segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Revelações de Nossa Senhora do Bom Sucesso (século XVII)

 

 

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Em 1634, no Mosteiro da Conceição da cidade de Quito, no Equador, quando Soror Mariana de Jesus Torres rezava diante do Santíssimo Sacramento, apagou-se subitamente a lâmpada que ardia no altar. Ao procurar reacendê-la, uma luz sobrenatural inundou a igreja e uma voz se fez ouvir:

Filha querida de meu Coração, sou Maria do Bom Sucesso, tua Mãe e Protetora. A lâmpada que viste apagar-se tem muito significado...

“No século XIX – em seu término – e em grande parte do século XX, várias heresias se propagarão por estas terras, então república livre. Apagar-se-á a luz preciosa da Fé, por causa da corrupção total dos costumes. Nesse tempo haverá grandes calamidades, físicas e morais, públicas e privadas. O restrito número de almas nas quais se conservará o culto da Fé e das virtudes sofrerá um cruel e indizível padecimento, a par de prolongado martírio...

“Nesses tempos, a atmosfera estará saturada do espírito de impureza, o qual, à maneira de um mar imundo, correrá pelas ruas, praças e lugares públicos, numa liberdade assustadora, de tal modo que não haverá no mundo almas virgens...

“Os sacerdotes se descuidarão de seu sagrado dever; perdida a Bússola Divina, se desviarão do caminho traçado por Deus...

“Para libertar da escravidão dessas heresias, aqueles a quem o amor misericordioso de meu Filho Santíssimo destinar para esta restauração precisarão ter grande força de vontade, perseverança, coragem e muita confiança em Deus. Para pôr à prova, nos justos, esta Fé e confiança, haverá momentos em que tudo parecerá perdido e sem possibilidade de andar. Então será o princípio feliz da restauração completa...  Terá chegado a minha hora, na qual, de maneira magnífica e impressionante, destronarei o soberbo satanás, colocando-o sob meus pés, acorrentando-o no abismo infernal, e libertando por fim a Igreja e a Pátria dessa cruel tirania”.[1]

 

Comentários de Dr. Plínio sobre as profecias de Nossa Senhora do Bom Sucesso

Dr. Plínio fez os seguintes comentários sobre Nossa Senhora do Bom Sucesso e a irmã Mariana de Jesus Torres:

“Bem, meus caros, Nossa Senhora do Bom Sucesso: que relação tem esta invocação com os acontecimentos previstos em Fátima? Precisamente a Sóror Mariana de Jesus Torres Ela apareceu fazendo impressionantes revelações que mantém uma notável proximidade com as de Fátima.

Um dia se falará a respeito disso, não é este o momento. Mas são admiráveis e impressionantes revelações.

Quanta coisa linda os senhores são chamados a ver, se perseverarem. Coisas terríveis também. Pensem nos castigos de Fátima e os senhores compreenderão. Pensem no acontecido na Venezuela recentemente e os senhores terão um antegosto destes castigos. Um amargo antegosto destes castigos, o admirável antegosto dos castigos.

(...)

...Então, nesta festa peçamos a Ela que nos dê a graça de trabalhar e lutar pela implantação do Reino de Maria. E nas horas mais difíceis nós poderemos dizer a Ela: – “Minha Mãe, venha a nós o vosso reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no Céu!” É o reino d’Ela! É o reino de Nosso Senhor Jesus Cristo na sua expressão mais perfeita, mais quintessenciada: o Reino de Maria! 

Sóror Mariana de Jesus Torres para ser fiel à vocação dela, — uma espécie de profetiza do Bom Sucesso de Nossa Senhora, do Reino de Maria, — teve que passar por provações terríveis. Eu não resisto ao desejo de vos contar uma.

Havia no mosteiro dela, — em pleno tempo, do Brasil como da América hispânica, das colônias respectivamente, de Portugal e da Espanha, — sete fundadoras. Ela era a fundadora junto com 7 outras que receberam as vocações na Espanha, creio, mas também muitas outras do lugar. Eram mestiças de índias que elas aceitaram como freiras.

Uma freira péssima (Judas os há por toda a parte, e os há nos dois sexos), índia ou mestiça de índia, chefiou a revolta das índias contra as espanholas, que eram umas santas. E nessa revolta Madre Mariana de Jesus Torres chegou a ser presa na cadeia do convento, etc. Uma perseguição medonha. Ela rezou continuamente pela perseguidora.

Em determinado momento ficou claro que a perseguidora não tinha razão, que era ela quem tinha razão, e foi eleita como abadessa. A perseguidora daí a algum tempo adoeceu, entrou em agonia e ia morrer. E Sóror Mariana de Jesus Torres, que tinha cumulado esta revolucionária de bondades durante a sua doença, depois durante a sua agonia, pediu durante a agonia especialmente a Deus, por meio de Nossa Senhora, que salvasse aquela alma. A resposta que veio foi esta: “poderá ser salva, se por amor à tua perseguidora consentires em que tua alma passe cinco anos no Inferno.”

Ela consentiu e a freira se salvou. Passou por um purgatório não pequeno, mas salvou-se. A alma de Sóror Mariana de Jesus foi posta no Inferno. O que ela sofreu durante esses cinco anos é uma coisa tremenda, inclusive — as memórias dela não me pareceram muito claras a esse respeito — parece que ela tinha se esquecido que tinha feito esse oferecimento e passou cinco anos com o pavor da ideia de ter sido condenada, e que ela sofreria o Inferno por toda a eternidade. E só pedia uma coisa a Deus: que nunca permitisse que ela deixasse de amá-lo.

Passados os cinco anos, passou o tormento. Foi revelado a ela o que era o tormento e cessou. Ela que era uma pessoa de uma grande beleza, — era um prodígio de beleza; muito rosada, corada, com cores muito saudáveis que ela conservou até o fim da vida, — durante esse tempo emagreceu, decaiu; depois do tormento refloresceu completamente! Por aqueles claustros que os senhores viram passou penando, por uma inimiga, Sóror Mariana de Jesus Torres. Com a alma sofrendo os tormentos do inferno. Ela ali conversou com Nossa Senhora do Bom Sucesso. Que conversas..., parecidas com as de Adão com Deus no Paraíso. Que penas e que tormentos..., que alegria quando ela voltou à luz e compreendeu que diante dela estava mais um tanto de vida e o Céu que se abria.

Meus caros, os castigos de Fátima vão ser assim.

Haverá momentos em que teremos a impressão: não será o Inferno? Nossa Senhora do Bom Sucesso rogai por nós!

Haverá momentos de tanta alegria interior que diremos: já não é o Céu entre nós? Nossa Senhora do Bom Sucesso rogai por nós!

Haverá afinal o momento em que toda a obra da iniquidade cairá por terra, e não passará de casca vil de uma cobra moribunda. Começa o Reino de Maria e nós cantaremos o cântico do Bom Sucesso!

É assim que eu imagino os castigos de Fátima. Eu não estou prevendo esses castigos. Eu estou imaginando-os.” ("Conferência" de 02 de fevereiro 1985)[2]

 



[1] Transcrito do jornal “El Ecuatoriano”, de 04-04-1951

[2] Um resumo dessa conferência foi publicada na Revista “Dr. Plínio”, de março de 2010, sob o título de “O Mais Doloroso Adeus”.

domingo, 1 de fevereiro de 2026

A VITORIOSA RAINHA DO UNIVERSO

 


 

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(Revelação à vidente húngara Soror Maria Natália Magdolna, falecida logo após o início da II Guerra)

 

O Rei e a Rainha

Foi na festividade de Cristo Rei de 1939 quando tive a visão do Salvador como meu real esposo. Sua figura era majestosa e seu rosto muito formoso. Tudo irradiava amor. O manto real pendia de seus ombros e uma coroa de três peças brilhava em sua cabeça.

Quando estou frente a um homem ilustre, meu coração bate com força, mas nesse momento não. Senti que Ele me atraía ao seu divino Coração com seu ardente amor. Isto sucedeu com tal força que corri para Ele e me prostrei a seus pés. Ele se inclinou e me levantou, cobrindo-me com uma ponta de seu manto real.

- Meu Salvador e meu Rei – gritei – Por favor, reina sempre em mim!

- Meu trono está já em teu coração – me respondeu. – Em ti meu reino está completo. Mas onde reina meu amor será levantada minha cruz.

Entendi que Jesus queria algum sacrifício de mim. Me voltei para Ele com alegria, disposta a obedecer, e lhe disse:

- Meu bom Jesus, quero que reines em mim segundo vossa vontade; estou disposta a carregar a cruz por Vós!

Ele me olhou complacente e enquanto eu descansava em seu peito, pude ver como Ele lançou uma olhada a todo o mundo. Compreendi que anelava algo.

- Qual pode ser o desejo de vosso Coração? – perguntei. – ele se inclinou para mim com indescritível amor e me disse:

- Se o mundo reconhece ao Filho como Rei, é justo, correto e apropriado que a Mãe do Filho receba a honra de Rainha. É por isto que Eu quero que minha Mãe Imaculada seja reconhecida por todo o mundo como a Vitoriosa Rainha do mundo. Este reconhecimento deve ser proclamado aberta e solenemente!

Quando o Salvador disse “solenemente” vi que de uma brilhante nuvem saiu uma maravilhosa procissão. Não posso descrevê-la em detalhes porque era uma procissão celestial e a linguagem humana não está apta para descrever as coisas celestiais. Jesus, sem embargo, a olhou satisfeito. Vi então que os anjos levavam um trono celestial e sentada no trono como a uma rainha a Santíssima Virgem. Levava um manto real e uma tríplice coroa. A coroa tinha uma referência especial à Santíssima Trindade, já que a Virgem é ao mesmo tempo filha, esposa e mãe de Deus.

A Virgem Maria tinha o cetro de Rainha na mão direita e uma esfera na esquerda. Na esfera estava sentado o Menino Jesus, também em pompa real, pois sobre a cabeça de Jesus vi também uma coroa. Na mão esquerda do Menino havia uma pequena cruz, que Ele apertava em seu Coração e em sua mão direita o cetro real. A procissão ia acompanhada por uma música maravilhosa.

De repente, a visão da procissão desapareceu e vi outra vez a Jesus como Rei. À sua direita estava sua Mãe como Rainha do Mundo. Entendi que a procissão celestial era a precursora dessas outras muitas procissões que viriam a celebrar Maria como Rainha em todo o mundo: em povos e em aldeias, pelos campos e montanhas, nos lares e nos corações, como a Vitoriosa Rainha do Mundo.[1]

Durante esta visão, o Salvador me fez saber que esta solene festa seria celebrada durante o reinado do Papa Pio XII.[2]  Ademais, Jesus me fez saber que Ele abençoaria esta festa de uma maneira especial. Os sacerdotes escolhidos para promover esta devoção sofreriam muito e seriam humilhados. Mas Jesus prometeu sua ajuda a esses sacerdotes. “Estarei com eles em seus sofrimentos” – me disse -, e enquanto dizia isto pôs sua mão direita em seu Coração e a levantou para abençoar: a graça fluía como um rio sobre as almas escolhidas desses sacerdotes.

Então vi como seu olhar pousava sobre meu confessor e entendi o que lhe disse: “As bênçãos de meu Coração, a chama de meu Amor e a força de minha Vontade estarão com meus sacerdotes fervorosos; eles serão a escada para que minha Mãe Imaculada suba até o trono de sua glória como a Vitoriosa Rainha do Mundo”.[3]


A respeito dessa vidente, veja minhas postagens anteriores:


[2] Refere-se provavelmente à promulgação da Encíclica “Ad Caeli Reginam”, de Pio XII, de 11.10.1954; mas, talvez a Providência exigisse mais do que uma encíclica para se confirmar pela Igreja o reino mariano.

[3] Extraído e traduzido de: http://www.diosjesustehabla.com/SorMagdolna/5.htm

 

 

sábado, 31 de janeiro de 2026

OS FALSOS DEVOTOS E AS FALSAS DEVOÇÕES À SANTÍSSIMA VIRGEM

 

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Os devotos críticos

“Os devotos críticos são, em geral, sábios orgulhosos, espíritos fortes e presumidos, que têm no fundo uma certa devoção à Santíssima Virgem, mas que vivem criticando as práticas de devoção que a gente simples tributa de boa fé e santamente a esta boa Mãe, pelo fato de estas devoções não agradarem à sua culta fantasia. Põem em dúvida todos os milagres e histórias narradas por autores dignos de fé...” (tóp. 93 do Tratado da Verdadeira Devoção á Santíssima Virgem).

É uma atitude que encontramos com frequência. Os livros de piedade contam milagres de Nossa Senhora. Santo Afonso nas “Glórias de Maria”, por exemplo. Há quem observe que as demonstrações teológicas de Santo Afonso são aceitáveis; naqueles milagres pode-se piedosamente crer, mas se pode também duvidar.

E verdade que, em princípio, se os pode negar sem pecado;  mas não é tão indiferente crer neles ou não. Aqueles casos são francamente verossímeis; não podem ser negados sem uma razão positiva de dúvida. Não há pois razão para duvidar, com satisfação, estuante de alegria, dos milagres relatados por Santo Afonso.

Em Aparecida do Norte se dá o mesmo. Há um sem número de milagres – ou que ocorrem como sendo milagres – feitos por Nossa Senhora. Ao se propor certa vez a instalação de um bureau de constatação médica para autenticar aquelas curas, alguém disse sorrindo: “O senhor preza realmente Nossa Senhora Aparecida? Se se colocar esse bureau de constatação médica aqui, cessará a auréola de Aparecida. Tudo não é senão crendice do povo!”

Se Nossa Senhora é capaz de praticar milagres, não é possível que haja vários cujo caráter miraculoso se possa demonstrar no meio das pretendidas curas? Se Ela é Rainha do Céu e da Terra e Mãe de Deus, é perfeitamente possível. Não é então da glória d’Ela que sejam analisados? É bem evidente que sim.

Outra manifestação de devoção crítica é um certo respeito humano ao culto das imagens de Nossa Senhora. Vai-se às igrejas, reza-se diante do Santíssimo Sacramento, mas, parar a fim de fazê-lo diante de uma imagem de Nossa Senhora, isto não. Veem esta manifestação de piedade como uma devoção subsidiária. O homem simples, do povo, que tem a “fé do carvoeiro”, este se ajoelha para rezar, mas o homem culto contenta-se com a presença real, que é, para ele, a única coisa verdadeira. Imagens são para ele muletas da fé, para os que não têm espírito de religião desenvolvido. É um estado de alma que faz parte do criticismo religioso, que diminui o âmbito da devoção à Nossa Senhora.

 

Os devotos escrupulosos

“Os devotos escrupulosos são aqueles que receiam desagradar o Filho, honrando a Mãe, e rebaixá-Lo se A exaltarem demais. Não podem suportar que se  repitam à Santissima Virgem aqueles louvores justíssimos que Lhe teceram os Santos Padres; não suportam sem desgosto que a multidão ajoelhada aos pés de Maria seja maior que ante o altar do Santíssimo Sacramento, como se fossem antagônicas, e como se os que rezassem à Santíssima Virgem não rezassem a Jesus Cristo por meio d’Ela. Não querem que se fale frequentemente da Santíssima Virgem, nem que se recorra tantas vezes a Ela”  (tóp. 94).

Encontramos em nossos dias uma forma curiosa de devotos escrupulosos.  Muito poucas são as pessoas que, nos meios católicos, sustentam esta falsa tese nos termos que São Luís Grignion a apresenta. No entanto, a devoção a Nossa Senhora, em nossos dias, muito raramente é tão grande como a teologia recomenda. Entre os próprios católicos, e mesmo entre os mais fervorosos, não se tem para com Ela a devoção que seria de se desejar. A causa é a falsa idéia de que o culto a Deus sofre certa restrição com o  culto a Santíssima Virgem. “Não convém – dizem eles – levar tão longe o culto a Nossa Senhora”.

Devotos exteriores

São Luís Grignion chama devotos exteriores aos que se contentam com uma devoção meramente exterior a Nossa Senhora.

“...que recitarão às pressas uma enfiada de terços...” (tóp. 96).

Não raro vemos pessoas assim rezando o rosário em uma velocidade assustadora.

“...e ouvirão sem atenção uma infinidade de missas, acompanharão as procissões sem devoção, farão parte de todas as confrarias sem emendar a vida, sem violentar suas paixões, sem imitar as virtudes desta Virgem Santíssima. Amam apenas o que há de sensível na devoção...” (tóp. 96).

Conhecemos muitas pessoas assim. Frequentemente são senhoras, mães de família. Sabem que o marido é ateu, que o filho não pratica a religião, que a filha poderá acabar vivendo com um divorciado; para elas nada tem grande importância. Vão às procissões, cantam, seguram um lírio de pano, fazem umas promessas a Nossa Senhora, compram-lhe objetos para Seu altar, e pouco se incomodam com a salvação do restante da família. São almas para quem a devoção a Nossa Senhora consiste tão somente em práticas exteriores. Não compreendem que estas devoções só têm valor na medida em que se correspondem às disposições internas, de nada adiantando se foram somente externas. 

Os devotos presunçosos

“Os devotos presunçosos são pecadores abandonados às suas paixões, ou amantes do mundo que, sob o belo nome de cristãos e devotos da Santíssima Virgem, escondem ou o orgulho, ou a avareza, ou a impureza, ou embriaguez, ou a cólera, ou a blasfêmia, ou a maledicência, ou a injustiça, etc...” (tóp. 97).

Sempre me lembro destas palavras quando entro em certas igrejas e vejo vitrais de Nossa Senhora com a inscrição “ofertas de fulano”. Ora, quantas vezes sabemos quem é o Sr. Fulano, qual a sua vida, que contraste há entre este pio donativo e a realidade que ali se oculta.  Este homem, não raro já está certo de ter ganho o céu por ter doado um vitral para Nossa Senhora. Quanta temeridade e presunção aí não se esconde! E quão grande é o número dos presunçosos!

Devotos inconstantes

Os devotos inconstantes (tóp. 101) são bem mais raros. Entre os caboclos se os encontra. Rezam à Santíssima Virgem e, uma vez obtida a graça desejada, cessam de vez a devoção. Outros vão além: não obtido o favor zangam-se, susceptibilizam-se e até blasfemam.

Certa ouvi uma pessoa pedir a alguém de sua família que, para que tivesse menos azar, não mais rezasse por ela. É o devoto inconstante: blasfemou por não conseguir o desejado. Sucedeu-lhe uma desgraça maior, e voltou a pedir orações: “reze mais, pois está grave a situação!”

Os devotos hipócritas

“Há também falsos devotos da Santíssima Virgem, os devotos hipócritas, que cobrem seus pecados e maus hábitos com o manto desta Virgem Fiel, a fim de passarem aos olhos do mundo por aquilo que não são” (tóp. 102).

Os devotos hipócritas também não são raros. Têm esta devoção para que outros tenham a impressão de que são mesmo devotos. (Tóps. 103 a 110).

Devotos interesseiros

São Luís Grignion chama de devoto interesseiro (tóp. 103) aquele que pede a Nossa Senhora graças sobretudo de caráter temporal, ou que somente reza à Santíssima Virgem não por amor, mas, para conseguir favores, somente desejando vantagens pessoais.

Dá-nos uma impressão constrangedora ver, nos lugares de peregrinação de Nossa Senhora, velas e ex-votos de pessoas que apenas pediram, com um furor insistente, graças temporais, o mais das vezes curas de doenças. Graças espirituais, raríssimas vezes são pedidas. A pureza, a fé, o desapego, quem os pede? Não; apenas a cura de uma ferida, de uma moléstia incurável. E depois coloca-se o ex-voto.

A apetência pelos bens espirituais é insignificante. O amor desinteressado a Nossa Senhora, quase nenhum.

Como vemos, encontraremos em São Luís Grignion uma análise aguda dos defeitos da piedade de seu tempo, e um desejo de corrigi-los inteligentemente. Não se trata de uma devoção inculcada apenas por rotina, às cegas, mas por alguém que conhecia profundamente o ambiente no qual agia. E sua ação tinha sempre, por isso, um cunho eminentemente contra-revolucionário.

A seguir, São Luís Grignion passa a dar as verdadeiras características da devoção a Nossa Senhora: é interior, terna, santa, constante e desinteressada (tóps. 105 a 110). São predicados muito conhecidos por nossos leitores que não requerem comentários.

(Extraído de apostila divulgada pelo próprio Dr. Plínio Corrêa de Oliveira em 1967, constando conferências do mesmo feitas a seu iniciante grupo de seguidores em 1951 comentando o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, de São Luís Maria Grignion de Montfort).

 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

MARIA, A OBRA-PRIMA POR EXCELÊNCIA DO ALTÍSSIMO

 

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No ano de 1951, Dr. Plínio Corrêa de Oliveira fez uma série de conferências a seus filhos espirituais sobre o Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem Maria, de autoria de São Luís Grignion de Montfort. Posteriormente, em 1967, o Autor fez revisões no texto e o mesmo foi divulgado em forma de circulares internas do seu Grupo (na época chamado de “Grupo do Catolicismo”) e reunidos numa apostila mimeografada. Extraímos destes textos os comentários a seguir sobre as excelências das qualidades de Nossa Senhora.[1]

 Excelências das faculdades da alma de Nossa Senhora

 Tóp. 5 – “Maria é a obra prima por excelência do Altíssimo”.

 Ao olharmos uma noite de céu estrelado, em lugar de considerarmos apenas as grandezas de Deus – pensamento aliás muito louvável – sabemos contemplar também Maria Santíssima, incomparavelmente maior e mais formosa do que cada um dos astros que estão no céu e de todos eles no seu conjunto? Porque, sendo Ela a obra prima da Criação, toda a beleza, toda a grandeza, toda a excelência que Deus pôs no firmamento é pequena em relação à que o Criador pôs n’Ela, este céu não é senão uma imagem, uma figura da grandeza de Nossa Senhora. Apesar de ser mera criatura, tudo quanto n’Ela há excede muito em perfeição todas essas belezas criadas, e isto de um modo inexprimível.

A sua inteligência incomparável.  Quando nos deparamos com um homem muito inteligente, costumamos ter o salutar pensamento de que ele, comparado a Nossa Senhora, é mais ignorante que o mais primário analfabeto comparado ao maior dos sábios? São Tomás de Aquino, comparado a Ela, era um ignorante, tal a plenitude e a perfeição de Seu conhecimento. Sua inteligência não tem somente toda a perfeição de uma inteligência humana à qual nada há que acrescentar, mas possui ainda o conhecimento de todas as coisas que à mais alta das criaturas é dado conhecer. Quando rezamos a Ela, temos sempre presente esta excelência que lhe é própria, a de ter uma inteligência incomparável?  Aquilo que no mundo pode haver de mais inteligente, comparado à Nossa Senhora, é zero, é cisco, é nada. Toda a inteligência possível a uma criatura tão excelsa, alargada pela plenitude das graças do Espírito Santo, Ela a tem. É algo, portanto, excelente e sumamente inconcebível. Assim como há dados misteriosos da natureza que escapa totalmente a nosso conhecimento – não sabemos, por exemplo, quantos grãos de areia existem em todas as praias da Terra – assim também não temos termo algum de comparação para compreendermos a riqueza da inteligência de Nossa Senhora. É algo que está fora do nosso alcance, imaginar não nos é possível.  Pois bem, esta é uma verdade que deve estar sempre muito presente no cabedal dos conhecimentos que d’Ela possuímos.

A sua Vontade Heroica.  Passemos às perfeições de Nossa Senhora no que se refere à Sua vontade.

Tomemos alguns fatos de heroica e sobrenatural força de vontade. São Lourenço, por exemplo, que colocado sobre uma grelha, suporta heroicamente o fogo até que, ao cabo de algum tempo, exclama: “Podem virar do outro lado, pois deste já estou assado”, outro santo houve que, amarrado a uma mesa, foi tentado de todas as formas por uma mulher; e não tendo mais como resistir à tentação, mordeu a própria língua, cuspindo-a fora a fim de evitar o consentimento[2], são fatos que demonstram um verdadeiro e admirável heroísmo. Mas nada são, no entanto, comparados ao heroísmo de Nossa Senhora, que lhes supera sem qualquer proporção. Não passam de um grão de areia comparado ao globo terrestre.

Sim, o sofrimento que Ela teve consentindo na Paixão de Nosso Senhor, desejando até o último instante sua consumação plena, como Ela o desejou, e tudo sofrendo com Ele, é algo que não pode ser comparado a nada de humano, nem sequer ser expresso em linguagem desta terra. Perto de sua com-Paixão os exemplos dados tornam-se insignificantes.

Ela não é uma grande santa apenas por ser Mãe de Deus. É bem verdade que este é o título essencial de Sua Santidade, a razão pela qual recebeu todas as graças.  Mas é preciso notar ainda que Ela correspondeu à graça e se tornou uma grande santa pela perfeição insondável de sua correspondência, perto da qual toda a generosidade de todos os santos nada é. Santo Anselmo no-lo exprime lapidarmente: “Aquilo que todos os Santos podem conVosco, Vós o podeis só, e sem nenhum deles. Se Vós guardais o silêncio,  ninguém rogará por mim, ninguém me ajudará, mas falai, e todos rogarão por mim, todos se apressarão a me socorrer”[3]. Isto porque Ela é a Mãe de Deus, Medianeira de todas as graças, e Sua virtude transcende numa proporção inconcebível à de todos os demais santos. Destas afirmações nem uma vírgula se poderá tirar. E é preciso reconhecermos que não temos disto uma noção digna; ficamos, em geral, em figuras de retórica – “Tu, a mais Bela”, “a mais Formosa” – que, embora verdadeiras, é mister sejam aprofundadas.

A sua sensibilidade harmoniosa.  Falamos da inteligência e da vontade de Nossa Senhora. Falemos de Sua sensibilidade.

Nada há de mais desregrado no homem do que a sensibilidade: efeito do pecado original. Sentimos, por exemplo, inclinações para muitas coisas que moralmente não poderíamos querer. Consequentemente, precisamos manter uma luta acesa entre a tendência que temos para o bem e nossa inclinação para o mal.

Em Nossa Senhora, concebida sem pecado original, não havia esses desequilíbrios. Sua sensibilidade, de uma delicadeza e de uma força perfeitas em todas as suas vibrações e em todos os seus movimentos, era inteiramente ajustada a tudo quanto a razão e a vontade podiam desejar. Era um ser todo de harmonia, no qual não havia nenhuma das incontáveis misérias provocadas em nós pelo pecado original. Ela foi imaculada desde o primeiro instante de Seu ser.

 As perfeições de Maria Santíssima ultrapassam a capacidade humana de conhecimento

 Retornemos ao tóp. 5:

 

“Maria é a obra prima por excelência do Altíssimo, cujo conhecimento e domínio Ele reservou para Si”.

Que belíssima noção! Maria Santíssima é tão grande que São Luís Grignion, que não é senão um seu pequeno menestrel, já é, ele mesmo, quase inesgotável quando fala d’Ela. Ele afirma ser Nossa Senhora tão enorme, tão colossal – e o que são estes adjetivos, que de longe Ela transcende? – que só Deus A conhece em toda a extensão das Suas perfeições. Nós não podemos sequer disto ter uma pálida idéia. Há n’Ela belezas, há culminâncias, há encantos, há perfeições, há excelências que escapam e sempre escaparão completamente ao nosso olhar, e que são somente por Deus contempladas. Imaginemos estes universos, estas constelações imensas de estrelas que o homem não conhece e possivelmente jamais conhecerá e cujas belezas ficam reservadas à exclusiva contemplação de Deus: assim é Maria Santíssima. Há n’Ela coisas que nunca homem conhecerá, reservadas que são ao conhecimento exclusivo de Deus Nosso Senhor. N’Ela há esta nota de incognoscibilidade: paramos extasiados a Seus pés, compreendendo, após ter compreendido muito, que o mais que se compreendeu, é que quase nada compreendemos. Estamos sempre no Seu pórtico, um pórtico para nós demasiadamente grande, tal a Sua excelência.

 Continuemos o tóp. 5:

 

“Maria é a Mãe admirável do Filho, a quem aprouve humilhá-La e ocultá-La durante a vida para Lhe favorecer a humildade, tratando-A de mulher – “mulier” (Jo 2,4; 19, 26), como a uma estrangeira, conquanto em Seu coração A estimasse e amasse mais que a todos os anjos e homens”.

 

São Luís Grignion desenvolveu neste parágrafo a ideia de que, durante a vida, também Nosso Senhor A manteve ignorada; apenas Ele a conhecia.

 “Maria é a fonte selada (Cânt 4, 12) e a esposa fiel do Espírito Santo, onde só Ele pode penetrar”.

 

É o retorno à ideia de Nossa Senhora como criatura reservada ao conhecimento de Deus.

 “Maria é o santuário, o repouso da Santíssima Trindade, em que Deus está mais magnífica e divinamente que em qualquer outro lugar do universo, sem excetuar seu trono sobre os querubins e serafins”.

 Sabemos que os anjos da guarda ocupam os graus inferiores na hierarquia celeste. E, tendo certa vez aparecido a uma santa o seu anjo da guarda, ela ajoelhou-se, pensando estar na presença do Altíssimo! A grandeza dos anjos é tal que, no Antigo Testamento, em várias aparições, os homens julgavam que fossem o próprio Deus. E no céu há miríades de anjos! Em que assombro ficaríamos se os víssemos a todos e ao mesmo tempo!

Nossa Senhora, contudo, está acima de todos eles reunidos. Assim, diante de Sua insondável alma, nós nos deparamos novamente com termos imperfeitos de comparação que o melhor que podemos dizer é que são totalmente insuficientes.

“...e criatura alguma, pura que seja, pode aí penetrar sem um grande privilégio”.

 Existe, pois, uma categoria de criaturas privilegiadas que podem penetrar no conhecimento de Nossa Senhora.  Estas criaturas privilegiadas, São Luís Grignion no-lo explica, são aquelas a quem Deus dá, por liberalidade, o dom que o comum das pessoas não têm, de conhecerem e praticarem a devoção à Nossa Senhora de modo especial por ele ensinado. E os “apóstolos dos últimos tempos”, de que ele nos fala, terão este dom; por isso, serão terríveis no combate ao mal e eficacíssimos na defesa do bem. Serão almas elevadíssimas, que terão a graça de penetrar neste umbral da devoção à Nossa Senhora.

 

Outras qualidades de Maria Santíssima

 

Tóp. 6 – “Digo com os Santos: Maria Santíssima é o paraíso terrestre do novo Adão”[4].

 O paraíso terrestre era de encantos, de delícias, de perfeições. São Luís Grignion diz que Nosso Senhor estava no ventre puríssimo de Maria Santíssima com a excelência e a perfeição com que Adão estava no paraíso. Nossa Senhora, durante a concepção, era o paraíso do novo Adão, Jesus Cristo.

Quando, na comunhão, recebemos este mesmo Jesus Cristo, acostumado que está a tais paraísos, perguntamo-nos o que Ele achará da nossa hospitalidade? Oferecemos-Lhe ao menos, a Ele que condescende em descer à nossa choupana, modestíssimo luxo de uma casa limpa?

 “...no qual Este se encarnou por obra do Espírito Santo, para aí operar maravilhas incompreensíveis...”

 Nosso Senhor, durante a Sua vida em Maria Santíssima – e esta é uma belíssima idéia que São Luís Grignion desenvolverá mais tarde – quando Ela era o tabernáculo no qual Ele habitava, já aí operou maravilhas. São Luís Grignion compôs inclusive uma oração dirigida a Nosso Senhor enquanto vivendo em Maria Santíssima: “O Iesu, vivens in Maria...”

 “...É o grande, o divino mundo de Deus[5], onde há belezas e tesouros inefáveis. É a magnificência de Deus[6], em que Ele escondeu, como em Seu seio, Seu Filho único, e n’Ele tudo que há de mais excelente e mais precioso. Oh! Que grandes coisas e escondidas Deus todo-poderoso realizou nesta criatura admirável, di-lo Ela mesma, como obrigada, apesar de Sua humildade profunda: “Fecit mihi magna qui potens est” (Lc 1, 49).

 O sentido inteiro deste canto do “Magnificat” só o compreenderemos se considerarmos quem é Nossa Senhora. Realmente, é preciso lembrar-nos do poder de Deus, para compreender que Ele possa ter operado essas maravilhas que n’Ela operou.

 

“...O mundo desconhece estas coisas porque é inapto e indigno”.

 

São Luís Grignion referiu-se a uma raça (no sentido teológico e não biológico) misteriosa a quem Deus concede o favor único de poder penetrar nos umbrais desta devoção. Ele nos fala agora de uma raça má, e que, por sua maldade, por sua impureza, por sua indignidade, detesta tudo isto. É o reverso da medalha.

 Devoção à Nossa Senhora: característica da santidade

 

Tóp. 7 – “Os Santos disseram coisas admiráveis desta cidade santa de Deus; e nunca foram tão eloqüentes nem mais felizes – eles o confessam – que ao tomá-La como tema de suas palavras e de seus escritos”.

 

Este trecho evidencia-nos uma verdade muito importante. Não se deve pensar que a devoção à Nossa Senhora é um estilo de santidade inaugurado por São Luís Grignion ou levado por ele ao último grau de intensidade. A devoção especialíssima e intensíssima  à Nossa Senhora é característica de todos os santos. E, embora não se possa dizer que todos a tenham levado ao ponto a que levou São Luis Grignion, estudando a vida de piedade de qualquer deles notamos sempre uma devoção ardentíssima a Ela, que é a dominante logo abaixo do culto a Deus Nosso Senhor.

Essa devoção, contudo, se reveste em cada um de aspectos particulares. É raro, neste sentido, encontrar algum santo que não tenha encontrado um aspecto novo de piedade em relação à Nossa Senhora. E não há um só que não conheça dever à intercessão d’Ela, não só o seu progresso espiritual, mas até mesmo a sua perseverança. Todos passaram por duras provas espirituais, das quais se viram livres por uma intervenção especial d’Ela.

São Francisco de Sales, por exemplo, teve, em sua juventude, uma terrível crise, relativa ao problema de sua predestinação; estudando o assunto ficou como que tragado pelo abismo do problema e foi duramente assediado pelo demônio, que lhe insuflava que a predestinação não era para ele. Isto lhe causou uma tremenda depressão. Começou a emagrecer, a perder a saúde, nada havia que lhe restituísse a paz à alma. Certo dia, rezando diante de uma imagem de Nossa Senhora, pedia-Lhe que, ainda que tivesse que ir para o inferno, mesmo assim, lhe fosse dado não ofender a Deus na terra – pois o que o apavorava do inferno não era o tormento, mas a ideia de ofender eternamente a Deus – e recitava “Memorare o Piissima Virgo Maria...” que estava escrito embaixo da imagem. E – ele mesmo no-lo conta – logo após o término da oração, restabeleceu-se em sua alma uma paz admirável; viu então, claramente, todo o jogo do demônio de que estava sendo vítima, e recuperou aquela serenidade que viria a ser a nota dominante de toda a sua vida espiritual.

Encontramos, assim, na vida de todos os santos, esta constante de uma particular devoção à Nossa Senhora. Ela é, pois, uma característica segura da verdadeira piedade, e devemos absolutamente duvidar da santidade de alguém que não a possua.

Seria sofisma dizer: algo que é especial para todos não o será, por isso, para ninguém. Uma mãe que tenha muitos filhos, tem, para com cada um carinho especial; e cada filho ama a própria mãe de um modo particular. Assim, devemos, cada qual, amar à Nossa Senhora de maneira inteiramente própria, especial e inconfundível. Ela, por sua vez, terá para conosco um carinho, que não será um carinho genérico, de quem dissesse: “toda aquela gente, eu a amo”, mas um carinho todo particular, que pousará sobre cada um de nós, individualmente considerados, como se só nós existíssemos na face da terra.

 Maria Santíssima é a Onipotência Suplicante

 

“...E depois, proclamam que é impossível perceber a altura dos Seus méritos, que Ela elevou até ao trono da Divindade; que a largura de Sua caridade, mais extensa que a terra, não se pode medir; que está além de toda compreensão a grandeza do poder que Ela exerce sobre o próprio Deus”.

 

Por ser este Seu poder tão grande, que se exerce até sobre o próprio Deus, os teólogos têm-Na chamado de “onipotência suplicante”.  Parece haver, à própria vista, uma contradição nos termos, pois quem suplica nada pode. Ela, porém, é de fato a onipotência suplicante porque Sua súplica pode tudo sobre Aquele que é onipotente. Desta maneira, Ela pode, praticamente, absolutamente tudo.

Todo o exposto nesta Introdução não nos deve ficar como tiradas piedosas e ocas. É preciso que fique compreensível, razoável, como tudo que brota da razão com base na Fé. Devemos encontrar nisto substancioso alimento, deve servir-nos de combustível, e não apenas de incenso.

Estas afirmações não devem ficar no vácuo, é preciso sabermos aplicá-las concretamente em nossa vida espiritual nas dificuldades, nos problemas, nas lutas. É preciso lembrarmo-nos de que Nossa Senhora é a onipotência suplicante e termos n’Ela uma confiança ilimitada. Mas nem sempre a temos tão arraigada no espírito quanto desejaríamos.

Imaginemos, por exemplo, que Deus apareça à nossa mãe terrena e lhe dê a possibilidade de nos fazer todo o bem que quiser; ficaríamos, evidentemente, radiantes, pois tudo conseguiríamos facilmente. Ora, Nosa Senhora nos ama imensamente mais do que todas as mães terrenas reunidas amariam seu filho único; por isso deveríamos ficar muito mais contentes em saber que Ela, no Céu, olha para nós, do que com a ideia de uma proteção eficacíssima de nossa mãe terrena.



[1] Possuo até hoje referida apostila, guardada como documento particular.

[2] Trata-se de um dos mártires da Tebaida, cuja festa se celebra no dia 27 de julho.

[3] Orat. Or 46, Ad S.V.M, P.L. CVLIII, c. 943-944

[4] São Leão Magno, in “Serm. De Annuntiatione”.

[5] São Bernardo

[6] Ricardo de São Lourenço, “De Laud. Virg., lib. IV.

domingo, 25 de janeiro de 2026

Doutor Plinio comentando sobre a conversão de São Paulo

 


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Saulo era natural de Tarso, na Cilícia, Província da tribo de Benjamim, e por privilégio concedido pelos imperadores de Roma à cidade de Tarso, Saulo, embora judeu, tinha cidadania romana.

Dotado de talento extraordinário, possuía também bons e nobres sentimentos, aliados a uma força de vontade inquebrantável.

Ao tempo em que Jesus pregava o Evangelho na Palestina, Saulo estudava, sob a direção do sábio Gamaliel, as ciências dos Santos Livros. Seu talento, zelo e aplicação chamaram sobre ele as vistas dos fariseus.

O coração do jovem Saulo enfureceu-se com o crescimento rápido da doutrina de Jesus de Nazaré e o aumento espantoso do número dos discípulos do Crucificado fizeram com que sua alma se incendiasse de ódio contra os seguidores de Jesus, que ele considerava traidores da causa da pátria. E Saulo procura como prejudicar o desenvolvimento da Igreja nascente. Incitado pelo ódio farisaico, Saulo foi ao Sumo Sacerdote e pediu cartas para a sinagoga de Damasco, com plenos poderes de trazer prisioneiros a Jerusalém todos os partidários de Jesus.

Em caminho, já perto de Damasco, um violento reluzir de luz celeste prostra-o por terra e Saulo ouve uma voz queixosa: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” E o perseguidor pergunta: “Senhor, quem sois vós? Responde a voz misteriosa: “Eu sou Jesus, a quem persegues”. Saulo, amedrontado, fala: ”Senhor, que quereis que faça?” – “Levanta-te, entra na cidade e lá se dirá o que tens a fazer”.

Os homens de Saulo nada viam, mas ouviam a voz de Jesus. Saulo levantou-se e verificou que estava cego. Guiaram-no a Damasco, onde passou três dias sem comer nem beber. Ora, havia em Damasco um discípulo de Jesus chamado Ananias. Este teve uma visão em que o Senhor lhe ordenava: “Levanta-te, procura na casa de Judas um homem de Tarso, chamado Saulo. Neste momento ele ora”. Saulo nesse mesmo momento viu certo homem chamado Ananias entrar e impor-lhe as mãos para que recobrasse a vista. Mas Ananias respondeu: “Senhor, tendo ouvido falar muito desse homem e do mal que fez aos santos em Jerusalém. Aqui mesmo traz plenos poderes dos Príncipes dos Sacerdotes para meter em ferros todos que invocam vosso santo nome”. Mas o Senhor lhe ordenou que fosse a Saulo, e revelou-lhe o que o perseguidor haveria de tornar-se para a Igreja: um dos sustentáculos da Religião nascente, o apóstolo que pregaria o Evangelho a todas as nações.

Dessa queda miraculosa, levantou-se Paulo convertido para ir, no seu ardor de homem genial e forte, levar à toda a humanidade o lume da fé, a doutrina de Cristo Jesus.

São Paulo, compreendendo e vivendo integralmente a vida de um apóstolo, em uma de suas epístolas, usou de uma frase que bem define o que é a vida do defensor da fé, do católico consciente de sua missão sobre a terra: “Bonum certamen certavi – Combati o bom combate”. Porque a vida do católico é uma luta sem tréguas nem acomodações.

Luiz Veuillot teve uma frase feliz. Disse que se São Paulo viesse de novo à terra tornar-se-ia jornalista. Sim, São Paulo tornar-se-ia jornalista. Mas jornalista intransigente pela verdade. Ou, em outras palavras, suas epístolas tornar-se-iam artigos intransigentes na defesa de todas as verdades e fulminantes na condenação de todos os erros. Não é difícil imaginar que artigos santa e impetuosamente veementes escreveria aquele mesmo São Paulo que certa vez escreveu numa de suas epístolas: “Irei a vós de chicote em punho” (I Cor. 4, 21).

Quem tão bem soube manejar o chicote e lutar com santo ardor, que a espada passou a ser o seu símbolo, escreveria hoje artigos de jornais reputados por certos leitores de epiderme sensível tanto ou mais agressivos e cortantes que os do LEGIONÁRIO.

(Plínio Corrêa de Oliveira, "Legionário" N. 322, .22 de janeiro de 1939)