<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:cc="http://cyber.law.harvard.edu/rss/creativeCommonsRssModule.html">
    <channel>
        <title><![CDATA[Stories by INTENSIDADE DRAMÁTICA, por willian lansten on Medium]]></title>
        <description><![CDATA[Stories by INTENSIDADE DRAMÁTICA, por willian lansten on Medium]]></description>
        <link>https://medium.com/@wlansten?source=rss-f7274804ba76------2</link>
        <image>
            <url>https://cdn-images-1.medium.com/fit/c/150/150/1*Xbv8wiahVT-CWhQGN_BltQ.png</url>
            <title>Stories by INTENSIDADE DRAMÁTICA, por willian lansten on Medium</title>
            <link>https://medium.com/@wlansten?source=rss-f7274804ba76------2</link>
        </image>
        <generator>Medium</generator>
        <lastBuildDate>Wed, 03 Jun 2026 09:25:53 GMT</lastBuildDate>
        <atom:link href="https://medium.com/@wlansten/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/>
        <webMaster><![CDATA[yourfriends@medium.com]]></webMaster>
        <atom:link href="http://medium.superfeedr.com" rel="hub"/>
        <item>
            <title><![CDATA[Eu queria que a minha fantasia fosse eterna]]></title>
            <link>https://wlansten.medium.com/eu-queria-que-a-minha-fantasia-fosse-eterna-4807faca8734?source=rss-f7274804ba76------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/4807faca8734</guid>
            <dc:creator><![CDATA[INTENSIDADE DRAMÁTICA, por willian lansten]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 19 Feb 2026 17:18:39 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2026-02-23T20:36:04.583Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*iBKeW1PiSjBt8t80kS8HRQ.png" /></figure><p><strong><em>Hoje cê pode me esquecer, é Carnaval no Brasil</em></strong><em>…</em> se repetia em todos os stories dos gays no Instagram e em cada esquina do Centro de São Paulo. Ano passado, eu não pulei Carnaval, para falar a verdade, nem é uma data da qual eu tenha muito apego, nem um feriado que eu espere tanto. Mas este ano decidi que queria reencontrar alguns amigos, ser jovem na rua, e precisava esquecer dos problemas e fugir da realidade um pouco. E lá estava eu. E eles. Os homens. Vários. Vez e outra, os meus tipos me trombavam; vez e outra me olhavam; e, vez e outra, sorriam e me chamavam para um papo. Muitos, para além daquela cruzada de cruising e direta pegação, tinham um charme, uma conversa bem posta, uma conquista, naquela confiança de homem que sabe que não é só mais um e que, naquele instante, também te faz sentir como se você não fosse mais um. Eles queriam saber sobre mim, mais do que só uma pegação ali. A gente ria, e eles perguntavam o que eu fazia, me elogiavam, queriam saber se eu tava ali faz tempo. Eu tenho uns tipos bem específicos. Flertei com muitos, dei bola para alguns, beijei poucos.</p><p>Eu não significava nada para estes poucos e nem passava pela minha cabeça ser algo a mais, mas eu amo o drama, então, com alguns, eu me permitia fantasia e criei alguns significados e enredos. Foi assim com o ator famosinho e com o meu fixo de role, que a gente brinca de namoro, ciúmes e monogamia, sempre que se encontra; também foi assim com um colega, com quem vivo uma tensão entre brincadeiras e dúvidas; de um jeito bem engraçado, também ocorreu a fantasia com um “fã” que me seguia no Instagram, acompanha meu trabalho e me pediu um beijo. Mas, tal qual uma fanfic da minha adolescência, um conto de fada gay moderno, ou o tipo de história que, às vezes, eu acho que o universo manda exclusivamente para mim, foi no penúltimo dia de folia que a fantasia narrada deste texto chegou, e em dose dupla: um casal me cruzou em glitter a atenção. Amigos de um amigo, de amigos em comum. Deviam ser bem conhecidos ou apenas super gostosos, porque todos os cumprimentavam, e eles, aparentemente, conheciam todos os gays da Praça Roosevelt. Quando eles chegaram na nossa roda, coincidentemente, meus amigos estavam me zoando e me chamando de marmita, por conta de um casal que eu casei horas antes, e eu falava que meu amor de Carnaval era grande e intenso demais para dar para um só homem.</p><p>O casal, este novo, o que tinham de lindos não me pareciam ter de muito simpáticos, nos cumprimentaram e depois saíram de perto, sem grandes gracinhas. Achei meio fechados e na deles. Foram para outros grupos e, de longe, eu percebi que para outras bocas. Não dei bola, eu estava com meus amigos e estava noutra vibe, já flertando só por diversão e sem intenção ou busca de validação de homem. A noite ia caindo, quase madrugada a dentro, e eu trombei com o mais sorridente do casal algumas vezes: no banheiro, indo comprar uma água, na esquina, quando eu fui ver o movimento da rua. Nos cumprimentamos com sorriso todas as vezes; ele já tava um pouco bêbado e aparentemente um pouco mais simpático. O marido dele, só vi uma outra vez; até então, nem me olhou na cara. Eu estava para ir embora, mas minha amiga disse que o ônibus dela ia demorar mais de meia hora, então falei que esperava com ela o tempo do ônibus e depois ia. Ela me agradeceu e outro amigo chegou e falou para irmos para outro rolê dar uma puti-volta; já que estávamos na rua e sem ter o que fazer, fomos.<br>Lá eu encontrei de novo o casal, um pouco mais bêbados e bem mais soltos. Aquele com quem eu tava sempre trombando chegou me abraçando e falou: <em>“eu que to te seguindo, ou você ta me seguindo, príncipe?”.</em> Já tava ficando tarde demais e eu, meio dramático demais, já cansado, me batendo aquele sentimento de “<em>quanta superficialidade, o que eu to fazendo da minha vida?”</em>, e eu ri e só respondi<em>: “eu acho que é você que ta me procurando em todos os lugares”</em>. Ele riu, segurou meu ombro e sussurrou algo no meu ouvido. Não tinha me atentado ainda, mas o sorriso dele era maravilhoso, tal qual seu toque e mão. Naquele momento, ele já segurava apenas uma garrafa d’água. Dali não nos separamos mais, permanecemos no mesmo grupo. Rindo, dançando, falando mal do Carnaval e da vida. Quando deu quase meia-noite, eu disse que ia embora, e o mesmo cara que tava me procurando em todos os lugares pediu que eu ficasse. Como sou fácil para homem bonito com sorriso aberto, fiquei por ele. Pouco mais tarde, meu celular descarregou, e eu sabia que era oficial minha hora de ir; chamei minha amiga para irmos juntos, que eu carregava o celular na casa dela e racharíamos um Uber. E então ele, de novo, falou: <em>faz assim, vem para nossa casa, a gente mora perto, você carrega o celular lá, e o Uber vai ficar mais em conta</em>. Realmente, o Uber tava bem caro; um carro da casa deles para minha não daria 15 reais, e minha amiga morava quase do lado, não ia compensar. Mas recusei de cara e agradeci, ele só estava sendo simpático gratuitamente. Ele insistiu. Eu disse novamente que não precisava, que ele tava sendo gentil, e eis que o marido dele interveio e disse que eu podia ir para casa deles tranquilo e, de lá, ia embora, que seria mais barato achar Uber e eu, assim, ficaria mais no role, e que não precisava se preocupar. Foi a primeira vez que ele sorriu, e nesse caso, como eram dois caras bonitos, de sorrisos abertos, eu tava ainda mais que fácil, já ia responder que sim, mas minha amiga apertou minha mão e respondeu antes por mim. Os dois sussurraram algo um para o outro, algum acordo que não ouvi e eu disse que ia para casa deles. Não sabia se tava interpretando as malicias certas ou o que tava exatamente acontecendo. Eu sou um devasso, mas, às vezes, sou bem ingênuo.</p><p>Fiquei, comprei outra água e comecei a reparar mais nos meninos. Eles usavam uma aliança bem bonita e se tratavam carinhosamente, de uma forma muito natural e admirável; com mais liberdade e abertura, eram tão simpáticos quanto lindos e pareciam protagonistas de alguma série gay, pois ambos com uma química bem forte. Já era mais de meia-noite, o fluxo ficava cada vez maior, e o sono e a fome batiam. Quando fomos embora para casa deles, já passava de uma da manhã. Sentei no meio e durante a viagem, um deles deitou a cabeça no meu ombro, e eu fiquei acariciando seu joelho o trajeto inteiro. Com o outro, fiquei falando sobre nossos bairros, sobre quanto tempo moramos por aqui, sobre ter trinta anos e o pique que não temos mais para virar noite. Em determinado momento do trajeto, eles brigaram por algo bobinho e ficou um climinha comigo no meio deles, mas, enfim, chegamos. Deixei meu celular carregando, e eles foram me apresentar toda a construção da casa que recém tinham reformado. Brincando e meio bêbados, eles falavam o que cada um cedeu e não, mas que a casa era um sonho deles e que os dois construíram juntos. Nunca era um “eu” ou “ele”, era sempre “a gente”. Tudo o que eles falavam era sempre em dois, era sempre sobre os dois e para os dois. Me falaram da ordem que compraram cada uma das coisas da casa. Qual cômodo foi o primeiro a se reformar e quais faltavam. A porta do banheiro não fechava, e tinha uma dispensa que lembrava um quarto de pânico. De repente éramos amigos próximos, nem parecia que havíamos nos conhecido há pouco mais de 4 horas. Conversávamos e riamos bastante.</p><p>O mais sério deles foi buscar uns amigos na portaria, e eu fiquei sozinho com o outro; foi quando nos beijamos pela primeira vez nos fundos da casa, enquanto ele me mostrava seu jardim. Nessa altura, eu tava até duvidando que isso ia acontecer. Os amigos chegaram, eram de longe e iriam dormir por lá; aproveitei a deixa e falei que ia chamar meu carro, e eles pediram para eu ficar pra comer alguma coisa; os amigos tinham acabado de chegar, a gente podia ficar ouvindo música, que ainda tava “cedo”. Não sei dizer não quando quero dizer sim. Fomos ouvir música na sala, e fiquei de mãos dadas com o que eu havia beijado. Mais tarde, deitado na rede, o outro chegou e sentou do meu lado; fiquei acariciando seu cabelo, ele retribuiu os carinhos e me beijou o joelho. Conversamos mais um pouco sobre a vida, carreira, o carnaval, família, sobre morte, sonhos, sobre casa, sobre o casamento deles, sobre monogamia e sobre o Pedro Sampaio. As músicas continuavam a tocar no celular. Os amigos deles, bem mais novos que a gente, eram super divertidos, o tipo de jovem que a gente identifica que já foi, com questões engraçadas que a gente já viveu.<br>Quando já era quase quatro, mais tarde do que eu imaginei que fosse, peguei o celular e tava chamando o Uber, e eis que o do beijo chegou, tirou o celular da minha mão e disse pra dormir lá, que tava tarde demais. Falei que não queria atrapalhar, e, na porta do banheiro, ele me beijou de novo, rapidinho. Antes de eu voltar para a varanda, onde todos estavam, eu reparei os imãs e fotos de viagens na geladeira e nos quadros e nos souvenirs da vida deles na sala. Reparei aquela casa tão grande e cheia de amor, história e segurança, e me bateu um vazio. Espelhou em mim um vazio de, sei lá, tudo o que eu tenho feito ultimamente. Se eu estivesse bêbado, tenho certeza de que, naquele momento, eu iria chorar. Me pareceu um mundo tão distante, me senti numa narrativa de expectativa que eu sonho para a minha vida. Existia intimidade. Existia algo que não se pretendia grandioso, mas era gigante nas sutilezas, nos toques e no íntimo. Como se eu tivesse chapado, comecei a me prender em cada pequeno detalhe.<br>Um deles me chamou, falando: <em>“príncipe, vem para cá”;</em> ele estava deitado sobre o outro, com a mão entrelaçada e recebendo um cafuné; os mais novos bebiam e dançavam JetSki na sala. Sentei do lado do casal, e um deles pousou os pés na minha coxa; massageei eles e fiquei ali. Contemplando tudo. Cada pequeno detalhe. Havia cuidado em cada ação.</p><p>Poucas vezes na vida eu percebi uma segurança, carinho, zelo, compartilhamento, paixão tão genuína, uma troca tão leve e tão próxima entre dois caras. E este momento foi um deles. Eles tinham algo especial que transpassava os dois, era, da forma mais cafona e intima possível, a coisa mais sincera do mundo. Era uma possibilidade de vida na minha frente. Era o que eu sempre quis, o que eu, no meu íntimo e sobretudo, sem qualquer falso orgulho, mais sonho na vida. Era o que eu nunca tive em nenhum relacionamento, já cheguei perto, mas nunca consegui ter esse nível de intimidade e construção. Me faltou experiência, maturidade e, com certeza, segurança. De repente, eles se beijaram, e eu não podia terminar aquela fantasia como algo qualquer, eu não podia participar daquilo, não por não querer, mas por me conhecer. Eu tava no mood Willzinho adolescente. Era um conto de fadas acontecendo comigo, e eu nem era o protagonista, sequer tava na cena, e, estranhamente, estava tudo certo. Eu estava apaixonado, não só por eles, mas por aquele momento. Por aquele instante, por vivenciar um cotidiano a dois que eu havia sido convidado, eu queria que aquele instante durasse o tempo mais demorado possível. Eu assistindo essa intimidade de amor, presenciando, idealizando. Sonhando acordado. Eu construo narrativas, é meu jeito de viver e seguir em frente, sempre quero que as coisas signifiquem algo, me conecto fácil demais. Transar, no que eu já tava criando, me parecia um erro, se é que isso fosse acontecer; eu queria que a fantasia fosse isso, uma fantasia. Onde eu pudesse ter 17 de novo. Eu estava apaixonado, e era lindo de ver, mas tinha algo ali que me atravessava de um jeito dúbio: a possibilidade, o diferente, a novidade, a família. As latas de beats no chão, as fotos, a casa ainda em reforma, a purpurina na mesa, a massagem nos pés, a caixa de pizza na pia, os amigos que eram família, Ludmilla no comando tocando no celular, o glitter no rosto, o cheiro do jardim, tudo parecia distante da realidade, o sonho mais real possível. A realidade de alguém que eu sempre busquei ser. Tudo tinha uma leveza. Uma calmaria. Que é tudo o que eu mais preciso na minha vida. Ali, eles não queriam me impressionar ou tentar parecer, eles apenas eram. Para eles, não para mim. Os dois numa intimidade, onde eu apenas assistia. E era lindo. O mundo parou, e só os dois existiam para mim e um para o outro.</p><p>“<em>Não, fica aqui. Dorme com a gente.”</em> Pediram para eu ficar. E, de novo, eu fiquei. Era quase cinco quando fomos deitar. Sobre o que aconteceu depois, dessa vez, nem vem ao caso. Eu sabia que sairia mudado dali e tava numa zona de extrema vulnerabilidade. Que aquele encontro já significava algo. Eu sabia que eles não seriam mais um, aquela noite não seria uma noite qualquer. Dormimos juntos. Quis chorar de novo. Talvez eu estivesse mais sensível e carente que o normal. Refleti em como muitas vezes eu me esforcei demais e não tive a sutileza da metade. Muitas vezes eu tive grandes coisas, que eu sei que muitos nunca tiveram, mas me faltou o simples, o íntimo. Muitas vezes por conta minha, mas muitas outras por ter perdido tempo com erros e errados.</p><p>Enquanto eu voltava para casa na manhã seguinte, ainda cheio de glitter e cheiro de carnaval, eu pensava que não quero só ser escolhido, eu quero uma vida. Eu quero os quadros na parede. Os amigos na sacada. O café da manhã improvisado. O doce da padaria. Construir uma constância com alguém que também queira construir.</p><p><strong>Eu quero continuar a intimidade da manhã seguinte.</strong> Eu não quero mais apenas intensidade, <strong>eu quero construir a casa</strong>.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=4807faca8734" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Rápido demais para ser uma história de amor, intenso demais para não virar textão]]></title>
            <link>https://wlansten.medium.com/r%C3%A1pido-demais-para-ser-uma-hist%C3%B3ria-de-amor-intenso-demais-para-n%C3%A3o-virar-text%C3%A3o-504a74f8ec6f?source=rss-f7274804ba76------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/504a74f8ec6f</guid>
            <category><![CDATA[intimidade]]></category>
            <category><![CDATA[gay]]></category>
            <category><![CDATA[narrativa]]></category>
            <category><![CDATA[crônicas]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[INTENSIDADE DRAMÁTICA, por willian lansten]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 28 Nov 2025 16:14:59 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-12-31T14:10:30.149Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*_gBGQqYS89ZKBeEu4y0g1w.jpeg" /></figure><p>Esses dias, peguei para reler uns textos antigos, aqueles textos juvenis, bem bobos e emocionados, de quando, sempre que eu me apaixonava, escrevia sobre. Eu demorei para crescer, nossa, eu demorei muito para entender a vida e a mim mesmo. Eu sempre vivi uma ilusão. Sempre estive nessa fantasia, numa irrealidade de expectativas e idealizações. Talvez por ser um gayzinho do interior que cresceu com muita ficção, solidão e internet.</p><p>Voltar para esses textos me fez rir um pouco. Vejo um menino de 17 anos, ou 22, e até um de 26 que permanece; os medos e os faz de conta seguem os mesmos e presos em mim. Tem alguns lugares que nem mais de cinco anos de terapia conseguem mudar ou acessar. E é um pouco estranho porque, me relendo, tudo o que eu já fiz e quis quase não abraça em nada quem sou hoje. É como se um velho eu tivesse morrido, mas um novo ainda não tivesse nascido; eu tô perdido num alguém, num eu, que eu ainda não conheço. Às vezes sinto falta do que fui. Eu sempre fui triste, acho que sempre vou ser, mas sei lá… antes eu tinha uma dose de fantasia e jovialidade besta que não me fazia perceber isso. Eu me iludia e me permitia de um jeito tão fácil e mais vulnerável. Sempre fui medroso, mas tinha tão menos medo que hoje. Eu mentia tão menos para mim. Para falar a verdade, parando para pensar, eu acho que não sei se não reconheço mais quem eu era ou se não reconheço quem eu tô sendo agora. Eu realmente tô perdido.</p><p>Enfim, a maioria dos meus textos sempre foram sobre solidão, carência e faltas. Eles se cruzavam com estar apaixonado, ou estar conhecendo um cara, porque no outro, eu sempre consigo me estender e me encarar, sempre que eu me apaixono eu escrevo sobre. Eu só me permito sentir, quando nomeio. Eu me entendo, quando escrevo. Eu lido com minhas obsessões, quando escrevo sobre elas. E sempre que eu me entrego para alguém, é sempre uma porta que eu abro para ser eu mesmo. Tinha um bom tempo que isso não acontecia, me apaixonar por alguém… e um tempo maior que eu não escrevia sobre. Tem pouco mais de um ano que terminei meu último namoro, mas o relacionamento já estava terminado bem antes disso. Desde então, muita coisa aconteceu. Muito homem aconteceu, alguns que me estremeceram e até rascunhei textos. Nunca estive solteiro sendo um homem conscientemente adulto, desde o meu primeiro namoro — na verdade, desde bem antes, <a href="https://wlansten.medium.com/despedida-%C3%A0quele-que-nunca-vi-mas-sempre-amei-47f91946f89f">desde o Nando no Fake</a> — eu engatei um romance no outro. Emendei relacionamentos. Projetava sonhos no primeiro que mostrava disponibilidade. Nunca fiquei tanto tempo solteiro ou querendo estar, isso não acontece desde o meu terceiro ano da faculdade, e desde esse meu último término eu afirmei que ia permanecer assim, solteiro, por um tempo.</p><p>E eis que ali eu estava vivendo a loucura, as oportunidades e a vida de solteiro, num lugar que aquele Willian do terceiro ano da faculdade estaria julgando e incrédulo, e a inspiração desse texto tava ali, me encarando e chamando, encostado num canto. Como quem não queria nada, mas sabendo exatamente o que quer. Bonito demais para não chamar minha atenção, e bonito demais para eu dar atenção. Não teve jeito, mais do que interessante, ele estava interessado, me puxou para tocar, pra conversar, pra sair, para subir, para entrar. Ficou meia hora ajoelhado para mim, outros quinze minutos no meu colo, dentro de mim foram alguns minutos, e os próximos dias. Tinha acabado de chegar, mas já queria ir para casa e queria que eu fosse com ele. Eu parecia estar de frente pra um menino de 15 anos desesperado e sedento por paixão e companhia, era como se eu me visse. Fiz algo que nunca fiz com nenhum homem na minha vida, pedi calma. Depositei o amor que eu podia na boca dele. Ele recebeu e devolveu o amor que eu pedia na minha. Trocamos carinhos e malícias demoradas com meu gosto que era seu, e o seu que era meu. Tudo foi tão rápido, numa intensidade que há um bom tempo não era. De dois, viramos vários, e depois ficamos um. Me chamou para sair dali e ir pra casa dele de novo, ele morava ali pertinho, e queria passar mais tempo comigo. Só comigo.</p><p>Sorriso lindo, não fumava e nem bebia. Raridade. Um estereótipo, ou arquétipo, do tipo que todos iriam cair aos seus pés, e todos estavam, mas ele me escolheu. Marra de bad boy, cara fechada, diversas tatuagens desenhadas em cada músculo, barba rala e cabelo curtinho. Ele era o motivo de todos estarem naquele lugar; todos os outros queriam estar trancados no barulho que fazíamos. Me chamou atenção, é claro, mas o problema mesmo era quando abria a boca. Ele era totalmente diferente do que mostrava ser; manhoso demais; sensível demais; um garoto por trás de um homem grande. Insistiu que eu o adicionasse, que a gente mantivesse contato, e me chamou para ir para sua casa novamente. Quis aceitar, mas eu tinha acabado de chegar; e dele só sabia o nome e que engole.</p><p>Lembro que ainda no ônibus, voltando embora, já tinha várias mensagens dele. Repetidas vezes ele dizia que eu era um príncipe, o homem mais lindo que tava lá. Era mentira, óbvio… mas eu gostei de ouvir. Ele dizia que eu tinha algo especial e que me queria na sua vida. Tudo isso horas depois que a gente se conheceu. Fuçou todo meu Insta e ficou encantado, me chamava de disruptivo, de único. Eu não acreditava em nada. Mas comprava tudo. Tem coisa que é muito boa de ouvir num domingo à noite.</p><p>Ele tinha algo de diferente. De todos os vários outros com quem estive no último ano. Tinha uma urgência que eu não encontrei em nenhuma fast. Tinha um erotismo acelerado, um encontro de vulnerabilidades. Uma intensidade emotiva. Artista. Psicólogo. Professor de Yoga. Low Profile. Não tínhamos muito em comum, mas a nossa intensidade e carência eram bem compatíveis. E tudo nele estava me chamando atenção e pedindo para o fazer meu um pouco mais. Eu já tinha deixado um pouco de mim dentro dele, mas eu me queria inteiro ocupando todo o seu corpo. Era como se eu tivesse entrado num lugar que precisava ser tocado, que foi aberto com aviso. Ele se mostrava com promessa de durar.</p><p>Passamos a madrugada conversando. Dois dias depois, estávamos em vídeo chamada de quase quatro horas. No mesmo dia, eu já tinha lhe dedicado cinquenta minutos de terapia. Com três dias, fazíamos websexo e eu rascunhava esse texto. Mais uns dias, seus gemidos me atravessavam mais que o próprio gesto. Ouvir suas safadezas era como se eu ouvisse um pedido de abrigo, e eu o oferecia. Em uma semana, estávamos dormindo juntos, e eu já tinha foto dele no celular. Em dez dias, tínhamos planos para 2026, para o Carnaval, já sabíamos tudo sobre os ex de cada um, o porteiro dele sabia quem eu era e meus amigos sabiam o seu nome. Com doze dias, nos desentendemos, e eis que a fantasia acabou cedo demais. Acho que minha realeza se perdeu um pouco e não sustentou a realidade. Ele disse que tão rápido quanto se apaixona, perde o interesse, já tá acostumado. E assim aconteceu, do nada, no meio do filme. Eu quis um pedido de desculpas, uma explicação, que ele se recusou a dar. Então ele me bloqueou e se despediu. Desejei boa sorte, sem entender, e minutos depois, ele me deu um soft em todas as redes, mandou um coração e um áudio falando que não era para ser e que cada um seguisse seu caminho. A realeza sempre engana a realidade, mas ela uma hora chega. Não fazia sentido. O que aconteceu com toda aquela intimidade que faz dois homens adultos se esconderem num apartamento como se fossem adolescentes descobrindo o mundo pela primeira vez? Foi abrupto, um desentendimento e uma mensagem. E cada um pro seu canto. Eu, que ia dormir na casa dele naquela noite, acabei voltando para a minha, depois de passar as últimas horas refletindo se me respeitava ou passaria pano para certas atitudes. Mesmo que eu seja uma confusão de homem, há muito tempo eu já me despedi do menino. Eu me respeito em primeiro lugar.</p><p>Tava tudo certo, não era para ser, mas algo bateu diferente. Ele adentrou numa outra camada. Era outro eu. Era outro lugar. Eram outras permissões. Diferente da última<strong> </strong>paixão, essa, mesmo com tanta bobagem, tava com ares de maturidade, de papos adultos. Pela primeira vez eu pude ver com outros olhos o quanto eu sou sozinho, e o quanto, no meu mais profundo, eu almejo dividir a vida com alguém. E ele tava sendo a possibilidade desse alguém. E olha, doeu.</p><p>Não sei se foi o peso e reflexão de tudo que este ano foi. Se era a solidão compartilhada, sobre sermos dois solitários implorando e se permitindo afeto sem julgamento. <a href="https://wlansten.medium.com/a-vida-continua-mesmo-a-gente-parando-47fc482690be">Talvez sejam as marcas e medos daquelas duas semanas do infarto</a>. Talvez seja o vazio recorrente que eu sinto depois de tantas fodas de aplicativo ou fim de festa. Talvez seja porque, pela primeira vez em um bom tempo, alguém falou de futuro e não só de presente. Ou que alguém falou sobre planos concretos e compartilhados. Alguém trouxe perspectiva e eu fiz projeção. Ou talvez porque foi a primeira vez que eu saí da casa de alguém, e, ao invés de me perder um pouco, eu meio que me encontrei. Dessa vez, eu acordei e quis ficar, não tive pressa ou vontade de ir embora. Enquanto a gente se bagunçava, não tinha mais um qualquer ali, mas sim alguém que estava feliz de estar ali, e mais feliz ainda por eu estar ali. Tinha entrega. Tinha muito desejo sendo derramado um no outro. Tinha ele, que fazia questão de verbalizar tudo o que sentia e queria — ele deve ser um bom psicólogo, pois é ótimo com palavras. Ele era totalmente de uma linguagem de palavras de afirmação, meu oposto, que sou sempre tão quieto e tímido, e isso era o que eu mais gostava nele. Eu o tocava como alguém que toca um outro que não quer perder, suando e se lambuzando juntos, eu acreditava que nada lá fora existia. E só eu sei o quanto eu tô precisando esquecer que o mundo lá fora existe.</p><p>Acho que é verdade quando dizem que, quando e onde você menos espera, as coisas podem acontecer. Um amor pode surgir. Eu nem estava à procura, nem querendo, mas, essas coisas quando são boas e fazem sentido, não têm como fugir. E aconteceu.</p><p>Mas acho que, não tinha como dar certo, e é até bom que isso tenha se mostrado tão rápido. Dois homens formados se escondendo num apartamento e esquecendo o mundo. A vida lá fora precisava existir, e, afinal, quem era ele, além de uma idealização, de um boy padrão tatuado, sonho de fanfic? O que ele me dava? O que eu conhecia dele?</p><p>Bom, o suficiente. O suficiente para, mesmo tão rápido e sem razão, estar… apaixonado (?). Ele não dorme sem meias, e não consegue dormir sem estar vestido. Eu já sabia seus horários e agenda. Os livros que ele não terminou, e os que deixou para ler depois. A forma como ele organizava a gaveta. Sua opinião sobre relacionamento aberto, sexo casual e casamento. Eu sabia o que o excitava. Tinha algo em seu tremer que eu sentia ter descoberto algo que poucos sabiam. Conhecia alguns de seus traumas e vulnerabilidades. Sabia que ele não consome açúcar, só bebe água com gás, pratica Yoga todo dia e gosta de se dar rosas. E aqui eu já tava me encontrando e me perdendo, porque todos esses detalhes eram o suficiente. Conhecia onde doía e onde já haviam marcado. Eu conhecia o seu apartamento e sua introversão, e ela combinava com a minha, e foi ali. Ali que eu me entreguei e, antes de dormir, foi ali que me deixei sonhar acordado. Espelhamento, sei lá? Eu me vi nele. E, mesmo sem conhecer muito, sem saber mais dele, eu já queria ficar, e aquilo era o suficiente. E tava sendo algo bom. Bom até demais.</p><p>No dia seguinte que ele me dispensou e se despediu, eu chorei. Meus amigos o chamaram de tóxico, e que foi um livramento, e eu concordo. Foi mesmo. Mas, no próximo dia, me senti ainda mais descartável e lhe dediquei mais cinquenta minutos de terapia. No dia seguinte, eu já estava mais tranquilo e voltei pra esse texto. Acho que realmente o que vem fácil, vai tão fácil quanto chegou. Deve ser a modernidade da gay culture e esses amores líquidos. A gente sempre querendo mais. SPCAP, com centenas de opções para quem sabe que facilmente tem todas. Ou deve ser eu, que já tô me acostumando com tudo isso e já nem me esforço tanto, só deixo acontecer e se não deu, fazer o que? Acho tão contraditório: eu, com tanta fome de afeto, ter tanta prática com solidão. No fundo, a verdade é que tô cansado de promessas sem dizer. Mas eu continuo repetindo padrão.</p><p>Alguns dias depois, passei perto da sua casa, é meu caminho. Senti um leve aperto, me deu uma curiosidade do que poderíamos ter sido depois de um mês. Me peguei pensando: o que seríamos hoje, ou depois da virada do ano? Depois do Carnaval? Sempre que passo pela sua rua, me pego pensando e, vez ou outra, sinto falta do que a gente poderia ter sido. Confesso.</p><p>Dias atrás, vi que ele ganhou alguns prêmios em um babado importante, ele nem faz ideia, mas fiquei feliz. Ele mereceu. Quis mandar mensagem, parabenizar, mas ele deixou bem claro ao me bloquear que duramos aqueles doze dias apenas. E, aparentemente, é isso que foi. Não vou falar que foi amor; amor assim, foi muito rápido para ser, mas foi espelho, e isso fez doer como se fosse.</p><p>Se eu pudesse falar algo hoje para ele, acho que seria <strong>“obrigado por aqueles dias”</strong>. Eu, como alguém que é conscientemente e exageradamente romântico, carente, dramático, sensível e melancólico, te agradeço, por me lembrar disso, te agradeço por me fazer viver um romance, me encantar, me bagunçar e por me lembrar do que realmente vale a pena. Se apaixonar. Se apaixonar é o que me faz vivo. Eu sempre sei quem eu sou quando eu tô apaixonado.</p><p>Seja feliz, <em>Bruno</em>.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=504a74f8ec6f" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[A vida continua. Mesmo a gente parando.]]></title>
            <link>https://wlansten.medium.com/a-vida-continua-mesmo-a-gente-parando-47fc482690be?source=rss-f7274804ba76------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/47fc482690be</guid>
            <category><![CDATA[infarto]]></category>
            <category><![CDATA[jovem]]></category>
            <category><![CDATA[vida-adulta]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[INTENSIDADE DRAMÁTICA, por willian lansten]]></dc:creator>
            <pubDate>Sun, 06 Apr 2025 20:11:05 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-11-28T05:15:22.898Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*vaw2YC_tVefl5q9yI3MdYQ.png" /></figure><p>Tive um infarto aos 29 anos. Do nada. No susto. Sem entender.</p><p>De repente, eu estava passando uns dias na UTI e duas semanas internado. Sumi das redes, não consegui e nem deu tempo de avisar ninguém, fiquei sem celular. Alguns dias passaram e pensei em fazer um post no Instagram, sabe? Postar selfie com a pulseirinha, explicar meu sumiço e tomar o protagonismo dos pensamentos das pessoas, fazer da ausência narrativa e performar um drama online pra colher um carinho forçado um <em>conta comigo previsível</em>. Mas eu tava meio assustado. Me fechei. E tô falando sobre isso só agora.</p><p>A verdade é que eu sou bem complicado. Não é a primeira, nem a segunda vez que escrevo sobre isso. Sou um tanto carente, extremamente solitário e melancólico. E tudo isso sem querer ou me esforçar para ser. Eu me dou muito bem sozinho, de verdade, e dependo de mim como quem constrói uma fortaleza. Sem intenção, e quase sem perceber, eu resisto e desvio de quase todas as tentativas de chegarem tão fundo. Não queria ser assim, mas eu sou uma constância desconfortável, que sempre se sente um exagero. Eu não peço ajuda. Nunca. Não cobro ninguém, o que meio que me isola ainda mais. No fundo — e, bom, na superfície também — eu sou frágil. Frágil até demais. Só que eu finjo bem. Tô até acostumado.</p><p>Tentei levar as coisas no humor, na medida do possível de como se levar um infarto com humor, afinal ele sé meio que a melhor defesa e disfarce. Quando recuperei meu celular, dias depois que sai da UTI, acalmei os amigos mais próximos e os avisei, dizendo: <em>“a vida é um sopro, e eu tenho um no coração. Não é nenhuma surpresa eu quase morrer por ele. Tive um infarto, sumi por conta disso, mas to bem.”</em></p><p>Parecia uma piada. Era, de certo modo. Mas também era verdade. E foi, sem dúvida, <strong>A EXPERIÊNCIA</strong> mais triste, solitária e assustadora que eu já tive nesses 29 anos de vida.</p><p>Apesar de tudo, um susto desses — <em>e o que poderia ter acontecido com duas horas de atraso, se eu não fosse pra UPA</em> — não me trouxe grandes revelações e nem uma súbita conexão com a fé, como a gente imagina que acontece em casos assim. A cada ecocardiograma, um silêncio novo ecoava pelos diversos muros que eu já levantei. Fui entendendo algo que, no fundo, eu resisto a ser tocado, e todo o meu isolamento, talvez seja a minha forma de implorar por afeto. E, nossa, como eu preciso dele.</p><p>Não interessa — e nem é relevante — falar sobre como aconteceu, como foi ou responder curiosidades. Eu falei disso com médicos por duas semanas, não aguento mais. Fiquei dias acalmando meus pais falando sobre cada segundo de tudo, tranquilizando que não foi nenhuma droga, nem bebida, nem nada muito pesado no centro de São Paulo que eles veem com jovens pela televisão. Eu não aguento mais falar sobre esse assunto. Me recuso a esse <em>voyeurismo</em>, e assumo silêncio para minha dor não satisfazer curiosidade alheia.</p><p>Recebo alta amanhã, e assim que eu pisar na rua, eu deixo para trás as 52 injeções, os 14 exames, os 12 eletrocardiogramas, as seringas, lençóis, remédios, algodões, os livros não lidos, deixo o <em>“tadinho do Príncipe Harry, tão novo…”.</em> Eu deixo para trás, e ao mesmo tempo carrego comigo, pois isso é o tipo de coisa que não se abandona. Mas, sobre infartar aos 29, tenho pensado bastante, e é bobagem quem acha que um trauma desse transforma toda a sua vida, não a minha pelo menos. Não agora, não sei. Na prática, a gente volta pro mundo lá fora com as mesmas inseguranças, só que com mais cicatrizes e um pouco mais de medo de tudo. É verdade que você não sai o mesmo depois de uma experiência dessas, óbvio, nem tem como. Mas, mais uma vez, também não acredito que eu vá mudar todo o sentido da minha vida, ou que grandes transformações vão surgir. Fiquei dias deitado, mas continuo bem pé no chão. A vida volta ao normal, mesmo que eu não volte. Eu provavelmente nunca mais volto ao que já fui. Quem eu era até semanas atrás, ficou aqui na UTI do Hospital Tatuapé.</p><p>Infelizmente, eu não vou parar de me cobrar, nem de me pressionar tanto. Eu já lido com isso em terapia, sei que ninguém consegue sair mega lucido depois de um susto tão grande, mas o mundo de fora, é confuso e denso. Algo mudou. Mas, a vida também continua igual, nada mudou. Não lá fora. Tudo tá igual.</p><p>Não consegui pedir desculpa para os meus pais, não vou pedir a conta do meu emprego, meu aluguel e minhas contas não vão ficar mais baratas, não farei uma inovadora mudança no visual, também não farei uma tatuagem ou uma super viagem para sentir que a vida vale a pena. Escrevi um textão — que é o que eu sempre faço. Depois de amanhã, eu ainda serei o mesmo, contraditoriamente, mesmo sabendo que isso é, no mínimo impossível. Acho que ainda não entendi. Escrevo por isso. Tenho me sentido tão triste.</p><p>Já cantava Whitney Houston: <em>“nós não conhecemos a nossa própria força”.</em> Das marcas que ficam, dos “limites de transformação”, deixo meu romantismo para trás. Encaro, numa verdade crua e sem autopiedade, duas coisas:</p><p>A primeira, <strong>nós somos mais amados do que imaginamos</strong>. Talvez esse seja o momento piegas do texto, a parte espirituosa. No meio da minha sobrecarga emocional e dessa “traição” da idade, no meu espaço que ta sempre em guerra com tentativas de aproximação, meu peito se enche de amor e gratidão para todos os que sentiram minha falta e estiveram comigo. À minha família, em primeiro lugar. Eu estive perto de uma desistência mansa e bem assustado, eu conseguiria sozinho, mas foi mais fácil com eles. Nunca mais olharei para os meus pais da mesma forma, levarei para sempre uma culpa por tudo o que causei nesses últimos dias. Em segundo lugar, aos meus amigos, a gente se surpreende com as pessoas que sentem a nossa falta, e eu sou mais amado do que imaginei. No meio de vários equipamentos, idosos, enfermeiros, estagiários, soros, fios, bips… eu agradeço, cada amigo, pela “realidade paralela” de áudios preocupados, de voz embargada cheia de carinho; aos amigos que compraram e fizeram piada, que falaram dos médicos gatos com qual eu sairia apaixonado (<em>foi o residente da UNIP que ia de terça e quinta, mas meu doutor quase que me faz ser poliamoroso</em>); à música cantada para eu ficar bem; as mensagens diárias que eu recebia antes do trabalho; as mensagens e risos que me lembravam os sonhos, karaokês e homens que ainda vou viver; a quem me xingou por conta do susto; a quem genuinamente quis me visitar e não conseguiu; a quem entrou em contato com minha irmã; a quem sentiu minha falta e procurou; a quem ficou feliz por receber áudios grandes meus; a quem se ofereceu para ir para minha casa organizar; a quem falou <em>“amigo, longe de mim imaginar sua morte, mas a única morte que faria sentido para você, seria pelo coração, poético e dramático do seu jeito”;</em> a quem respeitou meu espaço e meu momento. Eu sou um eco de silêncio. Eu também sei disso — é por isso que escrevo. Tem muito eco guardado nos meus muros de autodefesa. Obrigado por levarem isso no humor, mesmo num momento que sei que estavam tão aflitos quanto eu. Obrigado aos que me lembraram da beleza desorganizada no corpo que quase cede. Obrigado por me conhecerem, e obrigado pelo esforço nisso. A vida nem sempre é epifania (nem mesmo a minha), eu sempre brinco que eu sou a quarta geração do romantismo, mas no interior eu sou bem realista e direto. Quem me conhece, sabe.</p><p>A contradição de tudo isso, justamente a segunda verdade das marcas que ficam: <strong>nós também somos bem menos amados do que imaginamos</strong>. Afirmo que não tem nenhuma indireta aqui, e também não tem rancor, o espaço dele no meu coração, o sopro pegou para si. O romantismo vai e a realidade fica. De novo: pé no chão. É preciso praticar a desimportância, e nós somos desimportantes, ou pelo menos beeeeeeeeeeeem menos importantes do que queremos/acreditamos ser. E não por mal, ou escolha, mas por que a vida é assim. Os outros também são. Em pouco tempo, seremos pouco lembrados, às vezes, até esquecidos. A partir do momento que não estamos mais presentes, ou conectados, os dias passam, e não faremos falta. E está tudo bem. Partes nossas sempre ficarão nos outros, mas nós não ficamos. Nossas lembranças e memorias vez e outra sim, mas até essas um dia se vão. Elas não têm força de permanência sem a nossa presença, o que temos é o hoje, o agora, é quem está aqui hoje e agora. Nós não somos nada, todo mundo vive um todo que é mais importante, mais urgente. Lá em cima eu falei sobre tatuagem, se eu curtisse, saia daqui e tatuava um <strong>No day, but today</strong> do Rent. Tenho refletido bastante sobre essa experiência de como as coisas e as pessoas são repentinas, e como todo mundo ta numa correria, e vivendo algo que o outro não sabe. Nesse momento, <em>ninguém entende isso melhor que eu</em>. Não falo disso como um lamento, nem como quem acabou de descobrir o segredo da vida, mas como alguém que a partir disso, se vê de outra forma. Não temos tantos amigos quanto imaginamos. Não somos tão amados assim. Tem tanta vida (e as vezes quase morte) que está acontecendo e não fazemos ideia, as vezes com alguém do nosso lado. Alguém que compartilhamos memes, postamos #tbt, que lembramos naquele minuto e arrastamos tão rápido quanto um Tik Tok. Somos desimportantes. E é isso. Somos amados, e somos, também, esquecíveis. Finitos. Limitados. E tudo bem que seja. Não tem outro jeito. Fora do romantismo e do momento agora, a vida continua, mesmo a gente parando por um tempo. A vida vai continuar. Tudo tem seu momento, e temos ótimos momentos com várias pessoas, mas é isso que elas são e serão: momentos. Uma parte. Lembrança. Não a vida, não o todo. Acho que essa maturidade que falo se encontra nisso, em não cobrar nem esperar nada de ninguém. Não por mal. Não é culpa de ninguém, nem nossa, nem do outro. Sem levar pro coração. É preciso se dar e ser desimportância, e não pesar isso no peito. Ou pesar isso no outro. Porque realmente, ta tudo bem, tem outras poucas pessoas que nos amam e fazem parte da nossa vida. E surgirão outras em outros momentos, e até na vida. E mesmo que não tenhamos, ou pareça que não, a gente consegue dar conta. E como consegue.</p><p>Não acho que este infarto me fará mudar de vida, nem gosto que falem isso, não vou buscar nele tanta responsabilidade. E sinceramente, assim parece ser o jeito mais honesto de seguir, é pelo menos o que eu acho que consigo.</p><p>O mundo lá fora continua. Eu também.<br>Vou fingir que não doeu tanto e isso basta, por enquanto.<br>Não tem enredo de superação. Não tem lição. Tem só o tempo. O eco tentando se traduzir.<br>E eu. <strong>Tentando.<br></strong><em>(Que bom que ganhei essa nova chance e vou conseguir ver Wicked parte II!)</em></p><p>Willian Lansten.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=47fc482690be" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[entre delongas / lençóis ***]]></title>
            <link>https://wlansten.medium.com/entre-delongas-len%C3%A7%C3%B3is-507aa523633?source=rss-f7274804ba76------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/507aa523633</guid>
            <category><![CDATA[gay]]></category>
            <category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
            <category><![CDATA[cotidiano]]></category>
            <category><![CDATA[romance]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[INTENSIDADE DRAMÁTICA, por willian lansten]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 10 Dec 2021 13:48:12 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2021-12-16T14:33:45.141Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*nIZzv-W9BarK-CZU1xjkfw.png" /></figure><p>Se você não quiser levantar, te deixarei ficar o resto do dia nos meus braços e prometo não soltar. Quero fazer do meu abraço um convite para você ficar, e se você quiser te deixo fazer do meu peito um convite para se entregar. Quando estes dias passarem, se você deixar, eu faço de mim permanência mesmo distante. Se você quiser mesmo com meus receios relutantes vou acreditar em qualquer coisa que falar quando acordar.</p><p>Tão rápido quanto chegar da Tietê em Santa Cruz, algo mudou nestas últimas horas em que descansa em meus braços, é como se a cada segundo que passasse eu só quisesse te prender e te amarrar em mim feito laços. Sem querer, eu choro baixinho enquanto uma fresta de luz pela janela começa a esquentar sua panturrilha, acalmo minha respiração para que ela não te acorde e começo a contar os pelos da sua barba enquanto desenho amores em cima de suas tatuagens com a ponta de meus dedos. O que eu estou fazendo? O que estamos fazendo? Te acho tão precioso, e eu estou com tanto medo, faz tempo que isso não acontece. Talvez mesmo assustado, acho que eu to preparado para o que vier a decorrer. Você está?</p><p>Rapaz, você ta fudendo minha cabeça enquanto fode comigo, e eu não quero mais lutar contra isso. Posso confiar em você? Não sei se você entende o que está fazendo, mas toda essa intimidade em 60 metros quadrados, esses atrasos no trabalho para delongas de lençóis, essas pequenas surpresas quando você volta, suas lágrimas quando lembram que eu vou, tudo está me passando uma mensagem. Será que estou entendendo certo? Independentemente do que você esteja fazendo, continue, eu assumo qualquer consequência. É quinta feira, essa semana passou voando, vivemos uma lua de mel no meio de suas plantas e sujamos todas as almofadas da sala no meio da tarde, eu to me entregando demais, mas não consigo deixar de me preocupar se talvez você vai deixar de <em>ser poema e ser problema para minha vida</em>. Você me desespera, e eu finjo que não porque você não gosta de me ver desesperado. Eu também não gosto de ficar assim, mas não consigo e você quase percebe.</p><p>Meu coração bate tão forte em te ver dormindo… eu só queria que ele parasse por um tempo porque eu não quero que a precipitação dessas batidas o acorde. Queria congelar esse momento, queria a duração dele e não só a lembrança num texto ou em alguns stories secretos. Torço para que seu despertador demore um pouco mais, não quero que o mundo lá fora exista, quero a proteção, conforto e cuidado dessa vida de nós dois. Esses dias isolado dentro das paredes do seu mundo me fazem querer que mais nenhum outro exista. <em>O que eu estou fazendo?</em> Não quero mais saber de trabalho, das suas notificações que vi sem querer, dos outros, não quero voltar para casa, não quero bater ponto e nem saber de processos seletivos. Eu só quero esse momento. É loucura, mas toda essa viagem e o que estou sentindo também esta sendo.</p><p>Eu to me apaixonando, e eu sinto isso em cada arrepio que tenho agora. Sinto que se você acordar eu te confessarei todos os meus segredos. Se você abrir os olhos e me pegar chorando, eu solto tudo o que to guardando e farei isso sem culpa alguma. Se você acordar com meus suspiros, eu prometo que não pensarei no amanhã, não pensarei em mais nada e seguirei a sua filosofia de desapego do dia seguinte, de viver o hoje sem querer nada além disso, de não definir ou esperar algo do futuro. Na verdade, talvez eu já não queira mais nada, nada além de segurar sua mão e fazer do seu quarto uma fantasia prolongada. Eu cansei da realidade, eu cansei de ser real. Eu quero o teatral, eu quero congelar essa cena e sair dela, quero ir para plateia e assistir seu solo de protagonista. Eu te daria todas as flores e aplausos que o mundo já te negou. <em>Se tiver um caos, te levo flor.</em></p><p>Eu não devia, mas nessa manhã sou capaz de te dar tudo o que eu nunca nem tive para mim. Me esforçarei para isso. Deixo rolar, deixo levar, faço memórias e construo histórias. Me sinto uma criança deslumbrada e talvez a maior gratificação disso tudo seja tudo isso que já está acontecendo. É você no meu peito, o cheiro de eucalipto, a sala bagunçada, as fotos que não vamos postar e o filme interrompido de madrugada.</p><p>Quando você acordar me ajuda a prolongar esse momento mais um pouquinho? Não quero voltar para mim mesmo, não quero me preocupar por estar sentindo tanto, quero continuar o sonho. Se eu tentar ser mais leve, tranquilo e menos sério, você promete que não vai se aproveitar de tamanha vulnerabilidade? Desculpe meus medos, é que eu to correndo para um caminho sem volta, me avise se eu estiver indo sozinho.</p><p><strong>Seu despertador toca.</strong> Você acorda. <em>E eu também…</em>):</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=507aa523633" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Fervor de quarentena em três encontros]]></title>
            <link>https://wlansten.medium.com/fervor-de-quarentena-em-tr%C3%AAs-encontros-986e06cc26a7?source=rss-f7274804ba76------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/986e06cc26a7</guid>
            <category><![CDATA[quarentena]]></category>
            <category><![CDATA[romance]]></category>
            <category><![CDATA[crônicas]]></category>
            <category><![CDATA[solidão]]></category>
            <category><![CDATA[lgbt]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[INTENSIDADE DRAMÁTICA, por willian lansten]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 09 Apr 2021 17:45:20 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-11-28T02:36:26.649Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/0*lKoQHYet4nuIOdhR" /><figcaption>Photo by <a href="https://unsplash.com/@nattha?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Nattha Khamso</a> on <a href="https://unsplash.com?utm_source=medium&amp;utm_medium=referral">Unsplash</a></figcaption></figure><p>Você tinha acabado de chegar à cidade, e nos conhecemos da maneira mais teatral possível: numa audição. No mesmo dia, não sei como, você achou minhas redes sociais e me mandou mensagem. Não demorou muito para surgirem os corações duplos na tela, e os elogios enviados para 2018, 2016, e até para um sorriso de 2014: <em>“Você sempre foi um príncipe, que gato!”</em>. Te segui de volta, e não demorou muito para as malícias começarem a chegar por mensagens diretas. Conversamos a madrugada inteira, com ousadias de única visualização.</p><p>Pensei que talvez você servisse para um casual, e eu estava louco por isso, mas você me chamou para um encontro, na lata, já na manhã seguinte. Acordei, e esse foi o seu bom dia.</p><p>Fui para o seu Instagram e também voltei para 2019, 2018 e 2016. <em>Cara, você sempre foi lindo, e esses ombros me fizeram pensar com quantos anos você começou na academia</em>. Era pandemia, então sugeri que fôssemos para uma praça. Não sabia qual era sua intenção, mas você dizia que queria me conhecer melhor. Se encontramos naquele dia mesmo, o isolamento deixa a gente urgente com tudo.</p><p>Ficamos distantes, sem nos tocar, de máscara, com sua cachorra, e o Vitória Régia quase vazio. Me surpreendi com o quão interessado você estava em me conhecer melhor: o que eu fazia, o que estudei, o que assistia e gostava. Fui embora mais tarde do que esperava. Você era um gentleman, um poço de educação, assunto e disposição. Até esqueci que vi todos os seus formatos e sombras na madrugada anterior. Você me fez rir e me fez esquecer a solidão da quarentena. Plena segunda-feira, e eu anoiteci na rua brincando com sua cachorra, falando de Glee, da faculdade, e do teste do dia anterior. Nenhum de nós passou. Escrevi um texto para você na mesma noite; o encontro foi bom nesse ponto, e tinha sido apenas a segunda vez que eu te vi.</p><p>Na manhã seguinte, já te falei que tinha te escrito algumas coisas antes de dar bom dia, e você me questionou se era erótico. Acho que não estava acordado direito ou raciocinando, porque te mandei na lata: <strong>“o sonho não foi, mas a vontade que tá aqui na minha mão é bem erótica”</strong>. Estou relendo essa mensagem enquanto escrevo este texto, e me sinto um pouco envergonhado. Nosso primeiro encontro, sem nenhum abraço ou toque, me causou um desejo muito maior do que eu imaginava. A sua risada, sem ver seus lábios, criou todo um proibido pelo qual eu estava apaixonado.</p><p>Naquele mesmo dia, mais tarde, você me chamou para assistir a um filme na sua casa. Marcamos de nos ver no fim de semana, e no segundo encontro mais uma vez me surpreendi. Desta vez foi sem máscara, e nos abraçamos, pela primeira vez. Você foi ainda mais gentil, romântico, atencioso, engraçado, e ali, em algum momento da noite — entre o medo de estar sozinho na praça da USP às onze da noite, entre o iFood entregando as esfirras do Habib’s, ou a hora em que percebi que nem sabia seu nome ao ver sua CNH em cima da cama, ou até na escolha dos filmes que você tinha baixado — , comecei a caminhar para outro lugar. Ali, no segundo encontro, eu não queria que fosse só um casual. Quase nem prestei atenção no filme, que assistíamos abraçados. Em determinado momento, você pausou a tela, acariciou meu rosto e perguntou se podia me beijar. Eu ri; achei que nem ia rolar, a noite já estava romântica o suficiente. Daí você perguntou novamente, queria a resposta em palavras. “<em>Por favor”</em>. Acho que esse foi o momento. Pontualmente aqui. Não seria um casual.</p><p>Nem vimos o final do filme, pois um novo filme estava acontecendo ali, e éramos os dois atores protagonistas. Você sussurrou salivas no meu pescoço e perguntou se eu queria assistir outra coisa. Ficamos um tempão abraçados e se acariciando, era quase meia-noite quando chamei meu Uber. Aquela noite de domingo me acompanhou durante o resto da semana. Meu romance te prendeu em mim, e eu me agarrei a ele como há muito não me agarrava em abraço algum.</p><p>Nos dias seguintes, algumas coisas começaram a mudar. Seus bons dias começaram a chegar depois do meio-dia e, depois, foram parando de vir. Você começou a ficar muito ocupado. Até os convites maliciosos pela DM do Instagram viraram apenas cliques duplos. Eu, que queria demorar, vi tudo passando rápido demais.</p><p>Não sei se fiz algo ou deixei de fazer algo. Não sei se não era para ter pausado o filme. Não sei, só sei que nada aconteceu, e você sumiu. E passaram algumas semanas. Depois meses.</p><p>Deixei de te seguir. Você continuou acompanhando meus stories e curtindo coisas minhas. Os casos de Covid aumentaram na cidade, fiquei ainda mais trancado em casa e perdemos o contato. Achei que era o fim do primeiro ato, mas parecia que, na verdade, a cortina já tinha fechado: a peça acabou mais cedo que o esperado. Até que aconteceu na semana retrasada.</p><p><em>“Olha só quem tá aqui. Quanto tempo, bebê”</em>. Senti um frio na espinha e fui te abraçar. Demos um selinho acidental, e voltamos a encenar. Voltamos ao palco. Mais uma vez, outro encontro teatral: uma nova sede de um coletivo na cidade.</p><p>Não nos falamos muito, mas passamos a tarde inteira trocando olhares. Desfocados. Riamos de alguma piada interna feito bobos. Talvez nós fôssemos essa piada. As pessoas perceberam o clima. Tudo voltou: o ‘por favor’, a CNH na cama, as músicas da Duda Beat na praça da USP, o filme pausado, os livros que você estava lendo e eu queria saber se terminou.</p><p><em>“Bebê, topa dividir um Uber?” </em>— Você me abraçou suado. Eu queria lamber cada gota de suor que escorregava pelo seu braço. Reparei no rasgo que tinha do lado dos seus shorts e quis rasgá-los inteiro. A gente não se via havia quase três meses, nem nos falávamos direito, mas parecia que nosso beijo tinha sido anteontem. Disse que estava com fome e fomos comer pastel. Falamos sobre a aula, sobre os casos de Covid, sobre nos acostumarmos e sobre como eu parecia estar mais bonito ainda. A noite estava indo bem: alguns toques sem palavras, álcool em gel nas mãos, silêncios, aquele clima de algo inacabado; os papos começaram a ficar tensos e as vontades explicitas. Tínhamos uma história incompleta, um encontro que faltou algo. Tínhamos algo a fazer ainda. Nos olhávamos só esperando uma deixa, esperando um e o outro, um ao outro, e um no outro. Eu sabia que você queria, e deixava nítido, sem falar nada, que eu precisava disso.</p><p><em>“Quer ir lá para casa?”</em> — <strong>“Por favor!”</strong></p><p>Subimos a Nações Unidas com a pressa de quem estava sedento. E estávamos. Chegamos à sua casa e não havia ninguém. Tudo conspirava a nosso favor. Meu celular e minha carteira ficaram na mesa, meu tênis em cima do sofá, minha regata no chão da sala, minha calça, de algum jeito, foi parar em cima da estante do seu quarto. Foi tudo tão rápido, com tanta pressa. Falei para nos acalmarmos, e você sugeriu que era melhor tomar banho, pois o dia tinha sido cansativo. Por mim, o sexo teria sido sujo e suado mesmo. Eu queria te lamber inteiro. Fomos ao banheiro; entrei primeiro, e você ficou me observando. Quando tirou sua cueca, rapaz, que bônus! <em>Você não sabe se valorizar em fotos</em>. Nos abraçamos, e provavelmente desperdiçamos mais água e energia do que o correto. Ainda molhados, sentei ao sanitário; você veio, e ali começou tudo o que demoramos tanto para fazer. Depois, ainda mais na pia do banheiro, e muito, muito, muito mais no chão do seu quarto. Molhamos a casa toda e tomamos outro banho.</p><p>Voltamos para a sala, e passava alguma série que te fazia rir muito. Eu pensei que você seria um ótimo namorado. Você voltou a me beijar. Transamos de novo, e eu quis que você fosse meu namorado.</p><p>Já estava tarde. Você levantou da cama e foi até a janela. E esta imagem, eu nunca vou esquecer. Você é lindo. Reparei na tatuagem que você tinha nas costas, não tinha lido até agora. Te observei inteiro: seus ombros são perfeitos, o corte do cabelo estava torto, você tinha um machucado na panturrilha e uma marca de nascença na cintura. Fotografei esse momento. Eu quis tatuar ainda mais a sua pele e queria que você continuasse a escrever sacanagem na minha.</p><p><em>“O que tá escrito nessa tatuagem?” </em>Você se deitou de bruços e falou sobre ela. Já estava tarde, e eu precisava ir embora. Chamei meu Uber. Nos beijamos na porta, e você disse para eu não sumir e para nos vermos mais vezes. Disse para você fazer o mesmo.</p><p>Duas semanas se passaram, voltei a te seguir no Instagram. Não nos falamos com frequência. Na verdade, tem uma mensagem no seu WhatsApp que ainda nem foi visualizada. Acho que foi isso, pelo jeito. Queria que fosse mais, e sigo pensando em você de vez em quando. Precisei escrever esse textão por isso. Mas três encontros estão ótimos; assim não se estragam as lembranças.</p><p>Não esquecerei as brincadeiras do primeiro encontro, as ilusões do segundo, e a intensidade do terceiro. E aquela sua tatuagem.</p><p><strong>“Somos tudo aquilo que acreditamos ser…”</strong></p><p>_______________________</p><blockquote>Carências e hipocrisias a parte, a pandemia é a mesma, mas o momento hoje é o pior possível, vivemos um delicado tempo e o mais tenebroso possível, milhares de morte num dia. O ocorrido deste texto aconteceu em Setembro/Dezembro do ano passado, reconheço o erro, e não me isento dele. Mas hoje, principalmente, em Abril de 2021, muito mais do que antes e frente a tudo o que esta acontecendo: Repensem bem cada atitude e o que vale a pena. Se possível fiquem em casa.</blockquote><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=986e06cc26a7" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Despedida àquele que nunca vi, mas sempre amei]]></title>
            <link>https://wlansten.medium.com/despedida-%C3%A0quele-que-nunca-vi-mas-sempre-amei-47f91946f89f?source=rss-f7274804ba76------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/47f91946f89f</guid>
            <category><![CDATA[fake]]></category>
            <category><![CDATA[amor]]></category>
            <category><![CDATA[saudade]]></category>
            <category><![CDATA[primeiro-amor]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[INTENSIDADE DRAMÁTICA, por willian lansten]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 04 Feb 2021 01:23:02 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-04-27T04:46:39.967Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*3HpVEt1XgDLK2qyG4Iy23g.png" /></figure><p>Há alguns dias venho pensando em como começar e o que escrever nesta carta. Para mim, ainda é difícil acreditar: eu, que te escrevi tantas outras, agora te escrevo uma de despedida, e, o pior, uma que você nem vai ler. Sinto que talvez esteja numa fase de negação; tudo isso simplesmente parece irreal e impossível. Dentro de mim, já tinha te criado uma vida, sabe? Mesmo de longe, mesmo sem contato, na minha cabeça eu esperava tanto de você e acreditava tanto em ti. Já te imaginei casado, talvez até com uma filha. Lembro do quão bem você se dava com sua sobrinha, que hoje já deve ter uns 13 anos, certo? Sempre te imaginei jogando bola com os amigos no fim de semana, tal como fazia tempos atrás. Te pensava num trabalho chato, reclamando todos os dias e sentindo falta dos tempos da escola, que você odiava, mas que hoje talvez sentisse falta. Imaginava que você já não morava mais em Uruguaiana, e finalmente estivesse morando em Porto Alegre.</p><p>Nos últimos dias, ouvi nossas músicas, todas aquelas que foram trilha sonora dos meus 14 anos. Tem músicas que eu peguei no meu mp3 que nem lembrava mais. Algumas me arrepiaram, me transportando de volta aos primeiros anos do ensino médio, outras, de repente, me fizeram lembrar a letra inteira, mesmo sem ouvi-las há anos. Tantas que, na última semana, se tornaram as mais ouvidas do meu Spotify. Nossa, o Spotify, que por sinal nem existia naquela época. Tantas outras coisas não existiam. Tantas coisas deixaram de existir. Eu guardo tantas lembranças saudosas, das quais sinto tanta falta. Junto a você, lembro também do meu primeiro celular e da sua foto de papel de parede, do seu nome na contra capa do meu caderno. Você estava presente em todos os momentos, desde as aulas de educação física que eu matava na sala de informática até as madrugadas de férias que virávamos até a hora do almoço na frente do computador. É uma mistura de sentimentos voltar a pensar em um tempo em que não havia tantas redes sociais, onde eu nem sequer tinha dado meu primeiro beijo, não sonhava com faculdade, estava longe do meu primeiro emprego, não fazia ideia do que era produtividade, rotina de trabalho, normas da ABNT, planos de carreira, sexo casual, tap no Grindr, currículo Lattes e aluguel. Foi um tempo tão distante, eu era alguém tão distante. Às vezes, sinto falta daquele tempo.</p><p>Antes de você, eu não tinha nenhuma referência, nenhuma experiência. Não existia medo, não havia pressa ou cobrança, era tudo tão novo. Não havia concepção de homofobia, receio com os pais, vergonha da sociedade, segredo dos amigos, dúvidas. Era tudo tão leve. Seu amor foi o primeiro, e foi mais intenso do que a minha púbere Vênus em Câncer poderia suportar. Me entreguei sem ar. Nos conectamos naquele ambiente de confraternização, compartilhando os mesmos interesses, sonhando juntos diversas realidades. Eu com 14, você com 17. Éramos tão meninos. Não sabíamos o que queríamos, só queríamos um ao outro.</p><p>Hoje, mais de dez anos depois, eu reflito e entendo toda a proteção que eu tinha com nosso amor. Era tudo tão ingênuo e delicado, e eu queria que fosse assim. Ao te amar e te proteger, eu fazia o mesmo por mim, e lembro de como eu precisava de amor e proteção. Fomos tão crianças, mas também tão adultos. Posso me lembrar claramente de nossas brincadeiras e promessas. Ninguém sabia de nós dois. Eu nunca te comentei a ninguém, então tudo ficou guardado só em mim. Só em você. E estava bom assim. Eu não queria interferência, julgamento ou opinião de ninguém. Era outro tempo, eu nem sabia o que era ser gay. Ninguém iria me entender, e você nem precisava disso, com você sempre foi tudo natural. Vivíamos em nosso mundo, e aquilo me bastava. Talvez eu fosse egoísta, mas não queria te dividir com ninguém. Você foi responsável por tantas mudanças na minha vida, eu pensava que alguém poderia quebrar nós dois, balançar ou questionar o que tínhamos. Hoje, reflito que é estranho pensar que ninguém te conheceu, dada a importância que você teve em minha vida. Foste o primeiro, e às vezes parece que você foi invenção minha, que te criei com tudo o que eu ousava querer. Mas, sabe, só eu sei daquele tempo e de quanto você foi tudo o que eu conhecia e sonhava, estando dormindo ou acordado. Assumimos algo que poucos teriam coragem. Os tempos eram outros.</p><p>Lá no início da pandemia, maratonei Glee pela sei lá quantas vezes, e lembrei de quando você baixou a primeira temporada para acompanhar, só porque eu gostava. E de como você passou a odiar a série depois que terminamos, não podia ouvir nenhuma música deles ou do *Nsync.</p><p>Ainda de volta a 2010, lembra quando coloquei nossas iniciais na árvore em frente à minha escola? Acredita que, hoje, em 2021, elas ainda estão lá, como se eu tivesse feito isso ontem? Eu estou na frente da árvore, rindo lembrando do trabalho que deu fazer isso dez anos atrás. Foram horas imitando o romantismo dos filmes, machucando a árvore com uma tesoura sem ponta e um estilete. Foi muito mais difícil do que eu imaginava. Lembro das pessoas passando, e eu com medo de algum policial aparecer e me prender. Mas ali ficou registrado. Todos que passam por aqui até hoje sabem que existiu um<strong> C </strong>e um <strong>L</strong>, mesmo que ninguém saiba o que significa ou quem foram eles. Fico curioso para saber se as pessoas se perguntam o que significa. Será que alguém já sentou aqui e imaginou que dois caras se amaram, e um deles quis deixar isso registrado para a posteridade? Será que alguém imagina uma história parecida com a nossa? Que história nós tivemos, não? O Lance amou tanto o Cesc. Éramos o “otp”. Eu sinto agora um aperto no peito. A praça está lotada. Eu estou com o fone ouvindo nossas músicas, encarando esta árvore, marcada com o tempo e eternizada na minha adolescência.</p><p>Fer, o que aconteceu? Por quê? Como? Eu custei tanto a acreditar. Você tinha tanto a oferecer, ainda era tão novo. Em dezembro passado, você deveria ter completado 28 anos, no dia 15. São tantas coisas que eu queria te falar. Tantas coisas que aconteceram desde a nossa última conversa. Eu sou outro, e você provavelmente também era. Eu tinha tanto para te contar. Acho que estou escrevendo esta carta, como tantas outras que te escrevi, para conversar contigo e te atualizar sobre a minha vida. Talvez isso me ajude um pouco. Vou tentar me enganar e acreditar que nada aconteceu, e que vou colocar um remetente para sua casa amanhã. Acho que é agora que começa a carta de verdade:</p><p>Quanto tempo! Cara, eu não sei nem por onde começar. Sabe, eu me formei! A última vez que conversamos, eu tinha acabado de entrar na faculdade, lembra? Me formei, e até terminei uma pós-graduação numa área totalmente diferente. Você iria rir e dizer que super combina comigo. E você estaria certo, me conhecia tão bem quando eu era mais novo. Ah, outra coisa, você vai ficar surpreso para caralho. Lembra daquele menino hétero da faculdade, que eu era apaixonado? O que eu te falava que me lembrava muito você? Nós nos beijamos anos atrás. Sim, eu nem esperava, mas aconteceu numa noite em que ele estava bêbado e curioso. Mas ele continua hétero, sempre foi. Nenhum pouco curioso ou bi, só um hétero seguro, mas teve curiosidade e fez isso por mim. Eu lembro que você dizia para eu não perder tempo com qualquer um quando estava apaixonado por ele, e que devia reconhecer meu valor. Olha, você ficaria decepcionado se soubesse algumas coisas que aconteceram nesses últimos cinco anos. Enfim, voltei a falar de coisas boas. Eu saí daquele emprego da escola que eu não suportava, lembra? Aquela confusão com justiça e advogados envolvidos. Você ficaria puto com a treta. Piorou muito! Mas depois melhorou. Ah, lembra que eu estava tirando carta de carro? Pois é, não tirei. Sou péssimo motorista, te falei que estava apreensivo. Reprovei três vezes e desisti. Sério! Mas este ano estou pensando em tentar de novo. Cheguei a pensar em pegar o carro, sumir, fazer uma loucura e descer até o Sul para te encontrar. Pena que hoje isso não tem como acontecer. Me custa tanto acreditar, Nando. Por que? A gente nunca se conheceu, nunca se viu, e agora isso nunca vai acontecer. É tão injusto! Eu não soube mais de você, o que aconteceu? O que você fez? Para onde foi? Eu esperava tanto de você. Esperei tanto por você…</p><p>Eu queria tanto saber se você terminou seus estudos, se ainda está com a guria que estava conhecendo. Não gostava dela, acho que até em 2016, ainda sentia ciúmes de ti. Será que teve outras namoradas? Parte de mim sempre desejou que você deixasse de se definir como hétero. Ai, Nando, isso é tão anos 2000. Confesso que desejava que algo dentro de você fosse bi-curioso, pelo menos. Brincadeira. Mas você sabe que, se tivesse um namorado homem, que não fosse eu, eu te caçaria por este Brasil, né? Mesmo que eu já estivesse casado, pai de família, ou morando do outro lado do mundo. Isso não é brincadeira. Eu te caçaria e teria um ódio mortal do teu namorado. É loucura, mas, mais uma vez, nunca vai acontecer. Tantas coisas nunca vão acontecer com você. Toda uma vida que você poderia ter não vai acontecer. Toda uma vida que você teve se foi, e nós dois fomos para algum lugar. As lembranças ficam só comigo agora.</p><p>Sabe, por sua causa, eu te procurei em vários outros, por um bom tempo. Nenhum me deu o platonismo e romantismo que eu tive aos 15 anos. Nenhum me deu aquelas descobertas dos 16. E nenhum vai dar. O que criamos era uma história, ficção, não era realidade, mesmo sendo uma das coisas mais reais que eu já senti. Hoje, com 25, olho para trás e sou tão grato. Consigo perceber tantas coisas que nunca vi antes. Você mudou a minha vida. De verdade. E eu torço para que, de alguma forma, eu também tenha mudado a sua. Foram quase dois anos juntos.</p><p>Poxa, Nando, tudo o que eu não chorei na terapia falando de você, ou que não chorei desde que recebi as suas notícias, eu chorei escrevendo e relendo esta carta. Eu queria tanto que ela estivesse com seu remetente, ou direcionada ao seu e-mail. Queria tanto que você a lesse um dia. Eu queria que, de alguma forma, você soubesse de tudo o que eu sinto e ainda tinha a falar. Não sei por que nunca te falei tudo isso, em detalhes. Sei lá, talvez eu só tenha conseguido entender tudo isso agora, tarde demais, depois de quebrar o coração e a cara algumas vezes, depois de uma traição, depois de experimentar outros amores. Mas eu só queria que, de alguma forma, você soubesse de tudo isso.</p><p>Você mudou a minha vida. Deu um sentido a ela num momento que eu precisava muito. Contigo, aprendi a amar, e é pelo amor que sigo em frente. Esteja onde estiver, eu só tenho a te agradecer. Eu sempre te levarei comigo. Muito obrigado por tudo o que você não sabe que fez. Muito obrigado por tudo o que, graças a você, segue acontecendo em mim. Eu prometo que, daqui para frente, vou lembrar bem quando você disse que eu merecia o maior amor do mundo.</p><p><strong>Do Lance, para o Cesc.</strong></p><p>Do Willian, para o Fernando.</p><p><strong>De 2010, para todos os outros amores que vierem.</strong></p><p>Eu sempre. Sempre. Sempre mesmo, irei amar você. Poucas coisas na vida duram para sempre, <em>e o primeiro amor é uma delas.</em></p><p><strong>Descanse em paz.</strong> Eu te amo.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=47f91946f89f" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Todo mundo merece a chance de um grande romance]]></title>
            <link>https://wlansten.medium.com/todo-mundo-merece-a-chance-de-um-grande-romance-da9c9268ad6c?source=rss-f7274804ba76------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/da9c9268ad6c</guid>
            <category><![CDATA[heteronormatividade]]></category>
            <category><![CDATA[love-victor]]></category>
            <category><![CDATA[lgbt]]></category>
            <category><![CDATA[adolescencia]]></category>
            <category><![CDATA[com-amor-simon]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[INTENSIDADE DRAMÁTICA, por willian lansten]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 23 Jun 2020 21:11:11 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2022-04-25T23:57:38.746Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*FybENxEuwB5TqIuC-LETqA.png" /></figure><p>Desde sexta-feira passada, as minhas redes sociais têm bombado com comentários e <em>sentimentalismos</em> sobre o coming of age gay, <strong>Love, Victor</strong>, e apesar de uma relutância pedante minha, acabei ficando curioso e decidi dar uma chance. Quarentena, tempo de sobra, por ser uma série rapidinha e que já estava inteira disponível online, seria um bom passatempo de conforto.</p><p>E para minha surpresa <em>(ok, na verdade nem tanto)</em>, logo no primeiro episódio e troca de olhares eu estava entregue e arrebatado. Era uma paixão rápida, a minha e a fictícia do protagonista pelo seu crush padrão de fanfic, estávamos ambos num clima bobo e ingênuo de romance, coisa de quem já passou pelo seu meloso primeiro amor. A série tem uma proposta bem adolescente com um roteiro até clichê e um draminha bem dosado, coisas que jovenzinhos héteros sempre tiveram mas a gente ta descobrindo agora e aos poucos, não sei se foi o sol que acabou de entrar em Câncer, mas a lembrança do frio da barriga, do primeiro beijo, dos primeiros encontros, me deixaram um pouco mais pensativo, sensível e introspectivo que o normal (e meu normal já é bem sensível e introspectivo). Devorei a série numa madrugada, consequências de ansiedade na era de streaming.</p><p>Dez episódios depois e, de repente, todo o sentimento de encantamento e desejo que eu senti, foi se tornando numa sensação de amargura, inveja e ressentimento. Acho que a trama de Victor me despertou um gatilho, que a tempos eu guardo, mas não o encaro ou levo a sério. E tudo o que eu sentia e pensava era que assistir um rapaz de 16 anos se apaixonando por outro, e tendo um namorado era injusto comigo, pensar em romance adolescente é sempre injusto comigo, pois foi algo que eu nunca pude ter, não me era permitido. Como assim as pessoas estão tendo algo, que eu sempre quis e me fez falta, mas que me foi negado?</p><p>Em algumas semanas eu faço 25, mas as vezes me sinto com 16, e isso talvez se dê porque tudo veio muito tarde para mim e eu não pude aproveitar a idade. Tem várias matérias por aí falando sobre adolescência tardia, e sobre como somos obrigados a ser adultos antes de sermos adolescentes, isso causa uma falta por dentro, um buraco que uma hora vem a tona. Foi muito tarde que aconteceu o meu primeiro beijo, meu primeiro namoro, a primeira paixão recíproca, e diversas outras coisas das quais eu não tive a chance de aproveitar na minha adolescência e foram vindo no inicio dos vinte e poucos correndo contra o tempo. Eu sinto que as inseguranças, medos e barreiras que eu construí, <em>ou que me foram construídas</em>, me proibiram de viver tantas coisas, eu tive tantas experiências negadas. Eu tive, e ainda tenho, várias experiências negadas naquela fase de desenvolvimento e autoconhecimento que é a adolescência, eu passei por uma fase de emoções intensificadas sem que elas fossem descobertas por completo, é uma mágoa que sempre me faz cobrar e pensar que eu fiquei para trás, enquanto meus amigos estavam lá na frente vivendo a adolescência, eu estava parado enfrentando vários tipos de cobranças e traumas. Dentro de mim, ainda sinto que tenho algo a recuperar e a provar mesmo com quase vinte e cinco. Antes da permissão de amar, ou de pensar em dar meu primeiro beijo, ou até quem sabe ter um namoradinho destes que a gente faz coração no caderno e jura que é eterno, antes de se quer pensar em tudo isso, eu tinha que refletir na desaprovação que eu teria dos meus pais e amigos, da vergonha que minha família do interior sentiria, da humilhação que eu poderia passar na escola. Eu fui obrigado a me privar destas vontades, elas não eram possíveis para mim, eu desejava muito, claro, nesta idade a gente tem curiosidade e anseio de saber como é tudo isso, todos os meus amigos estavam experimentando, e eu sabia que tinha que dispensar e evitar estes pensamentos porque eles não eram o que era esperado para um menino ter, ser amado ou amar estava tão distante. Eu lembro que era como se eu vivesse num constante medo de perder tudo, e mesmo assim acabei perdendo. Dentro de mim, as vezes, é como se eu ainda estivesse perdendo tempo enquanto tento recuperar um tempo passado.</p><p>Lembro de ver minhas amigas dando seus primeiros beijos apaixonados, e os meus só vieram quando eu era maior de idade, eu lembro dos meninos ficando com as meninas em festas, e a primeira balada que eu fui e fiquei com alguém me ‘sentindo seguro’, eu já estava na faculdade. E isto é injusto, foi injusto. Eu estava em fase de desenvolvimento, com a mesma idade do personagem da série, e eu tinha medo de sequer sonhar com romances, eu só observava todas as pessoas vivendo de um para outro, e pra mim quando a ideia de um possível amorzinho passava pela minha cabeça, eu usava o fake do Orkut, me realizava no maior sigilo e segredo, no armário. Para que ninguém soubesse ou comentasse, precisava ser escondido. E assim outros romances acabaram sendo também. Todos os quase namoros que eu tive foram escondidos, foram sem ninguém saber, foram sem poder ser comentados, não declarados, não publicados. Até hoje me sinto numa prisão e me pergunto se aceitar tudo isso não foi devido aquilo me foi tirado aos dezesseis. Será que eu aceito namoros escondidos, porque eu aprendi que é assim que deve ser?</p><p>Anos depois que eu terminei o ensino médio e já não estava mais usando o fake, eu tive meu primeiro namorado, e pouco mais tarde na faculdade, o meu segundo. E com ambos, parece que eu voltava para aquela situação que eu tinha aos meus quinze anos. Eram novas realidades, mas tal como a outra, não poderia ser explicita, foram dois amores que não tiveram a liberdade de ser o que poderiam ser. Dois amores que ainda me eram negados. Eu lembro que todos os meus encontros eram sempre dentro do carro, ou afastados de tudo. Todos os meus beijos foram escondidos. Todos os meus carinhos eram com o máximo de cuidado e de preferencia no escuro. Eu me forçava a acreditar que não me importava em ter que aceitar um relacionamento limitado em quatro paredes, sempre no silêncio, sempre no escuro, sempre isolado, como se fosse um marginal, como se estivesse preso. Meu primeiro namoro, as pessoas do trabalho dele não podiam desconfiar, no segundo os pais e amigos não podiam saber. E eu, sempre com o pensamento de que tinha que ser daquele jeito mesmo. E assim eu me acostumei, me acostumei a não ser apresentado aos amigos, a soltar a mão caso alguém se aproximasse, a não compartilhar fotos, a não me declarar em redes sociais, a ter que me segurar para não gritar ao mundo o que eu sentia, a em hipótese alguma usar a palavra namoro, a ficar atento com tudo o que falasse e onde falasse. Eu aprendi que qualquer romantismo, não poderia ir para além de mim, ou além deles, o romantismo tinha de se prender apenas em nós dois, o romantismo não poderia sair da porta do quarto, o romantismo não poderia ser demonstrado. Justo eu, que sonho com um amor livre, <em>que ainda não chegou</em>, eu achava que aceitar um romance preso era o que estava ao meu alcance e era possível. Eu não sabia que outra forma era possível, ninguém me falou ser, e tudo o que chegava até meus braços era essa impossibilidade. Não os culpo, e não me culpo, <em>ta me culpo um pouco sim</em>, mas, acho que não temos culpados nesta situação. No fundo, infelizmente, o medo era maior que o amor. Sempre os irei amar, e é uma pena a forma que eles ficaram em minhas lembranças. Torço que para num futuro, eu nunca mais passe por isso. Torço que ninguém passe pelo escuro que eu passei.</p><p>Hoje eu não tenho uma visão de amor como um grande idealismo romântico, ou com uma falsa ideia de felizes para sempre, de que o amor basta e supera tudo… mas no fundo, bem guardadinho em mim eu acho que acima de qualquer orgulho e falácia, eu ainda sofro pelo menino que não experimentou a ingenuidade e liberdade deste tipo de amor, talvez eu ainda queira a experiência, dentro de mim tem aquele sonho adormecido de um romance leve e fácil, eu queria saber das coisas por mim mesmo, sem ser pelos outros, ou por telas e literatura.</p><p>É como se dentro do homem que eu sou, existisse escondida uma criança ferida, uma criança que não pode ser ela mesma, um menino sozinho que teve que se armar e fingir, teve que aprender que era ele por ele, teve que se abraçar porque o afeto lhe foi negado e ele não tinha com quem falar sobre isso. Eu me sinto esse menino diversas vezes, ainda choro como ele chorava a dez anos trás. Eu não tive com quem desabafar, e nem desabar, e hoje a armadura criada esta tão colada em mim que eu não consigo me abrir de verdade, essa armadura me protege na mesma força que me machuca.</p><p>Este homem que eu sou no fundo busca um colo para se aconchegar, um abraço para desabar, uma mão para segurar e correr de toda maldade. O triste é que por fora este mesmo homem já se vê crescido e velho demais para assumir isso, o tempo passou, não vai voltar, hoje eu tenho que fingir ser menos sonhador, menos ingênuo, menos emocionado, eu tenho que fingir ser mais pé no chão, desapegado e racional. É tudo uma mentira, pois de verdade tudo o que eu quero é fingir que eu tenho dezesseis e viver tudo o que me foi negado. <em>Tomara que ainda seja possível.</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=da9c9268ad6c" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[As fantasias que continuo inventando]]></title>
            <link>https://wlansten.medium.com/as-fantasias-que-continuo-inventando-afdc41fe1f06?source=rss-f7274804ba76------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/afdc41fe1f06</guid>
            <category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
            <category><![CDATA[crônicas]]></category>
            <category><![CDATA[comportamento]]></category>
            <category><![CDATA[encontro]]></category>
            <category><![CDATA[carência]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[INTENSIDADE DRAMÁTICA, por willian lansten]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 15 Jan 2020 22:47:05 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-11-10T22:01:02.290Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*Rmc3hb0QAO70zDuREPBqWg.png" /></figure><p><a href="https://open.substack.com/pub/willianlansten/p/as-fantasias-que-continuo-inventando-afdc41fe1f06?r=6cv3ai&amp;utm_campaign=post&amp;utm_medium=web&amp;showWelcomeOnShare=false">tem uma versão revisada, melhor escrita e revisitada deste texto aqui *.</a></p><p>O tempo passa, e enquanto vou ficando mais velho, amores vem e vão e parece que eu mudo de ideias conforme uma nova maturidade me surge diariamente, mas, embora eu lute, certas coisas nunca mudam, como esse meu vício em ver tudo com um olhar romântico. O romance é, contraditoriamente, o meu ponto fraco e o meu ponto forte, eu me sinto completamente indefeso e entregue a qualquer dose dele.</p><p>Às vezes eu sinto que eu tive uma adolescência perdida, roubada, mal aproveitada, sei lá, porque sempre que eu me vejo de cara com qualquer dose de romantismo, eu me coloco num lugar de extrema fantasia, imprudência, urgência e carência. Parece que algo falta em mim, algo que eu não vivi e é como se eu fosse um adolescente frente ao primeiro amor, a uma nova descoberta, ao desconhecido. Todas as vezes é como se fossem a primeira vez. Eu gosto de me jogar sem culpa, de querer a eternidade, de planejar uma vida enquanto eu fecho os olhos no primeiro beijo. Eu sempre quero que seja diferente, mesmo que de certa forma na minha cabeça é sempre diferente.</p><p>Tudo o que eu sinto é real para mim, esteja isso acontecendo na frente dos meus olhos, ou nos meus delírios ao fecha-los. Tinha um tempo que eu não me arrebatava assim tão fácil, de cara, mas aquele charme, ou a altura, talvez o sorriso e com certeza aquele moletom largado da Unesp me fez lembrar do quanto eu gosto de uma entrega fácil e rápida logo no primeiro flerte.</p><p><em>‘Eu te conheço, não te conheço?…’</em> E lá eu estava sentado vendo o Feed do Instagram, afastado e sozinho, esperando meus amigos voltarem do bar. Sorri, e simpaticamente, o lembrei de onde e como nos conhecíamos. De forma disposta, e extremamente cativante, ele puxou uma cadeira e se colocou na minha frente, falou diversas coisas apenas com um sorriso. Suspirei, desliguei o celular e o coloquei no bolso, pronto, a minha atenção era dele, meu interesse era para ele, aquele momento, aquele instante era um presente dado exclusivamente para o seu feitiço. Ele continuou a conversa, de forma encantadora com a mão pousada em minha coxa. Abri ainda mais as pernas, e então ele desceu mais as mãos, foi de uma maneira tão lenta e sutil, que aquele erotismo parecia até sem intenção. Era como um início de pornografia implícito, eu o provocava e ele respondia, naturalmente. Era bobo, juvenil.</p><p>Ele sabia conversar, e quando parava me entretinha com o sorriso, e sabia disso, eu permitia me perder sempre que ele abria a boca. Não sei se era o cheiro de romance com o da bebida que ele tinha tomado, as gotas do sereno, o clima, aquela mão pousada perto a minha virilha, ou só o fato de estarmos nós dois ali sozinhos mas algo me dava uma saudade de carinho, um ar de querer que minha carência fosse abraçada. Terminávamos cada assunto com vários risos, e ele, ou eu, já engatávamos uma conversa em cima da outra com tesão no outro abrir a boca e soltar palavras aleatórias. Era sensual, e romântico, e demorado. Eu sei o que ele queria, ele dava sinais nítidos, mas não os correspondi propositalmente. Não queria que fosse tão rápido, eu gosto da demora de quem me devora, eu gosto de comer no ponto.</p><p>Acho que acabei jogando demais, demorei de mais, e ele acabou indo embora. Obvio, qualquer um teria, a minha fantasia só é entendida por mim, e pelo meu terapeuta. Entendi que não era nossa noite, então o encarei ir embora, ele parou, coçou a cabeça, começou a rir e virou de costas. Belisquei os lábios enquanto babava em meus dedos, ele voltou até a mim e perguntou se podia me beijar. Estranhamente foi de uma maneira tão gentil, e excitante, que a resposta não poderia ter sido outra. Lhe entreguei toda uma obscenidade, que ele agarrou ali mesmo na frente de todos. Estávamos num lugar afastado, mas a atenção se voltou para nós.</p><p>Eu segurei sua mão e entrelaçamos os dedos. Abri os olhos e ficamos nos encarando. Ele disse que eu era lindo, e eu cuspi na sua boca. Meu coração disparou, ficamos juntos por um tempão. Fomos para um sofá, depois para uma mesa de bilhar, depois para a área de fumantes. Falávamos besteira. Ele disse que queria ir para minha casa, mas infelizmente (ou não) aquela noite eu não ia voltar para casa. Pra me seduzir e excitar ele sussurrou detalhadamente o que faríamos se ele fosse para casa, depois mordeu meu pescoço. Meu peito disparou, então sua mão foi a um lugar que pulsava mais que meu coração, ele babava em minha orelha enquanto eu melava seus dedos.</p><p>Ele acabou deixando bem claro que queria uma aventura, e seria só isso, e eu já estava no limite me questionando o que iria entregar. De qualquer forma, eu queria um romance, eu queria me apaixonar aquela noite, essa era a minha vontade e ele já estava ultrapassando o limite do que eu podia inventar. Embora nossa libido tenha se encontrado no mesmo espaço, nossas vontades queriam ir para outros caminhos, e foram. Ele acabou ficando com pelo menos mais cinco, que eu vi, e foi embora com outro cara, muito mais bonito inclusive, mas deixou seu número e uma selfie no meu celular, e um pedido para que eu o mandasse mensagem no outro dia. Também deixou uma marca no meu pescoço. E eu acabei indo embora sozinho, com o telefone dele, e uma fantasia na cabeça. Sonhei com ele uma noite, e lembrei do seu corpo por uns dias. Apaguei seu número sem mandar mensagem, e guardei aquela madrugada e seus toques nos meus delírios. Depois de uns dias também apaguei a foto. Falei dele para uns amigos, e eles riram da minha fantasia. O Matheus disse que eu nunca mudo, e um colega do trabalho disse que eu sou louca. Acho que concordo com ambos.</p><p>Eu poderia ter mandado uma mensagem. Eu poderia ter dado um jeito para ele vir para casa aquele dia. Eu poderia apenas me aventurar, ser mais um. Mas, <em>eu me conheço, não me conheço?</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=afdc41fe1f06" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Demore na luz apagada]]></title>
            <link>https://wlansten.medium.com/demore-na-luz-apagada-f3c9555d2149?source=rss-f7274804ba76------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/f3c9555d2149</guid>
            <category><![CDATA[romance-casual]]></category>
            <category><![CDATA[crônicas]]></category>
            <category><![CDATA[relacionamentos]]></category>
            <category><![CDATA[lembranças]]></category>
            <category><![CDATA[sexo]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[INTENSIDADE DRAMÁTICA, por willian lansten]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 11 Jul 2019 04:11:11 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-11-10T22:00:03.502Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*yU3heRNzqu6NapK9RgOVZg.png" /></figure><p><a href="https://open.substack.com/pub/willianlansten/p/demore-na-luz-apagada-f3c9555d2149?r=6cv3ai&amp;utm_campaign=post&amp;utm_medium=web&amp;showWelcomeOnShare=false">tem uma versão revisada, melhor escrita e revisitada deste texto aqui *.</a></p><p>No meio de tanta gente e fumaça, o seu ombro trombou ao meu. Era fim de festa, ambos bêbados de alguma forma, nenhum falava nada com nada, eram só trocas de risos sem motivo. A gente mal se conhecia, não trocamos mais do que dez palavras, e eu nem sabia o seu nome, mas depois de viadagens, risadas e passados, a gente ficou um tempo cruzando olhares e silêncios. Eu não precisava de mais nada, já estava me confundindo com o que estava acontecendo. Mas o que esta acontecendo? Pedi para você ficar por perto, e talvez por duvidar um pouco do que pudesse acontecer, te provoquei com um toque demorado, e você correspondeu. Para mim aquela provocação já era o suficiente, mas você decidiu se estender com o contato físico, e se demorou em mim.</p><p>Já estava tão tarde, e eu te julgava tão fora da minha realidade, que mesmo eu ali, latejando de desejo, acabei deixando minha timidez se atrapalhar com o que era real ou não. Eu sentia um frio na barriga de tantas possibilidades, e nada era dito ou feito, até que você quebrou o silêncio com um comentário sobre eu ser irresistível, atuando todo galanteador. Não sei se foi uma cantada bêbada, se você já estava meio dormindo, mas nesse momento, nossa, nesse momento meu coração já pedia por um beijo, por um pedido de namoro, uma declaração, uma punheta, um carinho mais longo, não sei. Nós dois temos a Vênus em câncer, e eu sempre quero mais de quem me da um pouco.</p><p>Mais silêncio. Você começou a gargalhar em sussurros e disse que era um idiota, estava bêbado e não falava nada com nada. Te beijei. Rápido assim, sem tempo para outro silêncio, sem medo de ter mal interpretado os sinais, sem pensar no que fiz, sem esperar nenhuma reciprocidade. Se o frio que tava aquela noite pudesse congelar esta imagem, eu definiria esse momento como de um romantismo genuíno, cheio de expectativas juvenis com silêncios que gritavam novidades.</p><p>Me afastei, você não fez nada, e eu comecei a recuperar a consciência do que eu fiz. Um tremor de acanhamento me veio ao corpo, você deve ter percebido, fiquei ainda mais nervoso e quebrei o silêncio brincando que a madrugada tava muito fria. Segundos se passaram, e você me agarrou, me abraçou rindo enquanto sussurrava que eu era carente. E foi a sua vez de me beijar.</p><p>E eu te beijei. E você me beijou. E se beijamos, e repetimos esse ciclo. Sempre silencioso para ninguém perceber, meio apertado porque o espaço era assim. Entrelaçamos os dedos, e eu ainda tremia, você parou o beijo e então me colocou em seus braços, a partir daí eu já não cabia naquela noite. Tava tão tarde, e entre alguns cochilos eu lembro de acariciar sua barba, e brincar com seu cabelo e você pinçava com a ponta dos dedos a minha cintura. Eu posso jurar que em determinado momento, você entre salivas no meu pescoço, sussurrou que a noite não poderia estar terminando melhor. Noutro momento, voltamos a ficar tão quentes, que eu considerei tirar meu moletom, mesmo com o gelo que estava aquele ônibus. Em todo o meu exagero romântico, eu me sentia como um adolescente, estava numa excursão da escola, com dezessete anos, explodindo de tesão e ardor em algo proibido, com medo de ser visto. Tivemos um enredo tão curto e despretensioso, uma viagem que eu poetizo como um sonho, não lembramos exatamente o momento que começou, nem como foi o fim, mas as partes que nos fazem querer voltar a dormir são bem nítidas.</p><p>E então as luzes se ascenderam. Chegamos. As pessoas acordaram. O frio entrou pela janela. Eu desci do ônibus, e você acabou indo embora sem se despedir. Sem palavras. Sem telefone. Sem um ultimo beijo. Sem saber o meu nome. Sem planos. Foi apenas um romance enquanto as luzes estavam apagadas. Breve. Mas foi ótimo. E como foi.</p><p><em>Você é bem carente, né príncipe? </em>É, eu acho que sou sim. Com certeza eu sou.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=f3c9555d2149" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[A nudez dessa ausência]]></title>
            <link>https://wlansten.medium.com/a-nudez-dessa-aus%C3%AAncia-9ab5c011278c?source=rss-f7274804ba76------2</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/9ab5c011278c</guid>
            <category><![CDATA[sexo-casual]]></category>
            <category><![CDATA[sexo]]></category>
            <category><![CDATA[ausencia]]></category>
            <category><![CDATA[solidão]]></category>
            <category><![CDATA[amor-proprio]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[INTENSIDADE DRAMÁTICA, por willian lansten]]></dc:creator>
            <pubDate>Sun, 16 Sep 2018 22:43:55 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2025-04-05T20:23:38.594Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/960/1*Tj0JbCyuBkccXqIH20w_Sg.jpeg" /></figure><p>Hoje, quando acordei, você não estava mais na cama. Já não tinha a ousadia de ontem à noite, tampouco a obscenidade com que você dormiu. Uma falsa ideia de romance me deixou mais sensível. A madrugada me bagunçou. Seu corpo me sujou. E minhas urgências fizeram de mim apenas mais um.</p><p>Confesso — calando todo o meu falacioso discurso — que eu não queria acordar como acordei.</p><p>Eu lembro dos seus toques bagunçando o meu cabelo e de suas atitudes bagunçando os meus sentimentos. Todo o restante que aconteceu horas atrás, eu provavelmente esquecerei em alguns dias. No entanto, eu não queria ser esse sentimento descartado. Eu não queria as lembranças que vão ficar de mais uma noitada. Mas talvez seja isso o que eu mereça, por trair meu amor-próprio e me perder em imoralidades passageiras.</p><p>Chega a ser engraçado, sabe, como a gente consegue mudar. E em tão pouco tempo. Você mesmo — veio como uma saudade, ficou como um desejo, e logo foi embora como a solidão que eu conheço tão bem.</p><p>Hoje, quando acordei, você não estava mais na cama. E no fundo, eu sabia que você não iria estar. Mas sei lá, às vezes a gente gosta de se enganar um pouco. Quem sabe um dia eu ainda aprenda…<br><strong>Não dá pra profanar contos de fada com meras contas de foda.</strong></p><p>08.09.2018, por Willian Lansten</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=9ab5c011278c" width="1" height="1" alt="">]]></content:encoded>
        </item>
    </channel>
</rss>