
Pela democracia liberal, contra o autoritarismo populista

Uns cobardes
Entre democracia e populismo. Entre um racista e xenófobo e alguém decente. Entre quem faz repetidos apelos a Salazar e quem rejeita a ditadura.
Entre um ditador wanna be e um democrata, Cotrim, Gouveia e Melo e Marques Mendes mostraram o seu apoio ao não rejeitarem explicitamente a abjecção. A eles se juntou Montenegro, o qual já tinha mandado as linhas vermelhas às urtigas há muito tempo.
Não foi uma noite má de todo
Podia ter sido melhor se o Ventura não tivesse passado. Mesmo assim, ficou essencialmente pelo mesmo resultado das legislativas.
Agora está na televisão a queixar-se das sondagens manipuladas. É capaz de ter razão – davam-no sempre à frente.
Ficou em primeiro lugar o mal menor. E ganhou o candidato do Montenegro.
Prémio Nobel da Cinologia

Maria Corina Machado prestou-se ao triste papel de se deslocar à Casa Branca para oferecer o Nobel da Paz a Donald Trump, o delinquente que lidera a Gestapo americana e que tudo tem feito para abafar o maior escândalo de pedofilia da história moderna. Só por isto, já merecia que o prémio lhe fosse retirado. Mas, a julgar pela quantidade de delinquentes que já o receberam, conclui-se que foi business as usual.
Não sei o que Corina Machado esperava deste acto de vassalagem canina, para além do sabor dos sapatos de Trump na sua língua, mas nada mudou. Trump não declarou o seu apoio à senhora, não se comprometeu com eleições livres na Venezuela e vai continuar a trabalhar com o regime, que mantém o exacto mesmo poder interno que detinha antes do sequestro de Maduro. Além da remoção de Maduro, nada mudou. Rigorosamente nada.
Compreende-se este estado de coisas: um delinquente entende-se melhor com os seus pares, e a escumalha que lidera o regime venezuelano não é assim tão diferente da escumalha trumpista. É natural que Trump escolha falar e negociar com os autocratas de Caracas. Ou será que já nos esquecemos que este é mesmo Trump que ataca as democracias ocidentais, ameaça invadir o Canadá e a Dinamarca, e estende a passadeira vermelha a Putin, MBS e Netanyahu?
Qual é a dúvida?
Nova Ordem Maquinal

Quem não quer ser Ventura que não lhe vista a pele

João Cotrim de Figueiredo apareceu no panorama político nacional como uma frescura. Um ar que nos dá. Uma brisa que passa. Tal como o partido em que milita.
“O primeiro partido liberal português”, o que em parte pode ter um fundo de razão, é também uma hipérbole porque do PS ao Chega todos eles, de uma forma ou outra, integram o liberalismo nas suas hostes (seja social ou económico). No entanto, passados meses e anos, aquele que parecia, afinal um partido verdadeiramente liberal transformou-se noutra coisa qualquer que pouco tem a ver com o liberalismo clássico que as ideias iluministas nos trouxeram.
O crescimento da IL, que estagnou, fez-se também a reboque do crescimento do Chega. Se o Chega crescia doze, a IL crescia cinco. Sustentado num discurso radical e, em boa medida, também ele populista, a IL atraiu jovens, empresários e gente da elite económica do país, que ali via um espaço da direita neo-liberal mais assumida. E João Cotrim de Figueiredo foi o seu primeiro líder.
Durante anos, defendi a tese de que Cotrim era dos únicos, dentro da IL, com algum bom senso para não defender ideias libertárias que aproximavam a IL de uma nova extrema-direita que surgia e se colava aos movimentos MAGA nos EUA ou que deu o poder a Javier Milei na Argentina. Enganei-me redondamente. Há uns anos, João Fernando teve uma tirada absurda no Parlamento: enquanto se discutia o racismo e a xenofobia na sociedade portuguesa, o então líder da IL, do alto da sua sapiência, comparou o racismo ao desdém que alguns mostram pela elite financeira. Dizia ele que: “Se substituirmos as palavras ‘negro’ ou ‘cigano’ (…) por investidor privado ou investidor bolsista é arrepiantemente próximo da discriminação e do ódio que aqui (…) queremos condenar”. Ri-me, achei atrevido, mas deixei passar. [Read more…]
O triunfo do bordel neofascista

Trump foi, de facto, a melhor coisa que aconteceu a Putin. Aliás, foi revelado esta semana que o Kremlin foi alertado pelos amigos de Mar-a-Lago sobre o que acabaria por acontecer na Venezuela no passado fim-de-semana, e mandou retirar todos os seus diplomatas e respectivas famílias do país.
E se o sequestro de Maduro foi um convite a abdução de Zelensky (ou de Cho Jung-tai), a ameaça de invasão e ocupação do território dinamarquês da Gronelândia é para levar muito a sério. E vai acontecer. Será o fim da NATO, ou pelo menos da encenação multilateral, e um convite à entrada dos exércitos russos pela Europa de Leste adentro. Seremos um quintal com dois donos.
Importa sublinhar que quem defende esta a nova estratégia de Trump está, a partir de agora, na mesma barricada que Putin, Lukashenko e Ali Khamenei, por muito que se esforce por provar o contrário. É, aliás, um traidor no contexto nacional e europeu. Claro que tal não irá afectar minimamente os trumpistas. Os membros de um culto fundamentalista nunca foram conhecidos por valorizar a lógica ou a razão. São fanáticos, idiotas úteis, à espera de migalhas. O mais certo é terem destino idêntico ao do marido da cantora cubana pró-Trump que actuou num dos seus comícios, detido pelo ICE para deportação. [Read more…]
Made in Bangladesh

Isto não é o Bangladesh. Mas as camisolas de campanha do encantador de burros, vêm directamente do Bangladesh.
Nunca acabem, antas com pernas.
ANDRÉ VENTURA ARRASA QUEM APOIA DITADURAS
As relações entre Portugal e a Venezuela esfriaram há alguns anos. Mas não passaram de prazo de validade.
Em 2013, depois da morte de Hugo Chávez – já habituado aos botões de rosa que Sócrates lhe fazia -, Nicolás Maduro assumiu a presidência venezuelana e logo tratou de tentar estreitar as relações entre o seu país e a Europa. Como seria de esperar, Portugal, este país tão forte na letra e tão fraco na acção, estava na linha da frente.
Numa visita à Europa, em Junho de 2013, Maduro aterrava em Portugal. Tinha à sua espera uma comitiva sedenta de negociatas para mascarar as trapalhadas dos cortes e da perda de direitos. Portugal não era novo nas andanças; as relações com o regime venezuelano vinham de trás, com gigajogas à mistura, as relações com a Rússia e com a China viam dias resplandecentes e Angola era uma maravilha para o Estado português.
Recebido pelo primeiro-ministro de então, Pedro Passos Coelho, que resumiu as relações de Portugal com a Venezuela da seguinte forma:
“Não é por de mais dizer que as relações políticas entre Portugal e a Venezuela são excelentes. A visita do Presidente Maduro, incluída na sua primeira deslocação à Europa, é demonstrativa da vontade em aprofundar a parceria existente entre os dois países, fundada numa sólida base de confiança, amizade e compreensão mútuas”, considerou Passos Coelho, numa intervenção de menos de dez minutos.” [Read more…]
Lebensraum

Lebensraum. Venezuela já está. Colômbia, México, Canadá, Canal do Panamá e Gronelândia na mira. Lajes não é preciso. Já é americana.
O que é que justifica um estado capturar uma pessoa estrangeira e julgá-la, para além de dar palha ao gado na arena internacional (e interna)?
A sofisticada Europa do calibre da fruta não tem tomates para dizer à corja a evidência: O que vocês fizeram foi um crime e não têm o nosso apoio.
Quem te mandou aceitar o Nobel da Paz, Maria Corina Machado?

Existe uma diferença entre ordenar um golpe de Estado para instalar um fantoche, como os EUA fizerem várias, sobretudo ao longo da segunda metade do século XX, e o que se passou na noite de Sexta para Sábado, que foi uma operação rápida e tremendamente eficaz de sequestro do presidente venezuelano, seguido do anúncio de Trump de que os EUA irão governar a Venezuela e gerir os seus recursos. Uma espécie de colonização-relâmpago.
Maria Corina Machado, que todos esperávamos ver receber o poder das mãos de Trump, e que muito inteligentemente garantiu que mudaria a embaixada venezuelana em Israel para Jerusalém, algo que acrescenta zero à vida dos venezuelanos, mas que demonstra claramente que Corina Machado sabe onde reside o poder real e que está na disposição de se submeter, foi, ainda assim, prontamente descartada por Trump:
“Não tem o apoio nem o respeito do país.”
O triunfo dos porcalhões
José Gabriel
Vejam-nos em todos os canais. O modo como é dada a notícia. O entusiasmo dos filhos da puta. A submissão, até à oferta anal, da maioria dos comentadores. Que até falam em instauração da democracia, como se a história das intervenções dos Estados Unidos na América do Sul alguma vez tivesse essa preocupação. Foi sempre exactamente o contrário. Lembram-se de Pinochet?
Olhem como quase todos eles se esquecem desta vez, de falar me direito internacional. Os canais televisivos são hoje, sem excepção, a festa dos cevados. Da vacalhada servil. Cérebros, deixaram-nos à porta dos estúdios; só levaram as carteiras.
A posição de presidente da República é a de uma galinha desossada. Diz que vai acompanhar, etc e tal. A fascistagem exulta, quiçá na esperança de que os canalhas norte americanos cá venham fazer-lhe um favorzinho.
Não, criaturas, não está em causa e regime da Venezuela e juízos sobre a sua natureza. O mesmo acontecendo com a já ameaçado Irão. Eu diria precisamente o mesmo em qualquer caso. Mesmo a corja que agora se bamboleia nas televisões sabe que isto não tem nada a ver com democracia nem com narcotráfico, mas com as maiores reservas de petróleo do mundo, mesmo que tenha de se desenterrar a arqueológica doutrina Monroe. Mentem e distorcem porque é para isso que são pagos.
Em vão esperaremos que governantes e responsáveis aflorem o mais pequeno tom de indignação. Agora mesmo o rastejante Marques Mendes mostra a sua estatura de político. Abjecto.
E não esqueçamos a legitimação que este acto confere às outras grandes potências. A Ucrânia deve ter ficado a tremer. Taiwan também. E não esqueçamos e referência de Trump, no primeiro mandato, sobre a posse da Ilha Terceira. Porque já estou a ver os nossos governantes, calças em baixo e cu para o ar, esperando os “libertadores” Yankees.
A Idade Média digital

Esta imagem teve forte circulação nas redes sociais ao longo do dia de ontem.
[Read more…]A Gronelândia está a salvo
Por lá, pó branco, só se for gelo. Como sabemos, o combate à droga é a motivação destas movimentações. A libertação de Hernández foi uma armadilha extremamente inteligente para apanhar os barões da droga desprevenidos.
A palha já lhe enche a boca
Sem grande surpresa, André Ventura come a palha oferecida pelos americanos.
Diz ele no X, “sem o jugo de um ditador narcotraficante“. Como se este acto pirata tivesse alguma relação com drogas.
É isto que alguns portugueses querem para Primeiro-ministro dissimulado de candidato a Presidente da República?
Nova Ordem Mundial

Ainda sou do tempo em que Donald Trump era diferente dos outros, garantiam milhares de trumpettes no país e no mundo.
Ia acabar com a guerra na Ucrânia da noite para o dia, até se tornar mordomo de Vladimir Putin.
Ia denunciar pedófilos e revelar os ficheiros Epstein, até perceber que o seu nome aparecia muitas vezes nos documentos sobre o maior escândalo de pedofilia da história.
Ia defender os valores cristãos até transformar o velório de Charlie Kirk no Super Bowl neofascista.
Ia drenar o pântano até perceber que podia transformar os EUA numa oligarquia onde o nepotismo e as suas amizades pessoais seriam critério de selecção. E assim foi.
Ia acabar com a corrupção, mas depois percebeu que podia lucrar com ela e optou antes por normalizar o suborno e a usar a presidência para corromper e ser corrompido.
Ia combater as elites, mas mudou de alvo e decidiu combater a sobrevivência do americano médio para dar borlas fiscais aos mais ricos entre os mais ricos.
Começa 2026
E pinar, não?
A malta não pina.
A malta queixa-se da “substituição populacional”.
A malta não pina. Mas queixa-se. Mas não pina.

ps: quantos filhos, biológicos ou adoptivos, tem o Grande Líder?
O problema deste conjunto de 61 palavras é haver sete ques
Efectivamente, cerca de 11,5% do total.

O grande negócio da saúde
Os hospitais públicos já não são hospitais, são Unidades Locais de Saúde (ULS).

Mentalidade de Cristiano Ronaldo
Luís Montenegro, o surpreendente primeiro-ministro português, explicou aos portugueses, na sua mensagem de Natal, que devemos ter a mentalidade de Cristiano Ronaldo, a fim de ajudar o país. Procurando reforçar o serviço público, deixo aqui algumas ligações.
Cristiano Ronaldo sobre Trump: «Desejo conhecê-lo um dia para me sentar com ele, é uma das pessoas de que gosto mesmo porque acho que ele consegue fazer as coisas acontecer e eu gosto de pessoas assim.»; Ronaldo agradece a Trump o jantar na Casa Branca.
Cristiano Ronaldo sobre Georgina: «Cuida de mim, o que é muito importante, da família, da casa, o que implica muito trabalho. Se fosse o oposto, eu não conseguiria. Os homens não são capazes, honestamente. »
O patrão de Cristiano Ronaldo: «Só este ano, a Arábia Saudita executou 340 pessoas.»; «Cristiano Ronaldo volta a dar voz a campanha internacional da Arábia Saudita»
Talvez o problema de Portugal seja a mentalidade de Cristiano Ronaldo. Adapto um provérbio, a propósito da escolha de Luís Montenegro: diz-me quem elogias, dir-te-eis quem és.
Ginásio para a cabeça
Este texto não foi escrito com o auxílio da inteligência artificial, IA para os amigos chegados. Apesar da comodidade das palavras estatisticamente seriadas, com as vírgulas e os pontos nos sítios certos e sem confundir “à” com “há”.

Isto não é Portugal

Cláudio Nunes Valente, cidadão português com autorização de residência nos EUA, que entrou no país em 2000 para estudar na prestigiada Brown University, era o principal suspeito pelo homicídio do físico e professor do MIT, Nuno Loureiro. Suicidou-se pouco antes de ser detido.
Não vim aqui em modo crónica criminal, deixo isso para os populistas profissionais da imprensa sensacionalista, mas quero falar-te sobre o outro lado deste caso escabroso. Sobre o facto de, na sequência do sucedido, Donald Trump ter mandado suspender o programa de vistos DV-1.
Agora repara: por causa de um criminoso, todas as pessoas que se candidataram e entraram nos EUA com um visto DV-1 são agora colocadas em causa. Incluindo outros portugueses, trabalhadores e honestos, sem manchas no currículo. Como se a maioria fosse culpada pelos crimes de uma pequena minoria.
Nada disto surpreende. É a extrema-direita a ser extrema-direita. A extrema-direita que generaliza de forma abusiva para criar medo e alarme, e poder apresentar-se como a solução que não é. E não é muito diferente daquilo que André Ventura, o CH e os incels da quadrilha do palerma que odeia mulheres defendem para Portugal: se um imigrante cometer um crime, sobretudo se for pobre e do subcontinente indiano, a culpa é colectiva.
A grande diferença, parece-me, é que, desta vez, quem vai pagar as favas, nos EUA, serão, também, emigrantes decentes que decidiram deixar o nosso país para procurar uma vida melhor do outro lado do oceano. Emigrantes que muita dessa gente diz defender e representar, pese embora prefira agradar ao corrupto que lidera o culto MAGA, porque o seu nacionalismo está ao nível do de um nazi latino que acredita na superioridade da raça ariana.
Outra diferença é que não há um único registo de um imigrante do subcontinente indiano que tenha assassinado um português em solo nacional. Mas Gurpreet Singh foi assassinado por dois portugueses em Setúbal. É por estas e por outras que a generalização deve ser manuseada com cautela. Nunca sabemos quando nos pode rebentar nas mãos.
O progresso ortográfico português
I don’t trust him one iota.
—Cycling MikeyStreets and shoesAvenues
—Jim Morrison… indicating that Chinese would face perceptual difficulties in these sounds.
–Zhang & Liao (2023)
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Prestes a terminar 2025, feito o ponto da situação orçamental, quer aqui, quer no Público, convém responder a duas perguntas:
- Em termos de montra, o problema esgota-se no OE, na CGE e no DR?
- Porque é que Objetivamente é uma coleção da Objectiva?
Começando pela primeira pergunta, responda-se não. Pessoa muito chegada pediu-me recentemente informações sobre as alterações da lei laboral. Remeti-a para sindicalista de conhecimento comum. O documento encontra-se aqui (pdf) e aquilo que nele se lê justifica o não ainda agora indicado.
Repare-se naquela inspectiva

e nestes respectivos

Acordo Ortográfico de 1990? Para quê?
Portanto, não.
No que diz respeito à segunda pergunta, a resposta é [Read more…]
Há lugar para os pobres nas residências? E na política pública?

Foto: Leonel de Castro/Global Imagens (arquivo)
A polémica sobre as declarações do ministro da Educação, Fernando Alexandre, teve tudo o que uma boa polémica de redes sociais tem, hoje em dia: péssima habilidade comunicacional, declarações truncadas em vídeo que se tornam virais, e indignação primária, pedindo a cabeça do ministro de imediato.
Posso falar disto com total legitimidade: vi o vídeo cortado, reagi a quente e pedi a cabeça do ministro. Depois vi e ouvi as declarações completas e percebi que o problema em questão era outro.
Vamos a factos: é falso que o ministro tenha declarado que os alunos carenciados são os responsáveis pela degradação das residências. Este foi o ponto essencial da polémica e é factualmente falso.
No entanto, há um problema subjacente às declarações que é importante salientar e dissecar.
Fernando Alexandre defende que as residências não devam ser repositórios de alunos de classes baixas porque, no seu entender, quando um serviço público é usado apenas pelas classes mais baixas, tende à degradação. Poderá ser isto porque essas classes têm menos voz e menos poder reivindicativo (como defende Daniel Oliveira) ou porque, como o usufruto desses serviços é “pelos pobres”, perde-se o incentivo da sua manutenção e boa gestão.
E é neste segundo ponto que está o grande problema. O ministro pode e deve identificar esta ideia como um problema. Não pode é demitir-se das suas responsabilidades enquanto ministro da pasta.
E tenta fazê-lo quando nos apresenta a sua solução: se as residências foram usadas por outros estratos sociais, então será possível garantir que não se degradam.
Isto cria dois problemas. Em primeiro lugar, diz-nos que, na opinião de Fernando Alexandre, o Estado, no qual ele é o representante da tutela, pode “transferir” a sua responsabilidade de gestão e manutenção da “coisa” pública, se esta for apenas usada ou dirigida para as classes mais baixas.
E em segundo lugar, perpetua o papel das classes mais baixas enquanto classe sem papel ou poder reivindicativo. Porque se a condição para a não degradação é a existência da classe média em convivência com a classe baixa, então a classe baixa torna-se figurante do seu próprio direito, empurrada para um papel subalterno.
Nada disto põe em causa o que devem ser ambições em ter um ensino superior de qualidade, com o seu acesso garantido a quem o quiser frequentar.
O Estado pode e deve aspirar a que as residências universitárias se tornem espaços de diversidade social, abertas à comunidade, talvez até em competição com o sector privado, arrefecendo um mercado que configura a maior despesa de um aluno deslocado.
Mas o problema mais urgente a resolver é outro: tendo em conta a falta de residências, a prioridade absoluta deve ser direccioná-las para os alunos mais desfavorecidos, evitando que o acesso ao ensino superior se torne dependente da classe social; e garantindo a sua manutenção e gestão cuidadas e próximas, aplicando mecanismos de responsabilização quer com os utilizadores, quer com os gestores mais directamente envolvidos (as universidades e os seus departamentos de acção social).
Só assim poderemos ter um Estado equilibrado e que garanta a redução de desigualdades de origem, permitindo que o elevador social que o ministro fala possa funcionar, evitando que se criem, pelo caminho, cidadãos de primeira e cidadãos de segunda.
Privados a prestar socorro?

Foto: CNN
O Ministério Público abriu, nos últimos anos, vários inquéritos a mortes relacionadas com falhas estruturais do INEM. Uma morte que fosse serviria para nos colocar em estado de alerta.
Afinal, quando falha o nosso serviço de emergência médica nacional, o que nos resta como sociedade? Não estamos todos dentro dessas falhas? Ou continuamos, ingenuamente, a ver o Estado como uma entidade quase onírica, muito longe da nossa acção diária, cívica e política?
O INEM tem sido casa de várias situações que nos deviam envergonhar, porque representam uma disfuncionalidade que diz respeito a todos nós. Bombeiros a exigir ao Estado e ao INEM o pagamento de dívidas relacionadas com acções de socorro – ou seja, bombeiros a financiar o próprio Estado; profissionais do INEM que se queixam da falta de atractividade das carreiras, dos baixos salários e da ausência de reconhecimento. Ainda este ano o Ministério das Finanças autorizou a ultrapassagem das horas extraordinárias previstas por lei, para evitar o colapso. E é esta multiplicidade de casos que nos demonstra uma falência do sistema: a sobrecarga de pessoas levadas ao limite para compensar aquilo que o Estado não assegura.
É factual que o orçamento da saúde, em sede de Orçamento de Estado, tem crescido. E isto tem sido usado como argumento em forma de soundbite para atacar o SNS enquanto estrutura pública de suporte aos cidadãos. Mas mais dinheiro não significa necessariamente melhor serviço. É possível, aliás, existir um aumento de orçamento simultâneo com um desinvestimento funcional, quando a valorização das carreiras dos profissionais de saúde não é equiparada à sua importância na sociedade. E tudo isto com um objectivo muito claro: o ataque posterior a um SNS em falência, que abre a porta ao sector privado como salvador óbvio do sistema.
Vem tudo isto a propósito da revolução que o Governo quer operar no INEM, com as ambulâncias de socorro a serem geridas pelo sector privado, segundo parecer da comissão técnica independente. Enquanto mais desenvolvimentos não existem, subsistem algumas questões às quais ainda não temos respostas: quanto custará esta decisão aos cofres do Estado, sendo que a rubrica “aquisição de bens e serviços” do orçamento da saúde representa, há vários anos, cerca de 50% do bolo total? Os privados que ficarão a gerir as ambulâncias vão garantir uma cobertura nacional? Se decidirem não cobrir determinadas zonas, por “questões de rentabilidade”, o Estado vai assegurar essas zonas, pagando em dois lados?
Já não estou em idade política de negar, por princípio, a existência do sector privado na saúde. Mas estou convencido de que essa existência deve estar subjugada a uma lógica de escolha livre dos cidadãos. E a escolha só será livre com a existência de um serviço público de excelência, que valorize profissionais, carreiras e meios, e não com a sobrecarga permanente e a normalização da exaustão.
E se tudo isto parece demasiado longe do nosso dia-a-dia (enquanto não precisamos de chamar o INEM), vale a pena fazer um exercício simples: o que diríamos nós se tivéssemos de lidar com o stress que lidam estes profissionais e nos víssemos obrigados a trabalhar sistematicamente para além dos limites legais porque não há contratações suficientes? O que sentiríamos se o nosso novo chefe (aqui o novo presidente do INEM) decidisse excluir quem não concordar com as mudanças no sistema? A democracia não é apenas um sistema político; é uma forma de estar na vida e no trabalho.
Engane-se quem pensa que este texto e este problema são sobre o INEM. São, na verdade, sobre o país em que queremos viver.
André, a greve e a espinha

Em Novembro, André Ventura estava preparado para ser o parceiro do governo Montenegro na aprovação da contrarreforma laboral.
Sobre a greve geral de ontem, que criticou de forma veemente, Ventura garantiu tratar-se de “um erro em que só a extrema-esquerda e os partidos a ela ligados conseguem ver qualquer benefício”.
Ontem, dia da greve geral, o mesmo Ventura criticou o governo, que acusou de arrastar o país para aquele desfecho, arvorou-se em defensor dos direitos dos trabalhadores (que obviamente não é), quase quase a filiar-se na CGTP, e disse esta coisa fantástica, que cito: “[O governo] optou por uma espécie de linha liberal, que dá ideia a quem trabalha de que pode ser despedido a qualquer altura, que vai perder direitos e que só interessa quem manda e não quem trabalha, e isso é errado.”
Num mês é uma tramoia da extrema-esquerda, no outro é vil ataque neoliberal do governo aos trabalhadores.
Porquê?















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