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        <title><![CDATA[Stories by Renata G. Saraiva on Medium]]></title>
        <description><![CDATA[Stories by Renata G. Saraiva on Medium]]></description>
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            <title>Stories by Renata G. Saraiva on Medium</title>
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            <title><![CDATA[Antes que tomem o carrinho das mãos]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Renata G. Saraiva]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 23 Apr 2026 12:01:02 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-04-23T17:20:45.220Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<blockquote>Entre exames, cuidadores e filhos que começam a inverter os papéis, este conto encosta num medo difícil de nomear: o de envelhecer e deixar de ser dono da própria vida.</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*zEzTq_Z8CJHFQdu4_FyR4g.jpeg" /></figure><p>Meus filhos começaram a cuidar da minha vida sem que eu pedisse.</p><p>De uns anos pra cá, eles não perdem a chance de tentar enfiar uma estranha aqui em casa. Ficam à espreita, esperando qualquer deslize para me apontar o dedo.<br>Falam comigo como se eu fosse filho deles.<br> — Tá vendo, pai? Você tá começando a esquecer as coisas. Não é bom você ficar assim, sozinho. Deixa a gente contratar uma cuidadora pra te ajudar.</p><p>Me ajudar, que nada! Só me faltava essa: alguém plantada ao meu lado, observando cada passo que dou. Será que acham que não sou capaz de tomar meus remédios ou esquentar a própria comida?</p><p>Essa história toda começou só porque um dia esqueci que fui de carro jogar poker na casa do Arnaldo e voltei de Uber pra casa.<br>No dia seguinte, achei que meu carro tinha sido roubado.</p><p>Na verdade, nem foi bem assim. Eu só não lembrava onde tinha deixado. Mas isso acontece com qualquer um.</p><p>Foi o suficiente pra Luiza convocar os irmãos, como se ela mesma não fosse muito mais esquecida do que eu, e me fazerem passar por uma batelada de exames.</p><p>Queriam até me tirar do volante. Mas daquela vez, coloquei todos no lugar: se até o médico do Detran me considerou apto a dirigir, quem eram eles pra dizer o contrário?<br>No começo do ano, fiz novo exame pra renovar a carteira e não tive a mesma sorte.<br>Carimbaram minha carteira com um monte de restrições e, sem alternativa, aceitei o motorista que contrataram. Não essa história de cuidador.</p><p>Felizmente, o César é um rapaz reservado, muito bem educado. Quase não noto a presença dele em casa. Às vezes esqueço que ele está ali. Às vezes acho que ele acabou de chegar.</p><p>Outro dia, ele me ofereceu um copo d’água e eu levei à boca, bochechei automaticamente e cuspi no chão. Só percebi que não estava escovando os dentes ao ver os olhos arregalados dele, me encarando como se eu o tivesse insultado.</p><p>Não sei por que fiz isso. Talvez estivesse com a cabeça em outra coisa. Ou tivesse acabado de escovar os dentes, não lembro.</p><p>Implorei que não contasse pra ninguém, nem pros meus filhos. Mas tenho a impressão de que agora me observam como se eu fosse uma chama instável, a qualquer sopro prestes a se apagar.</p><p>Eles cochicham. Param quando eu entro. Acham que eu não percebo. Percebo tudo.<br>Hoje, César me levou ao supermercado. Pedi que empurrasse o carrinho enquanto eu riscava os itens na lista do meu caderninho.</p><p>A lista estava diferente da minha letra, ou talvez eu tenha escrito com pressa.</p><p>Saindo do caixa, encontramos a filha do Paulo. Advoguei a vida toda pra família dele.<br>Tentei apertar o passo, essa menina fala demais. Pior: gosta de falar da vida dos outros.</p><p>Não adiantou. Ela me interceptou na saída:</p><p>— Nossa, você está com o César! Ele é ótimo. Melhor cuidador que meu pai já teve. Que bom que está com ele.</p><p>Não corrigi. Sorri, ou algo parecido, peguei o carrinho das mãos dele, e saí empurrando.</p><p>Antes que ela me perguntasse sobre a minha saúde.</p><blockquote>Este conto faz parte da minha série de textos sobre cotidiano, memórias e afetos.<br>Se quiser acompanhar novas publicações, inscreva-se também <a href="https://renatagsaraiva.substack.com/">no meu Substack.</a></blockquote><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=1f00d7242515" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Do outro lado do vidro]]></title>
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            <category><![CDATA[short-history]]></category>
            <category><![CDATA[fiction]]></category>
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            <category><![CDATA[silence]]></category>
            <category><![CDATA[literary-fiction]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Renata G. Saraiva]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 12 Feb 2026 16:42:27 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-02-12T16:42:27.210Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Um conto sobre o que se vê sem ser dito.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/800/1*VlOHxGIXnTlknb9RY4mxdw.jpeg" /></figure><p>Dos objetos aqui de casa, sou o único que os encara todos os dias e que os vê quando acreditam estar sozinhos.<br>À minha frente ensaiam caras e bocas.<br>Às vezes me enfrentam. Noutras, se perdem dentro de mim.</p><p>São nesses momentos que se revelam. <br>As imagens, quando atravessam o vidro, deixam rastros invisíveis, vestígios do que tentam esconder.</p><p>Por isso, quando ela chegou e me olhou de soslaio, o sorriso colado no rosto, senti o vidro estremecer.</p><p>Havia algo na forma como pousou os olhos em mim, uma pressa, um brilho. Eu já tinha visto aquele brilho antes.</p><p>Jogou a bolsa ocre na cama. As roupas voaram. Restou apenas a calcinha.</p><p>Deteve-se diante de mim e ficou parada. O vapor do banho desenhava arabescos sobre o meu corpo polido. Por um instante, ela pareceu procurar outra coisa dentro de mim.</p><p>Quando ele entrou, ela ainda estava no chuveiro. Estranhou a cantoria e as roupas largadas pelo quarto, não era do feitio dela.</p><p>Tirou os sapatos e largou-se na cama.<br>Ficou quieto. O silêncio pesa quando não encontra onde pousar.</p><p>Ao sair do banheiro, ela deu um passo para trás ao vê-lo ali, como se a esperasse.</p><p>— Ah, você já chegou…</p><p>Ele demorou-se olhando para ela, a toalha colada ao corpo, ainda úmida de vapor.</p><p>— Você parece feliz. Cantando.</p><p>— É… almocei com as meninas. Fazia tempo.</p><p>Ela permaneceu de pé, encostada à porta, como se esperasse uma reação. Lentamente, ele se sentou e, sem tirar os olhos dela, disse:</p><p>— Fazia tempo que não te via assim.</p><p>Levantou-se e saiu sem olhar para trás.</p><p>As lágrimas dele caíram antes. O celular aceso na mão. Retirado da bolsa ocre enquanto ela ainda cantava no chuveiro.</p><p>Escorreram pelo rosto, tocaram o chão.</p><p>Depois, tudo voltou ao silêncio. Só eu permaneci, imóvel, guardando o intervalo entre o que foi visto e o que nenhum dos dois ousou dizer.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=29dedfa8e1dc" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Castelo de Areia]]></title>
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            <category><![CDATA[crônicas]]></category>
            <category><![CDATA[vulnerabilidade]]></category>
            <category><![CDATA[literatura-brasileira]]></category>
            <category><![CDATA[cotidiano]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Renata G. Saraiva]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 22 Jan 2026 12:02:16 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-01-22T12:02:16.084Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*6HU6Y4sGJyFn3jQUA-Qxbg.jpeg" /></figure><p>Estava saindo do supermercado quando avistei a mãe de um amigo do meu filho. Ao invés de um costumeiro aceno de cabeça, um sorriso e um oi soletrado com a boca ao longe, ela veio em minha direção.</p><p>O que será que ela quer?</p><p>Cansada, apressei o passo, na esperança de que entendesse o sinal. Ela foi mais rápida. Parou na frente do meu carrinho.</p><p>— Como você está? — perguntou, concentrando seu olhar no meu — Caio comentou que seu filho não tem ido a escola.</p><p>Fazia mais de dez dias que ele não ia. Eu ia responder que já estava melhorando, que talvez em mais alguns dias pudesse voltar, quando me dei conta de que a pergunta era para mim.</p><p>Ela queria saber de mim. E não sairia dali sem resposta.</p><p>Fiquei desconcertada.</p><p>— Com medo.</p><p>A palavra escapuliu da minha boca, eu não esperava por ela.<br>Ela continuava me olhando, um olhar doce, acolhedor. Me pegou desprevenida.</p><p>Eu nem tinha reparado no tanto que estava tensa com a recaída da febre, a oxigenação baixa, a falta de diagnóstico. Eu vinha apenas tomando providências: médicos, exames, remédios, sopinhas, colinho.</p><p>Conforme eu falava, a testa enrugava, os olhos fraquejavam. O choro se aproximava. <br>Não. <br>Eu não podia chorar ali, na saída do supermercado, diante de alguém com quem eu não tinha intimidade, mas que me escutava com tamanha atenção que algo estranho começou a acontecer comigo.</p><p>O choro insistia, meu rosto retorcido na tentativa de contê-lo.</p><p>Desconfio que ela percebeu meu embaraço e quis me salvar do constrangimento. Com os olhos cheios de emoção, se despediu com um “fica com Deus”.</p><p>Entrei no carro atordoada. Minha mão buscava, sem sucesso, o encaixe da chave na ignição. <br>Não deu tempo. <br>O choro voltou como enxurrada, rompendo comportas. Soluços, respiração aos trancos, o corpo inteiro sacudido. Fazia muito tempo que não chorava assim. Foi um choro catarse, daqueles que precisamos pegar um pouco de ar no meio.</p><p>Todos aqueles dias fingindo firmeza, equilibrando areia com as mãos. <br>Então veio aquele olhar sereno, afetuoso, feito maré alta, desmanchando o castelo frágil que eu mal conseguia sustentar.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=f8f821a69e82" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Casa aberta]]></title>
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            <category><![CDATA[memories]]></category>
            <category><![CDATA[motherhood]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Renata G. Saraiva]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 24 Dec 2025 18:26:05 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-12-24T19:06:14.072Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*9dA3HKWVEETFi_UAT-I8xA.jpeg" /></figure><p>O despertador me acorda às seis horas. Olho pro lado e, entre bichos de pelúcia e travesseiros, dormem meus filhos.<br>Um pouco antes de o pai vir buscá-los para viajar, chamo meus pintinhos pra ficarem uns minutos debaixo das minhas asas, no sofá.</p><p>As lágrimas me escapam e, numa inversão de papéis, meu filho mais novo me abraça.<br> — Eu tenho uma meta, mãe. Se for tudo bem pra você, vou te ligar pelo menos uma vez por dia. No máximo cinco vezes, tá bom?</p><p>Sorrio sem jeito. Hoje é véspera de Natal, e este será o primeiro Natal que passo sem eles.</p><p>Para não lidar com os sentimentos de solidão que eu sabia que me atravessariam nesse dia, convidei amigos queridos para celebrar comigo.</p><p>Enquanto confiro se tenho pratos suficientes, a imagem da Fiorino branca com os dizeres “Requinte — Artigos para Festas”, estacionando na rua em que eu morava quando era criança, se sobrepõe aos talheres espalhados à minha frente.</p><p>Homens carregando pratos, talheres, taças de cristal para dentro de casa. Lá dentro, um vai e vem incessante: frutas sendo lavadas, meu tio preparando ikebanas, meu pai conferindo bebidas.</p><p>A árvore de Natal era imensa, cheia de embrulhos coloridos embaixo. O menu, impecável: aperitivos, entrada, pratos principais — não esqueço da salada de haddock, cujo peixe não vi em nenhum outro lugar — e sobremesas variadas.</p><p>Cida e Nicete, uniformizadas, serviam as comidas em bandejas de prata.</p><p>O Natal era muito importante pra minha mãe e, nos seus últimos anos de vida, ela fez questão de celebrar em grande estilo. Avós, tios, primos, amigos e amigos de amigos. Mesmo cheia, a casa sempre cabia mais um.</p><p>Meu olhar se volta para os talheres desconjuntados à minha frente. Três ou quatro taças de vidro, de tamanhos e modelos diferentes. Alguns convidados terão que comer em pratos e talheres de sobremesa e, se fizerem questão de beber em taças, precisarão trazer as suas de casa.</p><p>A árvore de Natal improvisei com folhas e flores de helicônias do jardim. Cada um trará um prato de comida pronto e, no final, sei que me ajudarão a lavar a louça.</p><p>Meu estilo e o da minha mãe são diferentes. Mas é dela a vontade de receber, ter a casa cheia e celebrar.</p><p>E, de repente, não me sinto sozinha.</p><p>A mesa está desparelhada, mas tem lugar pra todos.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=9a4e3079417e" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Hélix]]></title>
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            <category><![CDATA[poesia]]></category>
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            <category><![CDATA[memoria]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Renata G. Saraiva]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 22 Dec 2025 12:12:19 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-12-22T12:12:19.534Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*0gYBKt8yblfTgOAMqf70hg.png" /></figure><p>Outro dia, conversando com uma amiga,<br>meus olhos pararam na orelha dela.</p><p>Me emocionei.</p><p>Nunca havia notado<br>que o lóbulo de cima — <br>o hélix — <br>era virado.</p><p>Você também tinha.</p><p>Um desvio discreto de fábrica.<br>Uma marca só sua,<br>como a pintinha no meu ombro<br>que os meninos apontam rindo.</p><p>Me perdi naquele contorno.</p><p>Detalhes minúsculos<br>são lanças:<br>me atiram, sem aviso,<br>sem defesa,<br>no campo aberto da saudade.</p><blockquote>Fragmento de um livro em andamento.</blockquote><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=b6a19dec5f36" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Bobi]]></title>
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            <category><![CDATA[contos]]></category>
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            <category><![CDATA[amigo-imaginario]]></category>
            <category><![CDATA[psicologia]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Renata G. Saraiva]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 11 Dec 2025 12:02:22 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-12-11T16:50:22.295Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Um sábado banal. A rotina, a cozinha, as crianças. Até que o silêncio começou a falar mais alto.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*wa_-xAttRDa9LMkcemfRiA.jpeg" /></figure><blockquote>Entre a rotina exausta e os silêncios da casa, algo se move sem ser visto.<br>Este conto acompanha uma mãe em seu limite, quando a rotina se rompe.</blockquote><p>Era um sábado, lembro bem. O dia mal tinha começado e já me sentia engolida pelas tarefas que só cabem no fim de semana. Gustavo no sofá, alheio, a TV iluminando seu rosto distraído. Manu e Olivia brincavam em algum canto.</p><p>Voltava do supermercado, as sacolas ainda nas mãos, quando entrei na cozinha e me deparei com toda a comida preparada pela manhã jogada no chão.</p><p>Senti o ar escapar. Só o grito ficou.</p><p>Joguei as sacolas no chão e fui direto pra sala:</p><p>— Quem foi que fez aquilo na cozinha?</p><p>Gustavo ergueu os olhos por um instante, coçou a barriga, como se nada fosse com ele.</p><p>Fui até o quarto das meninas, que me olhavam sem se mexer.</p><p>— Respondam! Por que fizeram aquilo? Passei a manhã cozinhando, vocês não pensam em mim?</p><p>Eu tremia.</p><p>O silêncio se esticou até Manu, enfim, sussurrar:</p><p>— Não foi a gente, mamãe. Foi o Bobi. Ele disse que não aguenta mais a sua comida.</p><p>— Ahhh, Manuela — gritei. — Parem de culpar esse Bobi, ele NÃO existe! Nunca mais quero ouvir esse nome aqui em casa. Assumam o que fizeram. Limpem essa bagunça e depois, castigo pelo resto do fim de semana.</p><p>A raiva virou choro antes que eu percebesse.</p><p>Elas continuavam imóveis, olhos arregalados. Em silêncio, levantaram e foram arrumar a cozinha. Eu me fechei no quarto.</p><p>O resto do dia transcorreu num silêncio denso. As meninas trancadas, Gustavo imóvel na frente da TV, e eu refazendo a comida.<br> À noite, pedi uma pizza. Quando chegou, Gustavo foi chamá-las. Só Olivia apareceu.</p><p>— Cadê sua irmã?</p><p>— Disse que não quer.</p><p>Subi. Bati de leve e abri a porta.</p><p>— Manu, pedi marguerita. Sua preferida.</p><p>— Não tô com fome, mãe — respondeu, sem me encarar.</p><p>Entrei. Ela estava sentada na cama, virada de costas, uma blusa enrolada no braço. Quando me aproximei, tentou esconder.</p><p>— Filha, você se machucou?</p><p>— Não é nada. Quero ficar sozinha.</p><p>Me ajoelhei ao lado dela e, com cuidado, fui desenrolando os panos.</p><p>Um corte fundo no braço, vermelho e ainda úmido.</p><p>Minha voz saiu falhada:</p><p>— Como isso aconteceu, meu amor?</p><p>Ela não se mexeu. Os olhos trêmulos, presos nos meus.</p><p>— Eu me cortei sem querer, mãe.</p><p>— Não dá pra se cortar assim, sem querer…</p><p>Ela me encarou. A voz firme:</p><p>— Não fui eu. Foi o Bobi.</p><blockquote><em>✉️ </em>Entre crônicas e contos, sigo experimentando caminhos de escrita, às vezes íntimos, às vezes inventados. Se você gostou, sinta-se à vontade para comentar ou compartilhar.</blockquote><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=6ce2e27c8e87" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Quando o tempo volta]]></title>
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            <category><![CDATA[crônicas]]></category>
            <category><![CDATA[pai]]></category>
            <category><![CDATA[paternidade]]></category>
            <category><![CDATA[carta]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Renata G. Saraiva]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 25 Nov 2025 14:32:24 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-11-25T14:32:24.567Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<blockquote>Uma carta para o meu pai escrita no intervalo entre medo, espera e memória.</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*oWLSpmrnjp82XxwKj4DhzA.jpeg" /></figure><p>Paps,</p><p>Te escrevo enquanto espero a Vanessa me mandar notícias da sua cirurgia.</p><p>Depois da morte da mamãe, nos afastamos. Você mudou de cidade, fez outra família, outros filhos. <br>Eu também deixei de ir atrás, parecia mais fácil assim. Deixei de criar expectativas pra não sofrer como os meus irmãos. Fingia que não precisava de você.</p><p>Houve anos em que um ou dois telefonemas, burocráticos, davam conta de toda nossa relação.</p><p>Chegamos a passar mais de três anos sem nos ver.</p><p>Quando me separei, você soube pela Má, muito tempo depois. <em>Você já não participava da minha vida… que diferença faria?</em> Eu sei que ficou magoado. Talvez tenha sido uma pequena vingança.</p><p>Três anos atrás, eu e os meninos fomos passar o Natal em Campo Grande com vocês. Te ver brincando de <em>Gabiru</em>, cozinhando com as crianças… assistir nossos filhos, quase da mesma idade, correndo juntos, abriu uma fresta.</p><p>Os meninos ficaram encantados com você.</p><p>Quem não fica?</p><p>Lá, o tempo andava noutro ritmo: silêncios cabiam, conversas demoravam.</p><p>Falamos sobre memória. Você me contou que, com a idade, o presente começa a se afastar, e o passado vem fazer morada.<br>Disse que às vezes fica na varanda, observando os carros passarem, enquanto sua memória caminha na direção contrária, taça de vinho numa mão, cigarro de palha na outra, com a serenidade de quem acredita que a vida foi generosa.</p><p>Hoje cedo, pouco antes de você entrar no centro cirúrgico, a Vanessa me escreveu:</p><p><em>Ele tá aqui esperando chamarem, falando baixinho: “Renata tá sabendo que eu tô aqui, né, amor? Se eu morrer você fala que eu amo ela e os meus netos?”</em></p><p>Meu coração sangrou.<br>A cirurgia é simples, laparoscopia, mas eu sei como doenças te apavoram.</p><p>Um dia antes de embarcar pra São Paulo, passagens compradas, tudo marcado, você mandou mensagem pra Marina dizendo que não ia mais.<br><em>Não tenho nada. É perda de tempo.</em><br>Ela penou pra te convencer.</p><p>Foram dias duros aí dentro: procedimentos, jejuns, fios, contrastes. <br>Te viraram do avesso.</p><p>A Vanessa mandou vídeos.</p><p>Nos primeiros, você tentava brincar, dizia que estavam te maltratando, que estava arrependido de ter dado ouvidos à Marina.<br>Nos últimos, já não dava pra enganar: a voz baixa, o cansaço, o medo.</p><p>Agora há pouco, recebi notícia: a cirurgia terminou. Foi mais trabalhosa que o previsto, havia inflamação, mas deu tudo certo. A enfermeira disse que nunca tinha visto pedras tão grandes. Ainda bem que insistiram.</p><p>E mais: vocês vêm passar uns dias comigo na Bahia, em janeiro.<br>E eu quero estar com você em fevereiro, nos seus 80 anos.</p><p>A gente perdeu muito tempo, Paps.<br>Mas ainda dá pra costurar o que ficou solto. Quero juntar momentos com você pra quando a memória decidir caminhar ao contrário e eu precisar de lembranças para me guiar.</p><p>Te amo.</p><blockquote>Se você pudesse escrever uma carta para alguém , vivo ou não, quem receberia?<br>E o que seria impossível deixar de dizer?<br>Se esse texto encontrou algo em você, me conte. Gosto quando as histórias seguem vivas em outras vozes.</blockquote><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=320a9c40887c" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Coisas que se passam de mão em mão]]></title>
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            <category><![CDATA[maternidade]]></category>
            <category><![CDATA[memoria]]></category>
            <category><![CDATA[familia]]></category>
            <category><![CDATA[cotidiano]]></category>
            <category><![CDATA[amor]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Renata G. Saraiva]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 05 Nov 2025 15:30:06 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-11-06T01:11:55.024Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h3><em>Às vezes o amor cabe no gesto de bater claras tarde da noite.</em></h3><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*U7jO22khwUJLgPzatPhfqQ.jpeg" /></figure><p>Hoje meu companheiro de aventuras completa 14 anos.<br>Ele não queria comemorar. Nem festa, nem restaurante.</p><p>Ontem, ao telefone, enquanto estava na casa do pai, perguntei:</p><p>— Tem certeza de que não quer levar um bolo pra escola?<br> — Ah… acho que não, mãe. Mas… que bolo seria?</p><p>E lá fui eu procurar um supermercado ainda aberto.<br>Ele queria bolo de cenoura.</p><p>Quase 21h quando comecei.<br>Coloquei uma playlist animada, descascando as cenouras devagar, como quem escolhe o próprio tempo.</p><p>Na hora de separar as gemas, algumas gotas caíram nas claras.<br>Prendi o ar. Pensei em jogar fora, mas a palavra <em>desperdício</em> veio primeiro.<br>Tirei o excesso com a colher e segui.</p><p>Comecei a bater as claras com um garfo, como se fosse possível costurar o ar ali dentro.<br>Quando o braço ameaçou fraquejar, ouvi minha avó sussurrar, como quem encosta atrás do ombro:</p><p><em>Devagar e constante. Se parar, desanda.</em></p><p>As gemas, as cenouras, o açúcar: tudo era só receita.<br>Mas as claras…<br> As claras exigem paciência, insistência, uma fé pequena.</p><p>Minha mãe não sabia fazer bolos.<br>É da casa da minha avó que chegam os aromas adocicados:</p><p>canela com açúcar, baunilha, chocolate derretendo no leite condensado.</p><p>As claras começaram a criar corpo. Uma espuma leve, teimosa.<br>O sorriso me escapou antes de eu perceber. Confesso que achei que não iriam vingar.</p><p>Será que ainda se bate claras assim , no braço, tarde da noite,<br> por alguém que se ama?</p><p>Não lembro quem fazia os bolos dos meus aniversários.<br>Eu nunca deixei de fazer para os meus filhos.</p><p>E me pergunto: um dia, quando o cheiro de bolo escapar de alguma cozinha, será que se lembrarão de mim?</p><blockquote>Há coisas que a gente só entende quando está fazendo — ou lembrando.<br>Se quiser, eu sigo escrevendo sobre isso, um pouco mais devagar, lá <a href="https://renatagsaraiva.substack.com/">no Substack</a>.</blockquote><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=a0e1e8f1a45c" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Ainda estou no jogo]]></title>
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            <category><![CDATA[viagem-em-familia]]></category>
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            <category><![CDATA[trilha-inca]]></category>
            <category><![CDATA[adolescencia]]></category>
            <category><![CDATA[maternidade]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Renata G. Saraiva]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 28 Oct 2025 12:01:52 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-10-28T18:56:33.486Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Entre degraus molhados e silêncios de adolescente, a crônica de uma mãe tentando acompanhar o filho que cresce depressa demais.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*XKcep-jjXgdUsPxCiGVUOg.jpeg" /></figure><p>A aventura começou com uma escolha: eu e meu filho mais velho enfrentaríamos a trilha Inca.<br> Há tempos sonhava com essa viagem, mas com filhos pequenos parecia uma imagem distante. Depois da experiência na Chapada Diamantina, arrisquei: estavam prontos para um pouco mais.<br> O mais novo não animou com quatro dias de caminhada. Preferiu ficar e pediu apenas uma condição: no próximo ano, uma viagem só comigo. Nada mais justo, e também a oportunidade rara de ter um tempo de qualidade com cada um deles.</p><p>Essa era uma trilha desafiadora. Estaria exagerando na dose?<br> Apostei que não. Assim fomos: eu e o mais velho, uma mochila nas costas e a vontade imensa de me aproximar desse jovem prestes a completar 14 anos, já tão diferente da criança que eu achava conhecer.<br>Durante o voo de ida, ele ignorou minhas tentativas de conversa: fones de ouvido e jogos no celular roubavam toda a sua atenção. Quando o avião começou a baixar, olhei pela janela e disse que a cidade parecia feita de brinquedo, casas iguais, nenhum prédio estragando a vista.</p><p>— É mesmo! — disse, entusiasmado. — Parece aquele que a gente tinha com blocos e telhados vermelhos.</p><p>Sorri por dentro. Primeiro ponto para mim.</p><p>O segundo veio logo em Cusco.</p><p>A cidade nos recebeu a 3.400 metros de altitude. Para quem vive ao nível do mar, era como respirar por um canudinho. Reservamos o primeiro dia para nos render ao ritmo lento da montanha.</p><p>Pedro gosta de descobrir sabores e texturas tanto quanto eu. Em Bonito havíamos experimentado carne de jacaré; no Peru, ele queria conhecer o prato típico: o <em>cui</em>.</p><p>Quando aquele porquinho-da-índia, que depois veríamos solto em quintais no caminho para Machu Picchu, chegou à mesa, parecia um mini porco à pururuca, só que com um chapeuzinho peruano no lugar da maçã. A pele estalava, o cheiro lembrava frango assado. Titubeamos. Passado o susto inicial, enfrentamos o desafio culinário com gosto: no prato sobraram apenas ossinhos, testemunhas do que as mãos famintas devoraram com deleite.</p><p>Com estômago cheio e coragem renovada, nos juntamos ao pequeno grupo que dividiria os próximos dias conosco. Éramos seis: nós dois, o guia, dois dinamarqueses e uma portuguesa. Ele me surpreendia arriscando palavras em espanhol e até em inglês. Às vezes parecia seguro, noutras, um tanto alheio às explicações do guia. Quando eu tentava traduzir, vinha o sussurro irritado:</p><p>— Eu tô entendendo, mãe.</p><p>Talvez entendesse mesmo. Talvez não. O que eu sabia é que não suportava a ideia de precisar da minha ajuda.</p><p>O circuito alternava entre momentos de bike, rafting, tirolesas, banhos termais e longas caminhadas. Seguíamos pela floresta fechada, desviando de galhos e lama, no ambiente úmido e denso, abraçados pela vegetação que ia de samambaias e orquídeas a árvores imensas.</p><p>Passamos por comunidades que cultivavam café e frutas junto à mata. Descobrimos a lúcuma, uma fruta deliciosa e a coca sagrada, que nos acompanhou durante toda a trilha: ora na boca, ajudando contra a altitude, ora em oferendas a Pachamama.</p><p>Outros momentos subíamos trilhas estreitas pelas bordas das montanhas. A amplidão do horizonte, apenas interrompida pela cordilheira, não nos causava vertigem; ao contrário, nos alargava por dentro.</p><p>Pedro seguia firme, sem nunca reclamar. Um sorriso quase invisível escapava pelo canto da boca, o suficiente para eu reconhecer sua satisfação. Caminhávamos em silêncio, como quem partilha uma oração.</p><p>Ao fim do dia, exaustos, repousávamos na casa de famílias que nos recebiam com sopa quente e ajís de galinha, ou em pousadas simples perdidas nas vilas.</p><p>A maré calma só se alterava quando eu me excedia nas palavras. Bastava um franzir de lábios, um olhar cortante, para me colocar no lugar.</p><p>Para provocá-lo, eu o chamava carinhosamente de minha <em>lhamita</em>. Ele se enrijecia na hora, como se a rigidez do corpo pudesse torná-lo invisível.</p><p>Na última noite da expedição, deitados na pousada, disse que havia encontrado meu parceiro de viagens.</p><p>— Você está pronto pra me acompanhar em várias aventuras.</p><p>Ele sorriu, um misto de orgulho e vergonha.</p><p>Nossa entrada em Machu Picchu era às 7h, mais cedo que o resto do grupo. Acordamos de madrugada, arrumamos as coisas e saímos sob chuva.</p><p>A trilha seguia pela floresta, numa escadaria de pedras camufladas por musgos. Ele disparou na frente, ultrapassando quem se aventurava na chuva. Eu vinha atrás, tentando não escorregar e nem perdê-lo de vista. Encharcada de suor sob a capa de chuva.</p><p>Se antes havíamos devorado o cui, agora era eu quem engolia a poeira que ele deixava. Chegamos bem antes do previsto.</p><p>Lá em cima, a recompensa.</p><p>Na volta de trem, quando ele me chamou para o jogo de imobilizar o dedão, que fazíamos quando era pequeno, pensei: <em>Ah, meu filhotinho ainda está aqui</em>.<br>Ele ganhou duas vezes seguidas. Custei a acreditar. Algo ali tinha mudado rápido demais. Insistiu para jogar de novo.<br> — Pra quê? Nem melhor de três eu ganho, você quer me humilhar?<br> — Vamos melhor de cinco.<br> Aceitei. Ganhei. Ganhei de novo. Ainda tô no jogo! Ganhei mais uma.<br> — De virada é melhor — tirei onda, saboreando como quem resgata um último território.</p><p>Minha alegria durou pouco. No dia seguinte fomos à Humantay, uma lagoa a 4.400 metros. Dessa vez não vi nem a poeira: ele disparou, e só voltou para rir da minha cara ofegante.</p><p>Pra minha sorte, a lagoa estava logo atrás de umas pedras: imensa, azul, cercada por montanhas. Enquanto eu recuperava o fôlego, ele ainda queria subir mais um nível.<br> — Pode ir, filho, vou ficar aqui apreciando a vista.</p><p>Na volta, descia devagar, temendo pelos joelhos e pelo cascalho solto.<br> — Vai na frente, te encontro lá embaixo.<br> — Não, mãe. Agora quero ir te acompanhando.</p><p>E foi assim, ao meu lado, que terminamos a descida: ele já adulto, eu ainda cuidada.</p><p>No avião de volta, ele de fones, eu com meu livro. Em certo momento, virei a página e fiquei olhando. Tirei o fone de um ouvido:<br> — Quando eu for mais velha você vai ter paciência comigo, se eu demorar nas trilhas?</p><p>Ele riu.</p><p>Minutos depois, foi ele quem interrompeu minha leitura:<br> — Mãe, você pode continuar me chamando de minha <em>lhamita</em>… mas só escondido, tá?</p><blockquote>Este texto faz parte da minha série de crônicas pessoais. Mas não só: às vezes me arrisco também em contos e poemas, e aos poucos vou publicando um pouco de cada por aqui. Se quiser me acompanhar, siga por onde sentir vontade, a cada gênero, um pedaço de mim se revela.</blockquote><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=e680621b759c" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Planta enramando]]></title>
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            <category><![CDATA[literatura]]></category>
            <category><![CDATA[espera]]></category>
            <category><![CDATA[saúde]]></category>
            <category><![CDATA[familia]]></category>
            <category><![CDATA[contos]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Renata G. Saraiva]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 16 Oct 2025 12:12:16 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-10-16T12:12:50.700Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Um retrato do cotidiano, entre filas, exames e pequenas resistências</p><blockquote>Este conto nasceu de uma conversa com uma mulher que me presenteou com uma imagem inesquecível: “era como uma planta enramando”, disse ela, ao falar das filas e exames médicos que precisou fazer. A partir dessa metáfora, escrevi esta história — um conto sobre doença, família e o tempo que nunca passa.</blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/500/1*S1M3WZb965gjLAnA3mj1MA@2x.jpeg" /></figure><p>Fomos pra Jequié fazer os exames. Aqui é muito complicado. Até pra marcar, só acha data pra dali a um mês. E o Marido com aquela dor. Dia sim, dia não, eu tava com ele no posto medindo a pressão. Andava mais de quilômetro com ele daquele jeito. Chegava lá, davam um remedinho e mandavam de volta. Tinha vez que a gente chegava lá de noite e o enfermeiro nem acordava pra atender. O Marido ficava danado, voltava xingando pra casa.</p><p>Nossa filha achou melhor a gente ir pra Jequié. Lá ela podia ajudar com os exames, levar o pai no médico, correr atrás das coisas.</p><p>Era só pressão alta, mas chegou lá e foi um tal de consulta pra cá, exame pra lá…parecia planta enramando, criando braço pra todo lado. O Marido ficou preocupado. Mas não tinha o que fazer, só esperar.</p><p>Minha filha disse que os resultados iam sair só na outra semana. Deus ajuda que não era nada.<br>Passei os dias fingindo que não era comigo, pra não deixar ele mais danado, mas era como se tivesse dormindo com uma peçonhenta debaixo da coberta. Acordava suando no meio da noite. Já era mais de quarenta anos juntos.</p><p>A menina ligava todo dia querendo saber se o pai tinha comido direito. Nunca se preocupou com isso antes. Por que isso agora? Tava duvidando do meu cuidado?</p><p>Os dias passaram até que ela avisou: vão ter que voltar, precisa refazer uns exames.<br>O Marido não quis nem saber, bateu o pé. Se tivesse alguma coisa, queria era ficar em casa. Foi uma trabalheira convencer, mas acabou indo. Passou as cinco horas dentro daquele ônibus só reclamando, dizendo que aquilo não era vida.</p><p>Chegamos lá e mais uma batelada de exame até que o médico chamou:</p><p>— O senhor tá forte que nem um touro. Só tem que maneirar no sal e caprichar no feijão.<br> E, olhando pra mim, completou:<br> — Esposa, não esquece de fazer umas caminhadas com ele. Vai fazer bem pros dois.</p><p>Olhei pra cara do Marido achando que ele ia tá aliviado, mas pra completar o touro só faltava bufar.<br>Ainda tive que aguentar as cinco horas de volta ouvindo que a gente devia ter ficado em casa.</p><p>E agora tô aqui com as clientes reclamando que as costuras tão tudo atrasadas.<br>Mas é assim mesmo. Quem não morre de morte, morre de espera.</p><p><em>✉️ Se você gostou deste conto, pode acompanhar outras narrativas minhas no Substack, onde publico textos inéditos e mais íntimos. </em><a href="https://renatagsaraiva.substack.com/"><em>Assine gratuitamente aqui</em></a></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=78eda5b50ce1" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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