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        <title><![CDATA[Stories by Thiago Gadelha on Medium]]></title>
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            <title>Stories by Thiago Gadelha on Medium</title>
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            <title><![CDATA[Antecâmara]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Thiago Gadelha]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 27 Feb 2026 05:03:45 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-02-27T15:00:06.813Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Não foi no instante em que voltei o rosto que a perdi. Esse é o conforto que os homens repetem ao contar a história, como se a tragédia necessitasse de um ponto exato para não escorrer por toda a vida. Eu a perdi antes, no instante em que aceitei a regra como uma ofensa e não como a única forma possível de verdade.</p><p>Disseram-me: não a olhes. E eu ouvi: não a terás.</p><p>Eu, que sempre confundi o canto com uma instância de poder, desci aos lugares onde a palavra se desfaz e a esperança não possui utilidade. Prometi obedecer. Toquei as cordas com mãos que tremiam de orgulho e medo. Fiz com que os guardiões se lembrassem, por um momento, do que haviam esquecido: que a dor tem ritmo, e que até o fim carece de uma cadência para ser suportado. Foi assim que me atribuíram o que chamaram de concessão: ela me acompanharia por trás, passo por passo, e eu sairia sem virar. Uma diretriz simples, mas terrível por sê-la. Não exigia nada que não fosse aceitação.</p><p>Andei.</p><p>A via não era uma estrada, nem uma gruta, sequer uma escadaria. Em verdade, vi um corredor oblíquo, pleno de um ar denso, como se aquele lugar manifestasse a essência daquele que sofre. As sombras eram completamente opacas, desprovidas de profundidade. O tempo ali parecia não avançar, e seguia seu curso como a água de um rio sobre as pedras. Meus ouvidos capturavam meus próprios passos e, atrás, o silêncio que deveria conter os movimentos dela. Esse silêncio era a minha tortura. Ele me dizia, a cada instante: continue, ainda que não haja prova.<br>Por muito, prossegui sem olhar. Eu repetia para mim mesmo que o amor ainda existia na rispidez do não olhar. Eu o repetia com a obstinação de quem precisa transformar a obediência em uma espécie de virtude para não reconhecer nela um temor. O canto, que em vida me vinha como impulso, ali era cálculo. O silêncio era modulado por mim como um modo de não ceder à tentação de virar para trás.</p><p>Foi então que ela falou.</p><p>A voz não adveio como algo sem vida. Veio como se fosse produzida pelo próprio espaço, reverberante, como se o lugar usasse a memória dela para articular som. Mesmo assim, eu a reconheci. Reconheci nela a fraqueza definitiva com que pronunciava meu nome. Reconheci o pequeno arranhão ao final de certas palavras, como se a língua se ferisse ao dizer. Sobretudo, reconheci o que havia nela de irrecuperável, e era o modo como sua voz sempre carregou a iminência de um riso e, ao mesmo tempo, a consciência de que rimos para não implodir.</p><p>— Orfeu.</p><p>Eu parei.</p><p>Fosse eu prudente, teria seguido. Mas eu pausei, como aqueles que, diante da salvação, sentem a nostalgia do desespero de outrora que lhes dava uma forma. Parei porque o meu nome me resgatou de volta não só a ela, mas a mim, ao homem que eu queria ser, ao homem que eu fingia ser. E essa volta me fez desejar, com violência, ver. Mais que tudo, eu necessitava da confirmação.</p><p>— Não posso falar por muito tempo. Aos poucos, vou deixando de ser.</p><p>Eu quis virar. Eu não o fiz. Encostei a mão na parede do corredor, como se o contato com a rocha pudesse servir de âncora. A parede era lisa demais, e sequer conseguia manter contato prolongado antes que perdesse o equilíbrio.</p><p>— Você está bem? — perguntei.</p><p>A pergunta, ali, soou indecente. O “bem” pertencia aos vivos e às suas pequenas coisas.</p><p>— Desconheço o que é isso aqui, em termos de bem ou mal — respondeu. — Eu continuo, mas não avanço. E, enquanto prossigo, perco.</p><p>Ela respirou. O som não era o de alguém fadigado. Era o de alguém usando o ar para segurar o que escapa.</p><p>— Você sente medo? — eu disse.</p><p>— Sim.</p><p>A honestidade dela me feriu mais do que qualquer acusação. Meu medo, eu sempre soube disfarçar com música. O dela era simples. Quase limpo.</p><p>— Eu desci por ti — falei, como se dizer isso fosse um argumento.</p><p>— Desceste — respondeu ela. — E é por isso que preciso te dizer uma coisa antes de eu… sumir.</p><p>Ela prosseguiu.</p><p>— Achaste que falhou ao me olhar. Não foi isso. O erro foi anterior. Você desceu como quem entra numa casa para buscar algo esquecido.</p><p>Senti o sangue aquecer a face. Uma raiva ascendeu, um sentimento antigo e vívido.</p><p>— Eu te amo — eu disse. — Não trato você como objeto.</p><p>— Não és cruel, Orfeu. — tornou ela com calma, uma calma assustadora. — Chamo-te de humano. Amas como os vivos amam: querendo salvar, fixar, provar.</p><p>O corredor pareceu estreitar-se. Ou talvez tenha sido meu peito.</p><p>— Aqui — continuou ela — não existe nada disso. Há apenas o que se suporta. A regra não foi feita para a tortura, e sim para impedir uma forma de violência.</p><p>— Violência? — minha voz soou mais alta do que eu pretendia, e se perdeu no vazio como um grito sem resposta.</p><p>— Não suportas a ideia de que eu exista sem tua certeza — disse ela. — E essa certeza, Orfeu, é uma maneira de me possuir. Não por maldade, mas por pânico.</p><p>Silenciei-me. “Pânico” era um termo muito preciso. Eu o senti como se um nervo exposto estivesse atingido.</p><p>— Não suporto — confessei. — Eu ando e não ouço teus passos. Eu sinto que estou só, e esse corredor faz da solidão uma lei.</p><p>— Queres ouvir meus passos porque crê que o som me garante. Mas o que queres mesmo é ouvir para não ter de crer.</p><p>Ela interrompeu a frase. Houve um ruído sutil, como um sopro.</p><p>— Estás mudando — eu disse, e a minha frase carregou um horror que eu tentei esconder.</p><p>— Sim. É isso. — disse ela com voz mais baixa. — Eu não sou levada, mas desfeita. Primeiro é o peso da matéria. Depois é o tempo. Depois é o nome. O nome é o último, pois é a última coisa que vocês seguram quando querem manter alguém vivo.</p><p>Eu pensei nas vezes em que pronunciei “Eurídice” como uma invocação, como se o nome fosse suficiente para chamá-la de volta ao quarto, ao jardim, à manhã. Refleti no modo como a palavra sempre me pareceu música antes de ser alguém.</p><p>— Eu te trouxe de volta — disse eu. — Eu fiz com que me entregassem você.</p><p>— Me trouxeste uma possibilidade. — ela não me concedeu a graça do heroísmo, e isso doeu mais do que se ela me humilhasse intencionalmente. — Me trouxeste até o limiar. Mas não compreende o que pede ao querer me “trazer”.</p><p>O último verbo deteve-se entre nós como um erro.</p><p>— Queres que eu volte a ser como eu era. Queres que eu seja presença intacta, e que te complete o tempo. Queres que eu te restitua a vida como ela estava. Mas não, Orfeu, a vida não regressa. Nem mesmo aos vivos.</p><p>Eu pressionei os dedos contra a parede, com força suficiente para doer. A dor era branda e útil. Ela me lembrava que eu ainda tinha corpo, que eu ainda estava fora do lugar onde as coisas deixam de ser.</p><p>— Então o que é o amor? — perguntei. — O que te resta de mim, se eu não posso salvar?</p><p>Ela custou a responder, e nesse atraso senti a morte. Era como se as palavras precisassem atravessar algo que as desintegrava.</p><p>— O amor — disse ela, por fim — é o que não transforma o outro em prova. É o que aceita perder sem transformar a vida em estátua. Me cantas para me manter. E, ao manter, me congelas.</p><p>As últimas sílabas exteriorizaram-se como algo munido de carga ontológica, como se até o sentido exigisse energia.</p><p>— Não quero ser a tua vitória, Orfeu. Nem tua culpa. Se eu voltar para justificar tua descida, regresso como um adorno da tua história. E eu não sou isso.</p><p>Senti algo ceder em mim. A sensação da derrota, aquela que vem quando, diante de uma verdade, percebe-se que nunca se teve as ferramentas para vivê-la.</p><p>— Então eu devo seguir sem olhar — murmurei.</p><p>— Sim. — disse ela. — E deves aceitar que talvez eu não esteja atrás de ti do modo que imaginas. Quiçá eu esteja atrás como uma lembrança ainda viva. Ou esteja eu atrás como algo impossível de verificar. Mas o que salvas-te aqui não é a certeza, senão a coragem de sair acompanhado pela solidão do vazio.</p><p>Quis dizer-lhe que eu não sabia carregar o vazio. Quis dizer que minha canção sempre foi uma tentativa de preencher, e que ela me perdoasse por ser um homem incapaz. Mas o perdão, percebi, seria outra forma de amarrá-la a mim. Ela permaneceria como razão de minha absolvição.</p><p>— Você vai me esquecer? — indaguei.</p><p>A questão escapou de mim como um animal ferido, tomado pelo pavor.</p><p>— Não sei — respondeu ela, e seu “não sei” foi a frase mais humana que ouvi naquela noite. — Talvez me lembres como se lembra de um cheiro: destituído de imagem e de narrativa, só uma sensação que surge em horários repentinos. É possível que me lembres como se lembra de uma palavra que perdeu o significado. Mas escute: isto não é traição. É a maneira como o tempo perdura quando não pode se pode impedi-lo.</p><p>Eu quis chorar. Não chorei. Eu queria que ela me visse como me sentia, e isso seria, outra vez, um pedido de garantia.</p><p>— Há uma coisa — ela disse — que eu preciso tirar de ti antes que eu não consiga mais.</p><p>— Diz.</p><p>— Não olhes para me provar. Olhes para me possuir, se quiser. Assuma o que fazes. É pior, em verdade, o fingimento. A mentira é sempre o que nos condena.</p><p>Senti o chão sob os pés como se ele tivesse inclinação, como se o corredor se preparasse para despejar-me num lugar qualquer. Minha garganta secou. A frase dela me apresentou, sem misericórdia, uma escolha que eu tentara evitar: obedecer e aceitar a derrota.<br>Eu permaneço, ainda hoje, envergonhado do que aconteceu em mim naquele instante. Porque foi ali que compreendi que meu amor era composto de muitas substâncias, e nem todas eram belas. Eu a queria viva, sim. E comigo. Mas eu a queria também como manifesto de que minha música tinha poder sobre o fim. Eu queria que o mundo, ao rever Eurídice, se curvasse diante da minha dor convertida em arte. Eu queria, em segredo, ser o homem capaz de arrancar alguém da morte. E esse segredo era a mancha do amor.</p><p>Ainda assim, mesmo reconhecendo a mácula, eu não consegui purificar-me por simples vontade. O reconhecimento apenas ilumina.</p><p>— Eu não consigo — eu disse. — Eu não consigo andar sem saber.</p><p>— Então olha — disse ela, e pela primeira vez houve algo como ternura ali. — Mas saiba o que está fazendo. Eu não quero te odiar no último instante em que ainda posso te reconhecer.</p><p>O modo como ela proferiu “reconhecer” me atravessou. Como se isto fosse um fio prestes a arrebentar.</p><p>Dei um passo.</p><p>Não sei explicar o que me fez voltar. Não foi uma decisão limpa, mas uma soma de impulsos: o medo, a vaidade, a fadiga, a saudade do rosto dela em luz, o horror do corredor, a necessidade infantil de certeza. Virei como quem se lança.</p><p>Eu a vi.</p><p>Não a vi, entretanto. Não era Eurídice. Ainda era, mas já não mais. O rosto mantinha a arquitetura, mas a expressão parecia estar sendo apagada. Havia no olhar, já distante, um pedido que não era para ficar. Era para entender. A pele tinha uma aparência estranha, não como a de um fantasma, mas de algo que está deixando de ter direito à opacidade. Os fios de cabelo, que eu tantas vezes toquei, estavam imóveis como matéria vazia de peso. As mãos se ergueram, não para mim, mas como quem tenta reter no ar o próprio contorno.</p><p>E, no instante em que a luz da minha visão a tomou, eu senti que a visão era uma forma de posse.</p><p>Ela não gritou. Não houve teatro. Houve apenas uma mudança no ar, como quando a chama de uma vela vacila e se dá conta de que vai se apagar. O corpo dela recuou sem recuar, dissolvendo-se para trás, engolido por uma sombra que era constituída pela falta de mundo. Eu dei um passo em sua direção, e ela já não estava. O lugar onde ela estivera manteve por um segundo uma espécie de calor, e depois nem isso. Meus olhos mantiveram-se abertos, fixos no corredor vazio, como se o olhar pudesse impedir o que ele mesmo causara.</p><p>Não houve nenhum indício. A morte, naquele lugar, não dá mostras.</p><p>Minha boca tentou formar seu nome, mas veio incompleto. Foi a primeira coisa que perdi.</p><p>Retornei.</p><p>O corredor não me oferecia mais oportunidades. O mundo, mesmo no Hades, exige alguma ação. E eu caminhei levando comigo um vácuo recente, ainda úmido de presença, como uma ferida que não sangra mas arde.</p><p>Quando enfim saí, a luz do alto do mundo me feriu os olhos com uma claridade que parecia obscena. O céu estava lá, indiferente. As árvores tinham folhas. Os homens falavam de coisas que sempre falaram, sem notar o buraco recém-aberto dentro de mim. Por um momento, tive vontade de gritar para eles: não amem como eu amei. Não confundam o desejo de salvar com o de possuir. O amado não serve de argumento quando encarado pelo tempo.</p><p>Retornei ao meu ofício.</p><p>Cantei.</p><p>Nos primeiros dias, minha música soava febril: eu tentava, com notas, reconstituir o corredor, reproduzir o timbre de voz dela, forçar o mundo a devolver o que me tomou. Mas o canto, como tudo que é humano, não resiste ao tempo. Ele se cansa. E, quando se cansa, se torna outro tipo de coisa.</p><p>Hoje, quando canto, não o faço para trazê-la, mas para não mentir. Eu canto para lembrar que a perdi por necessitar de prova, e que a prova é sempre uma prova de medo. Canto para suportar o fato de que o amor capitulou diante da morte; no máximo, concede ao morto uma última forma de presença.</p><p>Por vezes, em noites sem ventos, penso que ainda a ouço, atrás de mim. Viro quase sem querer, e não vejo nada. E então vejo, tarde demais e com uma clareza aguda, que obedecer à regra não teria garantido Eurídice. Teria garantido apenas uma coisa mais rara: a dignidade de caminhar sem transformar a ausência em espetáculo.</p><p>Se há algum sentido nisso, ele não me consola. Mas me torna menos indigno.</p><p>Porque desde aquela noite aprendi que o inferno não é um lugar abaixo da terra: é o instante em que tentamos amar com as mãos fechadas.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=d0842636cc03" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[A rua]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Thiago Gadelha]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 25 Feb 2026 12:58:00 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-02-25T13:04:16.239Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>[…]</p><p>Considerei justo regressar pelo centro da cidade, para corresponder a um hábito que havia se instalado em dado instante da minha vida.</p><p>O céu já capitulara às forças da Noite, e a paisagem urbana angariava ainda mais densidade. Eu, como obstinado filho da Escuridão, transcorria a vista além do supérfluo e identificava, nas entrelinhas que os postes acesos e as calçadas íngremes disfarçam, tudo o que era resquício do esforço humano ao trabalho. Lixo, os animaizinhos mutilavam o plástico que cobria os restos de comida num verdadeiro ato de ferocidade. Alguns até recorriam à força pelo único sustento do dia, quando uma verdadeira guerra civil ascendia do pavimento ao além, onde o ruído dos latidos selvagens iam desvanecendo, convertendo-se em algo tão distante, até que a rua era toda minha, um indivíduo só, que imperava como um rei no coração dos edifícios comerciais e de algumas residências nada impressionantes, mas suficientes.</p><p>Prossigo com os passos, segurando uma pasta de provas debaixo do braço e um cansaço específico, não aquele que compete ao corpo, mas o da atenção ancorada sobre coisas que não dão indícios de melhorias. No mais, era só mais um dia típico como professor. Eu lecionava geografia a um público já cansado, grupo constituinte da adolescência, e talvez por isso eu apreciasse a cartografia, supondo ainda que o mundo possa ser, de alguma maneira, compreendido por linhas. Por falar nisso, minha rota até minha residência era sempre a mesma.<br>Eu descia pela rua do mercado velho, cortava a praça, passava em frente à farmácia São Lucas, dobrava à esquerda num quarteirão de prédios baixos, e dali seguia por mais duas ruas até o ponto de ônibus. Nunca precisei instar meus pensamentos nisso. A memória física já estava saturada pela repetição mecânica dos dias.</p><p>Quando me avizinhei da farmácia São Lucas, notei o letreiro minimamente apagado, o “S” com defeito, continuamente piscando, e decidi dobrar à esquerda. Havia um prédio rústico de três andares com janelas enlarguecidas, curiosamente arredondadas, uma banca de jornal fechada com a chapa enferrujada desnivelada até o chão e um vira-lata caramelo dormindo junto ao meio-fio, deitado de lado como se simulasse sua própria morte. Alguns passos depois, sem me surpreender de imediato, tornei a ver a farmácia São Lucas. O mesmo “S” falho. A mesma esquina. Aquele prédio pitoresco outra vez, a banca ainda fechada, o mesmo cachorro.</p><p>Parei.</p><p>Virei os olhos para trás. À minha cercania, a rua seguia reta até uma sombra mais densa, mutilada por postes. Logo de cara, a farmácia. Não havia nada de extraordinário, e o extraordinário, quando vindouro, sobretudo disfarça-se primeiro de erro nosso. Voltei alguns metros, e os passos passaram a ser contados. Vinte e sete até a tampa do bueiro, oito até a lixeira azul, cinco até um poste onde alguém colara um anúncio de aulas particulares de matemática. O papel estava rasgado na metade, e ainda assim se lia o telefone. Andei novamente na direção da esquina. Farmácia. Prédio. Banca. Cão.</p><p>Uma inquietação veio, acrescida pela raiva. Na verdade, parecia um bom sinal. Eu ainda cria no mundo, e não o temia. Quis desafiá-lo. Atravessei a rua, como se a mudança de calçada pudesse corrigir a topografia. O cachorro abriu um olho e tornou a fechá-lo. Cheguei à farmácia e toquei o metal do letreiro. Estava frio, áspero, tão real. Decidi entrar.</p><p>Quando a mulher que estava no caixa eletrônico levantou os olhos, o fez com uma lentidão semelhante àquela de quando se reconhece, ainda que não o conhecesse. Nunca havia o visto.<br> — Boa noite. Que rua é esta?<br> — A rua da farmácia.<br>Sorriu, sem resquícios de ironia, e voltou a olhar para um caderno de capa vermelha onde anotava alguma coisa. Atrás dela, um ventilador de parede girava com um estalo regular, que por alguma razão me pareceu mais inquietante do que tudo o mais. Quiçá pelo estresse e buscando propósito, fiz jus à minha permanência na farmácia e comprei um pacote de pastilhas, embora não tivesse o pleno interesse. Ao sair, continuei na porta, observando. A rua estava quase vazia, senão por um homem que atravessou ao longe, de camisa azul, com o passo rápido de quem já possui uma finalidade e busca cumpri-la. Uma moto cortou a vista, o escapamento estourando duas vezes. E o cachorro ainda não se moveu.</p><p>Quando decidi seguir outra vez, iniciei a contagem no relógio. Quatro minutos e quarenta e dois segundos de caminhada em linha reta, sem uma curva sequer. Quando revi a farmácia, senti-me humilhado. Há uma dignidade pequena em continuar agindo metodicamente quando o método já não serve. Ela foi tudo o que me restou naquela hora.<br>Puxei da pasta uma folha em branco e desenhei, apoiado na parede da banca, um esquema do quarteirão: farmácia, prédio, banca, poste, lixeira, tampa de bueiro, árvore torta junto ao muro de uma casa sem número. Marquei setas, estimei distâncias, anotei o horário. O vira-lata soergueu a cabeça uma vez, olhou para mim com uma indiferença tão absoluta que a invejei, e deitou-se mais uma vez.</p><p>A terceira vez em que passei pelo mesmo trecho, vi a mim mesmo.</p><p>Era eu, ou alguém com o meu corpo, meus ombros ligeiramente curvados, a mesma pasta de couro, a mesma camisa azul de mangas dobradas. Vinha pela calçada oposta, no sentido contrário, e caminhava com um cansaço anterior ao meu. Não me viu. Passou por mim a uns seis metros, moveu os olhos para o cão, como faço às vezes, e seguiu.<br>A reação natural teria sido chamá-lo. Eu não o fiz. Senti, antes de tudo, um pudor. A visão de um semelhante já é perturbadora; a visão de si é obscena.</p><p>Girei o corpo para acompanhá-lo visualmente. Ele se afastou, percorreu pelo poste com o anúncio de outrora, e, antes de atingir o breu mais denso do fim da rua, pareceu menos nítido. Não desapareceu completamente, mas tornou-se algo improvável, como lembranças vagas e repentinas que reluzem nossa cognição. De mãos apoiadas nos joelhos, eu tentava incumbir a mim alguma tarefa, por menor que fosse. Fiquei assim algum tempo, ouvindo o ventilador da farmácia, a moto distante, o leve arranhar do cão no asfalto.</p><p>Pensei em telefonar para alguém, mas não havia ninguém a quem eu pudesse dizer aquilo sem transformar a frase numa piada ou num pedido de socorro. E o problema, naquele momento, ainda era de ordem mais baixa: eu precisava sair dali. Como antes, entrei na farmácia.<br> — Há outra saída por trás?<br>A mulher demorou a responder. Tinha uma ruga funda entre as sobrancelhas, e o rosto dela me pareceu estranhamente fadigado para alguém que eu acabava de conhecer.<br> — O senhor já perguntou isso. Não tem.<br> — Moça, eu acabei de entrar.<br>Ela me olhou com mais apuro, como se agora me visse realmente.<br> — Não, o senhor já entrou algumas vezes.<br>E voltou ao caderno de capa vermelha.</p><p>Saí sem as pastilhas que havia comprado. Ou talvez as tivesse deixado no bolso e isso só me ocorresse mais tarde. O certo é que, pela primeira vez, senti medo, mas uma sensação que me deslocava, pouco a pouco, da natureza comum das coisas. Ali, eu era uma falha substancial no interior daquela existência, algo que era necessário ser corrigido, apagado e revisto. Tamanha foi a emoção que, depois de refletir, optei pela via mais fácil e vexatória de um homem amedrontado. Decidi correr. Fui pelo traçado retilíneo, com a pasta batendo na coxa, o ar entrando cada vez mais frio no peito. Passei pela banca, pelo prédio, pelo cachorro. Não pausei a corrida, insisti até a visão embaçar nas bordas. Quando parei, eu estava dobrado, com as mãos nas coxas, e ouvi atrás de mim um estalo familiar, de onde estava aquele mesmo ventilador de parede. Ocorria tudo reiteradamente, até ver a farmácia São Lucas.</p><p>Foi então que comecei a pensar em termos que me envergonham admitir. Não em fantasma ou castigo, isso seria até honesto. Pensei em fadiga extrema, talvez hipoglicemia, algum transtorno visual, crise de pânico ou epilepsia. Só me decorria palavras lidas em revistas científicas, memorizadas e sem utilidade aparente. Repeti todas elas a mim mesmo, como se aquilo viesse a me confortar. Logo após, carimbei meu rosto com alguns tapas. Contei de zero a cem. Recitei, em voz baixa, os nomes dos estados e capitais, como fazia quando criança para dormir. Toquei o muro, o ferro da banca, a grade do portão do prédio. Tudo parecia consistente.</p><p>Enquanto eu tentava adentrar em mim e reconhecer a própria realidade, vi uma segunda versão de mim. De longe, esta vinha mais depressa, e sem pasta. A camisa estava amarrotada, e havia nele uma tensão que interpretei como algo próximo da raiva. Parou diante da banca e mirou ao papel do anúncio de matemática com uma fixidez que não julguei em mim até notar que a reconhecia demais. Ele rasgou o anúncio do poste, amassou o papel, atirou no chão e prosseguiu. Aproximei-me do poste. O anúncio continuava lá, rasgado na metade, exatamente como antes.</p><p>Senti náusea.</p><p>A noite avançava sem sinais dela mesma. Em verdade, ela parecia incessante, mantendo-se num escuro estável. Era como se o tempo houvesse parado. Os carros eram sempre tão parecidos. A moto, ou outra como ela, passava em intervalos incalculáveis. O cachorro dormia e acordava e dormia, obedecendo talvez a um tipo de tempo que não fosse reservado a mim. E eu, quando poderia abraçar o descanso e sentar-me, andei outra vez.</p><p>Era tudo como antes. Contudo, decidi acompanhar uma das minhas aparições. Minha pessoa, de novo com a pasta, só que desta vez mais jovem no rosto, ou menos gasto, o que é quase o mesmo. Mantive distância. Ele atravessou a rua, entrou na farmácia, saiu com um pacote de pastilhas e, ao passar por mim, parou.</p><p>Olhou diretamente para mim.</p><p>Não houve surpresa em sua feição. Senti cansaço, e uma espécie de reprovação que eu conhecia por tê-la dirigido tantas vezes aos alunos, aos colegas, aos governos, à chuva fora de hora, ao ventilador quebrado instalado na sala dos professores, a tudo o que insiste em não coincidir conosco.<br> — Não adianta correr — disse ele.<br>A voz era minha, mas decisiva.<br>Fiquei sem resposta. O que eu queria perguntar era demasiado amplo. Ele aguardou um instante, pressentindo a pergunta certa, e acrescentou:<br> — Você está tentando sair pela rua.<br>Depois sorriu, carregado de pena, e seguiu andando até desvanecer como as demais aparições.</p><p>Conservei-me imóvel por um tempo, olhando o lugar onde ele deixara de ser alguém e voltara a ser apenas distância. A frase dele, banal e absurda, instalou-se em mim com a clareza incômoda das coisas simples. Eu estava tentando sair pela rua. Era verdade. E talvez a rua não fosse, ali, um caminho, mas uma condição. No final das contas, entrei pela farmácia uma terceira ou quarta vez, já não sei.</p><p>A mulher do caixa folheava o caderno vermelho. Sobre o balcão, vi um relógio digital marcando 19:12. Não me lembrava da hora de quando saí da escola, mas me pareceu improvável que ainda fosse 19:12.<br> — Posso ver esse caderno? — perguntei.<br>Ela hesitou.<br> — Não pode.<br> — É meu nome que a senhora está escrevendo aí?<br>Ela pousou a caneta. Tinha unhas curtas, sem esmalte. Quando falou, quase sussurrou:<br> — Eu anoto quem passa.<br> — Para onde?<br>Ela me encarou com uma compaixão repentina, irritante.<br> — O senhor é professor, não é?<br>Não respondi. A questão era menos sobre meu ofício do que sobre meu modo de insistir.<br> — Há pessoas que atravessam sem notar — disse ela. — Há pessoas que notam e pioram. O senhor é das que pioram.<br>Eu quis rir, mas o riso não veio. Fiquei com uma secura no rosto, como se envelhecesse a cada instante.<br> — Como eu saio daqui?<br>Ela tornou a abrir o caderno. Vi de relance páginas e páginas de nomes, horários, observações curtas. Em algumas linhas, dentre tantos outros nomes, notei que o meu repetia-se, com pequenas variações na caligrafia.<br> — Não sei. — disse ela. — Cada um sai por uma coisa.<br>Fiquei esperando o complemento, que não veio. O ventilador estalou três vezes, e por um momento tive a impressão de que a farmácia inteira respirava com esforço. Saí e sentei na calçada, aliado à banca fechada. O cachorro me olhou com um único olho, cheirou meu sapato e encostou o focinho na pata. A proximidade do animal me acalmou de um modo humilhante. É verdade, há consolação naquilo que não nos compreende.</p><p>Refleti na minha casa, onde talvez a luz da cozinha tivesse ficado acesa. Pensei nas provas na pasta, nos nomes dos alunos, nas redações cheias de frases abertas e conclusões prematuras. Pensei na escola, onde eu repetia, ano após ano, os mesmos conteúdos com variações mínimas, como se a geografia fosse menos o estudo do espaço do que da reincidência. Pensei em quantas vezes eu dissera, em sala, que todo mapa é uma simplificação necessária. E me ocorreu, com um nojo quieto de mim mesmo, que eu vinha simplificando tudo havia anos: trabalho, afeto, corpo, dias. Talvez não fosse a rua que repetia o quarteirão. Talvez eu é que repetia o trajeto até que o mundo, por cortesia ou crueldade, decidira me mostrar.<br>Essa ideia, que pareceria literária e falsa em qualquer outro contexto, ali me pareceu apenas exata.</p><p>Levantei-me devagar.</p><p>Havia uma coisa que eu não fazia havia muito tempo e cuja ausência eu chamava, para não me comprometer, de prudência. Há meses, quiçá anos, que eu passava pela praça sem atravessá-la. A via mais curta para o ponto de ônibus era por dentro, entre as árvores ralas e os bancos quebrados, mas eu sempre contornava pela rua iluminada. Dizia a mim mesmo que era mais seguro. A verdade é que, numa noite antiga, eu vira sentado ali um homem que parecia meu pai poucos dias antes de morrer, e desde então evitava a praça como quem evita um espelho em estado deteriorado.<br>Olhei na direção onde a praça deveria estar, além do quarteirão repetido. Não a via, claro. Só avistava a farmácia, o prédio, a banca, o cão. Ainda assim, pela primeira vez, ao invés de seguir em frente, procurei uma lateral entre o muro do prédio e a chapa da banca. Havia um vão estreito, que eu nunca notara, talvez porque nunca o tivesse buscado. Mal cabia uma pessoa de lado.</p><p>O cachorro ergueu a cabeça.</p><p>Apertei a pasta contra o peito e entrei no vão, roçando o ombro no reboco áspero. O espaço cheirava a poeira e urina. Dei três passos às cegas, sentindo o piso irregular sob o sapato, e por um instante cri que ficaria ali preso, ridículo, encontrado de manhã entre uma banca e um prédio, carregando as provas amassadas e uma explicação impossível para aquilo.</p><p>Então o corredor estreito findou.</p><p>Saí atrás de uma banca de jornal, num pátio de serviço repleto de caixas vazias e uma torneira pingando. Adiante havia um portão baixo, destrancado. Empurrei-o e dei na praça.<br>A praça real, com seu piso rachado, as árvores ralas, os bancos pichados, a estátua sem placa no centro e, ao fundo, o ponto de ônibus com duas pessoas esperando e olhando os celulares. O ar soava mais frio. Ou talvez fosse apenas uma impressão pessoal.</p><p>Fiquei parado por alguns segundos, tonto de alívio e de vergonha.</p><p>Olhei para trás. O portão continuava ali, simples, de metal enferrujado. Do outro lado, via-se a traseira da banca, o muro do prédio, e, num recorte de esquina, parte do letreiro da farmácia São Lucas. Nada de extraordinário. E o labirinto de antes, nenhum sinal. O cachorro já não me era mais visível.</p><p>No ponto, um ônibus se aproximou. Entrei. Sentei próximo da janela. Quando o veículo arrancou, mirei o centro e procurei a esquina da farmácia, quase querendo provar a mim mesmo que tudo continuava impossível. Vi apenas o letreiro passando, o “S” defeituoso, e por um segundo — talvez menos — tive a impressão nítida de ver a mim mesmo sentado na calçada junto à banca, com a pasta no colo, olhando para a estrada como se ainda esperasse entendê-la. Não levantei. Não desci do ônibus. Também não desviei os olhos depressa, como se negar a visão pudesse anulá-la. Eu a vi até a esquina desaparecer.</p><p>Em casa, as provas estavam na pasta, exceto uma folha. A folha em que eu havia desenhado o quarteirão.</p><p>Passei os dias seguintes tentando me convencer de que eu a perdera na corrida, ou na farmácia, ou ao me espremer pelo vão entre o prédio e a banca. A explicação é plausível. Ainda hoje a prefiro, na maioria das noites. Mas, às vezes, quando volto tarde e o ônibus cruza o centro mais vazio, penso no caderno vermelho da mulher do caixa. Penso nas páginas com nomes e horários, e na frase que ela me disse sem dureza: <em>há pessoas que notam e pioram</em>.</p><p>Desde então, alterei meu caminho. Saio da escola e atravesso a praça.<br>Não por coragem. Por método. Há um alívio modesto em escolher a própria fissura.</p><p>Uma vez por semana, entretanto, quase sempre às quintas, eu passo de propósito em frente à farmácia São Lucas. O letreiro continua com o “S” apagado. A banca quase nunca abre. E, algumas noites, quando o trânsito afina e o vento traz um cheiro de metal quente, eu vejo um homem de camisa azul dobrando a esquina com uma pasta de couro debaixo do braço, parando por um instante ao lado de um vira-lata adormecido, como quem tenta lembrar de onde conhece aquela rua.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=bda9a85f18c7" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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