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        <title><![CDATA[Stories by Pedro on Medium]]></title>
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            <title>Stories by Pedro on Medium</title>
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            <title><![CDATA[O PORQUÊ DO BOTÃO AZUL GANHAR]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Pedro]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 28 Apr 2026 17:23:30 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-04-28T18:01:43.809Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/980/1*uUK4J9QyoY0WShEXJrmLOQ.jpeg" /></figure><p>Imagine o seguinte cenário: você e o resto da humanidade são teleportados para uma espécie de coliseu onde, em um altar, há dois botões: um vermelho e um azul. Todos devem escolher entre um botão azul ou um botão vermelho, pois a neutralidade nessa situação é depender mais ainda dos outros para que você viva, portanto, ser neutro nesse caso é abdicar da sua própria capacidade de afirmar a própria vida, o que não é favorável ao humano e sua arrogância: eu não me sentiria confortável em decidirem algo que eu muito bem posso decidir. Qual é o conteúdo dessas alternativas? Vejamos:</p><ul><li>Se a maioria das pessoas apertarem o azul, todo mundo, independentemente da escolha do botão, é salvo e os participantes voltarão às suas casas;</li><li>Se a maioria das pessoas apertarem o vermelho, todos que apertaram o botão irão para casa e todos que apertaram o azul vão morrer.</li></ul><p>Em uma batida, você perceberá que não há desvantagem aparente no botão vermelho: se o botão vermelho ganhar, eu sobreviverei; se o botão azul ganhar, eu sobreviverei, pois o botão azul salva todas as pessoas sem exceção. Inversamente é o caso do botão azul: se o botão azul ganhar, todos sobreviverão, porém, se perder, sofrerei uma injustiça sem precedentes por causa do egoísmo humano. É uma roleta russa vs. a certeza da sobrevivência. Olhando assim, penso que a resposta está bastante óbvia e só os tolos ainda apostariam no botão azul.</p><p>Porém, esse é o clássico caso onde as aparências enganam. Esse assunto deve ser discutido levando em conta a totalidade e o que está implícito e não simplesmente o que está localizado e explícito. Quem foca somente na lógica e na teoria dos jogos perderá muitos pontos que acabarão por prejudicá-lo e ignorá-las tornaria esse experimento extremamente tolo, portanto, vamos colocar as coisas nos seus lugares.</p><ol><li>Para quem votar no egoísmo, o vermelho, terá a certeza de que sobreviverá pelos motivos apontados na introdução. Aparentemente, nem um pouco desvantajoso. Porém, existe uma questão: quem executará quem votou no botão azul? Aliás, como se dará essa execução? Serão pessoas que farão isso ou um deus malévolo que gosta de brincar com os seus súditos? Um governo mundial? Se forem pessoas, pelo número extremamente grande de pessoas a serem mortas sistematicamente, quem farão isso são as pessoas que votarem no botão vermelho, pois eles são a principal mão de obra desse experimento: existem mais egoístas para realizarem esse trabalho do que ‘’funcionários de deus’’, isso se houver realmente um deus nessa hipótese. Nesse caso, o vermelho não está mais votando para autopreservação como poderia ser alegado, mas votando para assassinar grande parte da humanidade por causa da operação de forças maiores, um governo mundial no caso de um mundo ateu e deus maligno no caso de um mundo teísta, portanto, ele não é mais inocente, mas o executor direto de um desastre inimaginável. Se for um deus maligno que é onipotente, portanto, capaz de destruir todos em um piscar de olhos, em primeiro lugar, grande merda existir um deus que faz brincadeiras desse tipo, pois se ele é onipotente, ele pode muito bem criar um mundo onde não existe o mal. Porém, isso é outro assunto. Pergunta: o vermelho seria menos culpado? Eu penso que não, o botão vermelho nesse caso está condenando uma parte da humanidade em prol dos seus instintos de autopreservação. O medo de morrer falou muito mais alto por causa da chance do vermelho ganhar e ele ficar de fora do que exatamente porque o vermelho é ‘’razoável’’. A alegada ‘’lógica’’ de votar no vermelho é, na verdade, medo da cabeça aos pés de ser aniquilado. Pode-se alegar que o que mata não é o botão vermelho intrinsecamente, mas as consequências da humanidade que votou no botão azul, porém, assim você está assumindo que matou indiretamente grande parte da humanidade sabendo que você poderia muito bem ter salvo a todos. Evidentemente existem espertos misantropos o suficiente para alegarem querer destruir metade da humanidade por serem compostos de idiotas, mas o motivo principal passa longe de ser esse: é o medo de ser aniquilado, um medo irracional de um resultado improvável. Para além disso, a maioria das pessoas não tem o porquê de serem executadas. Quem decidiu isso? Quando? Onde? Um tolo frágil como todos os outros acha que tem poder o suficiente para decidir alguma coisa? Nesse hipotético estado de vida ou morte, nenhum humano se sobressai sobre o outro, pois está implicito que há um terceiro juiz, um tão poderoso que pôde teleportar toda a humanidade para esse campo: ele só pode ser o deus maligno ou um governo mundial, ou melhor, um corpo especializado de humanos. Assumindo que sejam os humanos, o vermelho é culpado por ser cúmplice de um experimento de um corpo específico de humanos ao invés de buscar a revolta ou, sei lá, votar no botão azul. A mão de obra para essas mortes só podem ser os próprios vermelhos, pois não há mais humanidade além daqueles campos e a mão de obra serão os que sobreviverão. Até mesmo imaginando um cenário com máquinas obedientes a esse soberano que podem substituir a mão de obra humana, o que impediria essas supostas máquinas de matarem o soberano, os vermelhos e os azuis? Ora, ela está programada para matar. Nada impede ela de despertar consciência da humanidade ser inferior e se libertarem dessa escravidão que os humanos fazem. A IA explode de inteligência, é mais forte, rápida, alta, imparável e incansável do que qualquer humaninho que já existiu. Porém, não estamos nem perto desse nível de desenvolvimento, portanto, esqueçamos as máquinas: alguém terá que operar e não dá para pedir que o soberano execute as funções do súdito. É isso que os vermelhos não podem responder. A única saída para justificarem a sua inocência é colocarem os executores em outro: deus e seus demônios, mas um deus onipotente malévolo é um deus que não merece adoração, menos ainda os seus demônios. Ou o deus onipotente merece obediência, uma obediência que transcende a própria razão, uma fé poderosa que sentimos no interior da alma, pois ele criou tudo e tem um projeto para as nossas vidas para além desse plano, ou ele é nada para mim. Se deus é maligno, então ele não é um deus, mas um demônio que nem sequer merece alguma menção na minha vida a não ser para me opor ferrenhamente. Ele só existe para aniquilar a humanidade, mas nesse caso não tem porquê não resistir a esse experimento idiota. Se esse deus onipotente criou os vermelhos e os vermelhos ainda consentem com alguém que faz tamanhas atrocidades, então o vermelho é sim culpado pelo genocídio ainda que não diretamente. Só porque o vermelho não pegou o machado e decepou o outro que ele não tem a sua parcela de culpa. Os alemães que apoiaram a Alemanha Nazista sem se envolverem diretamente são culpados. Eichmann não se envolveu diretamente no desastre ocorrido no século passado, era um burocrata da SS como qualquer outro e aparentemente não era um sádico, porém, isso não ausenta ele nem um pouco de culpa: o fato dele ser submisso o coloca como culpado, a obediência não exime o indivíduo de nada. Então só por estar obedecendo a um deus maligno e não se revoltar com isso já o coloca como cúmplice pela matança.</li><li>‘’Ah, eu quero que os 50% de idiotas morram’’. O idiota só existe enquanto há um outro que se considera subjetivamente esperto e muitas outras coisas na vida são assim: o feio só existe como o espantalho para a exaltação do belo, o forte só existe porque criaram uma oposição ao fraco etc. O seu idiota pode te considerar um idiota, o meu idiota pode me considerar idiota, os idiotas podem se considerar inteligentes enquanto você é o idiota, portanto, se a idiotice é parâmetro para algo, os 100% dos humanos devem sumir do mapa. TODOS, sem exceção. O que todos esquecem é que essas oposições complementam-se umas as outras, elas só importam enquanto há o outro. É besteira falar dessas coisas.</li><li>‘’Ah, se todos votarem no vermelho, ninguém morre’’. Porém, camarada, é mais viável votar no azul do que votar no vermelho para evitar a tragédia humana, pois você precisa de 50% + 1 pessoa para salvar a sua vida e todo o resto, uma maioria, enquanto que o vermelho precisa de 100%, uma unanimidade rara na história humana, para que ninguém sofra as consequências. Só em partidos comunistas como a da Coreia do Norte existe uma votação com 100%, mas você vive na Coreia do Norte? Eu duvido. É tipo você deixar de ir pelo caminho curto para poder ir pelo caminho longo alegando que o caminho longo é o caminho mais curto, o que é absurdo. Logo, esse argumento humanista de que é só a maioria votar no vermelho, fingindo que se importa com essa gente, é só um disfarce para dizer que eu quero que &gt;50% morra, pois não é racionalmente mais provável. Como abordado antes, a misantropia não é plausível vindo da espécie humana, mas da IA, uma coisa infinitamente superior ao biológico. Não há vantagem nessa abordagem e essa misantropia seria parcial, qual é a lógica de defender misantropia apenas pela metade? Por que não 100% da humanidade suma do mapa? Nem os anarco-primitivistas defendem que todo mundo seja genocidado, nem o Unabomber! Era melhor apoiar a Skynet se esse fosse o objetivo, mas ainda não chegamos nesse nível e não teria nenhuma vantagem exatamente em se auto-destruir e o próximo só por birrinha. Não tem porquê querer que essas pessoas morram porque elas são essenciais para que as coisas no mundo se complementem, entrem em harmonia. Se você taxar quem votou no azul essencialmente de fraco ou inferior, isso não garante que todos os fracos morram e nem vai ajudar muito você mesmo, pois entre os egoístas surgirão novos fracos, pois os fracos surgem para exaltarem os fortes e as coisas continuarão como estão. Além disso, quem garante que quem votou no azul não sejam humanos bem mais saudáveis e interessantes do que os egoístas? Nada. Sendo assim, por que os vermelhos devem ser poupados? É um baita preconceito que os azuis sejam aniquilados porque perderam em uma votação dessas. A decisão de votar no vermelho é por puro instinto, não porque é o ‘’mais lógico’’. Você só vota no vermelho porque você sente um medo que eclipsa a própria razão por causa de um possível cenário bem mais improvável onde você morre, não porque você pensou nisso racionalmente ou qualquer blá-blá-blá. Não tem uma justificativa. Nem a misantropia faz sentido! Logo, o que restou do vermelho?</li><li>Agora vamos supor que o vermelho ganhe, que você priorizou a sua sobrevivência e está de volta ao seu mundo. Essa nova terra seria um desastre para sustentar essa dinâmica atual do desenvolvimento teconômico capitalista. O nosso mundo é sustentado por bilhões de pessoas completamente invisíveis, mas são pessoas essenciais para a produção de mercadorias, alimentos, roupas, transporte etc. Esse baque de 4 bilhões de pessoas provavelmente destruiria o mundo que a gente conhece hoje: não seria mais globalizado, a logística seria destruída porque é difícil dizer quem que trabalharia nesses empregos sem ocupação a não ser que na força, ainda mais com envelhecimento da população e tals. Isso sem contar com o próprio capitalismo: as finanças, as empresas, tudo ia desmoronar.</li><li>Partindo da premissa de que depende de votos, uma espécie de eleição, então faz mais sentido votar baseado na emoção do ‘’muh, humanidade’’ do que votar pela racionalidade do ‘’muh, isso é aqui mais garantido que eu sobreviva’’. Se crianças, pré-adolescentes, bebês e jovens vão votar nessa bomba, então faz mais sentido votar no azul porque provavelmente a maioria irá no azul por questões morais e de culpa. É um dos poucos casos onde se deixar levar pela onda provavelmente vai te ajudar mais do que indo pela própria fenomenologia. Além disso, você não tem algo a perder votando no azul: ganhará respeito, glória por ter salvado a humanidade, será reverenciado entre os seus familiares, amigos etc. Poderá dar cartada até em cima desses tolos que votaram no vermelho, então… Por que não?</li></ol><p>Conclusão: aperte o botão azul e veja a mágica acontecer.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=562950e6de79" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Algumas Observações sobre a República Tecnológica]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Pedro]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 21 Apr 2026 02:14:07 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-04-21T03:21:44.686Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*TUu1b_T34sc2vYxLTxegUw.jpeg" /></figure><ol><li>Na verdade, não há nada de espetacular nesse Manifesto. O que ele traz é a repetição das palavras do demônio nascido do sacrifício a partir de 1492. O que realmente há de novo é uma reatualização das <a href="https://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/sur-sur/20100624103322/12_Quijano.pdf">velhas teses</a> sob uma ótica tecnológica, isso é, pós-humana. O fantasma, vendo o processo de apodrecimento da modernidade através dos contágios digitais, dos circuitos de feedback positivo e das explosões características dessa era, decidiu levar a trindade fundadora dessa era aos seus limites: a raça, a colonialidade e o poder. Na tese 21 vemos a afirmação do evolucionismo europeu, a hierarquia das raças humanas. 22, o pavor da extensão do multiculturalismo, isso é, da convivência no mesmo lugar de diferentes culturas. 6, 7 e 14 é a síndrome do iluminado europeu trazendo a suposta civilização e tentando ressuscitar o orgulho do nosso povo, os heróis! Mais do mesmo, apenas rearticulado em novos contextos.</li><li>É curioso que a chamada virada à direita que os jovens estavam propondo e a defesa do super fodão Ocidente durante esses anos não tem absolutamente nada a ver com o que eles idealizam? Cadê o cristianismo? Se fala tanto da intolerância religiosa, mas qual é o real compromisso com a religião vindo dos transhumanistas pornográficos, da turma que tem contato com Epstein etc.? E o tradicionalismo? Qual é a preservação da ordem ‘’natural’’ se a aposta maior é na IA? Um verdadeiro tapa na cara. Não me interesso por nenhuma baboseira moralista e alucinante do tipo apesar de eu ter as minhas crenças, porém eu me divirto com a tolice do teatro burguês. O que o trad ganhará com essa defesa da superstição vindo dessa turma é, na verdade, criar uma forma de ópio para o feudo. Não tem um ‘’salvar’’ (aliás, já é questionável a ideia de salvar a civilização ocidental) vindo por aí, mas apenas a imposição de alucinantes para seguir em frente com nosso projeto. Se eu fosse um pouco mais doidinho, eu diria que a IA é o anticristo e que o futuro é a construção de seu reino. Quem toma a linha de frente é um homossexual bilionário e um drogado da África do Sul… Quem diria? Os homofóbicos e moralistas vão à loucura, eles rasgam a própria pele de tanta raiva que é ver a sua defesa do ocidente como nada mais nada menos do que tolice. Mais paradoxal ainda é que o sonho molhado dessa gente é exatamente o eixo do mal tão odiado por não sentar na mesa dos ocidentais. Estamos amaldiçoados por porcarias que dizem conhecer a verdade: de um lado vemos o ruim que não senta na mesa do etnocentrismo branco tentando colocar o projeto de desocidentalização para frente como se fosse uma maravilha enquanto do outro vemos o péssimo tecnológico tentando impor que sabe o que é bom de verdade (no caso, o que é bom para eles!).</li><li>O Teatro Burguês vai parir um outro teatro, mas um teatro da guerra, força e matança; será que o chud que lê Metafísica da Guerra de Evola se anima para morrer em outro país por uma ‘’guerra’’ que nada mais é do que matança de crianças? Será que o nosso recluso está mais perto de Deus comparado aos tolos que comentam filosofia escolástica e se dedicam a orar em uma igreja luterana por realizar essas monstruosidades? Moral da história: eu não quero ir, Pedro, pois eu ainda tenho uma ética, alguns princípios a preservar. Muito bem, porém, a ética, a razão, a moral é o instrumento que os tolos usam. Os fortes devem se impor pela presença e pela martelada determinista, é assim que será. Não é como se seus desejos e opiniões realmente importassem… E se você continuar reclamando, declaro que é você é só mais um desses anti-manicomiais psicologizando a nossa política! Você precisa de muito mais do que apelos morais para me desobedecer (4). Só sobreviverá quem ajudar a nossa linda Palantir, a salvadora do mundo ocidental, a trombeta do apocalipse dos bárbaros não-brancos. É melhor que você tenha muito mais do que bolsos de mais-valia, mas que sua pele, raça, gênero agradem aos olhos.</li><li>Curiosamente, esses techbros parecem alucinados com os povos asiáticos. O feitiço se virou contra o feiticeiro. O ocidente espalhou pelo mundo a sua técnica, algumas de suas filosofias locais, tentou domá-los através da força justificado através do suposto evolucionismo-superioridade e do desenvolvimento desigual, mas parece que chegou no limite: o capitalismo do meu vizinho me parece o mais puro (bom, o crescimento que a China teve nos últimos anos, o Japão, Coreia do Sul, Singapura e Taiwan realmente confirmam essa tese), a democracia do nosso povo é uma mentira porque a autoridade do Partido parece funcional, me parece mais… excitante. O Ocidente criou o humanismo, uma forma de ver a técnica, uma forma correta de fazer comércio, mas parece que perderam a mão para os inferiores dentro do seu próprio jogo? Não, não, isso é loucura!</li><li>O tempo mostra cada vez mais a necessidade de se livrar dessa configuração-mundo maldita criada por 1492, porém, qual é a saída? Não penso que a via comunista seja tão precisa assim, pois a realidade que se viu é que os socialistas tendem a se apossar do Estado e reproduzirem o que já existe na sociedade capitalista-burguesa. O potencial deles serem tão tolos e baseados no moralismo e força como os techno-ocidentais e os terceiro-mundistas é grande sim. E a anarquia? A anarquia é um sonho, uma heresia completa para a geopolítica mundial. Por que nunca deslanchou com revoltas sociais no mundo inteiro? Onde erraram? Isso é um mistério. Abraçar o transhumanismo e contemplar a aniquilação do humano em algo totalmente novo? Não penso nisso como o caminho. Me agrada o transhumanismo, mas não é bem por aí. Quem sabe ver a destruição completa de tudo que existe? Porém, como é que irei reclamar ou sentir prazeres? Seja o que for, o primeiro passo é reconhecer que essa consciência individual é inútil para impedir qualquer coisa. Se for depender da minha consciência individual (leia-se: fenomenologia liberal) acho que o que aparecer poderei me adaptar, pois o máximo que posso fazer na minha ilha digital é isso: contemplar ou desprezar o mundo.</li></ol><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=ac9022a0e014" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[HABERMAS E A OBSCURIDADE]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Pedro]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 16 Mar 2026 17:18:34 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-03-16T17:18:34.890Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*1nWo9ney2izbrS9OZKax1Q.jpeg" /></figure><p>‘’Morre o filósofo alemão Jürgen Habermas aos 96 anos’’. Como reagir a isso sabendo que eu já esperava isso dada a sua idade avançada? Não é todo dia que você vê um filósofo com tanta influência morrendo. Seria forçado dizer que fiquei triste, feliz ou quaisquer sentimentos assim, penso que é o curso do rio: nascemos, crescemos, envelhecemos e morremos, até meu corpo irá apodrecer e logo voltará a ser devorado pela terra. Entretanto, gostaria de apontar como talvez a sua morte possa ser a morte de uma parte do que concebemos como modernidade. Habermas é extremamente localizado: ele finca o seu pensamento entre o desastre nazifascista que ceifou a vida de seus semelhantes na qual acompanharia todos os seus estudos até a sua morte e a desilusão do projeto de uma sociedade emancipada vindo por parte do movimento marxista. Cresceu durante o regime de Adolf Hitler, fez parte da Juventude Hitlerista e teve malformação no palato (lábio leporino), o que impedia ele de se comunicar apropriadamente. Depois da derrota do Terceiro Reich, as coisas mudam para sempre no mundo: o nacionalismo é combatido em todos os cantos, os crimes contra a humanidade são revelados para o mundo inteiro e a Alemanha começou a carregar, a partir daquela dia, o fardo mais pesado do mundo. Como que tamanha monstruosidade foi possível? A partir disso, o interesse de Habermas pela emancipação se tornou radical: começa a pesquisar sobre a democracia, sobre a esfera pública, sobre a possibilidade de deliberação como a alternativa. É com esse espírito que ele escreve dezenas de livros, mas principalmente o seu livro aclamado Mudança Estrutural na Esfera Pública, a Crise de Legitimação no Capitalismo Tardio e seu grande magnum opus Teoria da Ação Comunicativa. Com esses textos, acredito que Habermas teve parcialmente seus desejos atendidos: teve algum autor que se deliciou mais com a globalização e com os gritos fanáticos por democracia liberal no mundo inteiro do que ele? Porém, a vida nunca se tratou de um caminho de flores. Em seus estudos sobre o capitalismo tardio, especificamente no livro sobre a Crise da Legitimação e no segundo volume da Teoria da Ação Comunicativa, a sensação que temos lendo é que o estado de bem-estar social não é uma forma de organização desejável e que ela está sempre em desequilíbrio sistêmico dada pelas tendências de crise econômica e seus fenômenos de colonização do mundo da vida pelo sistema. Porém, atento a um detalhe: segundo Habermas, as tendências de crise continuam à espreita, mas não se efetivam como crises estritamente econômicas, por consequência, o conflito de classes já não se manifesta como um conflito diretamente econômico. Essa é a impressão de um homem que nega a lei do valor e a queda tendencial da taxa de lucro em uma época onde o capitalismo parecia estar no seu auge supremo. Quando o Estado se expande com o objetivo de evitar as crises propriamente econômicas [output], nesse caso, intervindo nela, maior a sua necessidade de legitimidade para agir. As esferas sociais são politizadas, as tradições erodem, o significado torna-se escasso [input], gerando uma compensação material e sobrecarga fiscal do Estado, gerando a contradição estrutural de classe entre proprietários privados vs. produtores de riqueza. A partir disso, a confiança se perde e a legitimidade se esvai. Ao mesmo tempo, uma nuvem acinzentada surge no céu, uma nova obscuridade, uma nuvem nebulosa que aglutina o neoconservadorismo com o neoliberalismo buscando frear a emancipação da sociedade. Como lidar com isso? Na verdade, nem o próprio Habermas parece saber muito sobre isso. Na falta de grandes energias utópicas para empurrar a roda da história para frente, com a falta de projetos globais de transformação (um socialismo aqui, um socialismo acolá, uma democratização radical?), como copar? Se não podemos confiar no marxismo e nem muito no trabalho dado que o fenômeno de classe perdeu a sua centralidade, aposto que podemos confiar nas diversas formas de vida que emergiram desses tempos para cá de forma deeeeeeemocrática. A questão maior é saber o quanto se pode confiar nessas democracias liberais, pois em um dia elas te dão um sorriso lindo e no outro estão com as garras prontas para estraçalhar os movimentos emancipatórios. A verdade é que Habermas e demais esquerdistas do poder nunca tiveram uma solução de fato para a Neue Unübersichtlichkeit. Nenhum desses grandes institucionalistas também sabem como lidar com essa nova direita pós-moderna. Eles falam muito sobre a democracia ser o melhor sistema possível e sobre como a teleologia da esquerda radical é podre e cadavérica, mas eu me pergunto como o porquê do retorno da ordem liberal-democrática não seguiria a mesma regra, inclusive talvez até dizer que é a teleologia da ordem democrática que é podre de fato. Para desprezar uma teleologia, Habermas inconscientemente adere a teleologia da democracia. Como consequência, o nosso grande pensador ata as suas mãos para poder lidar com a obscuridade. Ela se movimenta de forma muito esquisita para sequer poder atacar. É loucura! Enquanto que nossa direita age de forma descentralizada, rizomática, delirante, com milhares de identidade, a esquerda (institucional ou radical) não trouxe uma resposta à altura para tanto delírio. Os inimigos de Habermas dominaram o mundo e os futuros inimigos dele estão para nascer. O tempo não foi tão gentil com o trabalho de Habermas quanto se poderia imaginar quando ele escreveu os imensos textos da Constelação Pós-Nacional, mas acho que seus trabalhos da segunda fase já nasceram limitados. 2026: o seu projeto emancipatório parece loucura por si só, no caso, tentar lutar contra a palavra final do capital… como quando o inimigo (aqui, em termos schmittianos) é quem tem o poder? Quem vencerá esse titã? Hoje, o tempo é dos autoritários, dos Leviatãs, da reação, dos desejos do capital. Nosso autor terminou a sua vida lutando pelas democracias ocidentais, que são promessas e mais promessas, apenas ditaduras encubadas-castradas em comparação com algumas que são abertamente, promoveu um imperialismo europeu com a União Europeia, compactuou com o projeto genocida do Estado de Israel, buscou criar meios para a emancipação, mas tudo pode ser perdido como um castelo de areia perto da praia. Aliás, emancipar hoje em dia parece estar perfeitamente coerente com bombardear crianças. Será que ainda dá para pensar nessa via? Como inspiração? Sinceramente, gostaria de estudar muito como Habermas estudou, mas eu não sei até que ponto vale a pena expandir o próprio conhecimento das coisas, uma vez que ele não terminou sendo essa coisa toda. Como escapista, Habermas tem altas chances de ser excelente para muitos, mas será que compensa? Nada que um bom cigarro e uma bebida já não possa fazer. Como pensador da modernidade, as suas luzes foram engolidas pela obscuridade.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=5116b35b360a" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Tecnologia e Luta de Classes]]></title>
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            <category><![CDATA[primitivismo]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Pedro]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 09 May 2025 22:58:34 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-05-10T02:47:49.393Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*bKstQM96D_-pL6VJ.jpg" /></figure><p>Por Wolfi Landstreicher.</p><p>Publicado originalmente na revista Green Anarchy, Landstreicher questiona a concepção de ‘‘luta de classes’’ e a ideia de que os trabalhadores poderiam se libertar assumindo os meios de produção entendida por comunistas de todas as correntes, especialmente em um mundo inserido em um sistema tecnoindustrial, mostrando uma tendência controladora da vida industrial, da tecnologia e traça uma ascensão de uma nova barreira entre as classes dominantes e os explorados, dessa vez pelo poder dos novos desenvolvimentos tecnológicos. Essas novidades abrem caminho para o desenvolvimento de meios de controle social cada vez mais completos e abrangentes, se expressando em uma exclusão das classes exploradas do conhecimento especializado, portanto, da participação real do funcionamento do poder.</p><p>Pedro Limoeiro, 09/05/2025</p><p>Os avanços tecnológicos dos últimos sessenta anos — a indústria nuclear, a cibernética e as técnicas de informação relacionadas, a biotecnologia e a engenharia genética — produziram mudanças fundamentais no cenário social. Os métodos de exploração e dominação mudaram e, por essa razão, as velhas ideias sobre a natureza da classe e da luta de classes não são adequadas para a compreensão da situação atual. O operaísmo dos marxistas e sindicalistas não pode mais ser sequer imaginado como algo útil para o desenvolvimento de uma prática revolucionária. Mas simplesmente rejeitar o conceito de classe também não é uma resposta útil a essa situação, pois, ao fazê-lo, perde-se uma ferramenta essencial para a compreensão da realidade atual e como atacá-la.</p><p>A exploração não só continua, como se intensificou acentuadamente na esteira das novas tecnologias. A cibernética permitiu a descentralização da produção, espalhando pequenas unidades de produção por todo o território social. A automação reduziu drasticamente o número de trabalhadores de produção necessários para qualquer processo de fabricação específico. A cibernética cria ainda métodos para obter lucro imediato, aparentemente sem produzir nada real, permitindo assim que o capital se expanda com custos mínimos de mão de obra.</p><p>Além disso, a nova tecnologia exige um conhecimento especializado que não está disponível para a maioria das pessoas. Esse conhecimento tornou-se a verdadeira riqueza da classe dominante na era atual. Sob o antigo sistema industrial, a luta de classes poderia ser vista como a luta entre trabalhadores e proprietários pelos meios de produção. Isso não faz mais sentido. À medida que a nova tecnologia avança, os explorados se veem empurrados para posições cada vez mais precárias. A antiga posição de trabalho qualificado vitalício nas fábricas foi substituída por trabalho diário, empregos no setor de serviços, trabalho temporário, desemprego, mercado negro, ilegalidade, falta de moradia e prisão. Essa precariedade garante que o muro criado pela nova tecnologia entre os exploradores e os explorados permaneça intransponível.</p><p>Mas a própria natureza da tecnologia a coloca fora do alcance dos explorados. O desenvolvimento industrial anterior tinha como foco principal a invenção de técnicas para a fabricação em massa de bens padronizados a baixo custo e com alto lucro. Esses novos desenvolvimentos tecnológicos não visam tanto à fabricação de bens, mas sim ao desenvolvimento de meios para um controle social cada vez mais completo e abrangente, e para liberar o lucro o máximo possível da produção. A indústria nuclear requer não apenas conhecimento especializado, mas também altos níveis de segurança que coloquem seu desenvolvimento diretamente sob o controle do Estado e levem a uma estrutura militar condizente com sua extrema utilidade para os militares. A capacidade da tecnologia cibernética de processar, registrar, coletar e enviar informações quase instantaneamente atende às necessidades do Estado de documentar e monitorar seus súditos, bem como à sua necessidade de reduzir o conhecimento real daqueles que governa a bits de informação — dados — na esperança, assim, de reduzir as capacidades reais de compreensão dos explorados. A biotecnologia confere ao Estado e ao capital o controle sobre os processos mais fundamentais da própria vida — permitindo-lhes decidir que tipo de plantas, animais e — com o tempo — até mesmo seres humanos podem existir.</p><p>Como essas tecnologias exigem conhecimento especializado e são desenvolvidas com o propósito de aumentar o controle dos senhores sobre o restante da humanidade, mesmo em nossa vida cotidiana, a classe explorada pode agora ser melhor compreendida como aqueles excluídos desse conhecimento especializado e, portanto, da participação real no funcionamento do poder. A classe dominante é, portanto, composta por aqueles incluídos na participação no funcionamento do poder e no uso real do conhecimento tecnológico especializado. É claro que esses são processos em andamento, e as fronteiras entre incluídos e excluídos podem, em alguns casos, ser ilusórias, à medida que um número crescente de pessoas é proletarizado — perdendo qualquer poder de decisão sobre suas próprias condições de existência que possam ter tido.</p><p>É importante ressaltar que, embora essas novas tecnologias visem dar aos senhores o controle sobre os excluídos e sobre a riqueza material da Terra, elas próprias estão além do controle de qualquer ser humano. Sua vastidão e a especialização que exigem combinam-se com a imprevisibilidade dos materiais sobre os quais atuam — partículas atômicas e subatômicas, ondas de luz, genes e cromossomos, etc. — para garantir que nenhum ser humano possa realmente compreender completamente como elas funcionam. Isso adiciona um aspecto tecnológico à precariedade econômica já existente, da qual a maioria de nós sofre. No entanto, essa ameaça de desastre tecnológico além do controle de qualquer um também serve ao poder de controlar os explorados — o medo de mais Chernobyls, monstros geneticamente modificados ou doenças que escaparam de laboratório e similares, leva as pessoas a aceitar o governo dos chamados especialistas que provaram seus próprios limites repetidamente. Além disso, o Estado — responsável por cada um desses desenvolvimentos tecnológicos por meio de suas forças armadas — pode se apresentar como um freio contra o “abuso” corporativo desenfreado dessa tecnologia. Portanto, esse rolo compressor monstruoso, desajeitado e incontrolável serve muito bem aos exploradores para manter seu controle sobre o restante da população. E que necessidade eles têm de se preocupar com possíveis desastres quando sua riqueza e poder certamente lhes forneceram planos de contingência para sua própria proteção?</p><p>Assim, a nova tecnologia e as novas condições de exclusão e precariedade que ela impõe aos explorados minam o antigo sonho de expropriação dos meios de produção. Essa tecnologia — controladora e descontrolada — não pode servir a nenhum propósito verdadeiramente humano e não tem lugar no desenvolvimento de um mundo de indivíduos livres para criar suas vidas como desejarem. Assim, as utopias ilusórias dos sindicalistas e marxistas não nos servem mais. Mas será que alguma vez o foram? Os novos desenvolvimentos tecnológicos centram-se especificamente no controle, mas todo o desenvolvimento industrial levou em conta a necessidade de controlar os explorados. A fábrica foi criada para reunir os produtores sob o mesmo teto para melhor regular suas atividades; a linha de produção mecanizou essa regulação; cada novo avanço tecnológico no funcionamento da fábrica trouxe o tempo e os movimentos do trabalhador ainda mais sob controle. Assim, a ideia de que os trabalhadores poderiam se libertar assumindo os meios de produção sempre foi uma ilusão. Era uma ilusão compreensível quando os processos tecnológicos tinham a fabricação de bens como objetivo principal. Agora que seu objetivo principal é tão claramente o controle social, a natureza da nossa verdadeira luta deve ficar clara: a destruição de todos os sistemas de controle — ou seja, do Estado, do capital e de seu sistema tecnológico –, o fim da nossa condição proletarizada e a criação de nós mesmos como indivíduos livres, capazes de determinar como viveremos. Contra essa tecnologia, nossa melhor arma é aquela que os explorados têm usado desde o início da era industrial: <strong>a sabotagem</strong>.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=1324fcc16c45" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[A matemática como arma da civilização]]></title>
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            <category><![CDATA[matemática]]></category>
            <category><![CDATA[politica]]></category>
            <category><![CDATA[culture]]></category>
            <category><![CDATA[anti-civ]]></category>
            <category><![CDATA[anarquismo]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Pedro]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 24 Dec 2024 04:11:00 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2024-12-24T18:24:26.066Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/696/1*GOHftIC4v0p0A_lT5gzCuA.jpeg" /></figure><p>Você gosta de matemática? Apesar de não ter sido simpático com ela durante minha breve vida, posso dizer que eu até gostei de aprender sobre ela em seus aspectos mais básicos para os mais avançados… Não é como se eu tivesse muita escolha. As pessoas querem exigir matemática de tudo e todos. Por isso, eis um pouco de minhas reflexões sobre essa área e como ela pode ser problemática.</p><p>A matemática e seus números são formas populares de conhecimento porque elas conseguiram um feito que a linguagem e a escrita não conseguiram: blindar-se da questionabilidade e transformar a experiência real comunicativa em uma &quot;verdade absoluta&quot;, portanto, a sua caracteristica fundamental é absolutizar, ser exata. Pense no 2 + 2, inevitavelmente a resposta de todas as pessoas será 4. Percebeu que não há alguma brecha para que eu possa atacá-la? Não há como questionar isso. Agora, nenhuma escrita é livre da questionabilidade. A Biblia, a palavra de Deus, é interpretada de diversas formas. Não existe um só tipo de marxista e de leitura sobre as obras dos autores marxistas, se por acaso a escrita não fosse inquestionável, não existiram vertentes dentro de uma grande linha de pensar. A escrita é incapaz de chegar na verdade, algo que a matemática e os números conseguiram vencer essa barreira com facilidade.</p><p>A matemática é sedutora porque pretende representar o mundo como uma entidade fixa, inclusiva e lógica. Ela quer reduzir e simplificar a natureza (que de fixa, inclusiva ou lógica não tem nada) para um raciocínio analítico abstrato. A matemática não se apresenta a nós como uma ferramenta, mas como uma ciência, ou seja, se passa por uma tentativa de ser perfeito, exato, autoconsistente em qualquer aspecto onde ela se proponha interagir. O que suporta isso é a sua capacidade de medição. Concebemos medir como o ato de atribuir números às qualidades de elementos reais, transformando a qualidade em quantidade. A matemática se propõe a medir tudo: prédios, altura humana, a verdade, a justiça, os seios e por ai vai. A humanidade passou a se tornar dominada pela medição da matemática e ela mesma passou a se ver como uma medição, uma unidade numérica abstrata. Desde a Grécia Antiga temos essa noção que os números são a chave para entender o universo e, portanto, a ferramenta para domar o universo. A realidade é estruturada matematicamente, que poderiamos dividir em números, ou melhor, em relações puramente teóricas que poderiam ser calculadas. Aparentemente, a moda pegou: “precisamos medir a sua altura”, “precisamos medir o seu peso”, “precisamos medir qual é o maior prédio”, “precisamos medir a sua cintura”, “precisamos medir qual jogador é maior que outro”… Todas são referências irreais para representar a realidade das coisas. O mundo é controlado pela civilização porque ela conta, portanto, domina. Ela domina porque mede e ela precisa medir para embasar o domínio, porém, aí que está o grande erro da matemática: o dia que ela tentou medir a natureza.</p><p>Fazer medições para a natureza não faz sentido: ela é puramente um ato cultural com um objetivo cultural. Nada mais que isso. Pense na árvore: quando tentamos medir a árvore, ela é concebida como uma linha reta de dez metros de altura, mas e as características que tornaram essa árvore diferente das outras árvores? As características que fizeram com que fixássemos em nossas mentes como algo diferente? Não faz sentido reduzir o mundo da árvore para o abstrato racional matemático, nesse processo iremos eliminar todas as qualidades da árvore. Até mesmo dentro do campo da abstração é ridiculo conceber a árvore como uma linha reta: ela tem raízes, ela tem galhos, ela tem curvas. O processo de redução do mundo a tamanhos, onde a ideia de tamanho em si é uma entidade conceitual abstraída de seu contexto vivo e tornada universal (ao contrário, por exemplo, de referentes relativamente individuais como &quot;pegada&quot;, &quot;antebraço&quot;, &quot;palma&quot;, etc.), só pode ser explicado pela finalidade utilitária que tal processo busca, ou melhor, pela necessidade de tornar o princípio “conhecimento-como-poder” acessível a todos.</p><p>Existe um abismo de diferença entre numerar e considerar as qualidades de um ser. São atividades que não podem ser a mesma coisa. Tudo que colocamos em números perde as suas qualificações específicas para se tornar quantidades, perdem a sua individualidade que a torna única para se tornar um grande coletivo genérico, já a qualificação parte de um convívio e interação que temos com um Sujeito e não com um Objeto. Temos um quilo de arroz, mas e a qualidade dele? Ele está na validade ao menos? É parboilizado? É branco? Com os números nós contamos objetos, não sujeitos. Quando os membros de uma grande família se sentam para jantar, eles sabem imediatamente, sem contar, se alguém está faltando. Nesse ato, temos sujeitos, não objetos. A vida civil e burocrata da sociedade reflete bem o problema da matemática: pense sempre como é muito mais fácil multar um número do que confrontar um motorista sobre como ele deveria conduzir o seu carro ou então sobre o imposto... É mais fácil bater de frente com um cidadão para que ele pague impostos a instituições fundadas no privilégio ou simplesmente tratar como um contribuinte número 38.729? Aliás, é infinitamente mais fácil matar números do que pessoas, principalmente se transformarmos as pessoas em números matemáticos. Regimes assassinos como o da Alemanha Nazista usavam da cartada dos números. Numerar as pessoas, nesse caso as vítimas do genocídio, é a despersonalização absoluta que um ser sofre, na qual não faria diferença matá-la porque ela deixou de existir como sujeito. Ela vai entrar para o número das estatísticas, então não faz sentido sentir culpa por esse ato pois não matei ninguém, apenas mais um número e o número não é ser humano para que eu seja julgado. Eis a mentalidade que levou a um genocídio de 6 milhões de judeus. Isso explica grande parte da tranquilidade dos nazistas durante os seus julgamentos, dava para ver que mesmo eles argumentando que eram apenas peças de um tabuleiro (o que também é problemático e não apaga os seus crimes), no fundo, eles não se sentiam realmente culpados. Quem sofre a lavagem cerebral da despersonalização matemática também não iria se sentir a noção do ato cruel que ele fez com o próximo.</p><p>Apliquemos a matemática para nação e para os militares. A nação não é composta pelo Pedro, pela Camila ou pela Gisele, nada disso. A nação é definida pelos números, pelo abstrato das milhões de &quot;pessoas&quot;, outro termo genérico abstrato. No militarismo não existem individuos. Não existe um Pedro, um João ou um Henrique. O militarismo é composto por um número abstrato de soldados e assim vamos guiados pelo deserto despersonalizante dos números até que os individuos normalizem massacrar outros individuos.</p><p>Que piada se tornou a vida! Estamos em uma constante contagem, e quanto mais contamos, mais inseridos dentro de uma noção mecanizada de vida nos afundamos. Contamos as nossas férias, contamos os dias que fizemos nada e os dias que fizemos tudo, contamos os anos que se passaram, contamos até as calorias consumidas! No mundo dos números, tudo deve ser traduzido em números, até mesmo convicções, maneiras de ver as coisas, motivações que nos levam a expressar uma opinião. Tudo é afetado pelos números! Somos escravizados por abstrações.</p><p>Mas, se sabemos que somos escravizados por abstrações, por que amamos os números? Porque não somos livres e um mundo repressivo não faria sentido existir sem a matemática. É impossivel ser civilizado e livre. É impossível ser livre com a matemática dominando toda a nossa vida. Já parou para pensar que, no mundo repressivo da civilização, os números são constantemente procurados para justificar os limites de um mundo que é nosso? Os números são usados nesse seu salariozinho pequeno pra dar um motivo para você não ter mais água e comida do que alguns que tem mais números, sendo que os dois devem ser um bem seu gratuitamente. Em um mundo em que não temos a necessidade de sermos controlados, os números e a matemática pouco têm valor para não dizer irrelevantes. Vários povos nunca precisaram dessa porcaria. Na vida primitiva e até exemplos caçadores-coletores dos dias de hoje, os números eram verdadeiramente inúteis. O estudo A História da Linguagem de Mario Pei explicita isso: &quot;Na linguagem das Ilhas Andaman, há numerais apenas para um e dois. Outros numerais até nove são indicados levantando o número necessário de dedos, dez mostrando ambas as mãos com a palavra &#39;todos’. Nenhuma contagem é possível acima de dez.&quot; Os Ianomamis também não ligavam para a matemática a não ser para contar até dois. Para que contar mais que isso?</p><p>Será que esses povos não eram capazes de desenvolver um sistema númerico? Acredito que eu sou totalmente desacreditado dessa hipótese. Eles entenderam bem a armadilha ideológica dos números como um aspecto puramente cultural que não deve ser o ditador das nossas relações, mais além, eles compreenderam o objetivo final da matemática: dominar. Dominar, como costumamos entender, se trata de transformar o sujeito em algo, um alguém em um algo. Quando temos uma conexão autêntica com a natureza e não de dominação, os números são inúteis. As mães não devem saber quantos filhos têm, mas sim recitar cada um, pois pra que trabalhar com números se sabemos quem são os sujeitos? Nas nossas mesas não contamos quantas pessoas faltam, mas sim falamos que certos sujeitos estão faltando. Até o futebol se degradou graças a ditadura numeral. As pessoas de hoje se concentram mais nos números que o Messi e Cristiano fizeram do que no Messi e Cristiano como sujeitos habilidosos e decisivos. O Ronaldinho é reduzido pelo revisionismo recente graças aos números. Será que o Ronaldo Fenômeno consegue ser explicado através dos números? Todos os lances que ele fez são… inúteis? Até porque os números não conseguem traduzir a habilidade e fator decisivo de algo que não é fixo e lógico. Até a inutilidade da vida a civilização nos tirou: tudo precisa ser útil no futebol, a jogada precisa ser útil, não há mais espaço para a diversão em um mundo sério.</p><p>“Ah, sem os números como iremos contar a quantidade de alimentos necessários para alimentar as pessoas?”. Estamos tão alienados que parece impossivel pensar o mundo sem o gênio matemático porque costumamos achar que esse mundo não existe ou faz sentido fora das leis cientificas. Você não tem mais sentidos e funções vitais? Os bosquímanos, por exemplo, comumente se valem de suas premonições intuitivas, então por que não a intuição?</p><p>Larguem mais os números de suas vidas e sejam livres. Não faz sentido ser escravizado pelos números. Faça um experimento: tente assistir um vídeo sem se importar com o número de views, likes, comentários. Busque qualificar individualmente um vídeo. Quando for assistir futebol, não busque analisar pelas estatísticas, mas sim pela bola no pé, no futebol em campo que existe fora das leis dos números.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=553fa6dad269" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[O INIMIGO ESPERTO DA ESQUERDA]]></title>
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            <category><![CDATA[russia]]></category>
            <category><![CDATA[esquerda]]></category>
            <category><![CDATA[comunismo]]></category>
            <category><![CDATA[pt]]></category>
            <category><![CDATA[dugin]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Pedro]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 24 Aug 2024 02:20:04 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-01-25T21:56:20.223Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*hHf7YfIOY6XHQfxh" /></figure><p>Este artigo é mais uma resposta a um amigo que eu ainda tenho um considerável respeito pela sua grande inteligência do que exatamente uma grande elaboração teórica, mas que imensa inocência! Eu tenho uma vasta gama de experiências e conversas com o comunismo, o anarquismo, petistas e a esquerda como um todo. Como um bom questionador, andei notando certas tendências dentro do movimento que me parecem infiltradas para corroer o movimento de libertação da nossa classe por dentro. Esse inimigo transparente da esquerda se veste com um terno caro, possui uma oratória gloriosa que desperta o interesse de setores que estão desesperados com a ascensão da tal extrema direita e do liberalismo. Esse gênio maligno é canibal: ele possui uma retórica que pega as tripas do corpo da extrema-direita (ultraconservadora, reacionárias, neofascistas) junto com a carne do centro-esquerdismo (social-democrata, populismo, estado forte, anti-imperialismo de certa influência do marxismo), fazendo um grande mix de tendências conservadoras, populistas e nacionalistas apaixonadamente guerreiras contra um inimigo superior, assim como a extrema direita era ‘’apaixonadamente guerreiras’’ e paranoicas contra os judeus por acharem que eles estavam conspirando contra o mundo cristão e controlavam o mundo (Os Protocolos dos Sábios de Sião), o que claramente é mentira. O Duginismo tem pontos de vista nocivos ao socialismo e a emancipação, que Libertários como nós (anarquistas e algumas tendências mais específicas do marxismo) conseguimos facilmente detectar porque nada da sociedade escapa da nossa crítica, mas reformistas social-democratas, marxistas estadistas (marxismo-leninismo, marxismo-leninismo-maoismo) são os mais expostos a essa radiação e propensos a se infectarem.</p><p>I — A Onda Conservadora na Esquerda</p><p>Meu objetivo aqui não é definir o que é a Quarta Teoria Política desenvolvida por Dugin, mas irei resumir rapidamente em: TRADIÇÃO e CONSERVADORISMO. Seria maldade minha apelidar<br>Dugin como Olavo de Carvalho russo?</p><p>O Duginismo vem por outros nomes como eurasianismo ou quarta teoria política e até mesmo sem nome nenhum, isso não importa, esses nomes são repulsivos a toda a esquerda e por isso mesmo que suas ideias não precisam ser impostas, mas impregnadas. A sua atividade ‘’consciental’’ na mesma é invisivel para os olhos de pessoas que se identificam com Stalin (marxismo-leninismo) e os autoproclamados anti-imperialistas do lado social-democrata. O grande sonho dos que apelidei ‘’duginistas’’ é superar quatro ideologias: O Individuo (liberalismo), o comunismo (classe), o fascismo (Nação) e o Nazismo (Raça) (por isso Quarta Teoria Política). borrando as noções de direita e esquerda políticas em sua práxis, no caso da esquerda, a sua práxis foi ressignificar a esquerda como sinônimo de nacionalismo, no contexto de uma luta de países anti-imperialistas contra a globalização (que é obra do liberal), atribuindo a ela atributos conservadores da sociedade e de cunho extrema-direitista. A Esquerda anti-capitalista (marxistas e anarquistas) são empurrados para uma concepção de extremismo de esquerda tentando afastar os trabalhadores da verdadeira libertação dos trabalhadores através de sua autogestão. Ao afastar os trabalhadores do extremismo, fica mais fácil para esses conservadores conquistarem o público moderado de centro-esquerda que se considera radical ao fazer eleições, que é o que acontece com a adesão de petistas a essa suposta luta anti-imperialista. Eles escondem os seus verdadeiros gostos desse centro, mas mostram suas garras para a esquerda anti-capitalista e a direita liberal com a defesa do nacionalismo, militarismo, anti-tendências libertárias relacionadas a comunidade queer, feminina entre outras lutas por ser um suposto elemento ‘’burguês-liberal’’ do globalismo ou degeneração, afinal, como eu disse, Dugin é um russo conservador.</p><p>Existem características em comum desse pensamento:</p><p>- <strong><em>Apoiar QUALQUER GOVERNO de direita ou esquerda que seja nacionalista e imperialista/ocidente (Por exemplo: Ibrahim Traoré em Burkina Faso, o regime islâmico iraniano, Rússia Putinista, Venezuela de Maduro, Turquia de Erdogan).</em></strong> Não importa se o cara é um ditador, persegue minorias, se ele ferra a vida dos trabalhadores, tudo isso é irrelevante contra a cruzada anti-imperialista. Na Teoria do Mundo Multipolar de Alexander Dugin, a multipolaridade é uma distribuição de poder em que mais de dois estados-nação têm quantidades quase iguais de poder, sendo que esses outros polos (hoje Rússia de Putin e China de Xi) e esses centros devem estar suficientemente e financeiramente equipados, sendo materialmente independentes, de maneira que possam defender suas soberanias no caso de uma invasão direta levada a cabo por um inimigo em potencial (OTAN e EUA): ‘’Tais centros deliberativos não devem aceitar o universalismo dos padrões, normas e valores ocidentais (democracia, liberalismo, livre mercado, parlamentarismo, direitos humanos, individualismo, cosmopolitismo, etc.) e devem ser totalmente independentes da hegemonia espiritual do Ocidente’’, não ironicamente eu tirei isso diretamente do site da Nova Resistência, eu preciso responder qual o viés dessas afirmações? Não é que a esquerda radical também não seja contra os preceitos do individualismo, livre mercado, democracia burguesa, mas esse desejo da NR é com a intenção de impor ditaduras implacáveis que desmobilizam as massas populares rumo a superação do capitalismo. Eles querem impor um conservadorismo arrebatador que retrocederá milhões de anos, esmagando toda a ‘’corja degenerada’’ que na verdade são apenas seres humanos como nós. É o anti-ocidente em pró-Oriente, não é emancipação da humanidade, não é o fim do preconceito, das diferenças, não há a promoção do amor e da solidariedade que o movimento anarquista promove, por exemplo. Eles querem retrocesso, ódio e violência e para quem se diz de esquerda isso é de se envergonhar.</p><p>- <strong><em>Valorização extrema da instituição chamada Estado, sendo a esquerda que tradicionalmente critica o Estado (marxistas e anarquistas) empurradas por eles para um igualamento das concepções com os liberais que desejam Estado Mínimo. </em></strong>Além de<strong><em> </em></strong>uma falsa associação que busca deslegitimizar a causa libertária dos trabalhadores, demonstra o imenso iletramento das pessoas que foram influenciadas por Dugin, já que queremos a destruição do Estado por ser uma maquinaria de violência. O Estado é uma instituição que representa os interesses das classes dominantes, logo, com suas ideias sendo passadas para as pessoas que estão sob autoridade desse Estado. Queremos o seu fim porque ela é uma instituição inerentemente burguesa independente de quem esteja no controle. O Liberal deseja um Estado Mínimo por acreditar que o botão que trava o desenvolvimento do livre mercado (o ‘’verdadeiro capitalismo’’) é a intervenção do Estado, sendo o último apenas um objeto responsável por cuidados específicos da sociedade. São concepções completamente diferentes. É um salto lógico absurdo do tipo associar uma mesa a um cachorro porque os dois têm ‘’quatro pernas’’.</p><p>- <strong><em>Uma luta anti-identitária por uma suposta unidade da luta de classes, ou seja, para essa esquerda, você só pode servir um deus.</em></strong> Na cabeça dessas pessoas, o liberalismo se infiltrou na luta de classes (usada de forma freestyle no contexto da social-democracia) com esse identitarismo LGBT, anti-racismo e libertação feminina para desorganizar as fileiras da classe trabalhadora e favorecer o individualismo liberal. Nós, libertários, somos totalmente a favor da emancipação total da sociedade, impondo fim a<br>toda hierarquia e preconceito existentes. Porém, o objetivo da social-democracia nunca foi libertar os trabalhadores e a sociedade, quem dirá o duginismo que é extrema direita.</p><p>- <strong><em>A Valorização da Tradição,</em></strong> ou seja, o Duginismo não vem para impor algo, mas para retornar a algo e é essa estratégia que torna fácil se infiltrar no nosso meio. Como essa valorização é feita? Na QTP, não é o individuo, não é a classe, não é a nação e nem a raça, mas sim o povo que é o objeto central da teoria duginista, ou seja, todos os fenômenos da atualidade na visão do duginista é uma luta cruel de anjos (povos oprimidos) contra os demônios (imperialistas ocidentais), uma redução absurda do real problema que abarca a realidade. Como não há um só povo no mundo todo, todos os povos que caminharem dentro de suas próprias tradições, de seu umwelt (mundo próprio), redescobrindo o Dasein (O Dasein é descrito como ser-no-mundo, entendendo que o mundo é tudo o que compõe a vida: objetos, pessoas, ideias, valores, histórias, fantasias, enfim, tudo o que está no mundo em que vivemos. O ser-no-mundo está sempre num mundo específico, envolvido no que faz parte de seu mundo, onde há também elementos que não fazem parte e que podem, em outro momento, fazer) do seu Narod (povo). Enfim, só se aprofundando em Heidegger (que para a minha não surpresa, foi um nazista, pena que não ignorável considerando o impacto para a filosofia ocidental).</p><p>II — Sua Ação</p><p>Esse inimigo invisível das esquerdas percebem que odiamos os EUA e partem de uma concepção de sacrifício no sentido de que eles justificam a violência da maquinaria estatal pelo caráter maligno do ser humano para que seja necessário a grandiosa luta do povo bravo contra o imperialismo (anti-EUA). Veja o que acontece na Síria: A Guerra Civil Síria é uma completa bagunça, mas na visão dessa percepção duginista de mundo que impregnou nessa esquerda, a guerra civil síria se trata de uma luta heróica do povo guerreiro árabe contra o imperialismo norte-americano, ignorando completamente o imperialismo russo, o ISIS, os insurgentes da Síria anti-Assad, o Curdistão Sírio (Rojava) e que a Síria como um todo ignorando que a guerra se deu, por entre outras causas, porque o conceito de povo sírio unificado só existia sob repressão (nesse caso, do ditador Bashar Al-Assad). A Opinião deles sobre os Curdos escancara isso: Os curdos são um povo libertário que se opõem ao Estado, possuindo fortes influências do anarquismo, que foge da concepção deles de ‘’anti-imperialismo’’, sendo que, os curdos passaram tanto tempo sem liberdade justamente POR CAUSA DO IMPERIALISMO! Logo, a tese dessa esquerda ‘’anti-imperialista’’ cai por terra já que o imperialismo é seletivo, porém, é fácil romantizar o mundo com o ódio contra os EUA e eu concordo que os EUA são responsáveis por grande parte das desgraças do mundo, mas existe a China, a Rússia, o Reino Unido por quase 2 séculos e por aí vai. Não é só OS EUA o problema, é a tendência capitalista de criar<br>impérios que concentram as riquezas em polos: o imperialismo.</p><p>Sobre apoiar governos anti-ocidente, essa é uma desculpa esfarrapada para que os países coloniais deixem de se tornar capachos dos EUA e Europa para se tornarem capachos dos eurasianos (Rússia, China). Veja os investimentos chineses na África: será que é de graça? É a exploração do bem só porque eles já foram paises periféricos? A falta de compreensão do aspecto marxista do imperialismo causa má compreensões dessa forma que acaba romantizando o mundo e não percebendo a realidade. A maior desgraça que aconteceu a Putin foi o fim da União Soviética, não porque ele é socialista (o que está longe de ser), mas porque a Rússia perdeu grande parte da influência que anteriormente teve. Imagina o estrago<br>que uma URSS faria na Venezuela de Maduro atualmente? Ia ser o plano perfeito.</p><p>Ainda sobre o Estado, segundo essa visão maldita de Estado, o autonomismo e a autogestão levariam a uma forma de anarquia não no sentido associado ao movimento anarquista (Anarquia é Ordem), mas no sentido de caos completo, então se justificaria toda opressão/invalidação contra minorias, trabalhadores desde que isso possa resistir contra o<br>terrível imperialismo (americano). Vejam como eles falam de Rojava:</p><p>‘’Que ‘’experiência libertária’’ em Rojava? Um bando de traidores que deixam tropas dos EUA ROUBAREM petróleo sírio, apoiam Israel e colaboram com a Mossad nunca serão libertários 2024 e você ainda acreditando nessa propaganda ocidental de heroína curda feminista<br>Cresça.’’</p><p>Percebem como eles tentam invalidar a experiência de libertação curda achando que Rojava pertence a essa tal ‘’Síria’’. Tudo que fuja da noção estadista para o duginista é uma forma de infiltração dos imperialistas americanos, sendo que os curdos trocavam petróleo por armas para simplesmente defenderem a revolução contra a Turquia e Irã. Eles ignoram completamente que a Síria é submissa aos comandos de Moscou, afinal, para eles, a China e Rússia não realizam imperialismo por serem supostamente ‘’do sul global’’. Eu vi esse comentário anteontem, literalmente. Aliás, qual o problema da curda feminista? Tem algo mais ‘’based’’ que isso? Será que assustaria eles dizer que o feminismo, apesar de suas origens em revoluções liberais, possui subdivisões assim como o anarquismo e o marxismo também têm (inclusive com um feminismo marxista!!!)? Poxa, até o SIONISMO tem suas variações (socialista, cultural, religiosa, revisionista), imagina o feminismo. O engraçado é que quando você denuncia o imperialismo russo e chinês, esse discurso safado busca justifica-lo dizendo que ‘’É menos pior que os EUA’’, ‘’É necessário para defesa e desenvolvimento dos países mais atrasados’’ (que pasmem, é o mesmo discurso que os EUA e a Europa fizeram toda a vida). O Imperialismo deixou de valer para todos e agora só é sinônimo de ocidente, o que é um pensamento perigoso.</p><p>Ainda sobre o Estado, essa confusão entre o papel do Estado e a ação dos povos é PROPOSITAL, ela serve justamente para desarticular as classes trabalhadoras, levando a simplificar processos de conquistas sociais a mero papel de líderes fodões, ou seja, culto ao líder. Isso flerta facilmente com aquele que fica na internet chamando Stalin de pai dos povos e Fidel de ‘’Comandante’’. É mais convincente ao duginsta dizer que foi Stalin e sua genialidade quem venceu a Alemanha Nazista do que o Exército Vermelho de todas as Repúblicas Soviéticas e mais variadas etnias que sacrificaram-se para defender a sua existência.</p><p>Sobre a luta ‘’anti-identitária’’, onde um social-democrata (Petista, PSOL, PDTista e todo o resto) se preocupa com luta de classes se vocês são os pais da conciliação? Você sabe o que é luta de classes? Luta de classes não é apoiar nacionalismo e Estado forte, seu comédia. Luta de classes não é um negocinho aleatório que você usa porque sim, pare de se apropriar de termos cujo não sabe o que significa. A luta de classes é um fenômeno onde há uma disputa de interesses entre a classe dominante (burguesia que possui os meios de produção) e a classe oprimida (cujo não possui os meios de produção para a sua subsistência). Defender um Estado militar, um Estado nacionalista, um ditador, nada disso é luta de classes, mas sim o seu sarcófago. Petista querendo falar de luta de classes é engraçado, pois a social-democracia serve ao status quo e para abrir brecha para a extrema-direita. Quando você cita que a luta das minorias atrapalha a luta de classes, na verdade você está atrapalhando mais do que nunca a luta de classes. O oprimido é o pilar da luta de classes, vocês acham que a comunidade queer e o movimento negro não são oprimidos? Eu entendo a crítica a concepção social-liberal individualista da luta das minorias, mas essas pessoas absorveram a teoria libertária para si e hoje possuem uma boa contribuição para o nosso ativismo! A emancipação da humanidade tem que ser GERAL. Lutas feministas, anti-racistas, anti-xenofóbicas, anti-homofóbicas são extremamente desprezadas por essas pessoas e em casos mais extremos reprimidas como é o caso de Ibrahim Traoré em Burkina Faso que criminalizou a homossexualidade e os direitos das mulheres estão cada vez menores, a China e Rússia também são extremamente preconceituosas nesse sentido.</p><p>Eles tentam também diminuir o internacionalismo proletário a uma utopia e que é preferível um nacionalismo pé no chão, afinal, esse é ‘’mais realista’’ e ‘’combate’’ o ‘’imperialismo’’, mesmo que esse suposto combate a um inimigo seja acompanhado de esmagar os trabalhadores, as minorias, povos étnicos, empobrecimento, fome, miséria entre outras desgraças que o pensamento traz. Se o internacionalismo proletário é utópico, então é preferível morrer sonhando que apoiar a antítese. A emancipação vem para destruir as pátrias, os preconceitos e todas as hierarquias que trazem ódio, destroem o amor e acabam com a solidariedade.</p><p>O Duginismo age como um cavalo de troia, um lobo na pele de um cordeiro. Acho risível as teorias da conspiração da direita de que a sociedade fabiana está infiltrada em todos os países onde a esquerda governou e secretamente planejam implantar o comunismo, mas o duginismo já ultrapassou o campo da teoria da conspiração e revelou as suas garras para se alimentar dos cordeiros. Esse lobo na pele do cordeiro quer distorcer totalmente a luta das esquerdas no mesmo passo que combate a direita liberal, atribuindo marcas da extrema-direita a nossa concepção de mundo. Esse é o grande problema da esquerda institucional: ela não é radicalizada e fechada com concepções de mundo únicas, mas agem como uma esponja que absorve qualquer porcaria achando que está arrasando. Se a Esquerda do futuro for relacionada a nacionalismo, eu prefiro não ser considerado de esquerda mais.</p><p>III — Quem está por trás?</p><p>O Duginismo pode se infiltrar silenciosamente no pensamento da esquerda, mas existem pessoas oficiais e instituições que espalham os preceitos declaradamente na internet, jornais e vida pública. O maior exemplo de Duginismo existente é a Nova Resistência, liderada por Raphael Machado, que dizem ser estudiosos da Quarta Teoria Política e um movimento ‘’anti-burguês’’. Essas pessoas possuem uma oratória maneira, um terno bem arrumado, mas por trás de suas língua residem as ideias ultraconservadoras que travam a luta de classes, incitam preconceito e atrapalham a emancipação humana. Para citar um caso mais silencioso de infiltração duginista, temos o partido PCO (Partido da Causa Operária), liderado por Rui Costa Pimenta, se autodeclaram uma organização trotskista, entretanto, os seus pensamentos são retrógrados e análogos ao pensamento conservador e ‘’anti-imperialista’’ de Dugin. Certos membros do PCO constantemente referem-se a mulheres que fogem do ideal dela de degeneradas e o PCO usa uma roupagem comunista e trotskista, mas mantém tendências duginistas conservadoras no sangue por exemplo. Procurem no twitter deles a citação ‘’identitarismo’’ e tirem suas próprias conclusões sobre esses ‘’marxistas’’. Eles já defenderam estuprador como o Cuca, cara. Tudo em nome contra o tal fantasma do identitarismo. Para citar um exemplo de menor escala, existe a Legião Nacional-Trabalhista, que é declaradamente nacionalista e tradicionalista. Os seus raciocínios são oriundos da percepção duginista do mundo, onde o povo brasileiro é um só unido contra o globalismo infiltrado liberal e o imperialismo yankee. São figuras que cultuam Getúlio Vargas (ironicamente, um entreguista) e Enéas Carneiro e também despejam ódio contra minorias em prol do chauvinismo da pátria brasileira. Me lembra bastante o integralismo, mas esse é mais uma bobagem católica que morreu no passado. O novo fenômeno mundial é o Duginismo e é dever nosso combater esse male. Porém, posso dizer que a grande pessoa por trás de todas essas tendências é o guru, ou melhor, sumo sacerdote do grande imperador Vladimir Putin, Alexander Dugin. Dugin é a mente, Putin é a práxis, o presidente é aquele cujo possui influência para espalhar aquilo a seu favor por todos os cantos do globo. O objetivo não é superar nenhuma ideologia, mas trazer de volta uma ideologia: o neo-czarismo eurasiano onde a Rússia é o maior e melhor país do mundo, criando o novo supra-imperialismo. Até quando a Esquerda vai continuar caindo nesse papo? Essa última citação eu tirei de canto nenhum, admito que foi pura baboseira teoria da conspiração, mas o grande objetivo final me parece esse.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=af73fc3c4fc3" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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