20 janeiro 2026

a lapalissade do dia

 

Apesar da confusão que vai na cabeça e na consciência de certas pessoas com responsabilidades em partidos de direita, o amoral mentiroso não é o líder da direita. É apenas o líder dos portugueses que, entre a Democracia e Salazar, preferem Salazar.
Mas um Salazar 2.0: a combinar a grunhice e a falta de vergonha com a lágrima de crocodilo para apelar à emoção no tiktok.
(Por acaso agora pergunto-me: será que Salazar simpatizaria com esta sua cópia oportunista? É que, bem ou mal, o original tinha convicções que queria impor ao país em nome do bem nacional; este seu seguidor não tem qualquer convicção, tem apenas o projecto de se impor, ele próprio, ao país - e o bem nacional que se lixe. De facto, se "Estaline" desse mais votos que "Salazar", a minhoca sem coluna vertebral já teria dito "este país precisava era de três Estalines!", e tornar-se-ia o líder dos portugueses que, entre a Democracia e Estaline, preferem Estaline. Se fosse o que lhe desse mais votos, era isso mesmo que ele era.)
Tenho a certeza absoluta de que a esmagadora maioria das pessoas que votam na direita democrática são pessoas com princípios sólidos.
(E porque estou tão certa disto? Fácil, fácil: se não tivessem princípios sólidos, já tinham embarcado na cantiga do flautista de Hamelin, que é muito apelativa para um certo tipo de gente.)
Portanto: há futuro para a direita democrática. Mas ele passa unicamente pela capacidade de defender, sem margem para dúvidas, o nosso bem maior: a Democracia.
Isso significa: cordão sanitário. Isso significa afirmar: não abdicamos destes princípios.
(E mais umas quantas mudanças importantes, mas isso são temas para depois de 8 de Fevereiro, e referem-se a todos os partidos, não apenas aos da direita democrática.)
Daqui a menos de três semanas, Portugal vai escolher o seu presidente da República: queremos ser representados por uma pessoa com firmes convicções democráticas, ou por um manhoso sem escrúpulos nem ética?
A resposta parece-me muito simples.
Portanto: desculpem a lapalissade do dia.

19 janeiro 2026

não perdem tempo

 

O facebook acordou cheio de comentários de defensores do aldrabão, com a cartilha dos "50 anos a roubar", "imigrantes criminosos e a viver do Estado Social", "mimimi, ai que vamos ser todos muçulmanos", etc.
Isto é gente que existe mesmo, a tentar desculpar-se de ter escolhido votar no regresso da outra senhora, mas agora em mais grunho - ou são bots a trabalhar já para a segunda volta? Resposta: ambos. E o trabalho dos bots confirma que a Democracia portuguesa está a ser atacada por quem sabe muito. Isto não somos nós a conversar uns com os outros, é uma máquina muito bem programada e muito bem oleada a trabalhar com o objectivo único de destruir as Democracias ocidentais. Já conseguiu nos EUA, ia conseguindo no Brasil, e vai de vento em popa na Europa.

párias da sociedade

 

Lembro-me bem - e ainda nem foi assim há tanto tempo! - do orgulho com que dizia, aqui na Alemanha, "ah, em Portugal não há direita populista". Lembro-me do olhar de admiração (e quase inveja) de quem me ouvia.
Não vai assim há tanto tempo, os portugueses tinham um trunfo realmente especial para afirmarem no estrangeiro que são um país muito apresentável. Quem anda cá fora a lutar pela vida no "país dos outros" sabe como às vezes faz falta ter algo especial para revelar sobre o país de onde viemos.
Por isso mesmo me surpreende que os emigrantes portugueses estejam na linha da frente do apoio ao burgesso.
No caso da Alemanha, em particular, é um autêntico tiro no pé: o sistema político alemão não tem a menor dúvida sobre a necessidade imperativa de manter um cordão sanitário para proteger a Democracia, e de impedir que a AfD chegue ao poder.
Uma percentagem tão grande de imigrantes portugueses a votar no "3 salazares" pode ter consequências ao nível da morosidade na concessão da nacionalidade alemã aos portugueses que a pedirem.
Os adeptos do "isto não é o Bangladesh" e "os ciganos têm de cumprir a lei" catapultam-se a si próprios para o lugar de pária na sociedade onde vivem. Parabéns.

"o diabo agarra na tua alma e deita-a ao lixo"

Partilho um apontamento do Vasco Pimentel no facebook, e acrescento: Bem sei que o governo minoritário está preso por arames e acordos parlamentares pontuais, e por isso mesmo me parece que, neste preciso momento da História, Montenegro tem de escolher se quer preservar a Democracia em Portugal, ou se se está nas tintas para o que vier depois dele.

Portanto: gostei muito do que o Vasco escreveu, mas discordo num ponto - o Montenegro não pode ficar caladinho e dizer ao Marques Mendes que se chegue à frente para tentar salvar a honra do partido. ---
O PSD podia ter feito uma coisa muito simples, que o colocaria algures a meio do caminho da decência.
--- O Montenegro, Presidente do partido e Primeiro-ministro de um Governo minoritário, preso por arames a acordos parlamentares pontuais com PS e Chiça, não endossava nenhum dos candidatos presentes à segunda volta, visto que um é do PS e o outro do Chiça.
--- O candidato derrotado, no entanto, o Marques Mendes, declarava o seu voto, a título pessoal ou em nome da candidatura, no candidato António José Seguro. E explicava porquê, já que é tão bom explicador de tudo e mais um par de botas. Não comprometia o partido (não tem nenhum cargo de direcção) e não comprometia o Governo minoritário do seu partido, cujo Presidente e Primeiro-Ministro mantinha a prudente equidistância, em nome da estabilidade do triste & periclitante Governo a que preside.
Tiveram todo o tempo do mundo para terem cozinhado isto.
Não o fizeram.
Colocaram-se, Governo e partido por atacado, no campo da indecência.
E amanhã vão começar a perceber que nem sequer ganharam nada com isso. Quando vendes a tua alma ao Diabo, o Diabo não passa a ter a tua alma. Agarra nela e deite-a para o lixo. E a alma deixa de existir. O Diabo não precisa de almas para nada.

18 janeiro 2026

"we the people"

 

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"We the people" – é assim que começa o preâmbulo da Constituição dos EUA. O poder político emana do povo: “nós, o povo, (...) decretamos e estabelecemos esta Constituição para os Estados Unidos da América”.
Tal como a democracia na antiga Atenas, é uma ideia extremamente moderna e ao mesmo tempo bastante coxa: “we the people” são os brancos daquele país.
Mas é um começo na direcção certa.
No Parlamento Federal alemão, melhor dizendo, no edifício chamado Reichstag, inscreveram a frase “dem deutschen Volk” sobre a entrada. “Para o povo alemão”. A frase não está lá desde o tempo da inauguração do edifício, porque o Kaiser não quis (“era mesmo só o que faltava!”, imagino eu que terá dito, “como se não bastasse essa mania do parlamentarismo para me irritar, ainda querem trazer para cá o povo!”). Não queria, mas entretanto meteu-se na aventura da Grande Guerra, precisou do apoio popular, e lá tratou de acrescentar essa linda frase para passar a mão pelo lombo dos pagadores de impostos. Para ser mais honesto, bem podia ter mandado afixar antes: “para o contribuinte alemão”.
Não sei se tem alguma coisa a ver com a frase ou não, mas daí a pouco tempo o Kaiser estava a passar à história, e a Alemanha estava a passar a república. Duas décadas depois, os artesãos que tinham feito aquelas letras em bronze e as aplicaram no edifício foram mandados para Auschwitz, porque o “we the people” desses tempos terríveis achava que eles não eram povo.
Entretanto, há muito boa gente que continua a confundir o povo com o contribuinte. Volta e meia, lá vem o argumento dos que pagam e dos que recebem – estes últimos não são bem povo. E também há quem confunda povo com cor da pele. Ainda estão na fase do “we the people” inicial. Alguns séculos de atraso.
Em 2000, quando o Parlamento Federal regressou a Berlim, o artista Hans Haake instalou num pátio do Reichstag uma obra de arte que é um canteiro, alimentado com terra que cada deputado traz da região que o elegeu, e onde se lê “Der Bevölkerung” (para a população), em letras com a mesma fonte da “para o povo alemão” que continua na fachada do edifício. Diálogo e mudança de perspectiva.
Os partidos de esquerda não gostaram, por causa daquela coisa da terra (reminiscência problemática das ideias nazis “sangue e terra”) e os da direita acharam que era até anticonstitucional, porque roubava o Parlamento ao povo alemão. Foram a votos, e a coisa passou à tangente: 260 a favor, 258 contra.
E o que é afinal “we the people”, no caso? O povo alemão ou quem cá mora – inclusivamente eu?
Eu, propriamente dita: vivo aqui há quase 40 anos, e ainda sinto que estou no país dos outros.
Apesar de pagar impostos.

segunda volta

 

Ora bem: acredito que quem gosta do oportunista mentiroso já votou nele. E que os votos nos candidatos da direita democrática eram uma escolha das pessoas de direita que prezam a democracia. Sublinho: que prezam a democracia.
Muito me surpreenderia que as pessoas decentes da direita democrática (e são muitas) agora fossem votar no mentiroso antidemocrata.
Tanto mais que o Seguro é uma figura que não mete muito medo à direita democrática.
Portanto: na segunda volta, o aldrabão não vai ter muitos mais votos. Aposto com quem quiser.

e o voto dos portugueses no estrangeiro?

 

E os votos dos emigrantes?
Na legislativas, o partido do aldrabão levou dois dos quatro lugares na assembleia correspondentes aos votos dos emigrantes.
Os outros dois lugares foram para o PSD.
Entretanto, pergunto: esses dois deputados eleitos para "mudar o sistema", "finalmente fazer alguma coisa", "vamos a eles, pá!", etc. - que fizeram eles para melhorar a situação dos emigrantes que os elegeram e que, em inúmeros casos, têm de fazer centenas de quilómetros, ou até milhares, para poderem votar nas eleições para a presidência da República?
Avisaram que era preciso discutir o assunto com carácter de urgência, mas depois meteu-se o festival dos hamburgueres, e mais uma mentira aqui e mais uma mentira ali, e o chefe não consegue ir a todas. Os problemas dos emigrantes ficaram para as calendas gregas.
Ou seja: até em causa própria são incompetentes! Tivessem feito aquilo para que foram eleitos, e o Andrezito agora tinha mais uns quantos votos. Mas não. Porque: uma pessoa não é elástica, ou há-de estar a dar baile no Parlamento, ou há-de estar a trabalhar para resolver questões que dificultam a vida dos portugueses. E eles preferem dar baile no Parlamento.

17 janeiro 2026

diagnósticos

 

Coisas que uma pessoa aprende quando anda à procura do método científico que levou à classificação da homossexualidade como doença...

Sabem o que é a "drapetomania"?

Era uma doença diagnosticada pela Psiquiatria no séc. XIX, que se define do seguinte modo: "disorder of slaves who have a tendency to run away from their owner due to an inborn propensity for wanderlust”.

(E também há o curioso caso da masturbação, que passou de doença, no séc. XIX, para cura no séc. XX...)

acudam, que até parece que estamos cercados...

 

Mais coisas curiosas que uma pessoa encontra quando anda à procura do método científico que levou à consideração da homossexualidade como doença: desta vez, uma teoria da conspiração publicada numa organização alemã que se diz evangélica (e da qual a Igreja Evangélica se demarca), onde se diz o seguinte:
"Adolf Hitler understood the cleansing power that comes with the ability to place all of one’s ills on a scapegoat. It is especially medicinal to move infirmities outside the self because then “one can battle an external enemy [rather than the] enemy within.”240 In Hitler’s Germany, by the use of public discourse, people were convinced to take horrible action to solve a Jewish problem where none existed. Today, homophobes and heterosexists are proclaimed to be the problem. Hate crimes and gay rights legislation are proposed as the solution."

Traduzindo: do mesmo modo que Hitler soube inventar um problema com os judeus para os aniquilar, o pessoal da agenda gay tem sabido inventar um inexistente problema de homofobia para poder perseguir os heterossexuais.

(Não há dúvida que o interessado é sempre o último a saber: sou uma grande vítima, e ainda não me tinha apercebido disso!)

Se calhar a psicologia podia começar a equacionar alguma patologia para explicar este sentimento de estar cercado e ameaçado todos: pelos negros, que querem ser reconhecidos como iguais em dignidade e direitos; pelas mulheres, que querem ser reconhecidas como iguais em dignidade e direitos; pelos nacionais filhos dos estrangeiros, que querem ser reconhecidos como iguais em dignidade e direitos; e agora até pelos homossexuais!

16 janeiro 2026

reflexão

 

Estava aqui a pensar: tendo em conta que as eleições custam muitos milhões de euros ao país, e implicam um esforço enorme para muitas pessoas (pensem, por exemplo, nos portugueses emigrantes, obrigados a fazer 400 e 600 e 1500 km para irem votar!), não seria boa ideia tratarmos de eleger o Seguro já na primeira volta?
Ficava o assunto resolvido logo de uma penada, pronto.

E sempre sobravam alguns milhões para comprar umas ambulâncias (com guia de partos e tudo!), ou um avião de combate aos incêndios, ou assim.

se é para haver moralidade...

 

Antes de irmos todos para casa reflectir profundamente, queria voltar a um tema que voltou à berlinda esta semana: o que acham os homens sobre o aborto.
Será que os tempos já estão maduros para assumir que nenhuma criança é gerada sem a participação do pai biológico (excepto uma, vá, mas foi por uma vez sem exemplo) e que o preço de uma gravidez não desejada, mas imposta pela sociedade, tem de ser pago pelos dois?
Significa isso que a sociedade que quer obrigar a mulher a levar uma gravidez não desejada até ao fim tem de ser também a sociedade que, mal a criança nasce, obriga o pai biológico a assumir todas as responsabilidades: de criar, de educar, de acompanhar, de ir levar e ir buscar aonde for preciso, e de pagar.
Sublinho: o pai biológico - não é a mãe dele, nem a criada, nem a mãe adoptiva. Se a mulher aguentou 9 meses violentos e um parto (que, note-se: não queria!), o homem também há-de ser capaz de aguentar umas noites mal dormidas, umas faltas ao trabalho por doença da criança, uma gestão apertada dos seus horários, queira ou não queira. Se não queria, paciência: tivesse tento na gaita. Pensasse antes de fazer.
Portanto, tão bem-falante candidato Cotrim: se quer mudar as regras, mude-as a sério. Roubar liberdade de escolha à mulher sem a roubar em medida equivalente ao pai biológico é violência misógina. Se roubar a ambos em igual medida, também é violência, mas pelo menos não é só contra a mulher.
Claro que sei o que vão comentar: "ai, que horror, coitadinha da criança a ser criada por um homem que não a queria/não tem jeito/não tem vocação/não estava na fase certa da vida, mas foi a isso obrigado pela sociedade! Que ideia cruel! Nenhuma criança merece!"
E têm toda a razão. Porque o primeiro direito de uma criança é ser desejada e acolhida por pais que se sentem felizes por tê-la. E por isso mesmo me parece uma violência a sociedade obrigar uma criança a nascer de uma mulher que não a quer.

um muito de beleza por dia, nem sabe o bem que lhe fazia

 

João Barradas a tocar a Sonata em Si menor K. 87 de D. Scarlatti na Antiga Sé de Idanha-a-Velha.


Conheci o trabalho do João Barradas no "Requiem pour L."
Um dos autores desse concerto comentava connosco no final: "o João Barradas é excepcional, mas não lhe digam".
Digam, digam! Ele merece.

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O concerto, produzido pela Arte das musas, foi englobado no 9º Festival Fora do Lugar, Festival Internacional de Músicas Antigas.
Video by Filipe Faria with Rita Santos and Mário Alves. Recorded and Mastered by Filipe Faria. Produced by Arte das Musas. 9 Fora do Lugar 2020. Festival Internacional de Músicas Antigas. Idanha-a-Nova. UNESCO Creative City of Music.


15 janeiro 2026

decisões, só decisões

 



Esta mocinha vem a Berlim em Março. Ela, e Brahms. Outro sobre azul sobre ouro sobre azul sobre ouro sobre azul. E ainda têm bilhetes com vista para, digamos, o teclado. Contudo, uma pessoa parece que nunca está satisfeita: estou aqui a pensar se compro já o bilhete, ou se fico à espera que vendam bilhetes nos lugares do coro, bem mais perto da pianista. Mas: e se desta vez não venderem, e entretanto os outros já estiverem esgotados? (Uma vez perguntaram-lhe uma palermice qualquer sobre a roupa que usa em concerto, e ela perguntou em troca algo como "você em que século vive? ou em que país? não me diga que estamos no Irão e eu não reparei?")
(estou agora mesmo deliciada com o Chopin, a partir de 24:05)

sopa

Tinha de fazer uma sopa, e decidi prepará-la na Bimby, que toda a gente diz que é o ideal para fazer sopas. Escolhi uma receita com muito boa classificação, "sopa de cenoura e feijão verde", e comecei. Pediam batata doce, mas só tinha das normais. E courgette - como não tinha, deitei mais uma batata. Depois diziam "40 g de beterraba". Mas como tenho um saco inteiro delas, despachei logo ali mais meio quilo. Ala!

Pus a cozinhar, com o feijão verde e a cenoura cortados aos bocadinhos a cozer no vapor, e tudo bem.

O pior foi no fim, quando começámos a comer, aijajus. Era uma sopa bipolar! Uma parte dela ia na direcção de creme de cenoura e feijão verde, a outra era claramente sopa de beterraba. Nunca pensei que estes dois sabores se separassem tão bem no palato, e me dessem uma sensação tão clara de haver alguma coisa muito errada na minha comida.

Falei com uma amiga, que me sugeriu acrescentar sementes de girassol torradas. Mas essas, misturadas com os bocadinhos de cenoura, só aumentaram a impressão de bipolaridade.

Entretanto, a minha amiga falou-me de fazer sopas com ingredientes todos da mesma cor. Pensei: boa, tomate e beterraba! Ela sugeriu que lhe acrescentasse, em vez disso, um refogado de cebola e alho. E juntasse salsa (não fiz perguntas sobre a teoria das cores, que a minha vida já estava suficientemente desesperada, não precisava de arranjar lenha para me queimar uma amiga).

Fiz o refogado de cebola e alho e deitei muito tomate. E salsa. Fiquei com um lindo molho de tomate, e hesitei: faço um esparguete e almoço feliz, ou tento salvar a sopa bipolar, escondendo o excesso de beterraba com o excesso de tomate?

Como a minha amiga não estava a ver, deitei metade da sopa que tinha no novo molho de tomate. Ficou tão deliciosa que - catrapum! - decidi juntar a sopa restante.

Ficou tripolar: creme de cenoura e feijão verde numa direcção, creme de beterraba na outra, molho de tomate entre elas.

Mas por essa altura já tinha tanta fome, que comi uma bela pratada. Agora, amanhã, é aguentar a fome até mais não poder, e marcha o resto.

*naperon*

 

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Tenho um armário cheio de naperons herdados de outros tempos. Já não vou para nova: nasci na época dos naperons em cima da televisão e debaixo dos objectos que povoavam mesas, mesinhas e aparadores, e lembro-me bem do naperon 2.0 desses dias: o chapeu de crochet à volta do rolo de papel higiénico que se via em muitos carros, por trás do vidro traseiro.

Muitos dos naperons no meu armário, se já cá estavam quando nasci, são certamente centenários. Portanto, tenho um museu em casa, e nele guardo testemunhos de mulheres que sabiam criar o belo com as suas mãos. Do tempo em que criar o belo com as mãos era um acto natural de vida das mulheres.

Os naperons, concedo, eram um bocadinho inúteis. Mas nada era inútil na passagem de saberes (agora metes a agulha assim, agora dás uma volta, agora puxas), naquele prazer de se entregar à criação, no trabalho meditativo e no domínio da matemática, no brilhozinho dos olhos ao mostrar os trabalhos terminados e perfeitos: prodígios do saber fazer. Nada era inútil na minha própria aprendizagem, no decifrar dos esquemas das revistas, na imensa certeza de que também eu seria capaz de criar algo belo. Não sei quem fez esses naperons, que guardo quase religiosamente e não uso. Não sei que avó, tia, prima ou amiga. Que vida, que preocupações teriam. Em que momentos se aquietavam em paz, a bordar ou a fazer crochet.

Mas, de certo modo, todas elas estão juntas no meu armário - não como num cemitério, "aqui jaz", mas como num lugar de encontro: "aqui vive". [ Na imagem: um naperon de renda de bilros, feito por alguma mulher do sul da Alemanha, que encaixilhei (já que as televisões actuais não dão para pôr naperons em cima...) ] **** As outras mulheres que se encontram no Largo:
A Curva 
A Gata Christie
Boas Intenções
Gralha dixit 
O blog azul turquesa 
Quinta da Cruz de Pedra

14 janeiro 2026

joga pedra na Geni

 


Estava aqui a pensar que se um gajo tivesse sido indecente comigo num contexto profissional em que eu tinha de comer e calar, porque se piasse lixava a minha vida profissional, provavelmente iria sofrer esse abuso em silêncio. Mas talvez não conseguisse continuar calada se visse aquele que me fez tanto mal a ser permanentemente aplaudido no espaço público.
Seria certamente movida pela emoção, porque ninguém no perfeito uso da sua racionalidade, toda a sua racionalidade e nada mais do que a sua racionalidade cometeria o harakiri de erguer a voz contra um homem poderoso na nossa (ainda) coutada do macho latino.
Estava também a pensar que muita gente desconfiará que essa mulher foi paga para publicar uma mentira. O que me leva a perguntar: quantos milhões teriam de me pagar para deitar a minha vida e a minha tranquilidade a perder, passando a ter colado a mim, para sempre, o carimbo da gaja que fez queixinhas, sabe-se lá porquê, provavelmente até aceitou tudo enquanto foi subindo na horizontal, e quando já não precisava, a ingrata...
(não preciso de dizer mais, pois não? Todos sabem o que acontece às mulheres que ousam incomodar os homens.)
Não sei o que aconteceu. Ninguém sabe, excepto - provavelmente - os envolvidos.
Mas sinto-me pessoalmente ultrajada pela maneira como atacam a queixosa. É sempre o mesmo esquema de apedrejar a mulher. Hoje é ela, amanhã serei eu ou será a minha filha.
(Ah, e para os que dizem que ela só tinha de arranjar outro emprego, em vez de se sujeitar em silêncio, respondo: "a vergonha tem de mudar de lado". De um modo geral: no local de trabalho, quem está mal é a pessoa que abusa do poder que o seu cargo lhe dá. O "direito de pernada" tem de ser erradicado do perfil de um cargo de chefia. De facto, o envolvimento com um subordinado devia representar um risco real de perder o emprego de chefia. Desculpa, Michelle Obama.)

intrigas internacionais

 

Estava aqui a pensar que não percebo nada de intrigas internacionais. Estava de coração apertado, a pensar nos iranianos que têm a coragem desmedida de se manifestarem contra o seu regime, e aparece o filho do antigo xá, confortavelmente instalado num sofá norte-americano, a pedir boleia armando-se em condutor. Pelo menos foi o que senti.

Trump também apareceu em cena, e fiquei interdita - entre a recusa liminar, a recordação do que disse um habitante de Sarajevo a propósito da guerra ("quando ouvimos os aviões americanos, sentimos uma esperança enorme"), e o exemplo muito recente de retirar um ditador, manter o regime e apoderar-se do petróleo.

Netanyahu não se fez esperar: também apoia muito o esforço heróico do povo iraniano, e Israel tudo fará para ajudar no que lhe for possível.

Então como é?
Já um povo não pode sair à rua correndo um terrível risco de vida, e logo aparecem os interessados em aproveitar a situação?
Pobres iranianos, cercados por dentro e por fora!

(Por outro lado, confesso, também pensei: e se o regime iraniano fosse deposto, e se as organizações que lutam pela extinção de Israel deixassem de receber apoio financeiro e logístico - será que os palestinianos conseguiriam finalmente ter o seu próprio Estado e uma vida digna?)

12 janeiro 2026

do not go gentle into that good night

 


Rage! Rage against the dying of the light!

11 janeiro 2026

Grimaud!

 


Ia deixar este vídeo só assim, para um entardecer sereno, mas lembrei-me do comentário de um amigo, "há pianos cheios de sorte!" e do comentário seguinte, depois de lhe ter falado do documentário sobre a pianista e os lobos: "fui ver!!!! Aaaaaah! Os sacanas dos vira-latas!!!! Só me apetece sair a uivar!!!!"

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De modo que deixo este vídeo, e mais um sorriso bem disposto, com votos de um bom entardecer de domingo para quem passa por aqui. 

10 janeiro 2026

09 janeiro 2026

uma pequena humana de Mumbai


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“I have a big book about tiger conservation, and I always knew that the ocean was in trouble. But I didn’t really become an environmentalist until I got to grade one. That’s when I thought of many interesting ways to help. Some things you can do are reduce waste, carpool more often, spread awareness, plant trees, not cut trees, cut carbon emissions, and reduce nuclear disposal. I’m too young to start nuclear disposal because it’s dangerous and I don’t have the proper gloves. But I do recycle and keep plants on my balcony.”

(Mumbai, India) 

***

"But I didn’t really become an environmentalist until I got to grade one." 😍)
Como será esta miúda agora?