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        <title><![CDATA[Stories by FEA Internacional on Medium]]></title>
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            <title>Stories by FEA Internacional on Medium</title>
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            <title><![CDATA[Ouro Negro: O Irã como Metonímia de uma Região Arquitetada]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[FEA Internacional]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 08 Apr 2026 06:11:17 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-04-30T19:21:01.057Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Localizada no coração de Londres, a <strong>Grosvenor Square</strong> é o núcleo do luxuoso bairro de Mayfair, que sedia residências e locais de confraternização da <strong>elite londrina</strong> há pelo menos três séculos. No início do século passado, um <strong>novo-rico australiano</strong> escolheria o número 42 da praça como sua residência na capital, e a partir de lá faria uso de suas conexões em Westminster, em Whitehall e na City para se tornar o <strong>mais influente empreendedor do século XX</strong> — não pela sua riqueza, mas pelas intermináveis consequências dos seus <strong>empreendimentos na Pérsia</strong>, que são sentidas até os dias de hoje.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*Lg9iTrbOHDTgt2SL" /></figure><h3><strong>Os Rumos do Oriente</strong></h3><p><em>Uma História do Petróleo no Oriente Médio</em></p><h4><strong>O Empreendedor</strong></h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*OTdkHdGCjJFQ917gjvJ5fw.jpeg" /><figcaption>Retrato de William Knox D’Arcy por Harry Furniss. National Portrait Gallery, Londres</figcaption></figure><p><strong>William Knox D’Arcy</strong> nasceu em 1849 em uma pequena cidade em Devon, no sudoeste da Inglaterra, mas emigrou quando jovem para as <strong>colônias</strong>. Na Austrália, William se tornou advogado, e se estabeleceu como um respeitado membro da sociedade de Rockhampton. No ano de 1882, D’Arcy foi contactado por um <strong>grupo de irmãos</strong> interessados em um financiamento que teria como fim a exploração de uma promissora <strong>reserva de ouro</strong> a poucos quilômetros de Rockhampton. [1]</p><p>As escavações não tardaram a começar no recém-nomeado <strong>Monte Morgan</strong>, mas os resultados de curto prazo não se provaram satisfatórios para os irmãos homônimos. Logo após a compra da parcela do negócio dos irmãos pelos sócios financiadores, <strong>ouro foi descoberto</strong> no Monte Morgan, e então D’Arcy e seus companheiros tiveram um <strong>retorno de mais de 200.000%</strong> em seus investimentos. De advogado local para um dos homens mais ricos do mundo, William retornou triunfante ao coração do Império, adquirindo sua residência na <strong>Grosvenor Square, número 42</strong>. [1]</p><p>D’Arcy trouxe da Austrália sua reputação e sua destreza para os negócios. Sempre procurado por indivíduos com <strong>grandes ideias e parco capital</strong>, ele acabou procurado por um certo <strong>Antoine Kitabgi</strong>, oficial persa de alto escalão. Kitabgi, assim como outros oficiais, atuava constantemente no exterior em busca de capital para <strong>financiar projetos na Pérsia</strong>, especialmente aqueles que fossem capazes de preencher<strong> seus próprios bolsos</strong>. Àquela altura, a interferência estrangeira em Teerã já tinha lugar comum, e as grandes potências disputavam qual seria capaz de<strong> agradar mais ao Xá e seus oficiais</strong>, que em contrapartida ofereceriam <strong>vantajosas concessões</strong>. A despeito do forte interesse estratégico no país desde meados do século XIX, oficiais ingleses e russos se mostraram irritados com a forma “opaca, se não <strong>objetivamente corrupta</strong>” de operação da corte persa. O Xá e seus imediatos eram descritos como “<strong>crianças mimadas</strong> que foram ensinadas que, se insistissem o suficiente, seriam <strong>recompensadas pelas grandes potências</strong>, aterrorizadas pela perspectiva de perder qualquer vantagem nessa região estratégica”. Nesse contexto, Kitabgi mostrou a D’Arcy o potencial das <strong>reservas de petróleo da Pérsia</strong>, à época uma <em>commodity</em> em franca ascensão. [1]</p><p>D’Arcy, munido de suas conexões no <em>Foreign Office</em>, da lábia de Kitabgi e da sua enorme fortuna, não poupou esforços para conseguir do Xá um <strong>documento</strong> que mudaria não somente a história da Pérsia, mas também de todo o Oriente Médio e talvez do mundo. D’Arcy foi capaz de obter do Xá o <strong>privilégio especial e exclusivo</strong> de buscar, obter, explorar, desenvolver, transportar e comercializar gás natural e petróleo em toda a extensão do Império Persa pelo período de <strong>60 anos</strong>. Apesar de uma demora de uma década para tal, a comprovação das extensas reservas de petróleo da Pérsia levou ao estabelecimento da <strong>Companhia Anglo-Persa de Petróleo</strong>, e ela seria o legado amaldiçoado de William Knox D’Arcy para o mundo. [1]</p><h4><strong>O Aventureiro</strong></h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/366/0*U7cIk0rsRpcckLUM.jpg" /><figcaption>Thomas Edward Lawrence com vestimentas tradicionais árabes em 1919</figcaption></figure><blockquote><em>“As quantidades de petróleo que iremos requerer aumentaram muito além dos modestos limites que antes eram preenchidos por ocasionais aquisições. O tipo de petróleo que preferimos não mais é o tipo que satisfaz os refinadores a produzir, e o que os paga melhor para tal. O mercado aberto tem se tornado uma explícita chacota. Nossa parcela de navios a óleo tem se tornado tal que deveremos ter a certeza da nossa capacidade de adquirir uma oferta constante de petróleo a preços previsíveis. Não realizar os passos necessários para tal no tempo apropriado significa nossa passagem acelerada para a mercê dos ofertantes.”</em></blockquote><blockquote>Winston Churchill, Primeiro Lorde do Almirantado, dirigindo-se à Câmara dos Comuns em Julho de 1913 [2]</blockquote><p>Nascido em 1888 nas pacatas colinas do norte do <strong>País de Gales</strong>, Thomas Edward Lawrence era filho de um pequeno lorde rural, tendo a oportunidade de se mudar com a família para <strong>Oxford</strong>, onde dedicou sua juventude aos estudos da <strong>arqueologia</strong>. Em 1911, T.E, como preferia ser chamado, teve a oportunidade de se juntar a uma expedição para escavar a <strong>cidade Hitita de Carquemis</strong>, na margem oeste do Rio Eufrates. Lawrence participou do projeto até 1914, quando eclodiu a <strong>Primeira Guerra Mundial</strong> e ele retornou para servir o exército. [3]</p><p>Principalmente associado à <strong>rivalidade com a Rússia</strong> e a crescente importância do <strong>petróleo </strong>como commodity estratégica, o interesse do <strong>Império Britânico</strong> no Oriente Médio havia crescido exponencialmente. Desde intervenções no <strong>Afeganistão </strong>a interferências na <strong>corte Persa</strong> e a construção do <strong>Canal de Suez</strong>, os ingleses, assim como seus pares europeus, possuíram uma visão clara da <strong>importância estratégica</strong> do Oriente Médio e da Ásia Central pelo menos a partir da <strong>segunda metade do século XIX</strong>. Quanto ao petróleo, figuras como Winston Churchill e outros associados às forças navais inglesas, cada vez mais dependentes de <strong>navios a óleo</strong>, foram os principais agentes por trás da realização dos “passos necessários” para assegurar uma <strong>oferta constante de petróleo</strong>. [1] [2] [4]</p><p>O “passo necessário” tomado meros dias antes da eclosão da Grande Guerra foi a aquisição pelo governo britânico de <strong>51% da participação</strong> na Cia. Anglo-Persa de Petróleo, tornando-a efetivamente uma <strong>estatal</strong>. Garantida a oferta de petróleo para a Marinha no confronto com o Império Alemão, os ingleses agora passaram a preocupar-se não com o preço do petróleo, mas sim com a <strong>oferta </strong>dele, e para isso <strong>novos empreendimentos </strong>teriam de ser conduzidos na região. [1]</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/766/1*CEYk3g6flJyvNJWSpmWQ7Q.png" /><figcaption>Mapa do Oriente Médio no final de 1914, primeiro ano da Guerra. Em azul estão os membros da Entente (Império Britânico e Império Russo) e suas possessões coloniais / Estados vassalos e em laranja o Império Otomano e seus vassalos. (Adaptado pelo autor) [28]</figcaption></figure><p>A entrada do Império Otomano na Grande Guerra no final de 1914 representou para o Império Britânico uma <strong>enorme oportunidade</strong> de expansão das posses imperiais na região. Visando evitar futuros conflitos, França e Reino Unido assinaram um acordo secreto que ficou conhecido como o<strong> Acordo de Sykes-Picot</strong>. O acordo possuía um objetivo simples: <strong>dividir os territórios</strong> que seriam conquistados do Império Otomano de tal sorte que o Reino Unido teria controle do <strong>Iraque</strong>, um adendo às suas já existentes posses no Golfo. Ou seja, o tratado garantiria para Londres a <strong>maior parte das reservas de petróleo </strong>comprovadas à época. Naturalmente, a concretização dos termos do tratado dependia da guerra ser ganha em primeiro lugar, e daí Thomas Edward Lawrence tira seu papel na história do Oriente Médio, como uma <strong>personificação dos interesses britânicos</strong> na região durante e após a guerra. [1]</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*nsCMxVwgamzohX3W.jpg" /><figcaption>Mapa do Acordo de Sykes-Picot. Destacadas em azul e vermelho respectivamente estão as zonas que seriam diretamente controladas pelos franceses e britânicos, e as zonas A e B se referem aos territórios que seriam indiretamente controlados.</figcaption></figure><p>Não somente dentro do Império Otomano, mas também nas áreas não otomanas da Península Arábica, grupos <strong>etnicamente árabes</strong> se viam oprimidos pelos turcos, e sonhavam com a formação de uma <strong>grande nação árabe </strong>que unificasse toda a península. Tal conjuntura foi utilizada pelos ingleses para formar uma <strong>aliança </strong>com tais povos, que prometeram destruir o Império Otomano por dentro em troca da formação do suposto Estado Árabe. T. E. Lawrence tornou-se não somente <strong>principal conselheiro</strong> do Príncipe Faisal, líder da <strong>Revolta Árabe</strong>, mas também comandante ativo das forças revoltosas. Lawrence foi enviado para Meca em 1916 como parte de uma <strong>missão diplomática</strong> para os líderes da recém-deflagrada Revolta, e a partir daquele ponto tornou-se o “cérebro, a força organizadora, a ligação diplomática com o Cairo e estrategista militar” da mesma, pelo menos de acordo com seus próprios relatos dos eventos. A despeito da falta de modéstia de Lawrence, ele teve, inegavelmente, um <strong>papel relevante</strong> não somente na vitória contra os Otomanos, mas também no estabelecimento dos <strong>“Estados”</strong> árabes após o fim da guerra. [1][3]</p><p>Findada a guerra, estabeleceram-se os Estados modernos da <strong>Síria</strong> e do <strong>Iraque</strong>, delimitados entre si pela chamada linha de Sykes-Picot, talvez uma das <strong>mais artificiais</strong> fronteiras internacionais existentes no mundo. Ignorando completamente qualquer característica étnica, cultural ou religiosa, formou-se, sob <strong>Mandatos da Liga das Nações</strong>, uma Síria controlada pelos franceses e um Iraque controlado pelos ingleses. O próprio Príncipe Faisal tornou-se rei do Iraque, ainda tendo <strong>T.E Lawrence como seu conselheiro</strong>. O reino do Rei Faisal foi caracterizado pela imposição de um tratado que reconhecia a independência do Iraque, mas que demandava que o Rei e seu governo fossem direcionados pelos ingleses em “todos os tópicos relevantes”. Tal definição delegava a condução da política externa e a defesa para Londres, tornando assim o Iraque um <strong>protetorado inglês</strong>, a despeito do seu status <em>de jure </em>de Estado independente. Dessa forma, o sentimento no continente tornou-se claro. Os reinos estabelecidos pelos europeus eram nada mais que <strong>construções arquitetadas</strong> para servir seus interesses, e não existia possibilidade de que elas pudessem se sustentar política ou economicamente no longo prazo. [1][3]</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*VpuuUzo3XQUUOz9n" /><figcaption>Mapa da indústria petrolífera do Oriente Médio no período entreguerras. Destaca-se as refinarias iranianas de Abadan, às margens do Golfo, e as reservas localizadas na Mesopotômia iraquiana e no Kuwait, todas posses britânicas.</figcaption></figure><p>Nas décadas seguintes, seguindo até depois da Segunda Guerra Mundial, o Golfo Pérsico consolidou-se como a <strong>principal região petrolífera </strong>do mundo, tendo em torno de si as operações no sudoeste do Irã, centradas na refinaria e no <strong>porto exportador de Abadan</strong>, as reservas da Mesopotâmia localizadas no Iraque e no Kuwait, além das descobertas futuras no Qatar, na Arábia Saudita e no Bahrein. Desde o empreendimento de D’Arcy, o petróleo no Oriente Médio havia passado de uma oportunidade em potencial para a <strong>alma econômica e política</strong> da região. Com o fim da ocupação direta europeia a partir da Guerra Fria e a estatização das operações ocidentais na região, a questão global do petróleo passa a ter uma nova variável: a<strong> inevitável instabilidade</strong> política simplesmente arquitetada pelos europeus na região. Para as nações que não entraram em <strong>conflito direto</strong> com seus vizinhos, restou a <strong>guerra civil</strong>, a transformação em um Estado fracassado ou a renovada <strong>intervenção estrangeira</strong>, agora advinda principalmente dos Estados Unidos. Paralelamente aos desenvolvimentos regionais, o mundo tremeu junto às intermitentes explosões no Golfo Pérsico, que <strong>estilhaçam economias</strong> por todo o mundo há quase um século.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*GXyaD2a8SzFn87qw" /></figure><h3><strong>A Maldição do Ouro Negro</strong></h3><p><em>A natureza, as causas, e as consequências das crises do petróleo presentes e passadas</em></p><p>No decorrer da segunda metade do século XX, o Oriente Médio, e, por extensão, o petróleo desempenharam um<strong> papel crucial na erupção de crises econômicas</strong> em nações e regiões completamente dissociadas. Na conjuntura nacional, vêm à mente o papel do <strong>Segundo Choque do Petróleo</strong>, advindo da Revolução Iraniana de 1979, no fim do <strong>“milagre econômico”</strong> que caracterizou a década de 70 no Brasil. A despeito de seus efeitos defasados, associados principalmente ao aumento da dívida externa e da inflação, a crise de 79 foi um dos fatores estruturantes da <strong>“década perdida”</strong>, momento de hiperinflação e estagnação do crescimento econômico <em>vis-à-vis</em> o que se observou no país durante a década de 70. Em outros países, outros contextos e outras regiões, existem <strong>memórias similares das chagas</strong> trazidas pelas consequências das crises no Oriente Médio. [9]</p><p>Com a crescente globalização e interdependência das economias, agravam-se os impactos de choques ocorridos em qualquer lugar do globo, e o petróleo é talvez a <strong>epítome </strong>disso. Especialmente com a participação cada vez maior do <strong>mercado financeiro</strong> no sistema econômico internacional, oscilações nas meras <strong>expectativas </strong>dos preços do petróleo podem ter um impacto instantâneo em diversas variáveis macroeconômicas. Tal fenômeno pode ser muito bem observado na <strong>conjuntura atual</strong>, com o conflito entre Israel e Estados Unidos e o Irã já tendo provocado reações e consequências que vão muito além de ativos financeiros por todo o mundo. Destaca-se o fechamento do <strong>Estreito de Hormuz</strong> e o potencial fechamento do Estreito de Bab-el-Mandeb, que representam um choque de oferta relevante, mas <strong>não inédito</strong>.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*k3g1gNUmW-Co0Bvk.jpg" /><figcaption>Mapa demonstrando as principais vias arteriais de comercialização do petróleo. Em destaque, estreitos, canais, e pontos relevantes com o número de barris de petróleo transportados por dia através deles (em milhões)</figcaption></figure><p>O <strong>Canal de Suez</strong>, passagem vital não somente para o petróleo mas também para o comércio mundial como um todo, já foi fechado por motivos políticos em duas ocasiões, na <strong>Crise de Suez</strong>, em 1956 e de 1967 a 1973, como uma medida do Egito contra o Estado de Israel. Em ambos os casos, <strong>impactos pontuais</strong> foram sentidos em países determinados, mas eles se mostraram <strong>transitórios </strong>e foram rapidamente reajustados pela ampliação do comércio com outras nações fornecedoras. Quando do Primeiro e do Segundo Choques do Petróleo, o fator relevante não foi o fechamento de vias estratégicas, mas sim a <strong>decisão política</strong> da OPEP de cortar a produção no caso daquele e da queda exponencial da produção iraniana no caso deste. [10][11]</p><p>O fator de diferenciação da crise atual seria então, em primeiro lugar, <strong>a via arterial em questão que foi fechada</strong>, muito mais relevante que o Canal de Suez no tocante ao petróleo, e, em segundo lugar, o fator da <strong>possibilidade de destruição física da infraestrutura</strong> associada à produção de petróleo. O impacto real da crise depende principalmente de por quanto tempo a mesma irá perdurar. Quanto mais passageiro o fechamento dos Estreitos for, mais <strong>restritos ao âmbito financeiro</strong> os choques ficarão, e, desde que os danos à infraestrutura sejam limitados, a restauração dos preços pré-crise do petróleo é um<strong> resultado facilmente obtido </strong>no curto prazo.</p><p>Não obstante, o <strong>impacto das expectativas</strong> não pode ser subestimado. Como determinado por Känzig (2020), um evento tal que eleve os preços do petróleo no mercado em 10% tem um <strong>impacto na produção industrial</strong> global em 0,5% em menos de dois anos e contribuiria para um <strong>choque inflacionário</strong> nos EUA de aproximadamente 0,5% em menos de um ano. [8]</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*G3WF55f5saGJ_NGjyTk2Uw.png" /><figcaption>Resultados de Känzig (2020). Cada gráfico representa o impacto percentual que um choque positivo de 10% no preço de petróleo ocorrido no mês 0 (demonstrado no primeiro gráfico) teria em 6 variáveis distintas (cima para baixo, esquerda para a direita): o próprio preço do petróleo, a produção mundial de petróleo, os estoques mundiais de petróleo, a produção industrial global, a produção industrial dos EUA, e o índice de preços nos EUA.</figcaption></figure><p>A interpretação dos resultados acima é relevante no sentido de que deve-se enfatizar que os autores não prevêem que um choque de 10% no preço do petróleo necessariamente terá como resultado final os impactos apresentados. O que o modelo acima apresenta é a <strong>contribuição individual somente do choque do preço do petróleo</strong>, enquanto existem paralelamente vários outros choques. O resultado econômico final se dá pela confluência de todos os choques (fiscal, monetário, cambial, etc.), e a conclusão relevante está em determinar a magnitude e o sinal positivo ou negativo da <strong>relação dos choques de petróleo com as variáveis</strong>. Para as análises seguintes, a mesma lógica deve ser considerada.</p><p>Além dos impactos imediatos e de médio prazo nos preços do petróleo na economia, deve-se considerar também os <strong>impactos de longo prazo</strong> deles, principalmente no tocante ao papel da transição energética e de fontes alternativas de energia. Para países ocidentais (i.e membros da OCDE) que são importadores de petróleo, pode-se observar um efeito positivo e significativo do aumento dos preços de petróleo na adoção de <strong>energias renováveis</strong>. Da mesma forma, a despeito do evidente efeito negativo no crescimento econômico provocado pelo encarecimento do petróleo, a expansão da geração de energia renovável pode <strong>mitigar ou até mesmo compensar</strong> o ônus de um choque petrolífero. A possibilidade do uso de energias renováveis como mitigadoras é estudada por Wang et al. (2023). Neste estudo, é constatado que uma elevação de 1% nos preços do petróleo teria um <strong>impacto negativo de 0,064% no crescimento anual</strong> do produto de uma nação ocidental no longo prazo. Ademais, os autores discutem a relação dos preços do petróleo com o impacto das energias renováveis no crescimento econômico. Concluiu-se que quanto mais caro for o petróleo, maior impacto na variação do PIB um aumento da matriz renovável terá. [5]</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*1eQ69z0g8yPChDU-8_9RZA.png" /><figcaption>Resultado de Wang et al. (2023) Na tabela, apresenta-se dois modelos: um em que os preços do petróleo têm um efeito instantâneo, e outro em que eles tem um efeito defasado. Cada valor na tabela representa o impacto % que a variável na lista da esquerda (E sendo câmbio, K sendo capital, L sendo trabalho, WTI sendo preços do petróleo e RE sendo o estoque de energia renovável) tem no crescimento econômico anual da economia. Cada coluna apresenta uma forma de estimação diferente dos coeficientes. Se o coeficiente não possui um sobreescrito “b” ou “c” a relação que ele apresenta não possui sustentação estatística.</figcaption></figure><p>Enquanto o efeito dos choques petrolíferos nos países importadores é claro, as consequências de um aumento dos preços do petróleo para um país produtor e exportador pode ter um <strong>caráter dúbio</strong>, mas inegavelmente distinto do caso dos importadores. Num âmbito geral, pode-se dizer que os choques de petróleo afetam as nações do Oriente Médio de acordo com as previsões da <strong>“Doença Holandesa”</strong>. Ela é uma “condição patológica econômica” em que uma nação que coloca foco demasiado na exportação de uma commodity passa a experienciar <strong>estagnação e definhamento de outros setores</strong>, carentes de investimentos e tecnologia. Para o caso específico do Irã, Emami e Abdipour (2012) constatam o resultado esperado de que um choque positivo no preço do petróleo possui um <strong>impacto positivo considerável no PIB</strong>, nos gastos do governo e na liquidez da economia, além de um impacto negativo na taxa de câmbio. Não existe simetria entre os choques, com a queda do preço do petróleo provocando impactos de sinal oposto, mas de menor magnitude. [25]</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/748/1*tSIKIorSSn6yet05FA0Apg.png" /><figcaption>Resultados de Emami e Abdipour (2012). Os gráficos apresentam a resposta de diferentes variáveis a choques positivos (posoil) e negativos (negoil). As variáveis em questão são o PIB (dlogGDP) os gastos do governo (dlogG) a liquidez da economia (dlogM2) e a taxa de câmbio real (dlogR)</figcaption></figure><p>“Sintoma” muito comum da Doença Holandesa é constatado no Irã pelo estudo de Farnazegan e Krieger (2019), que demonstra como um choque positivo nos preços do petróleo, além de potencializar o crescimento econômico e o investimento, também tem um <strong>impacto significativo na desigualdade social presente no país</strong>. Principalmente devido ao elevado nível de <strong>corrupção do setor bancário e do Estado</strong> no Irã, o fluxo de capitais adicionais advindos do petróleo provavelmente será direcionado às elites controladoras das grandes estatais de petróleo e/ou dos bancos privados que se beneficiam diretamente do setor. [26]</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/714/1*jKVGuU3Az4CiMxCVWRy9hw.png" /><figcaption>Resultado de Farnazagan e Krieger (2019). O gráfico apresenta a resposta do índice de GINI do Irã a um choque positivo no petróleo.</figcaption></figure><p>Ou seja, apresenta-se um cenário dicotômico em que a consequência direta das crises na região, o encarecimento do petróleo, <strong>beneficia diretamente aos países envolvidos</strong>, pelo menos em uma perspectiva puramente econômica. Para os clientes dos países do Golfo, seja no Ocidente ou no resto do mundo, uma nova crise no Oriente Médio provavelmente será objetivamente ruim, dada a <strong>significância política</strong> de curto prazo dos choques em preços e taxas de juros, ainda que os impactos econômicos reais de longo prazo não sejam claros.</p><p>Posta a relevância geopolítica do Oriente Médio e o papel que a estabilidade da região tem em controlar os preços do petróleo globalmente, a possibilidade de ocorrerem novas crises deve ser <strong>tratada com preocupação</strong> por países que não desfrutam de independência energética. Não obstante, as sucessivas crises no Oriente Médio são <strong>premeditadas</strong>, e não deve-se esperar que elas cessem no curto e médio prazo. Perante tal perspectiva, propõe-se utilizar o <strong>Irã como um estudo de caso</strong> para demonstrar tal ponto, e posteriormente será discutida a plausibilidade do fim das crises na região.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*zeKpw2RNyde-fNYR.jpg" /></figure><h3><strong>Uma Metonímia de uma Região Arquitetada</strong></h3><p><em>A história recente do Irã</em></p><h4><strong>O Monarca</strong></h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/999/0*fqvkaxgQY7HTjiGw.jpg" /><figcaption>Xá Reza Khan Pahlavi, com vestimentas cerimonais.</figcaption></figure><p>Nascido em 1878 nas montanhas da província de Mazandaran, às margens do Mar Cáspio, <strong>Reza Khan Pahlavi</strong> foi criado por sua mãe em Teerã. Tido por seus pares como um homem “dotado de visão, admirável inteligência e liderança natural”, e mais tarde pelos europeus como notoriamente “ignorante e inculto”, Reza Khan marcaria o próximo passo da Pérsia ao caminho da<strong> radicalização reacionária</strong>. [12] [1]</p><p>Nos anos seguintes ao fim da Primeira Guerra Mundial, tentou-se estabelecer, por parte dos britânicos, uma série de <strong>governos fantoches</strong> em seus recém-obtidos Mandatos no Oriente Médio. Como anteriormente descrito, tal foi o caso do Iraque do Rei Faisal e também viria a ser o caso da Pérsia, sede dos <strong>interesses petrolíferos do Império</strong>. Não somente os britânicos, mas também seus rivais, estabeleceram presenças diplomáticas consideráveis na corte do Xá, visando novamente a <strong>obtenção de concessões</strong> para as extensas riquezas naturais do país. [1]</p><p>Reza Khan, tendo subido as patentes militares com notável velocidade, foi o líder de um <strong>golpe de Estado conduzido em 1921</strong>, sustentado por uma retórica de <strong>“regeneração nacional” </strong>e retomada pelos dos recursos que estariam sendo pilhados pelos estrangeiros. O primeiro-ministro foi deposto, com Reza assumindo em seu lugar, e mais tarde o próprio Xá foi expulso do país, inaugurando a nova <strong>dinastia Pahlavi</strong>. A despeito do caráter nacionalista do golpe, tal manobra não teria sido possível sem o <strong>apoio diplomático inglês</strong>, e a proximidade do novo Xá a eles foi bem documentada por contemporâneos. O representante americano, por exemplo, relataria a Washington que Reza era tão próximo dos ingleses que ele era <strong>“praticamente um espião”</strong>. [1] [12]</p><p>O reinado do novo Xá Reza Pahlavi foi marcado pela<strong> dicotomia</strong> entre medidas nacionalistas e a continuidade da política de concessões para empresas estrangeiras. Por um lado, demandou-se da comunidade internacional o abandono do nome “Pérsia” em prol de <strong>“Irã”</strong>, além da <strong>modernização social, política e econômica do país</strong>, com o estabelecimento de universidades, ferrovias, emancipação das mulheres, dentre outras medidas. Por outro lado, as concessões continuaram ocorrendo, com a gigante americana <strong>Standard Oil </strong>recebendo os direitos a reservas recém-descobertas no norte do país. [1] [12]</p><h4><strong>O Revolucionário</strong></h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/400/0*0k63B0TIvpAU5YAH.jpg" /><figcaption>Capa da edição de Janeiro de 1952 da revista TIME. Em destaque está Mohammed Mossadeh, eleito o Homem do Ano.</figcaption></figure><p>Mohammed Mossadegh nasceu em um <strong>berço de ouro</strong>. Sua família possuía importantes cargos públicos no país, que lhes rendiam enorme fortuna e poder político. Mohammed recebeu sua educação formal na Europa, estudando ciência política no atual <strong>Sciences Po</strong>, e Direito na Suíça. Ele retornou ao Irã em 1914, ingressando na carreira política. Sua oposição à ascensão de Reza Khan ao trono iraniano em 1925 forçou o seu retorno à vida privada. [1][13]</p><p>No período entreguerras, o Xá Reza Pahlavi foi capaz de <strong>“reconquistar”</strong> dos ocidentais parte das riquezas petrolíferas do Irã, forçando a <strong>Anglo-Iraniana</strong> a renegociar seu contrato, oferecendo mais royalties e mais cargos a iranianos. A despeito de parcial progresso atingido por Reza, a Segunda Guerra Mundial e o recrudescimento da situação social interna levou à <strong>invasão do país</strong> pelo Reino Unido e pela União Soviética em 1941, motivada pela busca da “proteção da população iraniana contra as privações e dificuldades advindas da presente guerra”. Naturalmente, o interesse real estava na garantia de acesso não somente ao petróleo, mas também toda a <strong>infraestrutura militar </strong>do país. [1]</p><p>Com a deposição de Reza Pahlavi, seu filho <strong>Mohammed Reza Pahlavi</strong> assume o trono. Isso permitiu o retorno de Mossadegh à vida política, onde ele rapidamente conquistou considerável influência. Descrito como um “persa da velha guarda” e que “fedia a ópio”, Mossadegh se tornou o principal <strong>agente político contra os interesses ocidentais</strong> no país, advogando pela rescisão das concessões e o fim dos maus tratos da população e de trabalhadores iranianos por soldados da força ocupante e de funcionários da Anglo-Iraniana.</p><p>Com o fim da Segunda Guerra Mundial e o estabelecimento, “do Báltico ao Adriático, de uma <strong>Cortina de Ferro</strong> ao longo do Continente”, a relação entre o Irã e seus “parceiros” ocidentais passa a ter uma natureza alinhada com a nova <strong>ordem bipolar</strong>. Tendo os ingleses e os soviéticos colocado seus interesses no país em primeiro lugar, prejudicando tanto o esforço de guerra quanto o estado socioeconômico da nação, os americanos passaram a desempenhar um papel de <strong>maior confiança</strong> na corte do Xá. Destaca-se o comportamento cada vez mais errático dos ingleses, passando por sérias dificuldades orçamentárias e de balanço de pagamentos no pós guerra. Nessa conjuntura, os dividendos das operações da Anglo-Iraniana eram não somente um ativo estratégico, mas o <strong>pilar das finanças</strong> do governo de Sua Majestade. [1]</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/600/0*rmgU6qM9pRN8kKvI.jpg" /><figcaption>Substituição da placa de “Cia. Anglo Iraniana” por “British Petroleum” na sede da British Petroleum em Londres.</figcaption></figure><p>Dado o contexto, Mossadegh teve exímia habilidade em capturar o <em>zeitgeist </em>e utilizá-lo para seus objetivos políticos. Ele propôs em 1950 nos Majlis (o parlamento) a <strong>nacionalização de todos os ativos estrangeiros </strong>no Irã e a revogação das concessões. Tal ato inaugurou um período de anarquia no Irã, com o <strong>populista </strong>Aiatolá Kashani incentivando seus apoiadores a utilizarem de “quaisquer métodos para trazer a cabo as mudanças”. Em poucos meses, o Primeiro-Ministro foi assassinado, e o próprio Mossadegh foi eleito em 1951. Seu primeiro e derradeiro ato foi a <strong>nacionalização dos ativos da Anglo-Iraniana</strong>, e a expulsão de todos os funcionários estrangeiros do país. A retórica nacionalista e as políticas de Mossadegh como Primeiro-Ministro o trouxeram grande popularidade internamente, além de reconhecimento internacional. Em 1952, ele seria eleito o H<strong>omem do Ano pela Time</strong>. [1]</p><p>Enquanto isso, em Whitehall, os ingleses cogitaram as mais <strong>extremas medidas </strong>para garantir a manutenção do controle do ouro negro iraniano. Depois de descartar a possibilidade do envio de <strong>paraquedistas </strong>para ocupar a refinaria de Abadan e uma política de embargo ao petróleo iraniano falhar miseravelmente, os ingleses se voltaram aos americanos, e um <strong>golpe foi tramado pela CIA junto ao MI6.</strong> Visando a minimização do impacto institucional, o Xá foi incluído no plano do golpe. A execução do plano foi trágica, com os agentes ocidentais sendo delatados e o golpe descoberto pelo governo e pela população. No posterior caos que se instaurou, o <strong>Xá optou por fugir do país</strong> junto à família imperial, estabelecendo-se em Roma. No Irã, Mossadegh passou por um período de meses em que teria sido possível que ele tomasse o poder para si, dado a destruição da reputação do Xá, acusado de ser um <strong>“saqueador”</strong> do país. Graças aos intensos esforços de uma CIA que se encontrava perante à (altamente improvável) perspectiva de um<strong> alinhamento de Teerã a Moscou</strong>, o Xá foi convencido a abandonar seu covarde exílio e retornar como um “herói que restabeleceria a ordem no país”. Agentes ocidentais foram capazes de remover Mossadegh do poder, restaurando o poder absoluto do Xá e <strong>sufocando setores nacionalistas da política iraniana</strong>.</p><p>A despeito do impacto político tênue e passageiro no Irã do governo Mossadegh, as ideias e o significado da posição dele representaram uma relevante e <strong>duradoura herança para a região</strong>. Mesmo que o papel real da CIA e do MI6 no golpe tenha sido revelado somente em 2013, a <strong>participação das potências ocidentais</strong> nele era nítida para todos. Dessa forma, Mossadegh seria o pai espiritual da crença de que o “Ocidente seria um <strong>agente hipócrita e maligno</strong>, e que a libertação das populações locais dependia da emancipação delas das influências externas”. Tal crença viria a unir um grupo tão diverso quanto Khomeini, Hussein e bin Laden, que representariam a <strong>próxima geração</strong> de guerras, revoluções e instabilidades no Oriente Médio. Nos anos seguintes, o regime do Xá no Irã se fortaleceu politicamente por meio da ampliação do <strong>aparato estatal e da polícia secreta</strong>, a despeito da consolidação da imagem do líder como um homem <strong>fraco e inapto</strong>.</p><h4><strong>O Clérigo</strong></h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/250/0*dGXAK0aH7E_aU8pX.jpg" /><figcaption>Retrato do Aiatolá Ruhollah Khomeini</figcaption></figure><p>Filho de líderes religiosos do islamismo xiita, <strong>Ruhollah Khomeini</strong> foi criado por sua mãe e mais tarde pelo seu irmão. Nascido em 1902, Khomeini se dedicou aos <strong>estudos acadêmicos do Islã</strong> desde cedo, estabelecendo-se na cidade de intelectuais de Qom e se tornando figura relevante a partir dos anos 30. Tendo várias produções acerca de <strong>filosofia islâmica,</strong> direito e ética, ele foi declarado Aiatolá nos anos 50 e mais tarde Grande Aiatolá nos anos 60, concretizando sua posição como <strong>líder do movimento religioso</strong> no país. Khomeini seria expulso do país em 1964, principalmente devido às suas críticas explícitas contra o caráter secular, industrializante e ocidentalizador do regime do Xá. A partir do exílio, Khomeini passou a disseminar sua filosofia de <em>velāyat-e faqīh</em>.<em> </em>Tal doutrina se resume, em linhas muito gerais, na crença de que um <strong>governo de caráter “tutelar”</strong> seria necessário, no sentido de que um <em>faqīh</em>, especialista em jurisprudência islâmica, poderia ser capaz de liderar o governo se não houvesse um <em>imam</em>, descendente de Maomé e portanto “representante infalível do mais alto nível de devoção e das características demonstradas pelo mais nobre mensageiro de Deus (i.e o profeta Maomé)” para governar o país. [1] [14][15][16]</p><p>Os anos 70 foram <strong>anos de bonança</strong> no Oriente Médio. Com a paulatina renegociação das concessões das empresas ocidentais, destacadamente as da <strong>British Petroleum </strong>(antiga Anglo-Iraniana), o fluxo de capitais derivados do petróleo se direcionou cada vez mais aos <strong>governos locais</strong>. Especialmente após os conflitos árabes-israelenses de 1967 e 1973, a <strong>alta dos preços do petróleo</strong> encheu os cofres dos países do Golfo. Tais divisas foram implementadas principalmente na <strong>demagogia</strong>, dado o crescente ônus de distribuir o poder político com a elevação das receitas do petróleo. No caso iraniano, as <strong>ligações à família imperial </strong>eram o principal meio de determinação da classe política, com o regime do Xá se tornando cada vez mais <strong>corrupto</strong> e <strong>ineficiente</strong>, mas inegavelmente rico. Foram adquiridos Concordes para a empresa aérea estatal, e as importações de bens de luxo como rádios e televisões alcançaram níveis nunca antes vistos. A visão do Xá foi além, apoiando pessoalmente um <strong>programa nuclear</strong> no Irã. Por meio de diversos acordos com alemães e franceses, o Irã foi capaz de iniciar o projeto, com um relatório da CIA indicando que um possível programa clandestino de armas atômicas poderia alcançar seus primeiros resultados em meados da década de 80. Parceiro relevante na nuclearização do Irã foram os EUA, que apoiaram a iniciativa desde os anos 50 com o programa <strong>“Atoms for Peace”</strong> da gestão Eisenhower, focado no uso civil da tecnologia. [1]</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*ydwvKXuSXRVLefx8.png" /><figcaption>Recriação do que poderia ter sido o Concorde da IranAir. Os aviões nunca foram entregues, e os pedidos foram cancelados após a Revolução Islâmica.</figcaption></figure><p>Com a estabilização dos ânimos na região, os preços do petróleo voltaram a diminuir no final da década, e com isso o período de euforia econômica no Irã chegou ao fim. Com o crescimento já sendo de um <strong>caráter fortemente desigual</strong>, o fim dele escancarou ainda mais as <strong>mazelas sociais do Irã</strong>, levando multidões a protestar a partir de 1977 nas ruas de Teerã contra a elevação dos custos de vida e opressão governamental. Após o assassinato de seu filho pelo <strong>Savak</strong>, a polícia secreta do Xá, Khomeini viu sua já enorme popularidade explodir, mesmo estando em <strong>exílio na França</strong> após ser expulso do Iraque. O Xá, se viu abandonado politicamente pelos seus aliados do Ocidente, que se mostraram incapazes de controlar a situação, a despeito da tragédia que a queda do regime representaria. Em janeiro de 1979, o Xá fez uma curta declaração oficial no aeroporto de Teerã, afirmando que estava “exausto e necessitando de descanso”, e <strong>partiu para o Egito</strong> para tratar de seu câncer. Poucas semanas depois, o Aiatolá Khomeini aterrissou no mesmo aeroporto, superando expectativas de que ele poderia ser <strong>preso pela CIA </strong>caso voltasse para o Irã, e mobilizou milhares de pessoas para um curto discurso no Cemitério dos Mártires. Com milhões ocupando as ruas e o Xá já em exílio, o governo iraniano foi tomado em menos de duas semanas por Khomeini e seus apoiadores. [1][14]</p><p>Com 4 rupturas institucionais em um período de meio século, o Irã é um bom <strong>representante </strong>das mazelas que afetam o Oriente Médio. No cerne das crises, quase sempre encontra-se uma importante variável na forma do petróleo. Somando a posse de um<strong> recurso estratégico</strong> a <strong>conflitos étnicos</strong> seculares, <strong>arranjos políticos internacionais arbitrários</strong> e <strong>elites corruptas</strong>, seria temerário não surpreender-se com a continuidade do colapso da região. Figuras como Knox D’Arcy e T. E Lawrence representam a<strong> inserção estrangeira</strong> na região, motivada pela exploração do ouro negro. Tal exploração abusiva é permitida e facilitada por elites corruptas como os Xás do Irã, que, em uma tentativa de aumentar suas próprias riquezas, jogam as potências umas contra as outras até que a paciência de alguma se esgote e <strong>medidas drásticas</strong> sejam tomadas. Em um período em que o mundo passou pela modernização e reforma de arcaicas estruturas institucionais, tais quais as herdadas do Império Otomano pela região, o Oriente Médio se viu <strong>preso no passado</strong>, acorrentado pelos interesses de fracos líderes que viam na submissão da nação ao estrangeiro o mais eficiente meio de enriquecimento próprio. Tal conjuntura permitiu a ascensão de<strong> líderes demagógicos</strong>, revolucionários e autoritários, como Mossadegh, Assad, Hussein, Nasser e outros, que mesmo trazendo discursos ufanistas e anti-imperialistas, pouco fizeram para concretizar os desejos de melhora social e institucional que os trouxeram ao poder. Perante o fracasso dos “novos” regimes, cria-se um espaço fértil para o fortalecimento do fundamentalismo religioso e a regressão a <strong>Estados teocráticos</strong>, tal qual ocorreu com o Irã. Às nações que não tiveram golpes de Estado inteiramente bem sucedidos, restaram guerras civis que foram responsáveis pelo <strong>extermínio da riqueza material</strong> e do espírito das nações, tal como ocorreu na Síria, no Iraque, no Iêmen, e em outros países. Nos poucos que não colapsaram, destacadamente os <strong>petroestados </strong>do Golfo, o petróleo permitiu a criação de Estados autoritários e monárquicos, que apresentam ao mundo os dividendos do petróleo em suas luxuosas cidades e midiáticos eventos internacionais, paralelamente ao congelamento do progresso social, político e institucional dos países.</p><p>Inegavelmente, o ouro negro irá manter sua posição como commodity estratégica nas próximas décadas. Quais serão as consequências disso para a região? Perante a crise climática e uma crescente preocupação com descarbonização e transição verde, seria um <strong>possível fim do petróleo</strong> a emancipação do continente ou um decreto da ruína?</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*K-mwyySRJOzKmRVt" /></figure><h3><strong>Futuros Arquitetados</strong></h3><p><em>Perspectivas da transição energética e da geopolítica no Oriente Próximo</em></p><h4>O Aforismo de Tucídedes</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/599/0*ygzrjui45VNaTaKF.png" /><figcaption>Imagem amadora do aeroporto de Dubai após ataque por drones iranianos.</figcaption></figure><p>Como mencionado anteriormente, o presente “choque” do petróleo advindo da crise em andamento no Oriente Médio <strong>não é inédito</strong>, no sentido de que vias arteriais já foram fechadas, a capacidade produtiva dos países do golfo já foi afetada por fatores políticos, e já cogitou-se a intervenção estrangeira na região por uma miríade de motivos. Não obstante, o “choque” financeiro em termos nominais <strong>não é da mesma magnitude </strong>que os choques anteriores, com um aumento de aproximadamente 60% ante a duplicação dos preços em 1973 e 1979. Posta a dissertação sobre a história do Irã e os fatores estruturantes da região, a presente crise é <strong>totalmente premeditada</strong>, tanto no tocante ao Irã quanto à possibilidade de uma crise na região como um todo.</p><p>Desde a Revolução Islâmica de 1979, o regime iraniano tem estabelecido uma doutrina muito clara de<strong> guerra assimétrica</strong> e descentralização operacional e do comando militar. Na Guerra Irã-Iraque de 1980–1988, o conflito foi tratado internamente no Irã como os meios para conquistar a <strong>soberania e a independência </strong>para o país, dado o apoio de grande parte do mundo árabe, dos EUA e da União Soviética ao Iraque de Saddam Hussein. Perante a enorme desvantagem de material, estabeleceu-se no país uma forte tradição militar de <strong>combate de guerrilha</strong>. Com o fim do conflito em 1988, o regime iraniano se dedicou ao estabelecimento de <strong>aliados não estatais </strong>na região, como o <strong>Hezbollah </strong>no Líbano, que teve sua capacidade militar basicamente construída do zero pela Guarda Revolucionária Iraniana, ou os <strong>Houthis </strong>no Iêmen. [17] [18]</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/888/0*24_GEoFIE-tXFIcH.jpg" /><figcaption>Membros do Hezbollah participam de um funeral.</figcaption></figure><p>No pós Guerra Fria, estabeleceu-se no Oriente Médio uma ordem dividida entre nações alinhadas aos EUA e o Irã. As nações que se alinharam aos EUA foram cooptadas pela perspectiva de <strong>proteção militar</strong> em troca de amplo acesso aos mercados internacionais e uma <strong>tolerância das relações israelo-americanas</strong>. Tal ordem, que inclui a maior parte das nações do Golfo, foi estruturada justamente para garantir a <strong>defesa mútua</strong> contra o Irã. Na perspectiva iraniana, tal aliança é, na verdade, uma <strong>aliança ofensiva</strong> contra o regime, estruturada junto à exclusão do Irã do sistema financeiro internacional e o embargo sistemático ao petróleo iraniano. [17][18]</p><p>Dada a posição de <strong>pária </strong>do Irã, a estratégia de atacar as bases do sistema internacional traz pouquíssimos problemas ao regime, e afeta de forma muito mais significativa os inimigos dele. O<strong> fechamento do Estreito de Hormuz</strong>, incrivelmente danoso para Washington e seus aliados, representa uma vitória estratégica para Teerã, capaz de encontrar alternativas ao fechar acordos de fornecimento denominados em outras moedas que não o dólar. Projeções do Goldman Sachs indicam que os países do Golfo podem passar por uma <strong>recessão </strong>de quase 15% do PIB em 2026, se o bloqueio se prolongar até o fim de Abril. Somado o bloqueio aos <strong>ataques à refinarias, óleo e gasodutos</strong>, cria-se uma conjuntura em que não somente se afeta a oferta de petróleo no mercado internacional, mas também a própria capacidade produtiva dos países do Golfo, que irão requerer tempo e capital para retomar a produção. [17][18]</p><p>Com Washington mostrando um <strong>“favoritismo”</strong> cada vez maior a Israel, com certa omissão na defesa do espaço aéreo no Golfo, desenvolve-se um sentimento de <strong>alienação</strong> nos aliados americanos, tornando a perspectiva de manutenção do complexo petrolífero voltado ao Ocidente uma <strong>estratégia temerária</strong> ante às instabilidades regionais e as incertezas que caracterizam o Ocidente moderno. Se tal situação simplesmente levará ao afastamento do Golfo de Washington, voltando suas exportações de petróleo a<strong> clientes alternativos</strong>, ou se isso representará um processo mais complexo de <strong>aprofundamento da transição</strong> dos ditos “petroestados” é a questão mais relevante para a determinação do futuro da região. [17]][18]</p><p>No curto e médio prazo, os fatores estruturantes da instabilidade se mantêm. A<strong> linha de Sykes-Picot </strong>continuará lá, perpetuando a existência dos Estados artificiais da Síria e do Iraque. A <strong>questão curda</strong> não será resolvida, e o <strong>conflito árabe-israelense</strong> não terá fim, especialmente se os Estados do Golfo forem alienados por Washington e perderem o motivo que têm para tolerar a existência de Israel. A história recente da região e a estrutura política das nações, resultado da confluência entre o valor estratégico do petróleo, a corrupção de elites locais e a interferência estrangeira, torna <strong>inevitável </strong>a retomada de conflitos e a propagação desses choques para o mundo na forma de incerteza financeira e econômica acerca do petróleo. Tal conjuntura irá <strong>acelerar a adoção de energias alternativas</strong>, principalmente como forma de soberania energética. Resta então compreender qual a perspectiva atual acerca do petróleo, e como o Oriente Médio será impactado por isso.</p><h4>O Futuro do Ouro Negro</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*c-7YseMEfs43LRn8lrHjOQ.png" /><figcaption>Equipe humanitária faz a instalação de painéis solares em uma vila no Iraque.</figcaption></figure><p>Desde 1972 a agenda climática possui uma significância real na agenda das Nações Unidas e das nações do mundo. A <strong>Declaração </strong>assinada às margens do Norrström inaugurou, ainda que timidamente, a consciência coletiva acerca dos riscos do aquecimento global e da vindoura <strong>crise climática</strong>. Já no alvorecer do segundo quarto do novo século, ela deixou de ser uma perspectiva e se tornou realidade, com seus efeitos sendo sentidos por meio de uma <strong>miríade de fenômenos</strong> ocorrendo por todo o mundo. [19]</p><p>Em setembro de 2020, a British Petroleum (antiga Cia. Anglo-Iraniana e Anglo-Persa) publicou um relatório afirmando que o ano de 2019 seria a <strong>máxima histórica</strong> da demanda global de petróleo, com o choque de demanda provocado pela pandemia somado aos esforços de transição sendo responsáveis pelo início do fim da era do petróleo. Menos de 5 anos depois, a economia mundial havia se recuperado, e a demanda por petróleo <strong>superou seu nível pré-pandemia</strong> em 2023. Com relação aos países desenvolvidos, responsáveis por metade da demanda de petróleo do mundo, percebe-se considerável estagnação dela. No século XXI, a maior parte da nova demanda de petróleo advém da <strong>China</strong>, que quadruplicou seu consumo de petróleo em TWh em menos de 25 anos. [20][21]</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*zYsR6SrURlape_WQIoSgaw.png" /><figcaption>Gráfico representando o consumo de petróleo em TWh dos Estados Unidos, da Europa e dos BRIC.</figcaption></figure><p>O principal uso do petróleo é na forma de <strong>combustíveis</strong>, com aproximadamente metade da demanda atendendo a veículos terrestres e 15% o transporte aéreo. Ou seja, se a procura por petróleo for se elevar nas décadas vindouras, ela ocorrerá pela <strong>expansão do setor aéreo e automotivo</strong>, especialmente nos países emergentes. De acordo com projeções do cenário das “políticas atuais” da Agência Internacional de Energia (AIE), o petróleo perderá praticamente toda a sua participação ou não terá seu uso ampliado em atividades que ele já não é predileto. Tais incluem aquecimento, uso industrial, geração de energia, dentre outros. O <strong>abandono do petróleo</strong> ocorrerá principalmente em economias avançadas, onde o acesso às tecnologias mais recentes é maior. [24]</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*AQ0NI8RV36hE7eTzWG2beg.png" /><figcaption>Gráfico projetando o consumo de petróleo em milhões de barris até 2050. O gráfico da esquerda segrega o uso do petróleo para diferentes aplicações (Carros, transporte terrestre, aviação, transporte marítimo, petroquímicos, outras indústrias, construções e outros) e o gráfico da direita diferencia a demanda de economias avançadas e de economias emergentes/em desenvolvimento</figcaption></figure><p>O maior impacto ocorre na questão da geração de <strong>energia elétrica</strong>, âmbito do qual o petróleo será praticamente removido. Também de acordo com a IEA, o petróleo, que já não é fonte relevante de energia elétrica, deixará de ser utilizado como tal por todo o mundo até no cenário mais pessimista, com a<strong> curiosa exceção s</strong>endo o Oriente Médio, que sozinho representará um terço do uso de petróleo como fonte de energia elétrica em 2050, da mesma forma como o faz na atualidade. [24]</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*Xly-_Wa_vTzuRPEjwvZW9g.png" /><figcaption>Gráfico representado o uso de gás natural, carvão e petróleo para a geração de energia elétrica, separado por regiões ou países.</figcaption></figure><p>Ainda no tocante à energia elétrica, pode-se considerar o possível papel dela no <strong>crescimento econômico</strong> das nações no decorrer do século, com destaque especial para os países emergentes. Tanto a IEA como outras instituições e pesquisadores têm a opinião consensual de que já é realidade o fato de que a adição de nova capacidade de geração de energia elétrica se dá em <strong>grande parte por fontes renováveis</strong>, com isso se intensificando nos próximos anos. Naturalmente, existe uma <strong>correlação</strong>, ainda que fraca, entre a demanda energética per capita e o PIB per capita dos países. Isso pode ser observado especialmente em nações emergentes, com o caso das economias avançadas sendo o contrário. Países como os Estados Unidos e a União Europeia demonstram capacidade em reduzir a chamada <strong>“intensidade energética”</strong>, uma medida de eficiência econômica que representa quanta energia é necessária para gerar uma “unidade” de PIB. O Reino Unido, por exemplo, cortou pela metade desde 2000 sua demanda energética total e também per capita, ao mesmo tempo que experienciou razoável crescimento econômico no período. Por outro lado, países emergentes como a China, a Índia e o Brasil aumentaram consideravelmente sua demanda de energia per capita desde então. [22][23]</p><p>Ou seja, dado que o crescimento da matriz energética como um todo não é uma condição <em>sine qua non</em> para a continuidade do crescimento econômico, e que as fontes renováveis de energia passam a se tornar competitivas em relação às fósseis, é plausível que <strong>não haja grande crescimento da demanda por petróleo no futuro</strong>, mesmo sob um cenário que coadune crescimento econômico e relutância à adoção de políticas verdes. A maior parte da demanda adicional por petróleo irá depender principalmente de <strong>fatores tecnológicos</strong> e não econômicos ou demográficos, como a adoção de carros elétricos e o uso de combustíveis aéreos sustentáveis, destacadamente em países emergentes. Sendo assim, espera-se uma<strong> tímida elevação</strong> da demanda pelo petróleo, sendo a queda dela uma hipótese de um cenário em grande medida otimista. [22][24]</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*90KbmTP0kcdsz_YEf4uXKA.png" /><figcaption>Gráfico representando o uso total de energia do mundo. O gráfico da direita separa as diferentes fontes de energia, e o gráfico da direita separa as diferentes regiões/países.</figcaption></figure><p>Mas qual o significado destes desenvolvimentos para o Oriente Médio? Sendo a principal fonte global de gás natural e petróleo, a acessibilidade das economias locais a tais fontes de energia as torna <strong>extremamente atrativas</strong>, e elas provavelmente não serão deixadas de lado tão cedo pela região. Os dados da AIE refletem isso, com o uso de petróleo e gás natural do Oriente Médio para geração de energia sendo projetado para ser maior ou igual ao da União Europeia em 2050. Como demonstrado na seção anterior <strong>“A Maldição do Ouro Negro”, </strong>os dividendos relativos à expansão do complexo petrolífero são atrativos demais para que isso não seja feito em um cenário de alta dos preços, além de que tais valores poderiam muito bem ser utilizados para <strong>financiar a transição energética ou o desenvolvimento das arrasadas nações da região.</strong></p><p>Por outro lado, a estrutura política das nações, destacadamente o Irã, mas também podendo referir-se a outras, não é propícia para a condução da transição energética. Se o regime se sustenta por meio da restrição do acesso dos dividendos do setor petrolífero a um grupo seleto, atacar a importância do setor significa<strong> atacar a própria base do regime</strong>. Se a posição geopolítica do Estado é dependente do uso do petróleo como commodity estratégica e <strong>artifício de barganha</strong>, não há motivo para que ele contribua para a paulatina extinção do seu principal ás. O próprio relatório da AIE reflete isso, com a projeção da continuidade e até mesmo aprofundamento do papel do Oriente Médio como <strong>principal fornecedor de petróleo para o mundo</strong>. [24]</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*Z3gtZAeOdP14tHRNXEqFpQ.png" /><figcaption>Gráfico demonstrando a participação em milhões de barris por dia na oferta e demanda líquida por petróleo de diferentes países e regiões.</figcaption></figure><p>Obviamente, a possibilidade de estagnação ou queda dos preços do petróleo não é ignorada pelos países do Oriente Médio, destacadamente os países do Golfo, que já realizaram consideráveis passos em direção à <strong>diversificação de suas economias</strong>, com uma crescente relevância de atividades financeiras, de IA e de turismo nos países. Poderia se argumentar que isso foi atingido somente pela <strong>normalização das relações dos países do Golfo com o Ocidente</strong>, e o fim da atuação política da OPEP em níveis tais como foram observados durante a Guerra Fria. Se atentar contra os interesses dos EUA e do Ocidente na região fosse um objetivo relevante, talvez essa diversificação econômica não teria ocorrido, já que garantir a manutenção de elevada participação na produção global de petróleo seria essencial para cumprir tal agenda.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*kX7f3HJbd97xCUx7.jpg" /></figure><h3><strong>A Miragem da Dança de Gaia nas Areias da Arábia</strong></h3><p>Ainda que não na velocidade que os mais radicais adeptos da agenda verde gostariam e que se necessita, o mundo caminha inexoravelmente para a adoção de energias renováveis e o <strong>paulatino abandono do petróleo</strong>. O agravamento contínuo da crise climática escancara a necessidade de lograr a transformação das matrizes energéticas globais, e movimentos para tal estão sendo tomados nas economias avançadas e também nas principais nações emergentes. Enquanto a situação ambiental preocupa o mundo, a realidade no Oriente Médio permanece a mesma que foi estabelecida pela expedição de William Knox D’Arcy um século atrás: <strong>há muito dinheiro a ser feito com o ouro negro localizado abaixo das areias da arábia</strong>. Enquanto a transição não entrar em uma fase mais aprofundada esse será o caso, e cada nova crise na região servirá para elevar a velocidade em que os cofres dos regimes locais são preenchidos.</p><p>Mesmo se o petróleo for abandonado, o <strong>gás natural</strong> tomará seu posto como recurso estratégico principal, e o <em>status quo</em> geopolítico da região será mantido. Os eventos nos últimos 100 anos <strong>arquitetaram o Oriente Médio</strong> para ser um local em que crises e conflitos são a norma, e períodos de estabilidade são idiossincráticos por natureza. Ora, não há porque acreditar que o Oriente Médio deveria ser uma região fracassada. Bagdá foi o centro econômico, cultural e científico do mundo por séculos, enquanto a Europa se fechava em regimes <strong>autoritários, opressivos e retrógrados</strong>, tal como se vê no Oriente Médio na atualidade. Assim, para que haja um futuro para a região, mudanças políticas profundas são necessárias, e o preparo coletivo para o <strong>fim da era do petróleo</strong> é imprescindível. Mesmo que o ouro negro propriamente dito perca sua relevância, a existência do gás natural em abundância na região e a persistência do mesmo como commodity estratégica torna improvável que as mazelas trazidas pelo petróleo deixem de existir ainda nesse século.</p><p>Mas perante a inexorável marcha do progresso, talvez o Oriente Médio realmente seja <strong>impotente</strong>. Mesmo que o mundo seja capaz de salvar Gaia nas décadas vindouras, não será possível admirar sua dança a partir de lá, onde se travarão <strong>intermináveis conflitos</strong> entre etnias e religiões rivais. Aos vencedores destes conflitos, restará o privilégio de reinar sobre as nações destruídas pela ganância daqueles que buscaram o ouro negro, <strong>ruínas </strong>que se firmarão orgulhosamente sobre areias dotadas de uma riqueza inimaginável de recursos naturais.</p><blockquote><strong>Pedro Mendes de Carvalho Reis </strong>— Presidente da <strong>FEAint</strong></blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*s5VfqiUcN-nTl4m9wmJ-yA.png" /></figure><p>Aos interessados nas fontes utilizadas no artigo, todas estão referidas em colchetes no final de cada parágrafo e listadas <a href="https://docs.google.com/document/d/1439dC1uOmp8osCRyU0koTaL4RRpbHYumGviFMBOF6r8/edit?usp=sharing">aqui</a></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=f30a2c69e95b" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Venezuela, mas por quê?]]></title>
            <link>https://medium.com/@feaint.usp/venezuela-mas-por-qu%C3%AA-43a581d8b682?source=rss-c93fb20cbcc3------2</link>
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            <dc:creator><![CDATA[FEA Internacional]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 26 Mar 2026 21:26:50 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-03-26T21:26:50.142Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*b5jffqwGZEq0I20n" /><figcaption>Um rascunho do Presidente Nicolas Maduro e de sua esposa Cilia Flores em um tribunal federal em, Nova York, 05/01/2026. (Jane Rosenberg)</figcaption></figure><p>Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, estão hoje presos em Nova York acusados de “conspiração <strong>narco-terrorista</strong>; conspiração para importação de <strong>cocaína</strong>; posse e conspiração para posse de <strong>metralhadoras </strong>e equipamentos de <strong>destruição</strong>”⁵. Evidentemente, contudo, as razões para a chamada operação <strong><em>Absolute Resolve </em></strong>excedem, e muito, àquelas apresentadas formalmente pelo Departamento de Justiça.</p><p>Analistas e parte do público apresentam vários <strong>motivos </strong>por trás da intervenção: como de hábito, favoráveis a Washington apontam para liberação de um regime <strong>autoritário e para </strong>o combate ao terrorismo e ao narcotráfico; já o discurso de controle das reservas de <strong>petróleo</strong>, antes vinculado a oposição, agora também é ecoado pela própria Casa Branca — uma vez que adere bem melhor à nova base republicana <em>MAGA </em>do<em> </em>que o antigo discurso <em>neocon. </em>Surgiram também interpretações novas, relacionando a <strong>terras raras</strong> e, até mesmo, sugerindo a operação como uma cortina de fumaça para o caso <strong>Epstein</strong>.</p><p>Creio que a maioria desses pontos esteve entre os principais <strong>motivadores </strong>da decisão da <strong>cúpula </strong>da administração Trump, com ênfase na questão <strong>petrolífera</strong>. De toda forma, quero trazer uma perspectiva diferente de como a <strong><em>Absolute Resolve </em></strong>se insere na disputa internacional contemporânea, mais precisamente como uma peça em um jogo de <strong><em>wei qi</em></strong><em>.</em></p><h4>Quemoy e Matsu</h4><p>Em 1954 e depois em 1958, o governo de <strong>Mao Zedong </strong>lançou ataques à Quemoy e Matsu — pequenas ilhas sob o controle do governo de <strong>Taiwan</strong>, mas a menos de 15 km da costa da China continental — naquilo que ficou conhecido como 1ª e 2ª Crises os Estreito de Taiwan. À época, o governo <strong>Eisenhower </strong>reconhecia somente o governo <strong>nacionalista </strong>de Taipei e mantinha a 7ª <strong>frota </strong>protegendo o arquipélago de Taiwan.</p><p>Ainda na primeira crise, os ataques da República Popular <strong>atingiram </strong>posições norte-americanas na ilhas e mataram <strong>dois </strong>de seus oficiais. Como resposta, os americanos <strong>deslocaram </strong>mais porta-aviões para a defesa de Taipei e cogitaram seriamente o uso de <strong>armas nucleares táticas</strong> contra as posições do <strong>Exército de Libertação Popular </strong>no continente, ameaças pelas quais Mao não se abalou:</p><blockquote>O povo chinês não vai se deixar acovardar pela chantagem <strong>atômica </strong>norte-americana. Nosso país tem uma população de <strong>600 milhões</strong> e uma área de 9,6 mil km². Os Estados Unidos não podem <strong>aniquilar </strong>a nação chinesa com sua pequena pilha de bombas atômicas. Mesmo que as bombas atômicas norte-americanas fossem tão <strong>poderosas </strong>que abrissem um buraco até o centro da Terra, […], isso não significaria praticamente nada para o universo como um todo, […] se os Estados Unidos lançarem uma guerra de agressão contra a China, então <strong>a China</strong>, com seu painço, mais seus fuzis, sem dúvida <strong>emergirá vitoriosa</strong>. O povo do mundo inteiro nos dará apoio. (ZEDONG, 1955)¹</blockquote><p>Tal aparente <strong>displicência </strong>de Mao frente à ameaça de um guerra <strong>nuclear </strong>foi mal vista pelo restante da esfera socialista; desafiava a posição de Khrushchev de<strong> coexistência pacifica</strong> com os EUA e punha em risco as nações do leste europeu: primeiras vítimas em uma eventual <strong>guerra total</strong> e sem a disposição de perder 600 milhões de vidas. Essa <strong>tensão </strong>será um dos elementos para a <strong>ruptura sino-soviética</strong> que ficará clara na década seguinte.</p><p>Mas que <strong>ganhos </strong>essas ilhas podiam dar para Pequim para justificar uma quase guerra <strong>nuclear </strong>e uma <strong>tensão </strong>com o aliado mais poderoso? Como Kissinger² aponta, “a crise não tinha, contudo, <strong>nenhum objetivo político</strong>”. As ilhas <strong>não </strong>tinham população expressiva, nem <strong>recursos naturais</strong> e não ofereciam posições significativamente estratégicas em uma eventual invasão nacionalista/norte-americana do continente ou comunista de Taiwan.</p><h4><strong><em>Wei qi</em></strong></h4><p>Sob o olhar estratégico <strong>ocidental </strong>clássico é realmente difícil <strong>entender </strong>essa manobra, mas ela se insere bem na tradição estratégica empregada pela China por séculos. Nela, a <strong>vitória </strong>em <strong>batalha </strong>é <strong>coadjuvante </strong>ao jogo <strong>psicológico </strong>de <strong>longo </strong>prazo.</p><p>Usando novamente Kissinger, a tradição <strong>militar ocidental </strong>é como um jogo de xadrez, no qual o esforço se insere na construção de ataques <strong>precisos </strong>que tomam peças do adversário e, eventualmente, desencadeiam em um <strong>xeque-mate</strong>. Já a chinesa atua mais como um jogo de <strong><em>wei qi</em></strong> (mais conhecido por seu nome japonês, o <em>go</em>) no qual o esforço se direciona em <strong>cercar </strong>as peças do adversário assim como impedi-lo de cercar as suas, isso de forma <strong>ampla</strong>, por todo tabuleiro, o “cerco estratégico”. A <strong>vitória não vem</strong> da <strong>destruição </strong>do oponente, mas de uma <strong>vantagem posicional </strong>marginal.</p><p>Sob esse prisma, a razão de Mao fica clara, ele sinaliza aos <strong>americanos </strong>que não <strong>aceitará passivamente </strong>o “cerco estratégico” no Pacífico ao passo que mostra aos soviéticos que a China adotará uma posição <strong>autônoma</strong>. Sob os riscos, Mao sabia que os EUA <strong>não entrariam </strong>em <strong>guerra </strong>nuclear por conta de dois pedaços de pedra e que a relação com Moscou <strong>ruiria </strong>mais cedo ou mais tarde. Como justificativa para só realizar o bombardeio, e não uma efetiva ocupação, Mao coloca:</p><blockquote>Tudo o que queríamos era <strong>mostrar </strong>nosso <strong>potencial</strong>. Não queremos que Chiang (Chiang Kai-shek, então presidente de Taiwan) fique muito longe de nós. Queremos mantê-lo ao nosso <strong>alcance</strong>. (ZEDONG, 1955)³</blockquote><p>Já na segunda crise, em que os métodos e a justificativas são essencialmente os mesmos, Mao coloca:</p><blockquote>O bombardeio de <strong>Quemoy</strong>, foi nossa deixa para criar uma <strong>tensão </strong>internacional com um propósito. Nossa intenção foi ensinar uma <strong>lição aos americanos.</strong> […] Queríamos ver o que <strong>pretendiam </strong>fazer a <strong>respeito</strong>. (ZEDONG, 1958)⁴</blockquote><p>Em síntese, a <strong>irrelevância geográfica </strong>de Quemoy e Matsu foi compensada por seu <strong>valor simbólico</strong>.</p><h4>A Trump, novamente</h4><p>Duvido que <strong>Rubio, Sec. de Estado, </strong>tenha jogado uma partida de <strong><em>wei qi</em> </strong>ou <strong>Hegseth, Sec. de Defesa, </strong>tenha lido Sun Tzu nos preparativos do <strong>sequestro </strong>de <strong>Maduro </strong>e, definitivamente, a Venezuela — com 28 milhões de habitantes e a maior reserva conhecida de <strong>petróleo </strong>— não se assemelha a pequena <strong>Quemoy</strong>. Então, por que dessa digressão?</p><p>A ideia é <strong>desviar </strong>do ganho <strong>material </strong>e focar na <strong>mensagem </strong>que os EUA transmitem, no <strong>simbolismo </strong>de <strong>invadir </strong>uma capital, <strong>sequestrar </strong>um Chefe de <strong>Estado </strong>— legítimo ou não — e<strong> julgá-lo</strong> em um <strong>tribunal doméstico</strong>, segundo as <strong>leis domésticas.</strong></p><p>Trump dá um sinal prático de que as <strong>ameaças </strong>feitas ano passado (Canadá, Groenlândia, Panamá, Colômbia e a já consumada no Irã) podem ir <strong>além </strong>do campo <strong>discursivo</strong>. A <strong>Moscou, </strong>ele indica que, na disputa do “cerco estratégico” atual, tem a mesma consideração ao<strong> direito internacional</strong> que Putin teve ao invadir a <strong>Ucrânia </strong>— admitindo de forma aberta, sem o malabarismo retórico-legal de Obama ou Bush. A <strong>Pequim </strong>— que cresce com os investimentos na América Latina — ele sinaliza que está <strong>disposto </strong>a usar novamente o “<strong>Big Stick</strong>” de Teddy Roosevelt para assegurar sua nova <strong>Doutrina Monroe</strong>, ao mesmo tempo que aguarda o que “pretendem fazer a respeito<strong>” </strong>— talvez uma eventual resposta em Taiwan?</p><p>Ao mundo, ele comprova abertamente a nova visão de <strong>ordem internacional</strong> baseada na ausência completa do <strong>multilateralismo </strong>e em esferas de <strong>influência</strong>, estas pautadas por relações desiguais entre os centros (até então Washington, Pequim e Moscou) e as periferias (América Latina, Nova Rota da Seda, Belarus, Ucrânia etc).</p><p>Tudo isso (e mais 300 bilhões de barris de petróleo) com uma operação de três horas — uma <strong>pedra </strong>de <strong><em>wei qi</em></strong> a mais no <strong>tabuleiro global.</strong></p><h4>E o Irã na narrativa?</h4><p>O objeto do texto é a intervenção na <strong>Venezuela;</strong> não obstante, seria frágil argumentar sobre a escalada agressiva na política externa de Washington sem vinculá-la à <strong>guerra </strong>por ela promovida.</p><p>Dentro do prisma do <strong><em>wei qi</em></strong>, o Irã seria a próxima peça: a prova que os Estados Unidos não estariam dispostos somente a <strong>sequestrar </strong>os c<strong>hefes de Estado</strong> que julgarem necessário, mas também a <strong>eliminá-los</strong> e não somente em sua <strong>zona de influência</strong> “natural”, como também no ponto mais <strong>sensível </strong>da economia <strong>global</strong>.</p><p>Digo ‘seria’ porque ao contrário da <strong><em>Absolute Resolve</em></strong>, a <strong><em>Epic Fury </em></strong>tem se mostrado imensamente falha em quesitos de execução e manejo de risco. Sem prazo de <strong>término</strong>, sem sinal de <strong>ruptura </strong>no regime de Teerã, sem apoio dos <strong>aliados </strong>— que, ou sofreram ataques diretos (Arábia Saudita, EAU), ou enfrentam o barril de <strong>petróleo </strong>a US$ 110 (OTAN, Japão) — e minando a popularidade interna, a nova <strong>aventura </strong>de Trump promete bem menos que sua antecessora.</p><p>O resultado da nova operação pode definir a <strong>viabilidade da continuidade </strong>da nova <strong>Doutrina de Segurança Nacional</strong> de Trump, e eventualmente, do <strong>próprio governo</strong>. O <strong>Cerco Estratégico</strong> se colapsa a uma partida <strong>xadrez</strong>, na qual uma <strong>peça </strong>mal jogada pode levar à derrota <strong>incondicional</strong>.</p><blockquote>Mateus Lafetá</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/476/0*_2W-pmbpGTMOUk4K.jpeg" /></figure><ol><li>MAO ZEDONG. <em>The Chinese People Cannot Be Cowed by the Atom Bomb: January 28th, 1955 (Main points of conversation with Ambassador Carl-Johan [Cay] Sundstrom, the first Finnish envoy to China, upon presentation of his credentials in Beijing)</em>. In: MAO ZEDONG. <em>Selected Works</em>. v. 5. Pequim: Foreign Languages Press, 1977. p. 152–155. Tradução de Cássio de Arantes.</li><li>KISSINGER, Henry. <em>Sobre a China</em>. Tradução de Cássio de Arantes. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.</li><li>KHRUSHCHEV, Nikita. <em>Khrushchev Remembers: The Last Testament</em>. Tradução e edição de Strobe Talbott. Boston: Little, Brown, 1974. p. 263. Tradução de Cássio de Arantes.</li><li>WU. <em>Inside Story of the Decision Making During the Shelling of Jinmen</em>. [S.l.: s.n.], [s.d.], p. 208. Tradução de Cássio de Arantes.</li><li>AL JAZEERA. <em>What is the US charging Nicolás Maduro with?</em> 5 jan. 2026. Disponível em: <a href="https://www.aljazeera.com/news/2026/1/5/what-is-the-us-charging-nicolas-maduro-with">https://www.aljazeera.com/news/2026/1/5/what-is-the-us-charging-nicolas-maduro-with</a>. Acesso em: 20 mar. 2026</li></ol><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=43a581d8b682" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[“Doutrina Trump” e a Venezuela]]></title>
            <link>https://medium.com/@feaint.usp/doutrina-trump-e-a-venezuela-cd09ce2c7c79?source=rss-c93fb20cbcc3------2</link>
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            <dc:creator><![CDATA[FEA Internacional]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 20 Nov 2025 15:16:07 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-11-20T15:16:07.383Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Desde que <strong>Hugo Chávez </strong>foi eleito presidente da Venezuela, em 1998, como representante da Revolução <strong>Bolivariana</strong>, os governos norte-americanos passaram a ter uma relação tensa e frágil com o país. Isso principalmente porque o governo de Chávez, e posteriormente de Nicolás Maduro, eram contra muitas das práticas estadunidenses consideradas imperialistas pelo governo venezuelano.</p><p>Nos últimos 27 anos, a <strong>Venezuela </strong>foi alvo de muitas disputas políticas, tanto interna, quanto externamente, nas quais os Estados Unidos sempre apoiaram os líderes venezuelanos que tentavam se impor ao governo de Chávez, e posteriormente, ao de <strong>Maduro</strong>. Cabe citar, entre os vários movimentos de <strong>oposição </strong>à revolução bolivariana com apoio dos<strong> Estados Unidos </strong>e, em muitos casos, de países europeus e latino-americanos, a tentativa de golpe por <strong>Pedro Carmona</strong>, em 2002, apoiado pela direita local.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/409/1*A0abiiCQ0lhVQbSR0WyQSg.png" /><figcaption><em>Hugo Chávez e Nicolás Maduro, em 2007.</em></figcaption></figure><p>Em julho de 2024, Nicolás Maduro foi reeleito presidente da Venezuela, em uma eleição posta em <strong>dúvida </strong>por diferentes observadores. A eleição do chavista gerou muitas tensões, visto que a oposição, liderada por <strong>Maria Corina Machado, </strong>denunciou <strong>fraude </strong>na contagem dos votos e seguiu aprofundando as articulações políticas com governos de direita e ultradireita internacionais, cabendo destacar, a partir de 2025, o governo de Trump. Os Estados Unidos e vários outros países reconheceram que o vencedor da disputa eleitoral foi <strong>Edmundo Gonzalez</strong>, aliado de Machado.</p><p>Recentemente, a <strong>instabilidade </strong>política e social da Venezuela escalou de nível, visto que o governo Trump, com apoio da <strong>direita </strong>venezuelana — liderada por Maria Corina Machado, laureada com o prêmio<strong> Nobel da Paz</strong> neste ano — passou a mandar navios de guerra e caças para a região, em um contexto de ataques a supostos <strong>traficantes </strong>de drogas venezuelanos. Desde agosto deste ano, quando as tensões militares entre Estados Unidos e Venezuela começaram a se intensificar, este primeiro passou a justificar sua presença no Mar do Caribe como uma forma de <strong>combater </strong>o tráfico de <strong>drogas</strong>, porém seu interesse em estar perto dessa região, e em especial da costa venezuelana, é bem maior que isso, como é nítido dentro do contexto geopolítico atual.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/289/1*vHlQRB2Ss1_xc1RROd55KA.png" /><figcaption><em>Foto do Presidente Donald Trump na última semana de outubro.</em></figcaption></figure><h4>A POLÍTICA DE TRUMP</h4><p>O governo de Nicolás Maduro, em 2019, <strong>rompeu </strong>relações <strong>diplomáticas</strong> e políticas com o “governo <strong>imperialista </strong>dos Estados Unidos”. Desde essa data até os dias atuais, as <strong>tensões </strong>entre os dois países foram só aumentando, destacando-se as eleições presidenciais do ano passado como um episódio marcante. Isso se dá porque os EUA acusaram <strong>fraude </strong>na votação eleitoral e o governo venezuelano se recusou a mostrar as atas. De tal forma, Washington, e vários outros países do mundo, <strong>não </strong>reconhecem Maduro como o <strong>legítimo </strong>presidente eleito.</p><p>Durante a última semana de outubro deste ano, os EUA realizaram exercícios <strong>militares </strong>em Trinidad e Tobago, países cuja ponta ocidental está apenas a dez quilômetros da Venezuela. Essa presença tão perto da Venezuela chama a atenção e levanta hipóteses sobre o que o governo Trump pretende fazer. Segundo vários estudiosos da política externa estadunidense, o maior interesse do governo é exibir seu poderio militar e criar <strong>medo </strong>e novas tensões tanto para o <strong>exército</strong> venezuelano, quanto para o governo de Maduro. Tudo isso em uma tentativa de <strong>desestabilizar </strong>por completo o governo e o <strong>regime </strong>venezuelano. Diante disso, e tendo em mente o cenário político da Venezuela e a relação do governo Maduro com os Estados Unidos, é claro que a razão principal para a intervenção americana não é verdadeiramente ligada a preservação da liberdade na Venezuela ou mesmo o combate ao narcotráfico.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/440/1*DDaOk8VzuB2Uplq3c_TcOw.png" /><figcaption><em>Montagem do presidente Maduro, à esquerda, e Trump, à direita.</em></figcaption></figure><p>Muitas questões são levantadas em torno da estratégia e do objetivo que Trump pretende atingir com a sua nova campanha militar. Segundo o presidente americano, os Estados Unidos estão em conflito <strong>armado </strong>com os <strong>cartéis </strong>locais, com o objetivo de acabar com a entrada de drogas <strong>venezuelanas </strong>nos EUA. Em resposta ao envio do maior porta-aviões nuclear do mundo, <strong>USS Gerald Ford</strong>, estar a caminho da Venezuela, Maduro acusou os EUA de estar “fabricando uma nova e eterna guerra” contra ele. Além de alegar que não há <strong>provas </strong>de que os barcos atacados estavam efetivamente levando drogas.</p><p>Sobre essa acusação, o diplomata americano e ex-embaixador John Feeley afirmou que a maioria das drogas que entram nos Estados Unidos utilizam das <strong>fronteiras </strong>mexicanas e são traficadas, na maioria das vezes, pelos próprios cidadãos americanos. Assim, os ataques às embarcações é extremamente <strong>criticado</strong>, visto que o <strong>assassinato </strong>de civis ocorre sem que haja informações de suas identidades e do tipo de carga que estava sendo transportada. Até o dia 10 de novembro de 2025, já haviam sido mais de 20 ataques à embarcações, o que resultou em <strong>76 mortos.</strong></p><p>O representante da Venezuela nas Nações Unidas, Samuel Reinaldo Moncado, disse que essas ações de Trump não são de autodefesa, mas sim de <strong>execução extrajudicial</strong>. Além disso, o governo venezuelano afirmou que os ataques às embarcações fazem parte de uma operação bem maior que pretende <strong>derrubar </strong>o <strong>regime </strong>de Nicolás Maduro.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/888/0*U-w1j2t63Iku2msJ.gif" /><figcaption><em>Embarcação venezuelana alvo de ataque aéreo americano.</em></figcaption></figure><p>O governo Trump considera que Maduro é um presidente <strong>ilegal</strong>, comandando um regime <strong>ditatorial </strong>e responsável por um gigantesco tráfico de drogas extremamente danoso para os americanos. Assim sendo, o governo americano está oferecendo uma recompensa de <strong>50 milhões de dólares</strong> para quem repassar informações que possam ajudar a capturar Maduro, o qual é acusado por conspiração <strong>narcoterrorista</strong>, importação de <strong>cocaína </strong>e conspiração de usar e carregar <strong>armas </strong>e dispositivos destrutivos.</p><p>Ressalta-se que a Venezuela possui um papel geopolítico estratégico, não só por sua localização e considerável extensão territorial, mas principalmente por conter a maior reserva de <strong>petróleo </strong>do mundo. Tal fato faz com que ela seja alvo de disputas geopolíticas entre grandes potências, como China e EUA. Sobre essas disputas, junta-se o fato de que os Estados Unidos reativou uma espécie de nova <strong>Doutrina Monroe</strong>, que preza pela política de desenvolvimento interno dos EUA, como se nota no slogan político trumpista “<strong>Make America Great Again</strong><em> (MAGA)”</em>. Ademais, análogo à Doutrina Monroe, a “Doutrina Trump” considera como direito e “<strong>dever</strong>” dos EUA influenciar o Continente Americano e intervir em governos que eles consideram ilegítimos.</p><p>Em aparente contradição, boa parte do núcleo ideológico “MAGA” é mais <strong>isolacionista </strong>e prega pela <strong>não-intervenção </strong>— sendo contrárias às ocupações do Afeganistão e Iraque, por exemplo. Tal incongruência pode ser uma explicação do porquê o apelo ao discurso de <strong>combate às drogas</strong> é mais forte do que o de <strong>democracia e liberdade</strong> — é um subterfúgio para compatibilizar uma invasão com a postura de supostamente não-intervenção, já que passa a ser a solução de um <strong>problema doméstico.</strong></p><p>Além de sua atuação sobre a Venezuela, no início do ano, Trump pressionou o <strong>Panamá </strong>para reduzir suas parcerias comerciais com a China e a atuação desta sobre o Canal do Panamá, como parte de sua política de dominação das Américas. Algo parecido ocorreu com a <strong>Groenlândia</strong>, quando Donald Trump disse que era crucial que os Estados Unidos <strong>controlassem </strong>a ilha para o bem-estar do país.</p><p>A pressão sobre a Venezuela expressa um movimento da <strong>direita internacional </strong>que busca pressionar a todos os países que se contrapõem a esta vertente ideológica e atualmente, ao atual governo norte-americano. Esse dispositivo de denominar <strong>narcotraficantes </strong>como terroristas é uma ferramenta de <strong>intervenção estrangeira </strong>que é semelhante à qual foi defendida após a operação policial ‘<strong>Contenção</strong>’ que ocorreu no Rio de Janeiro em 28 de Outubro e que deixou mais de cem mortos — incluindo quatro policiais. Isso porque o pensamento de que os <strong>traficantes </strong>de <strong>drogas </strong>são terroristas causa uma razão “<strong>justificável</strong>” para que eles sejam eliminados a qualquer custo, tanto <strong>financeiro</strong>, quanto de <strong>vida</strong>.</p><p>Logo, nota-se que a pressão econômica e política dos <strong>Estados Unidos</strong> de agir de modo a <strong>desestabilizar </strong>governos de países que ele considera <strong>corruptos, ditatoriais e ilegais</strong> — os quais, na prática, são contra o imperialismo americano — é uma estratégia antiga do país e já se repetiu várias vezes na história. A situação da Venezuela é mais uma das intervenções estadunidenses justificadas no discurso de “defender a democracia e o <strong>bem-estar</strong> dos americanos”: é “dever” dos EUA combater e acabar com o suposto <strong>narcoterrorismo </strong>venezuelano que leva drogas para o país.</p><p>Diante disso, é claro que a América Latina, na opinião dos líderes de direita, como Trump, não deixou de ser o “quintal” dos Estados Unidos. A situação atual da Venezuela é um exemplo concreto da força de <strong>coerção </strong>propagada pela “Doutrina Trump”: sob o pretexto de combater um “regime autoritário” e o “narcoterrorismo”, o governo americano <strong>potencializa </strong>sua projeção de <strong>poder </strong>e ameaça um regime que vai contra seus <strong>interesses</strong>.</p><blockquote>Maria Freire Carvalho</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/476/0*1qadGanXAytQqTNH.jpeg" /></figure><p><strong>Fontes Bibliográficas</strong></p><p><a href="https://www.aljazeera.com/news/2025/5/26/venezuela-election-results-who-lost-won-and-what-next">https://www.aljazeera.com/news/2025/5/26/venezuela-election-results-who-lost-won-and-what-next</a></p><p><a href="https://www.theguardian.com/us-news/2025/oct/23/trump-venezuela-land-strikes">https://www.theguardian.com/us-news/2025/oct/23/trump-venezuela-land-strikes</a></p><p><a href="https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/10/ameaca-militar-de-trump-a-venezuela-sobe-de-patamar.shtml">https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2025/10/ameaca-militar-de-trump-a-venezuela-sobe-de-patamar.shtml</a></p><p><a href="https://www.aljazeera.com/news/2025/10/28/is-trump-pushing-for-regime-change-in-venezuela-where-else-is-he-meddling">https://www.aljazeera.com/news/2025/10/28/is-trump-pushing-for-regime-change-in-venezuela-where-else-is-he-meddling</a></p><p><a href="https://elpais.com/america/2025-10-28/la-amenaza-militar-de-estados-unidos-precipita-la-incertidumbre-economica-y-agrava-la-crisis-inflacionaria-en-venezuela.html">https://elpais.com/america/2025-10-28/la-amenaza-militar-de-estados-unidos-precipita-la-incertidumbre-economica-y-agrava-la-crisis-inflacionaria-en-venezuela.html</a></p><p><a href="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/10/30/navio-de-guerra-eua-deixa-trinidad-e-tobago-tensoes-venezuela.ghtml">https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/10/30/navio-de-guerra-eua-deixa-trinidad-e-tobago-tensoes-venezuela.ghtml</a></p><p><a href="https://www.youtube.com/watch?v=HMhu9gSWrkg">https://www.youtube.com/watch?v=HMhu9gSWrkg</a></p><p><a href="https://i.metroimg.com/7ReGLXBfhlOyrEIhiqagwahe7eaq92ZWQJLUC471bUQ/w:1200/q:85/f:webp/plain/2025/10/12191636/donald-trump-air-force-one.jpg">https://i.metroimg.com/7ReGLXBfhlOyrEIhiqagwahe7eaq92ZWQJLUC471bUQ/w:1200/q:85/f:webp/plain/2025/10/12191636/donald-trump-air-force-one.jpg</a></p><p><a href="https://ichef.bbci.co.uk/news/1024/cpsprodpb/2ccd/live/0aed6580-b039-11f0-ba75-093eca1ac29b.png.webp">https://ichef.bbci.co.uk/news/1024/cpsprodpb/2ccd/live/0aed6580-b039-11f0-ba75-093eca1ac29b.png.webp</a></p><p><a href="https://images.ft.com/v3/image/raw/ftcms%3Ac4ba77c6-08ae-4232-8fb6-8f46abbb4df2?source=next-article&amp;fit=scale-down&amp;quality=highest&amp;width=700&amp;dpr=2">https://images.ft.com/v3/image/raw/ftcms%3Ac4ba77c6-08ae-4232-8fb6-8f46abbb4df2?source=next-article&amp;fit=scale-down&amp;quality=highest&amp;width=700&amp;dpr=2</a></p><p><a href="https://www.theguardian.com/us-news/2025/nov/02/three-killed-in-us-military-strike-on-alleged-drug-vessel-in-the-caribbean">https://www.theguardian.com/us-news/2025/nov/02/three-killed-in-us-military-strike-on-alleged-drug-vessel-in-the-caribbean</a></p><p><a href="https://www.bbc.com/news/articles/c74x4m71pmjo">https://www.bbc.com/news/articles/c74x4m71pmjo</a></p><p><a href="https://c.files.bbci.co.uk/114EB/production/_101619807_maduroperfilafp2007.jpg">https://c.files.bbci.co.uk/114EB/production/_101619807_maduroperfilafp2007.jpg</a></p><p><a href="https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/11/10/eua-bombardeiam-mais-dois-barcos-no-pacifico-6-morrem.ghtml">https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/11/10/eua-bombardeiam-mais-dois-barcos-no-pacifico-6-morrem.ghtml</a></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=cd09ce2c7c79" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[O Dólar como Instrumento de Poder Global: Entre Economia e Geopolítica]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[FEA Internacional]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 15 Nov 2025 14:13:03 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-11-15T21:19:43.427Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h3>Estados Unidos e o dólar: uma simbiose</h3><blockquote>“A <strong>dominância </strong>do dólar americano é tanto uma <strong>causa </strong>quanto uma <strong>consequência </strong>do poder dos Estados Unidos.” — Título do artigo da Catham House.</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*e8lRVuzu-VWEFhWtPr651g.jpeg" /></figure><p>O dólar tem ocupado a posição de <strong>moeda dominante</strong> no sistema internacional há pelo menos <strong>oito décadas</strong>, refletindo não apenas sua força econômica, mas também o papel geopolítico central que desempenha no cenário internacional. Falar sobre o dólar, aliás, é inevitavelmente falar sobre os Estados Unidos — a principal potência <strong>econômico-militar </strong>da era contemporânea. Se este tem uma pujança tão notável, em parte ela é explicada por conta da influência e da força que essa moeda desempenha para a sua hegemonia no mundo. Por meio do dólar, os Estados Unidos são capazes de financiar <strong>déficits </strong>com juros baixos, sustentar níveis massivos de investimento interno, financiar projetos do <strong>complexo industrial-militar</strong> e atrair capitais estrangeiros com grande facilidade. Ao mesmo tempo, o país tem <strong>solidez </strong>e <strong>estabilidade </strong>econômica notáveis, caracterizado por baixas taxas de inflação e transparência nas políticas monetárias do Banco Central, o que se traduz em uma <strong>confiança </strong>maior dos investidores externos. Com isso, o status de sua moeda é reforçado, já que há uma aceitação ampla em transações comerciais e <strong>financeiras </strong>internacionais. Os Estados Unidos e dólar, então, constituem um <strong>amálgama </strong>inseparável, uma unidade simbiótica: o poder econômico e geopolítico do país sustenta a confiança na moeda, ao mesmo tempo em que a <strong>centralidade </strong>do dólar reforça a hegemonia norte-americana no panorama internacional — um sistema que se <strong>retroalimenta</strong>.</p><h3>Do ‘Real de a Ocho’ ao ‘Greenback’: A origem de uma moeda hegemônica</h3><p>A palavra “dólar” vem do alemão Thaler, nome dado a uma moeda de prata europeia que era cunhada no século XVI, no vale de <strong>Joachimsthal</strong>, na região da Boêmia. Era extremamente popular na Europa como meio de troca, e com o tempo, foi assumindo outros nomes: daalder (holandês), daler (escandinavo) e dollar (inglês). Já na América do Sul, durante os séculos XVI e XVII, os espanhóis exploravam e controlavam as maiores minas de <strong>prata </strong>do mundo — como a de Potosí, na Bolívia — através das quais produziam a moeda conhecida como “real de a ocho”. Também chamada de “dólar espanhol”, foi uma moeda tão cobiçada que sua hegemonia no comércio global se estendeu por mais de 300 anos, além de ter sido utilizada como modelo para o desenvolvimento do dólar norte-americano. Tratava-se de uma moeda que circulava em todo o império colonial espanhol, incluindo as colônias britânicas da América do Norte — era inclusive mais utilizada do que a própria libra esterlina inglesa nesse território.</p><p>Mas foi no século XVIII, mais especificamente em 1792, através da <strong>‘Lei da Moeda’ </strong>que o dólar americano foi criado, no período pós-independência, em que se fez necessário para os estadunidenses o afastamento da influência britânica e a integração nacional. As primeiras moedas cunhadas tinham lastro <strong>bimetálico </strong>— em prata e ouro –, já as cédulas verdes como se conhece atualmente, também chamadas de “<strong>Greenbacks</strong>”, começaram a ser produzidas durante a <strong>Guerra Civil Americana</strong> (em 1861) e marcou a história do país por ter sido a primeira grande emissão de moeda fiduciária dos EUA. O dólar, então, evoluiu de seu lastro inicial em ouro e prata para uma <strong>moeda fiduciária</strong>, amparada pela “plena fé e crédito” do governo americano desde o fim do padrão-ouro em 1971.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/647/1*neULOn_2jU9zOiuFMlw4jg.jpeg" /><figcaption>Frente e Verso: moeda espanhola de prata “Real de a Ocho”</figcaption></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/250/1*noUQgjESHPwy3xuIXn59sA.jpeg" /><figcaption>Nota de um dólar (1862), também chamado de ‘Greenback’</figcaption></figure><h3>A Conferência de Bretton Woods inaugura a “Era Dólar”</h3><p>A Conferência de Bretton Woods refletiu a hegemonia americana no pós-guerra, evidenciando, também, cenários totalmente opostos: de um lado, Europa e boa parte da Ásia <strong>devastadas física </strong>e <strong>financeiramente</strong>, e do outro os Estados Unidos, que emergiram como a maior potência<strong> econômica-militar global</strong>. Em 1945, nesse sentido, eles já produziam mais da metade de todos os bens manufaturados do mundo. As exportações representavam mais de <strong>um terço do total global, </strong>os EUA detinham cerca de<strong> dois terços de todas as reservas de ouro disponíveis </strong>— armazenados no impenetrável Fort Knox. As bases foram consolidadas para que os americanos pudessem protagonizar a <strong>“reconstrução mundial</strong>” e liderar a nova ordem econômica no pós-guerra. E foi antes mesmo de a Primeira Guerra acabar, então, que ocorreu a Conferência de Bretton Woods, no ano de 1944, no Estado de New Hampshire, Estados Unidos.</p><p>Reunindo 44 países, o cerne do encontro orbitou, sobretudo, na preocupação de uma nova <strong>crise financeira global</strong> surgir, semelhante à ocorrida em 1929, notoriamente conhecida como a ‘Grande Depressão’. Por conta disso, houve a necessidade do estabelecimento de um sistema monetário internacional estável e que substituísse o <strong>padrão-ouro</strong> vigente até o momento, já que este mostrava-se instável — principalmente no período entreguerras — e com pouca flexibilidade econômica. Além disso, organizações foram criadas com o intuito de monitorar o fluxo e o uso de recursos entre as nações, como, por exemplo, o Fundo Monetário Internacional (<strong>FMI</strong>) e o Banco Mundial. Na Conferência de Bretton Woods, as taxas de câmbio das principais moedas foram indexadas ao dólar, enquanto o dólar mantinha uma conversão fixa em ouro, à razão de US$ 35 por onça. O âmago do <strong>protagonismo </strong>dessa moeda residia justamente nas massivas reservas de ouro acumuladas pelos Estados Unidos ao final da Segunda Guerra, o que colocou o dólar no centro do novo sistema monetário internacional. A partir desse arranjo, consolidou-se a “<strong>Era Dólar</strong>”: o ‘greenback americano’ passou a ser a principal referência para o comércio e as transações globais, tornando-se símbolo da hegemonia econômica estadunidense no pósguerra e instrumento fundamental de sua influência política e financeira sobre o restante do mundo.</p><blockquote>“Estamos aqui reunidos para estabelecer as bases de uma economia mundial <strong>dinâmica</strong>, na qual os povos de todas as nações possam realizar plenamente seu <strong>potencial </strong>em um ambiente de <strong>paz</strong>.” — Henry Morgenthau, secretário do Tesouro dos Estados Unidos e presidente da Conferência de Bretton Woods, dita em seu discurso de abertura em 1º de julho de 1944.</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/336/1*3tQ5ix6z04ySMzH_fwm4ZQ.jpeg" /><figcaption>Futuro após a 2ª Gerra Mundial. Delegados de 44 países participam da Conferência de Bretton Woods, em New Hampshire, nos EUA</figcaption></figure><h4>Entre o Ouro e o Papel: o declínio do padrão dólar-ouro</h4><p>O Acordo de Bretton Woods consagrou a ‘Era Dourada’ de <strong>prosperidade </strong>econômica do capitalismo, marcada por um nível de <strong>estabilidade </strong>e crescimento anteriormente <strong>inatingível</strong>. Ao atrelar as moedas ao dólar americano e, em última estância o ouro, o novo sistema proporcionou um ambiente financeiro <strong>previsível</strong>, o que <strong>reduziu </strong>o <strong>risco </strong>de flutuações cambiais. As nações afetadas pela guerra, beneficiadas pelo novo arranjo, puderam planejar recuperações econômicas sem a incerteza da volatilidade das taxas de câmbio. Nessa ótica, a nova configuração fez com que os países precisassem manter dólares em suas <strong>reservas internacionais</strong> para estabilizarem suas próprias moedas — o que, na prática, significava o fornecimento de crédito para os estadunidenses. Além disso, os Estados Unidos detinham a capacidade singular de emitir sua própria moeda para custear despesas externas, como o <strong>Plano Marshall</strong> na Europa e diversos projetos de caráter militar. Esse poder, ao conferir uma vantagem sem precedentes no cenário internacional, ficou conhecido como “<strong>privilégio exorbitante</strong>”, expressão cunhada pelo ministro francês Valéry Giscard d’Estaing.</p><p>O padrão dólar-ouro, no entanto, apresentou falhas cruciais que comprometeram sua própria sustentação. À medida que os Estados Unidos expandiam seus gastos externos — especialmente com a <strong>Guerra do Vietnã</strong> e programas sociais domésticos –, o volume de dólares em circulação ultrapassou em <strong>demasia as reservas de ouro existentes</strong>. Essa discrepância gerou desconfiança quanto à capacidade americana de manter a conversão do dólar em ouro a US$ 35 por onça, dando origem ao chamado dilema de Triffin, que expunha a contradição entre a necessidade de emitir dólares para sustentar o sistema e a perda de credibilidade que isso provocava. Países como a França e Alemanha, nesse contexto, passaram a exigir a conversão de seus dólares em ouro, pressionando ainda mais as reservas americanas. Entre 1957 e 1967, os Estados Unidos perderam cerca de <strong>US$11 bilhões em ouro e US$10 bilhões em passivos para autoridades monetárias</strong> <strong>externas </strong>(Gráfico 1).</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/375/1*H5jYjoj0eMznVRSsUugj8w.png" /><figcaption>Gráfico 1 — Reservas monetárias de ouro e dólares, os Estados Unidos e o resto do mundo, 1951–1971 Fonte: IMF, International Financial Statistics; U.S Congress, Report to the Congress of the Comission on the Role of Gold in the Domestic and International Monetary Systems, vol 1</figcaption></figure><blockquote>“O único <strong>erro </strong>foi que o compromisso de <strong>conversão </strong>em <strong>ouro </strong>deveria ter sido encerrado muito antes. Não deveríamos ter mantido esse compromisso em nenhum momento.” — Milton <strong>Friedman</strong>, economista vencedor do prêmio Nobel de Economia em 76</blockquote><p>Em 1971, incapaz de conter a fuga de ouro e a crise de confiança, o presidente americano Richard Nixon <strong>suspendeu </strong>a <strong>conversibilidade </strong>do dólar, <strong>encerrando o sistema de Bretton Woods </strong>— evento que, precisamente, foi chamado de ‘Nixon Shock’. Com efeito, a “<strong>Era Dourada</strong>” inaugurada em 1944 terminou, e o mundo ingressou em uma nova fase da ordem monetária internacional, agora baseada na confiança — e não mais no ouro — como sustentação do poder do dólar.</p><h3>Os petrodólares e o aliado no Oriente Médio</h3><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/278/1*t9_uw_hI7ADuVO-pxN9NSQ.jpeg" /><figcaption>US President Nixon and King Faisal of the Kingdom of Saudi Arabia, after inking the history deal in June, 1974.</figcaption></figure><p>O fim do padrão dólar-ouro, embora necessário aos Estados Unidos, representava também o <strong>risco </strong>de uma <strong>perda de credibilidad</strong>e na moeda, já que estava sem qualquer tipo de lastro. E foi nesse panorama de <strong>incerteza </strong>que os EUA, em busca da manutenção da hegemonia global do dólar, buscaram um novo pilar de sustentação: o petróleo, o “<strong>ouro negr</strong>o” dos americanos.</p><p>Em 1974, nesse contexto, os Estados Unidos e a Arábia Saudita firmaram um acordo que ditaria, até os dias atuais, as dinâmicas comerciais dessa commodity tão relevante — e disputada — entre os países. Esse pacto resultou em uma cooperação entre ambos os países: a <strong>Arábia Saudita</strong> venderia petróleo exclusivamente em dólares e reinvestiria em títulos do tesouro americano, e em troca, os estadunidenses ofereceriam proteção militar e cooperação tecnológica. Pouco tempo depois, os demais membros da <strong>OPEP </strong>— Irã, Kuwait, Emirados Árabes, Qatar, entre outros — aderiram ao modelo, consolidando definitivamente o “sistema de petrodólares”. Nesse sentido, os petrodólares são basicamente dólares americanos recebidos através das exportações de petróleo, e representam a principal fonte de receita e riqueza para muitos membros OPEP, por exemplo.</p><p>Esse acontecimento reforçou ainda mais a hegemonia do dólar, e dos americanos consequentemente, já que esse recurso natural estratégico, a commodity mais vendida no mundo, passou a ser <strong>cotada exclusivamente nessa moeda.</strong> Para se ter ideia da dimensão disso, de acordo com o World Oil Statistics, estima-se que 36 bilhões de barris são vendidos por ano ao redor do mundo. Além disso, segundo dados da Tendata, em 2024, as exportações globais de petróleo cru foram avaliadas em aproximadamente <strong>US$1,26 trilhão,</strong> demonstrando, assim, a força geopolítica que esse recurso exerce sobre o dólar — e vice-versa.</p><p>Após o sucesso do arranjo com o petróleo, outras commodities — como ouro, cobre, soja, trigo e minérios — também passaram a ser cotadas na <strong>moeda norte-americana</strong> em mercados internacionais.</p><h3>‘Le privilège exorbitant’ e os pilares do sistema monetário hegemônico</h3><p>O já mencionado “privilégio exorbitante” americano, termo cunhado pelo ex-ministro de finanças francês, Valéry Giscard d’Estaing, designa a vantagem excêntrica dos Estados Unidos no sistema monetário internacional. Isso ocorre porque o dólar, provável invenção mais bem-sucedida dos americanos, é a principal moeda de reserva no globo. Com isso, os Estados Unidos, amparados pela égide de suas cédulas verdes, são capazes de garantir uma série de fatores econômicos e geopolíticos cruciais que os mantém como a maior potência atual, tópico que será discutido ao final do artigo. Mas, afinal, como funciona o sistema hegemônico do dólar?</p><h4><strong>Moeda de reserva internacional</strong></h4><p>O dólar tornou-se a principal moeda de reserva internacional desde Bretton Woods e, atualmente, responde por cerca de 58% das reservas cambiais globais, conferindo aos Estados Unidos importantes vantagens econômicas e geopolíticas (Gráfico 2). Em termos comparativos, o euro, que é a segunda moeda mais usada como reserva internacional, representa “apenas” 20% do total. O Brasil, por exemplo, possui reservas em dólares que correspondem a aproximadamente US$329,7 bilhões, o que, em termos percentuais, é cerca de 80% das reservas internacionais brasileiras (Gráfico 3). É possível analisar, porém, uma significativa queda na porcentagem da participação do dólar, assunto esse que será abordado mais à frente.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/851/1*6-RqnQbzgViiGz49Tq7Kxw.png" /><figcaption>Gráfico 2: As reservas cambiais internacionais globais Fonte: Federal Reserve</figcaption></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/398/1*JlfrmPUiRaWHtmGQinLm_Q.jpeg" /><figcaption>Gráfico 3: Composição das reservas internacionais do Brasil Fonte: Banco Central</figcaption></figure><p>Ao manterem parte de suas reservas em dólares, os demais países, na prática, financiam a economia dos EUA: compram ativos denominados na moeda norte-americana — como títulos do Tesouro e depósitos bancários — gerando uma demanda contínua por eles. Essa demanda, por sua vez, permite os Estados Unidos tomarem empréstimos com taxas de juros mais baixas, ou seja: de forma mais barata.</p><h4><strong>Moeda de dívida e comércio</strong></h4><p>A primazia do dólar, de fato, representa inúmeros benefícios aos Estados Unidos, entre os quais se destaca a capacidade de financiar déficits fiscais e em transações correntes a baixo custo. Existe, nesse sentido, uma alta e constante demanda por ativos denominados em dólares, ao passo que a maioria das transações financeiras internacionais são feitas por meio dessa moeda.</p><blockquote>“A forte demanda por dólares também permite que o governo, as empresas e os consumidores norte-americanos se endividem junto a credores estrangeiros em dólares, em vez de em moedas estrangeiras. Como resultado, o valor dessa dívida não depende das flutuações nas taxas de câmbio” — Trecho extraído do relatório “The U.S. Dollar as the World’s Dominant Reserve Currency”, da Congressional Research Service (CRS).</blockquote><p>Em termos comerciais, o dólar representa aproximadamente entre 80% e 90% de todas as transações internacionais. Isso significa que, em uma transação comercial entre Brasil e China, por exemplo, na qual há compra de soja brasileira pelo país asiático, o pagamento será feito em dólares — sem que os Estados Unidos sequer façam parte do acordo. É como se, em outras palavras, as cédulas verdes americanas fossem praticamente “onipresentes” no mundo moderno e nas suas dinâmicas operacionais.</p><h4><strong>Moeda referência para as commodities</strong></h4><p>O dólar também permeia de forma determinante o mercado internacional de commodities, ao passo que muitas delas, como o petróleo, carvão, café, carnes, metais e ouro são cotadas nessa moeda — expressando uma estreita e profunda relação entre o preço desses produtos e o valor do dólar. Segundo um estudo da Bank for International Settlements (BIS), entre 1986 e 2020, a correlação entre o índice real do dólar e o preço das commodities foi fortemente negativa. Essa correlação, no entanto, tem demonstrado uma reversão desde a pandemia do covid-19: apesar de os preços das commodities terem subido, o dólar também subiu cerca de 20%, ao contrário da depreciação esperada de 7% — algo fora do padrão histórico. Mas, independentemente da correlação, se é positiva ou negativa, o fato é que o dólar continua sendo o centro de gravidade do sistema econômico internacional: a moeda que dita preços, orienta fluxos de capital e define, em última instância, aqueles que sentem mais intensamente os choques e as marés da economia global.</p><h3>Os Estados Unidos e o dólar exportam crises e inflação ao mundo</h3><p>Uma das formas de reiterar o conceito da força geopolítica do dólar é a partir das consequências político-econômicas que essa moeda exporta para o globo através de seu funcionamento — seja ele positivo, ou não. De uma maneira excêntrica, os acontecimentos internos dos Estados Unidos, que envolvem necessariamente os dólares, têm seus efeitos colaterais nas mais longínquas nações ao redor do mundo. Isso é nítido, pois, ao longo da História, diversas crises generalizadas afetaram países que estavam distantes — territorialmente, politicamente e culturalmente — do epicentro norte-americano.</p><p>Não apenas crises, mas a inflação também é exportada: as decisões relativas à política monetária do Federal Reserve, o Banco Central americano, refletem no mundo as dinâmicas de atuação desse órgão nos Estados Unidos. É necessária, então, a análise das grandes crises para a compreensão da dimensão que o dólar assume em termos de instabilidades globais. Além disso, a centralidade do Federal Reserve para a economia mundial também mostra uma importante ferramenta de entendimento das dinâmicas financeiras mundiais.</p><h4>A Grande Depressão</h4><p>Conhecida como uma das maiores crises econômicas do capitalismo, a “Grande Depressão” de 1929, originada nos Estados Unidos, aconteceu quando a Bolsa de Valores de Nova York quebrou. Causada por uma superprodução e pela especulação financeira, foi um acontecimento local que logo reverberou pelo mundo todo. Internamente, houve o crescimento massivo do desemprego — atingindo 25% da força de trabalho –, queda do PIB e da produção industrial, falência de empresas e diminuição do comércio. Já em termos globais, houve queda do PIB per capita de inúmeros países (Gráfico 4), a produção industrial mundial caiu mais de 40% entre 1929 e 1932, o desemprego atingiu níveis alarmantes — 23% na Inglaterra e 44% na Alemanha — e houve queda nos preços das principais commodities, como o café e o açúcar. O Brasil, diante desse cenário, passou a industrializar-se internamente, a fim de reduzir a dependência de produtos externos. Já a Alemanha, por exemplo, foi um dos países europeus que mais sentiu os impactos da crise, com perda de produtividade industrial, aumento do desemprego e uma queda abrupta do comércio (Gráfico 5).</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/460/1*naRcQ1LTyzZuf-1UaanSvQ.jpeg" /><figcaption>Gráfico 4: Mudanças no PIB per capita, de 1928 a 1937 Fonte: BOLT, Jutta; VAN ZANDEN, Jan Luiten. Maddison Project Database 2023.</figcaption></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/433/1*keA5LvMei0Bzn9brPS-Xwg.jpeg" /><figcaption>Gráfico 5: Indicadores da Alemanha (Indústria, Atividade Econômica, Comércio) Fonte: LSE Economic History Working Paper №218, 2014, p. 58.</figcaption></figure><h4>A crise de 2008</h4><p>A “Grande Recessão” de 2008, como também é conhecida, foi a maior crise desde a quebra da bolsa de Nova York, em 1929. Novamente, foi uma instabilidade que teve seu epicentro nos Estados Unidos, mas de maneira rápida, proliferou-se para outras nações — de forma que o mundo entrou em um período de recessão. Sinteticamente, foi causada, sobretudo, pela especulação imobiliária e pela falta de regulação bancária, em meio ao cenário de “boom imobiliário” americano e empréstimos descomedidos — denominados de “subprime”, ou seja, de alto risco. Grandes bancos de investimento quebraram ou foram vendidos às pressas: o Lehman Brothers, com mais de 158 anos de história, decretou falência, além do Washington Mutual, o maior banco que já faliu nos Estados Unidos.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/704/1*PX7PVm99L4qPaBXY9gEONQ.jpeg" /><figcaption>Funcionários da Christie’s posam com um cartaz da Lehman Brothers, no centro de Londres. Imagem: Reuters</figcaption></figure><p>Em termos globais, o PIB mundial caiu de maneira generalizada, segundo dados da IMF (Gráfico 6).</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/382/1*260okvUYaUNEUYEpSFIJbw.jpeg" /><figcaption><strong>Gráfico </strong>6: Crescimento econômico ao redor do mundo — variação anual do PIB real (em %) Fonte: IMF World Economic Outlook Database October 2009, data accessed February 24, 2010.</figcaption></figure><p>O volume das exportações, em 2009, teve queda de 9%, e a taxa global de desemprego subiu para 6,6% no mesmo ano. Além disso, segundo dados do Bank for International Settlements (BIS), estima-se que bancos europeus tenham perdido mais de US$1,5 trilhão em ativos entre 2007 e 2011, forçando os governos a injetarem capital para a recuperação econômica. A crise de 2008, assim como a de 1929, evidenciaram como o poder financeiro dos Estados Unidos, sustentado pela centralidade do dólar, permite que instabilidades originadas em sua economia sejam rapidamente exportadas ao restante do mundo, transformando desequilíbrios domésticos em choques globais sistêmicos.</p><h4>A centralidade do Federal Reserve</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/837/1*es7XMlcoeO-mBCMlMzvARA.jpeg" /><figcaption>Federal Reserve, em Washington DC</figcaption></figure><blockquote>“As políticas monetárias não coordenadas de um país que tem a moeda de reserva global acabam gerando instabilidade e incerteza no resto do mundo, o que é o oposto do que se espera de um sistema monetário internacional.” — Citação do Ex-Presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, sobre política do Federal Reserve</blockquote><p>O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, é a instituição financeira mais influente do mundo: suas políticas monetárias internas têm reverberações no exterior e são capazes de, em casos específicos, exportar inflação e crises para outros países. Nesses casos, o Banco Central americano transfere a volatilidade para outros países, através de diferentes formas:</p><blockquote>I — Expansão monetária abrupta pode resultar em supervalorização de moedas emergentes, prejudicando indústrias e setores exportadores<br>II — Cenários de juros reduzidos nos Estados Unidos também podem estimular bolhas financeiras globais<br>III — Já a contração abrupta pode resultar em insolvência de governos, bancos e empresas pelo mundo impactando a saúde dos sistemas financeiros menos desenvolvidos<br>IV — Juros altos nos estados unidos apreciam o dólar, o que encarece as importações e gera forte inflação pelo resto mundo</blockquote><p>Um caso concreto em que o banco central americano exportou inflação ao mundo foi após a crise financeira de 2008, quando esse órgão iniciou o maior programa de injeção de liquidez da história moderna. Dados do Federal Reserve revelam que aproximadamente US$3,7 trilhões foram emitidos entre 2008 e 2014. Essas quantias foram destinadas, sobretudo, para a compra de títulos e resgate de bancos, com juros próximos de 0% por quase uma década, o que “inundou” mercados emergentes em busca de rendimento. Países como o Brasil, Índia, Indonésia e Turquia, por exemplo, registraram valorizações cambiais artificiais, além da inflação de ativos — bolsas e imóveis — e aumento do preço de commodities. Quando o Fed anunciou a retirada dos estímulos, em 2013, o fluxo de capital se inverteu, causando crises cambiais e alta de preços internos em inúmeros países emergentes.</p><h3>Um instrumento geopolítico de poder</h3><p>O dólar é o principal instrumento de política externa dos Estados Unidos, é a “engrenagem” que se move e garante uma série de benefícios e poderes exclusivos, capazes de submeter outros países às necessidades e interesses norte-americanos. Com suas cédulas verdes, os americanos projetam influência, impõem disciplina e sustentam sua hegemonia global por meio de diferentes mecanismos.</p><h4><strong>Sanções</strong></h4><p>Ferramentas de coerção econômica dos Estados Unidos, as sanções financeiras são uma forma de pressionar países, empresas ou indivíduos específicos. Elas representam o exemplo mais nítido de como o dólar se transforma em uma arma geopolítica, e opera principalmente por meio do sistema SWIFT, que tem como principal função permitir a troca de informações bancárias e transferências financeiras entre as instituições. O SWIFT não movimenta dinheiro diretamente, mas transmite instruções de pagamento entre bancos do mundo todo, e conta com mais de 11 mil instituições em 200 países. Apesar de não ser americano, os Estados Unidos têm influência notória nesse sistema: a rede está integrada ao sistema bancário em dólares e a participação dessa moeda é aproximadamente 50% (Gráfico 7). O dólar, assim, representa quase metade de todas as transações internacionais enviadas por bancos via SWIFT — o que reforça seu papel como moeda dominante de liquidação.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/795/1*WOOEtx94D81YytsQLxU98g.jpeg" /><figcaption>Gráfico 7: Participação dos pagamentos globais processados na rede SWIFT em agosto de 2024, por moeda (com base no valor das transações) Fonte: SWIFT</figcaption></figure><p>O exemplo mais notório e recente que há de sanções como ferramenta coercitiva são aquelas aplicadas à Rússia, após o país ter encabeçado uma invasão na Ucrânia, em 2022. Diante desse cenário, em fevereiro do mesmo ano, os Estados Unidos, a União Europeia, o Reino Unido, o Canadá e o Japão adotaram um dos maiores pacotes de sanções da história moderna. Aproximadamente US$300 bilhões de reservas internacionais russas foram congeladas e armazenadas em bancos ocidentais, valor que compunha cerca de metade das reservas totais do país. Os impactos com as sanções, e sem elas (dados projetados), são exibidos no (Gráfico 8). Com a saída da Rússia do SWIFT e a suspensão dos sistemas de cartão ocidentais, como Visa e Mastercard, o “grande urso” passou a fortalecer seu próprio sistema de pagamento domésticos MIR, além de utilizar o sistema chinês CIPS (Cross-Border Interbank Payment System) para transações internacionais em yuan.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/829/1*aUkOeMj7ZfvhYi3EX3gsvA.png" /><figcaption>Gráfico 8: Como as sanções afetaram o PIB russo. Índice — 2021 = 100 Fonte: IMF e U.S Treasury calculations</figcaption></figure><h4><strong>Tarifas</strong></h4><blockquote>“Para mim, a palavra mais bonita do dicionário é ‘tarifas’. É a minha palavra favorita[…]” — Discurso de Donald Trump durante uma entrevista ao “Economic Club of Chicago” em 2024</blockquote><p>Apesar do discurso configurar um recorte da administração de Donald Trump, essa fala revela uma política já bem conhecida e utilizada pelos Estados Unidos ao longo da História: a imposição de tarifas. Por meio delas, os americanos pressionam outros países a se alinharem com suas políticas externas, forçam negociações político-comerciais e redirecionam cadeias produtivas. Um evento concreto e recente ocorreu em 2025, quando o presidente Donald Trump anunciou ao mundo o chamado “tarifaço”, em que foram aplicadas tarifas a mais de 100 países. Utilizando uma retórica de que esses países estariam se beneficiando indevidamente ao exportar para os Estados Unidos, Trump buscava reequilibrar a balança comercial americana e reforçar a soberania industrial do país.</p><p>Além disso, outro caso emblemático foi a guerra comercial EUA-China entre 2018 e 2020, em que foram instituídas tarifas de aproximadamente US$370 bilhões aos produtos chineses durante o período, segundo dados do PIIE e Bookings Institution. A China também retaliou com tarifas, e as exportações americanas de soja ao país asiático caíram cerca de 75% em 2018. Essa “guerra” foi o estopim da rivalidade econômica e tecnológica que atualmente domina a relação EUA-China, sobretudo em relação à inteligência artificial, chips e energia verde.</p><p>Contudo, mais do que simples medidas protecionistas, esses episódios — e tantos outros mais — expuseram a centralidade dos Estados Unidos na economia global e a maneira como o poder do dólar amplifica o alcance dessas políticas.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/346/1*aEcYjOWpBSq2ryBz4ixs9g.jpeg" /><figcaption>O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e sua tabela de tarifas recíprocas. Chip Somodevilla/Getty Images</figcaption></figure><h4>In God We Trust</h4><p>Estampada nas cédulas verdes americanas desde 1865, a emblemática frase “Em Deus Nós Confiamos” revela que essa moeda, além de carregar poder econômico, geopolítico e cultural, também expressa a arquitetura simbólica que sustenta a força do dólar como instrumento de confiança, fé e legitimidade. O dólar, nesse sentido, é visto como uma moeda estável e confiável, sustentada pela pujança econômica e institucional dos Estados Unidos. O lema, então, transcende o âmbito religioso e assume um caráter quase metafísico: a fé depositada em Deus se confunde com a fé no próprio sistema que o emite. O dólar torna-se, assim, um objeto de crença global, um símbolo que sustenta a ordem financeira e política do mundo contemporâneo. <em>“In God We Trust”</em> não apenas legitima a moeda, mas também consagra o poder dos Estados Unidos como “guardião” da confiança global. No fundo, confiar em Deus é, simbolicamente, confiar no dólar — e, portanto, no império que o respalda.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/238/1*JNmiKYtpvRGrnWjzP0jYAA.jpeg" /><figcaption>O lema ‘In God We Trust’ na parte de trás da nota de US$ 20.</figcaption></figure><h3>A ‘Era da contestação’</h3><p>A hegemonia do dólar perdura a pelo menos oito décadas, acompanhando, também, a história do Império americano. Essa unidade simbiótica, Estados Unidos e dólar, consagrou um sistema que medrou de maneira avassaladora, e não é à toa que muitos estudiosos, como Henry R. Luce e Paul Kennedy, se referem ao século XX como o “século americano”. Todo esse poder que se acumulou em uma só nação, em uma só moeda, foi, por muitos anos, tido como “incontestável”. Mas, será mesmo? O século XXI é o período da História em que o dólar começa a enfrentar uma era de contestação silenciosa, porém crescente. A arquitetura financeira erguida sob sua égide segue sólida, mas as “fissuras” são cada vez mais visíveis. O que antes parecia um consenso — a centralidade indubitável da moeda americana — atualmente é um campo de disputa estratégica, econômica e geopolítica.</p><h4>A ascensão da China e o peso do yuan: a espada de Dâmocles</h4><p>Agrária, desigual, pobre e fragmentada: são adjetivos que descrevem a China até a década de 1950. Após mais de um século de dominação europeia, tendo sofrido latentes espoliações, hoje a China é a segunda maior potência político-econômica global, atrás somente dos Estados Unidos. O país asiático não apenas acumulou reservas em dólar e títulos do Tesouro americano, como também passou a desenhar infraestruturas financeiras paralelas — do sistema de pagamentos CIPS (alternativo ao SWIFT) à expansão de swaps cambiais entre bancos centrais parceiros. Seu PIB já tem valor aproximado de US$18,74 trilhões — cerca de 8 vezes o PIB brasileiro e 64% do americano — segundo dados do Trading Economics. O (Gráfico 9) ilustra o crescimento do PIB chinês até o ano de 2020, estimado.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1001/1*Ma3gcBSFychFHVpkNVjd5Q.jpeg" /><figcaption>Gráfico 9: PIB da China a preços correntes (em trilhões de dólares americanos) Fonte: IMF World Economic</figcaption></figure><p>A moeda chinesa yuan tem ganhado força também: ele superou brevemente o euro em 2024 como a segunda moeda mais usada no financiamento do comércio global. Pequim está se esforçando para impulsionar o yuan através do crédito externo, que incorpora essa moeda nas estruturas de dívida — especialmente nos países em desenvolvimento. Segundo o BOFIT, em 2025, cerca de 31% do comércio de bens da China foi liquidado em yuan, mas, no cenário global, a moeda ainda tem participação modesta — cerca de 2,5% dos pagamentos internacionais em 2024, segundo o Federal Reserve.</p><p>O yuan, nesse sentido, ainda é uma moeda de conversibilidade limitada e carece da confiança e da liquidez global do dólar, mas o avanço é inegável. A sua internacionalização estratégica, combinada ao peso econômico da China no comércio mundial, dá corpo à metáfora da “espada de Dâmocles”: o dólar continua dominante, mas sob constante ameaça de um rival que cresce à sombra da sua própria força.</p><h4>BRICS e a “desdolarização”</h4><blockquote>“O mundo precisa encontrar um jeito de que a nossa relação comercial não precise passar pelo dólar.” — Discurso do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, em uma cúpula do BRICS</blockquote><p>O bloco dos BRICS, composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além também de outros novos membros, tornou-se o principal palco institucional da ‘Era da contestação’. Grande parte desses países tem contestado a forma como os Estados Unidos posicionam-se econômica e geopoliticamente no mundo, uma vez que se amparam na força do dólar para promover sanções e tarifas descomedias aos seus rivais. Nos últimos anos, assim, as discussões sobre transações em moedas locais, fundos de liquidez próprios e até mesmo uma moeda comum lastreada em commodities refletem um desejo compartilhado de reduzir a dependência do dólar. Um protótipo de moeda comum dos BRICS já foi apresentado pelo presidente russo Vladimir Putin, durante uma cúpula do bloco, em outubro de 2024.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/427/1*INm007n6M0Q_zxp0oMdSpQ.jpeg" /><figcaption>Protótipo da moeda do BRICS. Foto: Reprodução/Sputnik</figcaption></figure><p>Ainda que a implementação prática dessas iniciativas enfrente grandes barreiras — diferenças econômicas, assimetrias políticas e limitações técnicas — o debate em si já é um gesto de insubordinação simbólica frente à hegemonia monetária americana. “Acredito que isso [a criação de uma moeda comum] não vai acontecer da noite para o dia. Primeiro, China e Índia precisam superar suas diferenças como as duas principais potências nessa discussão monetária. Mas se isso acontecer, em quatro ou cinco anos, será um grande choque para a economia americana”, — Discurso de Frank-Jürgen Richter, ex-diretor do Fórum Econômico Mundial, em uma entrevista à CNN. Trata-se menos de uma revolução imediata e mais de uma reconfiguração gradual, que sinaliza o início de uma era monetariamente multipolar.</p><h4>O efeito bumerangue das sanções</h4><p>Se durante oito décadas o poder do dólar serviu como instrumento de estabilidade, nos últimos anos ele se tornou também uma arma de coerção. As sanções financeiras impostas pelos Estados Unidos — especialmente após episódios como a anexação da Crimeia em 2014, e a guerra na Ucrânia em 2022 — mostraram o alcance do controle americano sobre o sistema financeiro global.</p><p>No entanto, o uso excessivo e punitivo desse poder, marca registrada do governo de Donald Trump — não apenas dele, porém — gerou um efeito bumerangue: países afetados passaram a buscar meios alternativos de transação, acumulando ouro, diversificando reservas, criando mecanismos de compensação fora do SWIFT e firmando acordos bilaterais em outras moedas. Com efeito, quanto mais o dólar é utilizado como ferramenta de punição, mais ele incentiva a construção de rotas de fuga, e mais o seu papel como instrumento de confiança é posto em xeque.</p><h3>O Crepúsculo da hegemonia verde</h3><p>O mundo atual parece caminhar para um hibridismo monetário: o dólar segue predominante em reservas, comércio e ativos financeiros, mas o seu domínio é hoje contestado por uma teia de alternativas em formação. Talvez não seja o mundo diante do fim da era do dólar, mas do fim da sua exclusividade. O que emerge, então, é uma ordem em que diferentes polos — China, Europa, Índia, América Latina — buscam afirmar autonomia monetária dentro de um sistema que, paradoxalmente, ainda está satelitizado sob a órbita do dólar. Essa tensão define o cenário da era atual: o dólar segue como centro gravitacional do capitalismo global, mas já não reina sozinho.</p><p>A hegemonia, antes incontestável, agora precisa conviver com a multipolaridade como nova forma de poder. O que se esboça não é uma ruptura súbita, mas uma transição lenta e contraditória, em que o dólar ainda reina, porém, dividido entre o prestígio do passado e os desafios do presente. A confiança, antes monopolizada, agora se fragmenta entre diferentes polos de poder, cada um buscando imprimir sua própria legitimidade. Dessa maneira, talvez a verdadeira questão não seja se o dólar cairá, mas em que medida ele será obrigado a compartilhar o “trono”. O século XXI não parece anunciar o fim do império das cédulas verdes, e sim o nascimento de uma Era em que os opostos terão que coexistir — como talvez nunca tenha acontecido.</p><blockquote>Lorenzo Medaglia</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/476/0*DkM8xBiWQALo-12T.jpeg" /></figure><p><strong>Referências bibliográficas</strong></p><p><a href="https://www.bis.org/publ/work1083.pdf?utm_source=chatgpt.com">https://www.bis.org/publ/work1083.pdf?</a></p><p><a href="https://www.congress.gov/crs-product/IF11707">https://www.congress.gov/crs-product/IF11707</a></p><p><a href="https://www.chathamhouse.org/2024/09/us-dollar-dominance-both-cause-and-consequence-us-power">https://www.chathamhouse.org/2024/09/us-dollar-dominance-both-cause-and-consequence-us-power</a></p><p><a href="https://www.poder360.com.br/poder-energia/acordo-dos-petrodolares-entre-eua-e-arabes-perde-forca/">https://www.poder360.com.br/poder-energia/acordo-dos-petrodolares-entre-eua-e-arabes-perde-forca/</a></p><p><a href="https://eprints.lse.ac.uk/64491/1/WP218.pdf">https://eprints.lse.ac.uk/64491/1/WP218.pdf</a></p><p><a href="https://www.ilo.org/">https://www.ilo.org/</a></p><p><a href="https://www.imf.org/en/Home">https://www.imf.org/en/Home</a></p><p><a href="https://www.bis.org/publ/arpdf/ar2010e.pdf">https://www.bis.org/publ/arpdf/ar2010e.pdf</a></p><p><a href="https://www.worldometers.info/oil/">https://www.worldometers.info/oil/</a></p><p><a href="https://www.tendata.com/blogs/export/10329.html">https://www.tendata.com/blogs/export/10329.html</a></p><p><a href="https://www.congress.gov/crs_external_products/R/PDF/R42962/R42962.9.pdf">https://www.congress.gov/crs_external_products/R/PDF/R42962/R42962.9.pdf</a></p><p><a href="https://ustr.gov/about-us/policy-offices/press-office/press-releases/2018/june/ustr-issues-tariffs-chinese-products">https://ustr.gov/about-us/policy-offices/press-office/press-releases/2018/june/ustr-issues-tariffs-chinese-products</a></p><p><a href="https://ustr.gov/about-us/policy-offices/press-office/press-releases/2018/september/ustr-finalizes-tariffs-200">https://ustr.gov/about-us/policy-offices/press-office/press-releases/2018/september/ustr-finalizes-tariffs-200</a></p><p><a href="https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/11/10/por-que-o-yuan-cresce-mas-ainda-esta-longe-de-desbancar-o-dolar.ghtml">https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/11/10/por-que-o-yuan-cresce-mas-ainda-esta-longe-de-desbancar-o-dolar.ghtml</a></p><p><a href="https://tradingeconomics.com/china/gdp">https://tradingeconomics.com/china/gdp</a></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=3cd7acc98375" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Uma estrela pragmática:]]></title>
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            <category><![CDATA[economic-growth]]></category>
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            <dc:creator><![CDATA[FEA Internacional]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 14 Oct 2025 16:26:30 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-10-14T16:26:30.676Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h4>A construção e os desafios do Vietnã moderno</h4><p>A República <strong>Socialista </strong>do Vietnã é um dos principais países da Ásia, tendo a 15° maior população do mundo, estimada em mais de 100 milhões de habitantes, o 32° maior PIB nominal do planeta e uma rica história, a qual remonta, de forma relativamente centralizada, desde o segundo milênio antes de cristo. O Vietnã é uma nação muito presente na cultura pop graças às produções hollywoodianas, que, principalmente na época da<strong> Guerra do Vietnã,</strong> o retratavam como um inimigo árduo, uma nação cheia de “guerrilheiros incessantes” e uma geografia temida pelas forças norte-americanas; embora a narrativa mais “heroica” tenha sido substituída por um pessimismo e, eventualmente, um trauma com o passar do tempo e o crescimento do sentimento anti-guerra. Contudo, como pode-se imaginar, tal narrativa está longe de ser uma representação fidedigna da realidade social, econômica e política do Vietnã, um dos Estados mais particulares do mundo (Vietnã, Laos, China, Cuba e a Coreia do Norte são os únicos países socialistas ainda existentes em 2025).</p><p>Hoje o Vietnã apresenta um rápido crescimento, sua economia cresceu 6,93% (em valor anualizado) no primeiro trimestre de 2025 marcada por dinamicidade, com ênfase na <strong>exportação </strong>de <strong>maquinário</strong>. Em termos sociais a tendência também é acelerada, com o PIB per capita crescendo mais de <strong>4300% desde 1900,</strong> enquanto o IDH saltou de<strong> 0,499 para 0,766.</strong> Somado a isso, a nação detém uma posição geopolítica única, pois, apesar de ser uma nação socialista, o Vietnã vem buscando o apoio dos <strong>EUA</strong>, seu maior parceiro comercial, em disputas com <strong>Pequim</strong>, além de ser protagonista na ASEAN, um bloco que reúne as mais diversas visões políticas.</p><p>Dessa forma, o objetivo desse artigo é dar luz à República Socialista do Vietnã, explorar sua transformação, seus desafios e <strong>contradições</strong>, suas conquistas e limitações, suas ambições e sua posição na geopolítica global, pautada por uma disputa cada vez maior entre Estados Unidos e China.</p><h4>O pós guerra e a estruturação da república socialista:</h4><blockquote>“Ao longo de sua história milenar, o povo vietnamita, trabalhando diligentemente, criativamente e <strong>lutando </strong>corajosamente para construir e defender seu <strong>país</strong>, forjou uma tradição de <strong>patriotismo</strong>, solidariedade, humanidade e retidão, perseverança e indomabilidade, e criou vietnamitas <strong>civilização </strong>e <strong>cultura</strong>.”<em> — 1º parágrafo do preâmbulo da constituição do Vietnã.</em></blockquote><p>É possível divagar por páginas sobre a rica história do Vietnã, uma que começa com reinos míticos há 4 mil anos e evolui para o Estado moderno, republicano e <strong>centralizado </strong>que existe hoje. Mas, por objetividade, tomaremos como ponto de partida o período logo após o fim da guerra, mais especificamente o surgimento da República Socialista do Vietnã no dia 2 de julho de 1976, após a união entre a República do Vietnã — o “Vietnã do Sul” — e a República Democrática do Vietnã — o Vietnã do Norte.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*F_UOU4JsQ5xKUHtyeYVQdQ.jpeg" /><figcaption>Foto da queda de Saigon</figcaption></figure><p>As duas entidades políticas na região já estavam em processo de reunificação desde a queda de Saigon, capital do Vietnã do Sul, em 30 de abril de 1975, resultado do processo de retirada das tropas <strong>norte-americanas. </strong>Assim, o Governo <strong>Revolucionário </strong>Provisório foi apenas uma fase de transição para que as duas entidades conduzissem, em um processo que levou mais de um ano, a união do norte e do sul sobre o controle do PCV e de seu líder, <strong>Ho Chi Minh</strong>. Nesse período houve apreensão entre os fazendeiros e os comerciantes sulistas, pois, assim que o GRP tomou controle total do aparato executivo, legislativo e judiciário da República do Vietnã, grande parte da indústria e da agricultura foram <strong>nacionalizados </strong>e a cambaleante economia de mercado começou a ser substituída por um <strong>sistema planificado.</strong></p><p>As eleições de novembro de 1975 para a “Conferência Consultiva Política para a Reunificação Nacional” foram apenas uma fachada para os interesses políticos do PCV, na eleição da <strong>“Assembleia Nacional Unificada</strong>” que ocorreu logo depois, em abril de 1976, uma única aliança partidária, a Frente Patriótica do Vietnã, pode participar. A Assembleia Nacional Unificada foi o passo para a unificação legislativa e, com a elaboração de uma <strong>constituição única</strong> por essa, o executivo foi finalmente unido sobre a forma da República Socialista do Vietnã, com as leis do Norte também passando a valer no sul, o que significava que a transição para um modelo <strong>marxista-leninista</strong> estava “completa”.</p><p>Assim, com um novo paradigma estabelecido no país, o PCV foi rápido em convocar seu quarto congresso em dezembro, estabelecendo, durante as discussões desse, o Segundo Plano Quinquenal, de visões ambiciosas, focado na reconstrução de uma economia devastada por quase 30 anos de guerra contínua. O plano tinha metas grandiosas: crescimento de 14% da renda nacional, 10% do setor agrícola e <strong>18% da indústria</strong> — dependentes de forte financiamento soviético, além de largas reformas estruturais. O primeiro ponto problemático veio de um fato já citado, a resistência dos agricultores sulistas que, já acostumados a um sistema de agricultura comercial e <strong>propriedade privada,</strong> opuseram-se ao sistema de coletivização imposto pelo Estado. Sendo assim, a agricultura vietnamita entrou em um período extremamente complicado e de 1976 até 1980 a produção agrícola só cresceu 1,9%, muito abaixo dos 10% projetados e inferior até ao crescimento populacional do mesmo período, de 2,3%, fato que teria efeitos problemáticos na <strong>segurança alimentar</strong> da população.</p><p>Ao mesmo tempo a indústria sofreu durante o Segundo Plano Quinquenal, pois, após o fracasso da <strong>coletivização </strong>em 1976 e 1977, o governo colocou a culpa do projeto mal executado no fato de ainda existir uma indústria urbana ineficiente (em 1977 existiam 400 fábricas privadas e quase 15,000 pequenos negócios na área de Saigon) e lançou, em 1978, uma campanha para erradicar tais problemas, fato que resultou no fechamento de cerca de 30,000 negócios no país em alguns poucos meses. No final o saldo foi de um crescimento de <strong>1,9% na agricultura, 0,6% na indústria e míseros 0,4%</strong> na renda nacional, o plano foi um fracasso e o Vietnã estava estagnado.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/665/1*L_FlRbpRsSYtNa5ZhGyWSQ.jpeg" /><figcaption>O Quarto Congresso</figcaption></figure><p>Adicionado aos problemas de frustração de expectativa estava o adiamento na ajuda externa, já que, com a <strong>invasão </strong>do Vietnã ao <strong>Camboja </strong>em 1978, a China começou a desconfiar de seu vizinho ao sul e congelou a ajuda que dava ao país. Portanto, com a economia chegando a <strong>contrair </strong>1% em 1980 e, mesmo com a importação de 1,57 milhões de toneladas de alimento, a fome se tornando uma realidade cada vez mais próxima, o PCV teve que mudar sua direção e, já em 1981, começou tímidas reformas econômicas, como a liberalização parcial da agricultura e do sistema de crédito. Embora ambas tivessem sido aprovadas em 1980 e 1979 respectivamente, a implementação real só veio em 1981, pois fora necessário que a ala <strong>reformista </strong>contivesse a linha-dura, fato consumado pelo desempenho negativo de crescimento do ano anterior.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*GYfHXemqc1wYcyY0IpfQXA.jpeg" /><figcaption>Forças vietnamitas adentrando o Camboja, 1978</figcaption></figure><h4>A reforma e o Doi Moi:</h4><p>Após as reformas iniciais o Vietnã começou a apresentar bons resultados, alcançando um crescimento relativamente mais promissor na agricultura e indústria, além de diminuir substancialmente seu <strong>déficit comercial</strong>. O PCV em seu quinto congresso, realizado em março de 1982, definiu então o Terceiro Plano Quinquenal, que seria bem mais cauteloso que o anterior, pautado de ano em ano para permitir flexibilidade e com certos incentivos para as empresas estatais, como cotas individuais e bônus. O Terceiro Plano Quinquenal seria focado principalmente em reformar o setor agrícola, com o estabelecimento de um modelo “familiar”, no qual o excedente produzido pelas famílias podia ser <strong>vendido </strong>para o Estado em preço fixo, garantindo estabilidade, ou ao “<strong>livre-mercado</strong>”, garantindo lucros maiores. Nesse sentido o plano foi um sucesso, afinal a produção de <strong>alimentos cresceu 19,5%</strong> entre 1980 e 1984, aliviando a situação de semi inanição que existia em diversas partes do país.</p><p>Entretanto, apesar de trazido sucesso para o setor primário, o Terceiro Plano Quinquenal foi considerado <strong>insuficiente </strong>para trazer grande crescimento nos setores <strong>industriais </strong>e no sistema <strong>financeiro</strong>, afinal <strong>salários </strong>continuavam <strong>estagnados </strong>e a <strong>inflação </strong>persistentemente alta (cerca de 774% a.a em 1986) — resultado da emissão de moeda para o custeio do gasto militar no Camboja. Foi concluído então no sexto congresso, de dezembro de 1986, que profundas e extensas reformas eram necessárias, nascia então o Doi Moi.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/650/1*pMB9R45pPOeWxc-kJ4zS7A.jpeg" /><figcaption>Nguyễn Văn Linh — Secretario geral do PCV em 1987, um dos maiores defensores do Doi Moi</figcaption></figure><p>Doi Moi significa <strong>renovação </strong>e, com esse espírito de mudança, o PCV se encontrou em dezembro, a fim de mudar permanentemente as estruturas econômicas do país e, embora não claro na época, garantir um crescimento impressionante nas décadas seguintes. O ponto mais importante do congresso foi a mudança do paradigma, do qual todas as reformas seguintes derivariam, a economia vietnamita seria reconhecida com um sistema multi setorial em simbiose com uma economia de mercado, guiada pelo Estado vietnamita. Largas reformas vieram em seguida, como a resolução que transformou as cooperativas e as famílias que as compunham em entidades econômicas e, mais importante, instituiu o direito absoluto de uso da terra por essas entidades, efetivamente retornando a um sistema de <strong>propriedade privada</strong>. Em 1989 o sexto plenário do sexto congresso aprovou uma resolução de 12 pontos que <strong>liberalizaram </strong>quase todos os setores da economia, reduzindo de maneira significativa a presença direta do Estado, formalizando o país em um <strong>sistema de socialismo de mercado</strong>, talvez até mais radical que o chinês.</p><h4><strong>Icônicos campos de arroz do Vietnã</strong></h4><p>Os resultados foram impressionantes, com mecanismos de mercado e o apoio estratégico do Estado a inflação caiu para 67,4% a.a em 1990, a produção total de comida saltou de 17,5 milhões de toneladas em 1987 para 20,5 milhões de toneladas em 1989, o Vietnã atingiu pela primeira vez o status de exportador de alimentos. Em 1988 o Vietnã ainda importava 450 mil toneladas de arroz, já em 1999 o Vietnã exportou 4 milhões de toneladas de arroz, sendo o segundo maior exportador apenas atrás da Tailândia. Entre 1991 e 1995, já sobre o sétimo congresso, o país <strong>cresceu </strong>em média 8,2% ao ano, teve um crescimento médio industrial de 13,3% e agrícola de 4,5%, além de reduzir a inflação de 67,1% em 1991 para<strong> 12,7%</strong> em 1995, tudo isso alcançando um crescimento de 1 milhão de postos de trabalho todo ano. Entre 1996 e 2000 o PIB cresceu em média<strong> 6,94%</strong>, a produção agrícola cresceu em um ritmo de 1 milhão de toneladas anualmente, a indústria 13,5% e o PIB total era quase o <strong>dobro </strong>de 10 anos antes. O Vietnã tinha chegado aos anos 2000 como uma nação extremamente promissora e industrializada, deixando para trás o passado de miséria e destruição dos anos 60 e 70.</p><h4>Comércio e o reposicionamento do Vietnã no cenário global:</h4><p>O Vietnã aprovou as reformas do Doi Moi em 1986, contudo a abertura comercial só iria começar a tomar forma em 1989, quando o Estado finalmente adotou uma taxa de <strong>câmbio oficial </strong>e <strong>encerrou </strong>o <strong>monopólio </strong>sobre a exportação e importação, permitindo agentes privados nesse setor. Em 1991 um dos maiores aliados do Vietnã, a<strong> União Soviética</strong>, colapsa e o país fica relativamente só de grandes parceiros, afinal China e Vietnã estavam com relações cortadas desde 1979, quando estourou a <strong>guerra sino-vietnamita</strong>, e mesmo com a normalização em 1991 ainda existia desconfiança entre os dois lados. Além disso, os EUA estavam impondo um embargo ao Vietnã, impedindo que companhias norte-americanas fizessem negócios no país. Assim, o governo vietnamita olhou para um potencial aliado comercial na Europa, a Comunidade Europeia (antecessora direta da UE), e firmou em 1992 um acordo de redução de tarifas no mercado <strong>têxtil</strong>, setor no qual o país asiática estava rapidamente expandindo sua produção, necessitando assim de <em>know-how.</em></p><p>Em 1994 mais um passo histórico, já que após pressão de senadores e lobistas vietnamitas, além do desejo de reconciliar-se com antigos inimigos na intenção de transformá-los em possíveis parceiros; o presidente <strong>Bill Clinton</strong> oficialmente <strong>revoga </strong>as <strong>sanções </strong>vigentes contra o Vietnã, permitindo o estabelecimento de operações por parte de empresas norte-americanas no país. Uma relação de aproximação entre os dois países, que seria futuramente bastante frutífera, começaria a despontar. No ano seguinte, 1995, o Vietnã, buscando integração regional, finalmente se junta à ASEAN, assumindo compromissos de reduzir drasticamente as tarifas em relação ao seus vizinhos e abrindo canais diplomáticos fortes para com nações como a Tailândia, a Indonésia e as Filipinas. No mesmo ano o Vietnã assina um novo tratado de comércio com a <strong>União Europeia</strong>, desta vez em provisões gerais, além de iniciar os processos para uma futura adesão à <strong>Organização Mundial do Comércio.</strong></p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/600/1*D-9-kTDO1DVCbLIGWjPtIA.jpeg" /><figcaption>Foto de 1995, quando o país ascendeu à ASEAN</figcaption></figure><p>Desde o fim do embargo em 1994, o Vietnã e os Estados Unidos tomaram passos cada vez maiores para a aproximação. Em 1995, por exemplo, 20 anos após <strong>evacuarem </strong>a embaixada em Saigon, os EUA inauguraram, no dia 6 de agosto 1995, sua mais nova embaixada em Hanói. Os laços agora tinham sido oficializados, com um tratado de comércio bilateral e uma visita de <strong>Clinton </strong>ao país em 2000, a primeira de um presidente americano desde Nixon, ainda sobre o governo capitalista do Sul. O governo dos Estados Unidos então assume compromissos no combate à AIDS e nos cuidados com as vítimas do <strong>agente laranja</strong>, um dos maiores crimes de guerra do século XX, por meio da <strong>USAID</strong>. O Vietnã receberia diversas multinacionais e estaria receptivo aos produtos norte-americanos. Assim, com a assinatura do tratado (BTA, Bilateral Trade Agreement) o volume comercial entre os dois países começou a crescer, em média, <strong>20–30% por ano.</strong> No ano de 1998 o Vietnã se junta à APEC (Asia-Pacific Economic Cooperation) melhorando suas relações com países como Japão e Coreia do Sul.</p><p>A relação China-Vietnã é historicamente conturbada, pois o vizinho nortenho sempre teve influência, por meio de estados tributários, na região de Dai Viet. Desde a invasão e colonização francesa, a China representou um “hub” pelo qual revolucionários vietnamitas podiam agir, seja na forma do <strong>VNQDD</strong>, ligado ao Kuomintang, seja na forma do <strong>Partido Comunista da Indochina </strong>(antecessor do PCV), apoiado pelo PCCh. A China foi um dos maiores apoiadores diplomáticos e materiais do Vietnã do Norte em sua guerra contra o sul e resistência contra os Estados Unidos; no entanto, após se consolidar, a República Socialista tomou partido de Moscou quando da ruptura sino-soviética.</p><p>As relações China-Vietnã chegaram a níveis insustentáveis quando, em 1978, o Vietnã decidiu invadir o <strong>Camboja </strong>para o regime do <strong>Khmer Rouge </strong>— que perseguia minorias vietnamitas no Camboja -, apoiado por Mao Zedong. Como resposta, Pequim invadiu o Vietnã em 1979, iniciando a curta guerra Sino-Vietnamita, mais uma vitória estratégica para a nação do sudeste asiático, embora com perdas pesadas. As relações permaneceram <strong>suspensas </strong>até 1991, não sendo incomuns pequenas escaramuças na fronteira, até que, nesse ano, ambos os países resolveram normalizar suas relações. Havia uma certa desconfiança entre as partes e a reaproximação foi tímida, a despeito de ambos apresentarem um modelo semelhante de socialismo de mercado.</p><p>Em 1999 China e Vietnã assinaram um tratado de <strong>delimitação </strong>fronteiriça, no ano seguinte foi feito um segundo tratado, dessa vez tratando sobre as águas territoriais. Em 2002 a ASEAN e a China, em conversas desde 2000, assinaram o ACFTA, um acordo compreensivo d<strong>e livre-comércio,</strong> expandido em 2004, 2007 e 2009. Mesmo assim, apesar das relações entre China e Vietnã terem entrado na década de 2010 muito melhores do que em 1990, disputas ainda existiam, principalmente em relação à expansão chinesa no<strong> Mar do Sul da China,</strong> que ameaçava os direitos de navegação vietnamitas — tema já abordado pela FEAint em <a href="https://medium.com/@feaint.usp/disputas-no-mar-do-sul-da-china-origem-aos-dias-atuais-70eff8a17491">Disputas no mar do sul da China: origem aos dias atuais</a></p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/470/1*ag4udO834Zhw3lLBklMKpw.jpeg" /><figcaption>Bill Clinton no Vietnã</figcaption></figure><p>Após a queda da União Soviética em 1991 a política externa vietnamita mudou de forma considerável, se tornando mais pragmática, aberta e flexível. No entanto, as relações históricas com a <strong>Rússia </strong>continuaram fortes. Um exemplo disso é a joint-venture russo-vietnamita <strong>Vietsovpetro</strong>, fundada em 1981, mas continuada pela estatal russa <strong>Zarubezhneft </strong>e pela Petrovietnam, sendo a oitava maior companhia do país e a principal exportadora de petróleo. Além disso, Rússia e Vietnã têm um tratado de amizade vigente desde 1993, cooperação militar, mesmo posteriormente à devolução da base de Cam Ranh, além de extensas parcerias entre universidades russas e vietnamitas. Outro “parceiro” notável é a <strong>Índia</strong>, que desde 1990 assinou pactos de cooperação <strong>militar </strong>com o Vietnã, além de manter a estatal petrolífera ONGC Videsh em operação no Mar do Sul da China, por meio de abrangentes concessões, criando um contra peso à “ameaça” chinesa. Em 2007 o Vietnã deu seu último grande passo para a integração global-comercial completa, se juntando à <strong>OMC </strong>e abrindo espaço para múltiplos acordos multilaterais.</p><h4>O Vietnã atual: desafios e ambições</h4><p>Graças ao fim do embargo e ao acordo bilateral de comércio em 2000, o fluxo entre EUA e Vietnã saiu de $451 milhões de dólares em 1995 para quase $124 bilhões, com os <strong>EUA </strong>se tornando então o <strong>maior </strong>destino das <strong>exportações </strong>vietnamitas. Em 2023 o presidente norte-americano Joe Biden visitou o Vietnã e formalmente declarou, em conjunto com o secretário-geral do PCV Nguyen Phu Trong, uma evolução da relação EUA-Vietnã para “<strong>parceria estratégica abrangente</strong>”, o mais alto nível de cooperação que uma nação consegue com os Estados Unidos.</p><p>Nesse sentido, quando no dia 2 de abril de 2025 Donald Trump anunciou tarifas de 46% sobre o Vietnã, a situação ficou em estado crítico; o governo de Hanói buscou fortemente reverter a situação que geraria fortes impactos nos negócios e empresas vietnamitas. A situação ficou ainda mais dura quando, no meio da disputa comercial entre China e Estados Unidos, o governo chinês anunciou que aumentaria as tarifas sobre qualquer país que tentasse negociar com o governo Trump, algo que o governo vietnamita estava desesperado para realizar. A China por sua vez é a maior parceira de importações do Vietnã, com os vietnamitas <strong>importando quase 144 bilhões de dólares do seu vizinho ao norte.</strong></p><p>No entanto, apesar do inicial desespero, o Vietnã conseguiu, no dia 2 de julho, um acordo com o governo de Donald Trump, reduzindo os<strong> impostos tarifários para 20%</strong> (além dos específicos de cada produto), sendo o 2° país a concluir negociações pós “liberation day”. Nas negociações foram incluídos pontos como a instalação de sistemas Starlink, a compra de aviões Boeing e até a aprovação de 1,5B$ em investimentos de hotelaria de luxo e golfe, organizados pela Trump Organization e pela construtora local Kinh Bac City Development; o Vietnã se comprometeu a zerar tarifas para bens importados dos EUA. Contudo, o acordo despertou alertas para o governo chinês, que teme mais uma nação alinhada aos interesses militares e comerciais norte-americanos, “liderando” uma oposição local ao seu projeto geopolítico. Com um tratado que parece ter beneficiado, a curto prazo, mais Trump que o Vietnã, o país sul-asiático parece demonstrar de forma mais clara um alinhamento político afrontoso a Beijing, ainda mais considerando que existe o risco de retaliações do PCCh, o qual Hanói não aparenta tentar evitar.</p><h4>Xi Jinping em visita ao Vietnã</h4><p>Em 2025 é 32ª economia em termos nominais e 25ª em PPP, apresentando uma taxa de 7,09% de crescimento em 2024. A nível per capita está $4,806 (118°) nominal e $17,484 (89°) em PPP. Seu IDH é de 0,766, apenas 9 posições abaixo do Brasil, inflação controlada em 3,6%, desemprego em torno de 2% (dados do FMI e PNUD) e uma idade média relativamente jovem, 30,1 anos. Todos esses dados positivos foram consequência de décadas de crescimento e integração com o mundo <strong>globalizado </strong>e, em aproximadamente 40 anos, significou uma redução da extrema pobreza no país em 98%, quase erradicando-a.</p><p>No entanto, o modelo vietnamita é baseado em exportações e, mesmo que o país tenha se mostrado resiliente à crises globais e regionais (em 1998 o PIB cresceu 5,8%, em 2008 5,7% de acordo com o Banco Mundial), o “ataque tarifário” de Trump foi direto, prejudicando de forma incisiva as indústrias vietnamitas, que veem nos EUA seu principal mercado consumidor e necessitam, tanto desse quanto da China, para sustentar o seu crescimento, adquirindo <strong><em>know-how</em></strong> e insumos essenciais. O Vietnã também viu outro de seus principais parceiros, a Rússia, sair do comércio global, afinal, desde a guerra na Ucrânia, Moscou sofre com sanções punitivas, que vão desde o boicote às empresas nacionais até a exclusão dessa nação do sistema Swift. A visita de Vladimir Putin ao Vietnã em junho de 2024 foi muito mal vista pelas potências ocidentais, justamente as quais o Vietnã vem, nas últimas décadas, tentando construir laços de amizade. O pragmatismo internacional da chamada <strong>“política do bambu</strong>” vem se tornando uma tarefa mais árdua, à medida que as tensões geopolíticas se intensificam.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*KSXkLDFbU2nkisp6MqFCaQ.jpeg" /><figcaption>Ho Chi Minh City — Antiga Saigon, centro financeiro do país</figcaption></figure><p>Ademais, o Vietnã enfrenta desafios geopolíticos relacionados ao seus recursos físicos. Os principais são o conflito do Mar do Sul da China, descrito em detalhes em “<a href="https://medium.com/@feaint.usp/disputas-no-mar-do-sul-da-china-origem-aos-dias-atuais-70eff8a17491">Disputas no mar do sul da China: origem aos dias atuais</a>” e aqueles que envolvem o Mekong. O rio que perpassa a China e as nações da Indochina é essencial para a segurança hídrica e a geração energética. — contendo mais de 100 hidrelétricas construídas na bacia (22 no Mekong em si e mais de 100 nos seus afluentes). Ele tem sua nascente na China e representa a fronteira entre Laos, Camboja e Vietnã, tendo, portanto, a utilização de suas águas regida por diferentes órgãos multilaterais, dentre os quais se destaca a Comissão do Rio Mekong, uma entidade independente. Tal organização é vista como essencial pelos países da região, como forma de balancear o histórico da China de usar o rio como barganha para <strong>impor </strong>seus <strong>interesses</strong>.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*oS04v7WKYm_XwWtfKZLBjA.jpeg" /><figcaption>Navios da guarda costeira chinesa patrulhando no mar do Sul da China</figcaption></figure><h4>Possíveis saídas?</h4><p>Com a nova política comercial dos EUA, a necessidade de se proteger e ao mesmo tempo conversar com a China e o isolamento da Rússia; a política externa vietnamita se viu obrigada a fortalecer relações <strong>alternativas</strong>. Uma das nações vistas como um formidável parceiro é a França e, por extensão, a União Europeia. Recentemente, no dia 26 de Maio, França e Vietnã assinaram 14 acordos que, conjuntos, somam mais de $10 bilhões nas mais diversas áreas (notícia publicada com mais detalhes na <em>newsletter</em>), além da reiteração do Estado francês de que o Vietnã deve ter sua soberania na livre navegação, uma clara mensagem referente ao assunto delicado no mar do Sul da China.</p><p>A ASEAN também ganhou força com a mudança de paradigma global, à exemplo está o 46° encontro do bloco em Kuala Lumpur, no qual foram discutidos os objetivos e as metas do bloco para as próximas décadas, focadas na <strong>integração </strong>e na aproximação dos países membros rumo a um desenvolvimento conjunto e sustentável. O <strong>Japão </strong>é o terceiro maior parceiro comercial do Vietnã, e, desde a entrada do país do Sudeste Asiático na APEC em 1998, existem fortes canais abertos para a cooperação e o comércio. A <strong>Índia</strong>, como já citado, é uma nação de histórico comercial e político positivo com a República Socialista e representa um aliado na <strong>contenção </strong>às <strong>ambições chinesas </strong>no continente, já que esta vem se tornando cada vez mais relevante no cenário global, tornando-se um rival cada vez maior ao domínio chinês na Ásia.</p><p>Criar parcerias novas e estender as antigas em momentos de crise é, justamente, o que o Vietnã faz desde 1991, representando em sua essência a diplomacia da “<strong>estrela pragmática</strong>”. No entanto, em um cenário de tensão e polarização, é essencial que o Vietnã tenha cautela e força para assim garantir o seu contínuo e, até agora, muito bem sucedido crescimento econômico.</p><blockquote>Bernardo José Tristão Vilas Boas</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/476/0*ujTGVZ4ws0usp8UR.jpeg" /></figure><p><strong>Fontes e referências:</strong></p><p>ABBOTT, PHILIP, and FINN TARP. “GLOBALIZATION CRISES, TRADE and DEVELOPMENT in VIETNAM.” Journal of International Commerce, Economics and Policy, vol. 03, no. 01, Feb. 2012, p. 1240006, <a href="https://doi.org/10.1142/s1793993312400066.">https://doi.org/10.1142/s1793993312400066.</a></p><p>Foundation, Asia. Economies in Transition. Edited by Stephen Parker and Wing Thye Woo, MIT Press, 19 Dec. 1996.</p><p>Nguyen, Ngoc Anh. “Understanding the Socialist-Market Economy in Vietnam.” Emerging Science Journal, vol. 6, no. 5, 28 June 2022, pp. 952–966, <a href="https://doi.org/10.28991/esj-2022-06-05-03.">https://doi.org/10.28991/esj-2022-06-05-03.</a></p><p><a href="https://vietnam.gov.vn/economy-68968">https://vietnam.gov.vn/economy-68968</a></p><p><a href="https://clintonwhitehouse4.archives.gov/WH/EOP/nec/html/RosenUS-VietBilat000713.html?utm_source=chatgpt.com">https://clintonwhitehouse4.archives.gov/WH/EOP/nec/html/RosenUS-VietBilat000713.html?utm_source=chatgpt.com</a></p><p><a href="https://vioit.moit.gov.vn/en/strategy-policy/enhancing-vietnam-eu-trade-relations-through-participation-in-the-vietnam-eu-free-trade-agreement-5991.4144.html">https://vioit.moit.gov.vn/en/strategy-policy/enhancing-vietnam-eu-trade-relations-through-participation-in-the-vietnam-eu-free-trade-agreement-5991.4144.html</a></p><p><a href="https://wtocenter.vn/tin-tuc/27364-asean-a-key-pillar-in-vietnams-foreign-policy">https://wtocenter.vn/tin-tuc/27364-asean-a-key-pillar-in-vietnams-foreign-policy</a></p><p><a href="https://oec.world/en/profile/country/vnm">https://oec.world/en/profile/country/vnm</a></p><p><a href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/10/12/brasil/3.html">https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/10/12/brasil/3.html</a></p><p><a href="https://www.reuters.com/world/asia-pacific/vietnam-opposes-china-philippines-acts-disputed-south-china-sea-reef-2025-05-03/">https://www.reuters.com/world/asia-pacific/vietnam-opposes-china-philippines-acts-disputed-south-china-sea-reef-2025-05-03/</a></p><p><a href="https://www.estadao.com.br/economia/com-economia-de-mercado-orientada-ao-socialismo-vietna-cresce-sem-parar-e-supera-pobreza-extrema/?srsltid=AfmBOoruex-90BS8VbtnD9k-Xznldf8c0kLQCq74U6EsGZynEat_VJ88">https://www.estadao.com.br/economia/com-economia-de-mercado-orientada-ao-socialismo-vietna-cresce-sem-parar-e-supera-pobreza-extrema/?srsltid=AfmBOoruex-90BS8VbtnD9k-Xznldf8c0kLQCq74U6EsGZynEat_VJ88</a></p><p><a href="https://cil.nus.edu.sg/databasecil/2000-agreement-between-the-peoples-republic-of-china-and-the-socialist-republic-of-vietnam-on-the-delimitation-of-the-territorial-seas-exclusive-economic-zones-and-continental-shelves-of-the/">https://cil.nus.edu.sg/databasecil/2000-agreement-between-the-peoples-republic-of-china-and-the-socialist-republic-of-vietnam-on-the-delimitation-of-the-territorial-seas-exclusive-economic-zones-and-continental-shelves-of-the/</a></p><p><a href="https://www.vietnam-briefing.com/news/vietnam-us-trade-and-investment-relations.html/">https://www.vietnam-briefing.com/news/vietnam-us-trade-and-investment-relations.html/</a></p><p><a href="https://2021-2025.state.gov/bureau-of-east-asian-and-pacific-affairs/releases/2025/01/u-s-relations-with-vietnam/#:~:text=Bilateral%20Economic%20Relations&amp;text=The%20United%20States%20and%20Vietnam%20have%20concluded%20a%20trade%20and,nearly%20%24124%20billion%20in%202023.">https://2021-2025.state.gov/bureau-of-east-asian-and-pacific-affairs/releases/2025/01/u-s-relations-with-vietnam/#:~:text=Bilateral%20Economic%20Relations&amp;text=The%20United%20States%20and%20Vietnam%20have%20concluded%20a%20trade%20and,nearly%20%24124%20billion%20in%202023.</a></p><p><a href="https://brasilvietna.com.br/">https://brasilvietna.com.br/</a></p><p><a href="https://asean.org/secretary-general-of-asean-highlights-key-outcomes-on-recently-concluded-46th-asean-summit-and-related-summits-under-malaysias-asean-chairmanship/">https://asean.org/secretary-general-of-asean-highlights-key-outcomes-on-recently-concluded-46th-asean-summit-and-related-summits-under-malaysias-asean-chairmanship/</a></p><p><a href="https://tradingeconomics.com/vietnam/stock-market">https://tradingeconomics.com/vietnam/stock-market</a></p><p><a href="https://apnews.com/general-news-879610fcf0074af3a7594fed342b7094">https://apnews.com/general-news-879610fcf0074af3a7594fed342b7094</a></p><p><a href="https://eastasiaforum.org/2025/09/02/vietnams-bamboo-diplomacy-bends-under-us-trade-pressure/">https://eastasiaforum.org/2025/09/02/vietnams-bamboo-diplomacy-bends-under-us-trade-pressure/</a></p><p><a href="https://www.imf.org/external/datamapper/profile/VNM">https://www.imf.org/external/datamapper/profile/VNM</a></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=5bea905b4ba9" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[Ouro Azul do Congo: Instabilidade interna e corrida geopolítica entre China e EUA]]></title>
            <link>https://medium.com/@feaint.usp/ouro-azul-do-congo-instabilidade-interna-e-corrida-geopol%C3%ADtica-entre-china-e-eua-3671a7b6bae0?source=rss-c93fb20cbcc3------2</link>
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            <dc:creator><![CDATA[FEA Internacional]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 12 Aug 2025 19:11:47 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-08-12T19:11:47.682Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>As rédeas da dinâmica global internacional conduzem a um mundo onde a <strong>transição energética</strong> assume cada vez mais protagonismo. Baterias, veículos elétricos, armazenamento de energia são apenas alguns exemplos de como o <strong>cobalto </strong>tornou-se parte integrante do cotidiano tecnológico e tende a continuar fazendo cada vez mais parte dele nas próximas décadas. Atualmente, cerca de 70% da sua produção mundial está na <strong>República Democrática do Congo</strong>, país que — em meio a conflitos políticos e problemas sociais em demasia — depende fortemente da produção desse minério para se manter economicamente. Entretanto, a maior parte do controle do cobalto não está na mão dos políticos locais e sim, de empresas <strong>chinesas</strong>. A concentração de um insumo tão estratégico para o futuro da economia global em <strong>um único território </strong>— e, em grande parte, sob influência da principal <strong>potência emergente </strong>na disputa por recursos críticos — evidencia uma <strong>assimetria </strong>geoeconômica preocupante. Essa configuração intensifica a nova corrida global por minerais estratégicos, com impactos diretos tanto sobre a ordem geopolítica internacional quanto sobre a dinâmica interna da República Democrática do Congo. Portanto, esse artigo pretende abordar a importância do cobalto para o desenvolvimento <strong>tecnológico</strong>, a centralidade do Congo na sua cadeia produtiva global, seu impacto nas condições socioeconômicas do país e, principalmente, a disputa global acentuada entre os <strong>Estados Unidos</strong> e a <strong>China </strong>na dominação por esse insumo tão requisitado.</p><p>Em primeiro plano, é importante enfatizar como o cobalto tornou-se protagonista no cenário atual, devido, principalmente, ao apelo pela transição energética. A condenação dos<strong> combustíveis fósseis </strong>acontece com a exaltação de energias renováveis, onde as baterias de íons de lítio ficam cada vez mais em evidência. Presentes nos computadores, smartphones, cigarros eletrônicos, veículos elétricos, dentre outros aparelhos eletrônicos que circundam o cotidiano, essas baterias utilizam-se do cobalto como instrumento de melhoramento de <strong>desempenho</strong>, já que o mineral contribui para uma alta <strong>densidade </strong>de energia e <strong>estabilidade </strong>durante ciclos de carga e descarga. As propriedades do minério tornam-se essenciais para a bateria, à medida que evita a <strong>degradação rápida</strong>, prolongando a vida útil do dispositivo e melhorando a sua segurança térmica. Deve-se evidenciar que a utilização do cobalto é ainda mais intensificada com a popularização dos<strong> veículos elétricos</strong>, das quais baterias representam mais de 50% da destinação do minério (Gráfico 1). Nesse sentido, acredita-se que a demanda por esse minério tende a <strong>quadruplicar </strong>até 2030, segundo o Fórum Econômico Mundial.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/852/0*qo1kxMn69sIp28c2" /></figure><p>No entanto, antagonicamente, todo esse protagonismo está concentrado em um único país: a República Democrática do Congo. A RDC concentra cerca de <strong>70% da produção mundial </strong>do cobalto, mas que, com as condições de fragilidade das instituições estabelecidas, encontra-se frente a condições sociais <strong>hostis</strong>. Nesse contexto, mais de três quartos da população vivem<strong> abaixo da linha da pobreza,</strong> um terço sofre com insegurança alimentar, a expectativa de vida é de apenas <strong>60,7 anos</strong>, a <strong>mortalidade infantil</strong> está entre as onze piores do mundo, o<strong> acesso à água</strong> potável é de apenas <strong>26%,</strong> e a <strong>eletrificação </strong>alcança apenas<strong> 9%</strong> da população. A educação, teoricamente, deveria ser financiada pelo Estado até os dezoito anos, mas as escolas e os professores recebem pouco apoio e são forçados a cobrar mensalidades de cinco ou seis dólares para cobrir seus custos — um valor que milhões de congoleses não são capazes de pagar. Como consequência, inúmeras <strong>crianças </strong>são obrigadas a trabalhar para sustentar suas famílias, especialmente nas províncias <strong>mineradoras</strong>. Apesar de contribuir para gerar riquezas <strong>incalculáveis </strong>para grandes empresas de tecnologia e montadoras de automóveis, a maioria dos mineradores <strong>artesanais </strong>de cobalto recebe rendas miseráveis entre <strong>um </strong>e <strong>dois </strong>dólares por dia e grandes <strong>danos </strong>à <strong>saúde </strong>pela precariedade das condições de trabalho (KARA, 2023). As minas artesanais, irrisoriamente regulamentada e frequentemente em desacordo com as leis congolesas, representam, atualmente, cerca de 2% da produção de cobalto do Congo (Benchmark Mineral Intelligence, 2024) e agregam trabalhadores que alegam que não têm para onde vender seu <strong>cobalto </strong>e cobre, além dos onipresentes a<strong>tacadistas chineses</strong> (MARTIN <em>et al.</em>, 2025).</p><p>A consolidação da <strong>China </strong>no território teve origem na <strong>saída </strong>de empresas <strong>ocidentais </strong>do país devido à <strong>fragilidade </strong>das <strong>instituições </strong>congolesas e a inserção de uma ditadura <strong>cleptocrática</strong>, que se estendeu pela República Democrática do Congo até o final da década de 90. Muitas das empresas como General Motors Co., General Electric Co. e Citigroup Inc., que tinham operações ou grandes projetos no país, começaram a evacuar, abrindo as portas para as empresas chinesas. Nesse sentido, a <strong>diminuição </strong>da <strong>concorrência </strong>no território, em consonância com os programas de desenvolvimento promovidos pelo governo chinês no território africano, resultaram no domínio chinês que se mantém até os dias atuais. A <em>joint venture </em><strong>Sicomines </strong>exemplifica o modelo de atuação estatal da China na África, no qual bancos públicos, empresas de engenharia e mineradoras operam de forma coordenada para assegurar acesso a recursos estratégicos em troca de infraestrutura, sob uma ampla estratégia política e econômica liderada por Pequim (BRAUTIGAM, 2011).</p><p>Assim, a entrada da <strong>CMOC</strong>, que inicialmente era uma empresa estatal chinesa e hoje é a maior empresa do ramo, foi facilitada no território e atinge uma marca de detenção de aproximadamente <strong>50% da produção de cobalto do país </strong>(Gráfico 2). O cenário, antes dominado pela gigante anglo-suíça Glencore, é revertido a partir da estratégia da potência asiática baseada na compra de ativos em massa no Congo em simultaneidade com a agilidade nas construções. Em 2016, a CMOC assumiu a mina <a href="https://www.bloomberg.com/news/features/2024-02-20/us-china-washington-ramps-up-hunt-for-ev-metals-to-secure-its-own-supplies">Tenke Fungurume,</a> perto de Kolwezi, em um acordo com a mineradora americana Freeport-McMoRan Inc. e a canadense Lundin Mining Corp., que totalizou US$ 3,8 bilhões. Em 2020, pagou à Freeport outros US$ 550 milhões pela licença de Kisanfu e, no ano passado, tornou-se uma das 10 maiores produtoras de <strong>cobre</strong>. Em um setor onde transformar <strong>geologia promissora </strong>em uma <strong>mina </strong>de fato pode levar <strong>décadas</strong>, o progresso da CMOC na construção de Kisanfu surpreendeu os concorrentes (MARTIN <em>et al.</em>, 2025). A instalação — agora a maior mina de cobalto do mundo — entrou em produção em pouco mais de dois anos. A velocidade deixou os concorrentes desprevenidos, provocando um <strong>aumento </strong>demasiado da oferta de cobalto que foi capaz de provocar uma <strong>queda </strong>agravante nos preços do <strong>minério </strong>(Gráfico 3). O impacto financeiro para o Congo foi significativo: os <strong>royalties </strong>da mineração de hidróxido de cobalto caíram mais de 40%, para US$ 409 milhões em 2023 (Resource Matter, 2023). O controle da <strong>precificação </strong>desse insumo tão valioso estava oficialmente nas mãos da <strong>China</strong>.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/812/0*_dnOljchbtRH3tMT" /><figcaption>Gráfico 2</figcaption></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/819/0*Zj8RrZqAnHDh1vIZ" /><figcaption>Gráfico 3</figcaption></figure><p>Esse poder, além de <strong>explicitar a hegemonia chinesa </strong>no ramo, trouxe benefícios claros para o país asiático. A maior fabricante mundial de baterias para veículos elétricos, a <strong>Contemporary Amperex Technology Co.</strong> Ltd., ou CATL, não é apenas de origem chinesa, como também detém em torno de 25% da participação acionária da CMOC e uma participação segregada de também um quarto só da mina de Kisanfu. O barateamento dos preços do cobalto favorece diretamente o crescimento desse negócio. Ademais, a centralidade da República Democrática do Congo na cadeia do cobalto se restringe apenas à <strong>produção</strong>, já que a China além de deter o controle de diversas minas e contratos de exploração mineral no território congolês, domina também as <strong>etapas industriais </strong>de maior valor agregado: possui as fábricas de refino, produção de baterias e veículos elétricos — estruturas construídas ao longo de décadas dentro de seu próprio território, concentrando o <strong>processamento </strong>de mais de <strong>80% do cobalto</strong> refinado no mundo em 2023 (Darton Commodities, 2024). Apenas em 2024, o valor do comércio entre a República Democrática do Congo e a China alcançou <strong>aproximadamente US$ 27 bilhões</strong>, refletindo a crescente interdependência entre os dois países (MARTIN <em>et al.</em>, 2025).</p><p>Nesse contexto, a RDC ciente que sua relevância na produção do cobalto está nas mãos de empresas chinesas e não de políticos locais, vem buscando alternativas que <strong>dissipam </strong>a <strong>dependência </strong>da potência asiática. Em fevereiro deste ano, o governo congolês pr<strong>oibiu a exportação do cobalto,</strong> como maneira de controlar a oferta internacional e encarecer o insumo. De acordo com Luanbeya, presidente da Autoridade para a Regulação e Controle dos Mercados de Substâncias Minerais Estratégicas (ARECOMS), a situação exigia “ação imediata”, pois anos de mineração ilegal e <strong>exportações descontroladas</strong> de produtores industriais e semi-industriais levaram a uma oferta excessiva, representando uma ameaça ao país e seus investidores nacionais e internacionais. A medida foi inicialmente ditada por 4 meses, mas, em divulgação recente, o governo já prolongou-a até setembro. Em decorrência desse fato, é importante destacar que a <strong>proibição da exportação não implica a proibição da produção de cobalto no território</strong>. Em julho deste ano, a CMOC fez uma declaração preliminar dos lucros que prevê um aumento de <strong>13% na produção anual do material para 61.073 toneladas</strong> nos seis meses até junho (Gráfico 4), mesmo frente a política de exportação explicitada. A alta de estoque no país africano torna-se preocupação crescente para os políticos congoleses, que podem ver os efeitos da estratégia de <strong>encarecimento </strong>do insumo assumirem <strong>caminhos inversos.</strong></p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/847/0*IZYabyJIY-O4lgEr" /><figcaption>Gráfico 4</figcaption></figure><p>Outrossim, outra estratégia assumida pelo governo do Congo foi buscar apoio dos <strong>Estados Unidos, </strong>como alternativa à influência chinesa, controversamente buscando a transferência do controle estratégico de seus recursos de uma potência global para outra. No final de junho deste ano, foi assinado em Washington, um acordo de <strong>paz </strong>entre <strong>Ruanda </strong>e a República Democrática do Congo, mediado pelos Estados Unidos. A crise no leste do país, que faz fronteira com Ruanda, está “profundamente enraizada nas disputas fronteiriças da era colonial, nas tensões regionais não resolvidas e nas consequências do genocídio ruandês de 1994” (KUBELWA, 2025). Nesse contexto, a RDC é criticada por integrar ao seu exército<strong> milícias hutus,</strong> enquanto Ruanda é amplamente acusada por especialistas da ONU de apoiar militarmente o <strong>grupo rebelde M23,</strong> formado majoritariamente por <strong>tutsis congoleses</strong>, que reivindica a defesa das minorias de origem ruandesa e o controle de áreas ricas em recursos minerais nas <strong>províncias de Kivu do Norte e do Sul </strong>(PRINCEWILL, 2025). Um Relatório do Grupo de Peritos da ONU, publicado em dezembro, revelou que <strong>minerais extraídos ilegalmente</strong> na RDC foram exportados para Ruanda e misturados à produção local. Em 2024, o presidente ruandês <strong>Paul Kagame</strong> gerou controvérsia ao admitir publicamente que o país serve como<strong> rota de trânsito </strong>para esses minerais, negando, no entanto, qualquer ato de pilhagem contra o país vizinho. Em meio a este cenário, os Estados Unidos configuram-se como pacificadores ao solucionar o conflito com um acordo que prevê o respeito pela integridade territorial, o <strong>desarmamento </strong>e, é claro, o estabelecimento de um “quadro de integração econômica regional” que pode atrair investimentos significativos dos EUA para os dois países.</p><p>A tentativa americana de adentramento no território congolês não é recente. A <strong>corrida </strong>por <strong>minérios </strong>no continente <strong>africano </strong>e, portanto, por adventos do mercado de eletrônicos, estava em foco também no governo <strong>Biden</strong> de maneira tardia. O antigo presidente americano introduziu incentivos financeiros para impulsionar o refino doméstico nos EUA, que ainda não são capazes de processar o cobalto, e promessas de investimentos para a <strong>Ferrovia Atlântica do Lobito,</strong> ligando Kolwezi à costa angolana. Além disso, a EVelution Energy, sediada no Arizona, está competindo para ser uma das primeiras empresas americanas a inaugurar uma <strong>unidade de refino de cobalto </strong>em escala comercial no país. A empresa planeja começar em 2027 e tem intenções claras de importar do Congo. Gil Michel-Garcia, vice-presidente executivo da empresa, afirma que um acordo de <strong>“paz por minerais”</strong> ajudaria a “garantir minerais essenciais” para as indústrias <strong>automotiva, aeroespacial e de defesa</strong><em> </em>dos EUA, e a “reduzir o risco da cadeia de suprimentos de cobalto da América com a China” (MARTIN <em>et al.</em>, 2025).</p><p>Paralelamente, os Estados Unidos ampliam sua presença na RDC por meio de outras frentes estratégicas. Em julho de 2025, a empresa americana de mineração <strong>KoBold Metals </strong>— financiada por nomes como Bill Gates e Jeff Bezos — firmou um acordo de<strong> exploração mineral </strong>no país, aprofundando sua atuação no setor extrativista congolês. A companhia também busca acesso a um território no sudeste do país, atualmente alvo de disputa entre a australiana AVZ Minerals Ltd. e autoridades locais. Além disso, em março, a parceria político-estratégica entre <strong>Washington e Kinshasa</strong> foi determinante para barrar a compra da Chemaf Resources Ltd., produtora relevante de cobre e cobalto, pela estatal chinesa Norinco, alegando razões regulatórias. A compradora alternativa é um consórcio americano liderado por ex-integrantes das Forças Especiais dos EUA, embora os detalhes da operação ainda não tenham sido divulgados publicamente. No entanto, fica claro que mesmo com certo apoio do governo congolês, qualquer investida dos EUA começa com uma <strong>grande desvantagem</strong> em relação à China.</p><p>Em suma, a centralidade do cobalto na transição energética evidencia que os caminhos rumo a uma economia dita “<strong>limpa</strong>” podem estar alicerçados em realidades demasiadamente contraditórias. Embora o mineral represente a tecnologia e inovação, a sua extração na República Democrática do Congo se dá em meio a um contexto de <strong>pobreza extrema,</strong> <strong>trabalho infantil,</strong> ausência de infraestrutura básica e exploração internacional. A promessa de uma energia limpa, portanto, parece não se concretizar sem considerar os <strong>custos sociais e humanos</strong> embutidos em sua cadeia de suprimento. Nesse cenário, a tentativa da RDC de romper com a <strong>hegemonia chinesa</strong> no setor mineral, buscando a aproximação com os Estados Unidos, revela-se menos como um movimento de soberania e mais como uma <strong>reconfiguração da dependência.</strong> O próprio acordo de paz mediado pelos EUA entre Ruanda e RDC, embora carregado de simbolismo diplomático, levanta questionamentos ao incluir cláusulas de cooperação econômica e priorização do favorecimento americano enquanto silencia sobre as violações e a pilhagem de recursos anteriormente denunciadas. Dessa forma, a disputa por recursos estratégicos como o cobalto transcende a <strong>arena econômica</strong> e revela um embate profundo por <strong>influência política, tecnológica e geoestratégica</strong> da nova ordem internacional contemporânea.</p><blockquote>Amanda Sampaio</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/476/0*eZOrPpNMgxwp7afr.jpeg" /></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=3671a7b6bae0" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Primavera Árabe Egípcia: uma Espiral de Autoritarismo]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[FEA Internacional]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 08 Aug 2025 19:50:14 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-08-08T19:50:14.829Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Em 2010, uma série de protestos por <strong>democracia</strong>, mudanças políticas e melhora das condições <strong>econômicas </strong>eclodiu no <strong>Mundo Árabe</strong>. Essa onda de reivindicações e de oposição aos regimes <strong>autoritários </strong>que imperavam na região ficou conhecida como <strong>Primavera Árabe.</strong> Tal fenômeno se iniciou na Tunísia, mas logo se espalhou para inúmeros países do norte da África e do Oriente Médio por meio do uso das redes sociais para divulgação de <strong>ideias </strong>e organização dos movimentos. Dessa forma, a Primavera Árabe ficou conhecida como o primeiro conjunto de <strong>manifestações </strong>propagadas e estruturadas a partir do mundo <strong>digital</strong>.</p><p>Com o passar do tempo, os protestos evoluíram para levantes populares e tentativas de <strong>deposição </strong>dos governos em alguns desses países, levando a <strong>guerras civis</strong>, novas democracias e, em certos locais, à continuidade do autoritarismo. Como exemplo de país que passou por mudanças políticas à luz da Primavera Árabe pode-se citar o <strong>Egito</strong>, que atualmente está sob regime autoritário e que será o objeto deste texto.</p><h4><strong>Contexto histórico</strong></h4><p>Primeiramente, deve-se entender a situação do Egito antecedente à Primavera Árabe. O país era governado a 30 anos por <strong>Hosni Mubarak,</strong> marechal da aeronáutica e vice-presidente de Anwar Sadat que se tornou líder do Egito após o assassinato de Sadat, em 1981. Entretanto, o regime militar data de muito antes: em 1952, <strong>Abdel Nasser </strong>e outros oficiais, incluindo Sadat, empreenderam um golpe de Estado, tirando a monarquia do poder. O país foi tomado por um Conselho do Comando Revolucionário que governou por mais de um ano, até que, em 1954, Nasser se autonomeou primeiro-ministro. Nesse mesmo ano, um egípcio tentou assassinar Nasser em Alexandria, iniciando o que seria o grande embate do país no século XX: uma disputa entre os <strong>militares islâmicos secularizados</strong> e os grupos <strong>fundamentalistas</strong> que ambicionam o poder. Quando o atirador confessou ser parte da Irmandade Muçulmana, um desses grupos fundamentalistas, Nasser passou a perseguir tais grupos. Ademais, em 1956, Nasser promulgou uma Constituição segundo a qual o Egito seria um Estado <strong>socialista árabe unipartidário</strong>, tendo o islã como religião oficial.</p><p>As bases firmadas por Nasser se mantiveram até o fim de seu governo, em 1971. Dessa forma, o cenário de assassinato de Sadat e ascensão de Mubarak contava com o mesmo <strong>sistema político e ideológico</strong>, mas envolto na instabilidade de um transição brusca de poder. Por conta disso, Mubarak decretou <strong>lei de emergência</strong> logo que assumiu a liderança política, concedendo poderes à polícia e ao exército para perseguir a oposição. Assim, ele foi reeleito subsequentemente em eleições sem oposição até 2005, quando a primeira eleição presidencial com múltiplos candidatos foi feita. Apesar desse aparente avanço democrático, Mubarak venceu novamente em meio a alegações de <strong>irregularidades </strong>eleitorais. Desse modo, o Egito de 2011, ano da eclosão dos protestos no país, estava imerso em um <strong>regime autoritário de 30 anos</strong>, sustentado pela imagem e força de Hosni Mubarak.</p><p>Entretanto, a Primavera Árabe não foi a primeira insurgência ocorrida no Egito de Mubarak: 1993 marcou o início do crescimento da atuação de grupos opositores e de <strong>guerrilha</strong>, que demandavam eleições verdadeiramente democráticas. Isso nunca havia ocorrido no país, visto que as forças armadas derrubaram a monarquia em 1952 e, portanto, o Egito nunca fora uma democracia. A resposta do líder foi a opressão desses grupos, principalmente dos fundamentalistas islâmicos, gerando uma reação na forma de um atentado <strong>terrorista </strong>em Luxor, em 1997, que vitimou 60 turistas. Ainda que a situação interna fosse instável, Mubarak favorecia a união e a paz no Oriente Médio, adotando o papel de mediador no conflito <strong>Israel-Palestina</strong> e se aproximando dos Estados Unidos — em continuidade ao que Sadat fizera em <strong>Camp David</strong> em 78 .</p><p>Já em relação à sua situação econômica, o Egito aprofundou sua <strong>dependência </strong>em ajuda externa, contraindo empréstimos com FMI e com o Banco Mundial. Assim como os demais países em <strong>desenvolvimento </strong>que receberam dinheiro dessas organizações financeiras internacionais, o Egito foi pressionado a adotar os princípios vistos como corretos para a <strong>estabilidade macroeconômica </strong>como condição para a concessão de crédito: <strong>privatização </strong>de empresas estatais,<strong> corte de gastos, livre-comércio</strong> internacional e <strong>política fiscal austera</strong>. Além disso, o governo <strong>militar </strong>controlava grandes setores da economia, se apropriando dos <strong>lucrativos </strong>ganhos. O resultado dessas medidas foi uma ampliação da <strong>desigualdade </strong>de renda e, com o passar dos anos, um agravamento da <strong>pobreza</strong>. Às vésperas da Primavera Árabe, 20% da população egípcia vivia abaixo da linha da pobreza, e outros 20% próximo a ela.</p><h4><strong>A Primavera Árabe</strong></h4><p>A Primavera Árabe começou com protestos na Tunísia após as autoridades confiscarem a venda de um comerciante de rua chamado<strong> Mohammed Bouazizi</strong>, alegando que ele não possuía as licenças para operar. Como forma de protesto, o vendedor <strong>incendiou </strong>o próprio <strong>corpo</strong>, e sua morte motivou manifestações por todo o mundo árabe — isso graças à <strong>internet</strong>, usada como meio de difusão dos ideais de oposição à opressão e ao autoritarismo. No Egito, a faísca foi a morte de <strong>Khaled Said, </strong>que gravou dois policiais consumindo drogas confiscadas em uma batida policial. Os oficiais o perseguiram e o espancaram, causando sua morte. Indignada com a repressão no país, a população egípcia saiu às ruas em janeiro de 2011, se reunindo principalmente na<strong> Praça Tahrir,</strong> o centro simbólico da cidade de Cairo. Ademais, a composição dos manifestantes, incluindo a <strong>população pobre</strong> afetada pela economia egípcia, marcou uma diferença crucial frente os movimentos anteriores contra Mubarak, os quais eram centrados na classe média. Os protestos continuaram até a <strong>renúncia </strong>do presidente, em 11 de fevereiro de 2011, permeados por <strong>opressão </strong>e <strong>violência </strong>policial por parte do regime autoritário.</p><p>Com a queda de Mubarak, o Egito era um país de uma revolução sem líder, o que aumentava a popularidade do movimento e a <em>sensação </em>de <strong>democracia</strong>. Entretanto, isso também significava que formar um novo governo seria uma tarefa árdua, ainda mais após 30 anos de manutenção do regime autoritário. Nesse contexto, a <strong>Irmandade Muçulmana </strong>ganhou proeminência. O grupo havia sido fundado na década de 1920 com a proposta de empreender uma reforma islâmica <strong>sunita </strong>no governo egípcio, criando um Estado baseado nas leis do islã (<strong>Sharia</strong>). Em oposição, o <strong>exército </strong>egípcio queria voltar ao poder, considerando a renúncia de Mubarak como um sacrifício temporário da liderança do país.</p><p>Em 2012, as eleições ocorreram: a Irmandade Muçulmana venceu, elegendo <strong>Mohammed Morsi </strong>como presidente do Egito. Porém, o governo encontrou dificuldades para atuar, além de excluir egípcios que não eram de sua base organizacional. Assim, em 2013, a população se opunha ao novo presidente, principalmente após a declaração constitucional feita por Morsi que colocava seus decretos acima da revisão do judiciário. Aproveitando-se da oportunidade, as forças armadas egípcias realizaram um <strong>golpe de Estado </strong>contra o primeiro presidente eleito democraticamente na história do Egito.</p><h4><strong>Governo Al-Sisi</strong></h4><p>Após o golpe em 2013, o marechal de campo <strong>Abdel Fatah Al-Sisi </strong>assumiu o poder como presidente eleito em 2014, mudando novamente o rumo da política egípcia. O militar iniciou uma nova fase de repressão, adotando uma perseguição<strong> anti-islâmica</strong> e violenta aos opositores do regime, como a Irmandade Muçulmana. Até o início de 2014, mais de 2 mil egípcios haviam sido assassinados pelas forças policiais e milhares continuaram a ser presos e executados com base em julgamentos questionados por órgãos de defesa aos direitos humanos. Além disso, houve restrição ao acesso à internet, aprovação de leis que facilitam a censura e prisões devido a publicações on-line contra o governo, em um esforço para conter o meio central de propagação da Primavera Árabe. Assim, o “novo normal” passou a ser <strong>repressão, autoritarismo e atraso econômico e social.</strong></p><p>Considerando um contexto recente de agitação e protestos, apenas repressão não seria suficiente para impedir uma nova insurreição popular. O principal pilar do regime Al-Sisi é o financiamento externo advindo das <strong>monarquias do Golfo,</strong> que temiam que o alastramento dos ideais da Primavera Árabe pudesse afetar seus próprios regimes. Os mais incipientes apoiadores financeiros são o <strong>Reino da Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, </strong>mas a falta de ação do Ocidente também sustenta o regime. Ao se aliar politicamente com o governo egípcio, as nações ocidentais são coniventes com os ataques aos direitos humanos e com a opressão promovida. Esse posicionamento deriva do objetivo de preservar a estabilidade no Oriente Médio, que, para as potências ocidentais, estaria salvaguardada por um estável regime autoritário.</p><p>Ao longo do tempo, Al-Sisi fortaleceu ainda mais sua posição: em 2019, um referendo constitucional deu a ele a possibilidade de <strong>estender seu mandato presidencial</strong> até 2030. Apesar de al-Sisi aparecer como a figura central e mais poderosa do Egito, seu poder é frágil e está profundamente conectado às elites do país e, principalmente, ao exército. As <strong>Forças Armadas do Egito </strong>(FAE) são a fonte <strong>primária </strong>e <strong>indispensável </strong>de <strong>legitimidade política</strong>, econômica e social, de forma que as medidas que ocorrem dentro do país são condicionadas ao alinhamento de interesses entre elas e o presidente. Esse papel de protetoras da Constituição e do Estado foi ampliado com as reformas constitucionais de 2019, que renovaram a liderança das FAE. Ademais, elas passaram a exercer uma presença cada vez maior na tomada de decisão, atuando nas transformações socioeconômicas pelas quais o Egito passa, enquanto preservam seus privilégios: estimativas extraoficiais de grupos europeus de pesquisa, como o Stiftung Wissenschaft und Politik, apontam que mais de 20% do PIB do país é gasto com <strong>despesas e planos dos militares.</strong></p><p>Tal condução do orçamento público agrava ainda mais o descontentamento da população, vítima de <strong>desigualdade</strong> socioeconômica e da <strong>pobreza</strong>. A situação econômica foi um dos motivadores da revolta na Primavera Árabe, sendo a economia egípcia tradicionalmente frágil e <strong>dependente </strong>do exterior, tanto de empréstimos quanto do turismo. Nesse sentido, o novo governo reforçou o controle autoritário sobre as instituições estatais, tentando mitigar o descontentamento e os protestos e comandar processos. Apesar disso, os problemas <strong>estruturais </strong>da economia não foram trabalhados: o <strong>desemprego </strong>e a dependência externa apenas aumentaram, agravando ainda mais a distribuição desigual de renda e a pobreza. Ademais, o elevado <strong>crescimento demográfico </strong>do país pressiona a já frágil situação econômica, visto que requer políticas governamentais voltadas para a primeira infância e acarreta um déficit de moradia ascendente.</p><p>Outrossim, a pandemia de COVID-19 afetou fortemente a economia do Egito. Em um país já <strong>vulnerável </strong>socioeconomicamente, a ampliação dos <strong>gastos públicos </strong>fez-se necessária para acalmar os ânimos de uma população muito descontente. Esse aumento de gastos somou-se a uma redução das receitas com o Suez, agravando o <strong>déficit público</strong>. Além da piora fiscal, as <strong>contas externas</strong> também foram pressionadas por reduções no turismo, nas remessas de egípcios no exterior, e de injeções monetárias dos países do Golfo — que sempre apoiaram o governo Al-Sisi e diminuíram graças à queda no preço do petróleo. Como resultado, a libra egípcia <strong>desvalorizou quase 50%</strong> entre janeiro de 2022 e 2023, de modo que o Egito precisou tomar um empréstimo <strong>de US$5,2 bilhões</strong> junto ao<strong> Fundo Monetário Internacional </strong>(FMI), com um prazo de apenas um ano para devolver o montante.</p><p>Como resultado, o pós-pandemia conta com <strong>alta inflacionária,</strong> principalmente nos setores de energia e abastecimento hídrico, e <strong>cortes de subsídios</strong> e programas de bem-estar estatais. Isso levou a uma piora dos índices que já eram preocupantes antes da Primavera Árabe: a parcela da população abaixo da l<strong>inha da pobreza subiu para 33%</strong>, segundo a medida internacional. Porém, ao utilizar o critério mais amplo do Banco Mundial — U$6,85 diários ajustados à paridade do poder de compra — , os números se tornam alarmantes: 70% da população do Egito vive abaixo da linha da pobreza.</p><h4><strong>Conclusão</strong></h4><p>A partir do exposto nesse artigo, é possível perceber que a Primavera Árabe teve, no Egito, o efeito oposto ao pretendido: ao invés de proporcionar uma transição para um governo democrático, houve um <strong>aprofundamento do autoritarismo e da opressão</strong>. A queda de Mubarak apenas abriu caminho para um militar mais repressor assumir o poder, minando as perspectivas de ampliação da participação popular na política egípcia. Ademais, a motivação de mudança na situação socioeconômica também não foi correspondida, havendo um crescimento da pobreza e das dificuldades econômicas do Egito. Nesse contexto, o apoio dos países do Golfo e a <strong>negligência do Ocidente </strong>apenas fortalecem o regime Al-Sisi. Apesar desse cenário fomentar avaliações pessimistas para o futuro do país, a força de <strong>reação dos egípcios</strong> não deve ser subestimada, visto que as pressões sociais aumentam cada vez mais. Assim, o mais viável caminho para uma mudança no Egito segue sendo o mesmo da Primavera Árabe: a <strong>mobilização popular.</strong></p><blockquote>Júlia Passos Gonçalves</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/476/1*gQPmXnM4_TaSN8zz926z3g.jpeg" /></figure><p><strong>NOLL, Jessica.</strong> <em>Egypt’s Armed Forces Cement Economic Power: Military Business Expansion Impedes Structural Reforms</em>. Berlin: Stiftung Wissenschaft und Politik, 2017. <a href="https://www.swp-berlin.org/en/publication/egypts-armed-forces-cement-economic-power">https://www.swp-berlin.org/en/publication/egypts-armed-forces-cement-economic-power</a></p><p><a href="https://www.britannica.com/biography/Hosni-Mubarak">https://www.britannica.com/biography/Hosni-Mubarak</a></p><p><a href="https://www.bbc.com/news/world-middle-east-56000950.amp">https://www.bbc.com/news/world-middle-east-56000950.amp</a></p><p><a href="https://aspeniaonline.it/ten-years-on-egypt-and-the-legacy-of-the-arab-spring/">https://aspeniaonline.it/ten-years-on-egypt-and-the-legacy-of-the-arab-spring/</a></p><p><a href="https://databankfiles.worldbank.org/public/ddpext_download/poverty/987B9C90CB9F-4D93-AE8C-750588BF00QA/current/Global_POVEQ_EGY.pdf">https://databankfiles.worldbank.org/public/ddpext_download/poverty/987B9C90CB9F-4D93-AE8C-750588BF00QA/current/Global_POVEQ_EGY.pdf</a></p><p><a href="https://www.hrw.org/world-report/2024/country-chapters/egypt">World Report 2024: Rights Trends in Egypt</a></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=9ff01c59b72e" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Conflitos no Sudão e Sudão do Sul]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[FEA Internacional]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 06 Aug 2025 22:41:32 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-08-06T22:41:32.106Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*0WbFOQwF_X0BPf6d.jpg" /><figcaption>Fonte: ABC News</figcaption></figure><p>Desde o inicio do século as condições no Sudão são marcadas <strong>pobreza </strong>extrema, <strong>catástrofes </strong>humanitárias, <strong>instabilidade política e inúmeros conflitos armadas — </strong>como a<strong> </strong>secessão do Sudão do Sul, a atual guerra civil e denúncias de limpeza étnica na regiões de Darfur<strong>. </strong>A crise produziu uma das piores situações de deslocamento do mundo, com imenso sofrimento para os civis, na qual aproximadamente <strong>quatro milhões de pessoas migraram para países vizinhos </strong>em busca de uma realidade mais segura e plácida desde o início da guerra civi do Sudão em 2023. Tal emergência humanitária, entretanto, não desperta a atenção dos holofotes midiáticos, sendo assim considerado uma <strong>guerra invisível</strong>, sobre a qual poucos têm conhecimento. Dessa forma, para a compreensão da situação atual, é necessário ter ciência das raízes históricas e dos eventos passados responsáveis pela construção do cenário contemporâneo na região.</p><h4>CONTEXTO HISTÓRICO</h4><p>O Sudão, país situado na região centro-norte da África, foi dominado pelo Egito e pelo Reino Unido no Acordo de Berlim. Sua independência ocorreu em 1956, quatro meses antes da Primeira Guerra Civil Sudanesa (1955–1972), <strong>conflito armado </strong>entre a porção norte do Sudão e a <strong>porção sul,</strong> a qual estava em busca de uma maior <strong>autonomia regional.</strong></p><p>Apesar do fim da Primeira Guerra Civil Sudanesa, a instabilidade política continuou a vigorar: a parte sul ainda lutava pela conquista de mais autonomia. Isso culminou na Segunda Guerra Civil Sudanesa (1983–2005), na qual o <strong>Governo Central do Sudão </strong>e o <strong>Exército de Libertação Popular do Sudão </strong>(grupo rebelde da população do sul) tiveram destaque. Além do mais, outra discordância se deu a partir do instante em que o governo do Sudão, predominantemente muçulmano, impôs a Sharia — corpo de lei religiosa islâmica — sobre todo o país, incluindo na parte sul de maioria não islâmica. O conflito, como resultado, agravou a crise humanitária, deixando rastros das atrocidades ocorridas e do sofrimento da população sudanesa até os dias de hoje. Foi apenas em 2005 que um acordo de paz abrangente foi assinado entre os dois lados, colocando fim na Segunda Guerra Civil Sudanesa.</p><p>O acordo de paz, dentre outros asseguramentos, garantiu um referendo sobre a independência do Sudão do Sul. Diante disso, em 9 de julho de 2011, o <strong>Sudão do Sul</strong> tornou-se um país independente, agora com o nome de República do Sudão do Sul — o país mais jovem do mundo.</p><p>Entretanto, as várias disputas com o Sudão continuaram. Os recursos naturais, por exemplo, se tornaram um dos mecanismos de destaque para as discordâncias, visto que a maioria das <strong>reservas petrolíferas</strong> e depósitos minerais, como o <strong>ouro</strong>, se localizam no <strong>território sul-sudanês</strong>, ao passo que as <strong>refinarias, oleodutos e outras infraestruturas</strong> relacionadas a tal hidrocarboneto se encontram na <strong>parte norte</strong>, ou seja, em território sudanês — vale pontuar que o Sudão do Sul não possui acesso direto ao mar.</p><p>Então, em 2013, quando o presidente sul-sudanês Kiir Mayardit acusou Riek Machar, seu vice-presidente, de tentativa de golpe de estado, a Guerra Civil Sul-Sudanesa se iniciou. A disputa foi marcada por forças governamentais combatendo a oposição. Dentre outros motivos para o conflito, destacam-se questões <strong>políticas, étnicas, humanitárias e geográficas</strong> (dado a localização dos recursos naturais). Tal guerra, que deixou cerca de 400.000 mortos, se encerrou formalmente 6 anos depois. Apesar disso, a insegurança e a violência continuaram a persistir, de modo a ameaçar a estabilidade regional. Atualmente, Salva Kiir Mayardit mantem o cargo de presidente do Sudão do Sul.</p><h4>DARFUR</h4><p>Outro ponto crítico dos conflitos no Sudão é Darfur, que é uma região no oeste do Sudão que faz fronteira com o Chade, com a Líbia e com a República Centro-Africana. Com uma estrutura social <strong>multiétnica, multicultural e multirreligiosa</strong>, somada à pobreza, ao atraso e aos conflitos em curso, a localidade reflete a sociedade sudanesa em geral há décadas.</p><p>A localidade já foi abençoada com chuvas abundantes e terras férteis. Entretanto, nas décadas de 1960 e 1970, o crescimento populacional e o pastoreio excessivo levaram ao aumento do <strong>processo de desertificação,</strong> resultando em secas severas e degradação de pastagens. Dessa forma, recursos hídricos e terrestres passaram a ser limitados e distribuídos de forma desigual. Isso fez com que <strong>nômades árabes,</strong> habituados a viver perto de cursos d’água, fossem obrigados a migrar para o sul, onde entraram em conflito com <strong>populações sedentárias</strong> locais devido a esses recursos hídricos e essas pastagens.</p><p>Com a descoberta de <strong>petróleo e outras matérias-primas em Darfur</strong>, a competição por recursos entre as tribos se intensificou, o que gerou consequências desastrosas para o ecossistema da região, que já era relativamente frágil.</p><p>Então, em fevereiro de 2003, cidadãos não árabes de Darfur criaram o <strong>Exército de Libertação do Sudão e o Movimento Justiça e Igualdade,</strong> exigindo autonomia regional, partilha de poder e recursos com o governo. Eles continuamente tomaram territórios e se envolveram em a<strong>tividades armadas. </strong>O governo, por sua vez, buscou combater a revolta antigovernamental na tentativa de exterminá-los, fornecendo armas às <strong>milícias árabes </strong>conhecidas como <strong>Janjaweed </strong>e as fazendo atacar povoações não árabes, cometendo contínuos massacres e violentando esse povo, uma forma de “limpeza étnica”. Por sua vez, houve reação dos grupos armados, estes os quais atacaram Cartum, capital do Sudão, estimulando ainda mais o conflito.</p><p>Refugiados não árabes que fugiam dos <strong>massacres </strong>cada vez mais intensos dos <strong>Janjaweed </strong>procuraram abrigo migrando para os países vizinhos Chade e Líbia. Entretanto, esses países também foram atingidos pela <strong>seca</strong>, o que deixou os <strong>refugiados </strong>em situação precária.</p><p>Em 2009, a Procuradora-Geral do Tribunal Penal Internacional (<strong>TPI</strong>), Moreno-Ocampo, lançou um mandado de prisão contra o a época presidente do Sudão,<strong> Omar Al-Bashir,</strong> sob acusações de ordem de massacre de civis durante o conflito de Darfur e tolerância ao genocídio. No entanto, o presidente continuou a permanecer em tal cargo sem comparecer a um tribunal. Apenas em 2019, Bashir foi deposto em um <strong>golpe militar.</strong></p><p>Assim sendo, a situação humanitária de Darfur é delicada devido à violência contínua e à insegurança generalizada. De acordo com a ONU, estima-se a <strong>morte de 10 a 15 mil</strong> pessoas devido ao conflito.</p><h4>Forças de Ataque Rápido e Guerra Civil do Sudão</h4><p>A partir da instrumentalização das milicas <strong>Janjaweed </strong>pelo governo central do Sudão surgiram as<strong> Forças de Apoio Rápido</strong> (FAR). Uma organização paramilitar — comandada pelo General Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como <strong>Hemedti </strong>— que, além de ser o principal perpetradora da violência em Darfur, foi apoiadora do golpe que derrubou Bashir em 2019 e parte do governo sudanês até 2023.</p><p>Em 2023, porém, as RSFs se rebelaram novamente contra o governo central — agora sob comando do <strong>líder </strong><em>de facto</em> do Sudão, <strong>General Abdel Fattah Al-Burhan</strong>, eclodindo a<strong> guerra civil atual.</strong> Segundo o ACNUR, em função da guerra, aproximadamente 16.500 pessoas deixaram o país nos últimos 3 meses, estando grande parte dos <strong>refugiados </strong>na Etiópia e na Uganda.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*9CSwrRZM3pNtvjcB.png" /><figcaption>Mapa das regiões ocupadas pelas Forças de Ataque Rápido (RSF, em inglês), pelo exército sudanês (SAF) e por outras milícias em Maio de 2025. Fonte The Economist</figcaption></figure><h4>Crise humanitária e violações de liberdade no Sudão do Sul</h4><p>Voltando ao Estado do sul, a <strong>coerção </strong>a jornalistas têm crescido consideravelmente nos últimos anos, principalmente por meio de ameaças à l<strong>iberdade de imprensa</strong>. O governo recorre do uso de ameaças, agressões e até torturas a repórteres que tecem críticas opostas às autoridades.</p><p>Um exemplo foi o ocorrido em 2013, em que o governo sul-sudanês <strong>prendeu dois jornalistas </strong>de divulgação estatal (Louis Pasquale e Ashab Khamis) por não cobrirem o discurso do atual presidente do país, Salva Kiir.</p><p>O controle do acesso à informação tem intuito de proteger os interesses do Estado. Isso, característico de um sistema <strong>opressivo e tirano</strong>, viola os direitos humanos e impede o avanço do país rumo a uma sociedade digna e justa. Por isso, a censura a jornalistas se torna um dos desafios para a consolidação de um sociedade mais democrática no Sudão do Sul.</p><p>Além do deslocamento em massa para outros países, principalmente para a <strong>Uganda</strong>, os refugiados também procuram abrigo dentro do país nas bases da <strong>Missão das Nações Unidas no Sudão do Sul (</strong>UNMISS) e locais de Proteção de Civis (PoC), onde os deslocados têm acesso ínfimo a água limpa, instalações de saneamento e estruturas de saúde. Nesses campos, também é comum roubos, <strong>saques e violências</strong> de todos os tipos, incluindo a <strong>violência sexual</strong>. Portanto, até em locais onde se espera assistência e proteção, a violência generalizada e a situação de saúde extremamente deficiente prevalecem.</p><p>A fome também é um problema grave na região. Segundo o IPC (Classificação Integrada de Fases de Segurança Alimentar), aproximadamente 24.6 milhões de pessoas enfrentam <strong>insegurança alimentar aguda </strong>no Sudão do Sul, sendo muitas delas crianças, que precisam de tratamento urgente.</p><p>Além disso, o Sudão do Sul abrange uma vasta área pantanosa em seu território, o que agrava os casos de doenças como <strong>Malária </strong>além daquelas transmitidas pela água, como a cólera, principalmente durante as estações chuvosas, em que a região alaga. Isso ameaça ainda mais o bem-estar da população, visto que o sistema de saúde básica é quase inexistente. Outro problema é que, a depender da severidade das <strong>inundações</strong>, terrenos agrícolas inteiros podem ser <strong>destruídos</strong>, o que quebra as <strong>safras </strong>e agrava ainda mais a disponibilidade de <strong>alimentos</strong>, acentuando a questão da <strong>desnutrição </strong>e da fome de grande parte da comunidade. Cerca de metade da população sudanesa vive com insegurança alimentar aguda e, segundo dados do IPC (Classificação da Fase de Segurança Alimentar Integrada), 8,5 milhões dessas pessoas vivem em situação de <strong>emergência </strong>ou situação de fome.</p><p>Dessa forma, com décadas de guerra, a população se encontra assolada pela catástrofe humanitária, reflexo de um passado conturbado que deixou cicatrizes nos cidadãos sudaneses e sul-sudaneses. Tais cidadãos vivem em condições <strong>deploráveis</strong>, onde a ausência de sistema de saúde, a insegurança alimentar e a frequente ação de grupos armados fazem parte da realidade deles. Por isso, enquanto não houver uma previsão de fim da violência, a crise humanitária continuará a revigorar, prolongando a destruição e <strong>fragilizando </strong>ainda mais a vida de pessoas inocentes.</p><blockquote>Maria Luísa Espontão Ramos</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/476/0*59MQm5hHVWvlDOPi.jpeg" /></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=33ad2eff091b" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Na Beira da Submersão: Mudanças Climáticas e o Afogamento da Soberania no Pacífico]]></title>
            <link>https://medium.com/@feaint.usp/na-beira-da-submers%C3%A3o-mudan%C3%A7as-clim%C3%A1ticas-e-o-afogamento-da-soberania-no-pac%C3%ADfico-d5e4b5f2b492?source=rss-c93fb20cbcc3------2</link>
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            <dc:creator><![CDATA[FEA Internacional]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 28 Jul 2025 23:25:40 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-07-28T23:25:40.611Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<blockquote>“Em Tuvalu, estamos vivendo as realidades das<strong> mudanças climáticas</strong> e da elevação do nível do mar, enquanto você me observa hoje na COP 26. Não podemos esperar por discursos quando o mar está subindo ao nosso redor o tempo todo. A mobilidade climática deve vir à tona. Devemos tomar ações alternativas ousadas hoje para garantir o amanhã. As mudanças climáticas e a <strong>elevação do nível do mar</strong> são ameaças <strong>fatais e existenciais </strong>para Tuvalu e países de atóis baixos. Estamos afundando, mas todos os outros também estão. E não importa se sentimos os impactos hoje, como em Tuvalu, ou em 100 anos, todos nós ainda sentiremos os efeitos mortais desta crise global um dia. Em Tuvalu, nossas ilhas são sagradas para nós. Elas contêm a essência do nosso povo. Foram o lar de nossos ancestrais. Hoje, são o lar do nosso povo, e queremos que continuem a ser o lar do nosso povo no futuro. É por isso que este apelo de Tuvalu a vocês não é apenas uma declaração política. É um chamado que ressoa das nossas oito ilhas e dos nossos 12.000 habitantes para a comunidade internacional. Estamos peticionando e exigindo que a meta global de <strong>zero emissões de carbono</strong> seja assegurada até o meio do século e que a elevação da temperatura seja mantida abaixo de 1,5 graus. Que os necessários financiamentos climáticos urgentes sejam mobilizados para lidar com perdas e danos, e que haja maior responsabilização de todas as nações e pessoas para agir como bons administradores do planeta.”</blockquote><p>No início do discurso, proferido pelo ministro da Justiça, Comunicação e Relações Exteriores de Tuvalu, Simon Kofe, ele veste terno e gravata, exatamente como estaria em um ambiente diplomático tradicional. À sua frente, há um púlpito com o brasão de <strong>Tuvalu</strong>, o que reforça o caráter oficial e simbólico da fala. A bandeira do país está fincada à esquerda, e balança levemente ao vento. O som do vídeo é limpo e o áudio da fala é claro, mas é possível ouvir um leve som ambiente de águas abertas.</p><p>À medida que a câmera se distancia, o aspecto visual muda completamente. O ministro está de pé, com a água do mar batendo até os seus joelhos. Ele está posicionado sobre uma plataforma improvisada no oceano, fincada no solo raso da costa. Atrás dele, vê-se a linha do horizonte marítimo com <strong>águas calmas, </strong>mas visivelmente elevadas, que <strong>invadem </strong>lentamente <strong>o espaço terrestre.</strong></p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/984/0*aa9UwWzSAm13JDKw" /><figcaption>Ministro de Tuvalu grava vídeo para COP 26 de dentro do mar para alertar que ilha está desaparecendo. — Foto: Governo de Tuvalu/Redes sociais.</figcaption></figure><p>A imagem, cuidadosamente produzida para exibição na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2021 em <strong>Glasgow (COP26)</strong>, demonstra como a nação insular está na linha de frente das mudanças climáticas. O vídeo apresenta uma denúncia silenciosa da <strong>lentidão internacional</strong>, uma metáfora viva da <strong>crise ambiental</strong>. Apesar de grotesca, a atitude reflete um esforço, cada vez mais desesperado e recorrente, no qual a performatividade se faz necessária no intuito de persuadir o público em relação às questões diplomáticas de países cujo risco de desaparecimento, em termos territoriais, é nítido. O contraste entre a formalidade da diplomacia e o cenário de destruição transmite uma mensagem contundente: Estamos cumprindo nosso dever de Estado enquanto nosso país desaparece sob as águas.</p><h4>Risco Existencial</h4><p><strong>Tuvalu </strong>é um país localizado no meio do Oceano Pacífico, lar de pouco mais de doze mil habitantes, como dito na transcrição do discurso. Visto que sua superfície pouco se eleva em relação ao mar, os atóis que compõem o país correm risco de desaparecer nas próximas décadas devido ao aumento no nível das águas causado pelo aquecimento global.</p><p>As ilhas da região são alguns dos lugares mais <strong>vulneráveis </strong>​​ao aumento da temperatura no planeta. Embora estejam entre os menores emissores de gases de efeito estufa, <strong>sofrem desproporcionalmente </strong>com os produtos das mudanças climáticas. Como exemplo, a <strong>descoloração </strong>severa de <strong>corais</strong>, resultado da diminuição no pH dos oceanos, dificulta a reprodução dos recifes no Pacífico Sul, o que agrava os perigos da elevação do oceano. Muitas já enfrentam inundações pelas marés altas e pela água salgada que é espalhada sobre as plantações por tempestades não-dissipáveis provocadas por ciclones. Segundo o relatório de 2014 do Programa de Ciência das Alterações Climáticas do Pacífico, publicado pelo Governo australiano, o nível do mar perto de Tuvalu, medido por altímetros de satélite desde 1993, subiu cerca de <strong>13,7 mm por ano.</strong></p><p>Contudo, não é apenas Tuvalu quem sofre com as consequências do aumento no nível dos oceanos. O <strong>derretimento das camadas de gelo</strong> continentais também ameaça submergir as <strong>Maldivas, as Ilhas Marshall, a Polinésia Francesa, Vanuatu,</strong> dentre outros, segundo o <em>Woods Hole Oceanographic Institution</em>.</p><p>As Maldivas, formadas por 1.200 pequenas ilhas e com cerca de 540 mil habitantes, é o país mais plano da Terra, com uma elevação média de apenas um metro. Se as Maldivas sofrerem um aumento do nível do mar da ordem de apenas 45 cm, perderão cerca de <strong>77% de sua área terrestre a</strong>té 2100, o que pode ocorrer mesmo antes dessa data. Até 2050, estima-se que metade da maior ilha do arquipélago, Fongafale, será inundada e, caso nada seja feito, até 95% da terra poderá submergir em meio às marés altas rotineiras até 2100, segundo a Undp. Isto é, a mudança climática representa um <strong>risco </strong>para a <strong>infraestrutura</strong>, para a <strong>segurança alimentar</strong> e para o <strong>fornecimento de energia</strong> das populações ali residentes.</p><p>Também, há o caso de Kiribati, país formado por 33 atóis com altitudes que raramente ultrapassam dois metros acima do nível do mar. O documentário <em>Anote’s Ark</em> (A Arca de Anote) retrata bem o drama do país ao mostrar o cotidiano da população afetada pelas marés que invadiram as aldeias e os depoimentos da população que perdeu suas casas para o oceano. Seu protagonista, o ex-presidente Anote Tong, conhecido por sua atuação firme nos fóruns internacionais, propõe, diante da inação global, reinventar o conceito de soberania: <strong>“Se nosso país desaparecer, nossa nação precisa sobreviver de outra forma”.</strong></p><p>No documentário também está presente a ameaça à continuidade cultural e simbólica de Kiribati, as quais se dissolveriam com eventuais emigrações em massa. A narrativa enfatiza a desproporção entre os impactos sofridos pela nação insular e sua <strong>responsabilidade mínima </strong>pelas emissões globais ao revelar a falência do atual sistema internacional em proteger os mais vulneráveis. Inclusive, ao recusar finais reconfortantes, o filme reforça a urgência de ação real com a mensagem de que o <strong>colapso climático</strong> se estende ao <strong>âmbito ético e civilizacional.</strong></p><p>Na tentativa de impedir as possibilidades descritas, em 2023 a ONU publicou um comunicado que alertava sobre os perigos iminentes da elevação no nível dos oceanos. O mundo testemunhará “<strong>um êxodo em massa de populações inteiras em uma escala bíblica</strong>”, segundo o Secretário-Geral, António Guterres, ao traçar um retrato alarmante da crise emergente que se prenuncia, de acordo com as observações do quanto o fenômeno impacta as vidas e meios de subsistência em regiões e ecossistemas de todo o mundo.</p><h4>Importância estratégica</h4><p>Outrossim, desde 2008 a ONU reconhece o dia 8 de junho como “<strong>O Dia Mundial do Oceano</strong>”. A data, em tese, serviria para alertar ao mundo sobre temas como, por exemplo, o possível desaparecimento de países inteiros. Entretanto, o que realmente se faz para impedir a elevação dos oceanos? Qual a<strong> efetiva movimentação </strong>das nações para a manutenção da <strong>soberania </strong>dos pequenos <strong>países insulares</strong>? Estaríamos diante de uma nova forma de abandono político e jurídico legitimado pela passividade das potências globais? Como o direito internacional — construído sobre a premissa da estabilidade territorial — lida com Estados prestes a desaparecer fisicamente? Estariam os países que pouco contribuíram para o colapso ambiental <strong>condenados a desaparecer em silêncio?</strong> Que tipo de <strong>responsabilidade histórica e moral </strong>recai sobre as nações mais emissoras? E, sobretudo: o que acontecerá com a soberania, o reconhecimento internacional e a identidade nacional de um povo que já não possui mais terra firme sob seus pés?</p><p>Primeiramente, é necessário ressaltar a importância dos Estados insulares, sobretudo daqueles que se localizam no Pacífico. Não obstante pequenos em território e população, eles ocupam uma posição estratégica relevante no cenário internacional. A região que se estende da costa oeste das Américas até o leste asiático e a Oceania configura um tabuleiro geopolítico onde colidem i<strong>nteresses econômicos, militares e diplomáticos</strong> de grandes potências, especialmente dos<strong> Estados Unidos e da China</strong>. Tais microestados, por vezes invisibilizados nas grandes decisões globais, tornaram-se peças centrais, porém vulneráveis, em um jogo de poder com proporções continentais.</p><p>Grande parte da relevância descrita decorre do papel do Pacífico como principal corredor marítimo do planeta. Cerca de <strong>60% do comércio mundial passa por rotas da região</strong>, o que torna sua estabilidade progressivamente mais essencial para o funcionamento das cadeias globais de suprimentos, conforme cresce a interdependência entre as economias. Ou seja, qualquer perturbação no tráfego naval do local tem efeitos imediatos nos mercados internacionais. Conjuntamente, a área tem substituído as potências euro-atlânticas como o eixo da política internacional, sobretudo em virtude da <strong>ascensão asiática.</strong></p><p>Outro pilar da geopolítica do Pacífico é sua relevância militar e estratégica para os Estados Unidos. Desde a Segunda Guerra Mundial, os EUA mantêm uma presença constante na região, com bases militares espalhadas em locais-chave como <strong>Guam, Havaí, Palau, Ilhas Marshall e Samoa Americana.</strong> Tais bases formam um cinturão de contenção que permite projeção de força para a Ásia Oriental e também funcionam como zonas de vigilância sobre atividades militares chinesas e norte-coreanas. A presença <strong>militar norte-americana</strong> também inclui acordos bilaterais de defesa e assistência econômica com as nações insulares, que são formas indiretas de manter influência política.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*WM6RViLJht5pB3S4" /><figcaption>Instalações militares norte-americanas e de aliados no Oceano Pacífico</figcaption></figure><p>Ademais, o Pacífico é riquíssimo em recursos naturais. Muitos dos países insulares controlam vastas <strong>Zonas Econômicas Exclusivas </strong>(ZEEs), com potencial para exploração de pesca, petróleo, gás natural, minerais marinhos e, mais recentemente,<strong> terras raras submarinas</strong>. A extração de tais recursos se tornou alvo de interesse tanto de corporações multinacionais quanto de Estados que buscam autonomia tecnológica e energética, como a China, que já firmou acordos com Kiribati e Papua-Nova Guiné para exploração mineral em alto-mar.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*sTiFiCv6_8cYuDnX" /></figure><p>Todavia, a elevação do nível do mar ameaça diretamente tais delimitações. Conforme ilhas e recifes que servem como pontos de referência territorial desaparecem ou se tornam inabitáveis, crescem as incertezas sobre a <strong>validade jurídica das fronteiras marítimas</strong>, inclusive das ZEEs. Dessarte, em adição ao comprometimento da soberania econômica dos países insulares, podem surgir disputas entre nações vizinhas em áreas onde os limites são historicamente contestados ou pouco definidos. A ausência de critérios universais e a lentidão dos mecanismos de arbitragem internacional agravam o cenário de instabilidade.</p><h4><strong>Nação e territorialidade</strong></h4><p>O colapso ambiental enfrentado pelos pequenos Estados do Pacífico compromete, igualmente, a noção moderna de <strong>pertencimento a uma nação</strong>, que pressupõe a existência de um Estado <strong>territorialmente definido </strong>capaz de garantir direitos à sua população. Com a iminência da submersão física, seus cidadãos enfrentam o risco real de se tornarem apátridas climáticos, privados da garantia de uma identidade nacional, proteção jurídica e direitos políticos. Aliás, deslocamentos forçados ameaçam romper o vínculo entre o cidadão e seu território originário, de modo que o desaparecimento das ilhas projeta um cenário no qual a cidadania deixa de ser exercida de forma plena.</p><p>Paralelamente, ocorre uma profunda crise cultural, já que muitos dos povos do Pacífico estão intrinsecamente ligados ao ambiente físico — às ilhas, ventos, lagoas e recifes que moldam cosmologias, práticas espirituais, sistemas de pesca e modos de vida. Assim, a submersão dos territórios representa um trauma coletivo, com impactos não apenas materiais, mas também <strong>espirituais e históricos</strong>. Por consequência, a <strong>diáspora </strong>assume um papel central c<strong>omo extensão simbólica e funcional dos países</strong>. O deslocamento gradual para países vizinhos, quando organizado, pode preservar a identidade nacional, manter viva a cultura ancestral e atuar como canal diplomático do Estado em fóruns multilaterais em uma espécie de “<strong>soberania em dispersão</strong>”, onde o povo, e não a terra, sustenta o projeto de nação.</p><h4>Status jurídico</h4><p>Segundo a <strong>Convenção de Montevidéu</strong> (1933), um Estado soberano deve reunir quatro atributos:<strong> população permanente, território definido, governo efetivo e capacidade de manter relações com outros Estados</strong>. Tais critérios, concebidos dentro de uma lógica territorialista, tornam-se problemáticos quando aplicados às situações de colapso físico causadas por fenômenos ambientais. Ainda que a existência de um povo e um governo possa persistir no exílio, a perda do território põe em xeque a manutenção do status jurídico de Estado e, por conseguinte, os direitos associados à cidadania e à soberania.</p><p>A discussão torna-se ainda mais complexa à luz do Direito do Mar. A UNCLOS (Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar) associa os direitos marítimos à presença de <strong>linhas costeiras identificáveis,</strong> o que faz com que a submersão das ilhas comprometa diretamente as bases jurídicas das ZEEs. A ausência de um território físico de referência leva à contestação da legitimidade internacional de tais zonas, especialmente em áreas onde há <strong>interesses estratégicos</strong> ou econômicos concorrentes. Destarte, a situação ameaça não apenas o direito à exploração dos recursos marinhos, mas também a própria existência legal dos Estados afetados.</p><p>O ordenamento jurídico internacional, sem embargo, carece de instrumentos eficazes para lidar com tal situação. Como observa D. P. O’Connell (2023), os critérios de Montevidéu não foram pensados para contextos de <strong>mudanças climáticas</strong> e seu uso rígido pode impedir a adaptação normativa necessária. A Corte Internacional de Justiça tampouco produziu jurisprudências específicas sobre a <strong>continuidade de Estados submersos</strong>, o que limita a capacidade de resposta institucional diante da crise.</p><p>Com a finalidade de evitar a perda de direitos sobre suas Zonas Econômicas Exclusivas (ZEEs), diversos países do Pacífico defendem a ideia de <strong>“congelamento” das delimitações marítimas com base nas coordenadas atuais</strong>, independentemente de futuras alterações físicas em seus territórios. A proposta visa garantir segurança jurídica e econômica às nações vulneráveis, além de preservar suas prerrogativas soberanas mesmo diante da submersão. Nessa conjuntura, organismos internacionais passaram a debater alternativas legais para adaptar o sistema jurídico internacional às novas realidades impostas pela crise climática. A United Nations University (UNU-IAS) desenvolve estudos sobre o congelamento das linhas de base marítimas, com vistas à manutenção dos <strong>direitos econômicos dos países insulares</strong>. Paralelamente, a Comissão de Direito Internacional (ILC) examina propostas de flexibilização dos critérios da Convenção de Montevidéu em situações extremas, ao defender que o desaparecimento físico do território não deve implicar, necessariamente, na extinção do Estado. Embora ainda não vinculantes, tais discussões moldam resoluções e declarações em instâncias multilaterais e são consideradas por alguns juristas do direito marítimo <strong>como ferramentas possíveis de resiliência jurídica</strong> e diplomática frente ao <strong>colapso ambiental</strong>.</p><p>Um exemplo é a declaração conjunta do <strong>Pacific Islands Forum,</strong> de 2021, que defende a preservação das zonas marítimas atuais, mesmo com o desaparecimento das ilhas que as fundamentam. Em 2024, a <strong>Commonwealth </strong>reforçou essa posição, solicitando à ONU que reconheça o princípio da estabilidade das ZEEs como elemento essencial para a sobrevivência jurídica das nações insulares. Tais avanços sinalizam uma abertura para reconhecer formas alternativas de soberania — menos centradas na materialidade do território e mais voltadas à <strong>continuidade política, cultural e jurídica dos povos afetados.</strong></p><p>O que está em jogo vai além da geopolítica das ilhas do Pacífico: trata-se de um desafio profundo aos fundamentos da ordem internacional moderna. A tensão entre a<strong> rigidez dos marcos legais </strong>e a urgência de adaptação diante do colapso climático exige uma reinvenção conceitual da soberania, da cidadania e do próprio Estado. A sobrevivência desses países não será apenas uma questão de território, mas de reconhecimento da <strong>dignidade e da memória de seus povos.</strong></p><h4>Efeito da mobilização e apatia internacional</h4><p>Logo, a crise enfrentada pelos pequenos Estados insulares do Pacífico revela, de maneira contundente, a falência do multilateralismo climático contemporâneo. Apesar dos alertas constantes da ciência e dos apelos emocionados das nações vulneráveis, a resposta da comunidade internacional é marcada pela <strong>apatia estrutural e por promessas vazias</strong>. Os países desenvolvidos — historicamente os maiores emissores de gases de efeito estufa — continuam a adiar medidas concretas ao reproduzir uma lógica de privilégio que perpetua desigualdades, uma vez que boa parte dos recursos mobilizados é oferecida na forma de empréstimos com juros, o que perpetua ciclos de endividamento de nações já fragilizadas. A promessa feita em 2009 de mobilizar <strong>100 bilhões de dólares anuais em financiamento climático </strong>para os países em desenvolvimento nunca foi integralmente cumprida, de modo que se converteu no símbolo de um compromisso que existe mais no discurso do que na prática.</p><p>A negligência internacional deve ser interpretada não apenas como omissão, mas como expressão de uma falência moral e política. Ao mesmo tempo em que exigem responsabilidade climática dos países em desenvolvimento, as potências industrializadas mantêm estilos de vida <strong>intensivos em carbono, expandem suas matrizes energéticas fósseis e dificultam o acesso a tecnologias verdes sob pretextos comerciais.</strong> De tal contexto, emerge o conceito de colonialismo climático: um processo pelo qual os países do Norte Global impõem aos do Sul os custos humanos e ambientais da crise que ajudaram a criar. Similarmente, o neocolonialismo ambiental se manifesta na exploração de territórios e saberes tradicionais em nome da transição energética global. A corrida por <strong>terras raras, a financeirização da natureza via mecanismos de mercado de carbono e a biopirataria travestida de cooperação científica</strong> são faces de um processo em que o discurso verde opera como continuidade do controle geopolítico, como no caso da compra de terras agrícolas em países africanos por multinacionais que visam compensações de carbono para seus países de origem.</p><p>A ausência de uma governança climática <strong>efetiva, justa e vinculante </strong>não apenas compromete a sobrevivência dos microestados do Pacífico, mas anuncia uma catástrofe de proporções globais. Eventos extremos — <strong>como as inundações históricas no Paquistão em 2022, os incêndios devastadores no Canadá e na Austrália, ou as secas prolongadas no Chifre da África</strong> — ilustram como as mudanças climáticas já geram ondas de deslocamento em massa. Estima-se que, até 2050, <strong>mais de 200 milhões de pessoas poderão ser forçadas a deixar seus lares por motivos climáticos</strong>. O que está em curso não é apenas uma crise ecológica, mas o desmoronamento do pacto civilizacional sobre o qual se erguem os direitos humanos, a soberania e a própria noção de justiça global.</p><p>Diante do exposto, ganham relevância os conceitos de “<strong>soberania em diáspora</strong>” e de “<strong>Estado virtual</strong>” como inovações jurídicas e políticas frente ao colapso ambiental. O primeiro pressupõe a continuidade da <strong>existência estatal na ausência de um território físico</strong>, desde que se mantenha uma população organizada, uma<strong> identidade nacional coesa e um governo legítimo,</strong> reconhecido internacionalmente. Tal concepção rompe com a rigidez do modelo westfaliano, e desafia a centralidade territorial da soberania ao apontar para uma forma de existência política ancorada na <strong>coletividade e na memória histórica</strong>. Já o segundo propõe a manutenção das <strong>funções administrativas, diplomáticas e culturais mediante plataformas digitais,</strong> ou mesmo por meio de embaixadas e representações extraterritoriais. Malgrado ainda carecerem de reconhecimento jurídico consolidado, as categorias descritas refletem tentativas criativas de assegurar a <strong>permanência da subjetividade estatal</strong> diante da ameaça do desaparecimento físico.</p><p>Uma das iniciativas mais simbólicas partiu do próprio governo de Tuvalu. Em novembro de 2022, o mesmo ministro do pronunciamento da abertura deste artigo, anunciou que o país seria o primeiro no mundo a construir uma <strong>réplica digital de si mesmo no metaverso</strong>. O objetivo declarado era preservar sua herança cultural, identidade nacional e estrutura institucional. A medida reflete não apenas uma resposta inovadora ao risco de submersão, mas também um esforço de afirmação da continuidade da nação perante o sistema internacional. Em uma região marcada pelo isolamento geográfico, a ponto de Tuvalu ter seu primeiro caso registrado de COVID-19 apenas em maio de 2022, a digitalização da soberania se apresenta como uma alternativa concreta para enfrentar a <strong>exclusão política e a invisibilidade diplomática.</strong></p><p>Ao resgatar o vídeo inicial, compreendemos sua força simbólica e política. A imagem do chefe da diplomacia tuvaluana de terno, com um púlpito oficial à frente e água até os joelhos, sintetiza uma verdade brutal: estamos diante de Estados que, literalmente, afundam, mas cumprem seus papéis diplomáticos, reiteram sua soberania e se dirigem à comunidade internacional como sujeitos legítimos do sistema. A encenação, longe de ser mero espetáculo, é uma súplica performática por <strong>reconhecimento, apoio e ação</strong>. A água que invade a cena não é apenas um pano de fundo; é o argumento central de uma denúncia que não encontra eco suficiente no sistema multilateral.</p><p>E é esse contraste que deve marcar o leitor ao encerrar esta análise. Se o desespero já é avassalador nas metrópoles que testemunham incêndios, ondas de calor e enchentes, ele é muito maior em Funafuti, Malé ou Tarawa — onde o solo já cede, onde o sal já invade a lavoura e onde o amanhã não está garantido nem geograficamente. Diante de um colapso climático global, a resposta das potências é marcada pela lentidão, pela seletividade e por uma falência moral profunda com fóruns tomados por discursos vazios e promessas de financiamento climático reiteradamente descumpridas. Nesse ínterim, povos inteiros correm o risco de<strong> desaparecer geograficamente, juridicamente, politicamente e culturalmente.</strong></p><p>A omissão diante do destino das ilhas do Pacífico não é apenas uma questão de negligência: é um símbolo da crise na ordem internacional. O colapso de pequenos Estados insulares anuncia a falência de um modelo de governança global incapaz de agir com justiça, celeridade e responsabilidade. O que está em jogo não é apenas o futuro de Tuvalu, das Maldivas de Kiribati, ou de outros países, mas o futuro da própria ideia de humanidade compartilhada em tempos de emergência planetária.</p><blockquote><strong>Luís Felipe de Santana Piva</strong></blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/476/0*6S3KmK1D5KOYIaXg.jpeg" /></figure><p><strong>Referências:</strong></p><p>1. KOFE, Simon. <strong>Tuvalu Minister Delivers Speech To COP 26 Knee-Deep In Water</strong>. YouTube, 11 nov. 2021. Disponível em:<a href="https://youtu.be/icbyIsXi1RM"> &lt;https://youtu.be/icbyIsXi1RM</a>&gt;. Acesso em: 04 jul. 2025.</p><p>2. MODELLI, Laís. Ministro de Tuvalu grava discurso para COP 26 de dentro do mar em protesto contra risco de ilha desaparecer. <strong>G1</strong>, 6 nov. 2021. Meio Ambiente. Disponível em:<a href="https://g1.globo.com/meio-ambiente/cop-26/noticia/2021/11/06/ministro-de-tuvalu-grava-discurso-para-cop-26-de-dentro-do-mar-em-protesto-contra-risco-de-ilha-desaparecer.ghtml"> &lt;https://g1.globo.com/meio-ambiente/cop-26/noticia/2021/11/06/ministro-de-tuvalu-grava-discurso-para-cop-26-de-dentro-do-mar-em-protesto-contra-risco-de-ilha-desaparecer.ghtml</a>&gt;. Acesso em: 04 jul. 2025.</p><p>3. NOAA confirms 4th global coral bleaching event. <strong>NOAA</strong>, 2024. Disponível em: &lt;<a href="https://www.noaa.gov/news-release/noaa-confirms-4th-global-coral-bleaching-event">https://www.noaa.gov/news-release/noaa-confirms-4th-global-coral-bleaching-event</a>&gt;. Acesso em: 04 jul. 2025.</p><p>4. Tropical Cyclones and Climate Change: implications for the Western Tropical Pacific. Melbourne, Australia. RCCAP <strong>— </strong>Regional Climate Adaptation Project. 2022. Disponível em: &lt;<a href="https://www.rccap.org/uploads/files/8c8427aa-b50f-4380-a877-600d13aadbba/Tropical%20Cyclone%20%26%20Climate%20Change%20Regional%20Report.pdf">https://www.rccap.org/uploads/files/8c8427aa-b50f-4380-a877-600d13aadbba/Tropical%20Cyclone%20%26%20Climate%20Change%20Regional%20Report.pdf</a>&gt;. Acesso em: 08 jul. 2025.</p><p>5. HUNTER, J. R. <strong>A Note on Relative Sea Level Change at Funafuti, Tuvalu</strong>. 2002. 25 p. Antarctic Cooperative Research Centre, Hobart, 2002. Disponível em: &lt;<a href="https://web.archive.org/web/20170302112642/http://probeinternational.org/library/wp-content/uploads/2010/11/A-Note-on-Relative-Sea-Level-Change.pdf">«Note on Relative Sea Level Change at Funafuti, Tuvalu»</a>&gt;. Acesso em 08 jul. 2025.</p><p>6.<strong> </strong>DESCUBRA quais são os países mais ameaçados com o aumento do nível dos oceanos. <strong>National Geographic Brasil</strong>, 7 jun. 2024. Meio ambiente. Disponível em: &lt;https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2024/06/descubra-quais-sao-os-paises-mais-ameacados-com-o-aumento-do-nivel-dos-oceanos&gt;. Acesso em: 04 jul. 2025.</p><p>7. ANOTE’S Ark. Direção: Matthieu Rytz. Produção: Matthieu Rytz. Canadá: EyeSteelFilm, 2018. 1 vídeo (1h17min). Disponível em:<a href="https://www.imdb.com/title/tt7689934/"> &lt;https://www.imdb.com/title/tt7689934/</a>&gt;. Acesso em: 05 jul. 2025.</p><p>8. ELEVAÇÃO do nível do mar pode causar êxodo de “proporções bíblicas”, alerta Guterres. <strong>ClimaInfo</strong>, 17 fev. 2023. Eventos extremos. Disponível em: &lt;https://climainfo.org.br/2023/02/17/elevacao-do-nivel-do-mar-pode-causar-exodo-de-proporcoes-biblicas-alerta-guterres/&gt;. Acesso em: 09 jul. 2025.</p><p>9. <strong>U.S. Defense Infrastructure in the Indo‑Pacific: Background and Issues for Congress.</strong> 2023. 55p. Congressional Research Service, Washington D.C., 2023. Disponível em:<a href="https://sgp.fas.org/crs/natsec/R47589.pdf"> &lt;https://sgp.fas.org/crs/natsec/R47589.pdf</a>&gt;. Acesso em: 08 jul. 2025.</p><p>10. ASÍ «rodea» Estados Unidos a China en el Pacífico: cerca de 160 bases militares, casi 100.000 soldados y la Séptima Flota. <strong>Diário Eletrônico</strong>, 8 jun. 2023. Disponível em: &lt;https://diarioelectronico.com/2023/06/08/asi-rodea-estados-unidos-china-pacifico-cerca-160-bases-militares-casi-100-000-soldados-la-septima-flota/&gt;. Acesso em: 09 jul. 2025.</p><p>11. BORELL, J. <strong>EU Indo‑Pacific Ministerial Forum: Opening remarks by High Representative/Vice‑President Josep Borrell</strong>, Bruxelas, 2 fev. 2024. Disponível em:<a href="https://www.eeas.europa.eu/eeas/eu-indo-pacific-ministerial-forum-opening-remarks-high-representativevice-president-josep-borrell_en"> &lt;https://www.eeas.europa.eu/eeas/eu-indo-pacific-ministerial-forum-opening-remarks-high-representativevice-president-josep-borrell_en</a>&gt;. Acesso em: 16 jul. 2025.</p><p>12. MCDONALD, J. Pacific Island Nations Consider Deep-sea Mining, Despite Risks. <strong>The Diplomat</strong>, 18 jun. 2021. Meio ambiente. Disponível em: &lt;https://thediplomat.com/2021/06/pacific-island-nations-consider-deep-sea-mining-despite-risks/&gt;. Acesso em: 09 jul. 2025.</p><p>13. KIRIBATI explores deep-sea mining partnership with China. <strong>Offshore Magazine</strong>, 11 abr. 2025. Reportagens especiais. Disponível em: &lt;https://www.offshore-mag.com/special-reports/news/55281426/kiribati-explores-deep-sea-mining-partnership-with-china&gt;. Acesso em: 09 jul. 2025.</p><p>14. Convenção das Nações Unidas Sobre o Direito do Mar. 1933. Disponível em:<a href="https://www.un.org/depts/los/convention_agreements/texts/unclos/unclos_e.pdf"> &lt;https://www.un.org/depts/los/convention_agreements/texts/unclos/unclos_e.pdf</a>&gt;. Acesso em: 16 jul. 2025.</p><p>15. O’CONNELL, D. P. Climate Change and Statehood: The Uncertain Future of Island States. International and Comparative Law Quarterly, v. 72, n. 2, p. 165–195, 2023.</p><p>16. PACIFIC forum leaders set permanent maritime borders, as rising seas shrink islands.<strong> The Guardian</strong>. Crise climática. 12 ago. 2021. Disponível em:<a href="https://www.theguardian.com/world/2021/aug/12/pacific-forum-leaders-set-permanent-maritime-borders-as-rising-seas-shrink-islands"> &lt;https://www.theguardian.com/world/2021/aug/12/pacific-forum-leaders-set-permanent-maritime-borders-as-rising-seas-shrink-islands</a>&gt;. Acesso em: 16 jul. 2025.</p><p>17. NEEDHAM, K. Commonwealth leaders say sinking nations should keep their maritime boundaries. <strong>Reuters</strong>, 26 out. 2024. Sustentabilidade. Disponível em: &lt;https://www.reuters.com/world/commonwealth-leaders-say-sinking-nations-should-keep-their-maritime-boundaries-2024-10-26/&gt;. Acesso em: 09 jul. 2025.</p><p>18. US bids to break Copenhagen deadlock with support for $100bn climate fund. <strong>The Guardian</strong>, 17 dez. 2009. Crise climática. Disponível em:<a href="https://www.theguardian.com/environment/2009/dec/17/us-copenhagen-100bn-climate-fund"> &lt;https://www.theguardian.com/environment/2009/dec/17/us-copenhagen-100bn-climate-fund</a>&gt;. Acesso em: 16 jul. 2025.</p><p>19. COP29: ‘Supporting the fight against climate change in the global South is not one of the North’s priorities’. <strong>Le Monde</strong>. 11 nov. 2024. Meio ambiente. Disponível em: &lt;https://www.lemonde.fr/en/environment/article/2024/11/11/cop29-supporting-the-fight-against-climate-change-in-the-global-south-is-not-one-of-the-north-s-priorities_6732426_114.html&gt;. Acesso em: 16 jul. 2025.</p><p>20. Climate Change Could Force 216 Million People to Migrate Within Their Own Countries by 2050. <strong>World Bank Group</strong>. Washington, 13 set. 2021. Disponível em:<a href="https://www.worldbank.org/en/news/press-release/2021/09/13/climate-change-could-force-216-million-people-to-migrate-within-their-own-countries-by-2050"> &lt;https://www.worldbank.org/en/news/press-release/2021/09/13/climate-change-could-force-216-million-people-to-migrate-within-their-own-countries-by-2050</a>&gt;. Acesso em: 16 jul. 2025.</p><p>21. BRODSKY, S. Nations Are Turning to the Metaverse to Save Culture From Climate Change. <strong>LifeWire via The Guardian</strong>. 21 nov. 2022. Disponível em: &lt;https://www.lifewire.com/nations-are-turning-to-the-metaverse-to-save-culture-from-climate-change-6831427&gt;. Acesso em: 16 jul. 2025.</p><p>22. Tuvalu responds to the country’s first community transmission of COVID‑19. <strong>World Health Organization</strong>. Regional Office for the Western Pacific, 11 nov. 2022. Disponível em:<a href="https://www.who.int/westernpacific/about/how-we-work/pacific-support/news/detail/11-11-2022-tuvalu-responds-to-the-country-s-first-community-transmission-of-covid-19"> &lt;https://www.who.int/westernpacific/about/how-we-work/pacific-support/news/detail/11-11-2022-tuvalu-responds-to-the-country-s-first-community-transmission-of-covid-19</a>&gt;. Acesso em: 17 jul. 2025.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=d5e4b5f2b492" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[Rivalidade EUA x China]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[FEA Internacional]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 10 Jul 2025 14:54:02 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-07-10T14:54:02.001Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h4><strong>Introdução</strong></h4><p>Em 2024, com a eleição do republicano <strong>Donald Trump</strong>, o conflito latente entre <strong>China</strong> e <strong>Estados Unidos</strong> voltou com força ao centro do cenário internacional. Embora essa rivalidade nunca tenha realmente cessado, ela agora ganha novos contornos, ocupando os holofotes e tensionando alianças em diferentes regiões do globo. Os dois países, protagonistas de uma disputa que muitos já chamam de “nova Guerra Fria”, enfrentam-se não em campos de batalha tradicionais, mas em arenas <strong>econômicas</strong>, <strong>tecnológicas </strong>e <strong>diplomáticas</strong>. Tarifas, sanções, restrições comerciais, embargos a produtos estratégicos e medidas de contenção geopolítica transformaram-se nas principais armas dessa rivalidade, que envolve questões comerciais e disputas por influência política e tecnológica. Essa nova fase do embate entre as duas maiores economias do mundo revela as complexas interdependências construídas ao longo de décadas, além das fragilidades e dos riscos que permeiam a ordem econômica global, enquanto cada país busca assegurar sua <strong>hegemonia </strong>em um mundo em transformação.</p><p>De um lado, um país que simboliza a cultura ocidental e capitalista; do outro, uma nação emblemática do Oriente que é governada por um partido comunista. Toda essa divergência ideológica e cultural, somada à disputa por hegemonia — seja econômica ou militar — só poderia resultar em um grande conflito comercial (por ora).</p><p>O tema do artigo tem grande relevância no atual contexto geopolítico e econômico, já que trata da relação entre as duas maiores potências do mundo, em um cenário onde Donald Trump comanda uma política comercial externa extremamente agressiva. O <strong>tarifaço </strong>de Trump contra praticamente todos os países do mundo, principalmente contra a China, gera enormes impactos nas relações comerciais globais, nos preços de diversos ativos e na relação política e militar de muitos países. Estudar, portanto, o histórico conflituoso e a atual convivência entre China e EUA faz-se necessário para entender a situação antropológica que estamos vivendo.</p><p>Assim, para compreendermos com mais clareza essa guerra comercial, é necessário voltar no tempo e analisar como, quando e por que a rivalidade entre esses países começou.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/774/0*noml-gh7WsaSvPq0" /><figcaption><em>- Presidentes Donald Trump e Xi Jinping 29/06/2019 REUTERS/Kevin Lamarque</em></figcaption></figure><p>Após a Primeira Guerra Mundial, a economia americana — cuja <strong>indústria </strong>foi encarregada de produzir tudo o que os países europeus, <strong>devastados </strong>pelo conflito, não conseguiram — passou por um grande boom. Algo semelhante ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial: por estar fisicamente distante dos combates, os Estados Unidos não sofreram grandes destruições em seu território, o que possibilitou a continuidade da <strong>produção industrial</strong>, do comércio, da agricultura etc. Novamente, a economia americana, encarregada de suprir os países europeus, deu um salto expressivo.</p><p>O que pode-se dizer é que, apesar de que mesmo antes das grandes guerras os EUA já eram uma potência, eles não eram os verdadeiros comandantes do mundo. Nessa linha, a grande mediadora internacional era a Inglaterra, que na época formava um império com territórios na Ásia, África, Américas e Oceania. Contudo, as guerras reformularam essa configuração da hegemonia global, enfraquecendo a Inglaterra e colocando os EUA no centro do tabuleiro. Vale destacar também que outro fator que diminuiu o poder dos ingleses foi a grande sequência de independências de suas colônias, diminuindo o tamanho do território, a população e os recursos do Império Inglês.</p><p>A partir de então, os EUA se firmaram como a maior potência do mundo <strong>ocidental </strong>— maior <strong>economia</strong>, maior <strong>poder militar</strong>, maior população, entre outros fatores. O único país com capacidade de rivalizar com os EUA era a <strong>União Soviética</strong>, a qual não será objeto deste artigo, visto que se dissolveu em 1992 e não exerce influência direta no atual conflito entre China e Estados Unidos. No entanto, é importante notar que, a partir da década de 1950, um novo eixo econômico e ideológico se consolidou, colocando o Ocidente e o Oriente em polos opostos — com os EUA como potência ocidental e a URSS como potência oriental.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*Ac7lNNu_CZ_L8AAY" /><figcaption><em>- Conferência de Bretton Woods, em 1944, reuniu principais representantes econômicos</em></figcaption></figure><p>Até aqui só falamos dos Estados Unidos, mas e a China? Onde estava? Naquela época, a China era uma nação <strong>subdesenvolvida</strong>, vivendo sob um regime republicano <strong>nacionalista </strong>instaurado por um governo provisório (acabará de sair de uma monarquia). Apesar da <strong>pobreza</strong>, mantinha boas relações com os EUA, tendo sido <strong>aliada </strong>durante a Segunda Guerra Mundial. Então, quando começa a rivalidade entre esses dois países?</p><h4><strong>O início</strong></h4><p>A origem da rivalidade sino-americana remonta à fundação da<strong> República Popular da China</strong>, em 1949 — um marco que redefiniu o equilíbrio geopolítico no pós-guerra. Embora China e Estados Unidos tenham sido aliados contra o Japão durante a Segunda Guerra Mundial, a vitória comunista na guerra civil chinesa colocou os dois países em campos ideológicos opostos. A decisão dos EUA de <strong>não reconhecer</strong> o novo governo comunista e, em vez disso, manter relações com o regime nacionalista exilado em Taiwan refletia não apenas o <strong>anticomunismo </strong>presente na política externa americana, mas também uma estratégia para conter a expansão soviética na Ásia. Como observa Ann Chih Lin, essa postura ia além do antagonismo ideológico: tratava-se de proteger alianças formadas durante a guerra e limitar o avanço de regimes comunistas aliados a Moscou.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/896/0*L61ommshvV-UIKaM" /><figcaption><em>- Mao Tse Tung, dirigente da revolução popular, e Partido Comunista da China</em></figcaption></figure><p>Essa escolha diplomática teve implicações profundas e duradouras. Ao <strong>isolar </strong>politicamente a China por mais de duas décadas, os EUA reforçaram a percepção, por parte de Pequim, de que Washington era um obstáculo à sua legitimidade internacional. A <strong>Guerra da Coreia </strong>(1950–1953), com os EUA e a China em lados opostos, agravou essa desconfiança e consolidou uma rivalidade não apenas ideológica, mas também <strong>militar</strong>. O apoio chinês à Coreia do Norte e o envolvimento direto das tropas americanas ao lado da Coreia do Sul representaram um primeiro confronto indireto entre as duas potências, deixando claro que <strong>interesses </strong>estratégicos <strong>regionais </strong>— como a península coreana — seriam arenas recorrentes de <strong>tensão</strong>.</p><p>Além disso, a questão de Taiwan emergiu como um dos principais pontos sensíveis da rivalidade. O Acordo de Defesa Mútua entre EUA e Taiwan, firmado em 1954, em resposta às movimentações militares chinesas no Estreito, estabeleceu um compromisso que permanece até hoje como um dos maiores obstáculos à normalização plena das relações bilaterais. A manutenção do apoio velado e ambíguo dos EUA a <strong>Taiwan </strong>impôs limites claros à aproximação com Pequim, transformando a ilha em um símbolo da disputa por <strong>influência </strong>e <strong>soberania </strong>no Leste Asiático.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*JyPO3OPkxpsjiuGT" /><figcaption><em>- Cinco anos após a assinatura do acordo, o presidente dos EUA, Dwight D. Eisenhower, cumprimenta multidões em Taipei, enquanto desfila com o líder da República da China, Chiang Kai-shek</em></figcaption></figure><p>Portanto, a relação entre China e Estados Unidos, desde suas raízes no pós-guerra, não pode ser entendida como fruto de um simples desacordo ideológico. Trata-se de uma rivalidade enraizada em disputas de poder, <strong>legitimidade </strong>e influência regional, moldada por confrontos militares, estratégias de contenção e conflitos não resolvidos — como o de Taiwan. Esses elementos estruturaram o distanciamento entre as duas nações na segunda metade do século XX e lançaram as bases para os embates que continuam no século XXI.</p><h4><strong>Reaproximação</strong></h4><p>O agravamento das tensões entre China e União Soviética no final dos anos 1960, culminando em choques armados em 1969, não apenas revelou as <strong>fraturas internas </strong>do bloco <strong>socialista</strong>, mas também reconfigurou a lógica da Guerra Fria. A <strong>hostilidade sino-soviética</strong> ofereceu uma brecha estratégica que os EUA rapidamente exploraram ao perceberem que o alinhamento automático entre Moscou e Pequim já não era garantido. O início da <strong>reaproximação sino-americana</strong>, simbolizado pela “<strong>diplomacia do pingue-pongu</strong>e” em 1971, evidenciou uma mudança pragmática na política externa de ambos os países, guiada por interesses geopolíticos.</p><p>A visita de Nixon à China, em 1972, e a assinatura do <strong>Comunicado de Xangai</strong> representaram um ponto de inflexão nas relações internacionais: os EUA reconheciam a importância de incorporar a China à ordem global como forma de conter a hegemonia soviética — mesmo que isso significasse dialogar com um regime comunista até então marginalizado. Para a China, por sua vez, a aproximação com Washington era uma ferramenta para romper o isolamento diplomático e afirmar sua autonomia em relação à URSS.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*6zn7mTdMbBOIceJx" /><figcaption><em>- Primeira Página da Folha de 28 de fevereiro de 1972 retratando jantar entre Nixon e Mao.</em></figcaption></figure><p>O reconhecimento diplomático formal, em 1979, consolidou esse novo alinhamento, mas não eliminou os pontos de fricção. A decisão dos EUA de manter relações informais com Taiwan revelou a natureza ambígua da reaproximação: uma tentativa de equilibrar interesses <strong>contraditórios </strong>— reconhecer a <strong>legitimidade </strong>de <strong>Pequim </strong>sem abandonar completamente o antigo <strong>aliado </strong>em <strong>Taipei</strong>. Essa ambiguidade se tornaria, e continua sendo, um dos pilares da rivalidade sino-americana: a China vê Taiwan como parte inalienável de seu território, enquanto os EUA utilizam a ilha como um grande aliado comercial e uma alavanca geopolítica no Indo-Pacífico.</p><p>Portanto, o processo de aproximação entre China e Estados Unidos nas décadas de 1970 e 1980 não dissolveu a rivalidade entre os dois países — apenas a <strong>deslocou </strong>do campo <strong>ideológico </strong>para o <strong>estratégico</strong>. Essa relação, construída sobre uma base frágil de interesses <strong>momentaneamente </strong>convergentes, já continha os elementos que reacenderiam, décadas depois, <strong>disputas </strong>por influência, segurança e liderança global.</p><h4><strong>A mudança</strong></h4><p>A ascensão econômica da China nas décadas finais do século XX marcou o início de uma transformação estrutural que reposicionaria o país como um ator central na ordem global — e, inevitavelmente, como um concorrente direto dos Estados Unidos. As reformas lideradas por <strong>Deng Xiaoping</strong>, a partir dos anos 1980, após a morte de Mao Tsé-Tung, não representaram apenas uma modernização econômica, mas uma <strong>redefinição </strong>estratégica do papel da China no sistema internacional.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/620/0*GMd5SD7tMPaxm3cC" /><figcaption><em>- Deng Xiaoping, sucessor de Mao no comando da China, discursa na ONU em abril de 1974</em></figcaption></figure><p>Ao adotar o modelo de <strong>socialismo </strong>de <strong>mercado </strong>— no qual se manteve o controle político centralizado, ao mesmo tempo que se incorporaram mecanismos de mercado típicos do capitalismo — a China passou a trilhar um caminho singular de <strong>desenvolvimento</strong>. Esse movimento não apenas acelerou sua <strong>industrialização</strong>, mas também possibilitou sua reentrada gradual na economia mundial sob seus próprios termos, desafiando o modelo liberal ocidental liderado pelos EUA.</p><p>As políticas de abertura econômica, como a criação das <strong>Zonas Econômicas Especiais</strong> e os incentivos ao capital estrangeiro (com foco em joint venture empresarial), revelaram um projeto de longo prazo: transformar a China em uma potência produtiva e exportadora, capaz de competir em escala global. O ingresso na<strong> Organização Mundial do Comércio</strong>, em 2001, foi mais do que um gesto de integração — tratou-se de uma jogada estratégica que ampliou o alcance econômico chinês e fortaleceu sua inserção nos mercados internacionais, intensificando os laços comerciais com países de todos os continentes.</p><p>Esse avanço teve implicações diretas para a balança de poder global. À medida que a China ampliava sua influência econômica, investia em <strong>infraestrutura global</strong> e assumia protagonismo em setores de ponta, como tecnologia, começou a ameaçar posições historicamente ocupadas pelos EUA. O crescimento vertiginoso do PIB chinês, combinado ao fortalecimento de suas parcerias com o <strong>Sul Global</strong>, não apenas ampliou sua projeção internacional, mas colocou em xeque a hegemonia americana construída no pós-Segunda Guerra Mundial.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/984/0*nB8lCyr2bMavefoT" /></figure><p><em>- Evolução do PIB chinês — Foto: Reprodução/BBC</em></p><p>Assim, o processo de abertura e ascensão econômica da China não pode ser visto apenas como um caso de sucesso em <strong>desenvolvimento</strong>. Deve ser compreendido como o ponto de inflexão que transformou a China de um <strong>ator periférico </strong>em um<strong> competidor sistêmico</strong>. Esse novo cenário passou a alimentar a rivalidade com os EUA, agora não mais centrada em ideologias antagônicas, como durante a Guerra Fria, mas em uma disputa por <strong>poder</strong>, influência e <strong>liderança </strong>no século XXI.</p><h4><strong>Competição econômica e segurança</strong></h4><p>Nas primeiras décadas após a retomada das relações diplomáticas entre China e Estados Unidos, prevalecia um otimismo cauteloso: acreditava-se que a integração econômica da China ao sistema internacional não apenas impulsionaria seu desenvolvimento interno, mas também incentivaria uma eventual <strong>transição política</strong>, aproximando-a de modelos liberais. No entanto, esse pressuposto revelou-se equivocado. O crescimento econômico chinês fortaleceu — em vez de enfraquecer —<strong> o controle do Partido Comunista,</strong> combinação que ampliou o peso geopolítico do país sem alterar sua estrutura autoritária. Como observa Gallagher: “à medida que a China se tornou mais forte e rica, o Partido Comunista Chinês também se tornou mais forte e rico”.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*Sag9AsRtYQJYPqxu" /><figcaption><em>- Zhongnanhai é um complexo de edifícios de Pequim, onde está localizado o escritório central do Partido Comunista da China e a sede oficial do governo da República Popular da China.</em></figcaption></figure><p>Ao longo dos anos 2000, embora a cooperação econômica tenha continuado — com os EUA enxergando o sucesso chinês como mutuamente benéfico — , a dimensão da segurança tornou-se cada vez mais sensível. A ascensão militar da China, sua postura mais assertiva no <strong>Mar do Sul da China</strong> e a manutenção da questão de Taiwan como ponto inegociável para Pequim geraram desconfiança em Washington. O então vice-presidente Dick Cheney afirmou, em 2007, que o aumento das capacidades militares chinesas “<strong>não é consistente</strong>” com a ideia de uma “<strong>ascensão pacífica</strong>”. Para os EUA, temia-se que a modernização das forças armadas chinesas, somada à sua projeção tática regional, pudesse reconfigurar a ordem de segurança na Ásia — historicamente ancorada na presença militar americana e em alianças com países como Japão, Coreia do Sul e Filipinas.</p><p>Simultaneamente, a crise financeira global de 2008 evidenciou o grau de <strong>interdependência </strong>entre as duas maiores economias do mundo. Naquele mesmo ano, a China tornou-se o maior credor estrangeiro dos EUA (no entanto, hoje a posição está novamente com o Japão), detendo centenas de <strong>bilhões </strong>em títulos do <strong>Tesouro </strong>americano — uma demonstração concreta do entrelaçamento financeiro entre as duas potências. Em 2010, ao assumir o posto de segunda maior economia mundial, a China passou a ser vista não apenas como um parceiro comercial, mas como um concorrente intrépido de longo prazo.</p><p>A resposta americana veio com uma mudança clara de orientação. O chamado “pivô para a Ásia”, lançado pelo governo Obama, ampliou o engajamento diplomático, econômico e militar dos EUA na região do Indo-Pacífico. Medidas como a proposta da <strong>Parceria Transpacífica</strong> (TPP) tinham como objetivo reforçar alianças com países asiáticos e criar um contrapeso à influência chinesa — <strong>excluindo deliberadamente Pequim</strong>. Em contrapartida, a China aprofundou sua própria rede de influência, com iniciativas como a <strong>Nova Rota da Seda</strong> e acordos de segurança regionais, buscando afastar seus vizinhos da órbita americana. Como destaca Lin, essa dinâmica reforçou o clima de desconfiança: “a China interpretou essa virada [dos EUA] para a Ásia como algo, se não hostil, pelo menos uma demonstração de suspeita em relação à China”.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/680/0*76trGbJZuv1NIhOt" /><figcaption><em>- Parceria Transpacífica</em></figcaption></figure><p>A transformação da China em uma potência tecnológica e industrial de alcance global desfez a ilusão de que suas relações econômicas com os EUA permaneceriam <strong>complementares</strong>. Pelo contrário: as cadeias de valor passaram a se <strong>sobrepor</strong>, e empresas chinesas desafiaram diretamente gigantes americanos em setores como telecomunicações, <strong>inteligência artificial </strong>e infraestrutura digital. Como sintetiza Gallagher: “as duas economias se tornaram muito mais <strong>competitivas</strong>, em vez de complementares”.</p><p>Assim, a rivalidade entre China e Estados Unidos no século XXI abrange todas as áreas de influência global: comércio, tecnologia, finanças, segurança e diplomacia. Trata-se de uma competição profunda e contínua, marcada por uma <strong>interdependência </strong>desigual, interesses em conflito e desconfiança de ambos os lados. Mais do que uma simples disputa entre dois modelos de governo, o que está em jogo é a definição de quem moldará as regras e estruturas do mundo no século XXI.</p><h4><strong>Pandemia e Estado chinês</strong></h4><p>A rivalidade entre China e Estados Unidos, que já se delineava ao longo do século XXI, ganhou novos contornos a partir da ascensão de<em> </em><strong>Xi Jinping</strong>, em 2012. O novo líder chinês assumiu o poder com um projeto claro de fortalecimento do Estado e expansão da influência internacional da China — algo interpretado pelos EUA com crescente ambivalência. Em 2013, o encontro entre Xi Jinping e Barack Obama indicou uma tentativa de construir um novo modelo de <strong>cooperação </strong>entre China e Estados Unidos. No entanto, logo ficou evidente que essa parceria seria ofuscada pela <strong>intensificação </strong>da competição geopolítica entre os dois países.</p><p>A década que se seguiu revelou o aprofundamento dessa rivalidade em múltiplas frentes. Em 2015, os EUA condenaram explicitamente a <strong>militarização </strong>promovida por Pequim no Mar do Sul da China — uma área de disputas territoriais cruciais para o comércio marítimo global — , marcando o início de um tom mais confrontativo na relação. Com a chegada de Donald Trump à presidência, em 2017, essa postura se intensificou. A guerra comercial iniciada por seu governo — com a imposição de <strong>tarifas </strong>sobre produtos chineses e acusações de <strong>roubo </strong>de propriedade intelectual — transformou a interdependência econômica entre os dois países em um campo de batalha político. A retaliação chinesa foi imediata, revelando que a competição econômica já estava em curso.</p><p>Essa mudança foi institucionalizada com declarações como a do então vice-presidente Mike Pence, em 2018, ao afirmar que os EUA passariam a <strong>priorizar a competição</strong>, não mais a cooperação, com a China. A retórica foi acompanhada por uma série de acusações: <strong>manipulação cambial, repressão aos protestos em Hong Kong, </strong>ações agressivas no Mar do Sul da China e suposta interferência nas eleições americanas. Ao mesmo tempo, o governo chinês intensificava sua postura nacionalista, denunciando o que considerava interferência externa e reforçando sua aliança estratégica com a <strong>Rússia</strong>, já em consolidação desde os anos 2000.</p><p>A pandemia de <strong>Covid</strong>-19, a partir de 2020, acelerou esse processo de deterioração. As acusações mútuas sobre a origem do vírus e a gestão da crise sanitária alimentaram uma escalada de desconfiança, com impactos diretos sobre a opinião pública. Como observa a cientista política Mary Gallagher, a crise concentrou as atenções americanas na dependência de cadeias produtivas dominadas pela China, acentuando a percepção de vulnerabilidade estratégica. O resultado foi o fortalecimento do sentimento <strong>anti-China </strong>entre setores políticos, empresariais e da <strong>sociedade civil</strong> nos EUA.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*rZYYITSjoFnARdrC" /><figcaption><em>- Laboratório chinês em que o coronavírus supostamente teria se originado</em></figcaption></figure><p>Ao final do governo Trump, a relação bilateral estava visivelmente deteriorada. A retórica da<strong> “ameaça chinesa”</strong> tornou-se consenso em Washington, com autoridades classificando a China como o principal desafio à segurança e liderança global dos EUA. <strong>Joe Biden</strong>, que assumiu em 2021, não reverteu essa tendência — pelo contrário, deu continuidade e profundidade a muitas das políticas de seu antecessor.<strong> Manteve tarifas</strong>, aplicou sanções a autoridades chinesas, proibiu investimentos em empresas com vínculos militares e reiterou a acusação de genocídio contra os <strong>uigures </strong>em Xinjiang. Sua agenda interna — focada em tecnologia e infraestrutura — foi apresentada como resposta direta à necessidade de competir com a China em longo prazo. Ao mesmo tempo, buscou mobilizar aliados, como demonstrado pela declaração da Otan de que a China representa um “desafio sistêmico” à ordem internacional.</p><p>As tensões em torno de Taiwan continuaram sendo o ponto mais sensível da disputa. O apoio declarado dos EUA à ilha, somado às declarações de Biden de que defenderia Taiwan em caso de ataque, provocou fortes reações de Pequim. Xi Jinping, em reunião virtual com Biden, em 2021, alertou que os EUA estavam “<strong>brincando com fogo</strong>” ao desafiar o princípio de “uma só China”. Nesse contexto, a rivalidade ultrapassou os campos econômico e militar, transformando-se em um embate por legitimidade política, influência geopolítica e modelos de governança.</p><p>O alinhamento entre<strong> China e Rússia</strong>, intensificado após a invasão da Ucrânia em 2022, consolidou ainda mais os blocos rivais. A recusa chinesa em condenar a agressão russa, aliada à crítica às sanções lideradas por Washington, revelou a formação de um eixo alternativo ao Ocidente, no qual Pequim se posiciona como defensora da soberania estatal e da <strong>multipolaridade</strong>, em oposição ao modelo liberal intervencionista promovido pelos EUA.</p><p>Em síntese, a rivalidade entre China e Estados Unidos já não pode ser interpretada apenas como uma competição por influência regional ou vantagem comercial. Trata-se de uma <strong>disputa sistêmica</strong>, com implicações globais, que envolve visões conflitantes sobre ordem internacional, tecnologia, segurança, valores políticos e o futuro da governança global. A pandemia, longe de interromper essa disputa, atuou como catalisador da polarização.</p><h4><strong>Atualidade</strong></h4><p>O que já era um relacionamento conflituoso e competitivo agravou-se em 2025. Com a reeleição do republicano Donald Trump, a rivalidade entre China e EUA aumentou e tomou novos rumos. A guerra tarifária iniciada por Trump contra diversos países tem como foco principal a China, já que entre todas as tarifas impostas, as direcionadas à China foram as mais severas e impactantes. Fica evidente que a segunda maior economia do mundo incomoda — e muito — os EUA liderados por Trump. Mas por quê?</p><p>Primeiramente, o comércio de bens entre China e Estados Unidos permanece expressivo, somando aproximadamente<strong> US$ 585 bilhões</strong> em 2024. No entanto, esse volume esconde assimetrias estruturais que alimentam tensões persistentes. Os EUA importaram significativamente mais da China (<strong>US$ 440 bilhões</strong>) do que exportaram para lá (US$ <strong>145 </strong>bilhões), gerando um <strong>déficit </strong>de US$ 295 bilhões — cerca de 1% do PIB americano. Embora menor que os valores inflacionados frequentemente citados por Trump, ainda é uma das maiores disparidades comerciais bilaterais do mundo.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/648/0*VEh07I98_ba7JVcb" /><figcaption><em>- Fonte: Escritório de Análise Econômica (BEA) dos EUA</em></figcaption></figure><p>Esse desequilíbrio não é apenas contábil — reflete a percepção crescente entre formuladores de políticas nos EUA de que a<strong> dependência econômica</strong> da China constitui uma vulnerabilidade estratégica. Com base nessa visão, Trump impôs<strong> tarifas agressivas</strong> sobre diversos produtos chineses, argumentando que a China adota práticas comerciais desleais, como subsídios estatais, transferência forçada (roubo) de tecnologia e <strong>manipulação cambial.</strong></p><p>Outro fator relevante é a ideologia autoritária do Partido Comunista Chinês. Trump diz condenar a repressão a minorias, como os <strong>uigures em Xinjiang</strong>, o controle da mídia, o autoritarismo digital e as restrições a liberdades em Hong Kong. Para ele, o regime chinês é <strong>incompatível </strong>com os valores ocidentais, como <strong>democracia</strong>, liberdade de expressão e livre mercado.</p><p>No entanto, a crítica de Trump ao autoritarismo chinês é marcada por contradições, já que seu próprio governo foi acusado de <strong>intolerância </strong>à oposição,<strong> ataques à imprensa </strong>e <strong>desprezo </strong>por normas <strong>democráticas</strong>. Essa incoerência revela que suas críticas, embora baseadas em questões reais, podem ter sido utilizadas mais como instrumento <strong>político </strong>do que por compromisso com os direitos humanos.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*UMJ8f4wXRNSx5dx3" /><figcaption><em>O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciando tarifaço em 2 de abril de 2025. Foto: Brendan Smialowski/AFP</em></figcaption></figure><p>Ademais, existe a ideologia do “<strong>America First”</strong>, central no discurso de Donald Trump, a qual defende a primazia dos interesses norte-americanos em todas as decisões econômicas e políticas, com foco na proteção da <strong>indústria nacional </strong>e na recuperação de empregos perdidos para a globalização. Para Trump, a reindustrialização dos Estados Unidos é crucial para garantir <strong>soberania econômica</strong> e <strong>segurança nacional</strong>, interrompendo a dependência de cadeias de suprimentos estrangeiras, em especial da China. Essas ideias, associadas a um discurso de força e proteção do trabalhador americano, foram fundamentais para consolidar sua base eleitoral e impulsionar sua <strong>reeleição </strong>em 2024, em meio a um cenário de tensões econômicas e desafios internos. Nesse contexto, a imposição de tarifas sobre produtos chineses, sanções e restrições a tecnologias estratégicas tornaram-se instrumentos centrais de sua política. Para Trump, a <strong>guerra comercial</strong> não é apenas uma questão de balança de pagamentos, mas uma forma de conter o avanço chinês em setores de alta tecnologia e reduzir o déficit comercial, ao mesmo tempo em que sinaliza ao eleitorado americano seu compromisso em proteger empregos e fortalecer a indústria nacional diante de um <strong>cenário global competitivo.</strong></p><p>Por fim, um dos principais motores por trás da guerra tarifária foi conter a expansão global do poder chinês — que Trump via como a maior ameaça à liderança americana no século XXI. Ele interpretava a atuação da China em organismos internacionais e sua presença crescente em regiões como África, Ásia e América Latina (por meio da Nova Rota da Seda) como parte de uma estratégia deliberada para ampliar sua influência e subverter a ordem internacional liderada pelos EUA. As tarifas, nesse contexto, funcionam como uma ferramenta para <strong>conter </strong>esse avanço, tornar a <strong>China</strong> menos competitiva e reafirmar a<strong> primazia americana.</strong></p><p>Assim, a guerra tarifária promovida por Donald Trump não se resume a uma medida meramente econômica — ela revela uma visão de mundo marcada por nacionalismo exacerbado, sentimento anti-China e uma retórica que resgata antigos fantasmas da Guerra Fria. O medo do comunismo, frequentemente evocado por Trump, mistura-se com um profundo <strong>desconforto cultural</strong> diante dos valores e costumes orientais, que são retratados por seu discurso como ameaças à “civilização ocidental”. A China não é apenas vista como um rival econômico, mas como um <strong>inimigo ideológico e civilizacional</strong>. Além disso, a necessidade de Trump de se afirmar como líder global forte e mediador de conflitos aumenta a magnitude de todos os acontecimentos dessa guerra comercial. Nesse contexto, as tarifas funcionam como símbolo de resistência a uma ordem global em transformação, guiada menos por dados concretos e mais por <strong>sentimento de perda </strong>de controle e <strong>nostalgia de uma supremacia americana</strong> idealizada. Ao instrumentalizar essas tensões, Trump transforma o comércio em campo de batalha para uma<strong> guerra cultural e geopolítica</strong>, onde o real objetivo parece ser reafirmar a identidade americana e buscar a hegemonia global.</p><blockquote>Guilherme Almeida Olmos</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/476/1*69WD6XeIl3zm_t3TPLoHhQ.jpeg" /></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=76a21ffd3aad" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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