31.1.26

Não estamos no Japão

Se chegas em cima da hora, já chegas atrasado. Isto, leitora, aprendi num livro sobre a cultura japonesa, observada por um escocês que por lá viveu uns anos a ensinar inglês. Antes, chegar sempre antes -- para bater o imprevisto. O Japão é dado a catástrofes naturais, como terramotos e tsunamis, daí a necessidade de antecipar, de prever, de prevenir, que se lhes entranhou no quotidiano. Infelizmente, por cá, o livro (Fish Town, de John Gerard Fagan) não deve ter tido grande procura, decerto não foi lido por nenhum dos nossos responsáveis políticos, nem dos mais literatos, aqueles que durante anos falaram sobre livros em horário nobre na radiotelevisão. Seja a tragédia fogo (os incêndios), água ou ar (as inundações e a tempestade), o atraso é omnipresente. Deslocam-se aos locais dos desastres dias depois destes ocorrerem, como se esperassem que entretanto se resolvessem por si mesmos e apenas para a oportunidade de foto, marcam conselhos de ministros de emergência para ainda mais dias depois, titubeiam generalidades inóquas, proferem lições inoportunas aos que, no terreno, estão, na realidade a procurar dar a mão a quem precisa, fogem a perguntas como se estivessem a correr à frente do vento. O quarto elemento, a terra, é o único que ainda não despertou. Assim se mantenha porque, por estas terras, atraso não é falha: é método.

29.1.26

Senhora Vestida de Rubro

No café de Senhor Alberto (não se amofine, leitora, este que lhe escreve rodopia por entre cafés como um dervixe), no café de Senhor Alberto, digo, quando chego, está Senhora Vestida de Rubro a duas mesas de distância, embrenhada em leitura de espesso cartapácio, daqueles onde se adivinham tortuosas intrigas e intensos amplexos.

Traz-me Senhor Alberto o café e o pastel de nata, mais a obrigatória canela, e Senhora continua de olhos assestados no tomo, como se o livro lhe segurasse a alma pela écharpe.

Mas eis que se lhe escapa um suspiro — porventura da alma —, e, olhando para o teto, ou para alguma recordação de um passado que se adivinha longo, interrompe a leitura com um sorriso de quem atinge um píncaro, por instantes, antes de se voltar a perder nas páginas do livro, ou de um qualquer outro mundo para o qual as páginas são apenas um postigo ou, quem sabe, um portão.

25.1.26

Da felicidade sem mestre

Na mesa ao lado, no restaurante de Senhor João, a jovem neta, frente ao seu ainda mais jovem irmão, queixa-se das condições em que lhes foi transmitido o que ambos acabaram de ouvir da boca da terceira ocupante da mesa, que ainda limpa os olhos chorosos: “A avó riu-se tanto a contar a história que eu não percebi nada, nadinha…”

17.1.26

Palmiers descobertos

Os palmiers que descobri na padaria de Dona Joselda são -- se outros motivos não existissem, o que é debatível -- o pretexto mais direto para me condenar às expiações eternas, pelo pecado mais insidioso de todos, o da gula. Ditos palmiers, da dimensão de uma moeda de cinco escudos -- não sei se a leitora tem memória desses tempos, em que ainda se pagava com bom metal sonante e não com precárias ondas de rádio -- são crocantes, estaladiços e rendem-se em estilhaços doces à mais ligeira das dentadas. E, ah, são polvilhados de sementes de sésamo, naturalmente tostadas da passagem pelo forno de Dona.

Dona Joselda fornece-os em saquinhos de duzentos e cinquenta gramas, nem muitos, nem poucos, a medida exata para me tentar a estender a mão de cada vez que deles passo perto. A solução foi escondê-los à vista, na bancada da cozinha, algures entre o sal e a canela. A lógica é que a habituação, a demasiada familiaridade, hão-de fazer com que os ignore, nem sequer os note -- nem o sal nem a canela vizinhos me tentam no quotidiano, logo ditos palmiers, com o tempo também não -- assim o espero, utópico que sou. 

Para já, o plano não está a resultar: os palmiers como que se evaporam de dentro dos sacos. Mas dizem os entendidos que os hábitos precisam de dois meses para se estabelecerem. Lá para abril, já deverei ser capaz de os ignorar por completo. Ou isso, ou assumo -- algum dia seria -- que eu a minha gula temos relação para toda a vida.

5.1.26

A vida dupla de Senhor João

Senhor João do Restaurante, quando não me está a recomendar o peixe mais fresco da ementa, que ele bem sabe que eu não sou de comer carnes de animais de quatro patas e de duas, só quando não pode deixar de ser -- valham-me os de guelras para me ir mantendo à tona de água --, Senhor João, digo, descobri-o agora: quando não está a dançar por entre as mesas como um Carlos Gardel da arte de bem-servir, é agente imobiliário. Satisfeitos os clientes do almoço, arrumadas as mesas com destreza de prestidigitador, eis que Senhor João afivela o seu sorriso mais engravatado e vai por aí fora mostrar moradias, apartamentos, alinhavar contratos-promessa, acertar comissões e até fazer-se à estrada para aquelas convenções das gentes lá do imobiliário, que imagino estarem a meio caminho entre celebração litúrgica e concerto de André Rieu. Foi assim que fiquei a saber: daqui a dias, não há peixe escolhido; aliás, não há restaurante de Senhor João aberto, porque o dito vai de convenção. Não havendo como o convencer a não ir, resta-me autoconvencer-me a almoçar noutras paragens. Vita nuova, diria Dante, ainda que por meia semana. Vencido, mesmo que não convencido: eis o que um Nostradamus míope preveria para este ano, leitora.

4.12.25

Fiapos de História

Quando chego, já lá estão; quando saio, ainda ficam. As obrigações de horários a eles já pouco ou nada dizem -- a mim, contudo, dizem ainda, e com que eloquência. Os participantes da tertúlia na mesa ao lado, no café de Senhor Augusto, mesa da esplanada, faça chuva ou Sol, têm conversa para toda a manhã e talvez mais, já que não sou cliente depois das horas da tarde. Apanho por vezes uns fiapos das conversas. Um deles contava, há poucas semanas, como conheceu pessoalmente John Nash, como o guiou pela Lisboa de outros tempos. Outro deles foi ovacionado, quando chegou, em dia de efeméride nacional recente, por ter aparecido nos jornais em vasta entrevista, com foto de dupla página.

Eu, confesso, vou lá pelo café, mas também pelo pastel de nata. Não fui próximo de prémios Nobel, menos ainda daqueles sobre os quais se fazem filmes, nem guiei forças militares em momentos cruciais ou sequer outros. Vou correr aqui o risco de me contradizer: eu ia lá pelo café, mas também pelo pastel de nata. Agora, vou lá pelos ditos fiapos. O pastel de nata continua a ser o melhor do bairro, o café não, mas não desmerece. Mas aqueles bocadinhos de tempo, que se escoam por entre as mesas, trazidos pela brisa da esplanada, não têm termo de comparação, são exemplares únicos. Mais perecíveis que um pastel de nata deixado ao Sol. Coisa, leitora, que eu nunca faria.