NÓS E ELES

Agosto 23, 2025

Para grande espanto nosso, NÓS, desde fora, veremos a casa cheia de gente que vem de longe, do Norte, do Sul, do Nascente e do Poente (Lucas 13,29), alusão ao Salmo 107,3, mas também em consonância com a lição de hoje, do profeta Isaías. E perguntaremos atravessados por um último espanto: então, NÓS, que somos padres, sacristães, ministros da comunhão, catequistas, acólitos, leitores, membros do conselho económico, do conselho pastoral, do grupo coral, zeladores dos altares e membros não sei de quantas irmandades, NÓS, que estávamos sempre do lado de dentro, como é que agora estamos do lado de fora?! Então, e estes desconhecidos, pagãos, não praticantes, que antes tinham de nos pedir licença para entrar, como é que agora estão lá dentro, e nós cá fora?!

A razão é clara: o dono da casa não nos conhece (Lucas 13,25). Reside, então, aqui o problema. Estamos tantas vezes dentro das igrejas, tagarelamos uns com os outros, ocupamos ciosamente os nossos lugares, mas será que prestamos alguma atenção ao Dono da Casa? Será que chegamos a dar pela Presença que habita aquela Casa e que dá sentido à nossa vida? Ouvimos a sua voz? Falamos com Ele? Fazemos com Ele aquele caminho crucial que é a chave da nossa vida?

António Couto


E NÓS QUE PENSÁVAMOS QUE TÍNHAMOS LUGAR ASSEGURADO!

Agosto 22, 2025

Isaías 66,18-21; Salmo 117; Hebreus 12,5-7.11-13; Lucas 13,22-30

1. A profecia de Isaías (66,18-21), hoje lida e escutada, rompe os nossos estreitos e falsos privilégios e alarga em muito a estrada da salvação, pondo todos os povos, como nossos irmãos, festivamente a caminho de Jerusalém, cidade da fraternidade e da paz! Enfim, aí está de novo a fechar o Livro de Isaías a ideia grande de missão: urge levar a glória de Deus a todas as nações. Para traduzir esta verdadeira dimensão missionária do Povo de Deus, esta universalidade, o texto refere Társis e Javã, que são a Espanha e a Grécia, que designam as «ilhas longínquas» do Ocidente, que nós chamamos Europa; Put e Lud, que são a Líbia e a Lídia, terras africanas; Mesheq e Tubal, que são a Frígia e a Cilícia, terras da Ásia (Isaías 66,19)! Está aqui representado o mundo inteiro então conhecido, e a sua inundação pela glória de Deus: é a evangelização do mundo inteiro que aparece aqui profetizada. E a ideia revolucionária de alargar o sacerdócio, para além das cerradíssimas fronteiras sadoquitas e levíticas, para todas as nações (Isaías 66,21), refina, de certo modo, a comunidade do culto, já entretanto aberta, para espanto nosso, a eunucos e estrangeiros (Isaías 56,3-7)! Sempre para espanto nosso, o grande Isaías tinha já posto Deus a pronunciar a seguinte bênção: «Bendito o meu povo, o Egito, e a Assíria, obra das minhas mãos, e Israel, minha herança» (Isaías 19,25). E já antes, no Cântico de Sião do Capítulo 2,2-3, Isaías põe todas as nações a caminho de Jerusalém, para aí experimentarem a alegria de saborear, como filhos e irmãos, o pão da Palavra de Deus. E o profeta aproveita esta imensa procissão de esperança para gritar aos ouvidos dos seus concidadãos: «Vem, Casa de Jacob, vem, caminhar na luz do Senhor!» (Isaías 2,5).

2. Também a palavra do Evangelho proclamado neste Domingo XXI (Lucas 13,22-30) se dirige fortemente a NÓS, os que nos consideramos de dentro, e continua a desconcertar a nossa miopia no que às coisas de Deus diz respeito. «Comemos e bebemos contigo», «ouvimos os teus ensinamentos» (Lucas 13,26)! É como quem diz: frequentámos a Igreja e os sacramentos, comungámos tantas vezes, ouvimos proclamar a tua Palavra, conhecemos-Te muito bem, somos praticantes de longa data e até talvez… considerados beatos!

3. Ficaremos espantados quando percebermos bem que os títulos que orgulhosamente ostentamos são falsos, há muito caducados, e não garantem o acesso a lugar nenhum no banquete do Reino dos Céus, pois não basta dizer «Senhor, Senhor!». É preciso «fazer a vontade do meu Pai que está nos céus!», diz-nos Jesus (Mateus 7,21).

4. Salta à vista que o texto de Lucas 13,22-30 se divide claramente em duas partes; Lucas 13,22-24 e Lucas 13,25-30. A primeira parte abre com o aceno ao caminho crucial de Jesus, que, desde Lucas 19,51, como já vimos, se dirige sem hesitação para Jerusalém. Lucas 13,22 apresenta-nos a segunda menção deste caminho para Jerusalém. Como é seu hábito, para realçar Jerusalém, Lucas omite os nomes das cidades e aldeias por onde Jesus passava e ensinava (Lucas 13,22a). É neste contexto do caminho para Jerusalém, que surge a nossa pergunta: «Senhor, é pequeno o número dos que se salvam?» (Lucas 13,23). Como é seu hábito, Jesus não responde diretamente «sim» ou «não». Em vez disso, deixa uma forte interpelação (Lucas 13,24) e conta uma parábola (Lucas 13,25-30).

5. Eis a interpelação: «Lutai com todas as forças (verbo agonízomai) por entrar pela porta estreita» (Lucas 13,24). O verbo empregado (agonízomai), única vez em Lucas, pertence ao léxico militar e desportivo, da competição e da luta, e implica, portanto, luta e empenho extremo, não assim-assim. A parábola é ainda mais desconcertante para nós. É mesmo tão desconcertante, que corremos o risco de nem sequer levarmos a sério o que ouvimos. Da porta estreita, Jesus passa para a casa, e para o dono da casa que fecha a porta (Lucas 13,25). E, pelos vistos, nós não estamos dentro da casa, estamos fora, «fechados fora», a bater à porta e a gritar: «Senhor, abre-nos!». E, de dentro, vem a resposta do dono da casa: «Não vos conheço!» (Lucas 13,25). «Afastai-vos de mim, vós que sois operadores de injustiça» (Lucas 13,26), alusão ao Salmo 6,9.

6. Ao contrário, e para novo e ainda maior espanto nosso, NÓS, de fora, veremos a casa cheia de gente que vem de longe, do norte, do sul, do nascente e do poente (Lucas 13,29), alusão ao Salmo 107,3, mas também em consonância com a lição de hoje, do profeta Isaías. E perguntaremos atravessados por um último espanto: então, NÓS, que somos padres, sacristães, ministros da comunhão, catequistas, acólitos, leitores, membros do conselho económico, do conselho pastoral, do grupo coral e não sei de quantas irmandades, NÓS, que estávamos sempre do lado de dentro, como é que agora estamos do lado de fora?! Então, e estes desconhecidos, pagãos, não praticantes, que antes tinham de nos pedir licença para entrar, como é que agora estão lá dentro, e nós cá fora?!

7. A razão é clara: o dono da casa não nos conhece (Lucas 13,25). Reside, então, aqui o problema. Estamos tantas vezes dentro das igrejas, tagarelamos uns com os outros, ocupamos ciosamente os nossos lugares, mas será que prestamos alguma atenção ao dono da casa? Será que chegamos a dar pela Presença que habita aquela Casa e que dá sentido à nossa vida? Falamos com Ele? Fazemos com Ele aquele caminho crucial?

8. É neste caminho que acontecem coisas importantes, e não podemos andar nele distraídos, inativos, de braços caídos. A página de Mateus 25 explicita bem o tom do Evangelho de hoje: «Afastai-vos de MIM (…), pois tive fome e não ME destes de comer, tive sede e não ME destes de beber, era estrangeiro e não ME acolhestes, nu e não ME vestistes, estive doente e na prisão e não ME visitastes. (…) Em verdade vos digo: cada vez que não o fizestes a UM (hení) destes, os mais pequenos, também a MIM o não fizestes”» (Mateus 25,42-43.45).

9. Salta à vista que é urgente começar AGORA a compreender que é preciso validar, com a vida, o bilhete que dá acesso à mesa do Reino dos Céus. A compreender e a fazer. É a inação que nos desclassifica. Jesus manda-nos lutar: «Lutai com todas as forças, até agonizar (verbo agonízomai), por entrar pela porta estreita» (Lucas 13,24). Podemos ouvi-lo, de outra maneira, da boca de Pedro em Cesareia Marítima: «Na verdade, Deus não faz aceção de pessoas, mas em qualquer nação, quem o teme e pratica a justiça é bem aceite por Ele» (Atos dos Apóstolos 10,34-35).

10. Hoje, como sempre, é de santos e de justos que o nosso mundo precisa. Deles é o Reino dos Céus. E NÓS? Eles não perdem tempo em acudir às necessidades dos seus irmãos, sejam eles quem forem. E NÓS? Alguém dizia, não há muito tempo, que «os cristãos meramente praticantes estão em fim de linha. Hoje, precisamos de cristãos enamorados!». O cristão meramente praticante é aquele que está sempre a dizer: «Posso estar descansado: hoje cumpri todos os meus deveres». O cristão enamorado é aquele que não para de dizer: «Sim, fiz alguma coisa; mas ainda está tudo por fazer!».

11. Lutai com todas as vossas forças em todos os momentos. A porta é estreita e está aberta pouco tempo. É o espaço e o tempo da nossa vida. Sede cristãos enamorados! E não vos esqueçais que o amor verdadeiro (agápê) é uma luta (agôn), sendo que agápê e agôn têm a mesma etimologia.

12. A lição de hoje do sermão da Carta aos Hebreus (12,5-7.11-13) é mesmo uma lição, uma instrução ao jeito do Livro dos Provérbios 3,11-12, que cita, para nos dizer e ensinar que Deus nos trata como filhos, e é por isso que nos ama e pedagogicamente nos corrige. É nesta ótica que devem ser lidas todas as situações da vida, sobretudo as mais difíceis. Situações difíceis não faltam. Devemos é saber lê-las, colocando-nos na condição de filhos, a quem Deus ama verdadeiramente.

13. O Salmo 117, o mais pequeno do Saltério, apenas 17 palavras hebraicas, é semelhante a um «ponto», sendo, por isso, chamado o punctum Psalterii. Por ser tão pequeno, já houve quem o quisesse juntar ao anterior (116) ou ao seguinte (118). Mas este é o caso em que o pequeno é belo e ao mesmo tempo imenso, porque reclama para o louvor de Deus todas as nações e todos os povos! E põe em realce dois dos mais belos atributos de Deus: o amor fiel (hesed) e a verdade (ʼemet). Soa, no Saltério, como o nosso «Glória ao Pai…». É citado na Carta aos Romanos 15,11, pelo seu elevado e concentrado teor universalista e missionário. É por isso também que a sua tonalidade se ajusta bem à liturgia ecuménica deste Domingo.

António Couto


VIRGEM SANTA MARIA, RAINHA

Agosto 21, 2025

No seguimento lógico da Assunção de Maria, a Igreja celebra oito dias depois, em 22 de agosto, a Memória da Virgem Santa Maria, Rainha.

Mãe Elevada aos Céus, mas Mãe que vela carinhosamente pelos seus filhos.

O Rei e a Rainha não são, na Bíblia, títulos de nobreza, mas traduzem a dupla função de quem deve estar particularmente próximo de Deus e particularmente próximo dos homens. Para acolher de perto toda a Palavra que vem do coração de Deus, e para trazer à humanidade a prosperidade, o bem-estar, a felicidade e a paz. Mas também para elevar até Deus tantos anseios, sobretudo de Paz, que hoje inundam o coração dorido da humanidade. É esta a função do Rei e da Rainha.

Entende-se bem, neste sentido, o título de Rainha dado a Maria. Ninguém como ela sente o pulsar do coração de Deus. Ninguém como ela leva os seus filhos pela mão até ao coração de Deus.

Virgem Santa Maria, Rainha da Paz, vela por nós, nestes tempos turvos em que as armas voltam a falar mais alto do que os intentos de Paz.

António Couto


MAS AS ÁRVORES, SENHOR!

Agosto 17, 2025

Em pleno verão, em que o maior número de vítimas do fogo são as árvores, é bom e justo ouvir a lição que elas têm para nos dar. Já sabemos que são belas, verdes, úteis e humildes. Diz a oliveira: recuso todas as vaidades; quero continuar a dar o meu azeite a Deus e aos homens. Diz a figueira: recuso-me a ser a rainha das árvores; a minha alegria é oferecer o meu saboroso fruto a quem o desejar. Diz a videira: não troco o meu delicioso vinho, que faz as delícias das pessoas, por nenhum título de nobreza. Diz o carvalho: nenhuma vaidade me fascina; quero continuar a oferecer a minha sombra preciosa a quem debaixo dos meus ramos queira descansar. E o mesmo, é seguro, dizem o castanheiro, o sobreiro, o pinheiro, o eucalipto, e todas as árvores de fruto, nossas queridas companheiras, que estão sempre lá, à nossa espera, à porta de casa, no campo e no jardim.

Nós te pedimos perdão, ó bom Deus, por não termos tratado, com carinho e alegria, estas belas companheiras que nos destes. Torna sensível e sensato o nosso coração, para compreendermos que também elas precisam do nosso sorriso e da nossa atenção.

António Couto


UM FOGO NOVO

Agosto 16, 2025

Jeremias 38,4-6.8-10; Salmo 40; Hebreus 12,1-4; Lucas 12,49-53

1. Abre assim a extraordinária lição do Evangelho deste Domingo XX do Tempo Comum (Lucas 12,49-57): «O fogo Eu vim trazer sobre a terra, e como Eu desejo que já tivesse sido aceso (anêphthê: aoristo passivo de anáptô)! Tenho um batismo para ser batizado, e como estou sob stress (synéchômai) até que ele seja consumado (telesthê: aoristo conjuntivo passivo de teléô [= levar à perfeição]»! (Lucas 12,49-50). Um claro paralelismo sinonímico, assente em dois passivos divinos ou teológicos. Fogo ainda por acender, batismo ainda por receber. Não é, portanto, o batismo do Jordão. Esse ficou já para trás. Trata-se, isso sim, de levar à perfeição a missão filial batismal recebida no batismo do Jordão, que será cumprida no batismo da Cruz Gloriosa com a Dádiva do fogo do Espírito Santo a todos nós! Digamo-lo uma vez mais: no decurso da sua vida terrena, embora possuísse o Espírito Santo em plenitude, Jesus ainda não o podia dar a nós, pois ainda não tinha sido glorificado (cf. João 7,39). E o Espírito Santo vem para nós do Corpo Glorificado de Jesus, única fonte do Espírito Santo para nós.

2. Não é, pois, de um vulgar incêndio que se trata, e a que, infelizmente, temos estado e continuamos sujeitos nestes dias. Este fogo é novo! Não é nosso. É de Deus. Vem de Deus. Mas arde e queima e opera dentro de nós, como um bisturi de dois gumes, até dividir alma e espírito, junturas e medulas, e julga mesmo as considerações e intenções do coração (Hebreus 4,12). É a própria Palavra de Deus que é como um fogo devorador (Jeremias 23,29). Veja-se o coração a arder dos dois discípulos de Emaús (Lucas 24,32). Veja-se a sarça que ardia e não se consumia, mas chamava por Moisés (Êxodo 3,2-4). Veja-se o fogo que arde no coração e nos ossos de Jeremias, e que ele não consegue dominar (Jeremias 20,9). Vejam-se as línguas de fogo do Pentecostes! (Atos 2,3).

3. O batismo é um lume que alumia e queima e prepara para a luta do amor (agôn tês ágapês). Agôn [= luta] e agápê [= amor] têm a mesma etimologia. Vê-se, portanto, até etimologicamente, que o amor é uma luta que implica decisões todos os dias e a todas as horas. Sim, biblicamente, o amor não é um estado mais ou menos romântico ou idílico que se sofre, mas uma catadupa de decisões que temos de tomar. É preciso mesmo decidir amar os inimigos. Entenda-se bem: «amar», não «matar». Por isso, Jesus não veio trazer a paz angélica, mas a divisão evangélica (Lucas 12,51) ou a espada, como refere bem o paralelo de Mateus 10,34. «Não vim trazer a paz, mas a divisão» (Lucas 12,51), clarifica Jesus. Claro que a divisão não é o objetivo da missão, mas pode ser a consequência da adesão ao anúncio de Jesus! Sim, para quem ama verdadeiramente no seguimento de Jesus, nada pode ser indiferente ou equivalente. Cada momento tem de deixar marcas, pois implica decisões e incisões até ao sangue (Hebreus 12,4). Não amaciemos e anestesiemos nós o Evangelho, não o domestiquemos nem lhe retiremos o vigor, a alma, o lume, o gume, até o pormos a concordar com tudo e com todos, até o tornarmos inútil como o sal que perde o sabor! As pessoas não precisam de entretenimentos, mas de Jesus Cristo! E a adesão a Jesus Cristo nunca é sem consequências.

4. E o batismo de Jesus (e o nosso) coloca-nos também no caminho duro da decisão que é sempre incisão, do sangue e do combate. O batismo é, na verdade, uma imersão na morte de Cristo (Romanos 6,3), e não nas «claras, frescas, doces águas» idílicas, como acontecia nos rituais batismais greco-romanos de fecundidade do deus Pã, ou nas múltiplas imersões de purificação que ao tempo de Jesus se cumpriam na comunidade de Qumran. Corramos, pois, com paciência (hypomonê) para o combate (agôn) (Hebreus 12,1), pois ainda não resistimos até ao sangue no combate (agôn) contra o pecado (Hebreus 12,4), assim nos será dado ouvir no sermão da Carta aos Hebreus que hoje nos atinge (Hebreus 12,1-4).

5. É de uma luta de todos os dias que se fala. E de um amor que impõe decisões, incisões e lutas todos os dias. Torna-se então necessário aprender e cultivar a paciência, cujo vocábulo grego, hypomonê, significa etimologicamente «estar debaixo de», carregando e suportando o peso que transportamos. Portanto, a paciência remete para sofrimento, mas não se trata de um sofrimento masoquista e inútil, que abate quem o sofre, mas que faz de quem o sofre a base para a vitória, no caso militar ou desportivo ou de quem queira triunfar em qualquer atividade. Vendo mais longe e mais fundo, como requer sempre o Evangelho, a paciência é o suporte ou fundamento que segura e mantém de pé o inteiro edifício do universo. E os Santos são os verdadeiros «carregadores» do mundo.

6. Um episódio da vida do poeta russo Serghei Esenin (1895-1925) ajuda a ilustrar melhor o carácter combativo do nosso batismo e do caminho crucial da vida cristã. À beira do suicídio, o poeta refugia-se num quarto de um albergue desconhecido. Mas adveio-lhe, nesse instante, do fundo da alma, a vontade irresistível de escrever uma última poesia. Porém, no albergue não havia tinta. Foi assim que Esenin foi levado a fazer uma incisão, um corte, no braço, e a escrever com o próprio sangue o seu último poema. Serve o episódio mencionado apenas para percebermos que só com o próprio sangue, isto é, com a nossa vida, podemos escrever a nossa adesão ao Reino de Deus. E o nosso batismo não pode ficar apenas registado com tinta em algum poeirento arquivo paroquial. Temos de o escrever com o nosso próprio sangue, no dia-a-dia.

7. Sim, o tom combativo que enche a página do Evangelho de Lucas não se refere aos últimos tempos. Não está para vir. É no nosso dia-a-dia que se trava este combate. São coisas «deste tempo» (kairós) (Lucas 12,56), em que vivemos, e que devemos saber ler. Sintomaticamente, sabemos ler os sinais atmosféricos e meteorológicos do tempo segmentado (chrónos) que vivemos. Mas temos dificuldade em ler o kairós, que é o nosso tempo segmentado (chrónos) inundado pela enchente da Palavra de Deus, pela graça da Presença do próprio Deus, a que temos de responder agora, e não podemos não responder ou adiar a resposta.

8. Jeremias, de cuja profecia ouvimos hoje um extrato (38,4-10), é bem o ícone incandescente das lutas sem fim em defesa da verdade da Palavra de Deus. Quer quando tem pela frente o tirano Joaquim (609-598), colocado no trono pelo egípcio Nekao II, ou o troca-tintas Sedecias (597-587), colocado no trono pelo babilónio Nabucodonosor, os militares, a aristocracia, a sua própria família, ou o povo em geral. Claramente, e sem equívocos de nenhuma espécie, Jeremias anuncia a morte a quem quiser permanecer na defesa da cidade de Jerusalém, e apregoa a rendição aos babilónios como única esperança de sobrevivência. Por causa desta «alta traição à pátria», assim julgam os ministros e os chefes militares, Jeremias será lançado numa cisterna e atolar-se-á no lodo (v. 6). Daí será retirado por um estrangeiro compadecido (vv. 7-10), e será depois, no fatídico ano de 586, em que Jerusalém será arrasada, protegido pelos babilónios. Mas o rei Sedecias e o seu exército não terão igual sorte. Fugirão da cidade, mas serão perseguidos e alcançados. Sedecias verá os seus filhos serem degolados à sua frente. Depois, ser-lhe-ão vazados os olhos, e será levado com cadeias para a Babilónia.

9. O Salmo 40 apresenta um primeiro andamento de ação de graças (vv. 1-10), seguido logo por um movimento de súplica e lamentação (vv. 11-18). Parece, pois, haver no corpo do Salmo uma estranha divisão. Quem é o «eu» que constata e agradece os benefícios de Deus no v. 1, e quem é o «eu» que, no v. 14, implora ainda com veemência o auxílio de Deus? Este insistente pedido de ajuda ouve-se novamente no v. 18, que hoje serve de refrão ao Salmo. Esta notória divisão no corpo do Salmo não é ilógica, como muitas vezes tem sido vista. É humana, dado ser também a nossa vida tecida por momentos de sonho e de outros tempos de maior ou menor dificuldade. Em sintonia com o Evangelho de hoje, e também com a lição de Jeremias e do Sermão da Carta aos Hebreus. Há, porém, um dado novo, um canto novo: seja qual for a nossa situação, está sempre lá o bom Deus, a quem nos podemos dirigir com confiança.

António Couto


SANTA MARIA DO VERÃO

Agosto 15, 2025

Nossa Senhora da Assunção,

Santa Maria do verão,

ao céu elevada,

à minha porta sentada,

com tua roca de linho

e um novelo inteiro de carinho.

Olha por mim,

fica sempre assim,

no campo e na eira,

à minha cabeceira.

É bom ter uma mãe

como companheira.

Senhora da Assunção

ou da Dormição,

envolve-me no teu manto,

adormece-me com o teu canto,

a tua lalação,

pertinho do coração.

Vão os teus filhos

em procissão de amor,

atrás do teu andor,

na mão uma flor.

Recebe-a, mãe,

e acolhe-nos sob a tua proteção,

hoje e em cada dia,

Ave-Maria.

António Couto


SENHORA DA ASSUNÇÃO

Agosto 14, 2025

Apocalipse 11,19; 12,1-6.10; Salmo 45; 1 Coríntios 15,20-27; Lucas 1,39-56

1. Ainda que com títulos diferentes, mas com temas e conteúdos idênticos, as Igrejas do Oriente e do Ocidente, portanto a Igreja inteira, a Una e Santa, celebra no dia 15 de Agosto a maior e mais antiga festa da Mãe de Deus, a Virgem Santa Maria. No Oriente, é a festa da «Dormição» (koímêsis), enquanto, no Ocidente, prevalece a tonalidade da «Assunção» (análêmpsis).

2. O Evangelho deste grande Dia relata o belíssimo episódio da «Visitação» (Lucas 1,39-45) seguido do cântico da «Exultação» ou «Magnificat» (Lucas 1,46-56). Note-se outra vez uma pequena diferença de tonalidade: o episódio evangélico que o Ocidente conhece por «Visitação», recebe no Oriente o nome de «Saudação» (aspasmós). E o episódio que precede e motiva esta «Visitação» ou «Saudação» recebe no Ocidente o nome de «Anunciação» e no Oriente o nome de «Evangelização» (euangelismós) (Lucas 1,26-38). Verdadeiramente é a Leveza e a Alegria em trânsito, a caminho, ao ritmo do vento do Espírito, música nova, inefável e bendita. Vinda de Deus até Maria, até Isabel, até João Batista, outra vez até Deus. Lembra uma pequena parábola rabínica que, quando David andava fugido de Saul, buscando refúgio nas montanhas (1 Samuel 22 e seguintes), um dia dependurou a sua harpa numa árvore, e adormeceu. Mas o vento, passando, fez as cordas da harpa exalar uma suave melodia. Verdadeira música do Espírito.

3. É igualmente sugestiva a intuição dos Mestres judaicos, registada por Martin Buber nos seus «Contos dos Justos». Citando o Salmo 147,1, em que se lê: «É bom cantar ao nosso Deus», Buber apresenta logo a bela interpretação que Rabbí Elimelek dava deste versículo: «É bom se o homem faz cantar Deus nele». Música divina. Assim Maria correndo sobre os montes e saudando Isabel, em casa de quem permanece cerca de três meses, e cantando as maravilhas de Deus no Magnificat, assim Isabel bendizendo Maria e bendizendo Deus, assim João Batista, dançando ao som dessa nova música inefável, no ventre de Isabel.

4. Maria levantou-se e partiu apressadamente (Lucas 1,39a): aí está o lema da JMJ de 2023. Maria correndo sobre os montes (Lucas 1,39b): feliz evocação do mensageiro de boas notícias de Isaías 52,7: «Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia boas novas a Sião, exultação logo partilhada pelas sentinelas de Sião, na qual participam até as ruínas!…». Feliz evocação também do amado do Cântico dos Cânticos 2,8, assim cantado pela amada: «A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». Assim, com este simples acorde montanhoso, o narrador e grande retratista do terceiro Evangelho traça o perfil de Maria movida por uma grande notícia e pelo amor. A aclamação de Isabel: «Bendita tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre» [= «Bendita tu e bendito Deus»], lembra o duplo «Bendito» na aclamação de Judite (13,18). A locução maravilhada de Isabel: «E de onde me é dado que venha ter comigo a Mãe do meu Senhor?» (Lucas 1,43), remete para o atónito dizer de David: «E de onde me é dado que venha ao meu encontro a Arca do Senhor?» (2 Samuel 6,9). E a «dança de João» reclama a dança de David na presença da Arca do Senhor (2 Samuel 6,5.14.16.21). E os «cerca de três meses» de permanência de Maria em casa de Isabel, regressando então a sua casa (Lucas 1,56), não são, como vulgarmente se pensa, para indicar que Maria está presente no nascimento de João Batista, pois este apenas é narrado no versículo seguinte (Lucas 1,57). É, antes, outra vez o acerto com a Arca do Senhor, que permanece cerca de três meses na casa de Obed-Edom (2 Samuel 6,11). Os acordes textuais evidentes mostram Maria como a Arca da Nova Aliança, como, de resto, é aclamada pelo Povo de Deus, quando recita a ladainha de Nossa Senhora.

5. O que verdadeiramente me extasia e inebria é esta música outra, ventilando as cordas do nosso humano, e quase sempre orgulhoso, coração. Vem outra vez a propósito a velha sabedoria judaica, que nos legou esta bela pequena história: «Conta-se que, quando David terminou o Livro dos Salmos, se sentiu muito orgulhoso. Então disse para Deus: “Senhor do mundo, quem de entre todos os seres que criaste, canta melhor do que eu a tua glória?”. Naquele momento, apareceu uma rã que lhe disse: “David, não te envaideças. Eu canto melhor do que tu a glória de Deus”» (Sefer ha-Haggadah, 89b).

6. Aí está, a descoberto, na lição do Livro do Apocalipse (11,19; 12,1-6.10), a Arca da Aliança, a Mulher messiânica, a Igreja, Maria, grávidas de um Filho que nasceu e foi arrebatado para junto de Deus (v. 5), nascimento e ascensão, fora das pautas habituais, «sinal» para sempre aceso e legível da presença viva e ativa de Deus no meio de nós, como a luz de uma vela, para a celebração festiva dos filhos de Deus reunidos. Avista-se, porém, outro «sinal» de sinal contrário, que serve para nos manter unidos e atentos no meio das dificuldades e perseguições desta vida, que, todavia, não devem toldar-nos a vista da salvação e da vitória, claramente a descoberto no horizonte onde brilha a esperança: «Agora cumpriu-se a salvação, a força e o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo» (v. 10).

7. O final da Primeira Carta aos Coríntios (15,20-27) põe um imenso selo de luz e de esperança na celebração luminosa deste Dia. Com a Ressurreição de Cristo salta à vista a poeira de toda a iniquidade e falsidade e morte, e já se vê a «assunção» da nossa frágil humanidade em Cristo e por Cristo até Deus Pai. «Cristo foi ressuscitado (egêgertai: perf. pass. de egeírô) dos mortos, primícias (aparchê) dos que adormeceram» (1 Coríntios 15,20). Ele é, portanto, o primeiro Homem a ser ressuscitado. E se é o primeiro e primícias, então representa-nos a todos e constitui promessa e certeza para todos. Nele a morte foi vencida para todos. A esperança fundamenta-se na certeza deste Acontecimento principal da Vida do Senhor, que dá significado a todos os outros acontecimentos da sua Vida, ao inteiro Antigo Testamento, à Igreja e à vida de todos os homens.

8. O belíssimo Canto de Amor, que é o Salmo 45, serve hoje para celebrar a Igreja Esposa e Mãe e Maria Esposa e Mãe. Este belo hino, como o Cântico dos Cânticos, canta o Amor, que é sempre divino e humano. Na verdade, no amor humano pode ler-se o amor revelado por Deus, pelo que, se existe o amor, existe Deus, dado que o amor vem de Deus (1 João 4,7). Não admira, por isso, que este Salmo tenha sido interpretado em clave messiânica quer no judaísmo quer no cristianismo.

9. Pela Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de 1 de novembro de 1950, o Papa Pio XII proclamava a Assunção da Virgem Santa Maria como dogma de fé. Mas é desde os primeiros séculos do Cristianismo que o Povo de Deus aclama, proclama e vive com amor intenso esta realidade. Quantas igrejas, paróquias e dioceses a têm como Padroeira! E, neste particular, este recanto Peninsular, terra de Santa Maria, não podia ser exceção. O Povo de Deus, desde muito cedo, aclamou a Assunção de Maria, Mãe de Deus e esperança da nossa frágil humanidade.

10. Um lugar guarda esta memória em Jerusalém. É preciso descer ao vale que corre a Oriente da cidade, o famoso vale do Cédron. Deixando à direita o Getsémani com as suas oliveiras seculares e a Basílica da Agonia de Jesus, muito próximo da Gruta dos Apóstolos ou da Prisão de Jesus, chega-se a um pátio pavimentado que dá para uma monumental fachada, que é o que resta de uma grande Igreja aí construída pelos Cruzados. Por detrás dessa fachada, estende-se uma escadaria que nos leva a uma cripta situada nas entranhas do vale do Cédron. É esta cripta que guarda um túmulo do século I, que a tradição cristã identifica com o túmulo de Maria, em forma de banco escavado na rocha, e que se apresenta bastante degradado devido à tentação dos peregrinos que, ao longo dos tempos, não resistiram a levar consigo um pedacinho da rocha que esteve em contacto com o corpo da «Bendita».

11. No dia da Solenidade da Assunção, é comovente ver aquela escadaria escura iluminada como um tapete de luz, devido às velas que os fiéis colocam em cada degrau. Conduzindo embora para um túmulo, a sensação que se cria é que aquela escadaria descendente, feita tapete de luz, abre para uma ianua coeli, «porta do céu», como também cantamos na litania de Maria.

12. No seguimento lógico da Assunção de Maria, a Igreja celebra oito dias depois, em 22 de agosto, a Memória da Virgem Santa Maria, Rainha, proclamação também devida a Pio XII, através da Carta Encíclica Ad Coeli Reginam, de 11 de outubro de 1954. Mãe Elevada aos Céus, mas Mãe que vela carinhosamente pelos seus filhos. O Rei e a Rainha não são, na Bíblia, títulos de nobreza, mas traduzem a dupla função de quem deve estar particularmente próximo de Deus e particularmente próximo dos homens. Para acolher de perto toda a Palavra que vem do coração de Deus, e para trazer à humanidade a prosperidade, o bem-estar e a felicidade. E para elevar até Deus os anseios da humanidade. Tal é a função do Rei e da Rainha.

António Couto


NINGUÉM NO MUNDO PODE MUDAR A VERDADE!

Agosto 13, 2025

A Igreja celebra neste dia 14 de agosto a memória ilustre de São Maximiliano Maria Kolbe, morto com uma injeção letal em Auschwitz a 14 de agosto de 1941, véspera da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora. Sim, Maximiliano Maria tinha sido, ao longo da sua vida, um incansável apóstolo da Virgem Mãe de Deus, tendo fundado e expandido pelo mundo inteiro a chamada «Milícia da Imaculada», vindo ele a ficar conhecido como «Cavaleiro da Imaculada». Nascido em 1894, e ordenado sacerdote franciscano em 1918, lutou com todas as suas forças e fraquezas, da Europa até ao Japão, para onde partiu como missionário, para implantar um mundo à imagem da grandeza de Jesus e da Virgem Imaculada. Regressado à Polónia, crescia cada vez mais a sua oração e pregação direta e através de jornais, revistas e da rádio. Foi preso pela Gestapo, e libertado. Com invulgar clarividência e inaudita coragem, escreveu então no Cavaleiro da Imaculada, jornal de periodicidade mensal com tiragem superior a um milhão de exemplares: «Ninguém no mundo pode mudar a verdade. O que podemos fazer é procurá-la e servi-la, quando a tivermos encontrado. O conflito real de hoje é um conflito interno. Mais além dos exércitos de ocupação e das hecatombes dos campos de extermínio, há dois inimigos irreconciliáveis no mais profundo de cada alma: o bem e o mal, o pecado e o amor. De que nos adiantam vitórias nos campos de batalha, se somos derrotados no mais profundo de nossas almas?». Foi então novamente preso e levado para Auschwitz em fevereiro de 1941. Tendo fugido um prisioneiro, os guardas sortearam dez para morrer à fome e à sede no bunker da morte. Maximiliano ofereceu-se então para morrer em vez de um pobre marido e pai. Como ao fim de 15 dias, ainda estava vivo, foi-lhe então aplicada uma injeção letal. Foi canonizado em 1982, com a presença comovida e agradecida em Roma do homem por quem Maximiliano Maria deu a vida.

São Maximiliano Maria Kolbe, ensina-nos a rezar e a amar até dar a vida. E ensina-nos também, porque, por vezes, andamos muito equivocados, que «Ninguém no mundo pode mudar a verdade!».

António Couto


SANTA TERESA BENEDITA DA CRUZ

Agosto 9, 2025

Por sermos neste ano jubilar habitantes da esperança, vale a pena olhar para a filósofa de origem judaica Edith Stein (12 de outubro de 1891-09 de agosto de 1942), neste dia da sua Festa de Padroeira desta velha Europa. Converteu-se em 1921, ao ler em casa de uma amiga a autobiografia de Santa Teresa de Ávila. Batizada em 1922, vestiu o hábito Carmelita em 1933 no Mosteiro de Colónia com o nome de Teresa Benedita da Cruz, morta em Auschwitz-Birkenau em 09 de agosto de 1942, beatificada em 01 de maio de 1987, canonizada em 11 de outubro de 1998 por S. João Paulo II, e por ele proclamada Padroeira da Europa em 01 de outubro de 1999.

Foi discípula de Edmund Husserl (1859-1938), tal como Martin Heidegger. Partilha com Heidegger a ideia de que a consciência da própria morte marca a radical finitude do ser humano, mas distancia-se de Heidegger ao referir que, excetuando alguns casos particulares, esta consciência não tem de levar à angústia. E explicita o seu pensamento desta maneira fulgurante: «Perante a inegável realidade de a minha existência ser fugaz, prorrogada, por assim dizer, de momento a momento, e sempre exposta à possibilidade do nada, está outra realidade, igualmente irrefutável, que me diz que, não obstante esta fugacidade, eu sou, e que, momento após momento, sou conservado no ser e que, neste ser fugaz, colho algo de duradouro. Sei que sou conservado, e, por isso, estou tranquilo e seguro: não que esta segurança me advenha por virtude própria; é, antes, a doce, feliz segurança da criança segura por um braço forte, segurança que, objetivamente considerada, não é menos da “ordem da razão”. Ou seria “da ordem da razão” a criança que vivesse com um medo permanente de que a sua mãe a deixasse cair? No meu ser, encontro-me, então, com outro ser que não é o meu, mas que é o sustento e o fundamento do meu ser, que não possui em si mesmo nem sustento nem fundamento. Posso chegar por duas vias a esse fundamento que encontro dentro de mim próprio, a fim de conhecer o ser eterno. A primeira via é a via da fé, em que Deus se revela como o Ser, o Criador e o Conservador, e como o Salvador que diz: “Quem acredita no Filho tem a vida eterna (zôên aiônion)” (João 3,36). E se Deus diz, pela boca do profeta, que me é mais fiel do que o meu pai e a minha mãe (Isaías 49,15-16; cf. Salmo 27,10), e que Ele é o próprio amor, reconheço então como é da “ordem da razão” a minha confiança no braço que me sustenta e como toda a angústia de cair no nada é insensata, enquanto eu não me desprender por mim mesmo do braço que me sustenta», deixou escrito Edith Stein em Essere finito e essere eterno. Per una elevazione al senso dell’essere, Roma, Città Nuova, 1988, pp. 95-96.

António Couto


AMADO PEQUENO REBANHO

Agosto 8, 2025

Sabedoria 18,6-9; Salmo 33; Hebreus 11,1-2.8-19; Lucas 12,32-48

1. «Não tenhas medo, pequeno Rebanho, porque aprouve (eudokéô) ao VOSSO PAI dar-vos o Reino» (Lucas 12,32). Assim começa o Evangelho deste Domingo XIX do Tempo Comum, retirado de Lucas 12,32-48. Imensa porta aberta pelo amor do VOSSO PAI. O VOSSO PAI ocupa o centro da frase, o lugar estratégico. E é um PAI que dá a todos e que tem prazer (eudokía) em dar. Aprouve é o verbo aprazer. Mas este PAI que dá e tem prazer em dar, que está no centro, articula-se com Rebanho e Reino. Diríamos que, com Rebanho, ficaria melhor o Pastor, e, com Reino, ficaria melhor o Rei. Mas é um PAI com prazer e dom que hifeniza Rebanho e Reino. Entenda-se: o PAI reclama o FILHO, a quem dá tudo o que tem e é (Mateus 11,27; João 3,35; 13,3; 17,7), e em quem põe o seu prazer, a sua eudokía (Lucas 3,22); do mesmo modo, o VOSSO PAI reclama os seus filhos, e, portanto, irmãos. Aí está a melhor tradução da Igreja e da vida cristã.

2. O Reino dado pelo Pai com prazer. Ao longo dos Evangelhos, com palavras e factos, Jesus anuncia e manifesta que o Reino de Deus não é um território com fronteiras, bandeira, hino nacional e constituição fundamental. Jesus anuncia e manifesta que o Reino de Deus é Ele mesmo, Jesus, com o Espírito Santo. Di-lo explícita, mas simbolicamente, em Lucas 11,20: «Se Eu expulso os demónios pelo Dedo de Deus (dáktylos Theoû), então o Reino de Deus chegou até vós». O «dedo de Deus» remete, por um lado, para o Livro do Êxodo 8,15, em que os magos do Egito reconhecem o «dedo de Deus» nos prodígios operados por Moisés; por outro lado, tenha-se presente o paralelo de Mateus 12,28, onde se lê: «Se Eu expulso os demónios pelo Espírito de Deus (pneûma Theoû), então o Reino de Deus chegou até vós». A teologia simbólica explica bem que «Dedo» está por «Mão» poderosa de Deus, ou seja, a sua Presença pessoal e operativa. Os Padres da Igreja antiga conheciam bem esta realidade: que o Pai tem «Duas Mãos», o Filho e o Espírito, ambos enviados, com os quais o Pai leva a efeito a sua Economia salvífica (Santo Ireneu de Lião); e que rezar «Venha o Teu Reino» é uma epiclese para a Vinda de Cristo com o Espírito, «o Reino que está aqui no meio de nós» (S. Gregório o Teólogo, S. Gregório de Niza, S. Máximo Confessor). No belo dizer de Orígenes, Jesus Cristo com o Espírito Santo é o Reino de Deus em pessoa, a autobasileía. É este o sentido teológico concreto do Reino, que depois se foi perdendo pelo abstrato.

3. Cultura nova, sem peias nem prisões. O «pequeno Rebanho» lembra o «pequeno Resto» da literatura profética, que não confia no ódio e na violência, no poder, na mentira e na corrupção, mas põe toda a sua confiança em Deus, no respeito de cada ser humano, na liberdade, na responsabilidade e no amor. Com este PAI NOSSO, que em nós põe o seu prazer e de nós cuida com paternal dedicação dando-nos tudo, fica mal agarrarmo-nos ciosamente às coisas; fica bem dar de graça, dado que de graça recebemos (Mateus 10,8). Amor novo, coração novo, tesouro novo. A traça corrói, a graça constrói! «Vendei tudo e dai em esmola» (Lucas 12,33) são, talvez, os imperativos menos respeitados na prática cristã ao longo dos séculos, até hoje!

4. Preparados, vigilantes, prontos, de rins cingidos e de lâmpadas acesas (Lucas 12,35). De acordo com os costumes então em vigor, quem desaperta a cintura e solta as vestes, suspende o trabalho e prepara-se para o repouso. Ao contrário, quem cinge as vestes, prepara-se para o trabalho ou para partir de viagem. Manter a lâmpada acesa significa estar preparado, até durante a noite, para qualquer atividade imprevista.

5. Além das frases fortes introdutórias (Lucas 12,32-34), a página do Evangelho de hoje oferece três pequenas parábolas seguidas: a primeira tem a ver com o senhor que regressa a casa com a noite adiantada e encontra os servos vigilantes (Lucas 12,35-38); inverte-se a ordem: o senhor veste as vestes de serviço e põe-se ele a servir, antecipando a cena de Lucas 22,17; a segunda, que é a mais breve, chama a atenção para o ladrão que, de forma sempre inesperada, assalta a casa, e deixa entrever Jesus que entra no nosso mundo de forma igualmente surpreendente, de forma a pôr em causa os nossos hábitos e distrações (Lucas 12,39-40); a terceira, que é a mais desenvolvida e articulada, contempla o administrador fiel e prudente que está sempre pronto a prestar ao seu senhor contas da sua administração (Lucas 12,41-48).

6. O leitor inteligente também se apercebe facilmente que o elemento comum a estas três parábolas é a ausência do senhor (ho kýrios), do dono da casa (ho oikodespótês), e que esse escondimento ou ausência aparente constitui uma prova para os seus servos ou criados (hoi doúloi), para os crentes, para nós. Sim, porque mesmo durante esta ausência aparente do dono da casa, estes servos continuam a ser os seus servos. É, por isso, também fácil de compreender que estes servos não podem viver à toa, nem por conta própria, de forma autorreferencial, mas sim continuamente à espera de receber (prosdechoménois: part. de prosdéchomai) o seu senhor (Lucas 12,36). O verbo grego prosdéchomai traduz bem a condição ou atitude física e psicológica de quem está à espera e vive nessa espera e dessa espera, assumindo, portanto, uma existência reflexa, que não pode passar sem o seu senhor. Daí, a tensão permanente, a prontidão e a vigilância. Não inúteis, mas já com o sabor da felicidade que atravessa o inteiro relato (Lucas 12,37.38.43).

7. Fazei caminho, cantai hinos, servi, servi, servi, sem pausa nem descanso nem sono. Aí está a descoberta da lei divina impressa desde sempre nos nossos corações, e que os caminhantes do Êxodo recitam, segundo a bela lição do Livro da Sabedoria que hoje temos a graça de saborear (Sabedoria 18,6-9). Sim, saborear: os santos partilham tudo, bens e perigos, e cantam os hinos dos seus pais (Sabedoria 18,9). Partilhar tudo, pôr tudo em comum, aponta já para a beleza da comunidade primitiva de Jerusalém (Atos 2,44), e os hinos dos nossos pais são os Salmos, sobretudo o Hallel da Páscoa (Salmos 113-118 e 136). Mas reclama também a música divina que a embalação dos nossos pais nos transmitiu, e que nos mantém livres pelo tempo fora. Veja-se o belo poema do poeta siciliano Ignazio Buttita: «Um povo/ metei-o na cadeia/ despojai-o/ tapai-lhe a boca:/ é ainda livre.// Tirai-lhe o trabalho/ o passaporte/ a mesa onde come/ a cama onde dorme:/ é ainda rico.// Um povo torna-se pobre/ quando lhe roubam/ as canções/ que aprendeu dos pais.// Então fica perdido para sempre».

8. Sim, leves e iluminados, rasgai a noite como relâmpagos! Estai sempre no umbral do Êxodo e do nascimento novo. Saí para a liberdade! Sair (yatsa’) é o verbo do Êxodo e do nascimento: vida nova, liberdade nova, leve, tenra e terna, sem retorno, rumo à Cidade verdadeira, à Casa grande, aberta e feliz, Casa de Deus, Casa do PAI NOSSO.

9. A grande homilia que compõe a Carta aos Hebreus, de que hoje nos é dado escutar um extrato (Hebreus 11,1-2.8-19), põe diante de nós a figura exemplar de Abraão, que não se agarrou a nada deste chão, mas seguiu sempre os rumos novos e leves de peregrino e hóspede assente na fé e na oração. «Para onde vais, Abraão?». «Não sei, mas vou pela mão de Deus». E partiu na certeza de encontrar novo país e novo pão. Não, não estava a pensar em regressar ao país de onde saíra. Se fosse o caso, tinha sempre tempo e jeito de voltar para lá (Hebreus 11,15), como Ulisses, que sai de Ítaca e regressa a Ítaca. A mão que guia Abraão leva-o sempre em frente, para uma pátria nova.

10. O Peregrino russo, longo e belo relato escrito na segunda metade do século XIX, que nos revela a bela mística oriental, e que ultimamente também tem sido muito lido no Ocidente, caminhava e rezava, sempre com o nome JESUS no coração e nos lábios. Queria saber o sabor da palavra de Paulo: «Rezai sem cessar» (1 Tessalonicenses 5,17). Aos ombros uma mochila com um pedaço de pão duro, no bolso do casaco uma Bíblia. E ainda partilhava com os pássaros pão e oração. De resto, todas as fontes eram dele, e para elas caminhava devagarinho, devagarinho, como sugere o Principezinho, quando o comerciante lhe quer vender uma pastilha que lhe mata a sede durante uma semana, e o pode levar a poupar 53 minutos! 11. Enfim, o Salmo 33, que hoje cantamos, é um verdadeiro «canto novo» (shîr hadash) a fazer vibrar as fibras do nosso coração. Mas é também música sem palavras (terûʽah) (v. 2), jubilação, exultação, lalação de radical confiança da criança que em nós sorri e dança, porque Deus vela por nós. Comenta Santo Agostinho: «Já sabes o que é o canto novo: um homem novo, um canto novo».

António Couto


SÃO DOMINGOS

Agosto 7, 2025

São Domingos nasceu no Reino de Castela por volta do ano 1170,

e morreu em Bolonha em seis de agosto de 1221.

Os tempos eram então difíceis para a Igreja,

que se via a braços com múltiplas heresias.

Uma delas, muito em voga no sul da Europa,

era a dos Albigenses, que professavam e espalhavam o maniqueísmo.

A sua forma de viver era, porém, pobre e simples,

muito ao jeito do Evangelho,

o que levava as pessoas a aderir em massa.

Os delegados pontifícios, enviados a combater esta heresia,

vinham cheios de pompa, luxos, carros e criados,

e não obtinham qualquer sucesso.

São Domingos leu bem a situação,

e fez-se pregador simples e pobre.

Abraçava o Evangelho, que sabia de cor,

e falava quase só com Deus e de Deus.

Falava com Deus: rezava;

falava de Deus: pregava.

Muitos o seguiram.

Fundou a ordem dos Pregadores (Dominicanos),

que se dedicavam à oração e à pregação.

São Domingos enviava-os a pregar dois a dois,

ao jeito do Evangelho.

Como precisamos hoje de voltar a esta simplicidade e alegria nova.

Nosso Pai São Domingos, rogai por nós!

António Couto


FESTA DA TRANSFIGURAÇÃO DO SENHOR

Agosto 5, 2025

Daniel 7,9-10.13-14 (ou 2 Pedro 1,16-19); Salmo 97; Lucas 9,28b-36

1. A Igreja celebra hoje, dia 6 de agosto, a Festa da Transfiguração do Senhor. Batizado no Jordão, tentado no deserto, mas Vitorioso, Jesus começou a executar o seu programa filial batismal que tem por meta a Cruz Gloriosa (Batismo consumado!) em que nós somos por Ele batizados com o fogo e com o Espírito Santo (sempre o luminoso texto de Lucas 12,49-50). Entre o Jordão e a Cruz Gloriosa aí está Hoje, a meio caminho do seu itinerário, o episódio da Transfiguração (Lucas 9,28-36), Luz incriada e inacessível (Lucas 9,29; cf. Salmo 104,2; 1 Timóteo 6,16) que investe a Humanidade de Jesus: experiência momentânea da Ressurreição, mediante a qual o Pai confirma o Filho na sua missão filial batismal, já iniciada, mas ainda não consumada. Também aqui temos a nota típica de Lucas de que Jesus subiu ao monte para orar, acontecendo a Transfiguração do Rosto e das vestes enquanto orava (Lucas 9,28). Que a Transfiguração deve ser vista à luz da Ressurreição, fica bem patente no dizer das Igrejas do Oriente que chamam à Festa da Transfiguração, que se celebra no dia 6 de Agosto, «a Páscoa do verão». Em Lucas temos, no final, a anotação de que «não disseram nada a ninguém» (Lucas 9,36), mas não a ordem taxativa de Jesus de não dizerem nada a ninguém «até que o Filho do Homem seja Ressuscitado dos mortos», como vemos, por exemplo em Mateus 17,9, o que acentuaria ainda mais o vínculo entre a Transfiguração e a Ressurreição.

2. A Transfiguração aponta também para o Batismo, pois, em Lucas, também este acontece enquanto Jesus está em oração (Lucas 3,21). Ao contrário de Mateus e Marcos, que falam de uma metamorfose, Lucas pretende mostrar o poder da oração para mediar a presença de Deus. Mas também são ouvidas as mesmas palavras do Pai no Batismo e na Transfiguração: «o Filho Meu», «o Amado» – «o Eleito» (Lucas 3,22; 9,35), agora seguidas pelo imperativo «Escutai-o!» (Lucas 9,35), dirigido a todos os discípulos: Jesus é também o «Profeta novo», como Moisés, prometido em Deuteronómio 18,15-18. Como dispunha a Lei antiga, que requeria duas ou três testemunhas (Deuteronómio 17,6), testemunham a cena grandiosa da Transfiguração três discípulos (Pedro, João e Tiago), os quais são igualmente transfigurados, não no Rosto e nas vestes, mas no coração, para a sua missão futura (após a Ressurreição com a dádiva do Espírito) de dar testemunho d’Ele. Ao juntar Pedro e João, Lucas mostra já que os dois estão juntos, prefigurando o seu trabalho futuro (Lucas 22,8; Atos 3,1-10; 4,1-22; 8,14-25).

3. Aparecem Moisés e Elias que falam com Jesus Transfigurado / Ressuscitado. É para Ele que aponta todo o Antigo Testamento! As «Escrituras», Moisés, todos os profetas e os Salmos falam acerca d’Ele! (Lucas 24,27 e 44; João 5,39 e 46; Atos 10,43). É o «segundo as Escrituras» que os discípulos também devem testemunhar. Só em Lucas temos o assunto de que falam: «falavam do êxodo d’Ele (éxodos autoû) que se consumaria em Jerusalém!» (Lucas 9,31). Locução que deve ser vista na sua plenitude, que implica a morte, a ressurreição e a ascensão de Jesus. Passagem deste mundo para o Pai, Liberdade definitiva, cumprimento do Êxodo antigo! De notar que Lucas refere em Atos 13,24 com o termo eísodos a entrada de Jesus no nosso mundo. O uso com tal precisão dos termos eísodos-éxodos para dizer a vida de Jesus, servem para mostrar Jesus completamente inserido na história de Israel.

4. Pedro, sempre ele, em nome dos discípulos de então e de sempre, tenta impedir Jesus de prosseguir a sua missão filial batismal até à Cruz: «Mestre, belo é estarmos aqui (hôde); façamos aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias» (Lucas 9,33). Aqui significa deter-se no penúltimo e provisório e recusar caminhar para o último e definitivo! Lucas 9,33 e Marcos 9,6 anotam corretamente que «não sabia o que dizia». De qualquer modo este «aqui» abre um caminho prolético para idêntica postura aquando da Ascensão (cf. Atos 1,11). Mas é verdade que Pedro não sabia o que dizia nem sabia o que significava o episódio no seu todo, e não sabia porque ainda não tinha sido batizado com o Espírito Santo e com o fogo, e ainda não tinha recebido a unção (tò chrísma) do Espírito, pela qual tudo conhecemos (1 João 2,20.27); quando o for, saberá também ele, discípulo fiel, batizado, crismado, levar por diante a missão filial batismal crismal em que foi investido, e dará testemunho até ao sangue.

5. A Ressurreição é a Transfiguração tornada permanente, eterna. Todos os batizados / crismados estão destinados à mesma Ressurreição / Transfiguração da Humanidade do Senhor, a divinização por graça (cf. 1 João 3,2).

6. A tradição situa «o monte» (tò hóros), que abre o episódio da Transfiguração (Lucas 9,28), sobretudo a partir de Cirilo de Alexandria (ano 348), no Tabor, um monte de forma arredondada que se ergue nos seus 582 metros no meio da planície galilaica de Jesrael ou Esdrelon. No sopé do Tabor ainda hoje se encontra a aldeia palestiniana de Daburiyya, cujo eco evoca a personagem bíblica mais importante desta região, a profetisa Débora (Juízes 4,4-5,31). As Igrejas do Oriente conhecem este episódio da Transfiguração por «Metamorfose» (Metamórphôsis), a partir das palavras do texto de Mateus e Marcos: «E transformou-se (metemorphôthê) diante deles [= Pedro, Tiago e João]» (Mateus 17,2; Marcos 9,2), e resplandeceu o seu rosto como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. O branco é a cor divina. E a luz é o seu vestido, conforme o estupendo dizer do Salmo 104,2: «Vestido de Luz com de um manto». E, nesse cone de luz, o Apóstolo exorta-nos: «Caminhai como filhos da luz», e lembra-nos que «o fruto da luz é toda a bondade, justiça e verdade» (Efésios 5,8 e 9).

7. Da lição do Livro de Daniel 7,9-10.13-14 e respetivo contexto imediatamente anterior (7,3-8) e posterior (7,15-27), transborda a indescritível riqueza do nosso Deus, solenemente sentado no seu trono de Luz e de Fogo purificador, que inutiliza o poder das quatro bestas enormes saídas do mar com aspeto terrível, e que têm o aspeto de um leão com asas de águia, de um urso com costelas na boca, de um leopardo alado com quatro cabeças, e de um monstro metálico aterrorizador, com enormes dentes de ferro que tudo tritura e espezinha aos pés. Tinha ainda dez chifres na cabeça, mas nasceu-lhe, entretanto, um outro mais pequeno e insolente, com uma boca que proferia palavras arrogantes. Estas bestas representam quatro impérios: babilónio, medo, persa e grego (de Alexandre Magno e seus sucessores). Os dez chifres são os reis da dinastia Selêucida, e o décimo primeiro é Antíoco IV Epifânio (175-163 a.C.). O tribunal divino toma assento para julgar o arrogante Antíoco, que é morto e destruído. E vê-se então, em contraponto com as bestas que saem do mar, símbolo da desordem e do mal, o Filho do Homem que vem sobre as nuvens, do mundo celeste, portanto. A ele é entregue o reino eterno, não assente no poder prepotente da brutalidade, mas no poder manso do Amor (Daniel 7,13-14). Fica bem claro que todos os nossos impérios prepotentes e ferozes, por mais fortes que pareçam, caem face à doçura da Palavra e da Atitude do Filho do Homem, que dissolve no Amor, que é o poder manso que lhe é dado para sempre, as nossas raivas e violências, manifestações das bestas bravas que nos habitam. O Filho do Homem vence, sem combater, este combate. É assim que caem as quatro bestas ferozes que sobem do mar (Daniel 7,3), que é símbolo da confusão e do mal, e que deixará naturalmente de existir (Apocalipse 21,1).

8. O domínio do Filho do Homem que nos ama (Apocalipse 1,5), o domínio do Amor, é Primeiro e Último (Apocalipse 1,8). Entre o Primeiro e o Último instala-se o penúltimo, que é o domínio velho e podre da violência das bestas ferozes que nos habitam. O Bem é desde sempre e é para sempre. É Primeiro e é Último. O Bem não começou, portanto. O que começou foi o mal que se foi insinuando nas pregas do nosso coração empedernido. Mas o que começa, também acaba. Os impérios da nossa violência, malvadez e estupidez caem, imagine-se, vencidos por um Amor que é desde sempre e para sempre, e que vence, sem combater, a nossa tirania e prepotência!

9. Entenda-se bem que tem de ser sem combater. Porque, se combatesse, usaria os nossos métodos violentos, o que só aumentaria a violência. É assim que Jesus, o Filho do Homem, atravessa as páginas dos Evangelhos e da nossa história e da nossa vida, entregando-se por Amor à nossa violência, abraçando-a e, portanto, absorvendo-a, absolvendo-a e dissolvendo-a.

10. Pedro, na sua 2 Carta 1,16-19, coloca-se como Testemunha ocular, quer do poder do amor que Jesus recebeu de Deus Pai, quer da sua manifestação gloriosa no monte santo, que confirma a palavra dos profetas. Pedro exorta-nos a prestar atenção a esta palavra, que é como uma luz que brilha no escuro, até que surja a «Estrela da Manhã», que é Cristo (Apocalipse 22,16).

11. Canta-se Hoje o Salmo 97, que canta o Senhor na ação de reinar, isto é, de salvar, de justificar, de perdoar, de recriar, de trazer a prosperidade e o bem-estar ao seu povo e aos seus fiéis. Deus, como Rei, manifesta-se circundado pelos seus assistentes cósmicos (nuvens, trevas, fogo, relâmpagos) e históricos (justiça, direito, glória) (vv. 1-6). Face a tão esplendorosa manifestação, os ídolos e idólatras caem por terra (vv. 7-9), e os fiéis exultam de alegria (vv. 10-12). Os fiéis e justos são definidos com sete expressões particularmente significativas: 1) aqueles que amam o Senhor; 2) aqueles que odeiam o mal; 3) aqueles que são fiéis (hasîdîm); 4) aqueles que são justos (tsaddîqîm); 5) os retos de coração; 6) homens de alegria; 7) aqueles que celebram o «memorial da sua santidade» (zeqer qodshô). Comenta bem o Livro dos Mistérios, de Qumran, que perante a manifestação e inauguração deste Reino novo de Deus, «a impiedade recuará diante da justiça, como as trevas recuarão diante da luz; a impiedade desaparecerá para sempre, e a justiça, como o sol, apresentar-se-á como princípio de ordem no mundo» (1Q27, I,5-7).

12. A Festa que a Igreja hoje celebra é antiga e fortemente impressiva no Oriente. Celebra-se a Imagem de Cristo Transfigurado, e que nos Transfigura. Daí, a importância da Contemplação. O Ocidente conheceu esta Festa tardiamente e celebrou-a esporadicamente, com oscilações locais e de calendário. A Igreja Universal celebra esta Festa apenas desde 1457.

António Couto


PADROEIRO DOS PÁROCOS

Agosto 3, 2025

A Igreja celebra neste dia 4 de agosto a memória litúrgica de São João Maria Vianney (1786-1859), que ficou conhecido como Santo Cura de Ars, o nome da paróquia que lhe foi confiada, e a que se dedicou de corpo inteiro e a tempo inteiro, com inteira dedicação e paixão. Por isso, é proposto como figura de pároco e pastor prudente e diligente, sempre próximo e atento a Deus, sempre próximo e atento ao povo simples da sua paróquia de Ars, para a todos fazer chegar o grande amor de Deus, que cura todas as feridas do nosso humano e enrugado coração. Não parecendo, à primeira vista, ser dotado de uma inteligência brilhante, era, porém, um pastor próximo e humilde, dotado de uma penetrante intuição, e de grande paciência, bondade e sensatez. Soube sempre encontrar os caminhos certos para acender com grande intensidade, na primeira metade do século XIX, a luz do Evangelho na sua paróquia de Ars, fazendo de Ars um centro de irradiação do Evangelho por toda a Europa e pelo mundo inteiro. Quando, em 1818, assumiu a pequena paróquia de Ars, um pouco a norte de Lyon, na França, foi porque nenhum outro sacerdote aceitou tal paróquia, que tinha apenas 230 habitantes, que não iam sequer à igreja, e eram conhecidos por serem rudes e violentos. Promovendo a devoção eucarística, e dedicando-se à oração, à pregação e ao ministério da reconciliação, o Santo Cura de Ars foi convertendo aqueles corações rudes, e, pouco anos depois, tinha a igreja cheia de fiéis. O Papa Pio XI proclamou-o padroeiro dos párocos. Para celebrar os 150 da sua morte e avivar a beleza do ministério sacerdotal, o Papa Bento XVI promulgou o ano pastoral 2009-2010 como Ano Sacerdotal.

São João Maria Vianney, ou Santo Cura de Ars, rogai por nós.

António Couto


À ENTRADA DE AGOSTO

Agosto 2, 2025

À entrada de agosto,

com o sol no rosto,

dá Deus o descanso

de um ribeiro manso,

uma roseira brava,

um silêncio em lava,

uma bilha de água,

pão folhado a arder na frágua,

um anjo à cabeceira,

celestial pulseira,

com que o céu nos guia,

de noite e de dia,

pelo deserto ardente,

rumo à nascente

da Paz

e da Alegria.

Nossa Senhora de agosto,

livra-nos do fogo posto,

pega em nossa mão,

conduz-nos pelo verão,

cura as nossas feridas

e as nossas chagas sofridas.

Guia os emigrantes,

faz de nós orantes,

de noite e de dia,

Ave-Maria!

António Couto


A GANÂNCIA ASFIXIA E MATA

Agosto 1, 2025

Qohelet 1,2; 2,21-23; Salmo 90; Colossenses 3,1-5.9-11; Lucas 12,13-21

1. Diz o Tratado Pirqê ’Abôt 2,9, da Mishna judaica, que «o caminho mau de que o homem se deve afastar é pedir emprestado e não restituir», acrescentando logo que «é a mesma coisa receber emprestado de um homem ou de Deus». Comentando este dito da sabedoria judaica, afirma, de forma contundente, o grande filósofo hebreu Abraham Joshua Heschel: «Talvez esteja aqui o núcleo da miséria humana: quando nos esquecemos de que a vida é um dom e também um empréstimo».

2. Servem estes ditos rabínicos para nos conduzir ao extraordinário DIZER e MOSTRAR de Jesus no Evangelho deste XVIII Domingo do Tempo Comum (Lucas 12,13-21): «Vede bem e guardai-vos de toda a GANÂNCIA (pleonexía)» (Lucas 12,15). É fácil de entender o termo grego usado pelo narrador: pleonexía, que aqui traduzimos por ganância. Deriva de pléon [= mais] + échô [= ter], e passa, portanto, a ideia clara de desejarmos TER MAIS poder, mais posse, mais dinheiro, sucesso, etc… Esta raiz daninha pode tomar de tal modo conta de nós que acaba por minar e envenenar todos os nossos comportamentos. São Paulo chama, com toda a razão, a este vício da «ganância» ou «avareza», «idolatria» (Colossenses 3,5). É o feitiço ou o fetiche do poder, da posse, da riqueza, do dinheiro, do sucesso, diante dos quais nos prostramos, seguranças enganadoras, falsos sucedâneos de Deus, a que o Evangelho chama MAMONA (mamônã) (Lucas 16,13; cf. Mateus 6,24). De notar que o termo grego mamônãs [= dinheiro, riqueza] deriva, através do aramaico mamôn, da raiz hebraica ’mn, que serve também para dizer a fé (ʽemunah) e a confiança em Deus. É como quem diz que nos podemos equivocar radicalmente, deixando de pôr a nossa fé e confiança no Deus vivo, para nos agarrarmos aos ídolos mortos e vazios, uma espécie de «espantalhos num campo de pepinos!» (Jeremias 10,5). É assim que caímos no terreno vazio e oco da idolatria, que sou eu ao mesmo tempo dono e escravo de mim mesmo, curvado sobre mim mesmo, adorando-me a mim mesmo!

3. E, para que tudo fique mais claro, aí vem mais uma história arrasadora de Jesus. «A terra de um HOMEM RICO produziu muito» (Lucas 12,16). E eis o HOMEM RICO, sintomaticamente apresentado em cena SEMPRE SÓ, voltado unicamente para si mesmo, entretido com a sua autorreferencialidade, a cogitar CONSIGO MESMO, e a falar apenas CONSIGO MESMO (Lucas 12,17-19).

4. Diz ele: deitarei abaixo os meus celeiros pequenos, construirei novas infraestruturas, grandes celeiros, e recolherei lá todo o meu trigo e os meus bens. Depois, direi para MIM MESMO: tens muitos bens acumulados para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te! (Lucas 12,18-19). Assim falou o HOMEM RICO a sós CONSIGO MESMO. Mas agora é a vez de Deus, que lhe diz: «Mentecapto (áphrôn), precisamente esta noite morrerás, e as coisas que acumulaste para quem serão?» (Lucas 12,20). E o narrador conclui: «Assim acontece àquele que acumula PARA SI MESMO e não PARA DEUS» (Lucas 12,21). Note-se o vivo contraste entre aquele para muitos anos, projetado pelo homem rico, e a lâmina impiedosa daquele precisamente esta noite, pronunciado por Deus e que deita a perder a rima de projetos que elaborámos! Note-se também o vivo contraste das duas formas de viver que o texto assinala: para si mesmo (heautô) e para Deus (eis theón). Viver para si mesmo (heautô) é a autorreferencialidade que estiola a vida, de que não se cansa de falar o Papa Francisco. Para Deus (eis theón) impõe uma direção da nossa vida para fora de nós, para Deus, bem assinalado no texto grego com a expressão eis theón (Lucas 12,21), que implica movimento para Deus. São Paulo admoesta o seu discípulo e cooperador Timóteo a viver como «amigo de Deus» (philótheos), e não como «amigo de si mesmo» (phílautos) (2 Timóteo 3,2 e 4). Na lição do Evangelho do próximo Domingo (XIX), Jesus ensinar-nos-á que este para Deus se verifica no para os outros: «Vendei os vossos bens, e dai em esmola» (Lucas 12,33).

5. Não é suficiente traduzir o termo grego áphrôn por «insensato» ou «estúpido». Áphrôn resulta de phrên [= mente] a que se antepõe o a- (alfa) privativo, pelo que áphrôn indica a falta total de inteligência, um mentecapto, desmiolado, sem-mente.

6. Olhando atentamente à nossa volta, neste mundo em crise acentuada e à deriva, veremos depressa (e não é só no futebol) tantos «ricos mentecaptos», que passeiam e planeiam, falam e gastam sozinhos. Onde estão na nossa não-mente os irmãos a quem devemos fazer participar com alegria da nossa riqueza? E, em última análise, a orientação da nossa vida é PARA NÓS MESMOS ou PARA DEUS? Recebemos a vida, os outros, a riqueza como um DOM e um EMPRÉSTIMO, de que devemos responder a cada momento, ou pensamos que somos DONOS de todos e de tudo, registando logo todos e tudo em nosso nome, nossa propriedade para nosso uso, consumo e satisfação exclusivos? A parábola do rico mentecapto, que acabámos de seguir em Lucas, e que constitui um importante ensinamento de Jesus no caminho, pode muito bem ser vista como o desenvolvimento do gérmen sapiencial já registado no Livro de Ben Sira 11,18-19: «Há quem enriqueça por GANÂNCIA, e será esta a sua recompensa: quando ele disser: “agora encontrei descanso, agora comerei dos meus bens”, ele não sabe quando virá o dia em que deixará tudo a outros e morrerá».

7. Temos hoje a ácida e lúcida companhia de Qohelet (1,2; 2,21-23), esse intrigante pregador que nos segue por toda a parte e não cessa de nos ir lembrando que tudo o que fazemos pode afinal não passar de um sopro, fumaça, um vento que passa, um ócio oco e vão, uma soneira. E logo com tanto irmão à nossa beira!

8. São Paulo regressa ao essencial nesta bela página da Carta aos Colossenses (3,1-5.9-11), pondo em destaque a nossa condição cristã assente no batismo, isto é, na enxertia da nossa vida em Cristo. «Se, portanto, ressuscitastes com Cristo, com ressuscitastes (synêgérthête: aor. pass. de synegeírô), procurai as coisas do alto» (v. 1). A Igreja antiga retirou daqui o tà ánô zêteíte, sucessivamente traduzido com sursum corda, corações ao alto, que se usa no diálogo inicial da Prece Eucarística em todas as liturgias. A vida nova, batismal, em Cristo, requer de nós vestidos novos (v. 10), com o consequente abandono dos velhos vícios que nos prendem à terra. Não se trata, obviamente, de um convite ao desprezo das coisas terrenas, dando corpo, por assim dizer, a uma religião de evasão e alienação. Trata-se, antes, de não nos encerrarmos nas coisas deste mundo, à maneira do rico da parábola de hoje, a quem encaixa bem a lista de vícios do v. 5, em que sobressai «a ganância insaciável (pleonexía), que é idolatria». Nós, batizados em Cristo, procuramos aquele tesouro escondido no campo, pelo qual vale a pena vender tudo (Mateus 13,44).

9. O Salmo 90 põe em cena a eternidade e a solidez de Deus em confronto com a fragilidade e o sabor efémero da vida humana, sempre vista no microscópio de Deus. Este confronto é cantado na elegia sapiencial dos vv. 1-10, sendo de súplica os vv. 11-17. O primeiro movimento pode resumir-se na afirmação do v. 4: «Mil anos aos teus olhos são o dia de ontem que passou, como uma vigília da noite». E o segundo movimento tem o seu ponto alto no v. 12: «Ensina-nos a bem contar os nossos anos, para chegarmos à sabedoria do coração». Estar de passagem e sermos tão frágeis como a flor da erva (vv. 5-6), não nos leva para o pessimismo, mas para viver intensamente a vida que Deus nos dá, Ele que é e permanece o nosso refúgio de geração em geração (v. 1). O grande estudioso dos Salmos, Artur Weiser (1893-1978), alemão, de tradição Evangélica, expressa bem esta realidade: «Na luz da graça de Deus, um reflexo de eternidade cai também sobre a vida e sobre a obra do homem. Da parte de Deus, a fragilidade recebe subsistência, a miséria torna-se glória, aquilo que parecia sem sentido, alcança significado… É como se a estrela de outro mundo viesse fazer luz sobre o fluir dos nossos dias».

António Couto


SANTO INÁCIO DE LOIOLA

Julho 30, 2025

Santo Inácio de Loiola viveu entre 1491 e 1556. A Igreja celebra no último dia de julho a memória deste santo, cuja alma era maior do que o mundo. Passou a sua juventude em vida palaciana e leviana. Em 1521, tinha ele trinta anos, foi gravemente ferido na batalha de Pamplona. Foi assim que, na falta de outros livros mais mundanos, lhe vieram parar às mãos livros como a Vida de Jesus e de alguns santos, nomeadamente de S. Francisco de Assis e de S. Domingos de Gusmão. Ao ler a Vida de Jesus, sentiu-se chamado a partir para Jerusalém para seguir mais de perto os passos de Jesus. Ao ler a vida de S. Francisco e de S. Domingos, foi levado a pensar que se eles fizeram o que fizeram, ele também podia fazer. E a vida de Inácio de Loiola começou a mudar. Em 1523 partiu mesmo para Jerusalém, mas foi forçado a regressar. Depois de alguns estudos e Exercícios Espirituais, mas também de problemas com a Inquisição, em 1528 foi estudar teologia para Paris. O seu ideal era fazer-se companheiro de Jesus, não para seu próprio deleite, mas para levar o Evangelho a toda a parte. Reuniu alguns companheiros a quem passou o mesmo ideal e o mesmo zelo. Um deles era Francisco Xavier. Destes companheiros de Jesus, nascerá a Companhia de Jesus, que hoje se encontra espalhada por todo o mundo, e está bem presente em Portugal.

Santo Inácio de Loiola, rogai por nós.

António Couto


MARTA, MARIA E LÁZARO

Julho 28, 2025

A extrema violência que grassa pelo mundo traz à luz do dia a animalidade feroz, a besta brava, insensível e metálica que nos habita, e que, com os seus dentes de ferro, mata, tritura, cospe e calca, com as suas patas também de ferro, deixando por toda a parte um rastro de morte e destruição. Trata-se de um mundo em tudo semelhante ao da quarta besta que Daniel vê e retrata nas visões noturnas do Capítulo sétimo do seu Livro. Os Santos e os Justos são o contraponto deste mundo feroz e metalizado. E neste dia 29 de julho, a Igreja celebra os Santos Marta, Maria e Lázaro, modelos de hospitalidade, de escuta e de busca de caminhos novos para a sua fé simples e tradicional. Eles sabem que tudo passa por Jesus, que Deus enviou a este mundo, para nos salvar HOJE. É também neste caminho novo de Jesus que caminham por estes dias, em Roma e Tor Vergata, em Itália, Jovens de todo o mundo, que aí partilham pão, paz, alegria e esperança. É Jesus que procuram. É com Jesus que querem estar.

Senhor da mansidão e da ternura, olha com misericórdia para a humanidade sofrida e à deriva deste princípio de milénio, e ajuda-nos a encontrar o caminho bom e belo da fraternidade, em que todos possamos caminhar como irmãos.

António Couto


ABRAÃO E DEUS

Julho 27, 2025

A cidade inteira

cheira a enxofre e feno

e a todo o momento uma fogueira

pode transformar esta lixeira

num inferno.

Vem Abraão contando pelos dedos

percorre a escala toda de cinquenta a dez,

passando por quarenta e cinco,

quarenta, trinta e vinte.

Ele quer salvar Sodoma a todo o custo

mas não encontra nem sequer um justo

para oferecer em troca dos seus medos.

Ao todo, seis lances,

seis ofertas atiradas para o chão.

Fica, pois, com a sétima, a última, na mão,

sob registo.

E no dia em que for aberta

ver-se-á que é divina a letra

e que o nome é Cristo.

António Couto


REZAR

Julho 26, 2025

Bendito o dia em que outra vez rezamos,

e outra vez sempre de novo.

Rezar é voltar sempre ao princípio,

e recitar com mais amor cada uma das tuas maravilhas.

Assim,

talvez a oração não tenha fim,

porque é uma viagem dentro de mim,

fora de mim,

enunciando nomes, dores, alegrias, guerras, fomes,

calcorreando montanhas, vales, avenidas,

colhendo frutos no coração das árvores,

partilhá-los com os passarinhos

na toalha multicolor que estendeste sobre este chão dourado.

Rezar é saber bem

que as coisas belas que vemos neste mundo são todas tuas,

e a mais ninguém pertencem.

E quem agora as tem na mão deve acariciá-las,

partilhá-las,

saber que lhe foram dadas,

e que as tem apenas emprestadas.

Obrigado, Senhor,

pelo céu e pelo chão,

pelo vinho e pelo pão,

e por cada irmão que me deste.

António Couto


O TRÍPTICO DA ORAÇÃO

Julho 25, 2025

Génesis 18,20-32; Salmo 138; Colossenses 2,12-14; Lucas 11,1-13

1. Depois do tríptico sobre o discípulo de Jesus, que contemplámos nos últimos três Domingos (XIV, XV e XVI), em que foi proclamado, em três andamentos, o saboroso e precioso texto de Lucas 10 (o envio dos 72 discípulos; o bom samaritano; Maria que escolheu estar sentada a escutar a Palavra de Jesus), eis-nos já perante um novo belo tríptico, agora sobre a oração cristã, que não se distribui por vários Domingos, mas que entra todo por este Domingo XVII adentro, e que Lucas nos oferece em 11,1-13.

2. O primeiro quadro deste tríptico sobre a oração pode intitular-se INTIMIDADE, e tem a sua explicitação altíssima na oração do PAI NOSSO, ensinada por Jesus aos seus discípulos (Lucas 11,1-4). Jesus é o modelo de oração oferecido aos discípulos. Por isso, aparece ao fundo da cena a rezar sozinho ao Pai (Lucas 11,1), totalmente voltado para o seio do Pai (João 1,18), completamente absorvido nas Realidades do Pai (Lucas 2,49), repousando toda a sua existência no Pai. Os discípulos veem Jesus a rezar, mas não ousam interromper tão intensa corrente de confiança e de amor. Veem apenas. O deslumbramento tolhe-lhes os movimentos e as palavras. Mas eis que Jesus termina a sua oração ao Pai. Então, ainda extasiado, um dos discípulos, em nome de todos, também em nosso nome, atreveu-se a formular este pedido: «Senhor, ensina-nos a rezar como João Batista ensinou a rezar os seus discípulos!» (Lucas 11,1).

3. E foi então que Jesus ensinou a eles e a nós, a todos, o segredo mais profundo da sua vida e da nossa vida, a orientação da sua vida e da nossa vida: para onde, melhor, para quem, devem estar sempre voltados o nosso coração, a nossa mente, os nossos olhos, as nossas mãos, os nossos pés, a nossa vida toda.

E disse: «Quando rezardes, dizei:

Pai (páter),

         1. Seja santificado o teu Nome,

         2. Venha o teu Reino,

3. Dá-nos o pão nosso (árton hêmôn) de amanhã (epioúsion) em cada dia (kath’hêméran)

         4. Perdoa-nos os nossos pecados (áfes hêmîn tàs hamartías hêmôn),

         5. Não nos deixes cair na tentação”» (Lucas 11,2-4).

4. Como bem se vê, não se trata de uma lição teórica, mas da comunicação de uma experiência, de um segredo, de um tesouro, de uma intimidade. Rezar (proseúchomai) é orientar a nossa vida toda para Deus, a quem tratamos carinhosamente por ’Abba’, nome de radical ternura, simplicidade, verdade, confidência e dependência, posto na boca de Jesus em Marcos 14,36, e posto na nossa boca em Romanos 8,15 e Gálatas 4,6. Sim, aqui não está em jogo a instituição paterna, o pai, ʼAb, que impõe respeito, autoridade e distância. Trata-se, antes, de ’Abba’, ’Ab-ba’ soletrado, que implica a duplicação das sílabas, que é uma caraterística da linguagem infantil, uma Lallwort de intolerável confiança! São as criancinhas que usam este tipo de linguagem. Mas também aparece na boca do filho adulto em relação ao seu pai ancião. A tanto carinho e simplicidade nós somos chamados! A oração é composta no texto de Lucas por cinco pedidos (Mateus apresenta sete: Mateus 6,9-13), sendo o do meio o do «pão nosso», dado por Deus. A pergunta infantil, ou científica, ou de mera curiosidade, é sempre a mesma: «O que é isto?». A nossa resposta habitual é também sempre a mesma: «é pão». Impõe-se que nós, que nos consideramos modernos, aprendamos e ensinemos novas notas, novas pautas, novos acordes. A resposta correta, aprendida na Escritura Santa, soa assim: «É o pão que Deus nos dá» (Êxodo 16,15).

5. De acordo com a retórica bíblica, o pedido do meio é o mais importante, pois é o que estrutura a inteira oração, constituindo por assim dizer a clave musical de toda a oração e relação com Deus-Pai. Não esqueçamos que o pedido do meio (o n.º 3) consiste em pedir o «Pão nosso». E aqui é preciso descer abaixo das escadarias da importância e do orgulho e das estratégias que diariamente usamos, pois é imperioso assumir a atitude evangélica das crianças, dado que só elas sabem pedir pão com verdade e simplicidade, sem maquilhagens, truques ou reboco de qualquer espécie! De resto, a nós, crescidos e importantes, basta sairmos à rua e tentarmos fazer o exercício de pedir pão, para vermos a triste figura que fazemos e percebermos logo que não temos mesmo jeito nenhum para isso. Sim, teremos então, evangelicamente, de aprender com as crianças! Se não vos tornardes como as crianças… (Mateus 18,3).

6. Notemos ainda que este pedido n.º 3 não consiste apenas em pedir pão. Trata-se, na verdade, de pedir o «pão nosso». E aí está outra bomba a rebentar no nosso coração e na nossa mesa. É que o «pão nosso» não é o «pão meu». E isto quer dizer que o pão que está sobre a minha mesa, é dado por Deus, e não é «meu». É «nosso». Não é mais possível comer descansado, saciar-me, quando sei que há irmãos meus que passam fome. Aí está a dimensão social, horizontal, da oração, que é então um espantoso exercício de fraternidade. Além disso, o «pão nosso» que nós pedimos é o «pão de amanhã» para cada dia. Entenda-se a bela interpretação de S. Jerónimo: «o nosso pão de amanhã», isto é, «futuro», o pão da vida eterna, o pão do céu, dá-no-lo hoje e amanhã e sempre.

7. O quarto pedido desta oração por Jesus rezada e vivida e a nós por Ele ensinada é sobre o perdão. Pedimos a Deus o perdão dos nossos «pecados» (hamartía) (Lucas 11,4a), para que, segundo o modelo de Deus, nós perdoemos as «dívidas» (opheílô) dos nossos irmãos (Lucas 11,4b). Na verdade, os gregos não conhecem a metáfora da «dívida» para indicar «pecado». São os hebreus que usam essa metáfora (veja-se Mateus 6,12, que usa sempre «dívidas»). Note-se, porém, a agudeza do pedido formulado por Lucas. Pedimos a Deus que nos perdoe os nossos pecados. Mas este modelo serve para nós aprendermos a perdoar ao nosso próximo também as suas dívidas concretas, não apenas as ofensas morais!

8. O segundo quadro deste tríptico sobre a oração trata o tema da CONSTÂNCIA da oração, retratada imediatamente a seguir (Lucas 11,5-8), na atitude do amigo que de noite bate à porta do seu amigo, e não desiste até ser atendido. Este quadro mostra que a oração cristã não é apenas emoção passageira, mas a respiração permanente da alma, que não se extingue perante as adversidades, nem sequer durante a noite!

9. O terceiro quadro deste tríptico trata o tema da EFICÁCIA da oração (Lucas 11,9-13): «Pedi e ser-vos-á dado, procurai e encontrareis, batei e abrir-se-vos-á». Entenda-se, todavia, que se trata de uma eficácia que não tem de responder diretamente aos cânones do que esperamos obter, aos desejos que formulamos, mas sim aos planos de Deus, que devemos saber acolher com humildade e prontidão. Como refere de forma penetrante o poeta libanês Khalil Gibran (1883-1931), «Deus não escuta as nossas palavras, se não é Ele próprio a pronunciá-las com os nossos lábios».

10. Essencial é saber que dirigimos sempre a nossa oração ao Pai, que dá sempre o melhor aos seus filhos. E é grandemente significativo que o verbo REZAR (proseúchomai), que aparece no tríptico três vezes (Lucas 11,1[2x] e 2), apareça praticamente traduzido por PEDIR (aitéô), que contamos no texto por cinco vezes (Lucas 11,9.10.11.12.13), e cujo corolário é DAR (dídômi), com nove menções no texto (Lucas 11,3.7.8[2x].9.11.12.13[2x].

11. Feita esta explicitação vocabular, salta à vista a importância dada à oração de súplica. Todos sabemos que a oração de súplica é muitas vezes vista como uma forma secundária de oração, quase como um subproduto, quando comparada com a oração de louvor ou de ação de graças. Ora, este tríptico diz-nos que, de acordo com Jesus, REZAR é PEDIR, é mesmo só PEDIR. Aprofundando um pouco, compreendemos então que PEDIR é próprio do filho. E é como Filho que Jesus REZA, e é, portanto, no lugar de filhos, e, por consequência, de irmãos, que Jesus nos quer colocar. Por isso também nos ensina a REZAR, dizendo: «Pai…». E também já sabemos que o Filho é aquele que recebe tudo do Pai, sendo o Pai aquele que dá tudo ao Filho.

12. Coloquemo-nos então no nosso lugar correto: o de filhos, que tudo recebem do Pai, e tudo partilham como irmãos. E compreendamos bem que, para recebermos tudo, não podemos possuir nada! Se possuirmos alguma coisa, já não podemos receber tudo! Impõe-se que temos de ser radicalmente pobres, filhos e irmãos! Só assim podemos começar a REZAR.

13. O contraponto musical de hoje vem do Livro do Génesis 18,20-32. Abraão é visto no papel do orante que negoceia com Deus a salvação de Sodoma. A sequência da intercessão de Abraão lembra o procedimento habitual nos mercados do Médio Oriente, em que o cliente faz sucessivas tentativas para baixar o preço do produto que pretende adquirir. Abraão faz seis tentativas: começa por propor 50 justos pela salvação de toda a cidade; passa depois para 45, depois para 40, depois para 30, depois para 20, finalmente 10. Vê-se que não havia nenhum, e a cidade, com todos os seus habitantes, é destruída (Génesis 19,24-25). Mas ficam desde aqui já em aberto duas coisas: a primeira é que, como referem os doutores do Talmude, não se pode deixar Deus sozinho, como fez Abraão, que se foi embora (Génesis 18,33); a segunda é que, para poder atender a oração de Abraão e a nossa, terá Deus de enviar ao nosso mundo um justo verdadeiro, «Jesus Cristo Justo» (1 João 2,1). É Ele, na verdade, o nosso Redentor e Salvador.

14. A página de São Paulo aos Colossenses (2,12-14), hoje lida e escutada, é outra vez sublime e espantosa, e, talvez, original, pois este agrafo do nosso batismo com o mistério da morte e da ressurreição de Cristo pode constituir uma originalidade paulina (ver também Romanos 6,3-5 e Ef 2,5-6). Fomos sepultados com Ele, «com-sepultados» (syntaphéntes: part. aor. pass. de syntháptô) no batismo, e com Ele ressuscitados, «com-ressuscitados» (synêgérthête: aor. pass. de synegeírô), e com Ele vivificados, «com-vivificados» (synezôopoíêsen: aor. de synzôopoiéô), linguagem fortíssima que enxerta a nossa vida na vida de Cristo. Recuperando dizeres semelhantes das Cartas aos Romanos e aos Efésios, ainda podemos aumentar a lista: com Ele crucificados, «com-crucificados» (synestaurôthê: aor. pass. de synstauróô), com Ele crescidos, «com-crescidos» (sýmphytoi), com Ele sentados na glória, «com-sentados» (synekátisen: aor. de sygkathízô). O título da dívida (cheirógraphon), o contrato escrito e assinado pelo credor e pelo devedor, nós não o podíamos cumprir; foi suprimido pelo credor, que o cravou na Cruz. Mais uma vez é verificável, e Paulo mostra-o até à exaustão, que a Cruz de Cristo constitui o chão e o critério da identidade cristã e apostólica.

15. O Salmo 138, que hoje cantamos, é «o canto do chamamento universal», como o define S.to Atanásio (séc. IV). O orante, voltado para o Templo (v. 2), como era usual fazer-se no judaísmo tardio (o islamismo fá-lo-á mais tarde em relação a Meca), sente e sabe que a sua oração não esbarra contra um céu cerrado, surdo e mudo, mas é registada e repercute-se no coração de Deus, que em caso algum abandona a obra das suas mãos (v. 8). Grande Ação de Graças deste orante (v. 1) e dos reis de toda a terra (v. 4). Nossa também.

António Couto


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