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        <title><![CDATA[Stories by Eduardo Ades on Medium]]></title>
        <description><![CDATA[Stories by Eduardo Ades on Medium]]></description>
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            <title>Stories by Eduardo Ades on Medium</title>
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            <title><![CDATA[Tropical melancolia]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Eduardo Ades]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 05 Jul 2021 19:13:44 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2021-07-05T19:16:14.408Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*Cee1u3aexAJFnoeAPNs9hA.jpeg" /><figcaption>Caetano Veloso, Torquato Neto e Gilberto Gil</figcaption></figure><p>Vi por esses dias o programa do Gil (<a href="https://www.youtube.com/watch?v=q9uhjeEavRE">Amigos, sons e palavras</a>), tendo Zé Celso como convidado. É uma sorte nossa poder ter dois caras desses pensando e fazendo o Brasil com a gente. Nos lembra que esse pedaço de terra não é feito só de milicianos e fascistas.</p><p>O programa abre com Gil tocando “Marginália 2”, que ele compôs com Torquato Neto. Infelizmente, Torquato não sobreviveu a um outro período de trevas e não está aqui para nos ajudar nesse esforço de chegar do outro lado do túnel. Mas Gil e Zé Celso comentam a atualidade radical da música e do pensamento de Torquato.</p><p>Durante a pesquisa pro nosso filme “Torquato Neto — Todas as horas do fim”, alguém comentou (ou talvez a gente é que tenha constatado) que as músicas de Torquato acabaram saindo do repertório de Gil e Caetano. E mesmo de Gal e Bethânia. A bem da verdade, eles abandonaram o repertório tropicalista quase como um todo, à parte eventuais execuções de “Tropicália”, de Caetano Veloso. Não foi algo exatamente direcionado a Torquato. Mesmo assim, por outro lado, Jards Macalé e Luiz Melodia traziam com alguma frequência suas músicas em shows.</p><p>Quando Caetano e Gil anunciaram, em 2015, a turnê de “Dois amigos, Um século de música”, que iria abarcar a carreira completa dos dois, imaginei que Torquato estaria no repertório e tinha curiosidade de saber qual a canção escolhida. Pois foi “Marginália 2”, num arranjo espetacular com a voz do Gil. Eles reduziram o andamento da música, a voz de Gil foi para um registro mais grave. A música virou pelo avesso.</p><p>Torquato levou um certo aspecto sombrio para o âmago do Tropicalismo, o que deu muita densidade ao movimento. Em meio aos arranjos cintilantes e alucinados de Rogério Duprat, de todas aquelas cores, havia algo ali que fitava o abismo. “Pão seco de cada dia / Tropical melancolia / Negra solidão”.</p><p>É o contraste que ainda vivemos do Brasil que abriga e faz vicejar Gilberto Gil e Zé Celso, mas que é governado por um grupo de perversos que desprezam a vida humana. A inacreditável síntese encontrada por Torquato no binômio “brutalidade jardim”, como apontou Paulo Roberto Pires em um <a href="https://www.quatrocincoum.com.br/br/colunas/critica-cultural/no-pais-da-brutalidade">artigo recente</a>.</p><p>Na gravação original, o conteúdo sombrio ficava um pouco oculto, mas à vista de quem quisesse prestar atenção à letra. O contraste trazia algo de irônico, irreverente. A alegria é a prova dos nove. No novo arranjo, mais afeito aos tempos atuais em que “está tudo bem”, “as instituições estão funcionando”, Caetano e Gil vão direto ao ponto. O contraste agora é cantar “yes, nós temos bananas” em tom melancólico.</p><p>Foi por tudo isso que, na montagem do filme, acabamos optando pelo novo arranjo, justamente na sequência em que se lança o movimento tropicalista. E acho que por isso também que a música, felizmente, voltou ao repertório de Gil. Já que ela não nos deixa esquecer:</p><p>Aqui é o fim do mundo</p><p>Aqui é o fim do mundo</p><p>Aqui é o fim do mundo…</p><p>(Publicado originalmente no meu perfil do Facebook, 16/06/2021)</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=7033ec6e48a5" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[A galinha]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Eduardo Ades]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 05 Jul 2021 17:06:35 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2021-07-05T17:09:08.458Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/696/1*QpO2Uve1eoj-OH5GyWTPRQ.jpeg" /></figure><p>Quem passa pela esquina das ruas Paissandu e Marquês de Abrantes, no Flamengo, não sabe que ali mora uma galinha. É claro que tão nobre e desimportante fato não poderia ter chegado ao meu conhecimento de modo direto. Afinal, a galinha é preta e fica recolhida à sombra dos singônios, em um dos canteiros de palmeira imperial.</p><p>Ocorre que, certo dia, vinha passando com minha filha pela esquina, quando a galinha ciscava por ali. A curiosa presença de uma galinha dando bicadas no cimento da calçada chamou primeiro a minha atenção e logo mostrei pra Isabel. Certamente, ela gostou mais do que eu e começamos a seguir a pobre ave, que deixou a ciscação para fugir assustada, dando alguns cacarejos na corrida, o que apreciamos bastante. Poucos metros adiantes, a galinha passou pela cerca de um prédio e lá se abrigou. Despedimo-nos e seguimos nosso caminho.</p><p>Isabel deduziu que ela morasse naquele prédio. Eu argumentei que ela poderia estar perdida. De fato, não é difícil encontrar outros galináceos no acesso do metrô da rua Paulo VI, a cerca de 300 metros dali. Imagino que sejam de algum morador do Morro Azul. Mas o debate se deu por encerrado quando percebemos que seria mais proveitoso tentar reproduzir os cacarejos.</p><p>Dois dias depois, passando novamente pela esquina, Isabel queria muito reencontrar a galinha. Eu estava certo de que ela já teria sido resgatada por seu proprietário e se reintegrado a sua comunidade na Paulo VI. Ou, talvez até mais provável, teria virado canja. De todo modo, empreendemos uma pequena busca, infrutífera. Não satisfeitos, persistimos no esforço investigativo, indagando ao porteiro do prédio onde ela, supostamente, moraria.</p><p>Para nossa surpresa — ou melhor, para Isabel, pareceu absolutamente normal -, para minha surpresa, o porteiro disse que a galinha estava chocando seus ovos no canteiro logo em frente. De posse da lanterninha do celular (era noite), ele vasculhou as plantas e nos mostrou a pobre criatura, em seu esconderijo.</p><p>Ao longo dos dias seguintes, sempre que passava pela esquina, observava aquele pequeno segredo. Era um prazer como aqueles que a gente tem quando descobre uma pequena história da cidade e não consegue mais deixar de evocar a lembrança a toda vez que passa pelo local: “naquele prédio morou Manuel Bandeira”, “era aqui que Nelson Rodrigues gostava de almoçar”.</p><p>E então deu-se o esperado. Dias depois, no canteiro, não havia galinha. Cena terrível: um ovo quebrado. Nunca mais vi a galinha em parte alguma. Mas como não recebi nenhuma nota fúnebre, para mim, ela foi passear, ou se mudou de canteiro. Aquele deve ter ficado muito visado.</p><p>Estou aguardando passar ali novamente com Isabel, para que ela possa fazer a apuração de campo. Sabe como é, costuma faltar ao adulto a coragem para fazer as perguntas mais nobres e desimportantes.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=50ba535551d7" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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