26 de dezembro de 2006

FALANDO DE TRABALHO

O que é um profissional bem-sucedido? Aquele cara que trabalha todos os dias de nove às seis, veste terninho, passou num concurso público para fiscal de algum tribunal e ganha rios de dinheiro para ser um burocrata? Depois chega cansado e toma seu uisquinho, mas somente para relaxar.

ImageAlguns empregos servem de trampolim para coisas melhores. Outros são verdadeiras armadilhas: pagam muito bem, o que desencoraja as pessoas de procurar outras realizações. Conheço pessoas que passaram em concursos e que até gostam de seus empregos, mas são somente peças em uma engrenagem pós-moderna; não criam nada de novo. E passam anos, até mesmo décadas, desempenhando a mesma função, vivendo a mesma rotina. Suas vidas não mudam.

Talvez algumas pessoas até gostem de seus empregos repetitivos, mas estas, vejo com desconfiança – afinal, uma pessoa com pouco senso crítico é facilmente manobrável. Já eu, troco um bom salário por um bom projeto, algo em que criatividade e inventividade sejam os principais requisitos para se trabalhar. Desde que, é claro, isso possa me sustentar.

19 de dezembro de 2006

ESPAÇO

Relacionamentos podem sufocar. Eu sempre gostei de ficar sozinho no meu canto, estando namorando ou não. Preciso de um tempo para mim, para não fazer nada ou para pensar em outras coisas sem que haja alguém requerendo minha atenção.

O problema é que meus relacionamentos costumam ocupar esse espaço, esse meu tempo solitário. Não sei se a maioria das mulheres é assim ou se sou eu quem atrai, até porque costumo dar mais do que posso sustentar no início no namoro. Aquela empolgação da novidade faz com que esqueçamos de nós mesmos e doemos tudo, até o momento em que sentimos falta daquilo que cedemos.

ImageEntão vem o sufoco, aquela sensação de claustrofobia que me faz querer acelerar o tempo para dar a hora de ir embora. Começo a sentir falta de sentir saudade e acabo tendo de impor minhas condições para continuar o namoro. É autoritário, eu sei, mas é isso ou nada, pois eu freqüentemente desrespeito meu próprio limite.

E vem aquela velha ladainha: "você não é mais como no começo, me trata diferente...". As coisas nunca são como no começo, por que as mulheres não entendem isso? Elas mudam de forma, de cor, mas podem não mudar de intensidade. Só que isso dá trabalho e exige esforço de ambas as partes – e nem sempre vale a pena.

11 de dezembro de 2006

ENTRE AMIGOS

Eu nunca fui chegado a drogas. Não experimentei ecstasy, ácido, chá... mas até que gostei quando fumei maconha pela primeira vez. Nada que se comparasse ao efeito do álcool, mas a sensação era gostosa. Mas o interessante dessa história não é a maconha, mas as circunstâncias em que debutei na erva.

Minha primeira banda estava em vias de terminar, já que tínhamos expulsado o vocalista, que também era o compositor. O cara compunha bem, mas cantava mal e se recusava a entrar numa aula de canto. Além disso, era insuportavelmente metido (como aquela piada: quantos vocalistas são necessários para se trocar uma lâmpada? Só um, ele segura a lâmpada e espera o mundo girar em torno dele).

Bem, viajei com o baterista, sua namorada, o percussionista e alguns amigos deles para a Região dos Lagos. Era uma daquelas viagens à base de miojo e pastel de praia que hoje, sinceramente, não me vejo mais fazendo. Passávamos o dia na praia, depois ficávamos ouvindo Beatles em casa. Disse-me um amigo: "Beatlemaníaco é que nem flamenguista! Quer que todo o mundo seja também!".

ImageOs rapazes decidiram que era meu dia de experimentar maconha. Era início de noite e acendemos um baseado. A sensação foi gostosa, mas nada muito marcante. Só a fome depois é que foi considerável. Nesse mesmo dia, comecei a reparar uns olhares vindos justamente da namorada do batera. E eu estava muito carente, ainda mais com o fim iminente da banda e sem ninguém em quem me apoiar.

No dia seguinte, preparei um daqueles macarrões prontos da Maggi. Acho que era o al pesto, um dos meus preferidos na culinária prática. Sentei-me no sofá para comer e ela se acomodou no chão, logo abaixo de mim. Tomou o garfo da minha mão e começou a me dar a comida na boca. Entre uma garfada e outra, ela alisava minha perna, sorria... e o máximo que eu conseguia fazer para resistir era pedir socorro com os olhos para o baterista.

A essa altura, meu coração já estava disparado. Eu só pensava no quão errado seria ficar com ela, ainda que fosse depois e ele não soubesse. Mais tarde, chamei-o para conversar. "Cara, me ajuda, fala pra ela parar com isso". Ele me respondeu "Seu olhar procura o dela". "Difícil evitar, né? Me ajuda". Não discutimos, não brigamos, não abalamos nossa amizade.

Naquela mesma noite, o batera brigou com ela. Disse-lhe que aquilo, além de covarde comigo, era uma falta de respeito com ele. Eu soube porque um amigo em comum ainda estava acordado no quarto quando aconteceu.

O namoro não durou muito, nem havia como. Encontrei-a quase um ano depois andando no calçadão da praia de Copacabana. Fomos conversando até sua casa e, ao se despedir de mim, ela me deu um daqueles beijos no cantinho da boca. Deixei como estava, afinal, não valia a pena ir além disso. Nunca mais ouvi falar dela.

6 de dezembro de 2006

INICIATIVA

Eu devia ter uns treze anos, não me lembro. Fomos para um hotel em Nova Friburgo que tinha um bar com piano. Eu gostava de me sentar lá com o bar vazio e tocar para mim mesmo. Mas é impressionante como a música atrai as mulheres, elas ouvem, chegam perto, querem ouvir mais, saber o que está por dentro daquela pessoa que toca.

Todos os dias eu ia lá, tirando músicas de ouvido e torcendo para que as pessoas não prestassem atenção em mim. Até que um dia, surgiu uma garota com umas revistinhas de banca, daquelas com cifras e letras que nem sempre estão corretas. Era início de tarde e estava começando a esfriar.

ImageConversamos sobre música, escolhemos o repertório. Eu tocaria para ela cantar, mas ela me pediu para cantar junto. Com um pouco de esforço, tentei estabilizar minha voz, que estava em franca metamorfose. Eu tocava e sentia seu cheiro, tentava não me desconcentrar. Ela chegava perto, encostava e eu nem sabia o que fazer. Iniciativa foi o que mais me faltou na adolescência e o que mais me frustrou, me deixando grandes lacunas que jamais viriam a ser preenchidas.

Já as mulheres, essas sabem desde cedo. Ela me abriu a revistinha na música Garotos, do Leoni (o nome certo é Garotos II (o outro lado)). Essa música sempre acaba comigo e, provavelmente, com vocês também, caros leitores. Aquela letra, aquele perfume e eu imaginando que seria mais uma garota que poderia ter sido e não foi por falta de coragem. Eu estava certo.

30 de novembro de 2006

APARELHO

Eu já tinha dezoito anos. Engraçado que essa idade seja considerada tardia para essas coisas acontecerem. Existe uma pressão social tão forte que acaba parecendo uma missão.

Eu tinha viajado para uma cidade de praia do Rio de Janeiro com três amigos (um vocês já conhecem), a namorada de um deles e uma amiga dela. Elas ficaram em outra pousada porque o pai delas era meio rigoroso (como se isso adiantasse alguma coisa). A amiga era da minha idade, tinha olhos claros, era muito bonita, tímida e usava um aparelho fixo. Adolescente que eu era, fiquei "apaixonado" por ela num instate. Mas havia um problema: um de meus amigos era a fim dela fazia um tempo. Como sou muito ético nessas questões, resolvi ficar no banco enquanto ele tentava sua sorte.

Dois dias depois, chegou outra amiga delas, essa não me atraiu em nada, mas percebi o que provoquei nela. Deixei para lá.

O tempo ia passando e nada do meu amigo chegar na garota. Perguntei a ele o que ele estava esperando, disse-lhe que não ia adiantar ficar cercando, ela já sabia do seu interesse, agora era a hora de partir para dentro. Ele me disse "Água mole em pedra dura..." e eu completei "tanto bate até que molha! Não adianta ficar esperando". Depois de um tempo ele disse que iria falar com ela. "Amanhã ou vai, ou racha!".

Rachou.

Ele mesmo chegou para mim e falou que o caminho estava livre e que eu podia tentar. Eu já tinha percebido que ela estava interessada em mim, mas não sabia quanto. Eu era muito, mas muito ruim de jogo. Nem parecia tão tímido, ninguém diria que eu nunca havia beijado uma garota na boca.

Voltamos para o Rio lado a lado no ônibus e... nada. Combinamos cinema com dois dos amigos e... nada: cheguei atrasado e acabamos indo lanchar! Novamente cinema (estava passando um filme com o Mel Gibson, "O preço de um resgate") e, finalmente, nos olhamos. É incrível o trabalho que um escuro de cinema nos abrevia: não é preciso falar nada, só sentir o clima.

Image Posso dizer que até hoje foi o melhor beijo da minha vida. Foi um misto de "bem-vindo ao clube" (sabe o que é quase todos os seus amigos já terem ficado e você não?) com "foda-se o clube, eu quero é aproveitar esse beijo" e o fato de eu finalmente saber que era correspondido e, pela primeira vez, consumar essa atração.

Senti seu gosto e o de seu aparelho e nunca me esqueci da sensação. Tanto que até hoje eu procuro aquele ferrinho nos beijos que dou por aí.

24 de novembro de 2006

PONTO DE NÃO RETORNO

ImageExiste um momento na relação em crise em que se chega em um "ponto de não retorno". Para quem não sabe, o "ponto de não retorno", ou "point of no return" é o ponto em que uma aeronave não tem mais combustível para retornar a sua base (em missões suicidas, por exemplo, é o limite em que podem ser abortadas), ou, nesse caso, o ponto no curso de uma ação além do qual não é possível revertê-la.

O que acontece é que, muitas vezes, uma das partes envolvidas testa o amor da outra para ver quão verdadeiro ele é, às vezes por desconfiança, às vezes por vaidade.

As brigas tornam-se constantes, assim como as reconciliações. Uma relação pode chegar a terminar e voltar sem danos irreparáveis. Mas sempre existe aquele ponto em que se pensa: "eu já sei que não vai dar certo. Quanto tempo mais isso vai durar?". O amor ainda existe, mas o sonho de dividir sua vida com aquela pessoa fica tão próximo de se tornar um pesadelo que acaba por minguar.

E espera-se que o final não seja tão demorado nem tão traumático. Espera-se apenas que o amor acabe e a indiferença ocupe o seu lugar.

21 de novembro de 2006

FAGOCITOSE

Fagocitose Era a primeira vez que eu saía após um namoro de um ano e pouco e durante esse tempo, meu nível etílico se manteve muito baixo. Saí com alguns amigos para uma boate da qual eu já era habitué antes de começar a namorar.

Não havia muitas pessoas interessantes e a única pessoa que parecia disponível para mim era uma mulher muito, mas muito feia e gorda, amiga de uma amiga minha. Esclareço aqui que gosto de mulheres cheinhas, até mesmo gordinhas, mas nada que se aproxime da obesidade mórbida daquela criatura. Não fui antipático, mas também não demonstrei interesse.

A noite avançava sem progressos e eu sorvia hi-fis na esperança de alguma melhora de perspectiva. As horas passavam e eu, cansado, resolvi sentar um pouco numa poltrona no segundo andar, semi-consciente.

Foi quando começou o processo de fagocitose: aquele ser amorfo me escalou e me tascou um beijo. No início ofereci resistência, mas acabei sucumbindo. Já na pista de dança, sentados em uma cadeira, sem a menor discrição eu levantava sua blua e beijava aqueles seios monstruosos (quem viu Zuckerbaby? Era algo assim). Ela tinha boa parte do corpo tatuada, umas pegadas de gatinhos e outros desenhos dos quais eu não me lembro.

Pagamos a conta e saímos. Em princípio, eu só queria levá-la para casa e esquecer aquela noite, mas ela insistiu que eu subisse. Subimos e, quando me dei conta, já estava em seu quarto vestindo apenas minha camisa.

Mas se não foi a minha companhia, foi o álcool que me deixou completamente meia-bomba. Já cansado, eu a penetrava sem muita convicção. Tentei até alternar para o sexo anal para ver se surtia efeito, mas ela não deixou. Exausto, desisti.

Conversamos amenidades, mas eu não queria muito papo. Já mais sóbrio, me senti meio usado e só queria ir para a minha casa. O dia ameaçava raiar. "Preciso ir, já vai amanhecer", eu disse. "Por quê? Fica mais um pouco!". "Não. Coisas ruins acontecem quando amanhece" – me saí com essa. Vesti minha roupa e fui para casa me meter debaixo do chuveiro.

Na dia seguinte, me ligou nossa amiga em comum. "Já tô sabendo de ontem! Ela me disse: 'Muito gostosinho esse seu amigo'", contou. Bem, pelo menos a noite foi boa para alguém.

16 de novembro de 2006

DEZESSEIS ANOS

Era o aniversário de dezoito anos do meu melhor amigo e decidimos comemorar de uma maneira diferente. Havia (e ainda há) uma casa de peep show em Copacabana com shows individuais, coletivos e filmes pornográficos em cabines. Era entrar, comprar as fichas, escolher a cabine e assistir. Se o voyeur quisesse fazer mais alguma coisa, estava a seu alcance um rolo de papel toalha.

Bem, a maioria de nós tinha apenas dezesseis e, teoricamente, não poderia entrar. Mas naquela época, o juizado de menores não era tão rígido e a repressão a esse tipo de estabelecimento era menor em relação à entrada de menores. Eu não sabia muito o que fazer. Comprei as fichas e entrei numa cabine do show coletivo.

Achei aquilo bizarro. Uma mulher ia tirando a roupa enquanto uns oito caras, cada um em uma cabine, ficavam espiando. A individual deveria ser melhor!

Eram três as cabines. Você escolhia a mulher pelo número e podia dar instruções para ela através dos furinhos que havia no vidro. Coloquei as cinco fichas. Não sabia muito o que fazer, aquela mulher ali para mim e eu, virgem, olhando. Terminado o "show", fiquei um pouco frustrado. Nem me deu tesão, fiquei mais nervoso do que qualquer outra coisa. Saímos.

Não me lembro bem por onde seguiu a noite, talvez praia, bar, algum álcool... mas, madrugada adentro, sobramos eu e o aniversariante. Andamos até a Av. Princesa Isabel (núcleo da putaria da Zona Sul no Rio). Entramos em uma boate de strippers chamada Scotch Bar.

Aquilo era muito melhor do que o peep show. As mulheres estavam ao meu alcance, elas mesmas cuidavam de se encostar em mim! O cheiro de perfume barato se misturava ao de cigarro gerando um aroma típico do meretrício carioca.

Eu circulava com cuidado, pois tinha um dedo da mão quebrado com uma tala e não gostaria de sair esbarrando com ele nas pessoas. Bebi uma caipirinha para me soltar. Sabia que podia comer qualquer mulher do lugar se tivesse dinheiro, mas achava que com um bom papo, poderia conseguir de graça.

Ensaiei umas conversas, o tempo foi passando, os shows também... meu amigo estava havia horas conversando com a mesma puta. Como podia perder todos os shows conversando? Até que olhei e estavam se beijando (!). "Acheava que puta não era para beijar, mas para comer!", pensei. Talvez a regra fosse outra quando era de graça.

Image



A madrugada avançava e, finalmente, ele me chamou. "Vou levar ela prum hotel aqui, vc espera lá no hall", me informou. Achei isso melhor do que voltar para casa. Fomos para o hotel, fiquei esperando algum tempo junto com outros "casais". Um dos caras morava o meu prédio e mandou a puta me dar atenção.

Ele até que foi rápido. Quando saímos, ele me contou: "Dei duas em quinze minutos". Provavelmente era verdade. Chegamos em sua casa de manhã, ele cheio de chupões no pescoço, dizendo que havíamos ido ao Fun Club, uma boate caída no shopping Rio Sul.

Dormi um pouco e voltei para a minha casa. Definitivamente, eu precisava de um banho!

10 de novembro de 2006

AMIZADE

ImageComeçou em 1996. Ela havia passado mal em julho, mas a notícia só veio em outubro: era leucemia. Em princípio, era de um tipo mais leve, tudo ia ficar bem.

Recebi a notícia com receio. A palavra mete medo na gente. Fui visitá-la onde estava internada, na Tijuca. Ela parecia bem, tinha começado a quimioterapia. Seria um ano de tratamento, sendo que os primeiros meses internada no hospital.

Tornei a visita habitual, às vezes até filava um pouco do seu almoço. Ela parecia apreciar bastante, ficava sorridente e conversava bastante comigo. Um dia, descobriu que ficara diabética: a quimio assassinara seu pâncreas. Na verdade, ele resistia com umas poucas células, o que lhe deixava uma esperança de recuperação em alguns anos ou décadas. Chorou um pouco.

Cortou o cabelo loiro bem curto para o choque ser menor quando começasse a cair. Ela dizia: "Só parece terrível, mas não é terrível". Eu acreditava, e ela também.

Nossa história havia sido conturbada. Quando estávamos na sétima série, ela me jogou com a cadeira de costas no chão. Coisa de moleque, mas tive muita raiva. A raiva passou com o tempo e nos tornamos amigos.

Por tabela, fiquei amigo de seu namorado, que a sacaneava de todos os modos possíveis. Ela vinha chorando conversar comigo, dizendo que estava cansada daquilo tudo. Foi sair da escola e eles terminaram.

Nos encontrávamos sempre no meio de outros amigos. Viajamos juntos para São Paulo com um grupo grande. Meus amigos queriam nos ver juntos. Acho que até tive oportunidades, mas minha timidez não colaborou.

E agora, lá estava ela, numa cama de hospital, dizendo que tudo ficaria bem. Quando ela vacilava, era eu a dizer. "Não sei...", retrucava.

Poucos meses depois, saiu para fazer tratamento em casa. Quase um ano se passou. Seu cabelo caiu, mas continuava linda. Fizemos cursinho junto, em filiais diferentes, mas nos encontrávamos nas aulas de fim-de-semana. Soube que ela passou por momentos muito difíceis, enjôos, mas tudo era passado. Em breve seu cabelo voltaria a crescer.

Nos afastamos. Soube, tempos depois, que o câncer voltara e, agora, precisaria de um transplante. Quis visitá-la, mas não consegui. Passaram-se umas semanas e recebi a notícia: pneumonia, causada pela baixa imunidade infligida pela quimioterapia. Não fui ao enterro, mas fui a uma cerimônia religiosa dias após ver seus pais.

Saí de lá com seu ex-namorado. Ele estava inconsolável, e, acima de tudo, culpado por tudo o que havia feito com ela. Conversamos, fomos a sua casa e acendemos um baseado. "Seu sentimento por ela traspassava a amizade, não é?", me perguntou. Ele não entenderia meu sentimento por ela. Para mim, bastava saber que ela estava bem e feliz, do meu lado ou não. "Sim", respondi.

7 de novembro de 2006

CARNAVAL (parte 2)

ImageRealmente a noite prometia. Fomos a sua casa na Tijuca sem muita conversa no carro. Quando já sabemos o que queremos, o papo é desnecessário.

Ela me levou a seu quarto. Morava somente com a irmã, o que tornava tudo mais fácil. Me deixou esperando algum tempo enquanto ia ao banheiro. Já sentado em sua cama, vi, em sua mesinha, uma espécie de creme vaginal, provavelmente para alguma inflamação ou infecção. "Começamos mal", pensei. Preferi esquecer aquilo, pois esse tipo de coisa não quer dizer nada.

Depois de uns vinte minutos, ela volta, cheirando a sabonete. O que é melhor do que você sentir um cheirinho de sabonete numa mulher? Consegui me concentrar de volta. Camisinhas sabor morango? "É, meu ex deixou aqui". Putz! Foda patrocinada pelo ex... ela devia estar solteira havia pouco tempo mesmo, ou não tinha muita noção de sexo casual.

Tirei a roupa e ela, apenas a parte debaixo. Eu gostava do tipo de seu corpo, mais cheinha e muito branca, como uma pintura. Ela provou a camisinha de morango como se deve fazer, mas não emitiu qualquer comentário a respeito.

Parecia estar gostando quando estava por cima de mim. Ou havia algo de estranho ou eu não era experiente o suficiente, mas as posições não pareciam muito, por assim dizer, ergonômicas. Não havia maneira de ficar confortável! E, para piorar, a única posição em que ela parecia poder gozar acabava com a minha perna: ficávamos de lado sobre um colchão ortopédico e eu só sentia aquela madeira me machucando.

Ela gozou tanto que eu cheguei à conclusão de que estava pensando em outro (sei quando não mando bem). Eu, por minha vez, meio que gozei no automático. Não foi muito bom. Não foi nada bom. Mas foi melhor do que nada.

Voltei para casa de manhã parecendo que tinham batido na minha perna com um taco de beisebol.

Voltamos a nos encontrar no fim-de-semana seguinte e, novamente, a mesma posição, a mesma dor. Como não gosto de desaparecer, liguei para ela dias depois e ela estava de saída. Ficou de ligar quando retornasse. Semanas mais tarde, encontrei-a numa boate. "Você sumiu!", ela disse; "Você me disse que ligaria quando chegasse em casa. Já chegou?", arrematei, tendo certeza de que nada mais aconteceria entre nós.

28 de outubro de 2006

CARNAVAL (parte 1)

Foi o primeiro Carnaval em que eu resolvera não viajar. As viagens eram divertidas, mas pensei que talvez ficar no Rio de Janeiro pudesse ser mais proveitoso – você sabe, cheio de turistas, gringas e tal.

ImageSaímos para uma boate, curtir um rock and roll. Afinal, aquela história de samba já estava me enchendo o saco. Enquanto dançávamos, notei que havia uma garota que não tirava os olhos de mim. Criatura típica da noite underground carioca: minissaia preta, botas, cabelo chanel ou coisa assim, sexy, muito sexy. Bonita, nada deslumbrante, mas bonita. Eu correspondia de vez em quando com uns olhares, mas, como a noite estava começando, resolvi ir devagar.

Não adiantou. Quando ameacei sair do lugar, ela me puxou para dançar. Evidentemente não se passaram dois minutos e estávamos nos beijando na parede, ao lado da caixa de som. Como ela parecia muito interessada, logo fui colocando minha mão por baixo de sua saia.

E o que aconteceria entre este momento e o sexo? Nos filmes, esse ínterim é omitido, a cena seguinte é os dois na cama. Como seria? Motel, casa, carro... isso me instigava.

Fomos ao bar e nos apresentamos devidamente. Ela perguntou quantos anos eu tinha e eu arrisquei sua idade: 25. Acertei. Dois anos mais velha do que eu. Subimos com um Hi-Fi e uma Cuba. Lá em cima, ela disse que mentira, tinha 31 (uau! Uma mulher com mais de 30 anos!). Veio com uma história de que passou doze anos casada (ou eram sete?) e que nunca havia ido para a cama com alguém que conhecera na noite. Aliás, uma das frases que eu mais ouvi foi "eu nunca fiz isso antes", fosse para o que fosse. Sentamos e ouvimos tocar Divinyls com "I touch myself". – Eu adoro essa música, e começou a passar a mão sobre seu corpo.

Seria uma noite de glória quando saíssemos dali.

(Continua)

23 de outubro de 2006

AO LIXO COM AS FLORES

ImageVou contar um dos episódios mais constrangedores da minha vida. Havia essa garota que fazia um curso comigo. Ela era muito interessante, cheia de atitude, e fazia meu tipo, branquinha com cabelos negros e lisos (aliás, eu tenho muitos tipos).

Nas aulas, eu não percebia um maior interesse dela por mim, até porque, apesar de ser pouco mais velho, eu estava em outra fase da minha vida, mais resolvida, enquanto ela ainda lutava para passar nas provas da faculdade de Direito. Até onde constava, ela estava sozinha e o caminho estava livre.

Resolvi tentar uma estratégia cinematográfica: mandar um buquê de flores com um cartão anônimo no dia dos namorados. No cartão, apenas uma frase, de uma música que Paul McCartney havia lançado naquela época: From a lover to a friend. Na minha cabeça, bastaria para ela entender que era um amigo que não tinha oportunidade para dizê-lo pessoalmente e, talvez, ela topasse o jogo.

No dia seguinte, mandei um email também anônimo perguntando se ela havia gostado da surpresa. Tal foi a minha quando recebi uma resposta estúpida e grosseira, dizendo que nunca namoraria alguém que não tinha coragem para se declarar pessoalmente.

Poucos dias depois, entendi o motivo: ela estava começando um namoro e aquelas flores devem ter atrapalhado bastante. Ainda assim, ela não deveria ter ficado feliz por ser desejada?

10 de outubro de 2006

A FASE DO LARGO ESPECTRO

ImageCedo ou tarde, o homem chega no que eu chamo de "fase do largo espectro". É algo intermediário entre o desinteresse pelas adolescentes e pós-adolescentes e o fascínio por alguém mais experiente e madura.

Em resumo: é quando considemos levar tanto a mãe quanto a filha para a cama. Para alguns, essa fase vem mais cedo; para outros, ela demora um pouco. Mas tenho a sensação de que, em mim, ela nunca mais vai embora.

Porque tanto a inexperiência das mais jovens, principalmente quando acham que sabem demais, quanto a habilidade e a permissividade das quarentonas, que não têm barreiras ou preconceitos, são fascinantes: ou estamos ensinando, ou aprendendo.

30 de setembro de 2006

VIRGINDADE

A minha eu perdi com dezesseis anos com uma puta, mas não é esse o assunto desta crônica. Quero falar de algo que aconteceu cinco anos depois, minha primeira experiência sexual, por assim dizer, gratuita.

ImageEla tinha a minha idade, era virgem e mal tinha namorado uma vez. Não era bonita nem atraente, na verdade, não tinha nada de mais, pelo contrário. Na época, eu estava tentando sair com uma amiga dela, mas na hora H, pesava a consciência: era ex-namorada de um amigo meu.

Certo dia, ela me disse a seguinte frase: "Você quer transar com alguém e eu quero perder a virgindade. Quer fazer um acordo?". Eu já sabia que ela gostava de mim, mas nunca esperava algo assim. Desconversei, mudei de assunto e não falei mais nisso.

Passou algum tempo e, num momento de extrema carência, acabei dando um beijo nela. Passou mais algum e, em outra época dessas, dei outro, outros, fiquei sozinho com ela na casa de uma amiga e... bem, não consegui. Não tinha tesão suficiente, a situação era ridícula e eu estava quase fazendo sexo por obrigação.

Certo dia, fui para sua casa. Tiramos nossas roupas, coloquei a camisinha, e tentamos, tentamos... já me sentia mal por não conseguir. A pior das sensações de se ir para a cama com alguém é quando o fazemos pela honra. Até que ela forçou a barra e ficou por cima. Deu certo. Diz ela que doeu, mas não muito, e até teve um orgasmo uma hora depois (demorei muito e não cheguei ao meu).

Foi uma das piores experiências sexuais que tive, e, por culpa, fiquei com ela mais uns cinco meses. Fiquei aliviado quando terminou, mas ela surtou e começou a inventar coisas.

Algumas lições: tirar a virgindade, só se estiver com muito tesão, até porque a camisinha atrapalha – e muito; a mulher era louca por mim, literalmente. Chegava a ter mais de vinte orgasmos numa noite e eu sabia que eu não era tão bom assim; preciso descobrir uma forma de não ter raiva das mulheres quando termino um relacionamento.

13 de setembro de 2006

... NEM EM PENSAMENTO

ImageA definição de "trair" é muito complicada e também volátil. Quando uma mulher lhe pergunta se você se masturba pensando em outras, você diz que não, evidentemente. É a maior mentira, mas para você, pensar em outra não é trair. Entretanto, ela discorda.

Quantas vezes um homem precisa pensar em outra quando está na cama com uma mulher, seja a sua ou não? E quantos inconvenientes isso evita (já viu a reação de uma mulher quando o homem não consegue gozar?)?

Tomemos o exemplo da pornografia: todo homem gosta de pornografia, mas poucas mulheres se excitam com esse tipo de coisa. E é evidente que o estímulo visual não o remete à sua namorada ou esposa, mas apenas à própria situação do filme – e mesmo assim, ele, quando confessa assistir, precisa dizer que pensou nela.

Olhar para outras, que mal há nisso? Existe uma grande diferença entre pensar em outras mulheres e agir para que elas pensem em você até que isso chegue às últimas conseqüências.

Trair em pensamento não é trair. A traição é quando esses pensamentos são contados para a companheira, pois somente então esses pensamentos se tornam reais.

22 de agosto de 2006

MENTIRAS HONESTAS

ImageElas existem e talvez sejam até a maioria das mentiras que dizemos todos os dias. Mentimos sempre, porque se não fosse assim, não sobreviveríamos. Sei que o tema está meio desgastado e que essa é a desculpa dos mentirosos mais caras-de-pau, mas podemos fazer estragos muito maiores falando sempre a verdade.

Mentir compensa e, muitas vezes, falar a verdade é ser desonesto. Para entender essa lógica, é necessário saber que honestidade e verdade são coisas distintas. Ligadas, porém distintas.

Tomemos como exemplo um homem que traiu sua esposa sob circunstâncias incomuns, como uma briga conjugal seguida de um porre ou coisa assim. No dia seguinte, ele é a pessoa mais arrependida do mundo e decide contar para ela o que aconteceu. Honesto? Não, ele simplesmente não agüentou a culpa e decidiu jogar sobre ela a responsabilidade de sua punição. Se ele decide não contar, quem precisa lidar com o fato é ele mesmo e, assim, ele não pune sua mulher com a verdade.

Em outros casos como elogios não espontâneos e compromissos que se inventam quando não se quer encontrar alguém (imagine só: "Não vou sair com você, não estou com saco para te ver hoje"), por exemplo, a mentira é absolutamente necessária para não destruir as relações sociais.

Mentimos porque amamos, mentimos porque nos importamos com os sentimentos dos outros, mentimos porque queremos parecer melhores, e, às vezes, mentimos porque somos mentirosos.

A mentira, meus caros, é a base da sociedade.

8 de agosto de 2006

GRANA, PÓ E FERRO

Três coisas dão dinheiro nesse planeta: drogas, armas e... dinheiro. Hoje li que o lucro do Bradesco bateu três bilhões de reais no semestre. Me corrija se eu estiver errado, mas a fonte do dinheiro é, basicamente, empréstimo a juros escorchantes, taxas, investimentos em títulos do governo e talvez uma ou outra fontes verdadeiramente produtivas. Ou seja, pura concentração de renda.

Esse é o tripé que, hoje, sustenta a economia mundial. Armas e drogas se consomem no próprio uso e geram um círculo vicioso em que sempre são necessárias. O dinheiro precisa ficar parado para gerar dinheiro, a economia nas mãos do mercado financeiro.

Image
Caminhamos a passos largos para um abismo e, quando começarmos a cair, talvez não consigamos nos segurar.

24 de julho de 2006

INFELICIDADE

ImageA gente se acostuma com ela. Começa com uma desilusão, quando percebemos que não conseguiremos seguir nossos planos de futuro. E abrimos mão de nossos princípios para termos uma vida estável. Acordamos todos os dias às oito horas num apartamento de fundos onde a luz não entra, mal temos tempo para um café da manhã, esquecemo-nos de apreciar o sol no caminho e chegamos em outro caixote para sermos empilhados em nosso ambiente de trabalho. E trabalhamos para enriquecer alguém que nem conhecemos com atividades que não vão trazer nenhum benefício para nós ou para a humanidade. Oito horas, um terço do dia. Saímos no escuro e só temos tempo para jantar e ficar grudados na televisão até cair de sono.

O amor no casamento acaba e não temos forças para nos separar. Ficamos juntos por causa dos filhos sem saber que pais infelizes transformam os filhos em crianças tristes. Traímos por não agüentar tanto desamor, apaixonamo-nos por nossas amantes, mas não temos coragem para assumir. E tornamos nossas amantes também infelizes com promessas que somos incapazes de cumprir.

Arrependemo-nos de tudo que deixamos de fazer, de metade do que fizemos e tentamos nos realizar em nossos filhos, dizendo-lhes como viver sua vida. Sonhamos com carrões, apartamento no Leblon, festas e tudo que temos é um copo de uísque.

Morremos, velhos, bem velhos, tentando lembrar em que ponto nossa vida se transformou nesse longo vazio.

13 de julho de 2006

TREM

Foi uma experiência nova. Eu estava ansioso para embarcar, mesmo sabendo que, logisticamente, era a pior opção. Mas optei por ganhar seis horas da minha vida em vez de perder dez. Eu perderia algumas no ônibus de Vitória para o Rio, mas poderia dormir na viagem.

Image
O trem atrasou meia hora, eu não sabia nem como era o embarque, mas foi tudo muito simples. O vagão executivo era como um ônibus, duas cadeiras de cada lado, bagagem em cima, e lembrava o metrô, com seu teto alto e seu corredor comprido.

Demorei para tomar coragem e passear entre os vagões. Acanhado, fui conhecer o vagão restaurante. Mesas para quatro, confortáveis o suficiente. Pedi uma refeição. Aliás, tem duas coisas que eu preciso conhecer em qualquer lugar novo: a comida e o banheiro. Não me pergunte por quê. A refeição era honesta, nem muito boa, nem ruim. Comi com vontade, tentando não apanhar muito dos talheres de plástico.

Voltei para o meu assento. Havia muitas crianças em volta superexcitadas com a viagem. Eu me senti como uma delas e descobri que ainda estou longe de ficar velho. Lembrei-me da minha primeira viagem de avião, incrível. O avião perdeu a graça e virou algo tedioso, a não ser pelo uísque e pelo suco de laranja. Aliás, minha última viagem de avião foi tão desconfortável que nem a mistura de uísque com Rohypnol me fez dormir.

A tarde foi caindo, resolvi me aventurar em mais um passeio retilíneo. Descobri uma área para fumantes que parecia ser o melhor lugar do trem, com a parte superior da porta aberta. Já estava escuro e uma névoa tomou conta do vale. Parecia um mar com montanhas ao fundo. As crianças brincavam de fazer um filme na câmera do celular, lembrei do "Assassinato do expresso do Oriente", de Agatha Christie.

Fiquei ali contemplando a Lua e as estrelas por mais de uma hora. O vento estava frio, mas não era cortante. Voltei para o meu lugar. No final, já estava ansioso por chegar a Vitória. Foi uma pequena aventura, sem riscos e com uma emoção singular: o fascínio pelo novo.

12 de julho de 2006

FANSTASIA

De todos os relacionamentos que tive, duradouros ou não, e de todos os que deixei de ter (a maioria), pude constatar uma coisa: a fantasia é sempre muito melhor do que a realidade. E, assim, é impossível evitar a frustração.

ImageImagina só, aquela sua amiga em quem você está de olha há tempos, só pensando como seria. Já se trancou várias vezes no banheiro pensando nela, esperando apenas pela oportunidade, até que ela chega. Peraí... o corpo que eu tinha imaginado não era assim... ela se mexia diferente... eu tinha mais tesão pensando nela do que transando com ela...

Isso já aconteceu comigo, pode ter certeza. E não foi só uma vez. O macete é separar uma coisa da outra. Afinal, o sexo só fica perfeito com intimidade e isso leva tempo. Algum, não muito. Depois de um tempo, não há mais necessidade de fantasiar. Apenas planejar a próxima noite.

7 de julho de 2006

SOFÁ

Era uma noite perdida. A madrugava avançava e parecia que mais nada de bom poderia acontecer. E, para piorar, ele havia encontrado a irmã de uma ex-namorada que inventara uma história ridícula de que ele estaria enviando emails pornográficos para sua melhor amiga.

Desceu para comprar uma vodka. Preferiu a sueca Absolut à brasileira Smirnoff. Achou que, depois de tudo, não merecia uma ressaca no dia seguinte. Subiu para a sala de jogos e bebeu devagar, deixando o gelo derreter. Àquela altura, não era fácil beber um copo com metade de álcool etílico.

Chegou uma garota na máquina de pac-man. Baixinha, um pouco feia, com uns seios descomunais. Tudo bem, seria um prêmio de consolação para aquela madrugada dispensável. Ele começou a explicar os macetes do jogo, mas logo ela perdeu o interesse e cedeu o lugar para uma amiga – e que amiga! Uma morena, magrinha, linda, vestia uma saia jeans e blusa amarela. Parecia bem mais interessada no pac-man. Na verdade, não exatamente no pac man. Ela se deixou ensinar por um tempo e deu uma pausa.

– Qual é o seu nome?
– (...) E o seu?
– (...)

Um beijo na bochecha e outro na boca. Começaram a se agarrar naquela parede, em frente à máquina. "Ô pequimen!", gritou um cara. Decidiram procurar outro lugar para ficar. Chegaram à sala de estar (sim, a boate tinha uma sala de jogos e uma sala de estar) e encontraram o sofá vazio. Sentaram-se e continuaram a se beijar.

Logo, os beijos não eram mais suficientes. Ele abriu o sutiã sem que ela sequer percebesse e levantou sua blusa. Começou a beijar seus seios sem se importar com quem estava na sala. Sua mão foi deslizando por baixo da saia e ela apenas segurava seu braço. Quando uma mulher segura o braço de um homem que corre por baixo de sua saia, ela está indicando que ele pode avançar um pouco mais. Caso contrário, ela o empurraria para fora.

Àquela altura, seus dedos já a penetravam como queria e a mão dela já o masturbava com vontade. A única coisa que ela disse foi "Como isso é gostoso!" e, de resto, apenas gemidos. Quando ela teve um orgasmo, ele decidiu parar. Suas mãos doíam e ele cumprira sua parte.

Deitaram-se no sofá como se tivessem acabado de fazer sexo. Só então ela se tocou de que seu sutiã estava aberto. "Você é bom, hein, nem percebi", disse. Ele se limitou a sorrir. Foi quando um desconhecido surgiu com uma chave dizendo ser de seu apartamento.

– Podem ir lá para a minha casa, já estão começando a incomodar. O segurança quase tirou vocês da boate.

Só então eles se deram conta do que havia acontecido. Nem assim se importaram. Desceram, saíram, ela pegou um táxi e ele, seu telefone. Ainda se falaram algumas vezes, saíram uma outra, mas nada mais aconteceu. Ficou tudo na fantasia.

Image

4 de julho de 2006

W. O.

Quando eu tinha 12 anos, conheci uma garota. Na verdade, ela me conheceu no aniversário de uma amiga. Eu estava tocando piano e ela, assistindo, quase se esparramando pelo instrumento. Eu a olhava e achava que ela iria derreter a qualquer momento. Eu era da sétima série e ela também, mas estudávamos em salas diferentes na mesma escola.

No dia seguinte, a melhor amiga dela veio me contar que ela tinha adorado me ver tocando e que tinha lhe falado maravilhas sobre mim. Eu, que não tinha reparado tanto da primeira vez, comecei a olhar para ela no corredor da escola. Todos os dias, a gente se cruzava, se encarava, sorria, e passava. Meu coração acelerava, parecia que a voz ia embora.

ImageO ano foi passando, a gente se olhava, depois, ela me olhava de vez em quando até que só eu olhava. No ano seguinte, eu ainda pensava nela, gostava de olhar de longe no pátio, nas escadas. Até que ela começou a namorar. Ainda passei um tempo sonhando até aquele amor platônico se dissipar de vez e ser substituído por outro, ainda que mais fraco.

Foi o meu primeiro amor que teve chance de começar. E eu perdi por W. O.

28 de junho de 2006

SOBRE CARROS, ARMAS E OUTROS OBJETOS FÁLICOS

O que há neles que nos faz sentir tão importantes? Diz-se, na psicanálise, que objetos como esses representam um poder que, normalmente, não temos, mas que desejamos ter. Extensões do pênis, o primeiro objeto de poder.

Outro dia, vi um amigo meu, daqueles que não comem carne porque têm pena das vacas e que são metidos a politicamente corretos (na medida do suportável), falar de como ele queria atirar com uma arma carregada. E o outro, o dono da arma, que já teve carrão e sabe dar porrada como ninguém, disse que um dia o levaria para um lugar onde pudesse atirar.


Image
Não consigo ver o que há de tão sedutor em algo que é feito somente para destruir, como uma arma. Nem a emoção que é dirigir um BMW no asfalto esburacado do Rio de Janeiro correndo o risco de se ter uma daquelas apontada para si e perder tudo de uma vez.

Preciso confessar que fiquei desapontado. Não que eu seja exemplo de alguma coisa, mas pela incoerência. Não gosto de armas; e carros, para mim, têm que ser seguros e confortáveis. E, se eu me preocupasse com a vida das vacas – coisa que não acontece –, no mínimo me preocuparia com a das pessoas.

25 de junho de 2006

ÁLCOOL ETÍLICO

Etílico. Por que se não o for, o efeito pode ser outro. Aliás, só outro dia me dei conta de que o colesterol é um álcool. Bem, isso não tem nada a ver com o que eu quero dizer.

ImageAcabo de chegar consideravelmente alcoolizado e, nesse estado, consegui fazer bons amigos (não se preocupem, não dirigi). Não pelo álcool em si, mas pelo que ele me proporciona: uma conversa franca, sem freios, sem sublimações, sem medo de perguntar e responder. Fiz amigos hoje.

E o mais engraçado é saber que, ainda que essas amizades não perdurem, elas serão sinceras. Como as conversas que tive nesta madrugada.

Sinceramente, só não bebo mais porque a sensação de se ter o quarto girando em torno de sua cabeça não é nada agradável. E eu bem sei o que vou sentir amanhã.

Pobre de quem acha que beber é fugir da realidade ou perder o controle. Quem dera pudessemos ter tanta noção e clareza do que é real em todos os momentos de nossa vida.

24 de junho de 2006

SÍNDROME DE ESTOCOLMO

A síndrome de estocolmo é a identificação do seqüestrado com o seqüestrador, desenvolvendo um relacionamento que pode chegar à cumplicidade. A vítima, submetida a constante estresse, chega a sentir um certo amor por seu algoz e pode continuar defendendo-o até o julgamento.

ImageE o que é a religiosidade senão uma manifestação da síndrome? Para aqueles que crêem em um deus, sua submissão não passa de um grande medo que, como mecanismo de defesa, se transforma em amor. Afinal, desde a Idade Média, os crentes (crente num sentido amplo) não apenas acreditam, ou amam. São tementes a Deus. Também no Antigo Testamento, Deus é extremamente vingativo e exige total devoção e obediência sob o risco das mais duras penas para quem o contradisser.

Assim como os seqüestradores, Deus detém um poder imenso sobre a vida dos religiosos. E a eles, não resta saída senão amá-lo e temê-lo. E, dessa forma, todos os seus atos têm justificativa, não importa quão cruéis e infundados eles sejam. Toda religião é baseada no medo.

21 de junho de 2006

LACUNA

Sempre me perguntei por que eu gosto tanto de garotas mais novas. Não estou falando aqui de pedofilia ou coisa parecida, isso é nojento. Falo daquelas meninas de 18, 19 anos, ainda com uma certa ingenuidade e que acham que sabem tudo. Por que, sempre que saio à noite, procuro essas, e não as um pouco mais velhas, com seus trinta anos que realmente sabem das coisas?

O mais interessante é descobrir que não sou o único, longe disso. Homens falam de adolescentes (no sentido teenagers) como troféus. "Cara, fiquei com uma gatinha de 19 anos, ela me deixou fazer quase tudo". Quase. Essa talvez seja uma das palavras-chave. Porque é muito fácil ficar com uma garota de 25 anos e levá-la para a cama, mas uma mais nova, nem tanto. Aí é que está o desafio: ficar com uma garota linda, nova e conseguir levá-la para a cama.

Mas, pelo menos no meu caso, descobri algo que parece explicar a questão. Minha adolescência foi tardia, passei em branco pelos 14, 15, 16... e tinha sempre alguém de quem eu estava a fim ou uma garota que eu queria namorar. E, obviamente, não conseguia nada. Era um amor ingênuo, capaz de durar anos sem nenhuma resposta.

Isso me deixou uma lacuna. Uma que eu tento desesperadamente preencher, mesmo sabendo que é impossível. Será que não sou o único?

Image

15 de junho de 2006

ALFORRIA

ImageHá um tempo eu vi um filme com o Steve Buscemi chamado Mundo Cão (Ghost World) em que ele dizia haver prolongado seus piores relacionamentos para não passar pela situação de terminar. Tudo bem que o cara era todo esquisito, mas realmente me identifiquei com a situação. E é estranho, porque há poucos anos, iniciar um relacionamento, nem que fosse um relacionamento de uma só noite, era a coisa mais difícil.

Hoje parece muito fácil, e o maior problema é dizer não. E já prolonguei relacionamentos falidos por muito, mas muito tempo para não ter que terminar. Ou pior, terminei, mas voltei, às vezes no mesmo dia, às vezes algum tempo depois.

Não sei se fico com pena ou se não quero assumir minha responsabilidade sobre o sofrimento da outra pessoa que, em tese, só eu posso sanar. Como se ela não fosse se recuperar nunca, que ridículo! Mas o fato é que o tédio ou outros problemas acabam dominando a relação e ficam maiores do que a culpa. E só assim eu me alforrio.

2 de junho de 2006

AMOR DE UM DIA

ImageNão é tão simples como parece. Não é só arrumar uma mulher, dar uns beijos na boca e levar prum motel fuleiro ou aqueles de sessenta reais na Glória ou no Centro da Cidade. A única diferença entre isso e uma puta é o ego que infla e a onda que se tira com os amigos. Ou, como diz um amigo, é mais uma pra marcar na cartucheira. Apesar de que o ego conta, é verdade.

Muito fácil, é só ter uma carinha bonita, um papo smooth ou ser bom de mentira. Inventar uma história qualquer, chamar uma baranga de bonita, se fazer de tímido. Se não der certo, sempre tem uma outra mulher ou uma outra noite numa outra boate.

O que é transar com uma mulher e depois olhar pro lado e pensar "Putz, queria estar em casa, preciso de um banho. O que isso ainda tá fazendo aí do meu lado?"? Daí você finge que se importa, ou finge que dorme, ou não finge porra nenhuma e fala: "Vamos? Eu te deixo no ponto de ônibus", chega em casa, toma um banho e esquece o nome dela, apaga o número do celular que vc guardou na hora só pra parecer interessado.

É, você só se torna infeliz se cair na besteira de pensar na vida. Mas invariavelmente você pensa e entra num dilema. Não é só o sexo, nem a conquista em si. É o amor, finalmente. Mas é o amor de um dia. Sincero, genuíno, de acordar ao lado e realmente gostar disso. Mas uma vez que se vai embora, acabou. O amor de um dia. Play one night stand, but mean it.

31 de maio de 2006

VIZINHAS

Uma coisa eu posso garantir: a fantasia vai longe. Tenho uma vizinha que é um pouco descuidada, mas não muito. Já foi mais. Desde garoto, divertia-me torcendo para que ela tirasse pelo menos a parte de cima. Não, não era uma mulher madura, era uma garota um pouco mais nova do que eu, talvez muito mais, o que tornava a coisa ainda mais interessante.

ImageCerta época, ela devia ter uns catorze anos e eu, um par de binóculos. Ela estava experimentando biquínis em frente ao espelho da sala, mas nunca tirava a parte debaixo. Eu era capaz de ficar horas assistindo. Ela cresceu, os biquínis mudaram e alguns hábitos também. Mas ainda tenho meus binóculos que, de vez em quando, são bastante úteis. E minha câmera digital, mas não me arrisco a postar as fotos aqui.

Outras vizinhas vieram e foram, nuas, vestidas, tão animadas para os namorados que esqueciam a janela aberta. Outras passavam por mim no elevador e eu já tinha tudo na cabeça: o elevador pára, ela se insinua, chega mais perto, a coisa começa a esquentar. Já transei no elevador (não com uma vizinha, infelizmente) e posso dizer que não é muito confortável. Mas, na imaginação, nada atrapalha.

Alguns fetiches nunca vão embora.

29 de maio de 2006

PARA O TÚMULO

ImageTodos nós sabemos que manter um blog pessoal pode se tornar inconveniente, sobretudo quando se tem algo a esconder. Uma exposição excessiva na internet pode gerar todo tipo de transtorno, desde impasses profissionais até brigas amorosas. Isso pode ser muito divertido, mas a minha paciência para essas coisas já acabou faz tempo e vou me manter anônimo neste blog, que, por sinal, não poderia ser mais pessoal.

Provavelmente você chegou até aqui por algum anúncio da internet ou mesmo pela página inicial do blogger.com. Até porque eu não seria idiota de dar este endereço para os meus amigos. Então, aproveite a estada e volte sempre.

Enfim, o nome do autor deste blog vai para o túmulo com o próprio. Já outros segredos, não.