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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Dois mundos com bússolas trocadas

 

Por
Economista

Todos os dirigentes políticos da União Europeia no poder, incluindo o governo português, tiveram um comportamento deplorável de submissão [a Trump], excepção feita a Pedro Sánchez, primeiro-ministro de Espanha, o único capaz de dizer não aos EUA.


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O mundo da Ásia

A visita oficial de 4 dias à China de Lee Jae-Myung, desde junho de 2025 chefe de Estado da Coreia do Sul, teve início a 4 de Janeiro de 2026 (nenhuma outra houve desde 2019).

Lee e Xi Jinping já se tinham encontrado 2 meses antes, precisamente em Novembro, na Coreia do Sul, à margem da Cimeira de líderes da APEC (Cooperação Económica Ásia-Pacífico), onde publicamente mostraram uma troca pública de boa disposição.

O que a experiência nos ensina é que se torna difícil navegar nos meandros destas iniciativas. Há aspectos visíveis e formais, quase nunca os mais importantes, quer para um lado quer para outro, por vezes tão diferentes, a influência, a empatia, o prestígio, o abrir portas de cooperação e entendimentos futuros… e, nem sempre, os acordos assinados revelam muito do que se passou.

Acontece que, nesta zona do mundo, há, presentemente, relações muito tensas por exemplo, entre a China e o Japão, pois a primeira-ministra japonesa, Sanae Taikachi, resolveu subir ao palco com uma “coreografia” pouco própria e um texto ainda pior, onde dizia que as forças armadas do seu país poderiam envolver-se com as de Pequim, caso a China tomasse medidas contra Taiwan. Tão a despropósito, que até Trump (apesar da proximidade das suas ideias políticas) lhe sugeriu maior contenção de palavras. Sabe-se que Trump, nem os seus amigos, respeita. Pense-se no que se passou com Corina Machado da Venezuela. Lá no íntimo, Corina deve ter pensado. Tão amigos que nós éramos, até lhe dediquei o prémio nobel da paz e, agora, tão desrespeitada!

Antes da viagem oficial a Pequim, Lee Jae-Myung concedeu uma entrevista à TV estatal chinesa (CCTV), a primeira entrevista de Lee, na residência oficial da Presidência, transmitida na sexta-feira, dia 2 de Janeiro.

Os temas abordados foram de enorme significado e alguns muito clarificadores “politicamente”, aliás, no polo oposto da PM japonesa.

Lee, nesta sua entrevista, disse esperar que o povo sul coreano compreendesse o seu Governo nas relações com Pequim e clarificou que vai praticar “a política de uma só China”, coerente, aliás, com a campanha eleitoral, na qual expressou: um eventual conflito China/Taiwan não diz respeito à Coreia do Sul. E acrescentou, sendo os EUA, o principal aliado militar da Coreia do Sul, esta situação em nada tem de interferir nas relações Seul/Pequim.

O que significa a “política de uma só China”?

Este princípio, definido em 1992, significa a existência de uma China apenas, ou seja, Taiwan faz parte da China, embora com especificidades próprias de organização política.

Esta visita oficial de 4 dias recaiu sobre a normalização das relações entre os dois países, tornadas muito tensas no mandato do anterior Presidente e a partir daí estruturar uma parceria estratégica de cooperação e de paz.

Na cimeira entre Presidentes, que teve lugar, dia 5, segunda-feira, foram estabelecidas as grandes bases de cooperação, sabendo-se que a China solicitou apoio à Coreia na reconstituição histórica da problemática de Taiwan (tema antes abordado entre os ministros dos negócios estrangeiros) e a Coreia do Sul a intervenção da China junto da Coreia do Norte sobre a problemática dos mísseis.

Depreende-se que os avanços satisfizeram os dois lados, pois em termos económicos, os países têm diversas áreas de complementaridade e, em termos tecnológicos, uma cooperação sólida torna-se importante ao desenvolvimento económico de cada um dos países. Foram assinados 24 contratos de exportação, totalizando cerca de 44 milhões de dólares.

A cimeira deu um passo significativo na normalização das relações e na reconfiguração do “ambiente asiático” de cooperação e pela paz, consignada esta última, nas seguintes frases: “interesse comum pela paz na península coreana” e “a importância de retomar o diálogo com a Coreia do Norte”.

O mundo das Américas

Sobre o mundo das Américas reina a grande complicação. Os analistas/comentadores e os políticos no poder, sobretudo os europeus, falam muito a medo de direito internacional não cumprido, mas, de um modo geral, avalisando a agressão militar da Venezuela pelos EUA, onde destaco a ridícula e triste figura de Macron, que primeiro condena e depois elogia e o chanceler Merz muito preocupado em encontrar uma justificação “de jure” para a situação. Com esta preocupação, melhor seria ter enviado uma “douta” equipa de juristas a Trump!!

Acho tudo isto uma enorme falácia. Direito internacional se o há, os EUA nunca o respeitaram em toda a sua história. E com Trump, menos ainda. Agem pela força, segundo os seus interesses.

Na invasão da Venezuela e captura de Maduro e de sua mulher, os EUA marcam um ponto de não retorno nas relações internacionais em termos de soberania política dos países. O “reconhecimento” da soberania política esvaiu-se e a sua conceptualização, apesar da grande flexibilidade, tornou muito incerta a vivência “nessa ordem internacional baseada em regras”.

Ora, isto ultrapassa a tão apregoada doutrina Monroe. Há até quem já lhe tenha atribuído outra sigla Donroe (o D sabe-se de onde vem), que me parece mais ajustada.

Na sigla Donroe, sou levado a ver uma mistura de Faroeste americano com métodos mafiosos de gangsterismo. Neste caso, há uma clareza total de que o móbil central foi o assenhorear-se das reservas do petróleo (e outras) do país Venezuela, a favor dos grandes grupos petrolíferos de raiz americana. Vamos saber se eles o querem, pois segundo os especialistas, a situação não é convidativa. O lucro não está à mão de semear. Os investimentos exigidos atingem valores exorbitantes, recuperáveis só a prazos muito longos que chocam com os interesses das grandes companhias e, num ambiente político de grande incerteza, o risco pode ser excessivo. Campo aberto para os grandes facilitadores de negócios.

Esta situação vai dar ainda muito que contar.

O filme mais interessante será aquele que alguém vai produzir um dia. O da triste e vil tristeza que lançou a manta do fazer passar manhosamente ou a apoiar a acção trumpista na Venezuela com promessa de não ficar por aqui, quer na América Latina, quer na constituição do Hemisfério Ocidental. Todos os dirigentes políticos da União Europeia no poder, incluindo o governo português, tiveram um comportamento deplorável de submissão, excepção feita a Pedro Sánchez, primeiro-ministro de Espanha, o único capaz de dizer não aos EUA.

Como diz o ditado, a “missa ainda vai no adro”. Imagine-se agora Trump a ocupar a Gronelândia. Será que também vai raptar a PM do reino da Dinamarca?! Não chegará a tanto. Mas que a Gronelândia vai cair nas mãos de Trump, parece-me líquido. Trump anda cego por terras raras, embora não domine as tecnologias da fileira e a China, de certeza, que não as vai “ceder” neste contexto turbulento em que anda o mundo. Sem domínio da tecnologia pouco lhe serve.

Mas o mote está dado. Barcos russos e chineses já são vistos pelos binóculos de Trump em águas da Gronelândia!

A quem vai o reino da Dinamarca pedir protecção? A Trump, como principal país da Nato, para que este não demore muito na captura da Ilha! À União Europeia, para quê?! É um filme surreal… ficamos cá para ver.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O Estado considera os insulanos corruptos... até prova em contrário!

 

Não sei o que andaram a fazer ao longo dos últimos dez anos. Esta história do "Subsídio Social de Mobilidade" tresanda ao mofo da incompetência política numa mistela onde sobressai a ausência de respeito pelos povos insulanos. Os eleitos, aqueles que assumiram responsabilidades governativas regionais, que dominam tudo quanto mexe, que se arvoram como únicos interlocutores com a República, afinal, não passam de figuras decorativas secundárias sem qualquer credibilidade junto dos ministérios. Aqui, o peito enche-se, embora de ar viciado e, aterrando em Lisboa, os pulmões murcham o que os leva a piar baixinho. Concordaram, vergaram-se e, agora, porque, politicamente, têm de acenar ao povo eleitor da Madeira, aparecem altivos como se imaculada tivesse sido a sua postura enquanto lutadores. A ideia que fica é a de atirar, bem para longe, a responsabilidade política deste nebuloso processo. Dez anos é tempo demais, convenhamos!


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Desde logo, a palavra "subsídio". Para mim é desadequada, por isso, ininteligível, porque arrasta consigo, não a expressão de um direito constitucional (o da continuidade territorial), mas qualquer coisita oferecida às mãos estendidas de quem quer sair das ilhas. É isso. 

Chamem-lhe o que quiserem, ou nenhuma designação atribuam, se os insulanos apenas tiverem de pagar, directamente, às companhias ou agências, os valores estipulados, sem papeladas de permeio. Sem o inferno dos CTT e de plataformas burocráticas.

Aliás, se dizem que, a partir de agora, em 24 ou 48 horas devolvem o dinheiro adiantado, pergunto, porque não devolvem, no mesmo espaço de tempo, às agências e às companhias aéreas?

Eu sei, para o Estado, todos são corruptos até prova em contrário. Daí a enervante burocracia. 

Mais. Por que raio os insulanos têm de adiantar dinheiro ao Estado, se esse Estado em circunstância alguma adianta aos cidadãos?

Depois, o que ninguém explica, é o que está verdadeiramente na causa deste inferno: que lobbies estão por detrás de tudo isto, desde as agências às companhias? Esmiúcem, expliquem-se e, ambos os poderes, não façam dos madeirenses parvos. Que posições foram assumidas durante todo este tempo, na Assembleia da República e junto dos governos, para que esta trapalhada não tivesse chegado ao ponto que chegou?

Segundo as contas do DN-Madeira, publicadas na edição de hoje, a exigência de mais dois papelinhos, o da Segurança Social e o da Autoridade Tributária, colocará cerca de 15 000 insulanos excluídos do pagamento da parte compensatória. Isto quando são dois aspectos distintos: por um lado, a mobilidade e, por outro, o não cumprimento de obrigações previstas na Lei. Um constitui um legítimo direito; o outro, um dever que está sujeito a penalizações e criminalizações. Que têm um espaço próprio de verificação, regularização e eventual condenação. E tanto que assim é que os sucessivos governos nunca impuseram tamanha afronta. 

Junta-se a tudo isto uma outra situação: se se trata de um princípio constitucional gerado pela continuidade territorial, que razões justificam que a compensação seja apenas feita nas ligações entre a Região e os aeroportos portugueses? Se um cidadão tem uma ligação, por exemplo, directa a Madrid, qual o facto que justifica uma paragem em Lisboa, Porto ou Faro? O valor a pagar não é, grosso modo, € 79,00? Desde que justificada a viagem com documentos, onde reside o problema? Vangloriam-se da Madeira estar cada vez mais ligada ao Mundo, porém, na prática, o povo insulano é literalmente secundarizado.

Tudo isto e muito mais não se resolve com "ofícios" e e.mails. Resolve-se quando os madeirenses decidirem manifestar-se junto dos órgãos de governo próprio. Em uníssono e em grito. Já não há paciência para tantos actos que cheiram a desprezo, incompetência e, até certo ponto, transportam o odor de um colonizador.

Ilustração: Arquivo próprio

sábado, 3 de janeiro de 2026

Votarei Seguro

 

Poucos candidatos à Presidência da República, depois do que escutei, colocando na borda do prato todos os aspectos que considero irrelevantes ou mesmo infelizes, tiveram o condão de surpreender-me. À partida, em um ou outro, não existindo alternativa, podia considerar o meu voto. Pela atitude e visão humanista, pelas preocupações para com o país e o mundo, enfim, candidatos com um perfil mais ou menos adequado para o exercício do cargo. Independentemente da idade, do sexo e passado partidário. Muitos outros, desde início, rejeitei-os liminarmente.


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Por esses não nutro qualquer simpatia que me leve, sequer, a considerá-los. Não se apresentam de forma séria para tamanha responsabilidade. Parecem-me mais apostados na visibilidade pública, pouco se ralando com a leitura do país nos planos interno e externo. 

Ora bem, neste contexto, já decidi a quem vou entregar o voto logo na primeira volta. Na Presidência da República não desejo ambientes de folclore político, selfies de propaganda, uma tendência para estar presente em tudo o que mexe, costelas partidárias e vozes extremadas geradoras de conflitos. 

O cargo é demasiado sério como representação de Portugal no Mundo e como equilíbrio político na gestão interna. Desejo um presidente com um passado institucional, sem qualquer mancha no plano pessoal, que entenda a política como uma missão de serviço público à comunidade, moderado, equilibrado nas decisões, sereno, discreto, dialogante e jamais populista. Desejo um presidente que esteja atento, que se mantenha distante mas também próximo do povo. Um presidente que constitua uma reserva a quem o país possa deitar a mão quando tudo o resto resvala.

É neste ambiente que elejo António José Seguro. Não pela nossa relação desde o tempo anterior à sua eleição para secretário-geral do PS, mas pelo que representa enquanto pessoa sensata e sensível, prudente, nada dado à política espectáculo, que não banaliza a nobre missão do exercício da política, que nunca se vendeu aos bocados, que não está à mercê dos novos ricos, abrindo-lhes portas, alguns que, subtilmente, subvertem o jogo da democracia. António José Seguro representa, para mim, a esperança para um país que parece ter perdido o norte, o país que morre aos poucos, que é permanentemente enganado, por isso mesmo pobre. A esperança, não porque lhe compita governar, mas pelo acto moderador e visionário que Seguro sempre demonstrou e que o conduziu a vencer dois actos eleitorais: as autárquicas de 2013 e as Europeias de 2014. O Povo reconheceu-o. Foi Ministro e Deputado no Parlamento Europeu, missões desempenhadas com indiscutível mérito reconhecido pelos seus pares. No contexto de então, venceu e saiu, sem remorsos e sem conflitos públicos. Regressou à sua actividade profissional e, passada uma década, apresenta-se a falar do futuro, com as mesmas características pessoais que o tornaram referência política. 

O ex-Ministro da Saúde, Dr. Adalberto Campos Fernandes foi assertivo: "(...) A discrição protege a política da tentação do improviso permanente. É a escolha de falar quando necessário, e não porque o ciclo mediático exige palavras. É a recusa de transformar a Presidência num palco de vaidades ou numa experiência voluntarista que, pela ânsia de marcar presença, compromete a estabilidade das instituições e a confiança dos cidadãos. Assumir a discrição é, portanto, afirmar uma ética pública: a de que o papel presidencial não é amplificar o ruído, mas enquadrá-lo. Um Presidente da República não governa, mas orienta. Não legisla, mas inspira. O que define o seu mandato são os valores e não apenas as intenções políticas, e um quadro ético capaz de atravessar conjunturas. (...)"

Por isso, votarei em António José Seguro porque o país precisa de uma presidente experiente e "seguro" em todos os sentidos.

Ilustração: Google Imagens.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Tema proposto: "Compromisso partidário para evitar eleições antecipadas"


A escola educadora e transformadora não existe. Logo, o compromisso não pode existir.


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Como pode haver compromisso se não estamos a educar para o rigor e a responsabilidade? O compromisso não se decreta, ele constrói-se, paulatinamente, na conjugação de princípios e de valores que a sociedade vai intuindo. Ora, falhando aí, não existe possibilidade de acordos políticos consistentes e portadores de futuro, quando se perdem referências essenciais, quando a família e a escola falham, quando se assiste a um contínuo resvalar das regras mais básicas do comportamento social, quando se perde o sentido que o exercício da política constitui um serviço público temporário à comunidade e não um interesse profissional e de vida. Os acordos tornam-se, assim, frágeis, pontuais, marginais e até inviáveis, quando não sobressai a formação básica mais elementar. Hoje, já não basta um aperto de mão para selar um compromisso.

A muitos custa dizer bom dia; obrigado; por favor ou retirar os olhos do computador quando se atende alguém. Ocupa-se todo o espaço de uma escada rolante, estaciona-se indevidamente e conduz-se sem respeito pelas regras e pela segurança. Escrever ou tecer comentários absolutamente insensatos e desprimorosos tornou-se normal, tal como ser agressivo, violento e grosseiro. Fugir aos impostos ou permitir que a corrupção se torne paisagem, vender, aos poucos, a honra, alimentando o chico-espertismo, o compadrio ou a existência de grupos favorecedores dos seus interesses, tornou-se uma tendência. Ora, quando isto acontece, a ausência dos valores mais básicos toma conta de tudo o resto. Torna-se rastilho.

Não se trata de uma percepção minha, mas de uma constatação, este evidente, contínuo e preocupante deslizar que perturba, como se a palavra educação no âmbito dos valores tenha, hoje, um novo significado. Atente-se no que visualizamos e escutamos nas confrangedoras "arenas" do debate político, os ares altivos, as ofensas dirigidas por palavras e gestos, onde é sensível a ausência de verdadeiros estadistas, daqueles que se preocupem com as gerações seguintes. Tudo gira em função do posicionamento ideológico, da preservação do lugar e da eleição seguinte.

No essencial, tudo aquilo que é básico acaba por estruturar a atitude e a forma como enfrentamos os processos, entre outros, os de natureza política. E o compromisso, note-se, não implica concordância, mas a inteligência que determina que nos acordos bem-sucedidos todos perdem para que todos possam ganhar. Falta essa cultura maior que a família, pouco exigente, genericamente, não dá e que o sistema educativo, intencionalmente, tem ignorado.


Vive-se, portanto, num círculo vicioso e pernicioso de causas multifactoriais. Transmitidas e degradadas de geração em geração, não apenas pelos avanços da tecnologia (redes sociais e outros), mas pelo quadro dramático que a escola configura, cada vez mais preocupada com o cumprimento dos currículos e dos extensos programas, de muitos conteúdos para esquecer, numa absurda política enciclopédica e de competição por notas, mas nada desenhada visando uma consistente formação do ser humano. E a formação é muito mais que responder de acordo com os manuais. Precisamos, portanto, de uma escola que privilegie o pensamento, o rigor, a responsabilidade individual e colectiva, a humildade, a solidariedade e o compromisso, que não tenha medo de falar de política, que combata as muitas iliteracias e que, neste contexto, saiba estruturar, em liberdade, o conhecimento compaginado com a vida em sociedade. Essa escola educadora e transformadora não existe. Logo, o compromisso não pode existir.

Os compromissos políticos, respeitadores das diferenças ideológicas, só serão possíveis quando a escola for cultura e expressão máxima da obra de construção do ser humano. Enquanto tiver uma raiz enciclopédica, os resultados serão os que as estatísticas e análises demonstram. O problema é que essa escola de cultura, rigor e responsabilidade ninguém a deseja inaugurar. Percebo. Por um lado, porque exige sabedoria e leva muito tempo a estruturá-la; por outro, porque o poder imediato e as suas teias constituem o “bloom” das suas vidas políticas.

domingo, 21 de dezembro de 2025

A pior crise da economia alemã no pós-guerra

Por
João Abel de Freitas, 
Economista

O tecido económico alemão é carente em energia. Com os preços vigentes e o modelo energético existente, nada a fazer. A desindustrialização entrou em processo sucessivo, com perdas significativas de emprego a vários níveis.


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“A economia alemã está em queda livre e o governo não está, ainda, a reagir com a firmeza necessária”, palavras de Peter Leibinger, Presidente da Federação das Indústrias Alemãs (comunicado de 2/12/2025), a maior Federação Patronal. “Aguardamos uma queda de 2% na produção deste ano, ou seja, a produção industrial encontra-se em queda pelo quarto ano consecutivo” e, em sua opinião, esta crise não é pontual, nem temporária. Decorre de um impasse estrutural.

A Federação das Indústrias Alemãs exige, então, do governo de Friedrich Merz: “políticas económicas com prioridades claras para a competitividade e crescimento”, sob pena, subentende-se, de um mergulho da economia alemã e, por arrasto da europeia, por tempo indeterminado e problemático.

Como se referiu no artigo de opinião da última quinzena, “a falência da política energética alemã”, não se vislumbra qualquer luz ao fundo do túnel, que indicie uma mudança substancial, consequente e robusta, neste domínio, na Alemanha (nem na União Europeia), a causa principal de tamanho descalabro. Remendos, como a electricidade subsidiada às empresas, que Merz decretou, não são solução e, deste modo, a economia alemã não conseguirá recuperar a competitividade perdida.

O tecido económico alemão é carente em energia. Com os preços vigentes e o modelo energético existente, nada a fazer. A desindustrialização entrou em processo sucessivo, com perdas significativas de emprego a vários níveis. A título de exemplo, refira-se que a produção no sector automóvel caiu 20%, (desde 2019), equivalente a 150 000 desempregos e, a indústria química, na sua globalidade, encontra-se no pior nível dos últimos 30 anos.

Acrescento que alguns segmentos acusam reduções na produção, superiores a 50% e outros enfrentam o seu desaparecimento. Na indústria química, uma das fortalezas anteriores da indústria alemã (líder mundial em grande parte dos segmentos produtivos), continua a transferência de unidades empresariais para a Índia, China, Estados Unidos, na mira de aproveitamento da energia bem mais barata, na relação de 3 para 1.

Aquando das sanções à Rússia, associações empresariais e sindicatos, em exposições conjuntas, alertaram e questionaram o governo alemão para quão errado e prejudicial era o tipo de sanções na calha e, opuseram-se veementemente, de formas diversas, porque sentiam, com razão, que essas sanções (corte nos abastecimentos de gás) afectariam fortemente, em primeiro lugar, as indústrias intensivas em energia, mas os políticos europeus, levianamente, deixaram-se ir na onda das decisões de Joe Biden, esquecendo as profundas diferenças Europa/EUA, em matéria energética. Alguns dirigentes políticos ainda mostraram relutância, mas, não foram consequentes, deixando a Comissão Europeia de mãos livres!

O Governo alemão tem plena consciência da grave situação em que o país está mergulhado. Mas não encontra saída, porque continua preso politicamente à não aposta na energia nuclear e a prosseguir caminhos nada inteligentes, como a substituição de energia fóssil (carvão) por energia fóssil (gás natural), para alimentar as 40 centrais a gás, que decidiu instalar, tornando-se até ao final da década o quarto maior importador mundial de GNL, só atrás da China, Coreia do Sul e Japão. Para isto, tem de apostar em terminais GNL (5, no mínimo) o que acarreta um elevado nível de investimento e um aumento da emissão líquida de CO2, contrariando o que diz defender, em termos de transição climática.

Estas decisões errantes denotam um desnorte.

E, se a isto se acrescentar que Grécia, Itália e Reino Unido vão recomeçar, em 2026, as perfurações na procura de petróleo e sobretudo de gás nas suas águas marítimas, a dose de hipocrisia não pode ser maior. Outros países europeus, como a Polónia (esta em onshore) e a Noruega, vão pelo mesmo caminho.

Compreende-se a necessidade europeia de baixar os preços da energia, mas não pode é jogar em tabuleiros contraditórios, de forma um tanto quanto clandestina e com exigências do cumprimento de abandono da energia fóssil a países emergentes, quando estes pretendem explorar os seus recursos! E menos ainda aparecer em fóruns internacionais, como aconteceu recentemente na COP 30, em Belém/Brasil, com a União Europeia arvorada em campeã da mudança climática?!

Recuando à década de 2010, a economia alemã apresentava um ambiente de prosperidade, com uma saúde excelente, a operar na base de um modelo exportador de produtos de elevado valor acrescentado e qualidade, sobretudo nos sectores de bens de equipamento e da química, onde detinha os maiores grupos mundiais na química de base e produtos farmacêuticos, com uma elevada taxa de ocupação das empresas, usando gás russo de baixo preço e, assim, era tida como o grande motor da União Europeia.

O que mudou desde então?

Quase tudo. Menos o pensamento retrógrado e subserviente aos EUA. Várias condicionantes se conjugaram na década de 2020, pondo a nu a fragilidade dos modelos económicos alemão e europeu (demasiada dependência da energia russa), aliadas a decisões erradas dos órgãos comunitários como no ramo automóvel ou o não avanço na construção de mercados únicos (áreas financeira e energia designadamente) como bem apontam Draghi e Letta nos seus relatórios, a burocracia complexa em crescendo que emperra o regular funcionamento da máquina comunitária, atrasos tecnológicos, a falta de diplomacia internacional apropriada e, recentemente, as tarifas Trump, a que se submeteram sem resposta própria e dignidade, corroendo, tudo isto, ainda mais os alicerces da economia europeia.

E agora com Trump, a situação veio complicar-se ainda mais porque Trump privilegia os negócios querendo o fim da guerra a qualquer preço e a União Europeia desarticulada, decadente e sem rumo, vai flutuando, completamente aos papéis.

Tanto assim é que, no terreno, está a ser substituída por um Triunvirato (Macron, Merz e Starmer, primeiro-ministro inglês, que nem comunitário é). Não se percebe o rodopio de reuniões de capital em capital com Zelensky sempre atrás que, penso, já pouco neles “acredita”, mas não pode descolar.

Neste rodopio, a União Europeia “desapareceu”. Ursula von der Leyen e António Costa são, de vez em quando, convidados para o chá das cinco pelo referido Triunvirato. Os restantes países da União, uma vez ou outra, correm para umas pretensas reuniões que não levam a conclusões de jeito.

O Triunvirato teme ser marginalizado, posto de lado nas decisões sobre a guerra da Ucrânia. Daí a “coligação da boa vontade” andar sempre a girar, digamos, encenou em permanência a peça do “rodopio/corrupio”, infelizmente, com actores de péssimo desempenho. Aparece ainda a rebaixar o nível, o sr. Rutte da Nato, que mais não é que um pau mandado dos EUA. Fala grosso, tenta provocar alarme. Ninguém o leva a sério. Bem pode irmanar-se com a sra. Kallas, a comissária europeia das relações externas.

A acabar, bem andou o “Media” Político, que, neste Ocidente “zombi”, escolheu Trump, a personalidade mais importante da Europa, em 2025!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

"ESTAMOS NO TOPO DA EUROPA E DO MUNDO"


"(...) Estamos num país onde há estabilidade política, económica e financeira (...) sentida no dia-a-dia das famílias e dos portugueses, como é reconhecido a nível internacional. Portugal é um país onde a credibilidade e a reputação são elevadas. Estamos mesmo no topo da Europa e do Mundo". - Primeiro-Ministro Luís Montenegro.


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Não se torna necessário ser muito profundo na análise. Basta ler o relatório mais recente da Cáritas, "(...) apresentado pelo Observatório da Pobreza e da Fraternidade, onde os dados de 2024 revelam um cenário preocupante: cerca de 460 mil pessoas vivem em condição de privação material e social severa, 266 mil não têm acesso a uma alimentação adequada e cerca de um milhão de portugueses não conseguem dispor de uma pequena quantia para gastos pessoais (...)". Depois, é o drama da habitação, dos jovens que têm de sair do país, a situação difícil de uma esmagadora maioria dos aposentados, o que se passa nos sistemas de Saúde e na Educação, a sentida falta de rigor, planeamento, o desrespeito pelas prioridades, enfim, vive-se uma situação que parece ser desconhecida do Senhor Primeiro-Ministro.

Mesmo a má propaganda tem limites. Certamente que o Dr. Luís Montenegro não falou para os "(...) Mais de dois milhões de pessoas que continuam em risco de pobreza ou exclusão social em Portugal - revelou o “Portugal Balanço Social 2024”.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

A falência da política energética alemã


Por

O “chavão” Energiewende não passou de uma moda perigosa, em profunda falência, mas que “afundou” a União Europeia, em especial, a Alemanha, devido ao seu perfil produtivo específico.


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Energiewende é a denominação usada para identificar a “revolução da energia” na Alemanha. Esta “revolução” arrancou em força, a partir de 2000 com o governo do chanceler Schroder que incentivou e favoreceu o desenvolvimento das energias renováveis (eólica, solar, …), associadas ao gás natural, proveniente da Rússia, e tentou banir a energia nuclear, com o fecho da última central em 2023, reabrindo algumas a carvão em sua substituição.

Esta política, muito acarinhada pela Senhora Merkel, após 2011, tomou força pelos efeitos nefastos, nomeadamente o elevado número de mortes do Tsunami, em Fukushima/ Japão, transformado em grave acidente nuclear, hoje corrigido, pois os factos analisados vieram comprovar que os problemas com a central de produção de energia nuclear foram decorrentes do Tsunami e não consequência do funcionamento da central. Se, ali, estivesse outra unidade de produção energética, em vez da nuclear, as consequências teriam sido de natureza semelhante. Refira-se que o número de mortes atribuídas à central foi corrigido para zero, contrariando o que, então, diziam os antinuclear.

Este entusiasmo da Chancelar Merkel não se limitou apenas à Alemanha. Estendeu-se, ou melhor, impôs-se à União Europeia onde nenhum país escapou. Mesmo a França não ficou impune, tendo inclusive feito arrastar alguns dos seus governos (Lionel Jospin p.e.) a priorizar o investimento nas renováveis contra a matriz instalada de base nuclear. Macron, enquanto ministro da economia, entrou “na moda”, só corrigindo a rota, aquando da sua candidatura à Presidência da República.

A Alemanha serviu-se das ONG, para minar as estruturas e os meandros da União Europeia, no sentido da promoção das renováveis contra a nuclear. Muitas dessas estruturas, ainda hoje, continuam oleadas e a emperrar processos relativos à nuclear, apesar da Aliança Europeia Nuclear – o grupo de países que agrega mais de metade dos da União Europeia – defender que a nuclear é uma energia limpa, base de uma política energética soberana e, da própria União Europeia, a custo, ter reconhecido o contributo seguro da nuclear no consumo equilibrado, quer das pessoas, quer das empresas, quer ainda de uma maior prevenção contra os apagões.

Resumindo, o “chavão” Energiewende não passou de uma moda perigosa, em profunda falência, mas que “afundou” a União Europeia, em especial, a Alemanha, devido ao seu perfil produtivo específico, que nunca mais se segurou, desde que perdeu o acesso (contratado) que tinha ao abastecimento de gás russo, no decorrer da Guerra na Ucrânia (Fevereiro2022).

Em artigos de opinião, aqui divulgados, chamou-se a atenção para algumas ideias/causa da crise profunda (política e económica) que estava/está a corroer a União Europeia e, essa crise, cito: “pode levar a que, em 2050, represente apenas 15% do PIB real mundial contra 22,8% hoje, enquanto os EUA pouco mudarão, continuando em torno dos 35,4%. Estes valores constam de um livro conjunto de Patrick Artus, economista francês de renome e da jornalista Marie-Paule Virard, onde se admite que esta queda se deve a bloqueios estruturais existentes que é urgente ensaiar como os ultrapassar, sob pena da UE continuar em definhamento, a maior ou menor velocidade”.

Há um ano, Draghi acentuou que um dos grandes bloqueios do progresso é a energia que, dado o seu elevado custo, retira competitividade aos países da União Europeia, tornando-se urgente formular uma estratégia para remover “o alto custo da energia que se havia tornado o principal obstáculo da economia europeia”, obstáculo esse que se repercute, de forma desigual, consoante os países.

A “grande solução” por parte da União Europeia foi acomodar o relatório de Draghi, bem no fundo da gaveta e [continuar a viver “num mundo de fantasias”, estabelecendo metas intangíveis, sem antes ter preparado “as ferramentas” para enfrentar o novo mundo decorrente da necessária transição energética e da redução das emissões de gases com efeito de estufa – como se disse em outro escrito].

O novo Pacto Verde e propostas da União Europeia levadas à COP30 em Belém no Brasil, recentemente realizada, são bem exemplos desse “lirismo”. Pretender estar na vanguarda do combate às energias fósseis, continuando a investir nelas é um contrassenso. Mas é o que acontece na Alemanha que tem uma linha de investimento para centrais a gás para equilibrar a intermitência das energias solar e eólica.

A Alemanha

Os preços da electricidade na Alemanha mais que duplicaram nos últimos anos. Em Outubro (2025) atingiu mesmo, em média, o preço mais elevado da Europa.

Comparando a França com a Alemanha, em termos de preço, temos: €40,35 por MWh na Alemanha contra €25,24 em França (cerca de 60% mais elevado). Face aos EUA e China, em média, é o triplo. Como competir em indústrias electro intensivas com estas disparidades?!

Sendo a energia um dos factores críticos da competitividade europeia, difícil se torna carregar mais no botão! Ou se muda ou se afunda. Não se auguram bons percursos para a energia na União Europeia. O desentendimento continua muito forte entre os países por divergências de interesses entre lóbis que funcionam nos meandros das máquinas europeias. E, por correlação, a perda de competitividade continuará por muito tempo e a desindustrialização é uma saga.

Subsidiação à electricidade

Perante a desindustrialização continuada, perante centenas de milhares de cortes no emprego em sectores industriais, perante deslocalizações e encerramento de empresas, sobretudo nas áreas da química, metalurgia e electromecânica, o governo alemão decidiu tomar medidas de emergência para tentar “restaurar” a competitividade de suas empresas.

Essas medidas traduzem-se numa elevada subsidiação às tarifas da electricidade, orientadas para os grupos industriais. Segundo li, nos Media da especialidade, o governo do chanceler Friedrich Merz anunciou em finais de Outubro a introdução de uma tarifa de eletricidade fortemente subsidiada para os fabricantes. A medida, que não passa de um paliativo, deverá traduzir-se num montante da ordem de €3 mil milhões a €5 mil milhões por ano. Merz acrescentou ainda que “as discussões com a Comissão Europeia estão em grande parte encerradas“.

É de perguntar: quanto tempo durarão estes subsídios? Porque não se encontrou referência a medidas que poderão corrigir a situação para a retirada dos subsídios.

Tudo isto prova que a Energiewende faliu. A situação em nada está diferente de quando arrancou. O enquadramento europeu mudou e tudo ficou na mesma. Medidas como as sanções económicas só aprofundaram a situação.

O que vai a União Europeia oferecer?

O seu novo Pacto Verde, que continuará a aumentar os preços da energia. Não sou eu a dizê-lo, mas especialistas europeus. “O próximo passo, que promete ser perigoso, é a entrada em vigor, adiada de 2026 para 2027, do novo sistema europeu de permissões negociáveis. Uma verdadeira bomba-relógio. Isso resultará num aumento vertiginoso dos custos de energia para as pessoas e empresas. Trata-se de fornecedores de energia comprarem permissões no mercado de carbono que lhes permitam ir além da redução de emissões imposta pela Comissão Europeia”.

Com remendos que nem chegam a ser, nunca mais construiremos uma política de energia sustentável, base de uma competitividade a sério a contribuir para a criação de riqueza e bem-estar das pessoas europeias.

Esta União Europeia, cada vez mais em perda, caminha para onde?

sábado, 22 de novembro de 2025

“A sensação do dever cumprido”: vida e obra do Dr. João da Cruz Nunes


Por
Henrique Sampaio
Publicado no Funchal Notícias
21/11/2025

Nota
Um notável contributo para a História. Parabéns Amigo Henrique Sampaio

Ficaram conhecidos como os «Padres do Pombal» e marcaram profundamente uma época da Igreja na Madeira. Desempenharam um importante papel na afirmação pessoal e social de uma geração de jovens e adultos durante a década de 60 e a 1ª metade dos anos 70 do século XX. Acabaram ostracizados pelo bispo de então, Francisco Santana e como alvo privilegiado do bombismo flamista e do partido que tomou conta do poder político na Região.


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A comunidade dos «Padres do Pombal» – assim designada por os seus membros terem habitado uma casa localizada no nº 24 da Rua do Pombal, na cidade do Funchal – foi inicialmente constituída por três sacerdotes: os drs. João da Cruz Nunes e João Arnaldo Rufino da Silva, e Gabriel Lino Cabral. Mais tarde, no início da década de 70, juntar-se-lhes-ia o padre Francisco Sidónio Figueira, regressado de Roma, onde estudara Psicologia, no Ateneu Pontifício Salesiano.

Nessa casa alugada, os três padres acabaram por criar, a partir de 18 de Agosto de 1966, um espaço de partilha, de solidariedade, de entrega aos outros, patente em pequenos gestos: a simples conversa, o ouvir música, a refeição em comum. Uma porta sempre aberta e por onde entraram muitos outros sacerdotes e inúmeros leigos, empenhados ou não na construção de um mundo mais justo e fraterno. Um local visitado por outros sacerdotes do Continente ou dos Açores que se deslocavam à Madeira e até por gente que, no pós -25 de Abril de 1974, viria a ocupar lugar de destaque na governação regional, como era o caso, por exemplo, de Luís Dantas – chefe de gabinete de Alberto João Jardim – que acompanhava sua mulher, Alexandra Dantas, colega do dr. Cruz no Liceu do Funchal.

Num texto produzido a partir da intervenção num jantar/debate de uma tertúlia de Madeirenses em Lisboa, um dos seus membros, o dr. Cruz, como era conhecido, descreve “o Pombal” como “o local de encontro, de partilha e de reflexão sobre temas de carácter teológico, eclesial e social, tendo como objectivo a organização de uma acção pastoral diferente, inovadora, adequada aos novos tempos e mais eficiente na formação e transformação dos membros da própria Igreja”. Em declarações reproduzidas no livro “Jardim, a grande fraude, uma radiografia da «Madeira Nova»”, o dr. Cruz afirmou: “Trabalhamos fora e dentro da Igreja. Fomos crescendo. Chegamos a ser à volta de 20 padres que se comprometeram e assinaram documentos e foram até falar com o bispo por causa da pastoral”.

Martins Júnior, que foi contemporâneo de todos eles, numa publicação no seu blog «Senso @Consenso», datada de 21 de Julho de 2016, dois dias após o falecimento do dr. Rufino da Silva – Lino Cabral falecera já em 6 de Julho de 2000 -, designou-os como “«Quatro Cavaleiros do Apocalipse» da segunda metade do século XX na Madeira. Homens de cultura, verticais na sua personalidade de «antes quebrar que torcer», numa incondicional entrega à transformação das mentalidades anquilosadas da ilha, modelos de comportamento cívico e eclesial. Pedagogos e mestres exímios, cada qual na sua área”.
Em comum, os aludidos padres tinham o facto de desempenharem funções de assistentes de movimentos de apostolado católicos. Lino Cabral, era, há já alguns anos, o assistente de todos os organismos agrários (rurais) da Acção Católica – começara por suceder ao Padre Agostinho Jardim Gonçalves como assistente da JACF, quando este, em Setembro de 1960, foi chamado a exercer as funções de assistente nacional da JOCF -, o mesmo sucedendo com o dr. Rufino da Silva, como assistente dos escuteiros, enquanto que Sidónio Figueira foi assistente da LEC (Liga Escolar Católica), por nomeação do então bispo da diocese, D. João Saraiva. Por sua vez, o dr. João da Cruz regressara de Lisboa a 13 de Fevereiro de 1966, onde fora defender a tese de licenciatura em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, um trabalho com o título «Os falares da Calheta, Arco da Calheta, Paul do Mar e Jardim do Mar», esta última a freguesia de onde era natural. Partilhavam ainda o facto de serem todos professores. Rufino da Silva era professor de Música nos dois Seminários diocesanos e no Conservatório de Música da Madeira. Lino Cabral leccionava Religião e Moral na Escola Industrial e Comercial do Funchal (hoje Escola Secundária Francisco Franco) e Sidónio Figueira dava aulas de Português, inicialmente na referida Escola e mais tarde no Liceu (hoje Escola Secundária Jaime Moniz). Já João da Cruz era também docente de Português, mas igualmente de Francês, tendo começado no Liceu e posteriormente na Escola Preparatória da Calheta – e tinham sido ainda professores do Seminário.

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Inicialmente, João da Cruz esteve para ser colocado no Liceu como professor de Religião e Moral, o que não aconteceu por oposição do então reitor, André Cymbron, tendo o novo bispo do Funchal, D. João Saraiva o nomeado assistente diocesano da JECF (Juventude Escolar Católica Feminina) e responsável pelo Centro Académico do Funchal, um organismo então dividido em dois espaços (masculino e feminino), ambos localizados na Rua dos Ferreiros, no Funchal. Escassos meses volvidos, o bispo questionou-o se preferia trabalhar com a LEC que abrangia o sector dos professores ou com os organismos operários da Acção Católica. E o dr. Cruz assume a opção pelos «mais pobres» e torna-se assistente diocesano dos quatro organismos operários: JOC e JOCF e LOC e LOCF. Uma escolha que decorre da convivência mantida em Lisboa com um outro padre madeirense, Jardim Gonçalves que, no final dos anos sessenta, rumara à capital portuguesa para assumir o lugar de assistente nacional da JOCF, mais tarde da LOC e da LOCF e de assistente europeu do Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos e que, posteriormente, seria nomeado pela Santa Sé o 1º Assistente Geral do MMTC, com sede em Bruxelas, cargo que desempenhou durante largos anos. Na dedicatória do livro que reproduz a aludida tese de licenciatura, o dr. Cruz não deixa margem para dúvidas (passo a citar): «Ao padre Jardim, amigo de sempre, que me ajudou a descobrir valores existenciais e a ganhar amor à classe operária» (fim de citação).

A Acção Católica, criada em 1933 pelo Papa Pio XI, chegaria a Portugal em Novembro desse ano, pela mão do então Patriarca de Lisboa, Manuel Gonçalves Cerejeira, instalando-se vagarosamente na Madeira a partir do final de 1936. Nos seus primórdios assumiu-se, sobretudo, como um espaço de reflexão litúrgico-religioso e de prática caritativa, assistencialista, patente designadamente na efectivação de campanhas de angariação de fundos visando possibilitar a retirada de seis famílias que viviam em furnas no Toco, no Funchal, ou na colaboração prestada na recolha de fundos para a criação da Universidade Católica de Lisboa, ou na dimensão litúrgica-religiosa, a celebração, na 1ª sexta-feira de cada mês, de uma missa, na Sé Catedral, destinada à juventude operária, a que se seguia um pequeno-almoço oferecido aos participantes, na sede da JOC, sita à Rua do Bispo, 27.

É na sequência da participação de algumas dezenas de militantes, no 1º Congresso Nacional da JOC/F, realizado em Lisboa em 1955, e dois anos depois no Congresso Internacional em Roma, que se dá a abertura a novos horizontes e a introdução de uma maior dinâmica por parte dos movimentos, masculinos e femininos, suscitando uma outra atenção para a realidade social em que viviam as famílias operárias, desprovidas em grande parte de condições de vida e de trabalho minimamente dignas, contrastando com a emergente afirmação da Doutrina Social da Igreja que o Concílio Vaticano II haveria de consagrar em plenitude.

É também por esta altura (1956) que, por iniciativa do então bispo da diocese do Funchal, António Manuel Pereira Ribeiro, se dá a expansão da A. C. no meio rural madeirense, tendo sido incumbido de constituir as direcções diocesanas da JAC e da JACF o Pe. Jardim Gonçalves.

Um ano antes (1959), de ser nomeado assistente nacional da JOCF, Jardim Gonçalves organizou no Funchal um Encontro de Estudos dos diferentes movimentos da A. C. existentes na Madeira, cujas conclusões apontavam para a existência de um vasto conjunto de problemas que afectavam seriamente a vida das populações rurais e urbanas: desde o injusto (feudal e desumano) regime de colonia; inexistência de luz eléctrica em inúmeras localidades; escassez de água potável, de vias rodoviárias, de transportes e de saneamento básico; graves carências habitacionais, de acesso à saúde, à educação e a uma alimentação saudável, aliadas a um elevado consumo de álcool, em particular de vinho.

No decorrer do Concílio Vaticano II (iniciado em 11 de Outubro de 1962), é criado em Portugal o CCO (Centro de Cultura Operária), designação adoptada à semelhança do «Centre de Culture Ouvrière» de França (hoje, Culture et Libertè) – tinha como missão “elevar a cultura geral dos trabalhadores e prepará-los doutrinária e tecnicamente para o desempenho consciente das múltiplas tarefas que se exigem aos operários conscientes da sua missão e das suas responsabilidades” e beneficiou de apoio internacional, no qual o Pe. Jardim Gonçalves, em resultado das funções exercidas no Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos, desempenhou um papel essencial.

À semelhança do ocorrido a nível nacional, a realização do Concílio com o seu «aggiornamento» despoletou a adopção por parte dos diferentes organismos da A. C. na Madeira de uma nova dinâmica, sem dúvida mais interventiva e mais atenta à sociedade envolvente, caracterizada pela existência de inúmeras carências e de profundas injustiças, em muitos casos bem mais graves do que as verificadas no território continental.

Num texto incluído no livro «A Madeira na História – Escritos sobre a Pré -Autonomia», João da Cruz caracteriza deste modo esses tempos: “A taxa de analfabetismo era elevadíssima, a educação confinava-se muito ao ambiente familiar e à catequese, o atraso grassava nas várias camadas da população, incapaz de reagir ao clima de medo, intolerância e dependência que se respirava. Estava-se sempre à espera que os mais importantes, os detentores do poder se dignassem olhar para os mais pobres e desfavorecidos. A dependência económica, social e cultural, o sentimento de impotência, a marca da escravidão, constituíam como que um estigma inerente à natureza das pessoas.

“E toda esta situação era cinicamente gerida por um poder político que procurava e encontrava um apoio imprescindível por parte do poder religioso. Era um conluio e promiscuidade escandalosos!”.

A consciência plena destas realidades e o apontar de caminhos para a sua superação foram exemplarmente expressos pelos drs. João da Cruz Nunes e João Arnaldo Rufino da Silva nos depoimentos prestados ao semanário «Comércio do Funchal» no âmbito de um inquérito sobre a “Situação da vida cultural da Madeira” que o «jornal cor-de-rosa» publicou, ao longo de vários meses, em 1967.

João da Cruz Nunes (edição de 27 de Agosto de 1967) assume frontalmente que “a pobreza e o subdesenvolvimento da maior parte da nossa gente põe de lado o acesso ao ensino, à instrução e, portanto, à sua promoção cultural. A estrutura da nossa sociedade não possibilita à maioria da nossa população um despertar para os valores individuais e colectivos. Essa realidade será já de séculos e, remontando aos primórdios da colonização da ilha, compreendemos melhor essa situação”. E, de seguida, afirma: “O povo habituou-se a um género de vida que não lhe permite a iniciativa responsável. O «laisser faire» de hoje já não é de hoje. O regime de colonia (que ainda vigora normalmente!) está na base de toda a economia e sociedade madeirenses”. João da Cruz acrescenta que “a resignação é um grande defeito dos madeirenses”, que “a nossa insularidade coarctou-nos as iniciativas” e que “tudo isto permitiu uma espécie de obscurantismo, um apoio doentio e malfadado na tradição”.

Noutro passo do referido depoimento, o então assistente diocesano dos organismos operários da A. C. considera que “se deveria estudar urgentemente o problema do alcoolismo que creio afectar, profundamente, a capacidade intelectual de muitos madeirenses. A subnutrição de muitos, compensada com o uso do álcool, ou mesmo o próprio vício da bebida, reflecte-se grandemente no rendimento intelectual dos filhos”.

Daí a ênfase que coloca na importância da Cultura que no seu entender “visa a libertação do homem dos obstáculos que impedem a sua realização” e, sublinhando que, “se a «Cultura é o primeiro nome do Desenvolvimento», o conhecimento está acima de tudo – assim toma a prioridade o ensino”, advogando a necessidade da sua “democratização” porque “tem de haver todas as facilidades de acesso ao ensino em todos os graus, à cultura, portanto”, questionando: “como pode a maioria duma sociedade contentar-se com um simples aprender a ler e contar?”. E, ao referir-se à circunstância de “já não são poucas as nações onde a escolaridade obrigatória se prolonga até aos 18 anos”, o dr. Cruz dava nota de uma ambição que a Região, o País, só viriam a concretizar muitas décadas depois!

Nesse mesmo depoimento, João da Cruz alude aos objectivos culturais do trabalho dos organismos operários da A. C., particularmente da JOC, realçando que graças à boa-vontade e generosidade de alguns jovens “têm-se organizado, ora a nível diocesano, ora a nível de secção, cursos para adultos (4ª classe), um curso de língua inglesa e de 1º ciclo liceal, cursos de formação humana, de regras de educação, de leitura e colónias de férias” e termina realçando o papel do já constituído em Lisboa, CCO. Um Centro que, adianta, procura transmitir aos trabalhadores “uma cultura de sentido universal que permita compreender os outros grupos sociais, as outras raças, as outras nações e sobretudo uma cultura comprometida que permita que cada um seja responsável e favoreça a participação dos trabalhadores na vida da sociedade”.

Nesse mesmo ano de 1967, o dr. Cruz participa no Congresso Nacional da LOC francesa, partilhando em Paris o quarto habitado por Jardim Gonçalves, então já uma figura destacada da Igreja portuguesa e não só, pelas funções que desempenhava no plano nacional e internacional.

É ainda em 1967 que uma das principais vertentes da acção do CCO na Madeira dá os primeiros passos, através do ministrar de aulas, em regime pós-laboral, do 1º ciclo do ensino liceal, inicialmente nas instalações do Centro Académico masculino do Funchal.

Esta aposta na promoção educacional e cultural foi determinante para possibilitar a ascensão social de inúmeros jovens (rapazes e raparigas) que, de outro modo, nomeadamente por dificuldades económicas, mas também por começarem cedo a trabalhar, não teriam ido além da 4ª classe. É que essas aulas, para além de serem ministradas à noite, eram gratuitas.

No ano seguinte, esta actividade passou a ter lugar na sede do já existente CCO da Madeira, situada também na Rua do Pombal, no número 13, num espaço cujo aluguer fora tratado por António Alberto Monteiro de Aguiar, militante dos organismos operários da A. C. e que seria o 1º presidente do CCO.
Numa 2ª fase, tiveram lugar no CCO, não só cursos de 4ª classe para adultos, mas também aulas de alfabetização com base nos métodos do pedagogo brasileiro Paulo Freire, dinamizadas, sobretudo, pelo casal Liberato Fernandes e Clarisse Canha que, após o 25 de Abril de 1974, seriam fundadores da União do Povo da Madeira (UPM).

Quer as aulas da 4ª classe quer as do 1º ciclo liceal funcionavam em turmas mistas, ao contrário do que era a prática corrente no ensino durante a vigência do «Estado Novo». Aulas ministradas, não só por militantes e dirigentes dos organismos operários da A. C., mas também por sacerdotes do grupo «Padres do Pombal» ou a eles ligados e ainda por outros cidadãos que colaboravam nas actividades do CCO. Desse grupo constaram nomes como o jornalista José Manuel Barroso, a advogada Maria Emília Sales Caldeira, o casal Arnaldo e Eugénia Capelo (ele empregado bancário, ela professora), as também professoras Zita Nunes e Elisa Brazão, a enfermeira Fernanda Pereira, as funcionárias da Câmara Municipal do Funchal, Conceição Pereira e Trindade Candelária, o ex-seminarista Casimiro Fernandes e os padres João da Cruz, António Ramos da Silva e Sidónio Figueira.

O casal Fátima Pestana e José João Vieira que fizeram parte do grupo inicial de 20 a 30 alunos que receberam preparação para se submeterem, como alunos externos e maiores, ao exame do 1º ciclo liceal (actuais 5º e 6º anos) recordaram-nos que é ao CCO que devem a evolução profissional e social que conseguiram – Fátima que começara, muito jovem, a trabalhar no comércio de vestuário foi, mais tarde, funcionária da secretaria da Escola Jaime Moniz, enquanto o José João seria empregado bancário, tendo iniciado a vida laboral como empregado numa farmácia. O mesmo sucederia com inúmeras outras pessoas que viriam, inclusive, a obter formação superior, como foram os casos, por exemplo, da enfermeira Conceição Remesso, que chegaria a ser chefe do serviço de obstetrícia do Hospital Nélio Mendonça, no Funchal, de Gorete Gonçalves que se formou em ciências da educação ou de Maria da Luz Fernandes em educadora de infância.

Despertar consciências, consciencializar os militantes para a realidade envolvente, procurando empenhá-los na procura da transformação da sociedade em que estavam inseridos foi a outra grande vertente da actividade desenvolvida pelo CCO na Madeira.

É nessa linha que se inscrevem as múltiplas sessões de esclarecimento e de debate promovidas ao longo da sua existência. Em que não existiam temas tabu. Tudo era, poderia ser, objecto de debate, de discussão, de confronto de ideias. Fossem questões mais directamente ligadas à vida da Igreja, como as encíclicas papais ou a Teologia da Libertação, em voga na América Latina, ou à vida política portuguesa, ao regime ditatorial e à guerra colonial, ou tão somente a questões de âmbito económico, social ou cultural.

Um outro instrumento a que os movimentos operários da A. C. e naturalmente também o CCO recorriam, consistia na divulgação da canção de protesto e de intervenção e que, não raras vezes, servia de mote à reflexão política e social.

No texto da sua autoria que integra o livro já citado, «A Madeira na História …», editado em Abril de 2008, o dr. João da Cruz escreve: “(…) audições em comum de discos de música de contestação faziam parte normal do nosso trabalho. Um dos primeiros discos utilizados foi o de Luís Cília, trazido directamente de Paris, no ano de 69. Ao lado deste e matéria de referência fundamental e de reflexão eram os discos do Zeca Afonso, do Adriano e do Manuel Freire. Tudo podia contribuir para a consciencialização social e política dos militantes”.

Em 1970, os organismos operários da A. C. editam, numa impressão a offset, um pequeno livro a que atribuem o nome de «Cancioneiro», uma colectânea contendo os versos de 46 canções populares e de intervenção e 21 de cariz religioso que eram entoadas em assembleias, reuniões de estudo e nas celebrações litúrgicas organizadas pelos referidos movimentos e, algumas delas, também pela JARC (Juventude Agrária Rural Católica).

Trinta e três anos mais tarde, em Abril de 2003, Luís Sidónio de Castro, o último presidente da JOC na Madeira antes da sua dissolução em 1975, procedeu à reedição e num breve prefácio a que deu o título «Para que não se esqueça», sublinhou a importância da “reflexão e crescimento cívico, humano e, também, formação política e social, em que muitos destes versos eram cantados com incontível alegria e entusiasmo, lutando por um mundo melhor e mais justo”. A concluir esse curto texto, Sidónio de Castro escreveu: “Não esquecer esse tempo é também recordar as muitas amizades que se forjaram, os amigos que, por opção, ou por imposição, saíram da sua terra. De entre eles, merece que se destaque o nome do ex-padre Dr. João da Cruz Nunes que, enquanto assistente daqueles organismos da A. C. e, posteriormente, no arranque do Centro de Cultura Operária foi um conselheiro, um orientador, mas, e sobretudo, um AMIGO. Era uma homenagem que faltava”.

Numa outra passagem do seu depoimento, o dr. Cruz refere-se à importância que era dedicada à solidariedade internacional, nestes termos: “Nesta perspectiva de solidariedade internacional, todos os movimentos e acções que visavam a libertação dos povos e oprimidos, independentemente de credos, raças ou nações, constituíam objecto das nossas reflexões. Os movimentos revolucionários da América latina, sobretudo, e os sectores da Igreja conotados com a Teologia da Libertação eram tema de acompanhamento assíduo, e por vezes, eram exemplos apelativos à acção.

“No Brasil, onde vigorava então a ditadura militar, os bispos D. Hélder da Câmara e D. Óscar Fragoso eram das personalidades cujas intervenções mereciam especial atenção. E nos outros países latino-americanos, os exemplos também eram abundantes. Eram os casos de D. Óscar Romero de S. Salvador, Ivan Illich do mosteiro de Cuernavaca, no México e de Camilo Torres na Colômbia. Como era natural naquela época, mereciam toda a atenção as experiências sócio-políticas do Chile, Cuba, Nicarágua, Argentina e Uruguai (e neste caso em especial o movimento dos Tupamaros).

“A nível europeu, os elementos de reflexão eram veiculados através da revista «Concilium» onde predominavam as figuras dos teólogos Yves Congar, Schillebeeckx e Hans Kung. Merecia ainda um acompanhamento especial a experiência dos padres operários em França.

“Propriamente e no que diz respeito à formação e cultura operárias, havia os contactos directos com a JOC Internacional e o MMTC, ambos sediados em Bruxelas e ligados às estruturas nacionais dos mais diversos países do mundo”.

Nesse ano de 1967, o dr. Cruz, em conjunto com os seus colegas e amigos, Rufino da Silva e Paquete de Oliveira, é responsável pela criação de um programa denominado «O Homem e a Vida», cuja transmissão na Estação Rádio da Madeira era da responsabilidade do jornalista Armindo Abreu. Um programa, de periodicidade semanal, e que tinha como objectivo versar “temas da actualidade enquadrados numa linha de pensamento e orientação conciliares” e, cujos textos, não assinados, o “Jornal da Madeira” reproduziu à posterior. Em cada número havia um tema central, tendo sido analisados assuntos diversos, como, por exemplo, a emigração, os meios de comunicação social, o diálogo ecuménico, a morte, a dor e a doença, o desenvolvimento, a cultura, o trabalho ou a deslocação a Fátima do Papa Paulo VI ocorrida em 1967.

A adesão do Padre João da Cruz Nunes à mensagem do Concílio Ecuménico Vaticano II foi plenamente assumida. A 8 de Dezembro de 1965, precisamente no dia em que o Papa Paulo VI decretou o seu encerramento, aos microfones do Posto Emissor do Funchal, no programa «Concílio é Advento», o dr. Cruz pronunciou uma alocução que o «Jornal da Madeira» publicaria na edição do dia seguinte, sob o título “Concílio – Era Nova”. Nela, afirmou: “Para mim e para muitos padres como eu, para muitos católicos que vivem e sentem as aspirações da Igreja, o facto (o Concílio) constituiu um sinal visível, uma prova palpável da assistência Divina do Espírito Santo à Igreja de Cristo.

“Este «aggiornamento», este enfrentar com objectividade e destemidamente, as realidades do mundo presente, dando-lhes uma perspectiva cristã, uma dimensão divina, só pode ser obra de Deus”. E sobre o papel reservado aos cristãos, afirmou: “Aos cristãos pertence assegurar os frutos do Concílio, eles é que hão-de manter essa era nova que se inaugurou (…) A Igreja pede-nos um cristianismo mais objectivo, mais realista, mais completo, mais concreto e mais humano. Tem de haver coerência das ideias com a acção (…) Há intuições evangélicas que não podemos esquecer: a cegueira contra a injustiça triunfante, insensibilidade à miséria, desconhecimento das exigências da fraternidade e das violências do amor”.

Por fim, em jeito de exortação, disse: “Abandonamos-Te, Senhor, de cada vez que recusamos um compromisso, uma responsabilidade, uma tomada de posição. Nada arriscamos. Temos muito egoísmo e falsa pendência. Lavamos demasiado as mãos, à maneira de Pilatos. Desembaraça-nos, Senhor, deste medo, deste mutismo, desta falsa prudência! Ajuda-nos a lutar, a falar, a testemunhar o teu Evangelho. Ajuda-nos a viver como Tu, mesmo se como Tu, tenhamos que ser condenados”.

E foi, à luz, dessa “coerência”, desse “compromisso” com o temporal que o dr. Cruz subscreverá, e com ele outros quatro sacerdotes – Rufino da Silva, Lino Cabral, António Ramos da Silva e José Maria Araújo – a «Carta a um Governador». Acompanharam-nos seis militantes dos organismos operários da A. C., o já referido Monteiro de Aguiar, António Henrique Sampaio, Clarisse Canha, Inês Marques, Magda Gonçalves e Salomé Pereira. Significativamente, constata-se que, de entre os 39 subscritores, 11 faziam parte do denominado grupo de «católicos progressistas» e, na lista de 10 mulheres que aderiram ao documento, 4 integravam esse grupo. Um texto que não se limitava a escalpelizar a realidade do Arquipélago nas suas diferentes áreas, política, económica, social e cultural, como também apontava soluções, a começar pelo assegurar de um efectivo Estatuto de Autonomia, uma vez que o existente era considerado como “quase meramente nominal”.

Este envolvimento de sacerdotes e militantes católicos não foi, como era previsível, bem recebido por parte da hierarquia da Igreja Católica na Madeira. Uma posição que contrastou com o silêncio sepulcral que manifestara com o facto de um membro do seu presbitério, o dr. Agostinho Gonçalves Gomes ter ocupado em duas legislaturas (entre 1957 e 1965), o lugar de deputado eleito à Assembleia Nacional pelo distrito do Funchal, nas listas do partido único, a União Nacional. A atestar a cumplicidade do clero da diocese com o regime ditatorial vigente, atente-se no constante na «Confidencial da Direcção-Geral de Segurança, nº 9/71-CI, datada de 28 de Janeiro de 1971: “Tenho a honra de enviar a V. Exª. uma relação dos sacerdotes católicos, suas paróquias, o número de almas da diocese e bem assim a indicação da posição política de cada um em relação ao regime vigente.

“Apurou-se que o número de almas no total das 102 paróquias é de 246.842 e que o total de padres é de 97, dos quais 11 são desafectos, 3 duvidosos e 82 afectos mais ou menos”.

Nestas circunstâncias, constituiu certamente motivo de acrescido desagrado, quer para o regime, quer para a hierarquia religiosa, que, nas vésperas das eleições para a A.N. de 1969 – que contaram com a participação de uma lista apresentada pela oposição democrática -, um grupo de oito padres católicos tenha endereçado uma carta aos «Senhores Candidatos a Deputados», na qual, recorrendo a inúmeras citações dos Evangelhos, de encíclicas papais e de documentos conciliares, declaram: “O Evangelho que anunciámos não é neutralidade mas exigência de partilha, de justiça, de liberdade, de verdade e de paz”, acrescentando que a posição adoptada “é motivada pela obediência e fidelidade ao Evangelho e à Igreja”.

Nessa missiva, os signatários insurgem-se, por um lado, contra a censura vigente, afirmando que “sem uma informação séria e honesta, livre e sem intimidações, não há elementos suficientes para um juízo e, portanto, não poderá cumprir-se o direito elementar de «saber a quem se dá o voto»”, e, por outro, contra “uma sociedade em que o lucro pessoal e individual seja a regra máxima da organização social, económica e política”, proclamando: “A unidade religiosa e a caridade exigem um nivelamento económico-social no ambiente profano em que vivem os cristãos”, sendo, por conseguinte, “inaceitável dizer que o Evangelho pode ser igualmente vivido por ricos e pobres, opressores e oprimidos”.

A carta, datada de 22 de Outubro de 1969 (exactamente seis meses após a «Carta a um Governador») foi subscrita por quatro sacerdotes que também a haviam assinado – drs. João da Cruz e Rufino da Silva, e António Ramos da Silva e José Maria Araújo – e por outros quatro padres a quem estavam atribuídas paróquias, a saber: António Pedro Alves, São João, Ribeira Brava; José Martins Júnior, Ribeira Seca; José Vieira Pereira, Caniçal e Mário Tavares Figueira, São Tiago (Corticeiras), Estreito de Câmara de Lobos.

No rescaldo dessas eleições, a 6 de Novembro de 1969, a Subdelegação da PIDE no Funchal emite o «Relatório Extraordinário nº 16/69,elencando os “indivíduos” que “desenvolveram actividades políticas a favor da oposição democrática”, dele constando os nomes dos citados oito sacerdotes, de mais dois padres – Tomé Célio Sumares e José Manuel Paquete de Oliveira -, dos médicos José Azeredo Pais e Fernando Azeredo Pais, do notário Eduardo Paiva Jardim e do conservador do registo civil, Manuel Gonçalves Amaro – em resposta a direcção nacional da polícia política solicitará a informação das “identidades completas” dos citados “indivíduos”.

Polícia política que, na Madeira, dedicava particular atenção às actividades dos organismos operários e agrários da Acção Católica, procedendo à recolha de material respeitante aos seus planos de trabalho e a encontros de estudo efectuados. Simultaneamente, a partir da «Confidencial nº 50/71-CI (1)», de 23 de Maio de 1971, fica a saber-se que a vigilância policial incide de modo especial em dois padres, João da Cruz Nunes e Agostinho Jardim Gonçalves, apresentado como o «seu principal mentor», «o qual periodicamente se desloca a esta Ilha, promovendo pequenas reuniões entre os elementos eclesiásticos desafectos, os chamados padres “PROGRESSISTAS”». Numa outra «Confidencial» (nº 14/71-C.I.), de 4 de Fevereiro, o chefe da subdelegação do Funchal realça que «de momento o problema que maior tempo e atenção nos absorve, é precisamente o comportamento de uma dezena de sacerdotes, dos quais só um tem paróquia, mas posso asseverar a V. Exª. que não conseguirão êxito algum na acção que pretendem levar a cabo».

Dois anos mais tarde («Confidencial 65/73-DSI-1ª D.I.de 13.3.73»), a referida subdelegação pormenoriza os “motivos” dessa apertada vigilância: «Tenho a honra de informar V. Exª. que foi nomeado professor eventual do Liceu Nacional do Funchal o Padre Dr. João da Cruz Nunes, leccionando a disciplina de Francês a três turmas de 3º ano; 6 de 4º e 5 de 5º ano, masculinas e femininas.

«O referenciado foi subscritor da carta enviada pelos Padres progressistas à Comissão Eleitoral Democrática da Madeira, em Outubro de 1969, cujo conteúdo foi lido na 2ª reunião dos partidários daquela facção política, quando da última campanha eleitoral.

«É Director do Centro de Cultura Popular, local onde promoveu um curso que se destinou a prestar ensinamentos aos indivíduos que pretendiam emigrar legalmente; contudo só apareceu jovens na idade militar, vindo-se a saber que a estes, aconselhava a emigração clandestina, como meio de não cumprirem os seus deveres militares, furtando-se deste modo, a não irem para o Ultramar, ideia esta, que concorda em absoluto, pois não aceita a nossa posição naquela parcela do Território Português.

«Não nos restam dúvidas, que o Padre Cruz é elemento importante no plano político local, dada a sua infiltração nos estabelecimentos de ensino, movimentos católicos e consequentemente nos contactos diários com jovens de todas as idades, lançando o gérmen das suas ideias democratas e progressistas».
As eleições de 1969, pela envolvência que suscitaram, acabarão na Madeira por contribuir para o estabelecimento de uma ligação cada vez mais próxima com o semanário «Comércio do Funchal» por parte de muitos dos activistas do CCO e simultaneamente desencadeiam um salto na intervenção social e cultural deste último. A este propósito, o Dr. Cruz disse-nos que, nos anos subsequentes, o suplemento «Aqui e Agora» do «jornal cor-de-rosa»(4 páginas dedicadas exclusivamente à actualidade regional) foi frequentemente preenchido com textos escritos por militantes operários e com entrevistas e reportagens incidindo sobre as condições de vida e de trabalho das classes trabalhadoras, cuja publicação, não raras vezes, foi impedida pelos serviços de censura, sendo que este maior foco na abordagem da realidade social se ficava sobremaneira a dever ao facto da sua coordenação estar entregue a Liberato Fernandes que, no final da década de 60, fora dirigente nacional da JOC e que, entretanto, passara a integrar a redacção do «C.F.». Uma ligação que se estreitava ainda mais nas noites de 5ª. feira, quando, nas instalações do jornal, um leque alargado de activistas dos movimentos operários da A. C. e do CCO procedia graciosamente ao intercalar, dobragem e etiquetagem de cada número publicado, recebendo como compensação um exemplar do jornal.

O mérito do trabalho desenvolvido pela A. C. no País, e naturalmente também na Madeira, é a todos os níveis inquestionável. Alicerçado fundamentalmente no recurso ao método de «revisão de vida», assente em três níveis: Ver, Julgar e Agir.

No texto do livro, «A Madeira na História …», a que nos temos vindo a reportar, o dr. Cruz descreve-o nestes termos: «As realidades e acontecimentos da vida eram analisados, julgados à luz da fé e do Evangelho e implicavam, finalmente, um compromisso pessoal ou social na acção a realizar pelos militantes. E a acção a desenvolver não se limitava, simplesmente, aos locais de trabalho, mas alargava-se a todos os campos de acção que pudessem ser influenciados por uma visão mais humana da vida operária.

“O objectivo principal visava, permanentemente, a transformação das estruturas sociais que condicionavam a construção duma sociedade mais justa, mais livre e mais solidária. A formação dos militantes e o seu compromisso iam evoluindo, à medida que descobriam os valores humanos e cristãos presentes nas pessoas e na sociedade. E nesta formação estava sempre subjacente a ideia de que «uma vida não reflectida não é uma vida digna de ser vivida»”.

A história da A. C é naturalmente fruto do trabalho desenvolvido por leigos e sacerdotes. O contributo de uns e de outros é indissociável. E não sendo linear esse percurso, é indiscutível que os anos 60 e a 1ª metade de 70 do século XX constituem o período mais marcante da sua actividade na Madeira, muito embora não possa ser ignorado o trabalho percursor desenvolvido pelo Padre Jardim Gonçalves durante os quatro anos (entre 1956 e 1960) em que foi assistente diocesano da JACF. Independentemente de acontecimentos posteriores, de afastamentos mais ou menos dolorosos, há factos que não podem ou não se devem omitir, nomeadamente ignorar ou apagar o papel dos assistentes diocesanos da A. C. operária e rural desses tempos, os padres dr. João da Cruz Nunes e Gabriel Lino Cabral.

Um papel que o madeirense, D. Maurílio de Gouveia, como Arcebispo emérito de Évora – foi assistente diocesano da JOC -, num testemunho inserto no livro «Memórias do Avô» de José Fagundes, não só não valorizou como devota ao esquecimento puro e simples (cito): “Não posso deixar de referir, por imperativo de justiça, o grupo de sacerdotes, chamados assistentes eclesiásticos, que acompanhavam espiritualmente os movimentos. Entre outros, é-me justo salientar: o Padre Manuel Ferreira Cabral, o Padre José Maurício de Freitas, o Padre Baptista da Mata, o Padre Agostinho Figueira de Faria, o Padre Agostinho Jardim Gonçalves e o Padre António Vidal Pereira Dias. Verdadeiros educadores da juventude, estes sacerdotes tornaram-se imprescindíveis na obra realizada” (fim de citação) – uma evocação histórica que termina praticamente no fim da década de 50, como se não tivesse havido continuidade, quiçá porque os seus protagonistas não tivessem o direito a ser designados por “verdadeiros educadores da juventude”…Um testemunho profundamente revelador de um comportamento que se assemelha em muito ao assumido pelos partidos comunistas que votam ao esquecimento quem deles se afastou ou rompeu, acabando por coloca-los numa espécie de «index» histórico.

Bem diferentes foram os testemunhos que ouvimos dos militantes e dirigentes diocesanos dos diversos organismos da A. C. que conviveram de perto com aqueles dois «Padres do Pombal». Que destacam o seu companheirismo e solidariedade sempre presentes e a circunstância de se comportarem como sendo mais um elemento do grupo e não como alguém que ditava ordens e impunha caminhos. Respeitadores da liberdade e do espírito de iniciativa das organizações. Permanentemente disponíveis para ouvir e aconselhar, procurando incutir valores humanos e éticos.

A professora Elisa Brazão, licenciada em História, uma das autoras do livro «Revolta da Madeira -1931», que foi dirigente diocesana da JOCF e professora no CCO, não poupou nas palavras quando nos falou do dr. Cruz: “Uma pessoa excepcional, sabedora, fora-de-série”, “um mestre”. Já José Henrique Pereira, militante jocista e funcionário sindical, destacou “a profunda sensibilidade para os problemas da sociedade, o empenho solidário e humanista” e considerou-o “um homem bom, como já há poucos”, dando como exemplo: “emprestava dinheiro a toda a gente, nunca dizia não”.

Carlos Fino, ex-deputado e dirigente do PS-M e professor da Universidade da Madeira, conheceu o dr. Cruz na 2ª metade da década de 60, quando frequentava o Centro Académico do Funchal. Na altura, estudava no Colégio dos Salesianos, dirigido por sacerdotes, tendo-nos dito que “percebeu, em conversas informais, que se tratava de um sacerdote diferente daqueles que conhecia e lidava no referido colégio. Tinha uma abertura de espírito, uma forma de ser e de estar que contrastava com o pendor tradicional, autoritário que caracterizava os padres que até então conhecera”. Destacou-nos a importância que esse relacionamento teve “no despertar da sua consciência cívica e na valorização de valores de ética com que procurava nortear a sua vida”. Ao ponto de ter sentido uma espécie de “fascínio” que o levou, quando decidiu casar-se, a não aceitar “sê-lo por outra pessoa que não ele”. E na companhia da sua futura mulher, Isabel Correia, diligencia para que o seu casamento seja celebrado, na paróquia de Fátima, no Funchal, pelo dr. Cruz, procedendo, em conjunto, à escolha dos textos litúrgicos que integraram a cerimónia.

Vicente Jorge Silva, o madeirense que atingiu uma posição cimeira no jornalismo português, num curto depoimento que nos facultou, classificou os «Padres do Pombal» como “um exemplo de resistência”, escrevendo: “A velha cumplicidade da hierarquia da Igreja com o regime salazarista – que nem os ventos do Concílio Vaticano II tinham feito vacilar nas suas profundezas – era vivida talvez de modo ainda mais sufocante na atmosfera insular. Daí o significado precioso da resistência de padres madeirenses como Cruz, Rufino, Martins Júnior e outros, rejeitando a subserviência, a submissão – e a negação dos valores essenciais do cristianismo”, tendo feito questão de acrescentar: “Embora eu já na altura fosse agnóstico, isso não me impediu – antes pelo contrário – de admirar esse exemplo”.

Por sua vez, o Padre Martins júnior referiu-se ao dr. Cruz como “discreto, de poucas palavras, sem grandes dotes oratórios, mas a que todos reconheciam capacidade de liderança”. Uma leitura partilhada pelo dr. Francisco Sidónio Figueira que fez questão de nos dizer que “o líder era, de facto, o dr. Cruz”, a quem atribui o principal mérito pelo trabalho realizado pelos denominados «Padres do Pombal», uma comunidade de que também fez parte.

Com a saída, a 28 de Agosto de 1972, de D. João Saraiva da diocese, o seu lugar viria a ser preenchido, até à nomeação do sucessor, pelo cónego dr. Agostinho Gonçalves Gomes, vigário capitular da diocese que fora director do «Jornal da Madeira», entre 6 de Dezembro de 1959 e 21 de Outubro de 1968.

Durante a vacatura diocesana – até 18 de Março de 1974 -, o grupo de padres que se identificou em plenitude com o espírito da doutrina do Concílio Vaticano II alimentou o desejo, a esperança que a diocese do Funchal fosse entregue a um prelado que encarnasse sem reservas esse espírito e que pudesse introduzir uma lufada de ar fresco numa Igreja que permanecia em geral muito fechada sobre si própria , muito pouco atenta e desperta para os sinais dos tempos e em que o conservadorismo era claramente predominante.

É imbuído desse espírito e com esse objectivo que um grupo de padres decide encontrar-se no Santo da Serra, num espaço pertencente à diocese, e partir para a elaboração de um documento que viria a ser entregue no final desse ano de 1972 ao então Núncio Apostólico em Portugal, D. Giuseppe Maria Sensi, em audiência concedida para o efeito.

Nesse documento, redigido a várias mãos, nomeadamente através de João da Cruz, Jardim Gonçalves, Paquete de Oliveira e Rufino da Silva, os 34 signatários (23 sacerdotes e 11 leigos) apontavam o perfil que, no seu entender, deveria ter o sucessor do novo bispo de Coimbra.

O semanário «Expresso», na sua edição nº 57 de 2 de Fevereiro de 1974, tentou publicar esse documento de sete páginas sobre o vazio na diocese, mas a censura cortaria grande parte do texto. Contudo, podia ler-se que “a Madeira espera um prelado capaz de imprimir um ritmo novo e dinâmico à Igreja e pôr em prática as directrizes do último Concílio, ainda desconhecidas na sua grande parte, na ilha”.

Como a história haveria de evidenciar, os desejos e esperanças formulados na carta entregue na Nunciatura seriam totalmente defraudados e o novo bispo tudo haveria de fazer para se livrar do citado sector de sacerdotes.

Francisco Santana, o novo bispo da diocese, seria nomeado pela Santa Sé a 18 de Março de 1974 e ordenado, na Sé Patriarcal de Lisboa, a 21 de Abril desse ano, precisamente quatro dias antes do golpe militar que pôs fim ao regime fascista em Portugal. Nesse mesmo dia, o órgão da diocese, publicou uma «Saudação» do novo bispo a “todos os leitores”, em que o mesmo, aludindo à sua relação com o mar (fora director nacional do Apostolado do Mar), declara: “O Santo Padre, em vez de um «Pastor», vai enviar-vos um «Marinheiro»”.

Na homília proferida na ocasião, o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, sublinharia que “o esforço pastoral do bispo deve ser princípio e factor de união, de concórdia e de paz”, bem como “respeitar e promover um pluralismo legítimo dentro da Igreja”.

Nesse mesmo dia da ordenação de Francisco Santana, também no «Jornal da Madeira», um dos membros do Cabido diocesano, o cónego Agostinho Figueira de Faria anteveria o que seria o seu mandato episcopal, sentenciando: “Nada sem o bispo, nada contra o bispo. Quem está com o bispo está com a Igreja e com Cristo, portanto. Quem não obedece ao bispo, quem não está com Ele na doutrina, na disciplina, na Pastoral, está contra a Igreja. E, portanto, qualquer que seja o rótulo com que queira acobertar a sua posição e as suas atitudes, já está fora da unidade da Igreja. A conclusão é evidente”.

A 1 de Maio de 1974, dia em que celebrava o seu aniversário, o «J.M.» publicaria um editorial onde evidenciava continuar preso à terminologia do passado: “Fiéis às características próprias deste Jornal, envidámos todos os esforços por servir a causa a que nos propusemos defender, Deus, Pátria e os interesses da nossa terra”. O articulista (texto não assinado), remataria com uma proclamação que o futuro desmentiria em toda a linha: “Jamais daremos guarida em nossas colunas a qualquer gesto, ou palavra que atente contra a dignidade de quem quer que seja, ou contra os princípios cristãos que nos orientam”.

Também a 1 de Maio, na sua 1ª edição não sujeita a «exame prévio», o semanário «C.F.», num artigo sob o título “O oportunismo e comportamento cúmplice da «informação» madeirense” critica violentamente o posicionamento adoptado pelos dois diários locais («DN» e «JM») durante o regime deposto e, referindo-se especificamente ao órgão da diocese, escreve: “Seus últimos e mais influentes directores tiveram fortes ligações com a política do regime fascista: o cónego dr. Agostinho Gonçalves Gomes, deputado à A. Nacional, durante duas legislaturas; o cónego dr. Maurílio de Gouveia, actualmente bispo de Sabiona e auxiliar do Patriarcado de Lisboa, capelão particular do Palácio de São Lourenço, durante o governo ditatorial fascista do coronel Braamcamp Sobral.

“As ligações com os dirigentes da administração local destes últimos dez anos, sobretudo, conseguida e realizada através do movimento dos cursos de cristandade, era pública e notória.

“A bajulice, a mentira, o encómio barato aos governantes do derrubado regime, sucediam-se diariamente”.

Como que em resposta, na edição de 7 de Maio de 1974, «J.M.», através de um seu conhecido jovem redactor, José António Gonçalves acusaria jornalistas do «C.F.» de, em Câmara de Lobos, terem instigado à revolta a população, designadamente contra o posto policial e a secção de finanças – uma reportagem que teve o mérito de evidenciar o que seria o paradigma da “informação” veiculada no pós-25 de Abri pelo órgão da diocese, ao fim e ao cabo muito semelhante à praticada até então.
No dia seguinte, o «Diário de Notícias» local, publicaria uma «comunicação» assinada por 16 sacerdotes da diocese do Funchal, todos eles signatários da já mencionada carta entregue em 1972 ao Núncio Apostólico, manifestando descontentamento com o rumo traçado pelo órgão da diocese. O documento fora inicialmente entregue pelos drs. Cruz e Rufino e pelo padre Mário Tavares ao então director interino do «J.M.», Pe. dr. Abel Augusto da Silva, informando que o mesmo seria também distribuído aos “diferentes órgãos informativos”.

Director interino que, telefonicamente, comunicaria que “ao contrário do inicialmente prometido”, “por motivos posteriores”, “não era possível tal publicação” – a recusa fora ordenada, a partir de Lisboa, por Francisco Santana.

Nessa «comunicação», os signatários declaravam-se “inconformados com a atitude ambígua e irresponsável que a orientação do «J.M.» vem revelando, e porque a consideram em nada servidora dos interesses do povo madeirense”, exigiam que “essa orientação seja modificada imediatamente”. Subscreviam o texto Manuel Marques Luís, Mário Tavares Figueira, Gabriel Lino Cabral, Francisco Sidónio Figueira, José Maria Araújo, João Arnaldo Rufino da Silva, Rafael Maria Andrade, João da Cruz Nunes, João Ferreira, Tomé Célio Sumares, Gabriel Arcanjo de Sá, José Vieira Pereira, José Martins Júnior, José Manuel Paquete de Oliveira, Silvério Aníbal de Matos e Emanuel Eleutério Figueira de Ornelas.

O órgão da diocese, não só recusou a publicação da referida «Comunicação de um grupo de sacerdotes», como no dia seguinte (9 de Maio), publicaria uma resposta, assumida como «Declaração dos trabalhadores», que indigna o grupo de sacerdotes por visar pessoalmente alguns deles, aludindo, designadamente, a “um antigo chefe de redacção e colaboradores do nosso diário, em período de vigência do Governo do Prof. Oliveira Salazar, o que nos dispensa de entrar em considerandos de teor ideológico”, O principal visado era o Padre dr. Paquete de Oliveira que, intermitentemente, entre finais de 1960 e 1966, havia dirigido a redacção do matutino sediado na Rua do Seminário, 22. Mas não só. Uma vez que no período mencionado outros sacerdotes tinham publicado artigos no «J.M.», nomeadamente João da Cruz, Rufino da Silva, Martins Júnior, Eleutério de Ornelas e José Maria Araújo. Mas, o pessoal do «J.M.» responderia ainda directamente às exigências dos sacerdotes, referindo que a modificação da orientação do órgão da diocese “só pode e deve depender única e exclusivamente do Bispo da Diocese, em comunhão com a direcção e connosco”, ao mesmo tempo que declaravam que “não permitirão ingerências do exterior em qualquer dos nossos serviços que não sejam mencionados pelo Bispo do Funchal” e se uniam à volta do director interino, “em estreita e leal colaboração, só com ele dialogando em ordem à confecção do jornal, até decisão em contrário do Bispo da Diocese”.

Francisco Santana, que chegara ao Funchal a 9 de Maio, fizera questão de, como 1ª. acção pastoral, efectuar uma visita às instalações e oficinas do «Jornal da Madeira», tendo na ocasião afirmado: “Embora tenha chegado tarde ao Funchal, não ficaria bem com a minha consciência se não viesse cumprimentar, ainda hoje, todo o pessoal do «J.M.». Quero que seja este o meu primeiro passo para testemunhar a minha amizade e confiança a quem trabalha na Igreja sob a orientação da Igreja. Bem hajam os Redactores, o pessoal das Oficinas e dos Escritórios. A minha admiração ainda pelo seu Director-Interino pela competência e dedicação que tem demonstrado neste período difícil em que vivemos”.

Declarações que não deixavam margem para quaisquer dúvidas: o novo bispo caucionava a postura e orientação que vinha sendo imprimida ao órgão da diocese e, por conseguinte, não partilhava das posições veiculadas pelo grupo de sacerdotes que havia contestado essa mesma orientação. Mais ainda: ficava obviamente claro que é com o respaldo do bispo que os trabalhadores do «J.M.» se envolviam no confronto público com o grupo de contestatários. Uma polémica que prosseguiria nas páginas dos dois diários locais ao longo de vários dias. E, quem no meio desta polémica, assinalando o aniversário do «J.M.», não se esqueceria de felicitar o órgão da diocese, seria o «Voz da Madeira». Numa nota, o semanário dirigido pelo dr. Agostinho Cardoso era peremptório: “Os católicos madeirenses podem ir buscar facilmente às suas páginas, esclarecimento, formação intelectual católica e documentação para o estudo”. De resto, quando no final de Outubro, Francisco Santana revela a nomeação do novo director do «J.M.», precisamente um destacado colaborador do citado semanário, ainda por cima sobrinho do que fora, durante largos anos, uma figura de proa na Madeira do regime deposto, o amigo do almirante Henrique Tenreiro nem sequer disfarçou a orientação que pretendia que o órgão da diocese prosseguisse: o grande objectivo era a politização dos leitores. Uma politização que ficava a cargo de um, até ao fim, adepto confesso da «evolução na continuidade» de Marcelo Caetano. Uma politização que, face ao curriculum de ambos, prelado e director, seria norteada por uma visão marcadamente conservadora e simultaneamente hostil a toda e qualquer corrente que se situasse, ainda que levemente, à esquerda.

Quase em simultâneo, é noticiado que o novo bispo nomeara o cónego Agostinho Gomes, vigário geral da diocese. Uma recondução, uma vez que o antigo deputado da nação vinha exercendo essas funções, na condição de vigário capitular. Uma nomeação cheia de significado e reveladora de que no seio da Igreja diocesana qualquer esperança de renovação estava definitivamente afastada. Tratar-se-ia, tão somente, de uma aposta na continuidade, mas, também, de um sinal de que os tempos para os organismos da A. C. seriam recheados de dificuldades e obstáculos, atendendo a que no passado recente (Fevereiro de 1974), o referido membro do Cabido comunicara à equipa executiva diocesana que, para ele (cónego Agostinho Gomes), “a Acção Católica na Madeira não existe”, “Nunca me foi dada conta da A. C. na Diocese”; “Quando o novo bispo vier que resolva”.

Ora, como se sabe, Francisco Santana encarregar-se-ia de, por diversas formas, demonstrar que não contava com a Acção Católica, ostracizando de modo especial os assistentes diocesanos dos organismos operários e rurais, ao mesmo tempo que recorria a outros meios de apostolado, designadamente ao denominado Movimento dos Jovens Cristãos da Madeira e aos Cursos de Cristandade.

No domingo seguinte (12 de Maio), Francisco Santana dirige a sua Saudação Pastoral “aos habitantes das ilhas da Madeira e Porto Santo e a todos os madeirenses dispersos por todo o mundo”. A mensagem é recheada de recados, dirigidos de modo particular aos sacerdotes que almejavam por uma Igreja renovada, mas também à sociedade em geral. A dado momento, proclamaria: “A Igreja não pode ser conduzida por crianças imaturas ou por gente que coloca a sua vaidade ou os seus interesses mesquinhos, ou os seus ressentimentos, acima da finalidade com que Deus mantém a Igreja no mundo. É o Espírito Santo que conduz a Igreja e quem governa o mundo. É Cristo o único Pastor de todos nós. Saibamos ser fiéis ao Espírito e obedecer ao Pastor”. Nesse mesmo dia, à noite, em nova “Saudação”, desta feita dirigida ao “Presbitério funchalense”, o bispo desfaz todas as dúvidas – se porventura ainda existissem -, relativamente a quem procurava visar com as suas palavras: o denominado grupo de “Padres do Pombal”, apostado na renovação da Igreja, e simultaneamente ter-lhes-á desfeito as ilusões alimentadas com a carta entregue ao Núncio Apostólico em Lisboa.

Debruçando-se sobre o papel dos sacerdotes enquanto “evangelizadores”, afirmou: “É curioso notar que a Igreja hoje, tem falta de padres e ao mesmo tempo tem padres a mais, pois que alguns tudo fazem menos que evangelizar, a tudo se dedicam até à política sem terem a vocação de políticos, aos problemas económicos, sem nada perceberem de economia e até ao ensino confundindo que eram, como ministros da Palavra de Deus, destinados a «ensinar» a mensagem de Deus e não as ciências humanas. Outros, que não nós, são mais competentes nesses assuntos e não necessitam ser padres, para desempenhar essas missões na sociedade”. Francisco Santana faria ainda questão de relevara importância da união do presbitério em torno do Bispo, afirmando: “O Presbitério é o corpo sacerdotal, em íntima união com o Bispo, não isoladamente (torna-se inexistente o Presbitério!), mas em comunhão de amizade, reflexão e acção”.

Como anotou João da Cruz Nunes: “Quando se deu o 25 de Abril, o CCO era, com o «Comércio do Funchal», um dos únicos pontos de encontro e de debate para aqueles que partilhavam de ideias de liberdade e justiça social. E é no CCO que se realizam alguns dos primeiros encontros em liberdade, com vista à criação e organização de movimentos de cidadania e até políticos” (página 279 do livro «A Madeira na História…»).

A professora Adília Andrade, fundadora do Sindicato dos Professores da Madeira, referindo-se a essas reuniões iniciais que culminariam com a formação da Frente Popular Democrática da Madeira (FPDM), disse-nos que, para si, a maior surpresa “foi a presença de muitos jovens operários, caixeiros, empregados de escritório, que orientavam reuniões, intervinham nos debates, argumentavam com conhecimento e desenvoltura, constituindo o verdadeiro núcleo aglutinador do movimento”. Adília Andrade acrescentaria: “O CCO contribuiu para a sua formação cívica, para o exercício de uma cidadania activa e consciente, no reconhecimento do valor social do trabalho e da justiça social. Preparou-os para a vivência numa sociedade democrática”.

A UPM, o outro movimento político em que se envolveriam militantes com ligações ao CCO, nasceria a partir do «Comércio do Funchal». Tratou-se de um movimento que desempenharia um papel de destaque na acção política, subsequente ao 25 de Abril, e que, dois anos depois, se dissolveria para integrar a UDP (União Democrática Popular).

À UPM aderiram, entre outros, os já mencionados Liberato Fernandes, Henrique Sampaio e Clarisse Canha, bem como Assunção Bacanhim e Conceição Pereira, enquanto que à FPDM se associariam, por exemplo, Sidónio de Castro, José Silva, José Manuel Almada, Aldónio Fernandes e Alcides Nóbrega. Mas, a envolvência política de militantes da A. C. e do próprio CCO não se limitou a esses movimentos, tendo atingido um leque partidário abrangente. Com efeito, do núcleo fundador do Partido Socialista na Madeira fizeram parte Arnaldo Capelo, João de Lemos Silva e Luís Marques de Sousa, enquanto Monteiro de Aguiar seria deputado à Assembleia Constituinte e Filipe Mota, deputado eleito à Assembleia Regional em 1976. E entre os deputados do PPD/PSD dessas eleições constavam Augusto Nunes de Sousa, Agostinho Rodrigues e Serafim Vieira.

Ao longo dos tempos, o poder político e religioso “vendeu” a narrativa que a ocupação do Seminário da Encarnação fora instigada pelo dr. João da Cruz Nunes. A verdade é que esse edifício, encontrava-se devoluto há já algum tempo e o ano lectivo no Liceu do Funchal não se iniciara ainda por as suas instalações não comportarem o acréscimo no afluxo de alunos verificado. Por outro lado, decorriam, também há meses, negociações entre a Junta Geral e a diocese para o aluguer do espaço. E esta, ao mesmo tempo, que afirmava necessitar do mesmo para um conjunto variado de actividades, dizia-se disponível para vender o edifício do Seminário Menor. Ou seja, queria fazer um negócio financeiramente mais vantajoso do que o aludido aluguer, enquanto a Junta Geral alegava que não dispunha de verbas para tal. O “crime” do dr. João da Cruz resultava do facto de ser professor do Liceu e, simultaneamente, membro da sua Comissão de Gestão, qualidade que o levava a não se furtar, ao contrário de outros, à assunção de responsabilidades na tomada de decisões. Mas, ao contrário do maldosamente veiculado num arrazoado publicado pelo bispo emérito Teodoro de Faria («JM» de 6/10/2024), a ocupação daquele edifício foi deliberada num plenário de alunos do Liceu. De resto, uma diocese que pautasse a sua conduta por um mínimo de verdade e de transparência deveria ter tido a dignidade de pedir desculpas públicas por, durante mais de 20 anos, ter deixado ao total e completo abandono o citado prédio, até, finalmente, 50 anos depois, ter procedido ao negócio que sempre ambicionou efectuar!

A partir desse momento, o dr. Cruz tornou-se um alvo a abater. Basta consultar o órgão da diocese desse período e ter tido conhecimento da hostilidade que lhe era movida por uma recém-criada Associação de Pais e Encarregados de Educação do Liceu, onde pontificavam destacados elementos do PPD de então, como António Aragão de Freitas, António Gil Silva e Acácio Augusto Matias.

O comportamento do bispo face aos acontecimentos do Seminário e à decisão imediatamente posterior de afastamento do Padre Martins Júnior da paróquia da Ribeira Seca,, motivaram a divulgação, a 12 de Novembro de 1974, de uma tomada de posição por parte de “um grupo de padres e leigos cristãos católicos”, entre os quais João da Cruz Nunes, no qual esclareciam: “Para nós, a Igreja é fundamentalmente um serviço do povo, um espaço de liberdade onde, à luz do Evangelho, se podem descobrir os verdadeiros caminhos de libertação. E neste serviço do povo, importa saber constantemente discutir quais as prioridades que se impõem.

“Todos nós estamos a viver uma situação de emergência, para cuja solução temos de contribuir, independentemente de credos políticos ou religiosos. E não é deixando aos outros os seus problemas e pensando só nos nossos, que vamos construir um país e uma sociedade diferentes. Até porque os problemas são comuns, todos somos intervenientes e ninguém deles pode abster-se, refugiando-se numa posição cómoda e alienante. Os problemas do povo têm de ser os problemas e as preocupações da Igreja, se ela quiser, realmente, ser sinal de vida.

“A situação do ensino é das mais graves do nosso país e, como tal, também da nossa ilha. Para obstar a tal situação, fizeram-se negociações com vista à cedência do Seminário Menor. No entanto, criou-se uma situação de impasse, chegou o ano lectivo, as aulas não começaram e os estudantes, os mais directamente interessados na questão, resolveram, por si mesmos, ocupar o referido edifício.

“Não roubaram nem quiseram tirar nada, mas simplesmente pressionaram uma situação que, finalmente, veio a ser resolvida a seu favor e que muito mais cedo e sem atritos nem certos excessos, poderia ter sido solucionada, se de facto tivesse havido boa vontade.

“Os acontecimentos foram deturpados, sensacionalizados, servindo até de exploração do sentimento religioso do povo. Gerou-se uma situação que reputamos de grave. As implicações, não se podem prever claramente. Nasceu um clima de tensão e de divisão entre o povo e entre os próprios católicos”.
E, sobre o novo foco de conflito no seio da Igreja diocesana, entre o bispo e o pároco e paroquianos da Ribeira Seca, o referido grupo assumia: “Não podemos também deixar de denunciar o processo seguido em relação ao Pe. Martins e ao povo da Ribeira Seca. Ninguém deve ser castigado, sem primeiro ser ouvido. E sobretudo o povo tem sempre uma palavra a dizer.

“Para nós, não é assim que se vive o cristianismo. A nossa esperança está numa Igreja, verdadeira luz do mundo, libertadora dos povos e fiel seguidora do Evangelho”.

A Comissão de Gestão do Liceu do Funchal, eleita a 6 de Junho de 1974 – presidida pelo dr. Jorge Atouguia – demitir-se-á no início de Março de 1975 e, entretanto, o dr. Cruz pede a transferência para a Escola Preparatória da Calheta. Contudo, a hostilidade para com o grupo dos “Padres do Pombal”, não só não desvanece, como acentua-se. Atingirá, aliás, foros só freudianamente explicáveis, ao ponto do jornalista Luís Calisto, no livro «Achas da Autonomia» (página 97) ter escrito esta preciosidade: “Das suas análises diárias, Jardim (AJJ) retira a ilação de que a promiscuidade que vê na esquerda não é casual. «Está visto que eles têm um comando unificado, que só pode ser a casa do Pombal». O então líder refere-se à residência na rua do Pombal dos padres católicos afectos à FPDM, convencendo-se de que «ali há padres mais influentes na coordenação das acções da esquerda do que o próprio Paquete de Oliveira». Em determinada fase, não existem dúvidas que façam hesitar Jardim: há reuniões naquela casa em que os representantes das três principais formações de esquerda (apontadas por AJJ como sendo o PS, o PCP e a UDP) recebem ordens integradas num plano de actuação conjunta. «Temos então ali o quartel-general da revolução», alegra-se com a descoberta, «pois bem, esse começa a ser o objectivo de guerra prioritário!»” – o antigo redactor da «Voz da Madeira» que pela vida fora vangloriou-se, bastas vezes, dos ensinamentos obtidos aquando do serviço militar na secção de acção psicológica, lançaria mão, como é sabido, de outras teorias da conspiração, não menos hilariantes, como a que envolveria uma tríade composta por Bush, Maçonaria e Trilateral. Ou seja, começaram cedo os delírios. No caso em apreço, por pouco não ocorreu uma tragédia…

Analogamente, o cónego Agostinho Figueira de Faria que em 1968 proibira a leitura do «Comércio do Funchal» pelos alunos do Seminário Maior referia-se à casa dos «Padres do Pombal» como sendo “um covil de comunistas”.

A 1 de Janeiro de 1975, o «DN» local publicaria com destaque, na sua 1ª. página, um artigo da autoria de João da Cruz Nunes. Um texto onde o dr. Cruz – como era conhecido entre os leigos que com ele mantinham um contacto próximo – explanava que o conceito de paz é muito mais do que simplesmente ausência de guerra, e, simultaneamente, identificava o longo caminho que faltava (falta) percorrer para edificar uma sociedade assente na justiça e na igualdade entre os homens. Um texto, cujo conteúdo, revelava também porque é que o então ainda assistente dos organismos operários da A. C. constituía um incómodo para os sectores mais retrógrados da sociedade madeirense, ao ponto de ser alvo de dois atentados bombistas – o 1º, a 11 de Novembro desse ano de 1975, visando a casa onde morava com mais três sacerdotes católicos e o 2º, a 14 de Janeiro de 1976 que provocaria a destruição do seu automóvel, um Volkswagen.

Sob o título, «Construir a Paz – Construir o Mundo», o artigo do ainda sacerdote, poderia perfeitamente ser redigido hoje, uma vez que se trata de uma análise que permanece actualíssima. A dado passo, escreve: “Paz e luta. Dois conceitos aparentemente contraditórios e, na realidade, inseparáveis. Porque a paz, para muitos, pode ser sinónimo de ausência de guerra, (des)ordem estabelecida, descanso, quietude e despreocupação, satisfação, enfim, de instintos e egoísmos estéreis e desumanos.

“Mas, para além deste conceito puramente estético e individualista, ela é sobretudo o resultado dum compromisso assumido com os homens, um sentimento verdadeiro de satisfação pelo dever cumprido, uma dinâmica que faz projectar o homem no caminho do futuro (…)

“Todos parecem aspirar à Paz, viver obcecados por ela, pelo menos nestes dias de Ano Bom. Mas. Todos quere-la-ão efectivamente? (…)”.

E, em jeito de resposta, afirma: “Ainda se levantam, de todos os lados, os obstáculos que impedem a sua implantação, no meio dos homens. As estruturas capitalistas que possibilitam a exploração do homem pelo homem ainda vigoram activamente; a opressão e a mentira continuam; a alienação, seja ela de carácter religioso ou social, domina; as diversas classes estão solidamente estratificadas; os colonialismos, neocolonialismos e o imperialismo é que dominam o mundo. Para evitar a guerra e aguentar a «paz» lança-se mão dos armamentos e utiliza-se o equilíbrio do terror como força dissuasiva. Mas que paz?

“A nossa sociedade ainda separa, naturalmente, as pessoas – ricos e pobres, sábios e ignorantes, exploradores e explorados. O sentido de classe está ainda profundamente arreigado em muita gente. Os privilégios ainda são ciosamente guardados. O segregacionismo ainda é religiosamente cultivado. E estamos numa sociedade ocidental e que se arroga de cristã!

“Mas afinal quem é próximo? Certamente só quem está próximo e junto aos outros. Em tal perspectiva, todas as segregações, separações e divisões classistas não podem ter sentido. E, como tal, só haverá próximo, efectivamente, quando deixar de haver separações e classes sociais (…)

“Construir a PAZ é forçar as barreiras que a ela se opõem, lutar solidariamente com os explorados e oprimidos, com os que aspiram ansiosamente pela igualdade entre os homens.

“Construir a PAZ é estar contra o egoísmo estéril que só pensa nos seus interesses e nas suas satisfações pessoais, consumindo, loucamente, os bens duma sociedade de luxo; é criar condicionalismos que possibilitem uma implantação efectiva da paz; e defender o homem na sua dignidade e nos seus direitos, contra as formas de opressão e exploração.

“A paz é progresso e, por isso, para que ela se realize, têm de entrar em linha de conta todos os recursos do homem e da natureza. O crescimento, a libertação e a dignificação do Homem são condições essenciais à conquista da Paz. O aproveitamento de todas as capacidades humanas, a transformação profunda e, por vezes radical, de sistemas e determinados esquemas mentais, a fraternidade dos povos em luta pela libertação, a solidariedade dos oprimidos, o esforço de todos os que, pelo seu trabalho, fazem progredir o mundo, tudo são elementos basilares para a formação da nova História e da nova sociedade”.

Tal como fizera com a entrevista do Padre Jardim Gonçalves, publicada no «Diário de Notícias» local a 26 de Maio de 1974, o bispo da diocese reagiria publicamente a este artigo do dr. João da Cruz. Fê-lo, na homília proferida na Sé Catedral, nesse dia 1de Janeiro, omitindo, porém, uma vez mais, o seu autor, embora não ficassem dúvidas a quem se referia, uma vez que repetiria, textualmente, expressões, frases constantes do texto em questão.

Segundo o relato do órgão da diocese, o prelado abordara “a construção do Mundo através da Paz, na concepção cristã de «Paz-Aliança» e em contraste com a «paz-luta» da dialéctica materialista”, afirmando: “Alguns querem uma Paz feita só de luta, uma luta cega, materialista, sem a visão de Deus, a Aliança com Deus, luta essa que acabará por destruir os próprios homens e nunca fabricará a Paz. Dizem que a Paz e a luta são conceitos inseparáveis, mas trata-se de uma visão dialéctica da vida e da sociedade.

“Para o cristão, porém, a paz não é só ausência de guerra, não é somente a ordem ou a desordem, estabelecidas; paz não é o descanso, como não é a quietude, a despreocupação ou a satisfação dos instintos ou ainda dos egoísmos estéreis desumanos. Paz é dinamismo! É alguma coisa diferente de uma simples luta. Ser cristão não é só ter um próximo igual a nós. Ser cristão e ser homem de paz é ter Deus como nosso próximo e com Ele estabelecer uma Aliança séria, sincera e profunda. Deus é Deus-Aliança e assim podemos dizer que a Paz é Progresso e o Progresso é Reconciliação”.

Francisco Santana tornar-se-ia conhecido por catalogar todos os sacerdotes da diocese que, de algum modo, adoptavam posições ou possuíam uma visão progressista do papel da Igreja na sociedade, com o epíteto de marxistas. Fazia parte da sua cartilha de “anti-comunista primário”. Uma das “vítimas” desta obsessão foi Sidónio Figueira, que o antístite pressionaria inúmeras vezes a que confessasse que era marxista – Sidónio Figueira tinha leccionado na Escola de Enfermagem do Funchal e, confrontado com um teste em que uma aluna admitia o recurso à interrupção voluntária da gravidez, não o desclassificou, considerando que do seu ponto de vista a posição fora solidamente sustentada, o que bastou para que também não escapasse ao rótulo de marxista.

Quando, no final de Novembro de 1974, o Núncio Apostólico em Lisboa reporta a recepção de uma carta em que “a quase totalidade dos sacerdotes e religiosos” da diocese do Funchal tomam “a iniciativa de confirmar a fidelidade e união à Igreja, concretizando-a no momento presente, numa inequívoca declaração de apoio e comunhão com o seu Bispo”, a notícia não gera surpresa, atendendo à análise que a PIDE/DGS fizera relativamente à fidelidade da maioria desses sacerdotes ao antigo regime.

À conta dessa fidelidade e com a passagem ao estado laical de um conjunto de sacerdotes, nomeadamente João da Cruz, Rufino da Silva, Lino Cabral, Sidónio Figueira e Paquete de Oliveira, Francisco Santana ficaria com o caminho bem mais livre para contribuir, sobremaneira, para a entrega “abençoada” do poder ao partido “com as setas viradas para o céu” – no seio do presbitério a resistência activa a essa escandalosa promiscuidade ficaria limitada, praticamente em exclusivo, a Martins Júnior e a Mário Tavares.

Olhando retrospectivamente para esse período de vida comum, João da Cruz no texto intitulado «Os Movimentos da Acção Católica Operária e a Autonomia» (livro «A Madeira na História …») expressou um sentimento partilhado, certamente, por tantos outros: “E, agora, olhando para trás, não sinto o que se passou como passado, porque o passado não é tanto aquilo que passou, mas o que fica, o que permanece. E o que permanece é a consciência da realização dum trabalho que permitiu a tantos e tantas tomarem conta de si, perderem o medo ancestral, libertarem-se da situação de escravidão e de se terem tornado mais solidários, mais dignos e mais humanos.

“E sobretudo a sensação do dever cumprido e, por isso, de sentir-me bem comigo próprio”.

* O presente artigo foi elaborado a partir de um livro em preparação e escrito de acordo com a antiga ortografia.