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        <title><![CDATA[Stories by pepler on Medium]]></title>
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            <title>Stories by pepler on Medium</title>
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            <title><![CDATA[Curitiba, 31 de março de 2026]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[pepler]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 02 Apr 2026 03:19:11 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-04-02T03:43:28.343Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p><em>I.</em></p><p>Ao abrir os olhos, deparei-me com eucaliptos de mais de vinte metros de altura rodeando a clareira onde jazíamos, exauridos e confusos, eu e Lorena. Espécimes imponentes que são, exóticos a essas terras, de madeira esbranquiçada, como soldados de terracota somavam-se aos montes, perfilados a bloquear da vista qualquer pinheiro de araucária ou estrada de chão que instintivamente nos ligasse novamente aos cabos de fibra ótica e asfalto furta-cor de nossa terra natal.</p><p>Deveria ser em torno de três ou quatro da tarde. O Sol, que agora era parcialmente coberto pelas frágeis copas desses estranhos obeliscos, portanto, havia fritado nossas cabeças e corpos por pelo menos oito ou nove horas contínuas, e mesmo nossas peles resistentes, acostumadas às férias de infância próximas ao mar e aos janeiros subtropicais, já queimavam como se contra brasa ardente.</p><p>Lembro-me de não entender como seria possível termos dormido por tanto tempo. A última lembrança clara que minha mente — em franca temperatura de ebulição, é verdade — tinha era de ter me deitado ali mais ou menos naquele mesmo horário, entre três e quatro da tarde, no que só podia ser o dia anterior.</p><p>Levávamos àquela altura, eu e Lorena, pouco mais do que sua bolsa de crochê e minha mochila poderiam carregar: dois livros, caso o tédio batesse; uma muda de roupa cada, caso por ali houvesse um riacho ou laguinho artificial; uma toalha; duas garrafas d&#39;água; uma câmera fotográfica; duas escovas e uma pasta de dente; duas maçãs, um cacho de bananas, um chocolate Nestlé e uma térmica de café ruim; um maço de cigarros; um caderninho e um lápis. Todo o resto havia ficado ou no carro, ou na pousada.</p><p>Ao me levantar, confuso e com sinais de insolação, não achei nenhum desses pertences em nossa vizinhança imediata. Lorena ainda deitava desacordada, respirando com alguma dificuldade, vermelha como nunca havia a visto antes. Chacoalhei-a o suficiente para acordá-la, perguntei se estava tudo bem com ela, e de qual era a última coisa que ela se lembrava antes de ter dormido.</p><p>Apesar de estar tudo bem com ela, Lorena tinha ainda menos memória do que eu sobre as últimas vinte e quatro horas ou mais que haviam se passado. Como era possível termos dormido tanto?</p><p>Lembrava-me de ter ido parar naquela clareira ao buscar um lugar para descansarmos depois de três horas de caminhada contínua. Na trilha delicadamente tracejada por entre os espaços geometricamente planejados daquela floresta artificial, criada para produzir papel higiênico, suspeitávamos haver toda uma flora secreta, crescendo na meia-sombra, à revelia dos interesses desse ou daquele conglomerado internacional que fosse ou tivesse sido proprietário daquelas terras.</p><p>A cada dez metros, a suspeita se tornava mais e mais certa. Lutando contra a sombra projetada pelos eucaliptos, Lorena encontrara pequenas e valentes orquídeas, que registrava em seu caderninho com precisão fotográfica ou com liberdades artísticas, a depender de seu interesse. Logo em frente, pequenos ipês-brancos florados, que em seus traços viravam camas de varanda, lençóis de curvas senoidais, pontuados por pequenas intrusões de grama-curitibana e cacto-bolinha.</p><p>Mais dez metros, e nos deparávamos com pequenos troncos de jacarandá, copaíba e tarumã, que no caderno de Lorena cresciam até virarem pássaros de linha única, nuvens em formato de bules de chá, sóis e luas num céu-chão onde as estrelas eram cascalho, e a chuva eram arenitos e estalagmites que englobavam o firmamento entre fendas de um cânion perfurado pela ação da correnteza de um rio que decidiu correr morro acima.</p><p>Andávamos, parávamos, registrávamos, seguíamos. Eu, desprovido de qualquer dote artístico, me reservava a explorar aquela trilha somente pelos sentidos e com as ferramentas que dispunha. Com meu canivete, cortava a superfície de um tronco de canela-sassafrás para sentir o seu aroma, a princípio tão proibitivo, por suas folhas estarem tão mais altas que eu. Sacava a câmera para registrar a vívida cor das aroeiras, cedros e véus-de-noiva que, ainda que diminutos pela falta de luz solar, ocupavam todo o solo onde não cresciam as raízes daqueles postes lineares fadados ao branqueamento por dióxido de cloro. Também fotografava Lorena.</p><p>A fauna associada à flora local, claro, dava pistas de sua existência. Um lagarto simpático e <em>blasé </em>saindo da trilha para não se incomodar conosco; uma borboleta azul-seda que iridesce ao escapar da sombra; sabiás, gralhas e até um pequeno perdiz que chacoalham a tímida mata que mal os esconde. Ao inspecionar mais de perto, formigas, mosquitos e abelhas andam e voam para lá e para cá, libélulas arrancam seu motor muito próximas aos nossos ouvidos, pequenos besouros refletem a partir de suas nanoestruturas um verde-oliva que, ao olhar disperso de um humano, dura apenas uma fração de segundo até que se perca naquela infinidade de outros tons de verde, enclausurados entre grades brancas que em breve virarão material para que escrevamos nossas memórias.</p><p>E volto constantemente ao fato de todo esse pequeno ecossistema ser enclausurado pela rigidez e exotismo da presença daqueles eucaliptos, porque julgo ser importante para entender o que aconteceu depois daquele momento em que abri meus olhos, perdi meus pertences e não sabia exatamente como podia ter dormido tanto.</p><p><em>II.</em></p><p>Seria como João e Maria, caso a floresta onde estávamos fosse mais densa e em outro continente. A trilha, perfeitamente reta entre duas filas de colunas coríntias de madeira, oferecia dois caminhos por onde poderíamos seguir — e Lorena e eu discordávamos sobre qual sentido era o correto para voltarmos até a brecha de mata onde deixamos o carro e iniciamos nossa caminhada no dia anterior. Ela sugeria (hoje penso, com certa razão), que o caminho correto era rumo ao que julgávamos ser o norte, pois se lembrava que a clareira onde estávamos vinha logo após uma descida, e o caminho ao norte tinha um pequeno desnível para cima.</p><p>Já eu apontava para o sul, pela razão que me parecera óbvia: foi andando um pouco para lá que acabei achando a embalagem de plástico do chocolate Nestlé. Nem Lorena nem eu sentíamos que havíamos sido roubados, que mais alguém estivera ali nas horas em que estávamos adormecidos — embora também não tivéssemos ideia do que tinha acontecido, não sentíamos que essa reflexão era a prioridade naquele momento. Relutante, Lorena aceitou que seguíssemos pelo caminho que indiquei.</p><p>Depois da embalagem de chocolate, a uns cem metros, uma garrafa d&#39;água vazia. Dali cinquenta metros, uma casca de banana cartunesca, espatifada bem no meio da trilha de terra batida como que na espera do inevitável tropeço. Mais duzentos metros, e Lorena pôde recuperar sua escova de dente, milagrosamente intacta dentro de seu receptáculo plástico translúcido. Depois de uma pequena subida, bem em cima de uma pedra no chão, quase como que colocado com cuidado, o maço de cigarros, intacto. Depois os livros, depois as roupas.</p><p>Era como se a cada um desses passos fôssemos recuperando itens progressivamente mais importantes, menos descartáveis, como se a trilha estivesse nos recompensando por seguirmos naquela direção e não na outra. A certeza e alívio de estarmos no caminho certo era tão inebriante, que sequer notamos a flora ao nosso redor mudando sutilmente de aromas, cores, texturas e proveniência.</p><p>Se ora nos projetávamos por entre galhos secos da extensão austral do cerrado e nos refrescávamos em sua introjeção gradual à floresta ombrófila mista, agora o mundo escondido por entre os arranha-céus designados por Deus aos coalas eram mais exóticos, mais caricatos. Como se fossem manacás-da-serra na beira da estrada rumo ao oceano, flamboyants de um vermelho artificial começavam a aparecer a cada metro de trilha; flores brancas de hibisco cresciam como trepadeiras nos troncos dos eucaliptos, quase se camuflando; resedás rosas e brancos cresciam com troncos tortos, com pouco mais de dois metros de altura; folhas de bordo caíam onde deveria haver uma cama de ipês, sugerindo que sequer estávamos mais no verão — já deveria ser pelo menos fim de março, se ainda existe lógica.</p><p>Se havia antes justaposição entre a ordem das grandes pilastras alviverdes e o microcosmo contido logo abaixo delas, agora tudo parecia progressivamente mais organizado, escolhido a dedo por mentes humanas, decidido por paisagistas. A trilha, se outrora ao menos um pouquinho curvilínea, agora era reta, com pedregulhos brancos como calcário, como se estivéssemos na entrada de um palácio; jiboias e primaveras cresciam acopladas ao que pareciam ser arcos que ligavam um tronco de eucalipto a outro, quase implorando para serem notadas apesar de estarem a pelo menos cinco metros do chão.</p><p>Lorena não parecia interessada em nada daquilo — como se já se sentisse novamente na cidade, onde todas as espécies nativas e exóticas tendem a passar despercebidas, seguia a trilha olhando casualmente para baixo ou para a frente, desviando de raízes ali, projetando as pernas mais para a frente acolá, como quem passa ao lado de um bueiro ao mesmo tempo em que observa o ônibus vindo em sua direção com a certeza de que ele passará a pouco mais de dois metros do seu ombro esquerdo e nenhuma tragédia acontecerá.</p><p>Não é como se fosse um clima hostil, mas solene. O retorno de qualquer aventura já é a sua lembrança; não é muito diferente estar lá ou aqui, forçando o cérebro a reimprimir as mesmas imagens, um dia ou quatro anos depois de sua primeira edição.</p><p>O despertar de que não estávamos no caminho de volta só veio mesmo quando, já há pelo menos duas horas naquela caminhada, achamos, pendurada num pequeno tronco de cinamomo, minha câmera fotográfica. O que num primeiro momento foi animação e alívio, em questão de segundos se tornou o que só posso definir como perplexidade.</p><p>Ao ligar a câmera e procurar os arquivos mais recentes em sua memória, vi fotos que nunca havia tirado na vida. Pessoas que não conhecia, lugares que me eram estranhos. Algumas fotos pareciam ter sido tiradas ali mesmo, mas em outra data; outras mostravam minha casa, mas com móveis diferentes, como se aqueles arquivos tivessem vindo de um futuro desconhecido. Quanto mais eu ia para trás na linha do tempo dos arquivos, mais parecia estar vendo o futuro — ou, ainda, que estava mais distante do presente.</p><p>Algumas fotos eram estonteantes, de paisagens irreconhecíveis. Outras pareciam retratar momentos mais íntimos, caseiros, efêmeros, que passam despercebidos se não forem registrados. Via fotos minhas abraçado com amigos de longa data cujos nomes eu desconhecia, em cafés que não sabia que existiam, com roupas que eu nem sabia que eram do meu estilo, tomando cerveja em muretas de alguma praça que eu com certeza nunca havia passado sem ser rapidamente, de carro, pela rua do lado. Parecia haver de tudo ali.</p><p>Só não havia, por motivo ou outro, nenhuma foto com Lorena.</p><p><em>III.</em></p><p>Seria, de toda forma, como tentar achar um rosto conhecido no próprio Retábulo de Gante. Entre imagens de santos, mártires, anjos e o Cordeiro de Deus, todas as faces são propositalmente inexatas, imprecisas, criadas a partir da ideia que pretendem passar ao fiel que os admira estupefato, e não necessariamente de um retrato fidedigno ou interessante à memória.</p><p>Deste ponto em diante, prosseguir no mesmo sentido da trilha parecia, embora estranho e assustadoramente mágico, também inevitável, como num ímpeto fervoroso de cumprir profecias, afim de passar logo pela penitência de ter vislumbrado o que alma humana alguma poderia compreender.</p><p>Lorena, ainda ao meu lado, agora parecia abrir novamente os olhos para tudo que nos rodeava. Notava com interesse renovado o fato de agora estarmos andando numa trilha de <em>petit-pavé</em>, constantemente alargada em círculos que circunscreviam pequenos chafarizes de pratos duplos, cujas fontes centrais eram adornadas com anjos, musas e leões a jorrarem água por suas bocas. Suas bases, claras como o fundo do mar em águas caribenhas, revelavam <em>denarii</em> romanos, <em>kopeyki </em>soviéticos, pesos argentinos e centavos de euro.</p><p>Esse cenário, meticuloso, lindamente artificial, parecia reunir em si passado e futuro, familiaridade e distância, a Natureza e a ação do Homem. A retilineidade da via onde caminhávamos nos permitiu finalmente ver, após uma considerável subida que ainda precisaríamos percorrer, um edifício de dois andares, com arquitetura do século XVIII, cuja fachada parecia ser adornada com pequenos azulejos, conchas e pedregulhos, ao estilo <em>grottesche</em>, cuja platibanda revelava uma águia bicéfala contornada por um brasão de armas e uma coroa dourada, como era típico da casa de Habsburgo.</p><p>Ao se deparar com aquele edifício, Lorena, pela primeira vez, pareceu hesitar em seguir no caminho onde estávamos. Da forma como sempre fez, com a voz calma, em tom baixo e pontuando cada vírgula com uma pequena interrogação, me perguntou se era ali mesmo que estávamos querendo chegar, e se eu também não estava confuso com aquele cenário e as fotos que vimos antes. Disse a ela, da forma como sempre fiz (com a voz mais firme do que o necessário, como se soubesse mais do que realmente sei), que não tinha dúvidas de que estávamos andando para frente, mesmo sem saber exatamente o que nos aguardava. Me sentia fraco, faminto, e acima de tudo, evitava ao máximo pensar se, por um acaso, não houvera sugerido que tomássemos o caminho errado naquela clareira, com a cabeça torrada pelo Sol e incerto sobre qual direção seguir.</p><p>Ao terminarmos de caminhar por aquela subida, a primeira coisa que notei foi que ali, finalmente, não havia mais eucaliptos. Pela primeira vez desde que iniciamos a jornada de aproximadamente três horas, víamos o Sol sem meia-sombra, agora já delicadamente se pondo e colorindo as poucas nuvens em tons pastel de púrpura, laranja e rosa. O calor que sentíamos foi progressivamente dando lugar a um frescor de meia-estação, como se estivéssemos simultaneamente no pé de uma montanha e perto da beira-mar.</p><p>Cada molécula de oxigênio, cada complexa estrutura de lignina ou clorofila que compunha a flora que nos rodeava, e, acima de tudo, cada detalhe da fachada daquele edifício, tão antigo e imponente, nos lembrava do quão distantes estávamos de casa. As portas de sua entrada, em forma de arco, estavam semiabertas, e nos separávamos delas por apenas oito metros e três pequenos degraus. Sem dizer palavra, com seus enormes olhos, escuros como duas jabuticabas, Lorena olhou para mim em busca de respostas. Deveríamos entrar? O que nos aguardaria ali? Será mesmo que havíamos chegado ao nosso destino?</p><p>Desviei do olhar dela para admirar por uma última vez o caminho que havíamos tomado. Graças à subida que precisamos percorrer para chegar ali, podia-se agora fitar o horizonte, que em nada se assimilava à Escarpa Devoniana por onde havíamos entrado naquela trilha. Os montes que vi ao norte lembrariam a serra que Lorena e eu cortávamos, em infâncias diferentes, com famílias diferentes, em direção ao mesmo oceano Atlântico que agora nos cercava a oeste, se não estivessem já cobertos por uma fina camada de neve em seus cumes de pouco menos de mil metros de altitude, como senoides de um mar às avessas, com fluidez que só havia visto nos desenhos de Lorena.</p><p>Naquela direção, mas ainda no pequeno jardim que recepcionava quem chegasse ao fim daquela trilha, notei que havia um banco de praça, branco, que ficava à beira de um desfiladeiro, mas virado para que quem repousasse ali pudesse admirar aquele palacete centenário. Como que por capricho da memória que a paisagem montanhosa me trouxe, nele estava o único item que ainda não havíamos recuperado em todo aquele percurso: o caderninho de Lorena.</p><p>Me aproximei do banco ainda sem olhar de volta para ela; apanhei o caderno e o lápis, que estava logo ao lado, abri na primeira página desenhada e, novamente, fui descobrindo nossos destinos no que deveria ser a recordação mais antiga para a memória mais recente, mas que, de alguma forma, pareciam desorganizar o tempo, revelando o futuro no presente, e fazendo o presente parecer passado.</p><p>Nos desenhos de Lorena, sempre tão livre em decidir se queria perfeição fotográfica nos detalhes ou meras alusões ao objeto que descrevia, notava-se algo muito mais profundo do que em minhas fotos. Se as imagens de minha câmera só conseguiam trazer incerteza, confusão, dúvidas, seus desenhos carregavam consigo sentimentos pouco ambíguos, como quem acessa e expõe o próprio coração através da arte. Se lá pela metade das folhas de seu caderninho havia representações precisas e proporcionais do Jardim Botânico de Pisa, da antiga casa de madeira de sua família, agora demolida, de sua gatinha Limão, dos casarões coloniais de Morretes e de seu primeiro amor, em traços fortes e grossos, que contrastavam com as folhas brancas quase como se fossem figuras ainda mornas recém-saídas da prensa, dali para frente, indo até a última folha, cada página era progressivamente mais abstrata.</p><p>Sombras sem objetos para projetá-las, linhas que se estendiam por cinco ou seis folhas em sequência, ilusões de formas geométricas impossíveis, planetas com tempestades do tamanho de uma Terra, tudo indicando desordem e angústia, até que o traços fossem revelando, página após página, um toque mais sutil contra o papel. De acordo com que cada desenho ia ficando menos e menos nítido, com menos e menos camadas de grafite dispostas em cada traço, as formas e as sombras também pareciam estar cada vez mais em união, já não mais impossíveis, mas facilmente descritas por funções matemáticas: senoides, senoides e mais senoides, que ganhavam tons timidamente coloridos, descrevendo ondas gentis, em tons pastel, quase como se representassem aquele mesmo cenário que tínhamos bem em nossa frente, mas sem toda a materialidade de se perceber o mundo a partir somente dos sentidos.</p><p>Era como se Lorena pertencesse, inata, àquele lugar onde estávamos. Como se houvesse, de alguma forma, descrito de forma essencial algo que eu jamais poderia criar com minha própria mente ou minhas mãos: uma leveza onde todas as curvas são sutis, precisas, tudo que é sólido vira líquido, tudo que é líquido vira gás, e tudo que é gasoso vira inefável. As linhas seguiam, cada vez mais fracas e sutis, até a última página, ainda em branco ou muito próxima disso. Fechei o caderno, me despedi do Sol, que já se escondera atrás de um dos morros mais a nordeste e me voltei em direção à Lorena e aquele belo edifício de dois andares.</p><p>Com os olhos ainda enormes, inquietos e quase oniscientes, Lorena parecia também entender que eu jamais poderia entrar com ela naquele pequeno palácio. Ao ver o caderninho em minhas mãos, parecia sentir um misto de culpa e pena, quase como alguém que se descobre muito maior do que pensara, e desenvolve certa empatia pelos que são verdadeiramente minúsculos. Devolvi o caderno em suas mãos e disse a ela que a última página ainda estava em branco.</p><p>Lorena, com polidez, abriu o caderno e folheou rapidamente a integridade de seu conteúdo, como se soubesse de cada registro e de cada risco de lápis que ali estivesse, mesmo que na tarde anterior apenas uma pequena fração dele já tivesse sido preenchido. Ao ver aquela última página vazia, me perguntou o que deveria desenhar ali, para que finalmente encerrasse aquele caderno e pudesse começar um novo. Disse a ela que, se tivesse o talento que ela tinha e pudesse escolher, desenharia algo tão bonito que jamais conseguiria olhar de novo para aquela página final sem me sentir um pouco triste.</p><p>— Mas por que você desenharia algo que te faria triste? Não é possível que seja bonito e te deixe alegre, mais alegre do que antes, a cada vez que você abra a página ou se lembre dele?<br>— E o que existe para ser desenhado assim, então? Pois é o que eu escolheria.</p><p>Lorena hesitou, me olhou por alguns segundos, já farta dessa certeza infantil e do pessimismo que minhas palavras por vezes carregavam. Com precisão de quem fazia aquilo desde a infância, destacou da costura do caderno aquela última página, entregou-a em minhas mãos e não me disse mais nada. Começou a andar em direção às portas de entrada do edifício, pé ante pé, metro após metro, com sua bolsa de crochê e tudo que era somente dela, unicamente seu, inequivocamente não-meu.</p><p>Longe de entender plenamente a dimensão que cada um daqueles passos tinha, e do quanto nos distanciávamos quilômetros a cada contato de seus pés com o solo, Lorena ainda fez olhar para trás, como quem convida uma criança para que a acompanhe. Aquela despedida, que há pouco parecia inevitável e mágica, profética, agora fazia mais o tipo da hesitação tosca, uma teimosia em não conduzir, uma inegociabilidade de termos, uma bobagem sem tamanho.</p><p>E até hoje não sei exatamente quais obras de arte, móveis de madeira exótica ou lustres magnificamente compostos poderiam existir por detrás daquelas portas. Ao observar essa página em branco, enxergo projetores que me dão detalhes em milhões de pixels de cada um dos anjos, santos, patronos e figuras bíblicas do Retábulo de Gante, tão esmiuçados, com tanto <em>zoom</em> que sequer acenam às figuras de seres humanos propriamente ditos.</p><p>Reconheço cada um daqueles personagens, tão expressivos quanto vazios, tão exagerados em suas cores e asas que nenhuma mente humana, ao exprimir tudo que já pensou ou sentiu através do toque, do som, das imagens, dos aromas ou dos gostos, conseguiria notar que o que rege cada um dos impulsos nervosos de meu sonho-memória são discretos tons de ondas senoidais.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=6493951ade14" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[O Computador é meu amigo]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[pepler]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 05 Dec 2025 06:16:01 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-12-05T06:44:40.104Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Meu avô hoje estava de novo no <em>U-Couch</em> da sala de estar reclamando com o psicólogo dele sobre como sentia falta dos antigos criadores de conteúdo.</p><p>Ele dizia ao psicólogo que a era de ouro dos criadores de conteúdo, entre 2010 e 2018 (então já há mais de 50 anos), era muito diferente do que temos hoje, porque o fato dos criadores serem humanos significava que todos eram mais livres para explorar assuntos de nicho, que faziam os espectadores se fascinarem tanto com a personalidade dos criadores quanto com os tópicos que eram abordados por eles.</p><p>O psicólogo, coitado, gerava todo tipo de resposta aos <em>prompts</em> que meu avô fornecia, listava mais de 50 possíveis <em>U-Connects</em> que ele poderia subir no novo <em>MindHub</em> do meu velho, mas nada o convencia do contrário; ele sentia falta do <em>YouTube</em> dos anos 10, dos <em>tweets</em> (antigo nome do X, acho?) que recitava de cabeça e que quase ninguém mais se lembrava, pois todos os seus amigos já estavam ou mortos ou com seus <em>MindHubs</em> desatualizados há anos.</p><p>Eu assistia àquela cena com um pouco de dó, mas também um pouco de raiva do meu avô. Quando fiz 18 anos e pude finalmente por lei subir no meu próprio <em>MindHub</em> os arquivos proibidos para menores, o primeiro que decidi comprar foi o de Augusto César, o primeiro imperador romano. Passei em torno de umas duas horas contemplando tudo aquilo depois, gerando <em>scripts</em>, fiz um filme sobre uma história alternativa onde ele havia perdido a Batalha de Áccio para me divertir um pouco, depois simulei no <em>U-Board</em> daqui de casa 2500 anos desse cenário hipotético para ver quantos habitantes daqui da cidade de BetFair/Curitiba ainda existiriam (o <em>U-Board</em> disse que nenhum dos 100 mil habitantes existiria).</p><p>Eu e meu pai sempre jogamos esses <em>prompts </em>ridículos no <em>U-Board</em>, porque é muito mais divertido do que usá-lo para de fato rodar simulações do dia seguinte. Embora o pai sempre precise rodar o dia seguinte por conta do trabalho (ele trabalha de inspirador de novas arquiteturas na turma de <em>business </em>da U-nite aqui em BetFair/Curitiba), agora que estou em férias de verão da colônia penal, não preciso necessariamente rodar o dia seguinte, pelo menos não enquanto estiver preso em casa com meu avô.</p><p>E é por isso que digo que sinto um pouco de raiva dele, apesar de simpatizar com sua dor. Quando penso em Augusto César, em toda a magnitude e importância do que ele fez e de quem foi, de como o próprio mês de Pepsi/Agosto leva o nome dele, não consigo deixar de achar que a nostalgia e as saudades do meu avô pelo passado dele parecem a coisa mais idiota que alguém poderia sentir.</p><p>Eu pago 400 yuan (RMB, na cotação de Nestlé/Abril) e instantaneamente tenho todas as informações sobre um imperador romano de milênios atrás na minha cabeça. Eu gasto menos de 2 yuan para rodar uma simulação da Terra em que o silício substitui o carbono e a vida se dá a partir desse outro elemento, e fico contemplando meus <em>Lisowicia</em> de vidro, impressos na <em>U-Printer </em>que fica no quarto do pai. E meu avô é tão limitado na sua compreensão de mundo, que fica falando ininterruptamente com o psicólogo sobre como ele gostaria de ver um vídeo sobre essas coisas.</p><p>É essa fixação da geração do meu avô por telas que eu não consigo entender. Telas pequenas de &quot;smartphone&quot;, telas grandes de &quot;cinema&quot;, e principalmente as telas médias de computador. Qual o sentido de se ter um computador que você não pode tocar, cuja interface separa você de todas aquelas coisas? O que daquilo é real?</p><p>Meu avô parece contente em ser ignorante, em ser distante de tudo que ele diz que o cativa ou cativava, em ser um agente passivo diante de tudo que ele conheceu, conhece e vai conhecer no que ainda lhe resta de vida. Meu pai e eu já nascemos integrados na realidade, onde tudo que nós queremos e podemos ter está ao alcance das mãos, é real, palpável, instantaneamente reconhecível por todos os sentidos.</p><p>Claro, seria muito melhor se eu não tivesse sido conduzido à colônia penal pelos meus crimes de infância contra a <em>MindHub</em>. Eu ainda sinto falta de poder comer, sinto falta de poder sair de casa durante o inverno, me culpo muito pelo meu pai ter regredido tanto na carreira a ponto de ser expulso da China/EUA e termos vindo parar aqui em BetFair/Curitiba. Mas mesmo nessas condições adversas que passamos nos últimos dois anos, mesmo lidando com as consequências da minha castração química e o que isso vai significar para a nossa família daqui uns anos, meu avô parece completamente indiferente, obcecado apenas com seus vídeos do <em>YouTube</em>.</p><p>E não é que ele queira assistir aos vídeos, nem nada assim. A vontade do meu avô parece passar mais pelo lado de querer que eu e meu pai sejamos como ele, que o mundo inteiro e a sociedade regridam ao ponto onde pessoas morriam de fome, se esqueciam das coisas, tinham que sair de casa para trabalhar, precisavam ver um vídeo de vinte minutos (!!!) para achar que entenderam alguma coisa sobre Augusto César, sendo que não entenderam nada.</p><p>O que será que Shakespeare ou Chaucer achariam desse meu cansado avô? Que tipo de personagem luta tanto contra si mesmo, a ponto de rejeitar tanto o novo quanto o velho? Quem escreveria um personagem tão mediano, tão cheio de tanto faz, tão melancólico por ter perdido algo que ninguém no mundo parece sentir falta?</p><p>Meu avô sempre pede, nos <em>prompts</em> dele para o psicólogo, que o psicólogo o entretenha. Pede uns tipos de piada que não fazem muito sentido para mim, mas que devem fazer para a mente antiquada dele. Pede que o psicólogo gere uma lista com os nomes dos personagens de <em>Italian brainrot</em>, e fica lendo um por um ao invés de só subir todos de uma vez no <em>MindHub</em> dele para contemplar.</p><p>É também essa fixação com o entretenimento que me preocupa no velho. É essa necessidade de passar horas a fio revendo um mesmo vídeo, ou 300 vídeos em formato vertical em sequência, que parece estar deixando o coitado cada vez mais senil. Numa época em que todos nós podemos subir filmes lindos em nossos <em>MindHubs</em>, criar filmes ainda mais lindos com nossos próprios <em>prompts</em>, assisti-los em uma fração de segundo e nos emocionarmos por uns bons segundos até ir para o próximo, meu avô segue na contramão, com uma ânsia inexplicável de ficar horas sendo improdutivo, beirando o estado vegetativo, olhando sem contemplar, pelo simples prazer de se entreter com algo que não existe para além de um anteparo luminoso.</p><p>Me pergunto o que Comte, Steve Jobs ou Apple/Jesus Cristo achariam do meu avô. Não rodo simulações com isso porque me parece desrespeito com o velho, que apesar de tudo ainda me ama muito e ama muito o pai, mas me parece um desperdício de <em>servers</em> um homem desses ter um <em>MindHub</em> só dele. A U-nite anunciou semana passada que, a partir de 1º de Nvidia/Janeiro do ano que vem, vai começar a desativar remotamente todos os <em>MindHubs</em> que não tiverem baixado pelo menos uma <em>U-Connect</em> nos últimos cinco anos. Me preocupo pelo meu avô, porque não gostaria de vê-lo morrendo, mas o governo da China/USA anunciou que isso vai diminuir em 30% a carga de trabalho de todos os condenados às colônias penais na América do Sul e Ásia, e mais de 60% na África, e seria muito, muito bom ter pelo menos umas cinco horas num dia sem precisar enfiar minhas mãos em água régia. Rodei 2,5 x 10ˆ12 simulações e não chorei em nenhum dos enterros. Veremos.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=98665820d3fb" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[E volta acuado o gato,]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[pepler]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 11 Jun 2025 02:48:10 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-08-12T22:17:57.826Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>E volta acuado o gato,</p><p>Sem saber ao certo se cheira minha mão</p><p>O coitado se assustou quando levantei repentinamente</p><p>da cadeira.</p><p>Ele sabe quem eu sou há onze anos,</p><p>Ninou meu sono — e eu o dele.</p><p>Ainda assim, ajoelho e peço perdão.</p><p>Ofereço a mão, ele não sabe se cheira</p><p>Ofereço palavras de afeto, ele não fala português</p><p>Nem eu falo miado</p><p>A gente se entende sem se entender.</p><p>&quot;Ele logo me perdoa&quot;,</p><p>&quot;Pelo menos não pisei no seu rabo, né?&quot;,</p><p>&quot;Quanto drama, bebê…&quot;,</p><p>— &quot;Miau, miauuu?&quot;</p><p>Ele se esgueira pelo canto da sala,</p><p>Eu sou como o gato, mas ele jamais seria como eu.</p><p>Ele chacoalha o rabo com desconfiança,</p><p>Eu sou como o gato, mas ele jamais seria como eu.</p><p>Ele eventualmente se entedia e vai para o pote de ração,</p><p>Eu sou como o gato, mas ele jamais seria como eu.</p><p>Ele esquece antes de perdoar, e eu sou como o gato.</p><p>Retido a meia dúzia de cômodos, guardando rancor sem me lembrar</p><p>exatamente o porquê, mas eternamente disposto a esquecer de tudo que dói ou assusta</p><p>Trocando o orgulho por qualquer mão que ofereça carinho e não tenha</p><p>cheiro de outro gato.</p><p>Eu não sei se faz onze anos ou se acabei de perceber</p><p>Mas eu vejo o gato pelo espelho e para ele é só uma parede de</p><p>vidro.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=2fcc0141f503" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[A única coisa mais interessante que o silêncio é gritar teu nome]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[pepler]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 07 Jun 2025 21:18:00 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-08-12T19:29:00.924Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Talvez pelos fonemas, talvez pela imagem que ele invoca, talvez por pura vontade de ensaiar, treinar, praticar a pronúncia perfeita.</p><p>Penso em qual melodia combinaria perfeitamente com a métrica daquelas duas sílabas; vou descalço ao piano e faço as desafiadoras palavras em alemão — da canção de amor mais bonita que já ouvi — se agregarem lentamente ao sol, ao lá bemol diminuto, ao lá menor com nona.</p><p>Vi num sonho, claro como a fria manhã de hoje, que cantava essa música para você num cenário menos romântico que familiar; como se aquela fosse minha forma final, como se tudo que fosse fazer a partir de hoje fosse com o objetivo de caminhar até aquele cômodo, aquela companhia, aquele instrumento e aquele instante.</p><p>Penso então em manter esse ensaio em segredo, praticando diariamente as mesmas palavras, aprendendo a deixar de hesitar em <em>„Dachgeschosswohnung“</em>, tomando cuidados extras na passagem do primeiro refrão para o segundo verso, porque a melodia muda uma notinha ou outra. Canto em voz baixa, como se me observassem, como se fosse estragar a surpresa.</p><p>Meus dedos vão às teclas também cada vez mais delicados e suaves, com a ação de cada nota também cada vez vibrando menos o ar, até que decido parar.</p><p>E no silêncio que inevitavelmente impera, penso então se tudo isso faz ou mesmo fará algum sentido. Culpo meu subconsciente por implantar imagens tão nítidas de teu rosto em minha cabeça, como se fosse fácil delinear uma pessoa sem tê-la imediatamente à sua frente.</p><p>Por que precisa parecer assim tão importante? Há algo de objetivo nisso tudo, ou são apenas subprodutos da vontade de crer em algo mais do que só minha própria mente processando desejos, visões, vontades imediatas?</p><p>Enquanto penso (agora sem cantar ou fazer vibrar nenhuma nota de piano) na sutil diferença entre o dó-para-ré e o dó-para-dó-com-segunda-suspensa, falo teu nome como quem debocha de si mesmo. Como um parente mais velho que te vê aprontando alguma e fala <em>“Muriiilo, Murilo…”.</em></p><p>Me projeto tão patético em sonhar, vislumbrar qualquer tipo de futuro que quando repito teu nome, castigo a mim mesmo enquanto te projeto longe. Te imagino percorrendo calçadas inexploradas pelas solas de meus calçados, indo a cafés, bares e casas cujos endereços me soam mais estrangeiros que <em>„Anfangsbuchstaben“</em>, que consegui memorizar há coisa de uma hora.</p><p>Logo depois, te projeto em lugares que me são extremamente familiares; endereços que coabitamos, mas nunca ao mesmo tempo. Te vejo percorrendo a mesma rota que faço de minha casa até meu café favorito, sem que você sequer saiba meu endereço ou minha preferência por <em>matchas</em> específicos. Eu jamais me permitiria ser tão prepotente em voz alta.</p><p>E a cada pequeno filmete, as reações do público unitário parecem mudar. Se teu nome antes era dito em tom de deboche, como quem caçoa de si mesmo, agora esse público repete o mesmo nome em tom de leve desespero, em tom de melancolia, em tom de raiva com o Universo (afinal, o que levam duas pessoas a nunca coabitarem um mesmo espaço senão as decisões d’Ele?).</p><p>E então, dois mundos diferentes se criam a partir de um mesmo cenário. Daqui para fora, impera o silêncio operacional, simbólico. Vou à cozinha, deixo o café passando; vou ao banheiro, tomo uma ducha; vou ao quarto, me visto; volto à cozinha, sirvo-me; vou à sala, ouço os carros pela janela, sento no sofá, apanho uma caneta e transfiro-me ao outro mundo.</p><p>Daqui para dentro, as mesmas duas sílabas ecoam de forma que não se possa mais distinguir o tom de fala; cada vez mais neutras, mais centralizadas, cada uma delas parece uma consequência da outra, como num <em>loop</em> infinito. Ao fundo, ainda se ouve o piano a martelar levemente a mesma progressão de acordes, mas já não há melodia além de <em>um, dois… um, dois… um, dois…</em></p><p>Talvez eu deva mesmo ensaiar até o dia chegar. Talvez faça sentido buscar uma forma de se fazer um sonho se tornar realidade, afinal nada vira frase feita sem ter um pouquinho de fato concreto em si. Mesmo que não dependa só de minha vontade, mesmo que as placas de carro daqui sequer tenham nossas iniciais, penso em voltar ao piano e fechar os olhos até que cada nota venha somente com sua frequência, sem diagramas ou letras.</p><p>Se não for para você, para quem mais eu sonharia em cantar?</p><p>Penso então que essa mudança vem mais de fora que de dentro. Quando não sonhava com essa imagem de hoje de manhã, eu simplesmente não sonhava. Não há substituição, não há vácuo de poder que, num golpe, tenha sido ocupado por um simples nome. Isso é exatamente quem eu sou, e agora sinto poder livremente ser, ainda que decerto escondido, com vergonha, com receio de não ser exatamente o que se espera de mim.</p><p>Saio da sala, venho novamente ao piano. Sei que há mais formas de concatenar frases para exprimir o que sinto do que átomos de oxigênio entre os quilômetros que nos separam. Penso então em desistir, e que talvez desistir seja quem de fato sou.</p><p>Embora os dedos doam por causa do frio, pego meu celular e, assim que o abro, aparece para mim um meme de um cachorro que me diz, em inglês: “E te amarei porque isso é quem eu sou; não estou esperando ser escolhido”. Penso que esse cachorro é o ser vivo mais nobre do planeta, e anseio poder ser plenamente como ele.</p><p>Devo, então, ensaiar seu nome, seu sobrenome, seu apelido e brincar de combinar com os meus. Me projeto novamente patético, grosseiramente emocionado, mas vejo nesse exercício uma forma quase humorística de meditação. Te projeto agora próxima, tão próxima que me sufoco em memórias vindas do futuro, quase como se não houvesse diferença entre lembrar e imaginar, porque decerto não há. Tento há tanto tempo explicar isso a mim mesmo e a todos que me rodeiam, que me projeto finalmente quase fraco em sentir isso mais uma vez, sendo que tudo que permeia essas duas pequenas sílabas é tão novo, tão diferente de tudo que já me lembrei ou imaginei.</p><p>Teu nome soa novamente em voz alta, dessa vez em tom de esperança; esperança essa de que, um dia, não precise pensar mais em memórias ou imaginações. Quero mudar meu estilo de escrita, quero refletir sobre algo além de anseios e sonhos, quero que o passado e o futuro se explodam; quero que o presente seja gentil, doce e leve como os acordes de piano que deixam a ríspida língua teutônica tão frágil, sincera e quase minha.</p><p>Por enquanto, reaqueço a voz, lembro que o inverno está quase chegando e que não há estação melhor para se amar. Proíbo momentaneamente o silêncio e volto a ensaiar.</p><p><em>Um, dois… um, dois…</em></p><p><em>12/03/2022.</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=41bfe2431f6c" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Primeiro levaram Paola do Forró]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[pepler]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 02 Jun 2025 07:01:35 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-06-02T14:19:45.978Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h4>Mas é aquela história. Eu não me importei, porque não dançava forró e mal conhecia Paola.</h4><p>Agora tudo que consigo pensar é no que farei se começarem a levar embora outras personalidades inventadas que me são bem mais importantes.</p><p><strong><em>[Cena um: deitado de forma patética no divã]</em></strong></p><p>Penso no DJ Fred, em tudo que inventei que vivemos juntos. As noitadas regadas a <em>scotch on the rocks</em>, o dia em que fomos para Marília porque ele ia tocar numa rave que nem existe mais hoje em dia. Como é que alguma polícia secreta ia ter a coragem de fazer alguma coisa com ele?</p><p>Quase morro de preocupação em relação à Gabi, namorada do Léo, caso levem ela também. Todo mundo sabe que ela não consegue viver sem ele, nem ele sem ela, mas se levarem ela é pior do que se levarem ele. E o principal problema é que eles têm um gato, chamado Castor, e o Léo sabe que o Castor só aceita comida se for a Gabi quem serve no potinho pra ele.</p><p>E se levarem a Ana? Poxa, a Ana não fez nada demais, eles já estariam pesando a mão na perseguição. O negócio da Ana é maratonar <em>Sopranos</em> e beber vinho numa boa no fim de semana, falar umas merdas no Twitter e apagar no dia seguinte, ela é gente como a gente. Mas pode ser que levem ela também, já que agora levaram até a Paola do Forró.</p><p>Que, diga-se, eu realmente não me importo de terem levado. Eu inventei a Paola do Forró há uns dez minutos, porque é engraçado alguém ter a alcunha &quot;do Forró&quot;, e o nome &quot;Paola&quot; eu só pensei porque vi um story de uma menina chamada &quot;Paula&quot; um pouquinho antes. E daí o story de outro cara num forró. Nada sobre ela importa, e agora que ela se foi é importante que nos esqueçamos que um dia ela existiu.</p><p>Mas se você for voltando um pouquinho na ordem das coisas, vão chegando as personalidades inventadas com quem eu me importo um pouco mais. O Sr. Yorgos, famoso por ser o criador do iogurte. A Srta. Débora, mãe dos dois filhos de um amigo meu (que não conhece nenhuma Débora e não tem filhos).</p><p>E se levarem todos eles? E por que eles seriam levados?</p><p>Seria fácil explicar, caso todos eles fizessem parte de uma célula anarquista que estava planejando assaltos a cofres, mas isso aqui não é Londres dos anos 1910. Se eles fossem comunistas em meio à ditadura militar, coitados, daí era fazer as pazes com Deus e lamentar muitíssimo, mas nem isso eles são.</p><p>São pessoas que moram por aqui mesmo, com empregos normais, vidas normais, gostos normais, gente que eu encontro facilmente, mesmo a Paola do Forró que era cantora, porque a gente tinha um amigo em comum que sempre levava ela pra beber no fim de semana e a gente acabava sempre se vendo.</p><p>Inventaram de levar as pessoas mais normais do mundo embora, sem muita razão aparente senão a necessidade de <em>me</em> gerar preocupação em relação a quem será o próximo a ser levado.</p><p>É quase que inevitável me ver como o centro desse Universo, então. Penso agora: que controle tenho <em>eu</em> dessa polícia secreta? Se posso fabricar memórias, traços de personalidade, nomes, trejeitos e grandes feitos, não poderia simplesmente evitar que eles fossem levados?</p><p>Mas como diria o Léo, namorado da Gabi, &quot;a vida não é um morango&quot;. Sempre discordei dele porque acho que a vida é um belo e suculento morango, mas nesse caso me faço de desentendido e concordo. Ouso então dizer que a polícia secreta está muito além da minha capacidade de controle, que eles aparecem em veículos sem identificação, na calada da noite, abordam aleatoriamente um transeunte e o levam embora para todo o sempre. Eu não posso fazer nada além de lamentar.</p><p>E me preocupar, claro. Eu me preocupo muito. Penso que, se vão levando todos os personagens fraquinhos e normais que crio em questão de segundos, o que os impede de começar a levar até mesmo os antigos protagonistas da vida real?</p><p>Penso no meu sonho-memória de uma mulher chamada Lorena, penso no meu ex-melhor-amigo-da-escola Luís Guilherme, em todas essas figuras semi-míticas que mantenho em minha mente mais como imaginação do que como algo de concreto. Eles ainda estão por aqui, mas quantos outros já foram levados? Eu não saberia citá-los por nome, não os reconheceria na rua, não saberia dizer há quanto tempo não nos vemos.</p><p>Assim, sinto que a única diferença entre as imagens dessas memórias adormecidas e a minha aventura com o DJ Fred em 2018 no interior de São Paulo é a mera intenção de tê-las ou não. Se Frederico existe em minha mente enquanto exercício, eterno girar de manivela, Lorena é um reflexo muscular involuntário, um revólver.</p><p>E a facilidade em levarem embora Ana ou o Sr. Yorgos é cruel, pérfida, estão os levando pra fazer de exemplo pros outros, sejam reais ou não. Pode ser que amanhã mesmo levem Débora, ou minha irmã, levem Lorena, levem até a mim. Penso que talvez a solução seja mesmo assumir a Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná (SESP/PR).</p><p><strong><em>[Cena dois: na Secretaria de Estado da Segurança Pública do Paraná (SESP/PR)]</em></strong></p><p>Chego pontualmente às 09:00. Me atende na recepção um tipo cabeludo, de rabo-de-cavalo e uma barba esquisita, com a pele azul e que claramente está saindo de uma lâmpada mágica. Penso que ele parece muito com o Gênio do filme do Aladdin, mas tenho receio de perguntar se é ele mesmo. O tipo cabeludo me recebe me chamando de &quot;Patrão&quot;, e diz que minha sala é a no fim do corredor, do lado das bandeiras do Brasil e do Paraná, a única que tem uma porta dupla. Ele me deseja boas-vindas e eu agradeço.</p><p>(A partir de agora, sou o Patrão, em terceira pessoa. Me vejo como o CJ no GTA San Andreas, porque é mais interessante assim.)</p><p>O Patrão caminha até a porta dupla, que é velha e de mogno. Abre-a e vê na sala três pessoas com cara de surpresa e uma girafa enorme, toda retorcida com seu pescoço envolto em sua nova mesa, que também é de mogno e deve ter sido feita, no mais tardar, no início do século XX, senão antes. A girafa dorme profundamente, em paz.</p><p>Só que o Patrão não consegue chegar na mesa sem pisar na girafa, então ele para na porta mesmo e espera alguém resolver essa situação pra ele.</p><p>Das três pessoas, o Patrão só conhecia uma: o antigo governador Sr. Pedro Viriato Parigot de Souza. O Patrão de antemão já ficou receoso, porque o Sr. Pedro Viriato Parigot de Souza era governador na época da ARENA, e o Patrão já estava com medo de ter que acabar forçadamente assinando a papelada que ia decretar a morte de todo mundo com quem ele se preocupava tanto.</p><p>Mas o Sr. Pedro Viriato Parigot de Souza — o Patrão logo descobriu — estava ali naquele gabinete enquanto diretor da Copel. As outras duas pessoas presentes na sala — o Patrão também logo ficou sabendo — eram uma mulher de uns 25 anos, chamada Bruna, e um piá, de uns 18 ou 19 anos, chamado Ernesto Guevara, que o Patrão só não reconheceu por causa da pouca idade que o piá tinha nessa cena em específico.</p><p>Che foi o primeiro &quot;desconhecido&quot; a cumprimentar o Patrão, e pediu muitas desculpas em espanhol por não ter conseguido se livrar da girafa a tempo, mas que eles estavam o esperando somente pra depois do almoço, na verdade. O Patrão disse a Che que aquilo não fazia o menor sentido, porque eles haviam combinado de tomar café-da-manhã no gabinete da SESP/PR, e que ele só não havia chegado às 07:00 porque estava com medo que desse um tornado por essas bandas do Batel.</p><p>Bruna se levantou também para cumprimentar o Patrão, e perguntou se por acaso a girafa não poderia virar, com o tempo, parte integrante da equipe, às vezes como mascote, às vezes como estrategista. O Patrão sugeriu então elevar a girafa ao cargo de tenente-coronel da Polícia Militar, e os três concordaram.</p><p>O Sr. Pedro Viriato Parigot de Souza disse ao Patrão, então, que a razão dessa primeira reunião era algo terrível que eles haviam encontrado no Parque Nacional das Sete Quedas, ainda antes de alagarem tudo. Lá, escondido numa pequena caverna atrás de um dos lindos saltos, havia um pequeno baú selado, construído em imbuia, que continha todos os registros fotográficos do Apocalipse, além de um coração humano em avançado estado de decomposição.</p><p>O Patrão não soube como responder. Como assim registraram o Apocalipse em fotos? De quem é esse coração? Quando foi que aconteceu o Apocalipse? E como é que a SESP/PR poderia evitar que ele acontecesse, caso essas fotos fossem enviadas do futuro (o Apocalipse, tudo indicava, ainda não havia acontecido)?</p><p>Bruna disse, antevendo o desespero do Patrão, entre risadas disfarçadas: &quot;É simples, Sr. Secretário de Segurança Pública. Precisamos que você reescreva essa parte da história em seu sonho-memória. Você está na posição ideal para isso a partir desse momento&quot;.</p><p>O Sr. Pedro Viriato Parigot de Souza foi mais enfático: &quot;Acredito que a solução seja prender os professores que estão protestando na frente da UFPR, Sr. Secretário de Segurança Pública&quot;.</p><p>Já Che, em um portunhol relativamente compreensível, sugeriu: &quot;<em>Tenemo&#39; que viajar pa los Salto&#39; del Guaíra, ¿no?</em>&quot;</p><p>O Patrão achou a sugestão de Che a mais engraçada e, umas sete horas depois, eles já estavam perto de Toledo. A girafa, que dormiu no ponto, acabou assumindo a secretaria interinamente.</p><p><strong><em>[Cena três: BR-467, a 20 km de Toledo/PR]</em></strong></p><p>— Mas dá pra ver mesmo, em detalhes, as almas saindo do corpo das pessoas? — perguntei, agora novamente em primeira pessoa.</p><p>— Acho que isso a foto não chega a pegar, porque alma acho que não pega em foto, né? — respondeu Bruna, que vestia agora uma camiseta do The Doors, mais confortável para a viagem do que o terninho <em>girlboss</em> de mais cedo.</p><p>Che dirigia despreocupado, aproveitando a vista, enquanto o Sr. Pedro Viriato Parigot de Souza dormia tranquilamente com a cabeça apoiada em meus ombros.</p><p>— Eu não sei, nunca parei pra imaginar como seriam as fotos do Apocalipse. Não achei que ia ser necessário registrar, sabe?</p><p>— Mas por que você só não reescreve essa parte, então? Por que você só não volta atrás, edita essa parte, corta a cena inteira?</p><p>— Eu não sei, Bruna, eu não tô acostumado a ser secretário de segurança ainda, não entendo como só &quot;descriar&quot; coisas.</p><p>— Você… se sente apegado à gente? Será que é por isso que você se sente mal em só deletar tudo?</p><p>— Acho que, de vocês, eu me sinto mais apegado ao Che…</p><p>Che sorri e acena com a cabeça para mim.</p><p>—…porque ele me parece importante de um jeito bom, sabe? De um jeito que sei exatamente o porquê dele ser importante, por ter uma certa simpatia por ele. Agora, sem ofensa, você eu não entendo por que que é importante o suficiente pra estar aqui. E o Sr. Pedro Viriato Parigot de Souza muito menos.</p><p>— Tá, mas você acha que a gente é só um reflexo de alguma parte da sua própria mente, então? Você acha que seria <em>possível</em> deletar a gente? Porque você não pode deletar a sua mente, né, acho que você pode no máximo reprogramar ela, mas a gente é como se fosse uma expressão da sua psique, um símbolo de alguma coisa?</p><p>— Eu acho que é uma mistura disso com uma série de coincidências e perguntas sem resposta, porque muito disso são decisões tomadas sem muita reflexão, sabe? Enquanto outras são decisões conscientes.</p><p>— É meio igual dirigir um carro, não é? <em>Un poco como manejar el coche, ¿sí, Che?</em></p><p>Che concorda com um sorriso e um aceno com a cabeça, novamente sem falar nada, pra economizar em travessões.</p><p>— Acho que é meio tipo dirigir um carro mesmo, Bru, mas com o carro tem a parte de que as estradas já foram construídas, né? O carro em si pode ser uma boa analogia pra nossa cabeça, pra gente enquanto motorista também, de ter certo controle de qual decisão tomar etc., mas o carro já tem os caminhos meio que traçados no mapa pra seguir, eu acho que daí seria quase como dizer que eu realmente não tenho como parar o Apocalipse, só seguir até ele inevitavelmente.</p><p>— Mas e se você só pegar a primeira saída à esquerda e ir pra outro lugar, então?</p><p>— Tipo desviar agora e ir pra Medianeira ao invés de Guaíra?</p><p>Bruna abre os olhos ainda mais, com um brilho imenso, acena positivamente com a cabeça e parece uma criança descobrindo que vai para um parque de diversões. Fala com um jeitinho doce e sotaque portenho:</p><p>— <em>Che… ¿por favor?</em></p><p>Che, pela última vez, concorda com um sorriso e um aceno com a cabeça, e faz uma curva de 270° bem na rotatória onde a PR-182 vira a PR-585, a mais ou menos 140 km/h, matando a todos instantaneamente num capotamento que chegou a dar no Bom Dia Paraná na manhã seguinte.</p><p><strong><em>[Cena quatro: minh&#39;alma entende tudo errado e sobrevoa não a cidade homônima, mas sim o Colégio Medianeira, em junho de 2012, enquanto meu eu físico está no intervalo comprando um pão de queijo na cantina]</em></strong></p><p>&quot;Novamente em terceira pessoa&quot;, digo eu (alma) com uma risadinha maléfica. Vejo o café com leite que estou (eu físico) tomando, os meus dois melhores amigos da adolescência, a gente parado num canto julgando uns outros colegas que eram subjetivamente mais burrinhos e objetivamente mais felizes e satisfeitos com a vida que a gente.</p><p>Pareço desinteressante a mim mesmo, então penso em sobrevoar outras partes do colégio pra ver o que que tá rolando de bom por lá. Aproveito estar desprovido de existência corpórea para atravessar paredes, chegar bem perto de minhas antigas nêmesis para saber se estavam falando mal de mim (sequer assimilavam minha existência), fiquei bem perto da caixa de som que tocava música no intervalo para ver se causava interferência (o celular da menina do grêmio tocou bem na hora e fez uma interferência bem mais forte), desci para as quadras para ver se algum piá jogando bola tinha potencial pra virar profissional (nenhum tinha), e por fim cheguei ao mesmo local que penso que adorava ficar, desde a adolescência até depois, mais velho, voltando anualmente ao colégio para a festa julina; as arquibancadas do campão, que tinha verdadeiras proporções de arena.</p><p>Lá, por tantas vezes, vi cenas tão parecidas em épocas tão diferentes; os adolescentes em grupos, dinâmicas de olhares de jovens apaixonados, risadas por qualquer bobagem, a gurizada fazendo dancinha (mesmo muito antes de filmar pro TikTok), todo mundo comendo salgado, todo mundo sentindo o vento geladíssimo do fim do outono rasgando a pele e deixando os narizes vermelhos.</p><p>E, por algum motivo, eu (físico da adolescência) quase nunca estava ali. Meu lugar de passar o intervalo era bem mais escondido, esgueirado, pedindo desculpas por existir, apoiado em qualquer parede ou escada. Sempre deslocado, sempre querendo me distanciar daquelas pessoas, ou sendo distanciado mesmo sem querer.</p><p>Por que isso? E por que quando, agora alma, as memórias que vêm até mim são memórias fabricadas, terceirizadas, meio jeitinho de filme americano, de estar naquela arquibancada entre olhares de flerte, dancinhas e piadas? Por que é que reescrevo a minha história com tanta facilidade, sendo que meu voo rasante pelos quilômetros e quilômetros quadrados desse lugar imenso mostram um mapa de calor tão… pífio?</p><p>Eu <em>também</em> não poderia me profissionalizar.</p><p>Por que os lugares onde habito não são meus? Por que só concedo a mim mesmo uma porcentagem simbólica do que me foi dado de uma forma tão fácil, com tão pouca luta? Por que eu nunca soube aproveitar direito?</p><p>É como se em todo canto houvesse uma girafa em sono profundo.</p><p><strong><em>[Cena cinco: o Sol nasce às 06:55 e se põe às 17:34]</em></strong></p><p>Sinto em dizer, mas é impossível esquecer Paola do Forró. Sim, tentamos, queimamos suas fotos, entramos na Justiça para que seu nome pudesse ser esquecido até na internet, mas não adianta. Seu legado é pétreo, virtuoso e musical. Seu nome ecoará pelos quatro cantos do Brasil e de Angola (onde era muitíssimo popular), sua cadência na voz ainda influenciará gerações de forrozeiras e forrozeiros. Sua forma de tocar sanfona enquanto dançava será para sempre reproduzida em seus três DVDs ao vivo, ela será para sempre celebrada como a única sulista que fazia forró como os grandes ícones nordestinos.</p><p>Salve Paola! Salve o forró e a cultura brasileira!</p><p>Escrevo <em>gone but not forgotten</em> na sua lápide — simbólica, pois nunca identificaram seu corpo — e sigo preocupado. Amanhã mesmo, que não é mais fim de semana, vou pedir meu primeiro desejo para o Gênio. Aparentemente, ele é CLT.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=b36d32fe61ec" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Ao caro Editor, (se necessário for…)]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[pepler]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 02 Jun 2025 03:09:35 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-08-12T22:25:59.397Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>…corte tudo.</p><p>Os versos piegas,<br>O termo sisudo,<br>Os cânticos bregas e<br>O verso de amor.</p><p>Corte tudo.</p><p>A memória antiga,<br>O <em>motif</em> miúdo,<br>A velha cantiga e<br>O corretor.</p><p>Corte quase tudo.</p><p>Referências precárias, o verbete engasgado,<br>O mal-conjugado e o poema-bilhete,<br>Desnecessárias sequências,<br>A rima imperfeita de anteriormente.</p><p>Corte quase tudo.</p><p>Se canção for, tire a simetria,<br>O <em>falsetto </em>da cantoria, o terceto do tambor.<br>Estrangeirismos eu peço que mantenha,<br>Porque acho que embrenha o texto em valor.</p><p>Na verdade, corte tudo.</p><p>Sem se pautar pela necessidade,<br>Número de páginas ou pelas altas<br>cargas de ambiguidade do fraco conteúdo.<br>Confio em você mais do que em mim.</p><p>Corte tudo.</p><p>Porque sim, as palavras são minhas,<br>E, enquanto as tinha só para mim, era tranquilo.<br>Contudo, penso nas linhas sendo recitadas em<br>silêncio em meio ao pranto de uma antiga namorada,<br>E se souberem que isso ou aquilo foi escrito pensando nela,<br>Vão me obrigar a ficar mudo.</p><p>Corte o começo, o meio e o final;<br>Use a borracha e o apagador.<br>Se já esqueceu, tire os versos piegas, transforme tudo em prosa.<br>Se não for muito grilo, de forma vaidosa, te peço que risque o nome do autor.</p><p><em>xxxxxx.</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=5df1aa6eb355" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/correio-expresso/ao-caro-editor-se-necess%C3%A1rio-for-5df1aa6eb355">Ao caro Editor, (se necessário for…)</a> was originally published in <a href="https://medium.com/correio-expresso">Correio Expresso</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[Epítome]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[pepler]]></dc:creator>
            <pubDate>Sun, 14 Jan 2024 15:20:04 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2024-01-14T15:20:04.025Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Na manhã em que me tornei um grão de ervilha não pensei em Gregor Samsa, pois não havia sonhado na noite anterior.</p><p>A primeira coisa que notei foi como o ar parecia ocupar todo o espaço ao meu redor. Agora que havia virado uma pequena esfera, não eram meus pés que me mantinham presos ao chão, mas a benevolência do vento a não bater e me fazer rolar, e da gravidade ao me manter estático, conectado por uma breve superfície de meu corpo ao solo.</p><p>A segunda coisa que pensei foi se esse seria mesmo o solo, ou uma mesa de jantar, ou uma cama. Havia apenas uma imensidão brutalmente branca, como num lago austral congelado, plano, imaterial. Tentei alcançar minhas têmporas em incredulidade mas não o fiz, pois já não tinha mãos para sentir se ainda tinha rosto.</p><p>A terceira coisa que fiz foi me adaptar à minha nova condição de legume e temer a presença de qualquer animal nas imediações que pudesse me predar. Lembrei de meus dois gatos, me esforcei ao máximo para lembrar se eles só gostavam de comer milho, ou se casualmente também devoravam pequenas ervilhas. Não consegui me lembrar, pois também já não tinha cérebro.</p><p>(Não me escapou, claro, a graça de ter sido um humano com cérebro de ervilha e, de repente, me tornar uma ervilha com ideias humanas, viessem de onde viessem.)</p><p>Pensei então por muito tempo na palavra ervilha. Er-vi-lha. De tanto repeti-la, acabei me esquecendo de sua pronúncia, por já não ter lábios e língua, mas ainda me lembrava do lindo tom de verde-escuro de todas as ervilhas que já havia visto em minha vida até aquela manhã.</p><p>O que veio à minha mente, então, foi o gosto das ervilhas, e se esse era agora meu gosto. Lembrei-me das deliciosas lasanhas à parisiense, da seleta de legumes que comia periodicamente, das ervilhas congeladas no freezer, da sutil fibrosidade de meu novo exterior misturada à maciez de minhas novas entranhas.</p><p>Em seguida, sem necessariamente sentir empatia, pensei em todas as ervilhas do Universo. Em como nascem protegidas, envoltas em suas vagens, em como são separadas uma a uma, talvez por um maquinário especializado, talvez por mãos calejadas. Pensei nas lindas ilustrações da botânica antiga, descrevendo em delicadas pinceladas o caule, as gavinhas, as flores brancas da ervilheira, e, por fim, as sementes.</p><p>Pensei em Mendel, e em como minha nova espécie contribuiu para o estudo da genética, para a seleção artificial, para o aumento do valor nutricional dos alimentos, para o desenvolvimento do milho, da soja, do feijão-fradinho, do trigo, do arroz, da aveia, do centeio, do lúpulo, do malte, da cevada, do grão-de-bico, da quinoa, da chia, do gergelim, do triticale, do sorgo, do painço.</p><p>E agora, poucas horas depois, quando o horror já se tornou barganha mas não aceitação, torno meus questionamentos a Deus, e pergunto a Ele se a forma que tomo é dádiva, missão, ou penitência. Penso nas vezes que orei a Ele, em momentos de inconformismo com minha antiga forma humana, para que me tornasse um orbe maciço, metálico, de aproximadamente 40 cm de diâmetro, que pudesse vagar pelo vácuo do Espaço sem sentir a gravidade, sem precisar vencer a resistência do ar, que fosse tão compacto e denso quanto possível, que fosse otimizado, objetivo, idílico, quase matemático. Pergunto a Ele se por acaso não deixou o trabalho feito pela metade, se a pequena esfera verde que me tornei é na verdade um aceno à ideia um pouco mais concreta e poderosa de vencer os limites da experiência sensorial e corpórea enquanto orbe metálico. Pergunto ao Senhor se isso foi o que Ele <em>conseguiu fazer</em> para me ajudar, e, emendando uma malcriação, pergunto se Ele é de fato onipotente.</p><p>E no ato, assim que termino minha breve prece, como num milagre, retomo meus sentidos. Embora ainda seja uma ervilha em todos os méritos e descrições observacionais, Deus parece me entender e me concede plenamente de volta a visão (ainda que sem olhos), o olfato (ainda que sem nariz), o tato (ainda que somente com casca e não pele), e, de alguma forma, a audição, mesmo sem pavilhão auricular. Não sei ao certo sobre o paladar, pois não senti meu próprio gosto de ervilha.</p><p>Penso que ter me transformado em ervilha só pode ter sido dádiva, e agradeço a Deus pela oportunidade a mim concedida. Agradeço a Ele por vários minutos por ter me feito sentir algo novamente, por retomar qualquer coisa de alegria e intensidade, de animalesco ou herbáceo que fosse em mim, de me permitir me sentir vivo, ainda que infinitesimal, pequeno, verde e ridículo.</p><p>Percebo então, com meus sentidos readquiridos, que estou na cozinha de casa, no chão, ainda imóvel. Vejo um de meus gatos andando do pote de comida para a cadeira da mesa de jantar, percebo que ele me nota com desinteresse, olha por dois segundos e logo adormece.</p><p>Em seguida, no entanto, entra alguém na cozinha desatento, não vê a sujeira no chão e me esmaga com seu tênis. Por sorte, nada de mim é carreado na sola, pois o impacto me agrega ao bruto e branco azulejo que permeia esse deserto gelado que agora penso em chamar de lar. Meu último trunfo, que era ser uma simpática e pequena esfera, não mais existe, e agora sou apenas uma memória do que um dia foi uma ervilha. A sola do tênis estava suja com coisas da rua que agora se misturaram a mim, e até meu lindo tom de verde-escuro agora é acinzentado, talvez preto, talvez indeterminado.</p><p>Penso então que Deus me tornou ervilha por penitência, e me fez retomar os sentidos para que eu não pudesse ignorar a imensa dor de ser esmagado, o terror de perder minha forma, minha serventia enquanto alimento (nem que fosse para o gato), o desespero de querer gritar sem ter boca, de querer chorar sem ter olhos ou, via de regra, qualquer característica que remetesse a um ser vivo.</p><p>Agora sou apenas uma mancha no azulejo, e recomeço minha jornada de terror, barganha e aceitação. Com os sentidos ainda aflorados, percebo o frio onde outrora havia uma espinha dorsal, ou ainda um macio amontoado de proteínas. Quem pisou em mim percebe o erro, e logo apanha um produto desses de lavar chão, um rodo e um pano, e começa a me limpar junto com toda a sujeira do chão da cozinha.</p><p>Sinto esse produto dilacerando o que sobrou de meus aminoácidos, sinto minhas vitaminas sendo desnaturadas pela lauramina óxida, pelo agente alcalinizante, pelo tensoativo catiônico. Me vejo envolto em poeira, lembro que tinha uma terrível rinite quando era humano, me pergunto como seria se uma ervilha espirrasse. Dou uma última risada. Peço a Deus para que por favor tire novamente meus sentidos, que me torne Alma, que faça a Dor passar, que encerre esse ciclo da forma mais rápida possível. Ele não me ouve, e eu por vez ouço o barulho da água correndo pela torneira, me embebedo no líquido cinza-escuro que é torcido para fora do pano em direção ao ralo do tanque. Eu com meus novos amigos, a poeira, a pele morta, os pelos de gato, o resto de comida, a cinza de cigarro e a fuligem de poluição vamos numa nova jornada, talvez rumo ao oceano, talvez rumo ao nada.</p><p>Por fim, olho a sola do meu tênis pra ver se não ficou nada sujo, seco as mãos, volto para o quarto e vou dormir para esquecer que morri.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=11c0d89394b7" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[À senhorita A. Zakharova, em algum lugar de Munique.]]></title>
            <link>https://medium.com/correio-expresso/%C3%A0-senhorita-a-zakharova-em-algum-lugar-de-munique-6323638cf26c?source=rss-3cddc38b37cb------2</link>
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            <dc:creator><![CDATA[pepler]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 20 Jul 2022 09:48:51 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2024-01-15T21:31:25.598Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h4><em>Curitiba, 20 de julho de 2022.</em></h4><p><em>Querida Anna,</em><br><em>Sei que minhas cartas a você costumam sempre ser em espanhol ou inglês, as únicas línguas em comum que temos para nos comunicar, mas dessa vez te escrevo em português, porque não vejo motivo para pedir que você tente me entender plenamente. Se for de qualquer interesse, busque compreender pelas bordas.</em></p><p>Hoje acredito ter sentido saudades pela primeira vez na vida. Sei que quando busquei te explicar o significado dessa palavra, e de como ela deveria ser intraduzível, Anna, sua reação foi de riso. Riso, porque obviamente você conhecia termos em quatro ou cinco línguas que representariam o mesmíssimo sentimento, e a questão da intraduzibilidade da saudade seria uma mera questão léxica, de pouco ou nenhum valor semântico.</p><p>Mas hoje acredito ter sentido algo diferente, mais pernicioso que <em>longing, echar de menos, Sehnsucht, тоска </em>e seja lá como se sente falta em Udmurt. Penso até que o uso banal das saudades, que usamos no dia-a-dia, para dizer que se sente falta de uma bolacha sabor limão ou de quando se tinha onze anos de idade, já não se aplica mais a esse termo, seria como chamar um empilhado de areia de montanha.</p><p>Ao mesmo passo que também não é um sentimento ligado à morte, ao inevitável, ao que sentimos por quem já se foi para todo o sempre e sabemos que nunca vamos reencontrar. Diria que é pontualmente o oposto.</p><p>Hoje, senti pela primeira vez o que uns dos que tentam definir as saudades como intraduzível chamam de “pequena melancolia”. Muito mais branda que a melancolia de fato, mas muito mais aterradora.</p><p>Porque se o significado banal de saudade (e suas muitas traduções) versam sobre o passado, sobre o que foi vivido e não mais retornará, essa pequena melancolia, ao menos a mim, veio como um vislumbre inevitável do futuro.</p><p>É como um cão que tive na infância, Anna, que se chamava Apolo. Um filhote de fila e labrador, que em pouco mais de um ano ficou tão grande que me derrubava facilmente toda vez que pedia por carinho e atenção, ao que eu me permitia ser nocauteado e o abraçava de volta com todo o amor do mundo, sem hesitar.</p><p>Minha família, no entanto, já não podia mais arcar com o rastro de destruição que aquele cão deixava em toda sorte de porta, para-choque de carro e no pequeno quintal da casa onde morávamos, e — em defesa de minha família — Apolo vivia enclausurado e clamando aos deuses caninos por mais espaço para correr.</p><p>Assim, após essa breve história de afeto entre criança e cão, minha família decidiu doar Apolo para uma outra família que morava na praia, numa casa onde ele teria muito mais espaço, liberdade e anos de vida saudável. Depois da doída despedida, vi Apolo só mais uma vez. Lembro de ele ter me reconhecido.</p><p>Mas aí então, pouco tempo depois, um outro cão, dessa vez chamado Bilu, que morava com meus padrinhos, veio a falecer, depois de incríveis quatorze anos de vida (numa época em que eu mesmo deveria ter uns dez). E na época, já apto a fazer contas, percebi que, se Bilu tinha falecido aos quatorze, meu antigo amigo Apolo deveria ter pelo menos mais uns doze anos até que viesse a faltar. Doze anos em que eu não mais o encontraria (“pra não machucar o coração do coitado”, como defendeu minha mãe), doze anos em que viveria com outra família, outros amigos, em outra cidade.</p><p>E, como num passe de mágica — como costuma ser com o pensamento infantil — vislumbrei toda a vida de Apolo em poucos segundos. Enxergava-o com a nova família, correndo atrás de <em>frisbees</em> no feio balneário de Ouro Fino, em Pontal do Paraná. Vi como seus traços iam mudando, ainda que levemente, com a idade passando (sete anos a cada aniversário), as primeiras dificuldades de locomoção, tudo claro e cristalino até seu último dia de vida, que, a julgar pelas minhas contas, seria em algum momento de 2015.</p><p>Mas ainda assim, Anna, não sei até que ponto essa certeza da vida de Apolo se revelando a mim poderia ser chamada de saudade, visto que existe um fator conjectural imenso nisso tudo. Eu nunca <em>soube</em> o que aconteceu com ele depois da última vez em que nos vimos. Todas aquelas imagens, fundadas essencialmente na tristeza e na inveja infantis, eram extrapolações, figuras abstratas do que eu gostaria de viver ao lado daquele amigo e não poderia, porque ele havia sido roubado de mim.</p><p>Hoje, no entanto, senti a pequena melancolia a partir de uma certeza mais objetiva, mais real.</p><p>Não cabe aqui, Anna,<em> (e espero que me perdoe por manter esse mistério desnecessário nas linhas e entrelinhas que te escrevo, querida amiga)</em>, te contar sobre a pessoa que é o foco de minhas saudades. O que busco com essa carta é te dizer que esse vislumbre nítido do futuro, tomado a pequenas gotas de informação, a pequenos lampejos conclusivos, vem me consumindo como sentimento nenhum já veio a consumir. Essa assertividade com a qual o tempo sempre se demonstra inexorável, a inevitável conclusão de que tudo se seguirá na vida de todo o ecossistema caso eu ou você façamos falta na Terra, por mais óbvia (e recorrente em meus escritos) que seja, se demonstra com muito mais maldade quando se tem algo ou alguém de quem se sente saudades.</p><p>É como se, ao se ouvir um nome, sentir um perfume ou achar um pedaço de papel antigo com uma caligrafia inconfundível, me sentisse na posição oposta à de se observar estrelas no céu. É como se me afastasse cada vez mais rápido da Terra, vendo o futuro se revelar em minha frente sem poder fazer nada para alterá-lo.</p><p>As memórias, nesse caso, viram um mero amuleto, uma representação simbólica que junta impulsos nervosos à reflexos sensitivos, não muito diferentes de qualquer adaptação evolutiva questionável, como os seios paranasais ou os terceiros molares.</p><p>E a dor que vem desse estímulo sensitivo, Anna, não é muito maior que uma crise de sinusite ou a de um siso crescendo. A melancolia, no fim das contas, ainda é pequena. Eu só era mais acostumado a querer voltar no tempo do que me ver pedindo aos céus pra que ele pare de passar.</p><p>Como traduzir isso em uma só palavrinha?</p><p><em>Любовь — это собака из ада,<br>Murilo.</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=6323638cf26c" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/correio-expresso/%C3%A0-senhorita-a-zakharova-em-algum-lugar-de-munique-6323638cf26c">À senhorita A. Zakharova, em algum lugar de Munique.</a> was originally published in <a href="https://medium.com/correio-expresso">Correio Expresso</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Kosmich-Latte]]></title>
            <link>https://pepler.medium.com/kosmich-latte-4586908d71a7?source=rss-3cddc38b37cb------2</link>
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            <dc:creator><![CDATA[pepler]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 18 Aug 2021 21:43:48 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2021-08-18T21:43:48.343Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h4><em>(Junho de 2015)</em></h4><p>O tornear das tuas pernas me lembra o vaudeville. Teu olhar de soslaio, burlesco, quase profano, delineado em interrogações, ioniza nossos opostos. Complementa-se, salino. Em parcelas, à moda atual, te conto dos sonhos mais distantes, das vontades mais jovens. E se me reconforto nas palavras simples, de desconversa, é porque, no fim das contas, espero o oposto de você. Espero a tua arte. Espero os traços fracos, retos, a aquarela que colore a visão pouco nítida que resta de você nos confins da minha memória. Com pouca ou nenhuma preocupação sobre as pinceladas serem uniformes.</p><p>São quartas-feiras endomingadas. Daquelas em que a brisa bate leve, recende a morango, o caos da cidade vira um uníssono, harmonioso, o tempo parece fazer parar. Mas não para.</p><p>(Não que se deva pensar muito em Destino. Até segunda ordem, isso não passa de invenção. Há ações e reações, e o próprio Universo é não muito mais que uma simples coincidência).</p><p>Todavia, claro, tudo demanda uma outra abordagem quando nos deparamos, assim, com um Universo inteiro, novo, inexplorado. Em expansão. As leis da física se deterioram, atiradas ao chão, os íons não respeitam as proporções de outrora, sequer a interação nuclear forte é mais a mesma.</p><p>São estrelas, pulsares, planetas que não seriam cognoscíveis a ninguém, não fosse o quanto se assemelham ao tornear das tuas pernas. As galáxias espalhadas pelo teu corpo, das quais os cientistas conhecem apenas uma fração. É tudo suscetível à imaginação, à criatividade, à vontade de descobrir os sistemas planetários que cada célula epitelial tem.</p><p>O som não pode se propagar no vácuo, mas entre as pinceladas não-uniformes de cada detalhe teu há acordes com sétima e diminutos, tudo é vaudeville. Recende à madeira, todas as cores viram sépia. E logo desviram.</p><p><em>(Sinestesia).</em></p><p>Porque também não há teatro de revista que se sustente sem delicadeza. E não há bastonetes ou cones o suficiente para traduzir toda a leveza do teu voo. Não há dualidade, não há dúvida. O momento simplesmente é. E o que passa pela retina é só a superfície, o Sistema Solar, o secundário. Que já encanta só pela grandeza. Pelo vermelho cintilante dos teus cabelos e o teu sorriso.</p><p>E sem grandeza, a magnitude aparente beirando o negativo, com as palavras de desconversa, mal chego ao outro lado da rua. Quem dera o cosmonauta fosse eu. A procurar em cada canto do vazio amedrontador um planeta, uma lua que fosse, não para observar, mas para chamar de minha. Nossa. Uma partezinha ínfima de um Universo em expansão, intangível a quem sequer consegue dar um salto para trás.</p><p><em>(Cinestesia).</em></p><p>É a gravidade que me puxa de volta. Me põe pra fora do teu tempo e espaço, me enterra em problemas, vícios, dias automáticos, poesia minimalista. A exatos 9,80665 m/s².</p><p>E aí o uníssono do caos dessa grande cidade se vai. As buzinas, os motores, o falario, tudo revolve à polifonia usual. Ainda se ouve o último violino, ao fundo, abafado. Não lembro mais do teu rosto.</p><p>O que me sobra são as associações. Ainda desenho cosmonautas em viagens interplanetárias, ainda penso nas cores primárias, agora foscas, em tons pastel, ainda delineio teu corpo em mim. Na solitude, só me falta tua voz. Pelo timbre, não pelas palavras.</p><p>Pois não há interferência destrutiva nas vozes. Não há contrastes ou divergências. Palavras são pouco mais do que cones e bastonetes, nunca aptos a de fato transcriar o que se passa pelo Universo afora.</p><p>É só no ritmo da fala, no timbre, nas notas acidentais que se materializa o ar. A atmosfera. Esqueço das cores, da pele, dos aromas. Se teu corpo é uma galáxia e tua mente é um cosmos, me permita conhecê-los pelo som. Pelas frequências ditando como meu corpo deve vibrar. E aí, então, para cada nota, haverá algo que recende, ilustra e me toca. Haverá o teu gosto.</p><p>Logo ali, na ponta dos meus lábios, a arte.</p><p><em>(Cenestesia).</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=4586908d71a7" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Discrasia]]></title>
            <link>https://pepler.medium.com/discrasia-2f9f3ae07d5d?source=rss-3cddc38b37cb------2</link>
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            <dc:creator><![CDATA[pepler]]></dc:creator>
            <pubDate>Sun, 04 Jul 2021 09:12:11 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2021-07-12T06:17:41.771Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h3>I. Sobre a fleuma</h3><p>Na continuação da rua onde moro, ao que devem ser uns dois quilômetros daqui, existe um pequeno monumento à Língua Portuguesa. Lá, ignorando-se boa parte de cinco séculos de colonialismo, escravidão e guerras civis, totens de pelo menos dois metros de altura celebram um por um a comunhão vernácula entre os países da lusofonia.</p><p>Ao seu lado, como não poderia ser diferente, um pequeno bosque, com trilhas pavimentadas e pequenos lagos cheios de vida são pontuados por ainda mais totens, dessa vez com trechos de poemas de escritores portugueses, brasileiros, angolanos, moçambicanos…</p><p>Seria fácil se enganar ao caminhar por essas trilhas, regozijando-se ao pensar que o que nos une são aquelas palavras, postuladas em pedra e azulejo, fincadas na História como as raízes das araucárias que refrescam o ar seco e pungente do inverno de Curitiba.</p><p>Seria, talvez, ainda mais fácil rejeitar tal união por total, e ver como ponto único em comum a inabilidade de nos comunicarmos em qualquer idioma que não o de nossos velhos mestres, cujo poder de influência e subjugação dói até nas palavras de amor mais belas que possam ser um dia escritas por aqueles que nascem dentro dessa ou daquela linha arbitrária que divide o mundo.</p><p>Tudo isso, claro, é míope e ingênuo, porque daqui de cima de um pequeno planalto, totem algum nos ajuda e enxergar o que realmente nos une: as águas.</p><p>As águas que trouxeram Pero Vaz, que tomaram a vida de milhões de escravos, as águas por onde balas de canhão passavam e caíam, para depois afundar. Por um detalhe impiedoso do planeta, aquelas mesmas águas estão não só em seu corpo, nos legumes e nas torneiras, mas grande parte ainda jaz, plácida e límpida, em algum ponto do mesmo Oceano Atlântico.</p><p>O mar aberto, por vezes tão amedrontador e intrépido, tão pleno de mistérios ahabianos, pode se revelar então como um duplipensar, uma ponte e um muro que coexistem a depender do impulso do leitor a buscar se conectar com suas raízes europeias ou africanas, a compreender um velho senhor relembrando palavras de sua infância em Macau ou Goa.</p><p>Contudo, pontes e muros costumam ser a antítese da água, e não sua extensão sintética. Somos ensinados a temer sermos afogados, a evitar de nos molharmos com a chuva, a compreender os benefícios da água em méritos quase homeopáticos, revelando o problema de escala com o qual sofremos sempre que o objetivo é generalizar, tecer comentários holísticos sobre a Vida, o Bem e o Mal.</p><p>Ainda assim, creio não ser nada nesse elo tão fraco que de fato nos une. É a presença física das águas, são as marés ditadas pela gravidade lunar, as correntes subordinadas à rotação terrestre, são as setas nos mapas, tão inexoráveis quanto a certeza da direção dos rios a arrancarem e levarem consigo as rochas, até que o tumulto se interrompa e, em algum lugar logo acima da Dorsal Mesoatlântica, a maldita paz reine, levando consigo o sal da terra, que arde, arde, até não arder mais.</p><p>É somente lá, naquele ponto de inacessibilidade, onde, desprovido de astrolábios e sonares, talvez esses totens possam fazer algum sentido. A calma que as lagoas e araucárias fingem trazer consigo disfarçam o peso das palavras, mas não as fazem flutuar; é somente a previsibilidade dos grandes corpos d’água, como num grande exercício de meditação, que permite ver no outro, a leste ou nor-nordeste, algo de humano.</p><h3>II. Sobre o sangue</h3><p>Madrugadas são terríveis, né?</p><p>Sempre que alguma desgraça da vida me faz virar a noite em claro escrevendo livros inteiros na cabeça, relembrando causos de 2013, pensando naquela palavra que usei errado naquela vez, que nunca mais vou poder corrigir…</p><p>Sempre que penso em como talvez mudar o rumo daquela conversa, que em certa ida acabou com as chances que tinha de fazer qualquer coisa, que teria me feito mais feliz do que a coisa que de fato ocorreu, me pergunto qual o sentido de tudo isso.</p><p>De estar me punindo de novo, sendo obrigado a conviver com os meus próprios pensamentos sem poder fazer nada sobre isso, sem poder colocar um disco bem alto bem sem sentido pra cantar mais alto ainda até fazer menos sentido ainda.</p><p>Meu Deus, como eu sinto falta daquele dia em que viajei pra Lapa com três amigos e uma outra pessoa que eu nem conhecia. Eu não lembro nem o nome daquela menina.</p><p>Lembro que ela tinha uma vó lá e ela deu café pra gente e pão de queijo e aquele pão de queijo era incrível, lembro no fim de tarde de todo mundo sem bateria no celular e eu com medo de não saber voltar pra casa sem GPS porque eu tinha acabado de tirar a carteira e era a segunda vez na vida que pegava estrada dirigindo e eu não sei nem se a Lapa fica a norte ou oeste daqui mas de algum jeito deu tudo certo e ninguém morreu e foi uma aventura incrível e tudo o mais.</p><p>Pior de tudo, como é destruidor não poder falar com você nem com ninguém sobre isso porque as madrugadas são horríveis e todo mundo tá em silêncio, o que é compreensível, incompreensível mesmo é eu ainda estar acordado sem poder falar nada pensando naquela vez em 2014 que dormi na rua em São Paulo porque não consegui pegar o último ônibus pra Diadema pra ir dormir na casa de uma amiga de um amigo pra ficar de um dia pro outro do Lollapalooza e aí acabou que o ponto de ônibus tinha luz e pareceu o melhor lugar pra tomar a pior decisão possível e de algum jeito nada de ruim aconteceu e no outro dia sete da manhã estava eu de novo em Interlagos curtindo uma fila cheia de fãs do Arcade Fire ou sei lá que banda ia tocar naquele dia.</p><p>Esse tédio que nada tem a ver com ócio criativo vai corroendo a gente de pouco, e eu tenho uma amiga que diria que isso é o sol em sagitário gritando por liberdade do ascendente em gêmeos, mas pra ser sincero será que isso faz diferença? É claro e óbvio e latente que a única coisa que eu preciso pra ficar feliz é respirar ar puro, e na verdade nem precisa ser puro no sentido Natureza das coisas não, eu não quero é esse ar reciclado de quarto e casa que parece que é o mesmo ar de ontem que era o mesmo do ano passado e que parece que só serve a esfriar quando tá calor e esquentar quando tá frio, o que obviamente é bom se o que você quer é se sentir sempre do mesmo jeito e fingir que existe um estado normal das coisas e se você fica se cobrando por estabilidade, mas sinceramente será que é crime pedir por um pouquinho só de instabilidade? Só um passinho fora da faixa, uma loucurinha comedida, um ar fresco pra inundar um cômodo e me deixar gripado ou alegre ou com pressão baixa ou com qualquer sensação que não seja o tédio que nada tem a ver com ócio criativo?</p><p>É terrível, horrível demais pensar que já se vão dois anos desde a última vez que eu vi alguns vários amigos que eu gostava muito, podia até dizer que amava se tivesse caído o salário naquela semana e eu estivesse com uma sacola meio molhada cheia de cerveja Lokal na frente do Paradoja às três da manhã com um dos tiozinho ali enchendo o saco pra vender um resto de sabe Deus o quê e você falando que tá de boas, e pensar que no fim das contas essa pandemia mostrou que ninguém ali amava ninguém mesmo tirando aqueles dois ou três que sempre estão mais por perto e na realidade era todo mundo num mutualismo padrão líquen até que de repente todo mundo percebeu que a vida segue mesmo sem essas várias pessoas que de repente não existiam mais em três dimensões e depois de dois anos e sabe quanto mais que falta pra poder viver normal de novo como vai ser retomar qualquer contato com essas pessoas ou se vai mesmo ser possível retomar esse contato no fim das contas e se isso vai fazer sentido</p><p>Mas será que isso quer dizer que aquele gosto ou amor bêbado era necessariamente uma mentira? A pior tortura de não poder conversar nem com eles nem com você nem com ninguém é ter que buscar respostas sozinho, ser obrigado a ir lá conversar com o meu âmago sendo que o meu âmago é um horror de segurar uma conversa porque não traz nada de diferente, o que novamente faz todo o sentido mas tudo que eu queria ouvir era uma voz diferente que trouxesse algumas palavras que eu não costumo usar e pudesse fazer um pouco de barulho igual naquela música do Arctic que fala do <em>acrobatic blood flow concertina cheating heartbeat rapid fire</em> só que de repente tudo que podia ser algum barulho na minha vida vira um silêncio desgraçado de chato e talvez ninguém se interesse muito mesmo nas histórias que geralmente eu conto porque todas elas giram em volta de alguma viagem que ninguém estava e memórias específicas que só eu poderia acessar, mas talvez se você colocar um plot twist no final de propósito ou tentar contar com algum cliffhanger as pessoas gostem????</p><p>acima de tudo, acima de tudo mesmo eu fico pensando naquela carnaval de 2020 que no domingo eu fui com uma amiga de novo no Paradoja e na fila pra comprar cerveja tinha uma menina que ficava olhando incessantemente pra mim e eu meio que achei ela muito bonita mas arranjei dois motivos pra não ir lá falar com ela, um era simplesmente o fato lógico aristotélico irrefutável de que ela não devia estar pensando a mesma coisa que eu e que se estivesse olhando pra mim na verdade seria aquela outra música do Arctic <em>she’s looking at you funny rarely looking at you twice </em>além do que eu achava que deixar a minha amiga sozinha na fila seria muito ridículo da minha parte só que daí coisa de uns quinze minutos depois a gente ainda tava na fila e apareceu um cara dando em cima da minha amiga e aí ela simplesmente saiu da fila e foi sabe Deus pra onde dar umas bitocas no piá e aí eu pensei “muito que bem” e fui procurar a menina de antes só que ela não estava mais lá e aí eu passei umas duas horas contemplando o vazio no meio do carnaval com um monte de gente dançando e se divertindo até que daí eu decidi só ir pra casa mesmo e foi até bom porque depois parece que deu tiroteio ali perto mas sendo sincero talvez naquela altura de 2020 eu aceitaria estar perto de um tiroteio por umas bitoquinhas mas hoje em dia acho que não</p><p>no fim das contas se for pra ser ultra sincero mesmo o que eu fico mais pensando de madrugada assim é o quanto antes de ficar em casa e viver apenas online eu usava desse comportamento social enquanto escudo pra não ter que lidar com as coisas que eu vejo na minha própria cara e odeio muito porque de certa forma se você está no rolê e entra numa espiral meio negativa das ideia você pode simplesmente passar um tempo sem falar nada e sem ser palhaço de circo fazendo piadinha e simplesmente a roda continua a girar e todo mundo fica conversando entre si e você pode fingir que está mexendo no celular e nem tem nada de mensagem mas você pode simplesmente ver as coisas acontecendo e os teus amigos conversando e opa olha lá acabou de entrar pela porta do pizza pie a sua ex sei lá e tá tudo bem porque naquele breve momento ali você tá só observando a realidade acontecer como se fosse um filme e nada te afeta e você não precisa pensar que a sua própria existência e essa sua cara de trouxa na verdade afetam sim o que está acontecendo e logo logo o menino lá que toca na tulpa vai te chamar pra jogar sinuca na tua vez e aí você inevitavelmente vai ter que passar pelo outro cara amigo deles que agora tá beijando a tua ex e daí eventualmente sim você vai precisar ter que dar oi e tal e buscar não tornar a situação uma merda e por alguns minutos você pode só focar em encaçapar a bola 4 que parece que tá amaldiçoada mas quando você for embora dali dirigindo ainda meio bêbado porque você foi um inconsequente de novo você vai lembrar daquela cena e vai ficar puto da vida consigo mesmo e essencialmente a vida desde que tudo isso de pandemia começou é essa eterna volta pra casa sozinho depois do rolê fumando o penúltimo winston da carteira só que 24/7 sem pausa pra sinuca nem pra ter uma paixãozinha direito porque não tem como se camuflar na manada mais e na internet a sua versão consegue ser mais ou menos pior do que o pacote completo pessoalmente que já não é assim grandes merda e no fim das contas a falha online que você representa é mais vida real nua e crua do que você pagando de famoso depois do show do último rolê do mundo porque todo mundo veio te parabenizar mesmo que no fundo você soubesse que o show foi mais ou menos e que geral só queria fazer uma média mesmo mas já que a ideia era todo mundo fingir então vamo fingir também né bora se fazer de famoso galã sendo que mesmo no fim desse rolê que era pra ser o ápice você ainda chegou em casa sozinho no maior silêncio ainda revisitando merda no filminho da cabeça e tendo que carregar duas guitarras um baixo e uma porra de uma bateria sozinho em 4 viagens porque a diferença entre a solidão na multidão e a solidão de verdade é que uma você sente na hora igual um tapa na cara pra deixar de ser otário e desde então o único sentimento que você de fato se permite é esse de se sentir otário não importa o que aconteça se você se proíbe de se apaixonar você é otário se você se permite se apaixonar você é otário se você sai pra ir na praça você é otário se você fica trancado em casa um mês inteiro você é otário se você limpa a casa você é otário se você fica sendo vagabundo deixando louça acumular você é otário se vc bloqueia gente que te enche o saco vc eh otario e se vc depois de meses decide puxar papo vc eh mais otario ainda e na moral na moral mesmo nem ta errado eh otario sim mas n tem problema necessariamente pq se por um lado n rola mais se esconder na multidao se esconder em casa sem falar com ngm sem interagir com ngm tbm eh um solucao parabens e se isso leva a algum dano irreparavel das relacoes que vc tinha la no passado distante de 2019 puxa vida que pena vai ver eh pq nao era pra ser mesmo kkkk entao o negocio eh ir ler o hipocrates de cos pqele sim sabe de todas as coisas !! o cara q literalmente achava q geral ficava doente pq tinha mais sangue q catarro no corpo simplesmente mitico genio mesmo e o pior de tudo eh q essa eh literalmente a melhor opcao p vc numa quartafeira de dois graus e se nao for isso eh ir lavar louça c agua gelando e ficar com as mao azul e rolando na cama de frio anyways entao no fim das contas eh meio fodase pelomenos vc nao esta morto, e alem disso</p><h3>III. Sobre a cólera</h3><p>“Ave Nero!”, diz o ator nitidamente despreparado para o papel ao segurar um violino de brinquedo — não devia haver verba para uma lira — naquele palco de pouco mais de cinquenta metros quadrados. O diretor da peça então aperta um botão e pelos alto-falantes daquele teatro começa a rosnar em qualidade contestável um trecho de alguma peça de Bach, deslocando a cena pelo menos dezesseis séculos para frente.</p><p>“Ave Nero, toque para que o fogo dance!”, diz o ator ao fingir encostar o arco nas cordas frouxas do brinquedo. As luzes no seu rosto agora são de um laranja pálido, que em nada dá a impressão de que algo queima. No entanto, a cena fica instantaneamente marcada na memória de todos que ali estão quando, de supetão, um dos que ali estavam grita “fogo!”.</p><p>O que parecia apenas uma piada de mal gosto logo virou tragédia, porque eu e os quinze que compúnhamos aquela plateia sentimos ao mesmo tempo o cheiro quente da fumaça assim que a porta de madeira que dava para a entrada do <em>backstage</em> caiu, revelando labaredas de fogo de proporções dantescas. Os dois ou três minutos que se seguiram foram de pânico e caos total, mas, por ventura de estarmos assistindo a uma peça independente, sem problemas de tumulto, logo eu mais os quinze, o diretor e os cinco atores estávamos a salvo, ainda que tossindo e cobertos de fuligem, a uns 30 metros de distância do teatro que agora ardia plenamente em chamas, divididos em três grupos.</p><p>O primeiro grupo, que consistia no diretor, dois dos atores e quatro espectadores, estavam em desespero tentando acionar os bombeiros. Entre o diretor gritando lamentos de que seu celular havia ficado dentro do teatro, os atores buscando acalmá-lo e um dos espectadores finalmente se lembrando do 193, eles eram os únicos que buscavam de alguma forma resolver o problema.</p><p>O segundo grupo, que estava um pouco mais afastado do resto no gramado em que todos estávamos, consistia em dois atores e nove espectadores. Esse era o grupo dos desesperados. Ainda cobertos em fuligem, de lágrimas incessantes nos olhos, trocavam abraços e palavras engasgadas de consolo, sem conseguir compreender nada do que havia acontecido, sentindo que suas vidas haviam acabado de lhes serem devolvidas por um milagre. Entre eles, havia uma criança, provavelmente filha ou irmã de algum dos atores, que era a mais serena entre todos, talvez por não entender exatamente o que acabara de acontecer.</p><p>E o terceiro grupo, muito próximo ao primeiro mas sem participar da ação, consistia de uma espectadora, o ator que fazia Nero e eu. Nitidamente unidos pelo vício em tabaco, ainda que a fumaça de cigarro fosse somente a segunda mais preocupante naquela situação, estávamos os três com uma das mãos levada à cabeça e a outra segurando o maldito objeto abjeto.</p><p>Nero vem a mim:</p><p>— Licença, tem outro desse pra filar?</p><p>— Tenho, moço, senta aqui — dou o espaço da árvore para que ele se sente.</p><p>A espectadora, que até então não havia dito nada, viu ali a oportunidade de quebrar o silêncio:</p><p>— Hein, sabe o que eu acabei de ver? Na hora de correr pra fora, deixei cair minha carteira da bolsa. Me fodi.</p><p>— Tinha os documentos, tudo lá? — perguntei.</p><p>— Tinha, tinha cartão e tudo. Pelo menos a chave do carro ainda tá aqui. Acho que agora não tem como voltar, né?</p><p>— Não tem, moça…</p><p>O que não mencionam frequentemente sobre incêndios é a beleza abstrusa que eles trazem consigo. Aquele teatro, inocentemente construído todo em madeira, ia mudando de forma ao passo que as chamas dançavam. Não deixo de perder a ironia:</p><p>— As chamas dançaram mesmo, Nero. Cuidado com o que deseja…</p><p>— E sabe o pior? Quando eu tava lá, tava em cima do palco, eu podia jurar que tava vendo labaredas rodopiando. Achei que tava alucinando, que era isso que os atores foda deviam sentir, achei que tava vivendo o texto.</p><p>— E tava, né Nero? — a espectadora brincou de volta — você tá vivendo o texto, cara, essa é a tua pequena Roma. Aproveita o momento.</p><p>— Ai, eu bem que queria, viu? Mas não sei nem tocar isso aqui.</p><p>Nesse momento percebo que, no meio de todo o escândalo de vinte e uma pessoas correndo por uma pequena porta de vidro enquanto o Inferno se alastrava consumindo tábua por tábua o teatro, Nero havia se agarrado ao violininho que usara no palco e ainda o tinha ao seu lado.</p><p>— Nero, você é supersticioso? — pergunto.</p><p>— Sou umbandista, meu amor. E pode chamar de César.</p><p>— César o imperador?</p><p>— Não, amigo, César Schneider de Oliveira mesmo — respondeu ele com uma risada.</p><p>— Desculpa, César. Prazer, me chamo Otto. E você, do cartão de crédito? — pergunto, me virando para a espectadora.</p><p>— Pode chamar de Lu.</p><p>Lu apagou o cigarro e começou a prestar atenção no primeiro grupo, que agora nitidamente tinha um líder: o espectador que havia lembrado do 193. Ele falava em tom alto e claro com a pessoa do outro lado da linha, sabia o endereço daquela casinha (que ficava num bairro próximo do Centro mas curiosamente sem nenhuma outra casa por perto, isolada no meio de uma quadra inteira, com somente aquele gramado gigante de companhia), pedia para que viessem rápido e que haviam feridos.</p><p>Não haviam feridos, mas com certeza o segundo grupo adoraria passar por um <em>check-up</em> geral para ajudar a compreender o trauma. E que fique claro, todos nós estávamos ainda em choque, apenas lidando de formas diferentes. Talvez não fosse má ideia eu passar por um <em>check-up</em> também.</p><p>Ao sair do telefone, o espectador do 193 avisou a gritos para todos que a bombeira do outro lado havia ordenado que nos afastássemos mais do teatro, porque ele poderia implodir a qualquer momento e ali não era mais seguro. A essa altura, vários transeuntes haviam se juntado para admirar o espetáculo das chamas, que, faça-se justiça, já superava e muito a qualidade da peça em que todos estávamos engajados há coisa de vinte minutos antes.</p><p>Como se fosse de caso pensado, cada um dos grupos foi se juntar em um dos cantos da quadra, mais ou menos onde os curiosos estavam reunidos. Lu quebra novamente o silêncio:</p><p>— E você, César, tinha muita coisa lá dentro?</p><p>— Amiga, você nem imagina — disse César, novamente rindo de nervoso — tinha minha mochila, celular, caderno, tudo…</p><p>— Você tem ideia do que que foi acontecer pra dar essa merda? — Lu perguntou.</p><p>— Não, imagina. Cê viu de onde veio o fogo? — César perguntou olhando para mim.</p><p>— Foi da portinha que ficava no lado direito, no lado do palco — respondi.</p><p>— Do <em>backstage</em>? — perguntou César.</p><p>— Acho que sim, não sei — respondi.</p><p>— Então foi aquele filho da puta do João Cláudio, eu tenho certeza — disse César, agora mudando completamente de feição, com uma raiva explícita que pela primeira vez na noite o fazia de fato parecer um pouco com Nero.</p><p>Em suma, César contou a mim e Lu que o diretor da peça, João Cláudio Kovalski, tinha por costume fumar um beck antes de cada apresentação da peça, mas, segundo César, não sabia bolar a maconha direito. Como resultado, o cone que João Cláudio tentava fumar não apagava direito por dentro simplesmente pisando ou apagando a ponta com o dedo.</p><p>— Semestre passado a gente se apresentou no TUC e deu merda com isso, porque ele jogou o troço aceso num lixo e o lixo pegou fogo! Fez uma fumaceira que chapou todo mundo na plateia — disse César, em tom meio de piada e meio de quem estava planejando um assassinato ao ar livre numa quinta-feira à noite.</p><p>— Mas não tinha ninguém lá atrás pra ver isso? — perguntou Lu.</p><p>— Não Lu, meu bem, a gente precisava se virar, né. O Tim ficava operando a luz enquanto eu e a Cíntia tava no palco, o Felipe ficava com as roupas pra gente trocar rapidinho e a Giu trocava os cenários…</p><p>Tim e Cíntia, pelas coordenadas corporais de César, eram os atores do grupo que tentava resolver, e Felipe e Giu, que pareciam ser um casal, agora já mais calmos, conversavam sentados junto ao grupo dos que ainda lamentavam como se uma bomba da Luftwaffe acabasse de atingir as suas casas.</p><p>— Você acha que tem a ver, César? — voltei à pergunta que antes havia sido esquecida.</p><p>— O quê?</p><p>— A peça com tudo isso. Você acha que mexeu com a ira de Nero por trocar a lira por um violino?</p><p>— Eu acho só que o nosso diretor é uma bicha cherolaine que fodeu com todo mundo, Otto meu bem.</p><p>— Ah, isso pelo que você falou eu nem questiono mais. Mas será que foram os espíritos de Roma que trouxeram ele até aqui, exatamente nesse lugar, pra cumprir a profecia?</p><p>— Mas faz sentido pra cumprir a profecia os deuses terem que ter batido a minha carteira? — perguntou Lu.</p><p>— Eu acho que sim, Lu. Eu acho que sim, porque se foram os deuses, por exemplo, os deuses do Olimpo, eu acredito que ninguém aqui tenha muita fé neles hoje em dia. O César por exemplo, ele acredita nas entidades, né César? Nas entidades da Umbanda. Eu, eu fui criado na Igreja Católica, mas pode-se dizer que eu não acredito em nada.</p><p>— Nada? — perguntou Lu.</p><p>— Sim, acho que em nada.</p><p>— É por isso que você frequenta o teatro independente? Pra testar tua falta de fé vendo gente pelada em cima do palco?</p><p>— Ei guria, você sabe que o teatro é muito mais que isso! — disse César, defendendo sua classe como um líder sindical.</p><p>— Não, assim… me diz você então, Lu, qual a sua religião?</p><p>— Eu não tenho, mas também não diria que não acredito em nada.</p><p>— Teísta não-afiliada?</p><p>— Poder da Mãe Natureza.</p><p>Num segundo momento de coincidências dramáticas daquela noite, assim que Lu invocou os poderes de Gaia, num estrondo que até hoje penso que causou alguma lesão auricular em todos nós, como havia alertado a bombeira, aquela pequena casinha de fato implodiu. E caso não estivéssemos nos distanciado mais, os pedaços de madeira flamejantes com certeza haveriam arrancado a cabeça de algum de nós.</p><p>Aquela cena foi brilhante, catártica, havia uma vontade geral de encerrarmos aquele espetáculo com uma salva de palmas. Assim que os poucos gritos de susto e de fim de horror passaram, a sirene do sempre tardio caminhão dos bombeiros ecoou pela Rua João Negrão.</p><p>— Alguém quer uma cerveja? Vou ali no posto — disse Lu, como quem de fato acabara de assistir a um espetáculo e já planejava o <em>after</em>.</p><p>César e eu topamos, e, após ter de explicar ao dono do posto da quadra em frente o que é que havia acontecido com o teatro, como não havia muito lugar pra ir, sentamos novamente em volta de uma das árvores daquele extenso gramado.</p><p>— Alguém sabe se aqui era tombado pela Prefeitura? — perguntou Lu.</p><p>— Era — disse eu, que, por ventura, calhei de trabalhar no setor de Patrimônio da Prefeitura digitalizando arquivos por uns anos.</p><p>— Vai dar muita merda pro diretor se descobrirem o que deu o incêndio, será?</p><p>— Vai. Mas dependendo de como estiver tudo lá dentro, é muito difícil de saber o que foi que começou. Pode ser uma faísca na rede elétrica, um curto…</p><p>— Você faz o quê da vida? — perguntou César.</p><p>— Hoje eu trabalho com licitação pública — Lu me interrompe para dizer “uh, que sexy…” — mas já fui da gestão do Greca de Patrimônio e Cultura.</p><p>— Tem muito prédio tombado que pega fogo? — perguntou César.</p><p>— Menos do que você imagina. Sempre que tinha alguma coisa, costumava ser vazamento de água, alguma coisa que tinha um bolor, algum papel de parede bicentenário que tinha virado em nada…</p><p>— E você, Lulu? É escritora? Você parece escritora — disse César.</p><p>— Eu sou… estudo jornalismo. Na verdade, ia escrever uma resenha da peça. Pro jornal do curso, na verdade, ainda não formei. Sim, UFPR.</p><p>— Já tiveram que noticiar algum incêndio? — perguntei.</p><p>— Esse vai ser o primeiro, acho.</p><p>Entre um gole e outro de Brahma, fomos conhecendo um pouco mais uns dos outros. César, ainda com aquela fantasia de imperador romano e o violininho a tiracolo, contando sobre a vez que deu um tapa no rosto de João Cláudio e isso fez com que o diretor se apaixonasse por ele e até hoje o desse os papéis principais, não importa quais fossem. Lu, ainda com um pouco de fuligem no rosto, contando da vez em que era criança, estava com seus pais em Contenda e o vizinho foi soltar fogos no título de 2001 do Athletico e acertou na própria casa. E eu, pensando incessantemente se, antes de sair de casa para ir àquela peça, havia desligado o forno.</p><p>A ação dos bombeiros foi outro espetáculo à parte. A mangueira como projeção fálica daqueles homens e mulheres bravos e competentes, os paramédicos dando calmantes aos espectadores e atores desesperados, envoltos em toalhinhas, enquanto nós três ríamos baixinho para disfarçar o escárnio.</p><p>De pouco em pouco, os curiosos todos sumiram. Os espectadores também. O casalzinho de atores foi embora de Uber, dois ou três do grupo dos solucionadores ajudavam o diretor a dar as primeiras explicações aos bombeiros lá longe, e de repente César se foi. Seus colegas reassimilaram sua existência, o chamaram para se reunir ao grupo e, como num passe de mágica, Nero, Boadiceia e Esporo se abraçavam em apoio mútuo.</p><p>Como o momento pareceu oportuno (e ela havia chamado minha função pública de sexy), convidei Lu para minha casa, onde poderíamos continuar a conversa e eventualmente nos apaixonarmos num romance lascivo e forjado em fogo. Ela educadamente recusou, disse que com certeza talvez numa próxima quem sabe, se despediu com um aceno em direção a seu carro, sem trocarmos telefone ou nada, ao que me restou ir à ambulância realizar um <em>check-up</em> e depois fazer o mesmo.</p><p>Chegando em casa, o forno estava desligado.</p><h3>IV. Sobre a melancolia</h3><p><em>Curitiba, 2 de julho de 2021.</em></p><p><em>Querida Amanda,</em></p><p>Do subsolo ao quinto andar, onde moro, são 76 degraus. Há anos fico perplexo com o degrau a mais que existe entre os andares 4 e 5. A julgar pelo olhar, todos os andares têm a mesma distância entre si, os degraus têm a mesma altura, e nada justifica os grupos uniformes de quinze serem abruptamente interrompidos assim, sem explicação, sem uma razão satisfatória.</p><p>Da mesma forma, o fato dos grupos de quinze serem o padrão das escadas me parece ainda mais ilógico. Acabamos sempre entrando com um pé naquela breve jornada para sairmos com o outro. Animais bípedes que somos, de simetria bilateral, com um par de olhos e outro de rins, sendo obrigados a lidar com a assimetria de números ímpares simplesmente para se chegar em casa!</p><p>Não que a assimetria seja por si imperfeita. Afinal, embora tantos cientistas tenham dedicado suas vidas inteiras à descrição da Natureza por equações e modelos matemáticos, a exatidão por eles proposta existe só nos modelos; a Natureza se esforça ao máximo para ser <em>quase aquilo</em>.</p><p>E nós — não há surpresa nenhuma em nada disso — sendo parte desse todo, carregamos conosco nossas imperfeições. E é sobre isso que busco te escrever, Amanda.</p><p>Porque esse lugar comum de erros e defeitos que alegadamente todos temos é em teoria algo que deve horizontalizar as relações humanas, colocar todos nós em um mesmo patamar, sujeitos a falhas, incongruências e equívocos, todos num mesmo balaio de potenciais catastróficos.</p><p>Por que é, então, que nossos próprios defeitos doem tão mais que os defeitos dos outros?</p><p>Claro, existem diversas explicações plausíveis advindas da psicologia, da neurociência, do horóscopo e da bula de remédio. E todas elas podem fazer algum sentido, a depender do que buscamos acreditar, com suas lógicas próprias, seus postulados e dogmas.</p><p>Ainda assim, dói. Por quê?</p><p>Lembro quando era criança, e certo dia estava lendo histórias em quadrinhos da Turma da Mônica. No meio do gibi, como deve ser até hoje, havia passatempos para se completar com lápis e aprender algo. Naquela época, com uns 4 anos, eu já sabia ler e escrever, mas ainda tinha alguma dificuldade com números. O passatempo com que me deparei pedia para se ligar os pontos pares, para que então se revelasse um desenho.</p><p>Sem saber por onde começar, chamei minha mãe, que prontamente arranjou uma caneta e cinco minutinhos do seu tempo para me ajudar. Mas ela, professora de português, conhecida por ter bem pouco mais de intimidade com a matemática do que a criança que a acompanhava, além de provavelmente estar distraída com algo muito mais importante para a vida adulta que um gibi da Mônica, não percebeu que o passatempo pedia para que se ligassem apenas os pontos pares. Foi logo ligando todos eles.</p><p>Ao final, quando aquele passatempo havia se tornado uma maçaroca de linhas de caneta permanente interligadas sem absolutamente nenhum valor semiótico, a mãe percebe o erro, olha pra mim e diz com uma risada, tentando salvar aquela experiência desoladora: “Será que é uma esponja?”.</p><p>Não era uma esponja, mas de alguma forma consigo me lembrar exatamente da forma abstrata que aqueles pontos tomaram. Se vão duas décadas, e a angústia de não saber qual imagem, afinal, deveria ter sido formada, me fez guardar aquele desenho em seus detalhes. Me lembro do Chico Bento ao lado da esponja, com uma vara de pescar, sorrindo para mim. Me lembro da palavra <strong>pares</strong> em negrito, como se não pudesse ser ignorada de forma alguma. Mas foi.</p><p>E a grande lição que ficou desse ocorrido para mim, Amanda, não foi a imperfeição da minha mãe ao não conseguir ajudar o filho. As imperfeições de nossos pais, salvo melhor juízo, é algo que compreendemos muito antes dos quatro anos de idade. Muito embora os adultos possam parecer super-heróis aos olhos infantis, por conseguir abrir portas que não conseguíamos, nos erguer ao teto num esforço que parecia ter proporções hercúleas, são os mesmos adultos que nos faziam chorar, que nos obrigavam a comer coisas que detestávamos, que nos deixavam de castigo por algo que sequer compreendíamos.</p><p>Não, a imperfeição da minha mãe já estava claríssima para mim naquele dia. O que aprendi com aquilo foi a imperfeição da memória.</p><p>E não foi, claro, de um dia para o outro. Demorou muito tempo para que essa história voltasse para mim, num dia de repente. E cada vez que penso nela novamente, a memória da memória fica cada vez mais nítida. Se antes lembrava dela em termos bem gerais, agora lembro de detalhes da cena, lembro da minha reação, lembro das roupas que minha mãe estava usando, lembro da textura do chão onde estava sentado, e dela agachada com a caneta na mão. Além de, claro, lembrar de cada um daqueles pontos ligados.</p><p>Mas o que de tudo isso de fato ocorreu, Amanda? Ao que me parece, os detalhes que insiro àquela imagem não se diferem tanto dos detalhes de sonhos que tive e foram voltando com o tempo. Seria até mesmo correto dizer que eles “voltaram”, ou foram só criados espontaneamente?</p><p>É impossível dizer. Eu já não me lembro do que me lembrava antes. O que sobra de todo esse processo é a imagem final, não importa o quão distante ela seja daquele momento, há vinte anos, quando uma caneta distorceu um desenho que nunca foi de fato revelado.</p><p>E é esse o ponto pelo qual não consigo evitar a mais pura obsessão. Qual era a imagem a ser formada, caso somente os pontos pares tivessem sido ligados? Imagino que, pela vara de pescar que Chico Bento levava consigo, fosse um peixe. Mas será que ele realmente levava uma vara de pescar, ou esse detalhe foi adicionado por mim mais tarde? E se não fosse o Chico Bento, e sim o Cascão com um guarda-chuvas? Seria então uma nuvem se formando se ligássemos o dois, depois o quatro, depois o seis?</p><p>Se existem momentos definitivos, formadores, esse sem dúvida alguma é o meu. Naquela esponja, amorfa, permanentemente marcada por sobre a folha de papel, enxergo a mim mesmo. Produto de minha mãe, fruto de minhas próprias limitações, vago, frívolo, indeterminado. E no desenho, misterioso por si só e eternamente distante, vejo a todos os outros. Por mais que possa tentar adivinhar ou arbitrariamente decidir como os outros se reconstroem em minha mente, cada detalhe é uma invenção, uma fábula que conto a mim mesmo para preencher as lacunas, os poros vazios da esponja seca.</p><p>É como uma antiga fotografia impressa, que com o tempo vai perdendo sua cor. O céu vibrante vai se decompondo, revelando ao se misturar ao papel branco tons de azul-claro, como se o Sol estivesse cada vez mais perto até que não se veja mais nada.</p><p>São sorrisos gravados em tinta, que com o tempo se super-expõem, perdem definição, viram uma sugestão da alegria, e não mais sua representação. São árvores que o tempo desindividualiza, até que suas folhas virem um conceito, um signo a ser compreendido pelas beiradas.</p><p>É nessas imagens que eu não posso evitar passar caneta permanente.</p><p>Penso nas memórias que posso reescrever, redetalhar como quiser. Como um cientista às avessas, apanho o modelo da perfeição e risco por sobre ele, ligando os pontos ímpares ao pares, os primos aos de tabuada, os múltiplos de 3 aos múltiplos de 7. Ao final, crio minhas próprias pequenas esponjas, impossíveis de compreender, mas indubitavelmente minhas. O que mais eu poderia fazer?</p><p>São peças de arte contemporânea, Amanda. Daquelas exposições multimídia, onde telas, canções, esculturas e vídeos coabitam um mesmo ambiente, onde é impossível manter o foco, onde um poema leva a um violoncelo que leva a uma oficina de pintura corporal. Onde nada é de fato compreendido em sua totalidade, mas que se sai do <em>lobby</em> do museu com uma… sensação.</p><p>E essa sensação, essa impressão de se ter vivido algo marcante, dizia um professor meu, é talvez mais importante que a própria vida. A tridimensionalidade que se ganha na memória ao olharmos para uma foto, as pequenas camadas de epóxi que adicionamos às invenções, a nossa capacidade de conjecturar, é isso que faz da nossa realidade só nossa.</p><p>Isto posto, dado que isso ainda é uma carta, Amanda, penso agora em você, e na forma como construo sua imagem. Se antes defendi que as memórias e os sonhos têm mais em comum do que parecem, nesse caso reassumo ambos como iguais em seu valor nominal.</p><p>Existe um quadro chamado “A Bigger Splash”, do David Hockney. Esse quadro sempre me causou uma sensação única, uma confusão entre alegria, satisfação e ainda sim estranheza. As linhas e cores daquele quadro parecem reais demais, hiper-reais, como se viessem de um mundo similar mas distinto do nosso, onde proporções equacionais fossem de fato a descrição da Natureza. Tudo está estranhamente em harmonia, as cores se fundem perfeitamente, como se de fundo tocassem apenas oitavas de um piano em uníssono perfeito, irretocável, em ressonância como Io e Europa a orbitarem Júpiter.</p><p>No entanto, no centro do mesmo quadro, sem poder ser evitado aos olhos, há o tal <em>splash</em>. Se tudo que orbita aquele <em>splash</em> está em congruência quase gravitacional, os traços turbulentos que o representam revelam a impossibilidade daquele cenário. Tudo então parece mais frágil que anteriormente, esse outro mundo deixa de existir, e em minha frente há novamente só um quadro. Isso, claro, até que outra vez minha atenção seja capturada pelos detalhes daquele cenário e de repente um Universo inteiro seja recriado, dessa vez não pela memória mas pelo simples reflexo dos sentidos, no presente.</p><p>De forma análoga, é assim que construo e reconstruo sua imagem em minha mente, Amanda. As conjecturas, as impressões, as fotos e as palavras são como aquele cenário; trazem consigo um quê de hiper-real, de tradição aristotélica consigo. São cores delimitadas e com um degradê difícil de perceber, como o de um céu de brigadeiro, que a pino é bem pouquinho mais escuro que no horizonte.</p><p>São imagens enraizadas, criadas no cerebelo, indissociáveis dos sentidos físicos, relíquias pavlovianas (e que operam como tal).</p><p>No entanto, no centro da ação, jaz indelével o <em>splash</em>.</p><p>E nesse caso, tal qual na obra de Hockney, penso no <em>splash</em> em dois sentidos complementares. O primeiro, claro, ainda versa sobre a irreparabilidade do cenário como um todo. As imagens são rapidamente desconstruídas ao se pensar que nos tratamos de seres humanos, parte integrante da Natureza, com defeitos e erros, e qualquer um que já tenha se deparado com outro minimamente igual a si nem hesitaria ao apontar essa como a conclusão final dessa carta. Somos, de fato, todos imperfeitos.</p><p>O que de fato me fascina e também causa estranheza, no entanto, seja no quadro de Hockney ou na sua imagem em meu sonho-memória, é justamente o que não se vê. Naquela pintura, alguém acabou de pular na piscina, e tudo o que se registra é o efeito estrondoso que a gravidade de um corpo em movimento tem sobre fluidos newtonianos. Turbulência, energia cinética e efeitos de interface.</p><p>Mas quem era aquela pessoa?</p><p>Essa pergunta sem resposta, sem muito esforço, traz tudo de volta à tal da esponja. Essencialmente, existem três diferentes estados, três <em>quanta</em> em que construo e reconstruo sua imagem: o que se sente, o que se sabe e o que não se sabe. E as três estão em um permanente estado de impasse mexicano, em<em> Zugzwang</em>, como no equilíbrio tênue de Hockney, buscando uma resolução lógica que reúna ao menos duas dessas <em>quanta</em> em um só subnível energético. Quem tem a vantagem num duelo, afinal, é simplesmente quem atira primeiro.</p><p>E aí talvez esteja a grande imperfeição desse raciocínio, Amanda. Os passatempos, no fim das contas, são feitos para serem resolvidos com lápis. Ao invés de soluções equacionais, uma simples borracha ajudaria muito mais.</p><p>No momento, não encontro essa borracha em lugar algum, mas sei que ela está por aí, não só para mim como para você também. Precisamos só estar de lápis em mãos. Ainda riscaremos pontos ímpares em busca de uma imagem que faça sentido, ainda erraremos ao contar cardinais, mas, ei, desde quando a assimetria é imperfeita?!</p><p><em>Petite, cette vie c’est du charabia,<br>Murilo.</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=2f9f3ae07d5d" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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