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Ishitara

Ele avança. O chão estala sob os pés. A lâmina corta o ar com violência. Ishitara não se move. Ela está sentada, pernas cruzadas, olhos fechados. Como uma vela ardente diante dele. O golpe atravessa seu corpo. Não há impacto. Não há resistência. A lâmina passa como se cortasse o calor acima de uma fogueira. No instante do atravessar, a arma começa a avermelhar. O punho dele arde. Ishitara abre os olhos. Não há nenhuma reação em seu olhar. Apenas visão. Ela pega o cachimbo ao lado, acende com a própria respiração - sem gesto, apenas intenção - e traga. A brasa no fornilho pulsa como um coração. Ela exala. A fumaça se espalha lenta, densa, silenciosa. As tochas ao redor se apagam. As lanternas morrem. Até o luar parece engolido. Escuridão. No centro da névoa, uma silhueta começa a se delinear,  não feita de chamas violentas, mas de um fogo baixo, constante, quase aconchegante. A voz dela surge de todos os lados e de lugar nenhum: - O que quer? Ele responde de ...

Ecossocialismo como uma necessidade: Entropia e Empenho pela vida

Eu não acreditava que fosse possível voltar no tempo como nos filmes... mas eu me enganei.  Até que me apresentaram a hipótese de acelerar uma das bocas de um buraco de minhoca e, assim, criar uma defasagem temporal entre elas. Ao atravessá-lo, você estaria, tecnicamente, em um momento diferente do tempo segundo o seu próprio referencial. Mas nem é preciso apelar para isso. A verdade é que nós já viajamos no tempo. O tempo todo. O que percebemos como tempo, uma linha contínua que começa no Big Bang e segue adiante, é uma definição newtoniana e ela já caiu no paradigma científico. Esse modelo é um resquício de uma física onde o universo era apenas um palco fixo, e não o ator, o palco e o próprio público ao mesmo tempo. A relatividade e a mecânica quântica são realmente muito doidas.  E, ainda assim, tudo está fadado a morrer. Ou talvez não exatamente morrer, mas se desarranjar. O universo. Você. Até o seu webrelacionamento. Existe uma lei da natureza chamada entropia. Ta...

Por que não sou anarquista?

Não é surpresa para ninguém que eu me considero marxista-leninista e ecossocialista. Mas, ao invés de começar defendendo esse posicionamento de forma direta, prefiro fazer um caminho diferente. Durante muito tempo eu me considerei anarquista. Em parte porque sempre achei atraente estar naquilo que é menos aceito, menos normativo, mais marginal. Mas, honestamente, o que realmente me atraía no anarquismo não era só a estética ou a rebeldia. Era a convicção de que essa é, em essência, a forma como a sociedade deveria se organizar. O mundo é uma teia. Nós somos uma teia. Um fluxo em constante relação e expansão. Sendo assim, por que a sociedade não deveria funcionar dessa forma também? O livro Ajuda Mútua: Um Fator da Evolução, de Kropotkin, foi fundamental para mim, nele é mostrado que, tanto historicamente quanto biologicamente, o que permitiu a sobrevivência das espécies não foi a competição pura, mas o apoio mútuo. Essa ideia sempre me marcou. E isso em tudo, pense nas redes de fio...

Não é que eu não possa, eu só não estou buscando

Eu não tive lá muitas experiências românticas e muito menos sexuais e está tudo bem. Sabe, vira e mexe eu sinto que preciso explicar algo que, pra mim, é simples. Não no sentido de fácil, mas no sentido de claro. Eu não estou fechada à experiência. Não sou contra namoro, não sou contra vínculos alternativos como relacionamentos queerplatônicos, não sou contra sexo, nem contra nada disso. Mas também não estou atrás de nada disso agora.  E isso parece muito difícil de entender num mundo que organiza a vida em torno da busca por relacionamento. Vivo no Brasil, um país conhecido por uma cultura extremamente sexualizada, com iniciações precoces, músicas, conversas e expectativas girando em torno de atração, conquista e casal. Eu nunca me senti pertencente a isso. Não exatamente por não sentir atração sexual, mas porque isso simplesmente nunca ocupou um lugar central em mim. Eu lembro de meu eu adolescente com muita indignação quando ouvia as músicas em alta e percebia que só havia músic...

De repente eu olhei pra Lua e comecei a chorar

Eu sempre gostei da Lua, mas acho que tenho gostado cada vez mais.  Não sei dizer, há um certo símbolo que damos para à Lua: mistério e acalento, sonhos e pesadelo, dormir ou rolê noturno. Mas dessa vez foi diferente.  Eu vi ela pelo reflexo do espelho,  estava em sua fase gibosa minguante,  mas parecia uma super lua, enorme. Como vi pelo reflexo de início nem achei que fosse lua,  parecia uma mancha enorme no céu,  pensei que fosse um foguete ou algo de uma sacada de prédio,  mas era a mesma Lua de sempre. Sabe, ultimamente eu tenho me sentido uma falsidade, eu não sei exatamente o quê, mas algo me tomou conta no período do natal-ano novo. Eu ando vendo como as pessoas estão curtindo suas vidas,  fazendo coisas legais,  e eu estou aqui. Desde criança eu sonhava em ter a idade que eu tenho,  achava que iria encontrar conforto em afetos,  e que ironia pensar que aquela mesma criança que vivia tentando se encaixar,  se podar,...

Magia que existe

Segundo a Teoria Geral dos Sistemas, todo sistema tende à homeostase; porém, diante de um input significativo, ele pende à transformação e precisa se reconfigurar. Nós, seres humanos, somos um biogeohistoricosociopsico-sistema aberto, em troca constante com inúmeros seres e forças. Defendo fortemente que precisamos nos esforçar, nos mover, criar atrito consciente, para não ocupar apenas uma posição passiva nessas relações. Porque, se nada fizermos, será pior... bem pior. Nosso corpo é um ecossistema riquíssimo, e estudá-lo é tão deslumbrante quanto estudar um planeta alienígena. O pensamento e história de qualquer sociedade é também interessantíssimo. Quase nada é tão incrível como se debruçar sobre códigos e linguagens, transformações e atores de um povo (incluindo o nosso que as vezes pensamos que sabemos, mas sob um análise crítica percebemos que só reproduzimos sem entender o porquê). Nossa psiquê, longe de ser algo uno e parado, é um choque-rede amplo de memórias, sonhos, símbolos...

Feminino(s), Masculino(s) e mais

Yin-Yang, Yang-Yin  Masculino e Feminino Isso me cansa! E mais, me sufoca, me persegue.  Você certamente já deve ter visto associações do tipo  "O Sol é masculino.    A Lua é feminina.    O homem sai pra trabalhar, e a mulher faz bolo caseiro". Bom... pelo menos é isso que o conservadorismo quer que você pense. Mesmo se isso fosse verdade (o que não é, é mais um preconceito sobre a natureza), não interessa se o "macho ideal" supostamente caça e a "fêmea ideal" supostamente não. Isso em nada deveria afetar a vida social. Mas vamos desconstruir um tanto disso. Quando nós olhamos pra história, vemos que essa ideia, "macho é assim, fêmea é assado", sempre foi só isso: uma ideia. E uma ideia que sempre vai mudando conforme o lugar e o tempo. O Sol às vezes é tratado como o arquétipo máximo da masculinidade: força, coragem, penetração... Mas isso é só por um olhar possível.... Um olhar colonizado e patriarcal. O Sol também pode ser visto como algo deli...