Quando eu era pequena, meu pai tinha um certo medo que tocasse o telefone lá em casa. A época era outra: o telefone era fixo, não existia a LGPD e você facilmente encontrava o número e o endereço de uma pessoa buscando pelo sobrenome e nome dela em uma enorme lista.
Macedo, Fausto.
8711435.

Muitas vezes o telefone tocava e pediam para falar com o Fausto Macedo, mas buscavam outro, também jornalista que trabalhava com polícia. E ameaçavam meu pai achando que era o homônimo. Meu pai tinha medo que um dia fossem atrás dele pelo endereço da lista em um desses equívocos, mas nunca aconteceu.

Ele também viveu à sombra de outro Fausto Macedo mais famoso, seu próprio pai. Meu avô foi um radialista importante que trabalhou até seus últimos dias de vida, gravou um disco de jazz, criou formatos de programas de rádio e serviu de inspiração para tantos outros profissionais. Que ganhou homenagens quando partiu na Rádio e TV Cultura, com a Orquestra Filarmônica de São Paulo tocando.

Meu pai, o meu Fausto Macedo, não era tão conhecido quanto o meu avô e o outro jornalista, embora não pudesse sair na rua sem que tropeçasse em amigos e em gente que lhe queria bem. Porque ele era um cara que tratava todo mundo igual, de forma doce e gentil.

Em uma das minhas histórias preferidas do meu pai, eu já era adulta e tínhamos nos mudado para um apartamento na Pompeia, bairro de classe média alta em São Paulo (naqueles tempos era só classe média). Chovia bem naquele dia em que ele saiu com seu guarda-chuva e estava demorando para voltar. Quando minha mãe olhou pela janela, viu ele puxando uma carroça e em cima dela havia bastante material reciclável, uma mulher e duas crianças. Ela segurava o guarda-chuva do meu pai, protegendo as crianças, enquanto o meu Fausto tomava uma chuva desgraçada na cabeça.

Minha mãe não entendeu nada da cena que viu, esperou ele voltar pra casa e quando ele abriu a porta, já começou a dar uma tremenda bronca. Então ele explicou que estava na Avenida quando viu a mãe puxar a carroça e as duas crianças em cima dela, todos tomando chuva. Ofereceu ajuda e levou a família até o outro lado da ponte que continua depois da Pompeia.
E voltou sem guarda-chuva, ensopado.

Meu pai nunca bateu na gente e também não era bom de dar bronca. Não me deu bronca nem quando eu precisava no dia em que, completamente desesperada, contei que estava grávida aos 18 anos. Ele só fez questão de dizer que estava ali pra mim e pro meu filho, não importava o que acontecesse. Colocou a mão na minha barriga e o Lucas deu um chute pra ele, o primeiro chute que alguém sentiu depois de mim.

Quando eu era criança, ele me encheu de abraços e beijos. Me disse tantas vezes o quanto eu era importante e o quanto eu era inteligente. Me levou tantas vezes no trabalho dele e me contaminou com a paixão que ele tinha pelo que fazia. Ele era um jornalista orgulhoso que acreditava na profissão que tinha, mesmo quando a profissão não acreditou muito nele.

Eu e meu irmão crescemos nos corredores da TV Cultura e depois da TV Bandeirantes, onde ele também trabalhou. Meu pai desfilava com nós dois de peito cheio para dizer que a gente escrevia bem, que a gente gostava de ler, que talvez a gente seguisse os passos dele.
E seguimos, nós dois.

Meu pai, o meu Fausto Macedo, me contou todas as histórias da ditadura militar e de como ele e mamãe correram da polícia quando eram estudantes e sonhavam com um mundo livre. Quando mataram o Vlado, meu pai passou em todas as salas da USP de guarda-chuva em punho mandando todos os estudantes saírem da aula: “Parem de estudar imediatamente! Mataram o nosso Vlado”.
E ele me inspirou a lutar pela democracia e a nunca desistir dela, seja a brasileira ou a corinthiana.

E quando eu já tinha um pouco mais de idade, lá pelos meus 12 anos, meu pai me contou sobre sua bipolaridade e falou abertamente de saúde mental quando tudo isso ainda era um tremendo tabu. Na minha família e no mundo. E eu cresci ouvindo sobre a luta antimanicomial e sobre como a gente deve tratar todos com respeito e humanidade, olhar com empatia porque as pessoas travam batalhas invisíveis – e muitas vezes solitárias.

Meu pai era um homem que pedia desculpas, quando estava errado e quando estava certo. Porque era melhor deixar tudo bem do que viver em um pote até aqui de mágoa. E ele me ensinou a tentar consertar as coisas quando elas ainda parecem que tem conserto.

O meu Fausto Macedo era um homem que amava a sua mulher e não tinha vergonha de dizer isso para ela. Meu pai chegava com flores em casa para a minha mãe, tirava ela para dançar e falava abertamente que ela era o amor da vida dele, para quem quer fosse, na frente de quem quer que fosse. Eu ouvi isso de uma vizinha que eles tiveram no interior: “eu nem sabia que isso existia até conhecer o seu pai.”

E ele me ensinou a não aceitar menos do que isso.

O meu Fausto Macedo deu tantos conselhos, falou tantas coisas preciosas, mas uma das principais que me lembro sempre é que a gente deve se juntar só com pessoas que melhorem a gente. Que consigam extrair o melhor da gente. Foi isso que ele fez quando se juntou com a minha mãe e decidiu caminhar com ela o resto da vida. E ele era grato.

Meu pai era um homem que não tinha vergonha de cantar alto as músicas que gostava nem de dançar. E nem de falar o que sentia. Nem de chorar quando se emocionava. O meu Fausto Macedo chorava com filme da Sessão da Tarde, com comercial que achava bonito, com gente ganhando dinheiro no Luciano Huck. Sem tentar disfarçar.

Hoje faz quatro meses que ele se foi e eu decidi apresentar o melhor Fausto Macedo que a gente já teve nesse mundo. O melhor marido, o melhor filho, o melhor pai, o melhor avô, o melhor amigo. A melhor pessoa.
