Eleição de Trump em 2024: o que é óbvio, mas ninguém enxerga. O ódio como instrumento de lobby econômico.

Posted on 07/11/2024. Filed under: Finanças |

Não amigos leitores, não vou repetir os argumentos do artigo de 09/11/2016 (link abaixo). O que falei lá está integralmente válido, mas cometemos os mesmos erros.

Por que Trump venceu as eleições nos EUA? Esqueça as análises simplistas, a coisa é ainda mais simples do que parece.

O insight para este artigo surgiu após tentativa de análise sobre a eleição mais polarizada da história dos EUA. Quando temos 2 candidatos, e 2 grupos políticos, afirmando que a vitória do outro acabará com a democracia, está meio claro que não há mais democracia nenhuma, temos é metade do país sendo governada por gente que odeia a outra metade.

Não é para ser assim nas democracias. Para uma democracia prosperar, existem valores perenes que ambos os grupos devem reconhecer, e isso parece ter sumido da prateleira do eleitor.

Ao tentar explicar o fenômeno, me deparei com 2 enfoques, um óbvio e outro oculto, que ajudam a entender os motivos dessa recente polarização exacerbada.

O modelo a seguir me parece suficiente para entendermos o que está acontecendo, não só nos EUA, mas principalmente lá.

O motivo óbvio para a polarização: o excesso de poder estatal

Perto do fim da eleição americana, a polícia de NY invadiu a casa de um influencer que havia adotado um esquilo (Peanut) havia 7 anos, e cuidava dele como Pet. O esquilo tinha milhões de seguidores. Fofíssimo.

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Alguma alma amarga denunciou (aparentemente quem denunciou tinha ódio porque o esquilo tinha mais seguidores do que ela), a polícia invadiu, levou o esquilo e “praticou eutanásia” no bichinho. Um eufemismo para dizer que matou o esquilo. Isso mostrou um estado sem racionalidade, sem razoabilidade e sem limites. Teve repercussão mundial.

No passado a democracia era funcional e a divisão era menor, pois a sensação de poder estatal era infinitamente menor.

Nos livros fundamentais sobre liberalismo, como A Lei de Bastiat, já ficava claro que o fundamento da liberdade reside no controle do poder estatal. Controle e vigilância permanentes para que o estado não exacerbe o poder de ter o monopólio da violência legitimada.

Hoje, as pessoas perceberam que o governo pode lhes tirar as sensações mais básicas de liberdade. O governo tem quase total controle e vigilância sobre a ação dos indivíduos. Temos câmeras por todos os lados, com facilidade os governos conseguem acesso até ao que a pessoa doou para movimentos que desafiam as ordens estatais.

No Canadá, um hacker vazou dados de uma vaquinha online e quem doou para o movimento de caminhoneiros (contrário a medidas do governo) foi perseguido, processado e multado violentamente pelo governo.

Hoje o paradigma democrático mudou. O cidadão corre riscos desproporcionais por ideias e ações que eram normais no passado. Passado não é 1850, mas apenas 5 anos atrás.

Outro dia um ministro brasileiro retirou livros jurídicos antigos de circulação, por trechos preconceituosos. Mas não só, ele colocou uma multa de 150.000 reais por danos morais coletivos aos autores. Isso pode acontecer com qualquer um, pois ninguém sabe qual será o zeitgeist permitido daqui a alguns anos. Qualquer um que opine hoje está no risco de ter sua visão punida desproporcionalmente no futuro. E, no caso, foi uma decisão da mais alta corte brasileira, portanto o recurso será… à mesma corte. É muito poder ao estado, muita fragilidade do cidadão.

E olha que as moedas digitais de emissão dos bancos centrais ainda nem começaram sua trajetória nas democracias!

Não estou fazendo julgamento de valor sobre os atos estatais, apenas indicando que o superpoder estatal é um motivo claro para exacerbar a polarização, pois provoca medo crescente nas pessoas, o que leva ao extremismo. Principalmente quando esse poder excessivo é aplaudido e encorajado por metade da população que (ainda) não é vítima dele.

Mas creio que isso não explica a polarização por inteiro, pois em tese o superpoder estatal pode atingir a todos, em ambos os lados. E de fato atinge.

Então, por que alguém agiria tão violentamente para defender uma entidade que pode, a qualquer momento, se virar contra ele próprio?

O motivo oculto: O ódio como instrumento de lobby econômico.

O melhor modelo para entender qualquer jogo político é identificar o que é necessário fazer para não perder acesso privilegiado ao poder e ao orçamento.

No Brasil, somos pobres, e quem busca o acesso privilegiado ao orçamento são, basicamente a burocracia e os capitalistas alinhados. E justamente por isso somos pobres. Mas nos EUA o acesso ao orçamento e às decisões políticas é disputado por grandes empresas, as maiores do mundo, que travam disputa diretamente através de lobbys bilionários, através do investimento em campanhas políticas em todos os níveis, desde procurador e juiz, até senador e presidente.

Olha o tamanho de mercado que a indústria quer controlar: só de juros ao ano, paga-se US$ 1,1 trilhão. Quase isso para a indústria de seguro saúde (medicare) e mais do que isso para a indústria armamentista. Só nesses três exemplos, temos finance, health care e war lutando por controle sobre decisões de quase 3 trilhões de dólares.

Só a empresa Raytheon, que produz o míssil Tomahawk, vale mais do que as 5 empresas mais valiosas do Brasil. Não é brincadeira.

Mas isso é conhecido. O que, de fato, mudou?

O que mudou foi o risco de perder o controle sobre a política, criado pela liberdade de comunicação nas redes sociais. A descentralização da formação de opinião e a geração livre de conteúdos, com potencial de viralizar, atropelaram os modelos de controle do acesso ao orçamento e ao poder político.

Aqui no Brasil a gente lembra que quase todas as repetidoras de TVs abertas estavam nas mãos de grupos políticos. Inúmeras rádios. Isso dava um potencial real de controle sobre a opinião pública. Não é diferente nos EUA. Com falência do “business” jornalístico, boa parte dos veículos hoje são de propriedade, direta ou indireta, de magnatas da tecnologia, das finanças e do entretenimento. Que perdem dinheiro no negócio, mas mantêm o controle da informação.

Ao contrário do que o brasileiro pensa, o tal “teatro das tesouras” não é um teatro eminentemente ideológico, mas uma dança coordenada para que ninguém perca o controle sobre o orçamento e o poder, mesmo que o adversário vença. E no passado isso era bem fácil de controlar, hoje não é mais.

O Brexit, Trump, Bolsonaro entre outros, são considerados outliers, resultados fora da caixinha. Gente com quem as “teias de controle” ainda não foram plenamente tecidas, o que torna os resultados das suas políticas, imprevisíveis. Isso é intolerável para quem depende de acesso aos orçamentos e a influenciar as políticas públicas.

E aí veio a grande sacada das corporações.

Perceberam que o ódio é um sentimento que faz a pessoa defender qualquer coisa, portanto ter uma polarização baseada no ódio é uma forma eficaz de manipulação da opinião pública.

Outro dia o Trump disse que a filha do Dick Chenney era obcecada com a guerra, toda hora queria mandar tropas ao exterior. Nesse contexto, ele disse que deveriam colocar ela no front, com uma metralhadora, enfrentando os soldados inimigos, para ver se ela manteria a opinião. O contexto óbvio era criticar os burocratas de ar-condicionado que mandavam os jovens para morrer na guerra. O mesmo que os Hippies e a esquerda americana sempre falaram. Mas virou um “chamamento para o fuzilamento de Liz”. 99% das redes de TV trataram dessa forma.

Mas olha que que interessante. Mesmo com o discurso do Trump se alinhando ao discurso dos pacifistas nos EUA, a estrutura baseada no ódio e na divisão é tão forte, que fez os pacifistas atacarem violentamente um discurso que os agradaria, caso estivessem livres para avaliar.

Quando alguém odeia alguma coisa de forma cega, é fácil usar esse ódio para alavancar sentimentos de interesse da indústria. Um pacifista vira apologista de guerra.

O caso da Big Pharma na pandemia foi pedagógico. Exclusivamente por questões políticas, pessoas que passaram a vida inteira atacando a corrupção da indústria, passaram a ser os maiores defensores dessa mesma indústria. Pessoas que assistiram o filme “Clube de Compras Dallas” e tiveram empatia pela comunidade afetada pela AIDS no filme, em 2020 passaram a ter empatia pela indústria (e na vida real). Exatamente as mesmas pessoas.

Hoje os progressistas da esquerda americana são os maiores defensores do envio de armas à Ucrânia e de uma “vitória final” contra Putin.

Essa mesma esquerda progressista, que no passado era chamada de liberal, hoje pede desesperadamente pelo controle das redes sociais e pela criminalização do discurso e das ideias.

Isso é instrumentalização do ódio, por motivos políticos e, principalmente, econômicos.

A forma com que a indústria e os lobbys conseguiram neutralizar o risco dos outliers, dos franco-atiradores, dos políticos “antissistema”, foi essa. Eles dominam a opinião pública diretamente, fomentando ou se aproveitando do ódio político, e a partir desse ódio, conseguindo que as pessoas apoiem suas pautas. Independentemente de quem está no poder.

É uma ideia bem simples e eficaz.

Para conseguir apoio irrestrito ao uso do orçamento para armas ou para explodir a dívida, basta mostrar que o outro candidato apoia o fim da guerra ou o controle de gastos. Imediatamente o ódio vai cegar a análise individual e transformar um pacifista em um war hawk, um natureba em um defensor da indústria farmacêutica e um liberal em um defensor de censura.

Em vez de as ideias dos lobistas e da indústria serem tratadas e trabalhadas diretamente com os candidatos financiados, como era feito antes com ambos os lados, a polarização abriu espaço para que os interesses fossem capitaneados diretamente por pessoas comuns e influencers em redes sociais. Hoje a indústria dialoga, de forma escamoteada, diretamente com você.

Olha que interessante. Hoje há força suficiente nas redes sociais para defender aumento do controle estatal, regulação de redes sociais, fim da liberdade de expressão, apoio à imigração sem limites, apoio ao aumento do gasto estatal e aumento da dívida pública, fim da agropecuária, aumento de impostos, perseguição a adversários políticos e até para uma terceira guerra mundial NUCLEAR. Nem precisam de políticos, já há uma legião de defensores fervorosos de tudo isso.

São ideias que geram trilhões de dólares para as indústrias, criam dívidas impagáveis, retiram a liberdade individual, colocam em risco as democracias e até a existência da civilização. E são as pessoas que estão pedindo. Pedindo não, exigindo, obrigando. Mais do que isso, odiando quem defende o contrário.

Devo tirar o chapéu para as corporações. Não acho que isso faça parte de um “grande plano conspiracionista”. É só gente sagaz, competente e bem remunerada nas corporações, se aproveitando de uma situação nova que foi criada pela tecnologia. Não é “rocket science”. É $$$.

Em conclusão.

Evidentemente que ambos os motivos, o óbvio e o oculto, precisam funcionar em conjunto. O nível de ódio necessário para que um pacifista defenda uma guerra nuclear só existe porque ele teme que a vitória do adversário político poderá destruir sua vida. E isso só é possível por acreditar que o poder estatal não tem e não terá limites.

O republicano acredita que os democratas transformarão os EUA numa terra sem lei, sem fronteiras e sem liberdade de expressão, com o governo cada vez mais poderoso desarmando a população, já o democrata acha que o republicano vai transformar os EUA numa versão real do Conto da Aia (Handmaids Tale).

Ambos só têm esse medo porque a primeira parte já foi feita, os governos ficaram, de fato, superpoderosos, e têm condições legais e institucionais de criar transtornos infinitos e irreversíveis às suas populações.

Não. Não há nenhuma mensagem final nesse artigo. É só um diagnóstico mesmo, a construção de um modelo racional para que a gente entenda o mundo.

Cabe a cada um de nós avaliar se faz sentido o que está escrito, e evitar cair no jogo de ódio cego, que é tão prejudicial e que nos transforma nas pessoas que sempre detestamos.

Olho aberto e seja o senhor da sua própria vida.


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    O Autor espera que os temas educacionais do blog possam ajudar no desenvolvimento e no entendimento das nuances do mercado de ações, mas reitera que a responsabilidade pela decisão de investimento é sempre do próprio investidor.

    Sejam bem vindos!

  • Paulo Portinho

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    PAULO PORTINHO, engenheiro com mestrado em administração de empresas pela PUC-Rio, é autor do Manual Técnico sobre o Método INI de Investimento em Ações, do livro "O Mercado de Ações em 25 Episódios" e do livro "Quanto Custa Ficar Rico?", os dois últimos pela editora Campus Elsevier.

    Paulo atuou como professor na Pós-graduação de Gestão Social da Universidade Castelo Branco e na Pós-graduação oferecida pela ANBIMA de Capacitação para o Mercado Financeiro.

    Atuou como professor da área de finanças e marketing na Universidade Castelo Branco e no curso de formação de agentes autônomos do SINDICOR.

    Como executivo do Instituto Nacional de Investidores - INI (www.ini.org.br) entre 2003 e 2012, ministrou mais de 500 palestras e cursos sobre o mercado de ações, sendo responsável pelo desenvolvimento do curso sobre o Método INI de Investimento em Ações, conteúdo que havia chegado a mais de 15.000 investidores em todo o país, até o ano de 2012.

    Representou o INI nas reuniões conjuntas de conselho da Federação Mundial de Investidores (www.wfic.org) e da Euroshareholders (www.euroshareholders.org), organizações que congregam quase 1 milhão de investidores em 22 países.

    Atuou como articulista do Informativo do INI, do Blog do INI, da revista Razão de Investir, da revista Investmais, do Jornal Corporativo e do site acionista.com.br. Foi fonte regular para assuntos de educação financeira de veículos como Conta Corrente (Globo News), Infomoney, Programa Sem Censura, Folha de São Paulo, Jornal O Globo, entre outros.

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