O jornal O Popular publicou ontem uma entrevista muito interessante com um dos responsáveis pela mudança radical (para melhor) no sistema educacional de Cingapura, que é hoje referência de modelo de educação em todo o mundo. Na verdade, o que ele conta não é novidade. Já mencionei em outros posts a opinião de outros especialistas que falam da valorização do profissional e melhoria dos salários.
Lá nas primeiras postagens, por exemplo, eu já citava uma fala do então presidente-executivo do movimento Todos pela Educação, Mozart Neves, que apontava que, no Brasil, os menos qualificados é que vão para o magistério (com exceções, claro), por pura falta de perspectiva na carreira. E que esse era um dos principais gargalos a serem resolvidos para a melhoria da educação por aqui. A entrevista com Lee Sing Kong comprova que este caminho pode, sim, dar certo e mudar uma nação. Leia abaixo.
Lições de Cingapura para Goiás
Responsável pela revolução no sistema educacional do País, asiático participa de encontro de especialistas em Goiânia
Karla Jaime Morais e Afif Sarhan
Cingapura é hoje modelo bem-sucedido em educação e desenvolvimento econômico e social. Em 1960, tinha ensino comparável ao de países africanos. A mudança ocorreu a partir de um processo de reforma educacional iniciado em 1965. São realidades bem diferentes, mas as soluções encontradas no pequeno país de pouco mais de 5 milhões de habitantes e cerca de 500 mil alunos matriculados na rede básica podem servir de exemplo ao Brasil.
É o que diz Lee Sing Kong, diretor do Instituto Nacional de Educação de Cingapura. Ele participou ontem, no Palácio Pedro Ludovico (sede do governo do Estado em Goiânia), de encontro de especialistas na área educacional, promovido pela Secretaria Estadual da Educação. O evento foi o primeiro de um ciclo de debatespreparatórios da reforma educacional que deve ser anunciada em junho pelo secretário Thiago Peixoto.
Lee, que é professor de Ciências Biológicas da Universidade Tecnológica de Nanyang, fala com entusiasmo do instituto que dirige desde 1991, uma escola de formação de professores na qual ingressam apenas os 30% melhores estudantes do ensino médio. Selecionar e remunerar bem os professores são pontos fundamentais, diz ele, mas não bastam. Os profissionais devem estar motivados e orgulhosos de seu papel na conquista de uma nação desenvolvida.
ENTREVISTA
“É preciso atrair os melhores profissionais para o ensino público”
Da reformulação do currículo à valorização do professor, tornando a profissão atrativa para os jovens. Estes são alguns passos que Cingapura deu para melhorar o sistema de ensino público do país, que era um dos piores e hoje está entre os melhores do mundo. Lee Sing Kong foi um dos responsáveis por esta mudança. Ontem, em visita ao POPULAR, ele deu a seguinte entrevista:
Quais são os principais fatores do sucesso educacional em Cingapura?
Um currículo foi preparado para atender da melhor forma a capacidade do estudante, oferecendo uma maior variedade de informações, em diferentes áreas de atuação. Depois de criado, você precisa de pessoas capacitadas para repassar esse currículo aos estudantes. Assim como diretores treinados para guiar esses professores.
Quanto tempo foi necessário para a implementação dessa nova linha educacional em Cingapura?
Teve início em 1965, quando Cingapura obteve sua independência. Foram necessários 15 anos para a reformulação do sistema educacional. Cingapura investiu 3,6% do PIB em educação. Mas o mais importante não é quanto você investe, mas onde você investe. Os professores são a peça fundamental, especialmente porque eles passam grande parte do dia ao lado dos estudantes, eessa relação deve ser considerada como a mais importante para que o caminho a se seguir traga resultados satisfatórios. Investir na capacidade dos professores é o começo, porque isso está diretamente ligado à capacidade dele em sala de aula.
Como é feita a seleção dos educadores?
Você tem que atrair os melhores profissionais para o ensino público, e quando isso acontecer, oferecer treinamentos adequados e condições estáveis para eles. Deve haver uma forte iniciativa para atrair os candidatos, de uma forma que o mais atrativo não seja o salário, mas as oportunidades que esses profissionaisvão ter. Em Cingapura, elevamos o valor do salário dos professores iniciantes de forma a equiparar com os salários iniciais de outras profissões como engenheiros e administradores. Muitos pensam que elevar o salário dos professores é a melhor forma de atrair os melhores candidatos, mas isso não é verdade. Salário é apenas um componente dessa fórmula.
Como os professores são valorizados em Cingapura?
Em qualquer profissão, existe uma busca constante pela valorização do trabalhador, como promoção em cargos ou posições, mas isso vai depender da forma com que esse educador vai obter resultados favoráveis e benefícios. Mesmo que ele venha a trabalhar pelo resto da vida no mesmo cargo, ele seráconstantemente avaliado em sala de aula e isso aumenta o interesse em se obter resultados reais com os alunos, e com isso se autopromover. Temos uma média de 6 mil professores sendo promovidos por ano pelos resultados obtidos com os alunos.
Como manter um padrão de ensino entre os alunos?
Ao separá-los em grupos, vamos oferecer maiores possibilidades de aprendizagem, porque tentar educar todos os alunos da mesma forma vai abrir portas para a evasão e afetar a autoestima de vários alunos que vão preferir deixar a escola do que se sentirem inferiorizados. Professores passaram a dividirseus alunos em grupos de rápido e lento aprendizado. Com isso, ambos vão terminar o ano com praticamente a mesma bagagem.
Fonte: Jornal O Popular – 13/04/11