segunda-feira, julho 24, 2017

Número 61

Eu vi o número 61. Digo, parei e olhei o número 61. Foi como se pela primeira vez eu o percebesse além do conceito de número, como a personificação do número. Me senti aquelas pessoas que moram no mesmo prédio há anos mas não olham para os que trabalham lá, e um dia, como que por acaso, lembram que aquele ser também é gente e o veem pela primeira vez. Ou seja, me senti mal pelo desrespeito contínuo que tive pelo número 61 todos esses anos.

A fonte em questão, não sei seu nome, tinha o arco alto do número 6 bastante curvado. O 1 era ordinário - não me lembro de perceber essas diferenças entre os números um, existem, mas eu ignoro, inconscientemente. Não no sete, não no cinco, não no seis ou nove. Era um seis com seu arco superior razoavelmente curvado, um seis clássico, um seis que me lembrava tempos antigos e sérios, um seis quase filosófico.

E olhei para este seis solene seguido do um ordinário e fiquei confuso, muito confuso, com aquele número 19 que tinha um aspecto tão diferente. Algo estava errado com o 19. O 1 estava no lado erado, o 9 de cabeça para baixo. Eu percebia isso não de forma muito consciente, era apenas confuso, eu sabia que algo ali estava errado.

O que estava errado era meu comportamento para com o número 61 durante toda a minha vida. Um número pouco notável, pouco dito, sem piadas próprias, sem grandezas naturais que lhe fossem características, uma idade irrelevante. Era o 61, mas não para mim, para mim ainda era o 19. Tinha uma coisa muito estranha com aquele 19. E então, percebendo a minha estranheza, resolvi olhar para aquele número de novo. Aquele trabalhador incansável que eu ignorei por todo esse tempo, lhe dando o status de coisa, não o respeito e individualidade que ele merecia desde antes de eu nascer.

Olhei para ele e o percebi. Pela primeira vez eu vi, de verdade, o número 61. Foi como quando você percebe que azul se chama azul, que tem aquele som muito especifico, e não azil ou azol, e tem aquelas exatas letras numa sequência exata com sua forma exata e seu resultado interpretativo não tão exato assim. Azul. Aquele momento que você repete e repete e repete a palavra, como que para testa-la, aquela palavra tão comum que de repente se torna uma estranha e você esquece mesmo como dizê-la, e se repetir bastante o som se perde e você a perde e ela deixa de fazer sentido completamente e vira um mantra ecoando no vazio sem significado próprio, sem voz, representação ou corpo. O 61 era hoje meu azul redescoberto.

Olhei para ele até que os algarismos deixassem de fazer sentido, até que eu esquecesse que ele é muito mais do que um desenho numa superfície, que ele não esta solto, que ele anda acompanhado do conceito de si próprio. Me perdi no 61, naquele até então estranho 19, e perdido nele fiquei até que de repente, pela primeira vez, eu o vi. Estava ali diante de mim o 61 em pessoa, seu avatar, seu proxy, seu múltiplo, sua representação, aqueles pequenos e redondos traços que são apenas a porta de entrada para uma dimensão própria e infinita que é a dimensão de todo número.

Eu olhei para ele com vergonha, como se pedisse desculpas por tê-lo ignorado por tanto e tanto tempo. Ele nunca me respondeu, não pareceu ficar com raiva, com rancor, com ódio, ou nenhum outro sentimento. Ele era apenas o 61, mas também o poderoso 61, que não precisa de minha aprovação, minha devoção ou mesmo meu reconhecimento. O 61, apenas. Foi bom vê-lo pela primeira vez. E agora, para mim, ele tem uma forca que eu desconhecia e nunca esperaria dele.

segunda-feira, dezembro 19, 2016

O casamento de uma vida

Ela descobriu que tinha câncer.

Já sabia que tinha algo errado. Já sabia. Mas não que era tão errado.

Primeiro ela ficou parada, muda. O médico olhava para ela, frio. Por dentro ele estava triste. Muito triste. Mas por fora tentava ficar frio porque ele não sabia lidar com esse tipo de situação.

Entendeu? Entendi. Eles conversaram um pouco mais. Alguns tipos de câncer se curam. Não era esse tipo de câncer.

Ela foi pra casa andando, um caminho longo. Ligou o fone bluetooth e caminhou por mais de uma hora até em casa. Não tinha ninguém, e ela pode sentar e chorar, deitar e chorar, tomar banho e chorar, e chorar, e chorar até apagar.

Ela acordou chorando, no meio da noite, e continuou chorando, e voltou a dormir, e voltou a acordar.

Ela estava muito triste. Porque iria morrer, claro, ela não queria morrer, mas o que a deixava mais triste é que ela iria morrer sem casar. Ela não aceitava que fosse morrer sem casar. Era seu sonho. Ela nunca quis tanto outra coisa na vida. Ela já tinha encontrado o namorado perfeito e pra ela era uma questão de tempo. Ela achava, ao menos.

Sua família ficou arrasada. Destruída. Sua mãe não parava de chorar, seu pai não parava de bater nas paredes, seu irmão mais novo não conseguia olhar nos olhos dela. Todos estavam culpados, tristes, confusos, perdidos. Todos foram ao médico com ela, todos custaram a aceitar, e teriam custado mais se ela não começasse a piorar tão rapidamente.

Seu namorado também estava muito triste. Claro. Quem não estaria, no seu lugar? Mas ele estava triste porque ela iria morrer, não porque ele iria perder a namorada. Ele gostava dela, mas era um namoro... qualquer. Ele não pretendia casar com ela. Ele não pretendia ter filhos com ela. Ele sabia que em um ano ou dois ele iria embora dali, estudar fora, e seria o fim do namoro. Talvez eles ficassem amigos, talvez não, isso era quase indiferente. Era bom agora namorar com ela, e era bom saber que não iria namorar com ela pra sempre.

Duas semanas depois do diagnóstico ela só falava do casamento. De como iria morrer sem casar, de como era triste morrer sem casar, de como sua vida não teria valido a pena se ela morresse sem realizar seu único e maior sonho.

Sua família não era pobre, mas não tinha dinheiro sobrando. O que os pais ganhavam, usavam para sustentar a casa. O que os filhos ganhavam, nos seus sub-empregos, eles usavam para se divertir e pra tentar juntar algo para a faculdade. Mas juntar dinheiro não era o forte de nenhum deles.

Seu namorado também não era pobre, mas também não era rico. Não tinha família, até que ganhava relativamente bem, mas tinha que se sustentar e juntar dinheiro para a própria faculdade.

Assim que, somando tudo isso, casar seria um negócio muito complicado. Porque não bastava pra ela um casamento privado, um casamento coletivo numa igreja, um casamento no fórum. Ela queria festa. Ela precisava da festa. O sonho dela era um casamento de verdade. Um casamento com convidados, com festa, com música, com um vestido lindo, com um noivo lindo, com um padre, com uma banda, com comida, amigos, noite adentro, com ornamentos, com tudo o que ela tinha direito.

Sua família não tinha a menor condição de bancar isso. Não assim, sem se preparar, sem juntar dinheiro com os parentes. Seu namorado também não. Mas ela só falava nisso, todo o tempo, e chorava, e chorava, porque iria morrer logo, e iria morrer sem realizar seu sonho. E como seria horrível morrer sem realizar seu sonho. E como o tempo dela estava acabando.

A família dela pegou alguns empréstimos. Vendeu os carros. Mudou rotinas. Não seria suficiente. Foram conversar com o namorado, que não queria casar. Pra que ele iria casar? Ela iria morrer, ele continuaria ali, sem ela. Ele com certeza iria casar com outra pessoa, teria filho com outra pessoa, para que ele iria casar com ela? Qual o sentido disso? Mas a pressão foi muito forte, ele não tinha como negar o pedido de alguém prestes a morrer, por mais que isso fosse prejudicar sua vida. Afinal, é o sonho da vida dela. Que está prestes a acabar.

Realmente foi um casamento muito bonito. Depois de se endividar bastante e aceitar, o namorado entrou na onda da festa. E os pais. E o irmão, e os amigos, e os parentes, e o padre, e a cidade. E ela foi notícia local, depois no estado, depois no país, e depois no mundo. E a festa durou dois dias, e ela estava linda com um vestido comprado numa loja chique, e teve excelentes comidas, e as pessoas iam pra casa, descansavam e voltavam, e teve banda, e teve DJ, e ao final eles tiveram uma excelente lua-de-mel num hotel na cidade vizinha. Foi melhor do que ela poderia esperar.

E uma semana depois ela morreu, no hospital, vomitando sangue, com a família chorando, com dor, com tristeza, com raiva, com desespero, com tudo o que ninguém precisa nem se prepara.

E a família nunca mais se recuperou financeiramente, e o irmão dela nunca pode ir pra uma faculdade, e seus pais passaram o resto da vida trabalhando nos fins de semana. E seu namorado vendeu a casa, vendeu o carro, mudou para um apartamento com amigos e levou duas décadas para se recuperar financeiramente.

Mas ela realizou o sonho de sua vida, mesmo que não pudesse aproveitar depois. Não é isso o que importa?

domingo, agosto 16, 2015

No restaurante


Ela estava atrasada. De propósito.
O cliente sempre a deixava esperando.
Pagava bem, tinha um caso relativamente fácil.
Mas abusava.
Ela decidiu não correr.
De longe podia saber onde ele estava.
Ele atraía a atenção das garçonetes.
As gorjetas ajudavam.
Mas ele era muito bonito.
Sorriso bonito, rosto bonito.
E ele também tinha um "quê" diferente.
Um ar, um sorriso diferente.
Ela se dirige à mesa dele.
Já sorrindo - ele sempre a recebe com uma cantada boba, mas bonitinha.
Mas dessa vez ele está acompanhado.
Ela para, um pouco assustada, um pouco contrariada.
Se sentiu um pouco traída.
"Que besteira, nós não temos nada".
Respirou e seguiu.
Ele a viu, sorriu e levantou, enquanto fazia o pedido à garçonete que não tirava os olhos dele.
Olá, disse, estendendo a mão, com um grande sorriso no rosto.
Ela ficou um pouco envergonhada, olhava de soslaio para a mulher à mesa, mas estendeu a mão, sem falar nada.
Ele puxa uma cadeira. Sente-se, por favor, bem ao seu lado.
Ela senta.
Esta é minha esposa, Júlia.
Como vai.
Prazer.
Espero que a presença dela não atrapalhe a nossa reunião.
Não, não, de forma alguma, ela diz, enquanto pensa, com um pouco de raiva: ele é casado!
Enfim.
Negócios.
Ela começa a lhe explicar o rumo que o caso deve tomar.
Ele chega mais próximo a ela. A esposa nem pisca.
Ele tem um perfume leve, muito gostoso, que só é possível sentir bem de perto.
Enquanto discutem o caso ele fica sério.
Ela acha bonito.
Ela gosta dos olhos dele seguindo as linhas dos papéis, enquanto a testa franze.
Ele pergunta algumas coisas, e sorri com as respostas.
Eles estão bem próximos, as pernas se tocam.
Até que a garçonete traz as entradas.
Pedi pensando em você também.
Eles guardam os papeis por alguns instantes. Vão se servir, suas mãos se tocam, levemente. Ela sente algo, ele parece não perceber.
A esposa dele está ocupada num telefonema interminável.
Ele oferece um petisco à esposa, que recusa.
Ele ri, e oferece a ela.
Ela acena, mas toma um susto, porque ele levou o petisco à sua boca.
Ela para, olha para a esposa dele, ao lado, alheia a tudo. Ele sorri, e insiste, com o olhar.
Ela aceita.
Seus lábios, levemente, tocam as pontas de seus dedos.
Ele sorri, satisfeito.
Comem um pouco. Ele a serve uma taça de vinho.
Não falam nada. Ele olha para o vazio, e de vez em quando olha para ela, bem nos olhos.
Ela fica um pouco intimidada.
Mas gosta.
Ela sorri, tímida.
Bebem.
Mais um pedaço de algo.
Ela fica com o canto da boca sujo.
Ele se apressa em limpar.
Ela gela.
Olha para o lado.
A esposa não está mais lá.
Ela procura Júlia com o olhar, e a encontra fora do restaurante, falando ao telefone.
A mão dele, agora em seu queixo, a traz de volta para a mesa.
Eles se olham profundamente por quase um minuto. A mão dele deixa seu rosto, desce para sua mão.
Ela treme, um pouco, nervosa. Não sabe o que fazer. E se a esposa voltar? Ela não quer nada com homens casados.
As mãos dele são um pouco pesadas e fortes, mas são macias.
Ele acaricia sua mão, enquanto a olha.
Júlia está voltando para a mesa. Ele sorri, aponta para a esposa com o queixo, e se afasta um pouco.
Ela respira, aliviada.
Uma garçonete se aproxima, com o cardápio. Ele faz pedidos para todos.
A esposa termina o telefonema, come algo. Eles dois se afastam um pouco, mas a mão dele continua sobre os joelhos dela.
Ela está incomodada.
É bom, mas é estranho, e tenso.
A mulher dele está ali, do outro lado da mesa.
Ele fala com a mulher sobre um evento que eles precisam ir na semana seguinte, enquanto inicia um carinho nos joelhos dela.
Lentamente.
Ela segura sua mão, mas ele não para.
É mais forte.
E ela não tem certeza se quer que ele pare.
Mais um vinho. Mais uma taça.
As mãos dele conseguem, aos poucos, avançar por entre as pernas dela.
Ele a olha nos olhos, de vez em quando.
E outras vezes, é como se ela nem estivesse ali, enquanto ele discute assuntos pessoais com a esposa.
Ela está muito tensa, já passou da fase de ter dúvidas se quer ou não, mas ainda está muito nervosa com a presença da outra ali.
A comida chega.
A esposa começa a comer e se concentra.
Ela esperava que ele fizesse o mesmo.
Mas ao contrário.
Ele não dá bola para a comida.
E avança sua mão por entre as pernas dela, até que não tem mais para onde avançar.
Ela dá um pequeno pulo na cadeira.
As mãos dele são quentes, assim como ela.
Ao menos, como ela está agora.
O coração bate rápido.
Ela abre as pernas, devagar. Está suando.
Ela tenta comer algo. Não consegue.
Preciso ir ao banheiro, ele diz. A esposa mal nota.
Ele levanta, e olha pra ela, sério. Sorri.
E sai.
Vai andando até o banheiro masculino. Olha pra trás, a cada 5 passos, para ela.
Ela não sabe o que fazer.
Ele para na porta do banheiro, olha para ela e entra.
Ela levanta.
Não diz nada, apenas sai da mesa.
Vai caminhando, nervosa, para o banheiro feminino.
Chega na porta, olha para os lados.
Ninguém parece notar ela por ali.
Vai até a porta do banheiro masculino.
Entra.
Ela nunca havia entrado num banheiro masculino antes.
Pia, urinóis, muitas portas.
Ele está de pé, em frente a um urinol.
Ele olha pra ela, e sorri.
Ela não sabe o que fazer.
Nervosa.
Muito nervosa.
Alguém poderia entrar a qualquer momento.
Ou sair de alguma das cabines.
Ele anda lentamente até ela, a puxa pela mão e a beija ali, no meio do banheiro.
Quente.
Forte.
Ela esquece onde está.
O coração está muito rápido.
A porta da cabine atrás dela está aberta. Ele a levanta pela cintura e a leva para dentro.
A porta fecha.
Do lado de fora, a porta do banheiro abre.
Ela fica tensa, paralisada.
Ela está tão tensa que não nota ele abrindo sua camisa.
Rápida, mas levemente.
E sua saia.
Ela tenta segurar as mãos dele, mas nem ela mesmo acredita mais nisso.

+_+_+


Silêncio no banheiro.
Ele a veste, rapidamente, e a conduz para fora, em segurança.
Ela, nervosa, atordoada, em êxtase, não sabe o que fazer.
Volte aqui amanhã para outro almoço. Eu devolvo os documentos. Mas chegue no horário.
Ela acena, ainda um pouco fora de si, e vai embora.
E passa a noite toda pensando no dia seguinte.

segunda-feira, maio 04, 2015

Esse obscuro objeto do desejo