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        <title><![CDATA[ALCEP - Medium]]></title>
        <description><![CDATA[Espaço de desenvolvimento clínico, ético e político. - Medium]]></description>
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            <title>ALCEP - Medium</title>
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            <title><![CDATA[Ensaio Sobre Liderança e Narcisismo]]></title>
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            <category><![CDATA[narcisismo]]></category>
            <category><![CDATA[liderança]]></category>
            <category><![CDATA[lider]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Marcelo Menezes]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 12 Feb 2021 18:37:06 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2021-02-13T12:51:27.540Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*x6JjSRIefdifw01gmH89cA.jpeg" /></figure><p>Tenho estreita relação com o mundo do trabalho e das corporações. Nos meus quase 35 anos de atuação profissional em grandes e pequenas empresas, com e sem fins lucrativos, ocupando diferentes posições: do estagiário ao diretor, de empregado a consultor, creio que desenvolvi uma sensibilidade para ler os ambientes de trabalho com certo distanciamento.</p><p>Sempre cultivei meu interesse pelo comportamento das pessoas no ambiente corporativo e no papel que as lideranças representam nesse local.</p><p>Quando comecei os estudos da <em>Tópica do Imaginário</em>, com o <em>Grupo Transbordar</em>, entrando em temas como formação do Eu, narcisismo, Eu ideal e Ideal do Eu, revivi muitas das experiências que tive durante minha carreira. No início achei que estava me desviando do objetivo de aprendizagem, até que entendi que não. Que era justamente aí que estava a chance de reler e redizer uma experiência tão presente na minha vida. O resultado desse encontro é o esforço para me “ex-por” aqui, nesse ensaio sobre liderança e narcisismo.</p><p>Grande esforço, diga-se de passagem. O que me parece apropriado reconhecer se me proponho a falar sobre narcisismo. Afinal não estaria nele a fonte do sofrimento na “Ex-posição”? A busca por aprovação e validação egóica? O “bem me quer… mal me quer” sempre bem dito por Gilceley Santos<a href="#_ftn1">[1]</a>?</p><h3>Por que relacionar narcisismo e liderança?</h3><p>Muitas empresas entendem a importância em melhorar seus ambientes de trabalho. Cooperação, capacidade de escuta, empatia e humildade são valores reconhecidos e “papagaiados” como essenciais para obtenção de “resultados positivos”<a href="#_ftn2">[2]</a>. Apesar disso, o esforço (e investimentos) das organizações na sua incorporação vem se mostrando muitas vezes infrutífero. <strong>Por quê?</strong></p><p>O comportamento narcisista dos líderes é uma resposta provável. Como líderes megalômanos, egocêntricos e desconectados do outro poderiam fomentar comportamentos ao avesso dos que praticam? …. <strong>Simplesmente não podem.</strong></p><p>Ora, se há quase um consenso em torno do potencial desagregador e destrutivo do líder narcisista, por que parece tão difícil mudar essa tendência? Por que o narcisismo dos líderes ainda é traço prevalente nas empresas?</p><p>São respostas a essas e outras perguntas que busquei no aprofundamento do estudo dos textos de Lacan, Freud, Perci Schiavon, entre outros, e que exponho aqui, nesse ensaio.</p><h3>Uma perspectiva psicanalítica do narcisismo</h3><p>No seu Seminário 1, na <em>Tópica do Imaginário</em>, Lacan retoma seu conceito de formação do Eu, apresentado inicialmente no <em>Estádio do Espelho</em>, onde o Eu se formaria a partir de uma imagem especular, que antecipa um contorno à desorganização corporal experimentada pela criança no início de sua formação psíquica.</p><p>Recorrendo a outros modelos ópticos, com espelhos côncavos, planos ou semitransparentes, Lacan traz novos elementos à formação desse Eu, destacando a função do simbólico (entenda-se linguagem) com o imaginário, <strong>na sua regulação</strong>.</p><p>A partir da releitura dos Escritos Técnicos de Freud, Lacan também traz nova luz à formação do Eu, e aos conceitos de Eu Ideal e Ideal do Eu.</p><p>Diferente do viés patológico que o atual senso comum lhe atribui, para Freud o narcisismo tem caráter organizador da libido<a href="#_ftn3">[3]</a> e tem papel fundamental no desenvolvimento do ego (Eu). Ou seja: narcisismo é “normal”<a href="#_ftn4">[4]</a> e todos o temos.</p><p>Em seu artigo <em>Introdução ao Narcisismo</em>, de 1914, Freud apresenta dois tipos de narcisismo: o primário e o secundário.</p><p>Inicialmente não há uma unidade ou conjunto consistente que se possa chamar de Eu. A libido se satisfaz no próprio corpo, no chamado autoerotismo. É essa fase que Freud denomina Narcisismo Primário, de maneira não tão clara e dependendo do momento em que se encontra no desenvolvimento de sua teoria.</p><p>Da satisfação auto erótica a libido da criança passa a investir objetos, sendo a própria criança tomada inicialmente como objeto de amor. Nesse ponto entendo que há correlação com o estádio do espelho, de Lacan, onde, embora com uma experiência de corpo despedaçado, a criança assume uma imagem (imaginário) como a sua, apesar de fora de si, externa. Trata-se de um contorno, o Eu Ideal.</p><p>O que Freud define como o Narcisismo secundário é o retorno (ou retração) dessa libido investida no objeto, para o Eu.</p><p>No artigo <em>Uma Dificuldade Da Psicanálise (1917)</em>, Freud destaca a importância da mobilidade da libido para a plena saúde da pessoa, comparando-a à imagem de uma animal com pseudópodes, que se estendem e se retraem, quando necessário o fortalecimento do Eu, na sua relação com o mundo exterior.<a href="#_ftn5">[5]</a></p><p>Segundo Freud a escolha objetal se dá de duas maneiras, não excludentes: a escolha objetal narcísica, com amor direcionado a si mesmo, através de um semelhante, e a escolha objetal anaclítica, onde há busca da “mulher que nutre” e do “homem que protege”.</p><p>Para o Lacan do Seminário 1, “a identificação narcísica, a do segundo narcisismo, é a identificação ao outro que, no caso normal, permite ao homem situar com precisão a sua relação imaginária e libidinal ao mundo em geral … O sujeito vê o seu ser numa reflexão em relação ao outro, isto é, em relação ao Ideal do Eu”<a href="#_ftn6">[6]</a></p><p>Ou seja, o Ideal do Eu, como exigência externa, simbólica, passa a reger as identificações do Eu e a regular o imaginário<a href="#_ftn7">[7]</a>. A satisfação resulta da realização desse ideal, por sua vez, impossível.</p><p>Aqui é importante fazer uma distinção entre o fluxo dito normal da libido e o que pode ser entendido como uma estase desse fluxo. É como se houvesse um represamento da libido, que fica estagnada no amor do Eu. Uma interrupção, ou diminuição da libido objetal com diminuição do interesse pelo mundo exterior.</p><p>É o que parece acontecer com aqueles que chamamos “líderes narcisistas”, termo que retomo no seu uso comum no mundo do trabalho, de qualificar as pessoas que apresentam um senso irreal de grandiosidade, superioridade, vaidade e autoadmiração.</p><h3>Por que o narcisismo é prevalente nas lideranças?</h3><p>Se tais comportamentos são sabidos prejudiciais, por que permanecem prevalentes?</p><p>Recorro a Lacan, no Seminário 1, que afirma: “Trata-se aí da sedução que exerce o narcisismo. Freud indica o que tem de fascinante e de satisfatório para todo ser humano a apreensão de um ser que apresenta as características desse mundo fechado, fechado sobre si mesmo, satisfeito, pleno, que representa o tipo narcísico. Ele o aproxima da sedução soberana que exerce um belo animal”<a href="#_ftn8">[8]</a>.</p><p>E continua: “O homem mostrou-se incapaz, como sempre, no domínio da libido, de renunciar a uma satisfação uma vez obtida. … Ele não quer renunciar à perfeição narcísica da sua infância, e … procura reganhá-la na forma nova do seu Ideal do Eu”.<a href="#_ftn9">[9]</a></p><p>Em resumo, umas das chaves de compreensão da prevalência do tipo narcísico é que nos deixamos capturar por esse ideal de satisfação plena, supostamente experimentado na nossa infância, numa escolha objetal narcísica <strong>projetada nesses líderes</strong>.</p><p>Outra chave poderia ser a escolha objetal anaclítica, quando buscamos proteção no líder destemido, que enfrenta os desafios e protege aqueles que demonstram sua lealdade. Um líder pai, severo e protetor.</p><p>Há ainda a “imposição exterior” do ideal capitalista, encarnada nesses líderes, geralmente homens, brancos, ricos, “superiores e bem sucedidos”.</p><p>Nos identificamos, por nosso próprio narcisismo a esses ideais e nos deixamos enfeitiçar, perpetuando tais comportamentos, pelo menos enquanto dura a ilusão.</p><h3>Existem saídas?</h3><p>Estaríamos condenados a perpetuar esse ciclo de busca de satisfação num ideal impossível? Liderança e narcisismo tendem a se perenizar, de maneira indissociável? <strong>Certamente que não!</strong></p><p>Afirmo isso com a segurança de quem já teve relações profissionais com líderes “notáveis-invisíveis” que, mesmo sendo a minoria, bastam para confirmar a possibilidade.</p><p>Mas quais os caminhos possíveis?</p><p>Aposto no <strong>caminho da análise</strong>, que permite acessar uma perspectiva ativa, pulsional, do saber, normalmente obscurecida pelo grau de idealização dos objetos. E é na retificação do sujeito — e por que não da organização? — com o real, presente na boa análise, que a força ativa se apresenta, no seu exercício.</p><p>Para isso, o líder narcisista precisa perceber seu comportamento como nocivo, sintoma a tratar. Ele não sabe disso e por isso <strong>precisa ser dito</strong>. Por quem? Fica a pergunta.</p><p>Não são poucos os sinais de alerta disponíveis: clima organizacional ruim, denúncias de abuso, comportamentos agressivos, pouca diversidade e tantos outros que não passam despercebidos, para quem quer ver. A consideração desses sinais como o que realmente são, sintomas de estase da força ativa, do que é vivo, é uma abertura para mudança dessa realidade. <strong>Uma organização em análise</strong>.</p><p>Felizmente é o próprio fracasso de um ideal, certo pois impossível, que desobstrui o saber.</p><p>Mas nada está garantido! Como diz o psicanalista Perci Schiavon<a href="#_ftn10">[10]</a>, no seu <em>Pragmatismo Pulsional</em>, a força ativa só se apresenta no seu exercício, como <strong>poder de avaliação e escolha ética.</strong></p><p>Dado isso, qual a sua responsabilidade?</p><h3>Notas</h3><p><a href="#_ftnref1">[1]</a> Gilceley Santos é psicanalista da ALCEP, foi membro do Colégio Freudiano do RJ, da Biblioteca Freudiana de Curitiba e do Colégio Freudiano de Curitiba. Mantém Seminários SublimeAção permanentes na Alcep.</p><p><a href="#_ftnref2">[2]</a> Entenda-se aqui “resultados positivos” sob uma perspectiva capitalista de lucro, acumulação e submissão a ideais.</p><p><a href="#_ftnref3">[3]</a> energia sexual</p><p><a href="#_ftnref4">[4]</a> O termo <em>normal</em> é utilizado nas fontes pesquisadas, mas provoca uma reflexão sobre sua arbitrariedade. Afinal, o que é normal? Ou, <em>normal</em> sob qual perspectiva?</p><p><a href="#_ftnref5">[5]</a> “um protozoário em que a substância viscosa lança pseudópodes, prolongamentos nos quais a substância somática se estende, mas que a qualquer instante podem novamente retrair-se, de modo que a forma da pequena massa de protoplasma seja restabelecida” <em>Freud, S- Obras Completas, V.14 — Uma Dificuldade Da Psicanálise (1917)</em></p><p><a href="#_ftnref6">[6]</a> Seminário 1 pg 148</p><p><a href="#_ftnref7">[7]</a> “Qual é a minha posição na estruturação imaginária? Esta posição não é concebível a não ser que um guia se encontre para além do imaginário, ao nível do plano simbólico, da troca legal que só pode se encarnar pela troca verbal entre os seres humanos. Esse guia que comanda o sujeito é o ideal do eu.” (Lacan, Seminário 1 pg 166).</p><p><a href="#_ftnref8">[8]</a> Seminário 1 pg 155</p><p><a href="#_ftnref9">[9]</a> Seminário 1 pg 156</p><p><a href="#_ftnref10">[10]</a> João Perci Schiavon, psicanalista, professor da PUC-SP e autor de obras como <em>A Lógica Da Vida Desejante</em> e <em>Pragmatismo Pulsional</em></p><h3>Bibliografia</h3><p>Lacan, J. <em>O Seminário livro 1. Os Escritos Técnicos de Freud</em>. Ed. Zahar 1986</p><p>Freud, S. <em>Introdução ao Narcisismo (1914). Obras Completas V12</em>. Ed. Cia das Letras. Edição do Kindle.</p><p>Freud, S. <em>Uma Dificuldade Da Psicanálise (1917). Obras Completas V14</em>. Ed. Cia das Letras. Edição do Kindle.</p><p>Freud, S. <em>O Eu e o Id (1923). Obras Completas V16</em>. Ed. Cia das Letras. Edição do Kindle.</p><p>Nasio, J.D. <em>Lições Sobre os 7 Conceitos Cruciais da Psicanálise</em>. Ed Zahar 1997</p><p>Schiavon, J.P. <em>Pragmatismo Pulsional — Clínica Psicanalítica</em>. Ed. N-1 edições 2019</p><p>Chamorro-Premuzic, T. <em>Why Do So Many Incompetent Men Become Leaders?</em> Ed. Harvard Business Review Press 2019</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=82cc600dca71" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/alcep/ensaio-sobre-lideran%C3%A7a-e-narcisismo-82cc600dca71">Ensaio Sobre Liderança e Narcisismo</a> was originally published in <a href="https://medium.com/alcep">ALCEP</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Tópica do Imaginário: Fragmentos de um estudo]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Sylvia Floriani]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 18 Dec 2020 15:48:02 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-12-18T15:48:01.766Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1000/0*JED5TOTAs0ihTXWJ" /></figure><p>O estudo realizado ao longo do ano, com o grupo de colegas analistas da Alcep, foi dedicado ao <em>Seminário 01: Os escritos técnicos de Freud</em>, do psicanalista Jacques Lacan, especificamente sobre os capítulos de “A Tópica do Imaginário”.</p><p>Esse seminário foi ministrado entre os anos de 1953 e 1954, o primeiro de uma série de 26 outros que vieram depois. Aqui vemos um Lacan que privilegia o campo do simbólico e o fará até 1970, a partir de quando passa a pensar numa lógica mais centrada na prevalência do real. Um pouco mais tarde, no seminário 19 apresentará o Nó Borromeu, uma proposta topológica para os registros real, simbólico e imaginário (Roudinesco, 1998). Cito isso pois mostra que o campo do imaginário seguiu sendo importante nas suas articulações teóricas e nas considerações clínicas.</p><p>Os capítulos sobre ”A Tópica do Imaginário”, apesar do foco ser o imaginário, Lacan o apresenta sempre em relação com os termos do simbólico e do real. Segundo ele, este sistema de referências é necessário para compreender tanto a técnica quanto a experiência analítica.</p><p>Lacan vai chamar de função imaginária a função a partir da qual pode explicar o “eu” na teoria psicanalítica, mais especificamente o eu como sintoma, como “esta série de defesas, de negações, de barragens, de inibições, de fantasias fundamentais, que orientam e dirigem o sujeito.” (1986, pág. 27). O eu, portanto, é aquele do desconhecimento, do que “não quer saber de nada disso”, nem da sua verdade enquanto sujeito, nem da emergência de uma palavra verídica, que é o caminho possível para que uma experiência analítica aconteça.</p><p>De todos os aspectos interessantes desse estudo, um em especial despertou o meu desejo de aprofundamento, que foi o do esquema dos espelhos e suas possibilidades como analogia com o que acontece entre o real, o simbólico e o imaginário e com a formação do eu. Para isso, Lacan apresenta um ensaio da Física, conhecido como “O experimento do buquê invertido”. Trata-se de um esquema que tomará corpo na obra lacaniana e o acompanhará ao longo de 10 anos, até o Seminário 11, quando o utilizará pela última vez.</p><p>Lacan se baseia numa analogia que Freud mesmo fez sobre o psiquismo ser concebido como o que se passaria em um aparelho fotográfico, ou seja, como as imagens reais e virtuais que seu funcionamento é capaz de produzir.</p><p>Fiquei pensando nesses jogos, brincadeiras e estranhamentos que resultam das imagens nos espelhos. Quem nunca brincou com aqueles armários com 3 portas articuláveis espelhadas que, conforme são manipuladas, e os ângulos modificados, possibilitam uma série de diferentes imagens, inclusive inusitadas, como a de ver o próprio perfil aparecer numa imagem bem na sua frente? Lembro de uma vez que, ao lado de uma criança, em frente à lateral de um carro, nos divertimos com as imagens hilárias reproduzidas na lataria, que por ter alguns ângulos modificavam a imagem conforme nos movíamos, a princípio nossos reflexos eram de corpos bem achatados, com pescoço, tronco e pernas curtas. A criança, num certo momento, aprumou o corpo como que para ver-se novamente numa configuração ideal, mas o que aconteceu foi que a imagem o reproduzia com o pescoço bem comprido mas o corpinho continuava achatado. Lembrei também de Freud mencionar num texto seu susto ao reconhecer a imagem do velho carrancudo, que via na vitrine da loja de rua, como sendo a sua. Quantas vezes não nos surpreendemos com a nossa imagem onde ela não é esperada?</p><p>A proposta de Lacan com o esquema dos espelho é, sem dúvida, bem mais elaborada do que essas minhas lembranças. Para entrar nesse campo da física, que não é fácil para quem está há anos distante dos bancos escolares, foram necessárias algumas horas de pesquisa e leituras em textos e vídeos sobre óptica, tentando compreender sobre os diferentes espelhos, a incidência de raios luminosos, ângulos, imagem real, imagem virtual. A óptica, só para lembrar, é uma ciência que se estrutura sobre uma teoria matemática. Lacan dirá que “para que haja uma óptica, é preciso que, a todo ponto dado no espaço real, corresponda um ponto e só um num outro espaço, que é o espaço imaginário” (1986, pág. 93). Dessa forma, o espaço imaginário e o espaço real se confundem, o que não significa que não devam ser pensados como diferentes.</p><p>Desse campo, Lacan tem interesse numa série de fenômenos que são reais e nos quais a subjetividade está engajada. Vejamos o exemplo do arco-íris: quando o vemos, vemos algo de subjetivo, a uma certa distância, que se compõe com a paisagem; ele de fato não está lá, mas podemos fotografá-lo de modo objetivo. Lacan aponta para esse paradoxo, onde não sabemos mais muito bem o que é subjetivo e o que é objetivo.</p><p>O experimento do buquê invertido, do físico francês Henri Bouasse, do qual Lacan se utiliza em sua demonstração, servirá para ilustrar o que pode resultar da relação estreita do mundo imaginário e do mundo real no psiquismo do sujeito. Neste modelo ele vai, ao longo das suas exposições, modificando e acrescentando elementos para construir a sua metáfora.</p><p>Esse experimento originalmente compõe-se de:</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/292/1*xnJ5BPNBhe6g3_7d9rNhbg.png" /><figcaption><em>(O experimento do buquê invertido — </em>1986, pág. <em>94)</em></figcaption></figure><p>· um espelho esférico — aquele que produz uma imagem real, ou seja, a imagem invertida — a que é formada pelo encontro real dos raios de luz e que pode ser projetada nas telas de cinema, por exemplo, e que se forma diante dos espelhos côncavos;</p><p>· um objeto colocado a certa distância, preferencialmente no centro do espelho esférico, como a caixa oca proposta no experimento, sobre ela um vaso e dentro da caixa um buquê de flores. O buque reflete-se no espelho esférico como imagem real, isto é, invertida.</p><p>· E um observador colocado no campo dos raios onde eles se cruzam no ponto correspondente. O olho deve estar no interior do cone, ou seja, não é em qualquer lugar.</p><p>Neste experimento o que acontece? Uma ilusão em que o imaginário pode incluir o real e ao mesmo tempo formá-lo, e que o real também pode incluir e situar o imaginário. Assim, o buquê, que está escondido na caixa e que o observador não pode ver do ponto em que está, reflete-se sobre o espelho esférico, que pelo seu formato faz com que todos os raios originados de um ponto dado vem ao mesmo ponto simétrico. Forma-se assim para o olho do observador uma imagem real, ou seja, onde ela está, desde que ele esteja com seu olho onde os raios de fato se cruzam, poderá ver um buquê imaginário que se forma bem no gargalo do vaso, dando uma impressão de realidade, apesar de restar algum estranhamento com a imagem, uma vez que ela não apresenta-se tão bem definida.</p><p>Apenas para lembrar, essa imagem do espelho côncavo é diferente da imagem do espelho plano, aquele mais comum das nossas casas. Neste as imagens são virtuais, quer dizer direitas, não invertidas, feitas dos prolongamentos dos raios de luz, que não podem ser projetados e que se formam atrás do espelho.</p><p>Voltando ao esquema do Bouasse, Lacan diz que esse é o esquema simples que ajudaria a entender o que é o estádio do espelho. A princípio, esse observador poderia ser a mãe que olha o seu bebê, e vê nessa ilusão uma representação de um sujeito, que como sujeito ainda não se constituiu, mas que ela já antecipa, pois nele pressupõe alguém com desejos, demandas e possibilidades de trocas. É o choro que a mãe interpretará como pedido de algo, o cocô que será recebido como presente, o olhar que será acolhido como interpelação, por exemplo (Pena, 2019).</p><p>Para poder pensar melhor o esquema como analogia da formação do eu, das questões relacionadas ao narcisismo, ao eu ideal e ao ideal de eu, Lacan faz algumas modificações no esquema. Por exemplo:</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/311/1*GM-W1Pcx_5d6TNPraFtySA.png" /><figcaption><em>(Esquema de dois espelhos — 1986, pág. 147)</em></figcaption></figure><p>- inverte a posição do vaso e das flores, estas ficam sobre a caixa;</p><p>- o vaso vai para dentro da caixa e quando refletido pelo espelho côncavo será visto como imagem real sobre a caixa;</p><p>- inclui um espelho plano em frente ao espelho côncavo;</p><p>- o observador agora estará situado ao lado do espelho côncavo e de frente para o espelho plano para que veja, primeiro, brinca ele, “a sua cara lá onde ela não está” (1986, pág. 147).</p><p>Nesta nova configuração, o olho está dentro do cone dos raios refletidos, numa posição em que não pode ver o vaso real dentro da caixa, mas pode ver em frente ao espelho côncavo os objetos reais, ou seja, as flores. Por outro lado, no espelho plano verá uma imagem diferente, com aspectos de completude, pois estará lá a imagem virtual tanto dos objetos reais, as flores, quanto da imagem real projetada pelo espelho côncavo, a do vaso, agora invertida. Essa imagem virtual do objeto real acoplado à imagem real, dará a ilusão de que o vaso envolve as flores.</p><p>A posição do olho nesse experimento, como no anterior, não pode ser em qualquer lugar, para que a produção de um ilusão de realidade compareça. É por estarmos no campo do imaginário que o olho tem importância.</p><p>Com o esquema óptico, Lacan pretende demonstrar como essas imagens de ilusão dão uma visão de unidade ao corpo. O olho nesse esquema, pode ser pensado no próprio bebê reconhecendo a sua imagem no espelho. O problema é que esta é uma ilusão, ele vê no espelho plano uma figura que não representa a sua vivência real que é a de um corpo descoordenado, imaturo, ainda não integrado. A visão de uma totalidade, se por um lado antecipa uma maturidade à qual o bebê chegará, por outro lado possibilita que esse sujeito confunda-se com ela e constitua um eu baseado numa ficção, numa imagem fora de si. Como essa imagem é cativante, e é pela totalidade que ela se representa, o risco é do eu cristalizar-se nessa imagem, derivando daí todo o cenário de um eu sintomático.</p><p>Uma relação possível dessa imagens é com o conceito de narcisismo, afinal o narcisismo relaciona-se à imagem corporal. A partir do reconhecimento dessa imagem de completude vinda de fora tem-se o princípio de uma constituição de unidade de corpo. Esse primeiro narcisismo corresponderia a essa imagem real do esquema (a do lado esquerdo), pois ela permite já alguma organização da realidade, teria relações com a instância do eu ideal.</p><p>Lacan dirá, citando Aristóteles, que no homem, o reflexo no espelho aponta para uma noética original, isto é, uma capacidade do homem de percepção de si ou de reconhecer-se da espécie que o distinguiria dos animais e que introduziria um segundo narcisismo que está atrelado à relação ao outro. O outro, seja a imagem própria que o sujeito vê fora de si, seja o outro semelhante, tem sempre um valor cativante, pois representa essa imagem unitária que traz um sentido de antecipação do que seria possível para si próprio.</p><p>Ainda dentro da Tópica do imaginário, Lacan fará mais uma modificação no aparelho, proporá a inclusão de um sujeito virtual, uma vez que ele inverteu a posição do sujeito quando introduziu o espelho plano no esquema anterior. Nesta posição, o sujeito não tem mais acesso a imagem real que só poderia ser vista num determinado espaço do aparelho que era o campo formado pelo espelho côncavo e o buque invertido do primeiro esquema.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/248/1*zYOXOG2Kt2o3Bm4qSnCxYg.png" /><figcaption><em>(Esquema simplificado dos dois espelhos — 1986, pág. 163)</em></figcaption></figure><p>Com o sujeito agora situado ao lado do espelho esférico, a visão de uma imagem no espelho plano é equivalente, para o sujeito, ao que seria à imagem do objeto real para um observador que estivesse para além desse espelho, no lugar em que o sujeito vê a sua imagem. No lugar do sujeito virtual, portanto, situado no interior do cone virtual, em que se teria a possibilidade da ilusão da imagem real associada ao objeto real.</p><p>O que podemos aplicar disso? Que o sujeito virtual é essa imagem do nosso eu, desse outro que somos e que comparece como ficção fora de nós mesmos, na forma humana. Lacan dirá que “o ser humano não vê sua forma realizada, total, a miragem de si mesmo, a não ser fora de si” (pág. 164).</p><p>Além disso, ele propõe pensar que a inclinação do espelho plano seria comandada pela voz do outro, ou seja pela relação simbólica. Dessa forma, a regulação do imaginário dependeria de algo da ligação simbólica entre os seres humano. A intermediação pela palavra, define a posição do sujeito como aquele que vê, ou seja, define o maior ou menor grau de completude do imaginário. Assim, o espelho plano poderia funcionar como a tela do ideal do eu, onde o eu ideal pode ser projetado.</p><p>Até aqui, percorremos pelos três desenhos do esquema dos espelhos conforme Lacan nos apresenta n’A Tópica do Imaginário; também fizemos alguma relação com o campo egoico e com os registros do imaginário e do simbólico. Não tenho dúvidas de que esse texto requer uma articulação maior com esses aspectos teóricos. De qualquer forma, esse percurso foi necessário para que eu realizasse uma melhor releitura do próprio texto lacaniano em questão. O Imaginário seguirá sendo um tópico importante na obra lacaniana, adentrar nessas bases conceituais possibilita um melhor esteio para estudos futuros.</p><p>Referências Bibliográficas:</p><p>LACAN, Jacques. <em>O seminário 1:</em> <em>Os escritos técnicos de Freud. </em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1986.</p><p>ROUDINESCO, Elisabeth. <em>Dicionário de psicanálise.</em> Rio de Janeiro: Zahar, 1998.</p><p>PENA, Breno Ferreira. <em>Das flores à angústia: o esquema óptico de Bouasse, por Lacan. </em>In Revista Estudos de Psicanálise n. 51, p. 149–156. Belo Horizonte-MG, julho/2019.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=dc99d38b8c3d" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/alcep/t%C3%B3pica-do-imagin%C3%A1rio-fragmentos-de-um-estudo-dc99d38b8c3d">Tópica do Imaginário: Fragmentos de um estudo</a> was originally published in <a href="https://medium.com/alcep">ALCEP</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[A Imagem e a Pandemia]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Luciana Basso]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 14 Dec 2020 18:28:28 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-12-14T18:34:57.806Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*WxYLOuB04ibsgkIm3UXrAA.jpeg" /></figure><p>Durante este ano realizamos os estudos do seminário 1 de Lacan, especificamente nos textos que falam sobre a Tópica do Imaginário. O que atraiu num primeiro momento foi o desejo de nos debruçar nos textos iniciais de sua teoria e que retomam a obra de Freud, tanto que o seminário se chama “os escritos técnicos de Freud”, estudar Freud a partir de Lacan enlaça meu/nosso desejo.</p><p>Foi um ano também de nos revermos enquanto grupo, nossa história, que caminhos percorremos e de reafirmamos o desejo de nos mantermos ativos em nossos estudos. Estes encontros (como me parece que devem ser) vão mais além do que o texto trás, cada um interagindo com seus exemplos e suas questões geram trocas ricas e que ampliam a possibilidade de uma prática.</p><p>Um dos temas que nos rondaram em muitos encontros foi à pandemia, este acontecimento que afeta a todos, mas que é vivido singularmente gerando inúmeras formas no agir.</p><p>Ao definir sobre o que escrever do que me provocou transbordamento a partir dos estudos, O imaginário como registro na estruturação do eu e a relação com a pandemia são o meu caminho escolhido para me exercitar nesta Ex-posição.</p><p>No início do texto da tópica do imaginário Lacan se refere aos três sistemas — o imaginário, o simbólico e o real dizendo que “sem estes três sistemas de referências, não é possível compreender a técnica e a experiência freudianas” (pag. 101). Na continuidade de seus seminários vai passar a chamar estes sistemas de registros e apontar que eles estão juntos, não misturados, mas para serem compostos, potencializados, cada um com seu lugar, operando os três na sua diferença absoluta, que se distinguem em suas características.</p><p>Voltando ao texto inicial, Lacan vai elaborar o imaginário como conceito para definir o nascimento do eu, o lugar do eu por excelência entendido a partir da imagem.</p><p>Ele se utiliza dos experimentos ópticos e da fase do espelho, que chamou estádio do espelho, para explicar essa estruturação do eu. Aponta que a criança a partir de uma certa idade (6 aos 18 meses) passa a reconhecer sua imagem no espelho. Até então se via como fragmentada, não fazendo diferença entre seu corpo e o da mãe (ou seu cuidador), entre ela e o mundo exterior, não é incomum nesta fase a criança ver outra cair e chorar. Através do fenômeno do espelho a criança passa a se ver como inteiro, antecipando-se imaginariamente a forma total do seu corpo, passa a existir como um ser destacado do outro. O corpo é ao mesmo tempo uma parte inconsciente do eu e o lugar de onde o sujeito pode dizer “eu”. A criança se reconhece nesta imagem a partir da presença e do olhar do outro, que a identifica que a reconhece nessa imagem. Lacan coloca que “É a aventura original através do qual, pela primeira vez, passa pela experiência de que se vê, se reflete e se concebe como corpo outro que não ele mesmo — dimensão essencial do humano, que estrutura toda a sua fantasia.” (pag. 109). É a partir desta imagem que a criança se reconhece como uma identidade particular, que se identifica como humano, que imaginariamente acredita que é o seu ser, que se trata do seu eu e se fixa nesta imagem. Passa a se ver como um ser destacado do outro, o que por si só causa desarvoramento, no sentindo do receio de estar só, mas se percebe como um ser inteiro, esta imagem completa e destacada do outro lhe promoveria jubilo. A conquista de identidade é sustentada pela dimensão imaginária e no próprio fato de identificar-se a partir de algo virtual que não é ela enquanto tal e sim uma imagem no espelho, mas, entretanto ela se reconhece.</p><p>Essa construção é feita a partir de uma imagem enganadora, que não diz tudo de si, uma imagem que não é dela, é a partir do olhar do outro, é um reconhecimento imaginário, criando um desconhecimento crônico deste eu que não cessará de alimentar em relação a si mesmo. Um eu que buscará rejeitar tudo que não corrobore com essa imagem, que sentirá como ameaça o que não lhe parecer igual, da sua “tribo”, se utilizando de todos os recursos para se manter fincado onde fantasia que está, inclusive podendo abrir mão da vida por não coincidir com o foi idealizado.</p><p>Os elementos constitutivos do sujeito são apreendidos inconscientemente, isso significa que desconhecemos nossa constituição, não controlamos o que nos constitui, porém o ponto de vista do eu é na via contrária, imagina que sabe quem é, e que tem controle sobre tudo.</p><p>A partir deste apanhado teórico do que sobrou de nossos estudos, a relação que faço de como se tem agido ou reagido à pandemia vem ao encontro desta constituição do sujeito, que não é determinada, mas que neste jogo de imagens pode fantasiosamente entender que é, que não há outra forma de ser, apontando para um fechamento em relação a qualquer diferença e se esquecendo de que aquela imagem é um “via-a-ser” cheia de possibilidades.</p><p>Encontro esta ideia em uma fala de Ailton Krenak, em entrevista ao jornal da Universidade da UFRGS, em 12 de novembro de 2020, que bem diz, que: “O evento da pandemia foi visto, principalmente, como “terrível ameaça contra o humano”. Claro, o humano estava tão confortável no lugar de dominante que um vírus desestabilizou essa confiança tétrica. Quebrou essa confiança. Um possível gesto de abrir o contato e conhecer o que estava se passando se transformou em uma reação bélica, uma guerra. O termo mais comum era “uma guerra contra o vírus”. Os próprios cientistas falavam que estavam na guerra. Houve um enrijecimento do campo energético para lidar com isso como um confronto, como se fosse apocalíptico. Mas não houve muitos gestos de dizer: vamos conhecer esse organismo invisível, que tem a capacidade de causar tanta mudança? O único gesto em direção ao vírus era/é para controlar ele. Erradicar. Eliminar. Os termos eram/são estes.”</p><p>Nesta fala Krenak denuncia o quanto o humano se afastou da vida, o quanto idealizou uma vida apartada da vida, e nesta desatenção deixou de ver o que estava previsto, que o que temos são os imprevistos. Na relação com o vírus há uma repetição da forma como se tem lidado com a vida, com hierarquização, com tentativas de subordinações, um contra o outro. É assim como o ego costuma lidar com a diferença, rechaça, paranoicamente vê como ameaça, coloca as questões de forma binária — ou isso ou aquilo — tamponando qualquer possibilidade de furo, esse furo não como ser faltante, mas como hiância, rachadura que permite absorção dos afetos. Há uma predominância do imaginário agindo, reverberando no adulto a imagem enganadora do espelho, essa imagem totalizada que precisa ser defendida. Temos visto crianças muito mais cuidadosas em relação à pandemia que seus pais.</p><p>Ao invés de abertura, de conexão, o que se percebe é o distanciamento, não esse físico, mas o de não quero saber nada disso, a tentativa de criar um “novo normal” fundado pela substituição, pela acomodação que alguns chamam de mudança, mas que está na via do mesmo.</p><p>A partir da proibição, da restrição dos objetos que imaginariamente eram utilizados para distrair como shoppings fechados, os filhos não podendo ir para a escola, as igrejas não recebendo seus fiéis, as festanças não podendo acontecer, rapidamente se busca alternativas para mais uma vez não fazer contato com a vida.</p><p>Isso fica evidenciado pelo caminho tomado por muitos, que num primeiro momento do confinamento, surgiram enxurradas de tentativas de estabelecer uma nova rotina com padrões rigidamente definidos, onde os dias passam a serem tomados de cronogramas com atividades que demonstrassem produtividade, com exercícios físicos, alimentação saudável, momentos de assistir lives que nos ensinassem tudo o que devíamos aprender para passar “bem” por esse momento. Há uma substituição do que se utilizava antes, criando um “novo” modelo “perfeito” de afastamento, de não nos “deixarmos” ser afetados, de recalcar os pensamentos que falassem das incertezas, um movimento egóico de não quero saber nada disso, blindagem da ideia de que não sabemos o que fazer com isso. Movimento esse que provocou efeito contrário do que se pretendia, já que o recalcado retorna e o que resta é angústia. E agora a grande maioria tem agido como se nada estivesse acontecendo, negando, outra maneira de não lidar com o que nos acontece.</p><p>Também podemos pensar que nosso assombro ao nos depararmos com a pandemia não é necessariamente pelo risco à saúde, o que é um fator importante, mas principalmente pelo confrontamento de que somos muito mais frágeis do que percebíamos e que não temos o poder que imaginávamos, gerando uma quebra narcísica avassaladora e quiçá libertadora. Mas pode parecer que a pandemia por si só produziria novos possíveis, mas quando rapidamente normatizam-se os acontecimentos, de novo resta pouco, mostrando-nos que temos muito trabalho pela frente, um trabalho constante e que não cessa, que essa conexão com a vida, como propõem Krenak, passa pela escuta das fragilidades, dos mal estares, possibilitando movimentos e movimentos gerando aberturas, como a abertura de um rio que estava represado e começa a fluir.</p><p>Um rompimento com a repetição do mesmo, com o desconhecimento, com o automático, com a desatenção, com os julgamentos, com os padrões, com a ideia de igualdade, com o genérico, com a imagem fixada de que se trata do seu eu. Fazendo um caminho contrário, indo em direção à conexão com a potência, com o singular, com o poder de escolha, com a atenção, com o vírus.</p><p>novembro/2020</p><p>Bibliografia</p><p>Lacan, J. O Seminário livro 1. Os Escritos Técnicos de Freud. Ed Zahar 1986</p><p>Entrevista Ailton Krenak: <a href="https://www.ufrgs.br/jornal/ailton-krenak-a-terra-pode-nos-deixar-para-tras-e-seguir-o-seu-caminho/">https://www.ufrgs.br/jornal/ailton-krenak-a-terra-pode-nos-deixar-para-tras-e-seguir-o-seu-caminho/</a></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=f3df07134c64" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/alcep/a-imagem-e-a-pandemia-f3df07134c64">A Imagem e a Pandemia</a> was originally published in <a href="https://medium.com/alcep">ALCEP</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[A pergunta que não quer calar: suporte ou agente?]]></title>
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            <category><![CDATA[escolhas]]></category>
            <category><![CDATA[narcisismo]]></category>
            <category><![CDATA[psicanálise]]></category>
            <category><![CDATA[freud-lacan]]></category>
            <category><![CDATA[pulsão]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Soledad Fernandez]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 11 Dec 2020 12:47:32 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-12-11T12:55:56.672Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*tedCognl9JMvdKbSpe8Iug.jpeg" /></figure><blockquote>“O que conta, quando se tenta elaborar uma experiência , não é tanto o que se compreende quanto o que não se compreende.</blockquote><blockquote>( Seminário 01, pg 89)</blockquote><p>Estudar no Seminário 1, o “jogo recíproco dos 3 grandes termos” — o imaginário, o simbólico e o real — foi um grande desafio para alguém, que como eu, tenta muitas vezes buscar a explicação que encerre todos os entendimentos dos conceitos.</p><p>Acompanhar a música que Lacan executa, a sequência dos arranjos que ele compõe com as palavras, destrói qualquer tentativa de restringi-las a um único uso. Camadas diferentes de cada conceito se desenham e a sensação de espanto muitas vezes foi minha companheira.</p><p>Numa certa altura do texto (páginas 182, 183 e 184), Lacan fala sobre o simbólico, diferenciando-o do imaginário. Ele diz que o ser humano se torna humano no momento em que entra na relação simbólica. E explica como esse registro funciona falando do peso, implicado numa relação entre 2 pessoas que, por exemplo, se reconhecem e se definem como filho e pai.</p><blockquote><em>“No simples fato de que me defino em relação a um senhor como seu filho, e que o defino, a ele, como meu pai, há algo que, tão imaterial quanto possa parecer, pesa tanto quanto a geração carnal que nos une. E mesmo, praticamente, na ordem humana, pesa mais. Porque, antes mesmo que eu esteja em condições de pronunciar as palavras pai e filho, e mesmo se ele está gagá e não pode mais pronunciar essas palavras, todo o sistema em volta já nos define, com todas as consequências que isso comporta, como pai e filho.” </em>(Seminário 01, pg 183).</blockquote><p>O simbólico então, é esse sistema em volta que nos define e que é acessado via linguagem:</p><blockquote>“Eu sou sua mãe!”</blockquote><blockquote>“Você não é mais criança!”</blockquote><blockquote>“Seja homem!”</blockquote><blockquote>“Mas que princesinha!”</blockquote><p>Esses ditos pesam mesmo sendo palavras. Pesam pois definem coordenadas que orientam relações e comportamentos que muitas vezes limitam possibilidades de existência. Pesam porque deixam claro os parâmetros que orientam a relação entre aquele que as diz e aquele a quem elas se endereçam. Palavras de ordem, como dizem Deleuze e Guattari, que remetem a toda obrigação social implícita nelas.</p><p>Entender o simbólico como o sistema que define o que somos me incomodou. Se é assim, se somos definidos pelo simbólico, o sofrimento é o resultado inevitável quando não correspondermos às demandas que nos fazem. E para evitar esse sofrimento, passamos a deixar de lado tudo que pode colocar em xeque essa imagem narcísica. Levada ao extremo, a ideia do simbólico como o sistema que nos define nos põe na mão do outro, dita uma sentença que condena a ser isso ou aquilo, sob pena de prisão quando não correspondemos. No dia-a-dia, essa ideia é como aquele sapato que aperta, mas que continuamos a usar.</p><blockquote>“Eu sou sua mãe!”</blockquote><blockquote>então tenho que fazer o que você manda…</blockquote><blockquote>“Você não é mais criança!”</blockquote><blockquote>então não posso brincar e aproveitar a vida…</blockquote><blockquote>“Seja homem!”</blockquote><blockquote>então tenho que engolir o choro…</blockquote><blockquote>“Mas que princesinha!”</blockquote><blockquote>então tenho que ser sempre agradável aos olhos dos outros….</blockquote><p>Mas será que carregar o que nos coube por ter nascido dentro de um tempo, lugar e grupo específico é o destino inevitável que nos resta? Sei que todos que nascem fazem parte do simbólico e que de saída, são suscetíveis a seus efeitos, mas o que fazer com a diferença entre a demanda e o Desejo? Varrê-la para debaixo do tapete ou examiná-la minuciosamente para ver o que daí brota?</p><p>A música segue, surge um novo arranjo e nele Lacan deixa uma pista.</p><blockquote><em>“Todos os seres humanos participam do universo dos símbolos. Estão incluídos aí e o suportam, muito mais do que o constituem. São muito mais os suportes do que os agentes. É em função dos símbolos, da constituição simbólica da sua história que se produzem variações em que o sujeito é suscetível de tomar imagens variáveis, quebradas, despedaçadas e mesmo, no caso, constituídas, regressivas dele mesmo.” </em>(Seminário 01; pg 184)</blockquote><p>Quem <em>suporta </em>propicia uma base para manutenção de algo, age no sentido da conservação, tolera as obrigações sociais implícitas nas relações e nos comportamentos. É fácil localizar na história de cada um de nós, momentos em que somos condescendentes com essas modelos que destroem vidas, no mínimo por omissão. Nesse sentido, suportar o simbólico mesmo que o Desejo aponte para outra direção, é o caminho do sintoma. Uma saída que sempre cobra seu preço.</p><p>Quem <em>constitui </em>também propicia uma base, mas para a composição de algo novo, age no sentido da mudança, abre frestas que ampliam a capacidade de agir, pensar e afetar-se. Todos nós já vivenciamos esses momentos de respiro, onde ativamente seguimos o caminho do Desejo abandonando no processo nacos, grandes ou pequenos do narcisismo ao qual nos prendemos.</p><p>Frequentemente os seres humanos são mais suporte do que agentes do campo simbólico. Lacan está coberto de razão! Por que será que isso acontece? Abrir caminho na mata é sempre mais trabalhoso do que seguir trilhas já abertas. Mas vale lembrar que a direção do primeiro passo sempre é uma escolha, tenha o sujeito clareza disso ou não. Como diz Perci Skiavon, o Inconciente não abona ninguém.</p><blockquote>“Eu sou sua mãe!”</blockquote><blockquote>então tenho que fazer o que você manda…</blockquote><blockquote>Aí vem a Mafalda e diz “Pero… por qué tengo que hacerlo? Sé es cuestión de títulos, yo sou tu HIJA!! Y nos graduamos el mismo dia! O nó?</blockquote><blockquote>“Você não é mais criança!”</blockquote><blockquote>então não posso brincar e aproveitar a vida…</blockquote><blockquote>Aí o Milton Nascimento canta “Há um menino, há um moleque, morando sempre no meu coração. Toda vez que o adulto balança, ele vem pra me dar a mão…”</blockquote><blockquote>“Seja homem!”</blockquote><blockquote>então tenho que engolir o choro…</blockquote><blockquote>Aí vem o Gilberto Gil de diz “Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria, que o mundo masculino tudo me daria, do que eu quisesse ter…”</blockquote><blockquote>“Mas que princesinha!”</blockquote><blockquote>então tenho que ser sempre agradável aos olhos dos outros….</blockquote><blockquote>Aí a Ava Max canta “Be a little proper, they say. Speak a little softer, they say. Gotta be a lady, but I say. This time it’s my way”</blockquote><p>Fazemos parte desse universo dos símbolos e isso nos torna humanos, mas não existe um único modo de se relacionar com esse universo. O campo simbólico dá as coordenadas e também as ferramentas para ajustarmos a rota. As palavras pesam, sentenciam mas também questionam e carregam em si novas possibilidades de uso. E quando nelas, linhas de morte e linhas de vida se tornam um emaranhado sem fim, e todas as santas vezes que isso acontece, cabe, a cada um de nós o trabalho de desfazer os nós que nos amarram.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=d85a70a90e4b" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/alcep/a-pergunta-que-n%C3%A3o-quer-calar-suporte-ou-agente-d85a70a90e4b">A pergunta que não quer calar: suporte ou agente?</a> was originally published in <a href="https://medium.com/alcep">ALCEP</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[O imaginário no narcisismo]]></title>
            <link>https://medium.com/alcep/o-imagin%C3%A1rio-no-narcisismo-d56a0b42a61a?source=rss----aa5cc89ebaf7---4</link>
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            <dc:creator><![CDATA[Jessica Nevel]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 11 Dec 2020 12:17:28 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-12-11T12:23:23.231Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*XarrNLH6XTdhUH2lNsD4VQ.jpeg" /><figcaption>Photo by <a href="https://unsplash.com/@korpa?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText">Jr Korpa</a> on <a href="https://unsplash.com/s/photos/imagination?utm_source=unsplash&amp;utm_medium=referral&amp;utm_content=creditCopyText">Unsplash</a></figcaption></figure><p>Acontece comigo, pode acontecer com você, pode acontecer com todos.</p><p>¨¨¨¨¨¨¨¨</p><p>Freud escreve sobre um narcisismo primário e normal a todos.</p><p>Gostaria de iniciar este texto compartilhando com vocês a minha própria experiência. Escrevi três versões para este texto. É a primeira edição do Ex-posição, a mostra dos trabalhos dos analistas da ALCEP. Decidi caprichar. Mergulhei mais uma vez no texto freudiano ‘Sobre Narcisismo’. Confesso, texto complexo. Ele põe na mesa diversos conceitos fundamentais da psicanálise. Li, reli, sublinhei, resumi e saiu a primeira versão, um tanto densa, como se fosse uma cópia resumida das proposições de Freud.</p><p>Pedi feedback às pessoas e elas me disseram que ‘é um bom apanhado teórico, mas parece que não é você escrevendo’. Fui para a segunda rodada e ali, comecei soltar um pouco o acadêmico e inserir a prática. Novamente feedback: ‘gosto mais da parte onde você se coloca e amarra com suas vivências…’ Parei e pensei: que compromisso é esse com o rigor acadêmico, de onde vem isso já que esse não é meu estilo?</p><p>Essa pergunta ficou ecoando e a resposta que me acometeu é justamente o tema que me proponho falar aqui: o imaginário no narcisismo.</p><p>Para Freud, o narcisismo deriva de uma movimentação libidinal (uma quantidade de catexia) que primeiramente é ativada pela zona erógena, que depois se transforma em libido do eu, (também chamada de auto preservação) e depois se desloca do eu e pode se transformar em libido objetal, que se liga aos diversos objetos pelo mundo.</p><p>Escreve ele que o narcisismo é o retorno dessa libido ao eu e propõe que o adoecimento do sujeito acontece quando há um represamento dessa libido no eu, podendo ocorrer sintomas diversos (neurose, hipocondria, fobia, esquizofrenia). Tudo dependerá de como essa libido pode se desenvolver.</p><p>Freud ainda trabalha dois conceitos bastante importantes, que são o eu ideal e o ideal de eu.</p><p>Ao nascermos, somos cuidados, alimentados, aquecidos por alguém. Esses registros formam zonas erógenas, onde a libido se desenvolve e se transformam em pulsões sexuais. Lembremo-nos que pulsões são derivadas de uma demanda do corpo que se registra na esfera psíquica e exige satisfação. Esta tem uma fonte, pressão, alvo e objeto. Por exemplo, a fome, ao ser satisfeita pode gerar uma erogenização oral, então essa experiência quer satisfação através movimento de repetição.</p><p>Pois bem, o conjunto dessas experiências de satisfação formam um estado mítico, que Freud chama de eu ideal. O eu ideal é esse construto imaginário da criança perfeita, que desfruta da satisfação plena e que não está disposta a abrir mão dessa imagem (uma perfeição narcisista).</p><p>Porém ao se deparar com o princípio da realidade, a manutenção do eu ideal se faz impossível e então passa a buscar a recuperação desse estado anterior. A essa tentativa de recuperação dá-se o nome de ideal do eu.</p><p>O ideal do eu é o movimento que o sujeito busca para restaurar a imagem mítica de plenitude que acha, que um dia existiu. E aqui há uma contribuição de Lacan, no seminário 1 onde desenvolve a dimensão imaginária que se forma nesta dinâmica.</p><p>Lacan, propõe que esta tentativa de resgate da imagem de plenitude é da ordem do imaginário, ela não é real. O que isso significa na vida prática? Por exemplo, no ambiente de trabalho, o sujeito se esforça para ter a promoção tão almejada, pois isso lhe aproximaria de uma experiência já vivida sobre o reconhecimento do amor do pai. Ou então, a mulher que quer atender a todos de forma exaustiva, buscando cumprir aquilo que imaginariamente lhe faz reviver a filha amorosa e cuidadosa. Ou eu mesma, querendo parecer inteligente, adotando um estilo acadêmico que não é o meu para tentar atender algo que eu achava que meus ouvintes gostariam de ter.</p><p>Ou seja, estamos falando aqui de condições imaginárias sendo promovidas pelo ideal do eu. E estas geralmente vem acompanhada de algum sofrimento. Sofrimento este que é resposta ao exercício pulsional represado junto com um movimento de submissão ao desejo do outro.</p><p>O ideal de eu aumenta as exigências do ego, que recalca tudo aquilo que é incompatível com a cultura. O supereu passa a atuar como vigia, o que pode trazer sintomas muito similares com os paranoides. Sim, é comum na clínica observarmos culpa extrema em situações de descontrole emocional ou ainda, a sensação perene de julgamento ou de estar sendo vigiado. É como ter uma percepção contínua de que seus pensamentos e ideias estão sendo vigiados. Freud é categórico, isso é comum a todos.</p><p>É interessante pensar o quão comum é sentirmos culpa por pensamentos considerados reprováveis, por exemplo: ‘odeio meus pais’, ou, ‘tenho vontade de matar fulano’. Isso, que acontece cotidianamente, é o narcisismo em ação com todo o seu indumentário do ideal do eu e registros imaginários. Pode chegar a ser exaustivo para alguns. É uma vida de refém.</p><p>Temos a possibilidade de fazer a manutenção de culpabilização ou podemos buscar nesses sintomas como pista para lançar luz sobre esses movimentos imaginários onde o narcisismo surfa. Sim, existem saídas para essa armadilha de submissão ao desejo do outro.</p><p>E, certamente o processo analítico promove o desmonte desta superestrutura vigilante, e a vejo como uma das saídas desta emboscada imaginária como propõe Lacan: uma análise engajada com a retificação com o Real. A cada fala uma oportunidade de deslocar registros imaginários, dando lugar a verificação do Real. Por exemplo: por que acho que tenho de agradar a todos? Por que esta promoção tem um lugar tão importante na minha vida? Por que tenho que parecer tão inteligente aos meus ouvintes?</p><p>Retornando a minha experiência, eu poderia seguir narcisisticamente tentando emplacar um modelo acadêmico que não era meu. Preferi abrir mão, e correr riscos e sustentar a minha própria forma de ser. Certamente a segunda opção é mais trabalhosa, mas ao mesmo tempo é a que mais se aproxima de um exercício pulsional.</p><p>São movimentos belos e potentes que acontecem no esteio da análise.</p><p>Referências Bibliográficas</p><p>S. Freud. Pulsões e suas Vicissitudes. Vol XIV Ed. Imago</p><p>S. Freud. Sobre o Narcisismo. Vol XIV Ed. Imago</p><p>J. Lacan. Seminário 1. Os Escritos Técnicos de Freud. Ed. Zahar</p><p>J. P. Schiavon. Pragmatismo Pulsional. Ed. N-1</p><p>G. Gomes. Os Dois Conceitos Freudianos de Trieb. Univesidade Federal Fluminense. <a href="https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0102-37722001000300007&amp;lang=pt">https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0102-37722001000300007&amp;lang=pt</a></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=d56a0b42a61a" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/alcep/o-imagin%C3%A1rio-no-narcisismo-d56a0b42a61a">O imaginário no narcisismo</a> was originally published in <a href="https://medium.com/alcep">ALCEP</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[Amor e água: O narcisismo, as escolhas de objeto, e alguma saída possível]]></title>
            <link>https://medium.com/alcep/amor-e-%C3%A1gua-o-narcisismo-as-escolhas-de-objeto-e-alguma-sa%C3%ADda-poss%C3%ADvel-5af332bcb8ac?source=rss----aa5cc89ebaf7---4</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/5af332bcb8ac</guid>
            <category><![CDATA[psicanalise]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Amanda Talhari]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 11 Dec 2020 12:15:24 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-12-14T18:31:22.300Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*QmJFTqkOy3hksUCAFU3aPg.jpeg" /></figure><p>O Seminário Livro 1 de Lacan trata dos escritos técnicos de Freud. Durante os seminários que foram transcritos, uma série de convidados dialogam com ele sobre tais escritos, se complementam, concordam, discordam — em alguns momentos parece uma roda de conversa, ‘Lacan e amigos discutem Freud’.</p><p>Nos nossos estudos no grupo Transbordar sentimos necessidade de retomar o material original para então mergulhar na profundidade que Lacan propõe — mesmo aqueles já muito familiarizados com a obra de Freud. Me parece que ler somente o Seminário 1 sem o material de referência original é como ler em língua estrangeira sem um dicionário ao lado. Em nossos trabalhos para este momento de Ex-posição muito se mistura das digressões que fizemos no texto Introdução Ao Narcisismo de Freud (1914), e as discussões que nossa própria roda teve. ‘Amigos na Alcep discutem a discussão de Lacan e amigos sobre Freud’? Vamos lá. Cada um está contando seu recorte e o que lhe atravessou neste ano de mergulho nas obras.</p><p>Um dos principais temas do livro é o Narcisismo. Explorar sua origem e funcionamento. Bem longe do termo como vemos na cultura, já contaminado, em que o narcisista é aquele apenas encantado com sua própria imagem, prepotente, vaidoso, surdo e cego ao outro (bom, isso realmente faz sentido). Mas o narcisismo tem muito mais a ver com onde escolhemos direcionar e investir nossa energia. E, uma das implicações disso, é como a gente se relaciona. Sim, amor. Explico:</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1000/0*1tsMs2CJLq3xqr31" /><figcaption>Narcisismo primário, a libido do eu voltada ao próprio corpo</figcaption></figure><p>Ainda bebês, antes que a gente se entenda por gente já estamos desenvolvendo nossa libido. Vamos somente distanciar o sentido de libido do âmbito puramente sexual, e entender libido como uma energia, energia libidinal. O primeiro objeto que o bebê escolhe para direcionar essa energia, <strong>essa libido do eu</strong>, é o próprio corpo, seguindo seus instintos. Isso chama <strong>Narcisismo Primário</strong>. É natural e faz parte da nossa formação.</p><p>Em seguida a gente pode escolher objetos fora de nós mesmos para direcionar nossa energia libidinal. Importante ressaltar que essa escolha não é da ordem racional, e que pessoas, neste caso, são objeto também. Mamãe e papai, inclusive, costumam ser os primeiros da lista. Fantástico.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1000/0*jcaX_I5TUYVTRAyI" /><figcaption>Primeira escolha da libido objetal</figcaption></figure><p>O sujeito vai se desenvolvendo e direcionando sua energia libidinal, agora chamada <strong>libido objetal</strong>, para outros objetos/pessoas.</p><ul><li>O sujeito tem um certo padrão para escolher o objeto, não é ao acaso.</li></ul><p>Ele pode escolher de forma <strong>narcísica</strong> — ou seja:</p><ul><li>escolher alguém que se parece consigo,</li><li>com o que ele imagina ser,</li><li>com o que ele quer ser,</li><li>com o que ele já foi um dia — escolhendo portanto um reflexo, uma projeção.</li></ul><p>Ou pode escolher de forma <strong>anaclítica</strong> (também chamada “<strong>de ligação</strong>”) — ou seja, — escolher alguém diferente de si, conectar-se com um outro. Mas não é qualquer outro, este outro nos lembra quem já amamos, quem já nos protegeu ou quem já nos cuidou — dá encaixe.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1000/0*enxrgZI0VnDv5Rj3" /><figcaption>Perda do objeto</figcaption></figure><p>Sucesso. Quer dizer, bom bom não tá, mas tá bom. Percebe um padrão do amor neurótico de amar aquele que se parece com ele, ou que cuida dele? <em>“Olha eu alí, ou olha eu aqui.”</em> Mas a coisa complica mesmo é quando a pessoa perde esse objeto, e se frustra.</p><p>E aí, pra onde vai toda essa energia libidinal sem um objeto para direcionar? Els volta para si mesmo. Aí entra o <strong>Narcisismo Secundário</strong>.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1000/0*bfu2ukXjXJT9f0yo" /></figure><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1000/0*m0_2xnMmuAfYVFkO" /><figcaption>Retorno da libido para o eu, narcisismo secundário</figcaption></figure><p>A tratativa <strong>neurótica</strong> disso é projetar primeiro para um <strong>objeto imaginário</strong>, fantasiar e sonhar, e voltar com essa <strong>energia para o eu</strong>. Essa libido represada em si adoece, literalmente. Angústia, depressão, hipocondria, doenças auto-imunes, fobias.</p><p>Já a tratativa <strong>psicótica</strong> é <strong>retirar os investimentos libidinais </strong>de tudo e voltar <strong>somente para si</strong>, sem nenhum objeto imaginário. Uma desconexão com o mundo. Aí entram delírios, megalomania, paranóia.</p><p>Aquele resumão de Freud:</p><blockquote><strong><em>“O narcisismo secundário surge por retração dos investimentos objetais. </em></strong><em>A introversão da libido sexual conduz a um investimento do ‘Eu’, mediante o qual possivelmente se produz o efeito da perda da realidade.”</em></blockquote><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1000/0*CuxUshHG59OtF2zD" /><figcaption>O ciclo completo do narcisismo secundário</figcaption></figure><p>Anotado? Pronto. Seguindo…</p><p>E onde entra o amor nisso mesmo? Diz Lacan em certo ponto do Seminário 1<em>:</em></p><blockquote><strong><em>“É isso, o amor. É seu próprio eu que se ama no amor, o seu próprio eu realizado ao nível do imaginário.”.</em></strong></blockquote><p>As palavras dele soam bem absolutas, e não é de se estranhar que tantos leitores e teóricos sucumbam a um olhar niilista de “falta” e de “não tem saída”. Que lixo de amor é esse? Só dá pra amar assim? Com a ilusão de um outro cheio e nós mesmos faltantes? Escolhendo um objeto sem de fato ver ele (já que uma escolha é praticamente por um reflexo nosso, e a outra escolha é por um reflexo do que já amamos no passado)?</p><p>Não soa possível satisfazer a pulsão por esse caminho torto do narcisismo, que acha que pode resgatar o <strong>Eu Ideal</strong> perdido ou alcançar um <strong>Ideal do Eu</strong> projetado. Esse viés pretensioso do Eu que acredita que entende o Desejo do outro, tenta fazer-se objeto desse outro para satisfazê-lo, e enfim com isso ser amado. <strong>Mas a gente não sabe o desejo do outro, e é impossível se fazer amar.</strong></p><p>Como satisfazer o vivo jogando toda nossa energia libidinal num vácuo impreenchível, ou procurando alcançar uma altura impossível? Adiciono a questão do &#39;<strong>enamoramento&#39;</strong>, citado no texto, que é o abandono de si em favor do investimento no objeto — e acho que todo mundo entende o que Lacan está falando com isso.</p><p>Acredito, sim, que <strong>algo de fictício se introduz sempre nas relações</strong> interpessoais. Mas acredito também em uma saída. Durante a leitura, falamos no grupo que parece faltar uma terceira opção, <strong>um amor que não fosse narcísico ou de ligação</strong>. Mas, claro que, em um seminário que fala justamente sobre os Narcisismos, o Eu Ideal e Ideal do Eu, sobre a Tópica do Imaginário, eu não esperava que tivesse um sinal de <em>neon</em> apontando a saída. Não é aí, na página, na teoria, na ciência desenvolvida com base em casos clínicos que vou encontrar o corte pra fora disso. Existe uma diferença entre não ter doença e ter saúde, concorda?</p><p>Mas, voltando ao amor. A Jessica propôs em uma discussão que se a libido represada sobre si adoece, a libido direcionada ao objeto poderia ser a saúde. O investimento libidinal no objeto seria uma saída possível? <strong>Seria o amor que cura?</strong> <strong>A dedicação ao outro?</strong> Questiono se é possível direcionar essa libido enxergando de fato o objeto, sem ser cego e surdo ao outro, e sem esperar a volta (seja em formato de reflexo do eu, ou como projeção em alguém que cuida e protege o eu), sem ser uma libido-bumerangue, que vai-e-volta como disse a Soledad em uma discussão. Dentro deste modelo de amor neurótico não me parece ter cura.</p><p>Acho que se faz necessário refinar o que seria esse amor, e qualificar o que seria essa escolha:</p><p>Sylvia em uma conversa disse que enxerga a libido como ondas de energia, Marcelo complementou com a visão de que são ondas que expandem sobre os objetos ou retraem sobre si, mas sempre emanando do epicentro do eu. Se a libido é como uma energia que emana, que se ficar represada em si e adoece, ou se for despejada no objeto e esvaziar o eu (em um enamoramento, por exemplo), ou se bater em um obstáculo e voltar (em uma perda de objeto e introversão da pulsão, por exemplo), ou na violência do seu retorno passar ignorando objetos e destruindo sua conexão com o real (como é em uma tratativa psicótica) me parece que essa energia é muito semelhante à água:</p><p>Água represada, rachando paredes de concreto.</p><p>Água esvaziando um copo ao ser despejada em outro.</p><p>Água canalizada levando a um buraco sem fundo.</p><p>Água em tsunami que devasta a realidade e desconecta tudo.</p><p>Mas, sabe o que não tem em nenhum desses cenários? A visão de que a água é poderosa, mas não necessariamente devastadora. Por exemplo, a água que corre livre:</p><p>Que não precisa esvaziar nada para encher outro espaço.</p><p>Que ao invés de ir em buracos estéreis molha terras e cria vida.</p><p>Água que é chuva, onda, orvalho, lago, rio, mar.</p><p>E isso não dá pra controlar. Vejo o sinal de neon apontando pra abrir mão do enquadramento, do controle, do se fazer amar, do idealizar, do tentar preencher — para se deixar <strong>ser</strong> e apreciar o <strong>outros</strong> seres.</p><p>Vejo uma saída de amor-água, que se transforma, precipita, evapora, <strong>sublima</strong>, salga, adoça, preenche as pequenas células e cobre a vasta superfície do planeta. Permeia.</p><p>(Mas isso não tá no livro, não).</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=5af332bcb8ac" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/alcep/amor-e-%C3%A1gua-o-narcisismo-as-escolhas-de-objeto-e-alguma-sa%C3%ADda-poss%C3%ADvel-5af332bcb8ac">Amor e água: O narcisismo, as escolhas de objeto, e alguma saída possível</a> was originally published in <a href="https://medium.com/alcep">ALCEP</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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