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        <title><![CDATA[Stories by Maria Lutterbach on Medium]]></title>
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            <title>Stories by Maria Lutterbach on Medium</title>
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            <title><![CDATA[As manhãs de Lázaro]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria Lutterbach]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 07 Jun 2021 20:42:30 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2021-06-08T01:17:05.867Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/543/1*Exc0f1SjI-CHlmzrRVGl9A.png" /><figcaption>Imagem: Ana Laura Malmaceda</figcaption></figure><p>Levanta-te e ama</p><p>Ama e amamenta</p><p>Amamenta e faz o café</p><p>Uma fralda antes, lava-te as mãos</p><p>O ovo mexido pra poder parar em pé</p><p>Olha cada movimento que faz o menino ao comer um pedaço de melão</p><p>(as unhas fincadas para que não escorregue)</p><p>Levanta-te e lava-o</p><p>Sem deixar que alcance a faca</p><p>Atende a campainha, com a máscara</p><p>Duas sacolas de alimento para limpar</p><p>Uma colher de água sanitária para cada litro de água</p><p>Uma tampinha deve ser igual a uma colher</p><p>A dúvida que paira</p><p>O menino, cadê?</p><p>Busca-o e brinca</p><p>Olha o telefone</p><p>Olha o telefone</p><p>Olha o telefone</p><p>O menino te olha</p><p>Levanta-te e enxagua os alimentos</p><p>Um</p><p>por</p><p>um</p><p>Ensina o nome da batata para o menino, que ri</p><p>E engatinha mais rápido</p><p>Captura-o</p><p>sem parecer que foi fácil</p><p>Alegra-te com o gritinho</p><p>Que em três minutos será choro</p><p>Levanta-te e nina-o</p><p>Nina e canta a canção</p><p>Cantando, leva-o até a cama</p><p>Fecha a porta atrás de ti</p><p>Olha em volta e senta-te</p><p>Para pensar no desenho</p><p>que tem</p><p>O rosto do menino</p><p><em>publicado em junho de 2021 na </em><a href="https://seer.ufrgs.br/philia/article/view/114377/pdf"><em>revista Philia (UFRGS) v.3</em></a></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=e5e2d155f13" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[folhi]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria Lutterbach]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 19 Oct 2020 00:23:47 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-10-19T00:23:47.684Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h3>folhinha</h3><p>as paixões nascem gritando às sextas</p><p>os amores crescem quietinhos aos domingos</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=5b70a7b9da06" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[canina]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria Lutterbach]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 19 Oct 2020 00:22:17 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-10-19T00:22:17.274Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>na vizinhança tem um homem</p><p>que late como um cão</p><p>para nosso próprio conforto</p><p>fingimos todos</p><p>que se trata de um cão</p><p>que grita como um homem</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=5dd1f9c614f3" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[3 Fugas]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria Lutterbach]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 17 Aug 2020 23:13:00 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-08-18T01:26:39.939Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h3><strong>Fuga número 1</strong></h3><p>No meio do país ainda se acredita em Deus e no casamento, as pessoas vão à praça, fazem festas na calçada da igreja, sorriem e comem carne em churrascos civilizados lá no meio, longe de tudo, perto do mato e da água, onde poderiam ser mais selvagens, acreditam no progresso e confundem progresso com:</p><p>Deus</p><p>emprego</p><p>casamento</p><p>previdência</p><p>e morte</p><p>A gente não cresceu ainda, então é mais fácil fingir de doida e escapar da catequese para ir nadar, correr léguas da catequese e zunir da missa, cruzar a rodovia na garupa de uma moto e queimar a batata da perna, beijar atrás de um caminhão pisando em galho seco, fazer gangue para roubar bombom, se depilar na casa de uma tia estranha</p><p>voar para muito longe dali</p><p>e nunca mais voltar</p><h3>Fuga número 2</h3><p>Se tudo começa quando a gente fala, então as palavras eram:</p><p>mapa</p><p>mala</p><p>festa de adeus</p><p>(último) contra-cheque</p><p>salto</p><p>medo</p><p>vontade</p><p>Socar tudo em duas portas de armário, vender a mãe e a sogra num mesmo pacote, telefonar para aquela prima distante, cavar uma carona no sete de setembro e varar as montanhas para pegar essa garoa que molha a alma e às vezes demora a secar.</p><p>mas seca</p><p>e a gente aprende que é bom</p><p>carregar capa de chuva</p><h3>Fuga número 3</h3><p>Ali está um bueiro (a palavra em espanhol é <em>alcantarilla</em>) feito para quem não teme passeios pelo subsolo dos diabos brancos, como o da carta do tarô.</p><p>— desça, diz o lobo, no eco de um bom mistério</p><p>Metros abaixo, a vista embaralhada de desejo e perdição, exploro corredores compridos, sem bússola nem lanterninha. Viro menina-morfina sob um feitiço amoroso que abraça e paralisa.</p><p>— dance, ri o lobo, ao som dos seus maiores medos</p><p>Nas galerias que servem como salões de baile sou vestido, maquiagem, laço grande no cabelo. Quase não sei por qual buraco entrei e tenho um arranhão vermelho no pescoço quando a festa termina.</p><p>— fuja, rosna o lobo, com uma boca enorme que me morde</p><p>mas assopra sempre que o primeiro raio de luz</p><p>atravessa nosso quarto</p><blockquote>Publicado em julho de 2020 na revista <a href="http://diversosafins.com.br/diversos/dedos-de-prosa-ii-66/">Diversos Afins</a></blockquote><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=51d968c8ba96" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[e.lã]]></title>
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            <category><![CDATA[curtas]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Maria Lutterbach]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 28 May 2020 23:43:34 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-08-18T00:59:13.434Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<iframe src="https://cdn.embedly.com/widgets/media.html?src=https%3A%2F%2Fplayer.vimeo.com%2Fvideo%2F330588177%3Fapp_id%3D122963&amp;dntp=1&amp;display_name=Vimeo&amp;url=https%3A%2F%2Fvimeo.com%2F330588177&amp;image=https%3A%2F%2Fi.vimeocdn.com%2Fvideo%2F775708636_1280.jpg&amp;key=a19fcc184b9711e1b4764040d3dc5c07&amp;type=text%2Fhtml&amp;schema=vimeo" width="1920" height="988" frameborder="0" scrolling="no"><a href="https://medium.com/media/bb881bdffd67345c67a7abd0e896a03f/href">https://medium.com/media/bb881bdffd67345c67a7abd0e896a03f/href</a></iframe><p>A palavra “elã” sempre fez parte do meu léxico familiar. Confiava que “elã” dissesse respeito a elegância, garbo, refinamento. Porque era uma cara um pouco assim a que a minha vó fazia quando pronunciava o termo. “Fulana tem um elã”, repetia ela, enquanto trocava a água de um vaso de flores, ou colocava um sachê novo no armário de lençóis do corredor. A cara de vovó sempre foi para mim o significado preciso de “elã”, até o dia de hoje, quando resolvi buscar no dicionário sua definição oficial:</p><p>substantivo masculino</p><p>arremesso; calor; ardor; entusiasmo; impulso; arroubo; impulsão; força; furor: “o elã de um sentimento ardente”; alento; aptidão; capacidade; estrogênio; inspiração: “escrever com elã”; vivacidade; calor; disposição; emoção; energia; entusiasmo; força; vigor.</p><p>Em vez de confirmar aquilo que eu já tinha como definitivo, me deparei com uma palavra nova e vibrante. “Elã”, afinal, nunca tivera qualquer relação com o requinte de louças e bicos de papagaio que decoravam as casas das mulheres da minha família. Pelo contrário. A palavra que eu antes traduzia livremente a partir dos gestos de vovó era um verbete quase rebelde, insurgente, que nada devia aos caprichos do nosso desbotado sobrenome suíço-alemão. Com a descoberta comecei a me perguntar se vovó, suas três irmãs e as doze filhas mulheres que elas tiveram teriam também escutado e repetido essa palavra pela vida como um engano. Talvez, aquele falso elã tivesse algo ver com um certo lugar no mundo que elas foram ensinadas a desejar. Um lugar de roupas bem cortadas e enamoramentos fantasiosos. Um lugar elegante, ordenado e sem riscos. Um lugar chamado “elã’, muito distante e protegido do entusiasmo, impulso e arrebatamento contidos na palavra original.</p><p><strong>texto e edição:</strong> Maria Lutterbach / <strong>trilha:</strong> Mario Cappi</p><blockquote>Curta selecionado para a <a href="https://www.mostralivre.com/19/">Mostra do Filme Livre 2019</a> e exibido nos CCBBs do Rio, Brasília e SP. Publicado na revista <a href="http://ruidomanifesto.org/maria-lutterbach/">Ruído Manifesto</a> em agosto de 2020.</blockquote><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=15e2edce56cd" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[carpete]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria Lutterbach]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 28 May 2020 23:30:27 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2021-09-23T15:49:11.719Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>tenho preguiça de buscar um copo d’água</p><p>de amarrar meus próprios sapatos</p><p>de alisar o gato enquanto ele sonha</p><p>atuns tão mais simples que os meus</p><p>publicado no <a href="https://www.instagram.com/jornalplasticobolha/?hl=en"><em>Jornal Plástico Bolha</em></a> em julho de 2021</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=f25f6c976179" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[moça do tempo]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria Lutterbach]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 28 May 2020 22:34:29 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-05-28T22:34:29.408Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>acordar incendiária</p><p>ir para a cama garoinha</p><p>sonhar ventanias</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=c33bf8cc5536" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[Copacabana]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria Lutterbach]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 28 May 2020 22:31:54 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-05-28T22:31:54.437Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>a tarde cai</p><p>e os navios acendem</p><p>seus olhos de jacaré</p><p>para mirar a noite</p><p>[ que se move ]</p><p>da calçada para cá</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=38ebf348b20e" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[Com a ajuda de vira-latas e patos]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria Lutterbach]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 28 May 2020 21:36:40 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-06-02T21:38:37.271Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/896/1*m2FZ1lcwOEcLZN_fgjMY1A.png" /></figure><h3><strong>Com a ajuda de </strong>patos e <strong>vira-latas</strong></h3><p>Foi um pouco camicase, mas quis arriscar a manobra de viajante intrépido, aquele que prefere surpresas a roteiros infalíveis. Escolhi não saber sobre Santiago ou o Chile antes de vir parar aqui. Não via, não lia, não ouvia dizer. Acontece que a viagem era mudança de país, sem prazo de validade. E o país tinha uma certa vocação para ilha, coisa que só descobri meses depois, junto com mais alguns sustos que assaltariam minha alienada figura de estrangeira.</p><p>Dessa vez, a veia cigana tinha se estropiado no caminho e o frisson pela novidade virou puro estranhamento. Mas a estranha aqui era <em>yo</em>. E tinha custado caro despachar pelo Correio aquelas seis caixas da rua Cayowáa. Então fui treinando a vista e o tato nesse país comprido, emparedado entre o mar e a cordilheira apoteótica.</p><p>Vi cabelos muito brilhantes e indígenas nas esquinas de uma metrópole que anda rápido, mas nem tanto. Vi santiaguinos tomando tempo pra vestir vira-latas com minipijamas contra o frio. E vira-latas fazendo sestas serenas ao sol, esticados nas escadas do metrô, porque sabem que ninguém tem tanta pressa assim.</p><p>É meio deseducado ser apressado aqui. E uma pessoa que chega com São Paulo agarrada no corpo precisa se vigiar pra manter os faniquitos na jaula. Como lembrete, comprei uma gaiola, botei umas flores dentro e pendurei na janela. A casa já ia tomando jeito, só faltavam uns livrinhos. Com o envio transcordilheira custando a hora da morte, minha pequena e adorada biblioteca tinha ido morar com minha mãe em Minas.</p><p>Mas como pode ser descompensada uma casa nova sem livro. Toca a pedir emprestado, faz ficha na biblioteca do bairro e, por carência (de livro e de gente), se enfia numa oficina de qualquer coisa, seguindo o conselho-piada de vovó de “fazer amigos e influenciar pessoas”, como no título daquele best-seller esquisito.</p><p>A oficina é sobre romance de formação, o <em>bildungsroman </em>que os colegas <em>hispanohablantes</em> chamam de <em>novela de formación</em>. Para descobrir sobre a professora, uma escritora contemporânea de Zambra chamada María José Viera-Gallo, compro um livro dela, meu primogênito em solo chileno. <em>Cosas que nunca te dije</em> (Tajamar Editores, sem tradução) é o primeiro de contos de Viera-Gallo depois de duas novelas, <em>Verano robado</em> (Alfaguara) e <em>Memory Motel</em> (Tajamar Editores).</p><p>Se sai amigo ou influência da oficina ainda não sabemos, mas já sentei na janelinha das travessias juvenis que vamos esmiuçando nas noites de terça. Não tem banzo nem vontade de pão de queijo que resista a um segundo encontro com <em>O Apanhador no Campo de Centeio</em> e seu desnorteado Holden Caulfield. Enquanto o menino de J.D. Salinger tropeça na vida adulta perguntando aos taxistas de sua NY natal sobre o destino dos patos no inverno, vejo a paisagem chilena ficando mais nítida. E me convenço que <em>ser Caufield</em> é parecido a <em>estar estrangeiro</em>. Uma alma andarilha pelo mundo que se apega aos vira-latas de metrô, ou aos patos que voam quando o lago se congela.</p><blockquote><strong>Crônica publicada no extinto blog da Cosac Naify (2015)</strong></blockquote><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=f48ac2e36c80" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[O Convite de Sarita]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria Lutterbach]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 28 May 2020 21:01:01 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-05-28T22:26:58.011Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Para chegar na prometida praia, o preço era uma travessia de vinte minutos num barco batizado Sarita, guiado por um certo Capitão Scott. Enfrentou o desgosto vestindo óculos escuros para esconder seus olhos bem fechados que não viram nada de toda aquela água cercando o pequeno e frágil barquinho. Sobreviveu até o outro lado.</p><p>Aliviado ao aportar na vila, inspirou com força, puxando pra dentro o ar de maresia que roçava seu nariz. Eram quase seis da tarde, e ele deu de cara com moradores de roupas muy bem passadas que cercavam a porta da capela. Entre os fiéis, pulsava um vestido de linho verde-água sobre as formas de uma moça de olhos suspeitos. Não era vesga, mas conseguia olhar em várias direções num só tempo, confundindo a platéia. Foi o homem ensaiar um aplauso pra sumirem ela, o vestido e o resto do povo igreja adentro.</p><p>Deixou então a missa para os que eram de missa e alugou um quarto. Pela janela, descobriu no largo em frente uma lancha atracada que fazia as vezes de um banco de praça. Soprou alívio de ver aquela em terra firme e se afogou em banho morno para sair em busca de cerveja, talvez algum jantar. No balcão do bar-estratégia, acompanhou de novo o movimento na porta da igrejinha, de onde agora escapuliam cristãos devidamente comungados. Um gole ansioso e mais outro, viu enfim a névoa da moça em verde-água. As curvas imperdoáveis e o olhar vesgo continuavam lá, então não resistiu e cutucou Leôncio, dono do bar, apontando com o queixo na direção do perigo. O outro foi curto: “É Sarita”.</p><p>Dezessete anos, a pepita de Capitão Scott tinha sido trazida na proa do barco, importada diretamente do rio Araguaia. Enquanto o Capitão ia e vinha transportando gentes e coisas, ela abatia nativos e turistas que atravessavam sua vista. Era um vício que Sarita trabalhava com cautela, para não ser envenenada pelas matriarcas locais, nem macular o afeto de seu justiceiro. Mais tonto de Sarita do que de cerveja, o viajante pagou a conta e perdeu a fome, de tanta vontade. No rastro da fugitiva, seguiu pela vila por um caminho torto e desatinou por dentro quando cruzou o largo. Sentada feito sereia no volante da lancha, Sarita o convidava.</p><blockquote><strong>Publicado na revista </strong><a href="http://www.revistamininas.com.br/edi%c3%a7%c3%a3o-13.html"><strong>Mininas n.13</strong></a><strong> (2007)</strong></blockquote><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=6853508d4b8b" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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