20/04/2007

Se sentou com delicadeza desanimada na extremidade da mala. O peso meio-médio ligeiro, galo e a sarja da calça não facilitavam muito. Abriu a cortina. O ar carregado da cidade baixa anunciava chuva. Olhou o relógio, ainda tinha tempo. Tentou mais uma vez, mais duas, mais outras. Abriu a tampa e a soltou com toda força, com algum cuidado para não manchar a camisa alva. Deu certo. Atenção senhores passageiros vôo com destino à São Paulo favor se dirigirem ao portão 2. O raio X da bagagem revelou uma massaroca escura quase imperceptível para o radar. Sou médico, disse sorrindo. A moça do outro lado sorriu um riso complacente e cansado. É minha, sorriu novamente se adiantando na esteira. A senhora mascando um chiclete olhou em volta, não devia ser com ela. Limpou o bigode com a palma da mão. É tão deselegante limpar o suor com a mão. Apalpou o bolso e removeu o suor da testa, com um pouco mais de classe. Apertou o cinto. Para mim um martíni, por favor. Sorriu e enxugou as mãos no lenço, agora, ocre. Olá, se lembra de mim? Sou amigo de sua mãe, estive em sua casa no mês passado. Apertou a mão do outro, a classe se via pelo lenço branco ajeitado caprichosamente no bolso do terno e a mão completamente seca. Seremos companheiros de poltrona, que ótimo. Sorriu ocre. E sua mãe, me conte sobre ela. O lenço, novamente. Ela vai bem. Folgo em saber. Senhor, seu martíni. Enquanto a voz do outro se perdia num matraquear que só teria fim quando o piloto descesse o trem de pouso, ele percebeu quando a gota rubra escorreu do alto do bagageiro e se misturou à bebida de cor amarelada dando ao cocktail em sua mão um aspecto laranja. Eu bebo o mesmo que ele, mais alaranjado, também. Não gosto da cor pálida do martíni. A comissária sorriu sem mover um músculo, sequer, da face. Sim, senhor.

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