Circunferência imperfeita a contornar o número que assinala este fatídico dia natalício no calendário. É mais um ano de ajuste de contas com a faina medíocre do destino que, ao cabo e ao resto, tenho renegado e engolido sempre de má boca. E o tempo, apressado, a voar-me das mãos. O que é sofrer sem sofrimento. O que é um homem ser céu aberto a qualquer inquietação, lutar, e sentir-se a perder em cada acto. Mas, enfim, de que servem lamúrias e protestos se tudo, em absoluto, é vida e eu vivo envenenado por ela? Como um prisioneiro evadido e perseguido pelas evidências deixadas a nu no rasto abissal da bola de chumbo que trago acorrentada à consciência, há 29 anos que ando a fugir de mim
Dia de aniversário
Um risco mais no calendário
A riscar o tempo que sou:
Uma hora badalada que passou
E ecoou no campanário.
Dia baralhado e de repasto
Arisco, sucessivo, gasto
A perder a felicidade na palma da mão
E a encher no poço do coração,
De uma assentada,
Uma funda escuridão
Oca, feita de nada.



