um gesto com os dedos, e o ônibus aspirou uma multidão de “expropriados pelo sistema”. diria isso há vinte anos atrás, em altos brados, com a imagem de che estampada na camiseta cujo o vermelho já perdia a força. sem compreender que a própria imagem de che já figurava na prateleira dos produtos vendidos no supermercado do tal sistema. sorriu um sorriso amargurado e observava a tanta gente que teve pressa ao longo do dia e que agora só desejava um lugar vago na lotação. ele, o anjo da anunciação, embarcou junto. sem tempo para choro ou qualquer emoção. a lembrança de uma presença que agora não mais se fazia presente era no mínimo assustadora. a pasta que carregava, de pé, pesava menos que a incumbência anexa à má notícia que a médica, alva como um linho egípcio, lhe dera a algumas horas. no caminho para a casa, pensou em saltar, mas isso seria simples demais. talvez tudo fosse mesmo simples, só uma questão de tocar a sineta e descer. mas como o anjo da anunciação poderia abrir mão de levar a cabo a tarefa para a qual foi incumbido? agora sentado, afrouxou a gravata. passou a mão nos cabelos. um sem fim de carros, todos aparentemente apressados. estariam eles também portando alguma notícia intransferível? o motorista gritou, e aqui é importante salientar os maus bofes do sujeito. mas vale também ressaltar que às 19h30min, às vésperas do carnaval, o mau humor era compreensível, por assim dizer, necessário. portanto comentou (eufemismo), o motorista, que não dava mais para prosseguir viagem e que todo mundo deveria saltar. uma senhora, carregando sacolas, preferiu tirar satisfação. ah, dona, vá se queixar com o bispo ou com quem inventou o carnaval. eu preferi me juntar à massa de zumbis que desceu as escadas do ônibus em direção à rua. parado no ponto sinceramente não esperava que algo acontecesse. até mesmo porque não havia o que esperar, nem o que acontecer depois do que já tinha acontecido; quando minha falta de perspectivas foi invadida por um bando de palhaços, homens travestidos de mulher, bumbos, confetes e serpentinas: tinha mesmo que ser hoje, pra quando o carnaval chegar. amarrou a gravata na cabeça e, ele, o nomeado: anjo da anunciação seguiu abraçado a um morador de rua, ambos embalados pela (de)cadência bonita do samba.