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        <title><![CDATA[Stories by Filipe Morales on Medium]]></title>
        <description><![CDATA[Stories by Filipe Morales on Medium]]></description>
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            <title>Stories by Filipe Morales on Medium</title>
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            <title><![CDATA[Não morra na queda!]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Filipe Morales]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 29 May 2026 02:03:21 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-05-29T02:03:21.272Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>O amigo da solidão se fez presente mais uma vez. Sentado num bar cuja familiaridade é tamanha: o cheiro do cigarro, as conversas difusas, mas entre elas uma profundidade quase acidental – profundidade do acaso, da diferença e da distância entre aqueles corpos que coexistem sem realmente se tocar.</p><p>Mais uma vez faço presença nesse lugar onde tenho marcas gravadas nas paredes. Acompanhado do meu melhor amigo: a solidão. Ou talvez eu mesmo. Dentre as melhores companhias, fui em mim que encontrei entendimento. Ainda assim, a solidão permanece como uma sombra constante, beirando meus movimentos, esperando o instante exato para agir e me consolar como ninguém consegue.</p><p>Afinal, o final existe?</p><p>Me pego escrevendo, divagando, pensando e criando na esperança de desenvolver – ou despertar – algo que consiga preencher aquilo que não se nomeia.</p><p>Na boca, o gosto do álcool, do cigarro e dos rancores que agora arranham minha garganta como uma lembrança diária da falha. Mas as vitórias também existem. Concluí aquilo que não seria feito, nem idealizado. Entre esforço e talvez uma inconsciência muito atenta, fiz acontecer o que eu jamais achei que daria certo.</p><p>Os pensadores falam sobre nossos medos, sobre a falta e o desejo, mas sempre me pego pensando que essas construções sociais sobre o corpo nada mais são do que uma gana incessante por poder. Claro, essa é uma resolução básica e direta sobre praticamente toda a estrutura social do mundo. Mas, em contextos como um núcleo universitário, as coisas parecem ainda mais cruéis: canse, se doe e faça acontecer. Uma cobrança inconsciente numa carga que beira o sufocamento.</p><p>Sonhe e alcance.</p><p>Mas não morra na queda.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=c82a15de37e6" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Puramente humano.]]></title>
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            <category><![CDATA[lifestyle]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Filipe Morales]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 26 May 2026 01:12:37 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-05-26T01:12:37.865Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Noites frias, abraços quentes e conversas rasas sempre acompanhadas de um cigarro aceso entre os dedos. Assim tenho vivido, experimentado e saboreado a vida – com uma abundância que talvez possa ser considerada até mesmo doentia. Os olhares profundos, os beijos intensos, aquela sensação de sentir os hormônios à flor da pele e responder puramente ao desejo.</p><p>O frio tem me esquecido de uma maneira contagiosa. Embora o desconforto ainda exista ali, próximo, sempre a uma palavra de distância, eu mantenho a força e o equilíbrio mental. Afinal, essa talvez seja a maior vitória que conquistei em muito tempo.</p><p>Tenho me percebido muito. O modo de falar, de me portar, a forma como reajo quando sinto carinho por alguém ou quando sinto desejo. Existe em mim um desejo tão profundo que às vezes me enlouquece. Como um feitor do amor, eu certamente gostaria de distribuí-lo por aí: sentir o toque da pele, o cheiro do corpo e o gosto que permanece grudado em mim depois da mistura confusa entre carência e tesão.</p><p>Por sorte, a sinceridade sempre me ajuda.</p><p>– Você tem algo especial… algo que me atrai feito uma droga.</p><p>Foi o que ele me disse, deitado na cama, enquanto me olhava daquele jeito que se olha o primeiro amor depois do êxtase momentâneo de gozar pela primeira vez. Ou talvez daquele jeito que se olha alguém que, por um instante breve, realmente se ama.</p><p>Desde então, tenho me perguntado que tipo de droga eu seria. Talvez daquelas que viciam rápido, mas que também enjoam com a mesma velocidade. Um produto de fabricação instável: intenso no início, decadente logo depois. Algo que provoca desejo não necessariamente pela qualidade, mas pela sensação de risco.</p><p>– É que eu sou muito sincero com o que sinto. Se eu quero fazer, eu faço. O arrependimento é só um devaneio cotidiano.</p><p>Respondi como quem sabe exatamente o que está dizendo, embora, no fundo, apenas não tivesse interesse em aprofundar o assunto. Acho curioso como é fácil ter um homem. E mais curioso ainda perceber o quanto eles parecem ser guiados pelo desejo, quase domesticados por ele.</p><p>Talvez seja isso que eu provoque sem perceber: desejo.</p><p>Mas, sinceramente, acho que gosto ainda mais do desafio. Da tensão silenciosa entre querer e conseguir. Do jogo que acontece antes do toque, antes da entrega, antes do corpo finalmente ceder. Existe algo profundamente divertido em perceber alguém tentando resistir enquanto eu mesmo já sei o resultado.</p><p>E talvez seja cruel admitir isso, mas há noites em que eu não busco amor, nem companhia, nem pertencimento. Busco apenas o instante. O pequeno colapso entre dois corpos carentes tentando preencher vazios diferentes com o mesmo beijo.</p><p>No fim, acho que tenho vivido assim: colecionando excessos para não precisar encarar silêncios. Transformando intensidade em rotina. Fazendo do desejo uma espécie de linguagem própria, porque talvez eu ainda não tenha aprendido outra forma de permanecer.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=9f5620e2163b" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Manifesto Corpo na escola.]]></title>
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            <category><![CDATA[vida]]></category>
            <category><![CDATA[teatro]]></category>
            <category><![CDATA[escola]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Filipe Morales]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 27 Apr 2026 20:23:34 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-04-27T20:23:34.872Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>Eu sou gay, artista e estudante de teatro, eu tenho 20 anos, e o meu corpo chega antes de qualquer fala quando entro numa sala de aula. Ele carrega histórias, silenciamentos, recusas e forças. Ele já é, por si só, um manifesto.</p><p>Ser professor de teatro nesse corpo e saber que cada gesto meu está sendo lido. Não só como técnica ou expressão, mas como existência. Como afirmação de uma presença que nem sempre foi bem-vinda. A escola é um espaço que historicamente seleciona quais corpos merecem atenção, escuta e reconhecimento. O meu corpo aprendeu cedo a se desviar, a se curvar, a se expandir quando podia. Hoje, escolho levá-lo inteiro pra dentro da sala, mas não como uma ferramenta, como um território de criação e resistência.</p><p>Nao ensino teatro apenas com métodos ou planos de aula. Ensino com o meu corpo. E o que eu proponho a cada estudante que também reconheça os seus corpos como fonte de conhecimento, de invenção e de liberdade.</p><p>Na escola, o corpo é muitas vezes domesticado, medido, contido. Mas o teatro me ensinou que o corpo não é o lugar do erro e o lugar da experiência. Meu papel, enquanto professor de teatro, é abrir caminhos para que os estudantes também possam descobrir isso, que percebam o corpo como linguagem, como presença e escuta. Que sintam, ao menos por um instante, que podem ocupar o espaço com tudo o que são, sem pedir licença para existir.</p><p>Existe um saber que não cabe no quadro branco, nem no caderno. Um saber que escorre pelas mãos, que treme nas pernas e que arde na respiração. O saber do corpo e por ele que começo todas as minhas aulas.</p><p>Quando falo em auto escuta, não é sobre silêncio. E sobre presença, sobre perceber a tensão nos ombros, o peso do dia nos calcanhares, a ansiedade presa no peito. Ensinar teatro, para mim, e convidar cada pessoa e estudante a prestar atenção no que o corpo está dizendo, porque ele sempre fala, mesmo quando a boca se cala. E nessa escuta que começa o jogo, a troca, a relação viva que o teatro exige.</p><p>O corpo é inteligência. Ele não serve apenas para a técnica: ele sente, responde, propõe, denúncia.</p><p>Ao ensinar teatro, não peço que os estudantes se esqueçam de si para virar personagens eu peço que mergulha em si, que percebam suas reações, suas repetições, seus gestos automáticos, e escolham o que querem mover, o que querem romper, o que querem repetir com consciência.</p><p>O teatro não é um saber superior a vida. Ele é a vida intensificada. E o corpo é o nosso canal mais honesto para essa intensificação. E por isso que o meu corpo em sala está sempre inteiro: atento, presente, escutando e sendo escutado.</p><p>Também é por isso que acredito que o professor de teatro deve estar em jogo. Não só como condutor de uma atividade, mas como alguém que se afeta junto, que observa os corpos com respeito, com curiosidade mas com cuidado. Porque é no gesto pequeno, o olhar desviado, a mão que não se solta, o pé que não para de se mexer, que mora o que a criança não sabe ainda nomear.</p><p>Em sala de aula, o teatro começa antes do vamos começar. Começa quando entramos e nos olhamos. Começa no jeito como cada um se coloca no espaço. Começa nos corpos que dizem, silenciosamente, quem está ali por inteiro e quem está em pedaços.</p><p>Minhas aulas começam pelo corpo. Com aquecimentos simples, que nos ajudam a reconhecer nossas partes, escutar onde dói, onde pulsa, onde vibra. Costumo propor movimentos livres, exercícios de percepção corporal, atenção ao toque do chão, ao peso do corpo, a respiração.</p><p>Parece pouco, mas é imenso. Porque na escola tudo pede rapidez, resposta, produtividade e escutar o corpo e desacelerar. É dar espaço ao que não tem voz.</p><p>A partir daí, o jogo começa. Improvisações físicas tomam conta da sala. Criamos engrenagens humanas, máquinas de gestos, sequências de movimento que depois ganham som. São partituras corporais que nascem do coletivo, mas respeitam o ritmo de cada um. Não há certo nem errado, há corpo presente. Essas momentos muitas vezes surpreendem os próprios estudantes, quando o corpo é autorizado</p><p>a criar, ele responde com generosidade. O que era timidez vira expressão. O silêncio vira som. O que era tensão se transforma em movimento.</p><p>Dois textos atravessam minha prática e me ajudam a dar nome a essas experiências. Em A Criança é Performer, Marina Marcondes Machado nos convida a perceber a criança em sua totalidade corpo, imaginação, gesto, afeto não como um projeto inacabado, mas como alguém que já performa a vida. Já experimentou, já sente, já age e já está em cena. Já está inteira.</p><p>Elyse Lamm Pineau, por outro lado, com sua Pedagogia Crítico-Performativa, me faz lembrar que todo ato educativo é também político. Quando ensinamos com o corpo, ensinamos também a resistir, a sentir, a encarar ideias e não apenas repeti-las.</p><p>Minhas práticas não são sobre fazer teatro, no sentido técnico da palavra. São sobre usar o teatro como campo de investigação do ser. Como linguagem viva. Como um espaço em que o corpo pode existir fora da lógica do rendimento, da performance escolar, do comportamento esperado. E é aí que começa o ensino quando o corpo não precisa mais se esconder para aprender.</p><p>A escola, muitas vezes, não sabe lidar com o corpo, ela tenta domesticá-lo, corrigi-lo, organizá-lo.</p><p>Desde cedo, ensina a sentar direito, calar a boca, andar na linha. O corpo que corre demais é repreendido. O que fala alto e silenciado. O que dança sem motivo é ridicularizado. A escola diz: contenha-se.</p><p>Mas o corpo não nasceu pra ser contido, ele pulsa, ele deseja, ele se move.</p><p>E claro que há exceções, há brechas, há professores que tentam romper com isso. Mas estruturalmente, a escola ainda opera com uma lógica que separa o corpo do pensamento. Como se aprender fosse só uma tarefa da mente. Como se o conhecimento só pudesse ser transmitido de forma abstrata, longe do suor, da respiração e do toque.</p><p>E isso tem consequências graves, a escola que cala o corpo, cala também os afetos. Cala o prazer de aprender, cala à escuta de si, cala o reconhecimento do outro. Produz estudantes que decoram fórmulas, mas não se conhecem. Que sabem repetir, mas não sabem se posicionar. Que tem medo de errar porque nunca puderam experimentar com liberdade.</p><p>Por isso o teatro, dentro da escola, não é só uma linguagem artística e uma linguagem de resistência. Quando um estudante se vê autorizado a se mover, a criar um gesto, a improvisar um som, a ocupar um espaço com liberdade, ele vive algo que a escola raramente permite: autonomia corporal.</p><p>E quando esse movimento acontece em grupo, em troca com outros corpos, a experiência se multiplica. A criança que não sabia olhar nos olhos passa a sustentar um olhar em cena. A que não conseguia falar em voz alta encontra uma forma de se fazer ouvir. A que vivia encolhida no canto descobre que pode abrir os braços, dançar, ocupar o centro. Isso é uma revolução silenciosa, às vezes.</p><p>Mas profundamente transformadora.</p><p>No fim das contas, o corpo em sala é um gesto político. E ensinar com ele, dentro de um sistema que tenta apagá-lo, e insistir: estamos vivos. E viver nesse contexto, já é desobediência.</p><p>Ensinar com o corpo é dizer: eu estou aqui.</p><p>E negar a separação entre o pensar e o sentir, entre o saber e o viver. E fazer do gesto uma linguagem, do movimento uma escuta, da presença uma escolha. Meu corpo, quando entra em sala de aula, não é neutro. Ele carrega histórias que não cabem nos livros didáticos. Ele habita um tempo onde nem sempre há espaço para corpos como o meu. E ainda assim, escolhe estar ali inteiro.</p><p>Quero que meus estudantes saibam que o corpo é mais do que aparência ou comportamento. Que ele é também memória, linguagem, política e possibilidade. Quero que descubram que há saberes que nascem no tato, no ritmo, na respiração. Que existe verdade no improviso, e poesia no tropeço.</p><p>Desejo que, depois de passarem pelas minhas aulas, essas crianças levem consigo algo mais do que exercícios. Que levem permissão, permissão para sentir, para ocupar e para existir fora da norma. Para performar sua própria história com coragem, com escuta e com presença. O corpo, dentro da escola, pode ser instrumento de dominação mas também pode ser fresta, ruptura e invenção. Pode ser o lugar onde começa a mudança. E é nisso que aposto: em corpos que aprendem não para se adequar, mas para se expandir.</p><p>No fim, o teatro não serve apenas para formar atores, ele serve para formar presenças. Presenças inteiras. Que saibam ouvir, mover, criar e afetar. E se isso acontecer, mesmo que só por alguns instantes, já terei cumprido meu papel. Porque ensinar com o corpo é transformar o cotidiano em cena. E transformar a cena em possibilidade de vida.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=dd6edef2836b" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Entre aquilo que me atravessa e aquilo que me nomeiam.]]></title>
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            <category><![CDATA[sensibilidade]]></category>
            <category><![CDATA[existence]]></category>
            <category><![CDATA[identidade]]></category>
            <category><![CDATA[vida]]></category>
            <category><![CDATA[escrita]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Filipe Morales]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 27 Apr 2026 18:56:28 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-04-27T19:01:48.061Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/720/1*5EXeUHNvyLE7MyJ3P8t8bQ@2x.jpeg" /></figure><p>Eu aprendi cedo que o corpo fala antes da boca. Antes de qualquer palavra, antes de qualquer explicação, já tinha decidido por mim. Pelo meu jeito de andar, o jeito de olhar, o jeito de ocupar o espaço, tudo parecia sempre um pouco fora do lugar, como se eu estivesse sempre chegando depois de uma definição que já tinha sido me imposta.</p><p>Sempre havia uma leitura pronta. Um enquadramento rápido. Uma tentativa de organizar aquilo que, em mim, não se organizava com facilidade. E ainda assim, havia algo que insistia.</p><p>Um corpo que não pediu autorização para ser, mas que também não sabia exatamente como existir dentro das estruturas disponíveis. Um corpo em trânsito, em escuta, em tentativa. Um corpo que experimentou o mundo antes de conseguir nomear o que estava sentindo.</p><p>Esse corpo, muitas vezes, foi atravessado por olhares que queriam me definir. Olhares que buscavam estabilidade, coerência, reconhecimento imediato. Como existir depende, necessariamente, de ser compreensível. E nem sempre sou compreensível.</p><p>O teatro apareceu, então, como uma promessa. Um lugar onde talvez eu pudesse experimentar outras formas de presença, onde o corpo não precisasse responder imediatamente ao que esperavam dele. Um espaço onde existir poderia ser mais pergunta do que resposta, mais processo do que definição.</p><p>Entrar no teatro foi, ao mesmo tempo, um colapso e uma deslocação.</p><p>Alívio por encontrar um espaço que, em teoria, acolhe a multiplicidade, o jogo e a invenção. Deslocamento por perceber que, mesmo ali, existem normas, às vezes sutis, às vezes explícitas, sobre como um corpo deve se comportar, se expressar e se apresentar.</p><p>No processo de formação, muitas vezes eu escutei propostas que partiam de um corpo considerado neutro. Um corpo disponível, moldável, pronto para ser preenchido por personagens, por interesse, por técnicas. Mas essa neutralidade nunca existiu para mim.</p><p>Meu corpo nunca chegou vazio.</p><p>Ele já veio carregado de histórias, de esforço, de esforço de leitura, de inadequações. Já vinha atravessado por experiências sociais, por expectativas de gênero, por pequenas violências cotidianas que, mesmo quando silenciosas, deixam marcas.</p><p>E isso muda tudo.</p><p>Muda a forma como eu ouvi uma proposta. Muda a forma como eu me coloco em cena. Muda a forma como eu me percebo sendo percebidoda.</p><p>Porque não se trata apenas de atuar. Trata-se de existir enquanto se atua.</p><p>Com o tempo, fui entendendo que o teatro também sabe enquadrar. Pedem voz, mas uma voz específica. Pedem corpo, mas um corpo reconhecível. Pedem presença, mas desde que ela não desorganiza demais o que já está organizado.</p><p>Existe um limite invisível para o quanto se pode deslocar sem causar incômodo.</p><p>E eu desorganizo.</p><p>Desorganizado quando não corresponde. Quando minha existência não cabe em uma leitura rápida. Quando o meu corpo não resolve a expectativa de quem olha. Quando a minha presença não entrega imediatamente uma resposta sobre quem eu sou.</p><p>Ser uma pessoa não-binária no teatro é, muitas vezes, colocada em lugar de instabilidade. Um lugar onde se ajuste espera, adaptação, tradução. Como se houvesse sempre algo a ser corrigido, alinhado, explicado.</p><p>Mas eu não quero ser corrigido. Eu não quero caber melhor. Eu não quero facilitar a leitura.</p><p>Eu não quero existir apenas quando sou compreensível.</p><p>Porque há uma violência silenciosa nisso. Na necessidade constante de tradução, de explicação, de adaptação. Na expectativa de que o outro consiga me entender antes mesmo de me escutar.</p><p>E há também um.</p><p>Cansaço de ser lido antes de ser ouvido.</p><p>Cansaço de negociar a própria existência em espaços que, muitas vezes, se dizem abertos.</p><p>Cansaço de perceber que, para alguns, eu só existo quando consigo ser nomeado dentro de algo já conhecido.</p><p>Esse cansaço não é sempre visível, mas atravessa o corpo. Ele aparece na hesitação, na autoconsciência exagerada, no ajuste constante de si para caber em propostas que não foram pensadas para corpos como o meu.</p><p>E, ainda assim, eu permaneço.</p><p>Permaneço porque, apesar disso, existem brechas.</p><p>Existem momentos em que o teatro realmente se abre. Momentos em que o corpo pode existir sem ser capturado imediatamente por uma lógica de reconhecimento. Momentos em que a presença não precisa responder a uma expectativa prévia.</p><p>São momentos raros, mas são reais.</p><p>Momentos em que o corpo simplesmente está. Sem necessidade de necessidade, sem necessidade de caber, sem necessidade de pedir licença. Um instante em que a existência não depende da compreensão do outro para se sustentar.</p><p>É nesses momentos que algo muda.</p><p>Eu comecei a perceber que meu corpo não é um erro. Não é um desvio. Não é uma falha na linguagem. Meu corpo é um acontecimento. Um processo em curso. Algo que não precisa ser finalizado para ser válido.</p><p>E isso transforma também a forma como eu me relaciono com o teatro.</p><p>O teatro deixa de ser apenas um espaço de reprodução de formas conhecidas e passa a ser um campo de experimentação da existência. Um lugar onde não é necessário resolver o corpo, mas escutá-lo. Onde não é preciso encaixar, mas sustentar.</p><p>Sustentar o desconforto. Sustentar o deslocamento. Sustentar uma dúvida.</p><p>Sustentar aquilo que ainda não foi organizado, e talvez nunca seja.</p><p>Nesse sentido, o teatro se aproxima de uma prática de escuta. Não apenas escuta do outro, mas escuta de si, das próprias fronteiras, dos próprios limites, das próprias possibilidades de existência.</p><p>E isso, para mim, é profundamente político.</p><p>Não faz sentido um discurso direto ou panfletário, mas não há gesto de afirmar uma presença que não se ajusta completamente às normas. Não ato de permanência mesmo quando não há garantia de pertencimento. Na insistência de existir fora das categorias que tentam dar conta de tudo.</p><p>Ser uma pessoa não-binária no teatro não é apenas uma identidade que eu levo para a cena. É uma forma de atravessar a cena. Uma forma de tensionar o que se entende por corpo, por personagem, por presença.</p><p>É um modo de perguntar, constantemente: quem pode existir aqui? De que forma? Em quais condições?</p><p>E talvez eu não tenha essas respostas fechadas.</p><p>Mas eu tenho o corpo.</p><p>Um corpo que continua em movimento. Que não se resolve facilmente. Que não se entrega completamente à leitura. Um corpo que, mesmo atravessado por cansaço e violência, ainda encontra formas de permanecer.</p><p>Talvez seja isso que me mantém no teatro. Não é uma promessa de pertencimento, mas uma possibilidade de continuar. Continue em movimento.</p><p>Continuar em processo. Continuar existindo entre aquilo que me atravessa</p><p>é aquilo que me tenta fazer ser.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/720/1*WJcUwH9H7Zj1jkAceFIKyQ@2x.jpeg" /></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=cf5b7257be6b" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
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