imperialista, ao melhor estilo intervencionista seletista ONU — que nos vendem a ideia de que podemos viver todes em harmonia. Crentes contra gostosas, programa luciana gimenez. Às travestis e às mulheres viabilizamos bastante prostituição, aos homens o consumo. Eu aqui na minha casa, vivendo em harmonia com as minhas putas, todes em harmonia. Podemos viver todes em harmonia, numa democracia com uma bancada nazista. Mas nazistas respeitando todes e usando a linguagem neutra, por favore. Não podemos. Não podemos. Existem éticas colapsantes (que entram em colapso quando num mesmo espaço). Quando uma ética promove a intolerância, a segregação e logo o extermínio de outres, o que acontece? Quando não se incentiva políticas públicas de acesso a direitos básicos a grupos minorizados, hipossuficientes, após a marginalização, a criminalização da margem, o que vem? Começa com <em>-exter</em> e termina com <em>-mínio</em>. Não, não é bolsomínio, mas é bem parecido — acabei de inventar outra palavra? Uma das definições mais antigas de ética prevê que a ética é um fazer chegar a uma finalidade que é boa. Nós sabemos o que é errado, quais meios temos e podemos pensar para chegar ao nosso fim? Fim de quem?</p><p>O ano de 2022 vai ser um ano de polarização. Bolsonaro vai apelar pra potência do terror travesti para angariar votos. Votos pelo bom costume, contra as mamadeiras da vida. Mais uma vez e não pela última vez, a mesma estratégia. O que nós movimentos transfeministas podemos fazer?</p><p>Recomendação de filmes:</p><p>Para se pensar uma ética pobre: boy erased</p><p>Para se pensar uma educação travesty: alice junior</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/514/1*QFlVXtM-U-L9JtY81Nx-mw.jpeg" /></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*bXGiIZWFCpCLWCVFsXFJ4w.jpeg" /></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=d914fbdb990d" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Black Summer (3/5): Red Hot lança música regular como single depois de anos sem lançamentos]]></title>
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            <category><![CDATA[black-summer]]></category>
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            <dc:creator><![CDATA[aTrava]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 05 Feb 2022 17:18:39 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2022-02-05T18:04:15.532Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*aKbe77ekEpDK9DxXwYYTkQ.jpeg" /><figcaption><em>Credit: Sandy Kim. in: revista NME</em></figcaption></figure><p>Eu sou uma grande fã dos chili peppers. Já caçei quase todas as b-sides possíveis de quase todos os álbuns, e, escolho deliberadamente deixar de ouvir algumas para que eu tenha o que escutar novo e ao mesmo tempo velho deles no futuro. É nesse nível. E quem é fã nesse nível sabe e sente que a banda tem álbuns e álbuns de b-sides que são singles que somente não foram. Exemplos: <em>Leverage of Space</em>, <em>Rolling Sly Stone</em>, <em>Mini Epic (Kill For Your Country)</em> (2001–2003). Porque raios não temos essas músicas em estúdio e tocando em todo show (!), sim? <em>Leverage of Space</em> tem um dos baixos mais lindos, sofisticademente complicado, até para quem toca baixo pro red hot chili peppers, Flea.</p><p>E aí 2022, novo álbum dos chili peppers, e então <em>Black Summer</em> anunciada! Nossasenhora, eu montei 2 setlistes imaginários que nunca vão acontecer e uma pleiliste pra me acompanhar até o momento que <em>Black Summer</em> vasou! Eu aguardei ansiosamente pelo novo single da banda. A banda como eu a conheci, com a mão de Frusciante mais uma vez, o guitarrista que me fez comprar minha primeira guitarra. Frusciante era a guitarra dos chili peppers na época em que o contato com o produtor Rick Rubin deslocou a banda do bizarrismo pro rádio, do underground pro mainstreaming, botando o red hot no topo das paradas do cenário pop rock americano globalizado, hits como <em>Under the Bridge</em> e <em>Give It Away </em>(1991) são mais bem digeridos pelo mercado pop que <em>Higher Ground</em>, <em>Taste the Pain</em> e <em>Good Time Boys </em>(1989), clássicos underground da banda de outrora. <em>Black Summer</em>! Você escuta e sabe que são os chili peppers que estão tocando: isso é lindo. Também, uma música sem nada de muito especial como single em um clipe preguiçoso — onde eu não vi nada de nostálgico. Vamos primeiro falar sobre o clipe.</p><p>O red hot é bem reconhecido pela criatividade artística de muitos de seus clipes dentro e fora dos tempos em que os peppers foram embalados pra vender em supermercados, isto é, nos álbuns consagrados que vai de <em>BSSM</em> a <em>Stadium Arcadium</em> (1991–2006) — e todos os devir. Pode pegar todos os clipes, de todos os singles, por mais simples que alguns possam ser, a noção de movimento e som estão muito bem sincronizados. Exemplo: a princípio, o clipe de <em>The Zephyr Song</em> (2001) é bem simples, mas a inserção de elementos dançantes em sincronicidade com a música torna o clipe um clássico. Já a estória contada no clipe de <em>By The Way</em> (2001) é um curta metragem muito bom. O clipe de <em>Black Summer</em> é preguiçoso pois parte da premissa mais simples possível de juntar o visual ao áudio, que é um cromaqui de windows media player tipo bateria em modo aleatório como fundo pra banda: não tem nada, nada, de interessante. A escolha das cores florescentes gliterizadas e levemente psicodélicas são marcas de muitos dos clipes da banda, vide <em>Around The World</em> (1999) e <em>The Zephyr Song</em>, apesar da boa escolha da paleta de cores, o clipe de <em>Black Summer</em> passou muito longe de me interessar. Se não fosse o meu fascínio pela banda, eu não terminaria de ver o clipe pelo clipe. Oquei. E o single <em>Black Summer</em>?</p><iframe src="https://cdn.embedly.com/widgets/media.html?src=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fembed%2FOS8taasZl8k%3Ffeature%3Doembed&amp;display_name=YouTube&amp;url=https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DOS8taasZl8k&amp;image=https%3A%2F%2Fi.ytimg.com%2Fvi%2FOS8taasZl8k%2Fhqdefault.jpg&amp;key=a19fcc184b9711e1b4764040d3dc5c07&amp;type=text%2Fhtml&amp;schema=youtube" width="854" height="480" frameborder="0" scrolling="no"><a href="https://medium.com/media/a6b80fc87605896750c60f8fc28d2be8/href">https://medium.com/media/a6b80fc87605896750c60f8fc28d2be8/href</a></iframe><p>A música é boa, com certeza. Não acho que lembra os tempos de <em>Californication</em> assim como também não acho que tem de lembrar. Na era de 99–01 a banda era muito mais crua, vide o set de pedais do John, e isso caracteriza as gravações daquela época. A qualidade de áudio e gravação de <em>Black Summer</em> me parece muito mais próxima de <em>Stadium Arcadium</em> (2006), mas é bem diferente também, é <em>Unlimited Love</em> (2022) que se chama! Se pegarmos <em>Stadium Arcadium</em> e colocarmos <em>She Looks to Me</em> (2006) pra tocar eu vou adorar. É uma música bonita mas não é uma música que me vira a cabeça e com os olhos em espanto o que é isso! uau! e não consigo focar minha visão em mais nada. Não. E <em>Black Summer</em> também não tem isso pra mim. Então, eu infelizmente achei um single bem fraco. É uma música bonita, como muitas dos peppers. Se pegarmos b-sides de vários discos, inclusive discos com o Klinghoffer, temos músicas bem mais fortes para serem lançadas como single do que <em>Black Summer</em>. Exemplo: <em>This is the Kitt</em> (2011), que tem um riff memorável, em contraste com a bonita progressão de acordes de <em>Black Summer</em> que são bastante delicados, com um calor intenso como brisa rósea de verão que ao mesmo tempo refresca, que é a parada dos peppers (!), só faltou aquela flechada no coração que acontece com singles como <em>Snow</em> (2006) ou <em>By The Way</em> que te acertam logo nos primeiros segundos de música; em <em>Black Summer</em> isso só acontece quando John pressiona o pedal de distorção e de repente tudo ao redor é insignificante. Depois você toma fôlego e pensa: que foi isso? <em>John Frusciante! Ladies &amp; Gentlemen, John Motherfucker and Frusciante! Yeah Yeah Yeah! Uhuuuuuuuu!</em> A espera pela volta de Frusciante é a melhor parte da música e eu sinto que a música foi construída para que Frusciante ficasse mesmo no holofote, os integrantes todos são apaixonados pelo guitarrista, e eles parecem tão ansiosos quanto nós fãs que não somos da banda. John tem uma percepção afetiva de música rara, não é fácil encontrar isso em guitarristas, e ele sabe converter isso em qualquer linguagem de seu instrumento em um level virtuoso, ponto em que Klinghoffer sempre me frustrou. Klinghoffer fez 2 bons álbuns mas o tom e a ranhura funky, o treble e o big muff pi (eu acho) de Frusciante é característica de longo tempo dos chili peppers que nos acostumou a uma outra leitura das músicas da banda, principalmente os solos e o diálogo com Flea, a harmonia instrumental da banda. O solo e o riff final de guitarra de <em>Black Summer</em> são memoráveis, você escuta você já memorizou a melodia; Marca, é marcante; muito diferente da intro da canção que me soa bastante apática até o Chad dar um levante nela só depois de quase 1 minuto de uma melodia da voz de Anthony que quase não chama atenção. A parte mais cantável é o refrão. A música, mercadologicamente, é bem pensada em estrutura, ela repete o refrão apenas 2 vezes, tem um solo que ocupa um espaço considerável e é bastante adiantado e que já escoa no prelúdio do fim da canção, fazendo a música não soar cansativa, em termos de arte para supermercados. Flea e Chad mantém o groove infalível e sagrado dos chili peppers. A bateria de Chad é um prato clássico, nada mais do que o mesmo tempero do chef especialista em ghost e grace notes Chad Smith de muitas das músicas da banda pós-<em>Californication</em>. A bateria é a mesma bateria da famosa <em>Californication</em>, em um tempo diferente e que usa a condução no lugar do hi-hat. Flea genial como sempre. Em <em>Black Summer</em> decide se deixar sobreposto a voz da guitarra de Frusciante tendo o trabalho de adornar os acordes da guitarra, sempre com alguma variação aqui e ali que faz diferença entre uma linha de baixo que simples atua em loop.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*GZFurWs1ZVHy6w2efqSF9g.jpeg" /><figcaption><em>Credit: Gus Van Sant. in: revista NME</em></figcaption></figure><p>Pessoalmente, estou feliz com o novo single. Antes do lançamento oficial, já tinha escutado umas 10 vezes, e nas 12 horas seguidas após o lançamento oficial já vi o clipe umas 15 vezes e escutei a música mais umas 10. Tô muito feliz pela volta de Frusciante e ansiosa pra ouvir o álbum completo e os shows da turnê. Eu acho que seria interessante se Frusciante tocasse músicas de álbuns que ele não participou após seu ingresso na banda. A era Klinghoffer pra mim tinha apenas um ponto muito fraco beirando muitas e muitas vezes o desastre: o ao vivo. Os solos eram quando não muito fora do lugar na maioria das vezes desapontantes. Aindassim, Josh deixou canções muito boas que acho que John pode dar uma interpretação interessante a elas. Sem falar na fase <em>One Hot Minute</em> que tem umas músicas caóticas gostosinhas pra bater cabeça, tipo <em>Deep Kick </em>(1995). Mas, quem sabe das coisas é o John. É muito bom ouvi-lo novamente integrando o red hot chili peppers. O que traz de volta uma das coisas que mais me admira nesta formação: percebê-los como uma família.</p><p><em>Crédito de imagens abaixo das fotos</em>: retiradas da reportagem da revista NME. Link: <a href="https://www.nme.com/big-reads/red-hot-chili-peppers-cover-interview-2022-unlimited-love-3152682">https://www.nme.com/big-reads/red-hot-chili-peppers-cover-interview-2022-unlimited-love-3152682</a></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=a8a687147985" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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