Presidenciais, primeira volta

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Deixando a análise exaustiva para os politólogos e outros comentadores encartados, ficam apenas algumas breves notas desta primeira ronda eleitoral, para já com dois vencedores – os candidatos que, favorecidos pelo voto popular, passam à segunda volta.

António José Seguro, com mais de 30% dos votos expressos, parte como favorito para a próxima etapa. Com a imagem de político moderado que facilita a conquista de votos no centro político, beneficiou do efeito do voto útil à sua esquerda. O que contribuiu para os resultados miseráveis dos candidatos do BE, CDU e Livre, partidos que revelam uma clara incapacidade de fixar e mobilizar o seu eleitorado e precisam de repensar urgentemente as suas estratégias eleitorais.

Globalmente derrotada foi a direita dita moderada, que dividiu os seus votos entre três candidatos teoricamente fortes, acabando por favorecer o que à partida teria menos hipóteses, o antigo líder da Iniciativa Liberal, que alcançou o terceiro lugar, ainda assim a grande distância de André Ventura, que conseguiu segurar o eleitorado da direita mais radical e de ímpeto fascizante. Curioso é o facto de nenhuma destas direitas supostamente democráticas conseguir sugerir o voto em Seguro na segunda volta contra o protofascismo chegano. Já se sabia, é da História, que nos momentos decisivos de conquista do poder, há sempre uma mãozinha amiga, seja de liberais ou de conservadores, a dar aos fascistas a ajuda de que precisam, e tanto o PSD como a IL parecem não desdenhar prestar-se a esse papel. Mesmo que o candidato apoiado pelo PS seja dos menos socialistas que se poderiam encontrar naquele partido.

Grandes derrotados foram Marques Mendes, o videirinho presunçoso que se autoconvenceu de ser um estadista, e a SIC, a televisão que andou anos a promover esta mediocridade, convencida que fabricava um presidente da República como quem vende um sabonete.

Mal na fotografia ficam também os eleitores abstencionistas, que continuam a perfazer quase metade do eleitorado português. Este desprezo colectivo pela participação democrática não augura um futuro bom à nossa democracia, ameaçada também pela falta de qualidade e o oportunismo de muitos dos que se apresentam a votos. E a logística eleitoral que parece presa ao passado: candidatos que nunca o foram efectivamente a aparecer no boletim de voto, impossibilidade de votar em mobilidade no dia marcado para o acto eleitoral – uma possibilidade que existiu nas últimas presidenciais – ou três semanas para preparar uma segunda volta eleitoral são sinais de incompetência e amadorismo que, com os meios tecnológicos de que dispomos em pleno século XXI e tanta gente com cursos de gestão, são completamente injustificáveis.

Contra a cretinice digital no ensino superior

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Nunca tive dúvidas de que o uso generalizado da IA pelos alunos é um desastre em qualquer nível de ensino. Pela simples razão de que é fazendo as coisas que são exigidas e desenvolvendo os processos mentais e cognitivos necessários para o efeito que efectivamente se aprende. Se mandamos a máquina fazer o que deveria ser o nosso trabalho, nunca o saberemos fazer competentemente.

Faz por isso todo o sentido, pelo menos em teoria, a proibição da IA no contexto da avaliação no ensino superior que alguns professores pretendem implementar. Na prática é mais complicado, e temo que se esteja a querer parar o vento com as mãos ou a tapar o sol com a peneira: é que se é fácil proibir a IA ou qualquer outra tecnologia em avaliações feitas em ambiente controlado – por exemplo, testes ou exames feitos presencialmente e sob vigilância – já os célebres “trabalhos”, sejam individuais ou em grupo, são um claro convite à batota que, face à crescente sofisticação dos chatbots, nenhum software consegue detectar de forma segura.

Cheira-me que é toda a avaliação que se pratica na academia, e não apenas a dos alunos, que deve ser pensada de alto a baixo, e não apenas devido aos problemas específicos trazidos pela IA…

Um grupo de professores do ensino superior defende a proibição do uso da Inteligência Artificial (IA) nas universidades e politécnicos, para que os estudantes não se transformem em robôs, que “deixam de pensar”

O “Manifesto contra o uso da Inteligência Artificial (IA) generativa nos processos de ensino-aprendizagem” é subscrito por dezenas de professores do ensino superior. O texto denuncia uma incapacidade generalizada em “identificar com rigor práticas académicas fraudulentas”. Um dos subscritores, o professor João Teixeira Lopes nota, em declarações à TSF, que existe “uma epidemia de trabalhos que são completamente forjados pela Inteligência Artificial, o que induz a uma preguiça e falta de entendimento da parte dos estudantes”.

O professor da Universidade do Porto assume que a IA “pode ser útil” em alguns casos, mas aponta erros abundantes, que estão a transformar os estudantes em “cretinos digitais”, ou seja, “pessoas que deixam de pensar, deixam de escolher, deixam de escrever e que se transformam em [pessoas] dóceis, obedientes dos algoritmos”.

“Isso é o contrário da cidadania”, conclui João Teixeira Lopes.

Músicas do Mundo_ Playing for change – I’ve Got Dreams To Remember

A quem serve a literacia financeira nas escolas?

Um excelente artigo no novo Jornal Maio sobre a introdução da Literacia Financeira no currículo escolar. Será que aprender regras e truques para sobreviver num mercado feito para criar e reproduzir desigualdades fará de todos nós cidadãos mais ricos, prósperos e felizes?

Remeter a pobreza para a esfera da irresponsabilidade e da iliteracia, culpando os pobres, que o sistema produz inevitavelmente, pelo seu próprio infortúnio, é a receita para termos sociedades mais justas, solidárias e coesas?

A função da escola resume-se, neste caso, a levar os alunos a adquirir algumas noções sobre o funcionamento dos mercados financeiros, ou importa, como em tudo o resto que se ensina e aprende, compreender os fundamentos daquilo que se estuda? Neste caso, um sistema económico – o capitalismo financeiro, na sua faceta neoliberal – que se tornou hegemónico.

É nosso dever, enquanto professores e educadores, formar cidadãos conformistas, que aceitem passivamente a nova ordem neoliberal e procurem, dentro desta, a sua estrelinha da sorte, ou dar aos nossos alunos as ferramentas para que possam lutar, tal como as gerações que os antecederam, por um mundo melhor?

Alice Faro e Santos ajuda-nos a compreender o que está verdadeiramente em jogo numa medida aparentemente inocente e bem intencionada, mas que na verdade corporiza algo que a Constituição da República Portuguesa proíbe expressamente: programar o ensino segundo directrizes ideológicas.

A integração da literacia financeira nas escolas, formalizada pelo Referencial de Educação Financeira (REF) de 2013 e inscrita, mais recentemente, como dimensão obrigatória da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento, desde o pré-escolar ao ensino secundário, não pode ser compreendida como uma simples atualização curricular. Embora tenha a aceitação de grande parte da comunidade escolar, que vê esta inclusão como um sinal de esperança, trata-se, se pensarmos um pouco mais, de um dispositivo ideológico que subordina a escola às exigências do sistema produtivo contemporâneo e cria a figura do aluno como consumidor financeiro.

O REF prescreve que as decisões financeiras são hoje mais difíceis devido à complexidade dos produtos financeiros. Apresenta-o como um dado e esvaziando-o da sua natureza estrutural, constituindo, assim, um processo de hegemonização que se materializa de forma particularmente clara no percurso proposto. Desde o 1.º ciclo, quando as crianças são ensinadas a distinguir necessidades de desejos e a valorizar a poupança, começa a ser construída uma gramática moral, na qual o consumo é encarado como problema de decisão individual. Nos 2.º e 3.º ciclos, a introdução de orçamentos, planeamento financeiro, investimento e gestão de risco aprofunda essa lógica, deslocando para a esfera da conduta pessoal a responsabilidade por fenómenos como o sobre-endividamento. Mesmo quando, no ensino secundário, surgem referências à ética financeira, à responsabilidade social das organizações ou a modelos de negócio sustentáveis, estas permanecem inscritas numa racionalidade empreendedora que não questiona as estruturas do sistema económico, mas procura torná-las mais eficientes e aceitáveis. Traduz-se, como diria Freire, numa pedagogia de domesticação, que não visa formar sujeitos críticos, mas adaptativos às exigências de um mercado apresentado como inevitável.

(…)

Recusar a literacia financeira tal como hoje é imposta não é recusar o conhecimento matemático ou económico, é recusar a sua instrumentalização ao serviço da reprodução das desigualdades. É reivindicar uma escola que, em nome da cidadania, não forme apenas consumidores financeiros competentes, mas sujeitos capazes de compreender – e transformar – as estruturas de poder que produzem a escassez que lhes pedem para gerir.

Leitura integral, que recomendo, aqui: Educação ou mercado – a quem serve a literacia financeira nas escolas?

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6-7!

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Não passa, provavelmente, de uma expressão idiota, como aqui há uns anos se gritava 30! ou se repetia o grunhido do nosso futebolista mais famoso cada vez que marca um golo.

A verdade é que em todas as épocas houve parvoíces destas, e a adolescência, por vezes definida como a idade da parvoíce, é particularmente propensa a amplificá-las. Quanto menos se ligar, melhor.

Ainda assim, a Sic Notícias resolveu ir em busca das origens e do significado daquela que passa por ser, por estes dias, a interjeição mais popular entre crianças e jovens. Rapidamente deixará de o ser, agora que os cotas já deram com a coisa…

Não quer dizer grande coisa, mas está em todo o lado. “6-7” tornou-se uma das expressões mais repetidas de 2025 entre crianças e adolescentes, confundindo pais e professores e provando, mais uma vez, que a internet consegue transformar o nonsense num fenómeno global.

Poucas expressões terão confundido tanto pais, professores e outras pessoas com mais de, digamos, 40 anos, como “6-7”. Em 2025, a popularidade foi tal que chegou mesmo a ser considerada palavra do ano por um dicionário norte-americano.

Mas afinal, o que significa “6-7”? A resposta curta é: ninguém sabe muito bem. A expressão tornou-se viral durante o verão, sobretudo entre as gerações Z e Alpha, e muitos consideram-na apenas uma piada sem sentido, amplificada pelas redes sociais.

Pode não haver uma explicação coerente para 6-7, mas há um ponto de partida.

O número aparece no refrão de “Doot Doot (6 7)”, uma canção viral do rapper Skrilla, de Filadélfia. Segundo a CNN, neste contexto, a expressão poderá ser uma referência ao código policial 10-67, usado para comunicar uma morte.

Quase ao mesmo tempo, em dezembro de 2024, o fenómeno do basquetebol escolar Taylen Kinney ajudou a dar corpo à expressão. Num vídeo partilhado pela sua equipa, o Overtime Elite, um colega pede-lhe que avalie uma bebida da Starbucks de 0 a 10.

“Tipo 6… 6… 6-7”, responde Kinney, enquanto faz um gesto hesitante com as mãos, como se estivesse dividido entre duas opções. (…)

A «erva daninha»

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A burocracia escolar asfixia o quotidiano dos professores e das direcções escolares. É uma verdadeira “erva daninha”, como lhe chama Alberto Veronesi, a impedir que os professores se dediquem por inteiro aos seus alunos e que desloca o foco das direcções, que deveria estar direccionado à gestão pedagógica, para a gestão da burocracia.

O excesso de burocracia nas escolas resulta do cruzamento da velha tradição centralista da administração pública portuguesa com a permanente desconfiança no trabalho autónomo das escolas por parte dos decisores e burocratas ministeriais. E se alguém esperou que, com a chamada descentralização de competências para as autarquias, as exigências e o controleirismo do ministério sobre as escolas diminuísse, depressa perdeu as ilusões. As plataformas informáticas, as “monitorizações” e os relatórios disto e daquilo não só não desaapareceram como se acrescentou uma nova camada de exigências burocráticas, agora direccionada às autarquias e, em breve, às CCDR.

Os directores ouvidos nesta peça fazem uma análise apurada e pertinente desse verdadeiro elefante que temos nas escolas, o monstro burocrático que rouba tempo e energias ao que é verdadeiramente importante. Omitiram apenas um ponto essencial, que é o facto de boa parte da burocracia dirigida aos professore, não resultar directamente das imposições ministeriais, mas da iniciativa de directores sempre prontos a inventar novos processos e a complicar procedimentos. Uns porque têm uma alma de burocrata que só os deixa sentir confortáveis se estiverem rodeados de papelada, seja ela física ou digital. Outros porque acham que é assim que ficam bem vistos perante o ministério.

Uma nota final apenas para esclarecer que o António Duarte, director escolar em Queluz-Belas, nada tem a ver com o homónimo autor e editor deste blogue…

A “erva daninha”

A burocracia, identificada também pelos diretores como um dos grandes problemas que enfrentam no exercício do cargo, está a pôr-lhe o “cabelo em pé”. Alberto Veronesi não tem dúvidas e defini-la como uma “erva daninha que asfixia a gestão escolar”. “Transformaram diretores e professores em funcionários administrativos de vão de escada, soterrados em plataformas, grelhas de monitorização e relatórios infindáveis que roubam tempo ao essencial. A solução passa por simplificar processos e, acima de tudo, confiar nas escolas. O Ministério tem de parar com a obsessão do controlo documental e deixar-nos gerir pessoas e projetos. É preciso devolver o tempo aos professores para que possam fazer aquilo para que foram formados: Ensinar!”, reclama.

António Duarte não podia estar mais de acordo e acrescenta que o problema não diminuiu com a extinção das direções-gerais do Ministério da Educação e a criação da nova Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE). “Sobre nós diretores, a burocracia tem aumentado. A forma como a AGSE tem trabalhado, com a herança do sistema da DGAE não veio facilitar-nos a vida. Estão sempre a pedir-nos para validarmos aquilo que já validámos antes, a pedir-nos dados que já demos. Não há cruzamento de dados e isso torna a situação insustentável”, argumenta.  

“Há uma série de processos burocráticos que gostaria de descentralizar para funcionários administrativos, mas o ministério diz que não posso, porque ‘são da responsabilidade do senhor diretor ou do seu subdiretor’. Preciso de gerir um agrupamento do ponto de vista pedagógico e é isso que sofre. Porque, na questão da burocracia, se não fornecer os dados, não fizer os procedimentos e não cumprir os prazos, incorro num processo disciplinar”, acrescenta.

António Duarte não hesita em dizer: “Temos uma carga burocrática que não lembra ao diabo e consome a nossa paciência”.

Filinto Lima classifica a burocracia como “um dos grandes problemas nas escolas”. “É um grande problema em termos de papel e em termos de plataformas, que não fazem cruzamento de dados. Consome muito tempo aos nossos professores, que têm muito mais o que fazer do que gastar o seu precioso tempo em burocracia que não serve para nada. E a nós diretores também. Temos imensas plataformas a pedir dados que já fornecemos e a pedir dados repetidos”, corrobora o presidente da ANDAEP.

Presidenciais: a grande incógnita

Alavancada pelas sondagens, que voltam a ser criticadas quando não dão jeito e glorificadas quando apresentam resultados simpáticos (foi sempre assim e assim será), não se pode dizer que a campanha tenha sido morna. Pode dizer-se, isso, sim, que neste período de caça ao voto se discutiu mais temas relacionados com a governação do que o papel constitucional do presidente da República. Não tem mal nenhum, porque, no fundo, os portugueses querem saber o que pensa um presidente sobre o país real, sobre as pessoas concretas, sobre a vida. Não é por acaso que programas de conversas íntimas na televisão ou no YouTube têm o sucesso que têm.

Também se desvalorizou a qualidade dos candidatos, teimosamente comparados a outras figuras e pesos-pesados da política portuguesa. E voltamos ao “antes é que era bom”, porque há quem faça questão de estar eternamente preso ao passado. Um passado, aliás, que amanhã nos brinda com o dia de reflexão, verdadeira relíquia da nossa democracia que já não faz nenhum sentido.

A grande novidade desta campanha prende-se com as redes sociais. Pela primeira vez de forma transversal, a política passou também a ser posts, stories e reels pensados estrategicamente para emocionar e não tanto para refletir. As regras antigas já não definem como votamos e o sentido de voto pode mudar à velocidade de um scroll. No domingo, também estão em jogo decisões que se formam em segundos.

Numas eleições presidenciais que estarão entre as mais disputadas de sempre, há muitas dúvidas e poucas quase-certezas sobre o desfecho eleitoral. Que ninguém chegará sequer perto da maioria absoluta, tornando a segunda volta inevitável, é já uma evidência. Perante a dispersão dos votos por cinco candidatos tidos como favoritos, é quase certo o primeiro lugar para André Ventura: é o único que consegue segurar o eleitorado habitual do seu partido, ao contrário de Marques Mendes e António José Seguro que, mais o primeiro do que o segundo, deverão ver franjas do eleitorado dos respectivos partidos a serem seduzidos pelas campanhas de Cotrim e Gouveia e Melo.

Assim sendo, se a maior surpresa seria a não passagem de Ventura à segunda volta, a maior incógnita está em saber quem acompanhará o líder do Chega, a quem dificilmente escapará o primeiro ou o segundo lugar, na segunda volta. Tanto Gouveia e Melo como Marques Mendes já tiveram o seu momento áureo nas sondagens, mas caíram entretanto. Marques Mendes pode no entanto ter recuperado um pouco nos últimos dias, tendo em conta o apoio que figuras destacadas do PSD vieram dar à sua campanha e o escândalo do alegado assédio sexual que embaraçou o seu mais directo rival na disputa de eleitorado, Cotrim de Figueiredo, e que pode ter comprometido o triunfalismo erguido em torno desta candidatura.

Sobra assim António José Seguro, um candidato que não entusiasma e que dificilmente consegue ser entendido pelo cada vez mais minguado povo de esquerda como um dos seus. Contando com os votos da esquerda – veremos pelas votações de António Filipe e Catarina Martins até que ponto os conseguirá nesta primeira volta – Seguro fez uma campanha como mandam os manuais de ciência política, pescando o eleitorado moderado ao centro. Sóbrio, contido, evitando polémicas inúteis e ataques pessoais, Seguro não deslumbrou e continua a não ser o meu candidato. Mas teve o mérito de, ao contrário da maioria dos adversários, não cometer erros comprometedores. Se conseguir passar à segunda volta juntamente com André Ventura, muito dificilmente lhe fugirá o cargo de Presidente da República.

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Adiar a reforma é solução?

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Incentivar os docentes que atingem a idade de aposentação a manterem-se por mais algum tempo ao serviço é solução para, no imediato, mitigar a alarmante falta de novos professores?

Depende. Se um professor que dificilmente seria substituído a meio do ano lectivo decide continuar, isso traduz-se em beneficio directo para os seus alunos. Mas outras situações haverá, como muito bem nota a Missão Escola Pública, em que este prolongamento se traduz em dificuldades acrescidas de ingresso para os jovens professores.

É o problema das medidas cegas, aplicadas por igual em situações que podem ser bem distintas. É também o problema da falta de estudo e planeamento e de se ter de improvisar, com medidas de emergência, perante situações que tiveram todo o tempo do mundo para ser antecipadas de modo a terem, atempadamente, a devida resposta.

E nada disto é ciência de foguetões. Todos os anos os professores no activo envelhecem 365 ou 366 dias. O ministério tem os dados de todos nos seus registos informáticos. Todos os anos produz estatísticas sobre o envelhecimento da classe. O resto é matemática básica: calcular quantos saem em cada grupo disciplinar e quantos é preciso formar, admitir e reter nos quadros docentes de forma a substituí-los.

Ou então andamos a ver mal a coisa e o ministro é que tem razão: é tudo culpa de uns malandros que se esquecem de escrever o sumário!…

Adiamento da reforma entre os professores pode revelar-se medida “economicamente danosa”, alerta Missão Escola Pública

Inquérito revela que há muitos docentes a adiarem a reforma em zonas onde não há tanta escassez. Missão Escola Pública questiona se medida não poderá estar a bloquear entrada de docentes mais jovens.

Mais de 20 mil alunos sem professores

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O problema, sério, continua por resolver: faltam professores no sistema educativo, sendo a situação mais grave na Grande Lisboa e no Sul do país e mais preocupante no primeiro ciclo, onde não é possível atribuir a titularidade das turmas a candidatos não profissionalizados. O ministro parece continuar convencido de que burocratizar o registo dos sumários o vai ajudar a mascarar a realidade dos alunos recorrentemente sem aulas e sem professores. Mas se fosse tão inteligente como parece já deveria ter percebido que a carência de docentes é um problema estrutural e não uma mera questão de “percepções”. Como tal, só se resolve com medidas estruturantes que tardam em ser tomadas.

Por outro lado, se a realidade aqui noticiada não é nova, a notícia tem o mérito de nos dar a perceber como as escolas, na falta de decisões de fundo dos (ir)responsáveis vão, ao bom estilo do desenrascanço à portuguesa, resolvendo o que podem com os seus próprios meios: turmas sobrelotadas, “técnicos” a fazer as vezes de professores, professores profissionalizados a leccionar mais do que uma turma do 1.º ciclo, concentrando-se nas três disciplinas nucleares – Português, Matemática e Estudo do Meio – e deixando o resto ao cuidado dos tais “técnicos” e dos colegas do 2.º ciclo. Claro que tudo isto compromete a qualidade das aprendizagens e o sucesso escolar no presente e no futuro. Mas isso, nesta altura do campeonato, será o que menos importa a quem deveria fazer disto a sua prioridade de acção governativa.

Mais de 20 mil alunos começaram o segundo período sem todos os professores

A Federação Nacional dos Professores (Fenprof) estima que cerca de 23 mil alunos continuam sem todos os docentes atribuídos, o que reflete um agravamento da falta de professores face ao ano passado. Estão por preencher 363 horários em contratação de escola, muitos deles no 1.º Ciclo, onde a situação é mais crítica, com turmas sem professor titular desde o início do ano letivo. Só nas últimas duas semanas, os diretores lançaram 889 horários que, segundo a Fenprof, podem ter deixado até 62 mil alunos sem todas as aulas. A maior parte destes horários (268) pertence ao 1.º Ciclo, sendo 72 anuais e completos, o que significa que, desde o início do ano letivo, esses alunos não têm professor titular. Alguns agrupamentos, como o de Queluz-Belas, já tiveram de lançar mais de 100 horários só para o 1.º Ciclo, sem que houvesse candidatos disponíveis.

(…)

O Ministério da Educação garante que está a ser criado um sistema mais rigoroso de contabilização de alunos sem aulas, baseado nos sumários eletrónicos de cada aula, diferenciando entre faltas pontuais, substituições e ausências prolongadas. Paralelamente, o presidente do Conselho das Escolas admite o recrutamento de licenciados não profissionalizados, desde que supervisionados por docentes mais experientes. Como solução temporária, algumas escolas têm optado por concentrar os professores titulares nas áreas de Português, Matemática e Estudo do Meio, enquanto as Expressões ficam a cargo de docentes do 2.º Ciclo, de EVT, Música e Educação Física.

Escola Insegura, parte II

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A presença de armas nas escolas portuguesas – sobretudo armas brancas, maioritariamente facas de cozinha – é afinal um fenómeno com maior incidência do que inicialmente revelado. Como notei na altura, às 54 armas apreendidas pela PSP haveria que juntar as apreensões da GNR, o que em conjunto leva o total a perto de 130 armas encontradas na posse de alunos.

A comunicação social actualiza a informação sobre o assunto, acrescentando os dados divulgados pelo comando da GNR.

Um total de 127 armas foram apreendidas nas escolas portuguesas durante o ano letivo de 2024/2025, segundo dados avançados esta terça-feira pela PSP e pela GNR.

A GNR apreendeu 73 armas em ambiente escolar. A PSP encontrou 54 armas nas escolas portuguesas ano letivo de 2024/25, mais 15 do que no ano anterior, e foram registadas quase 3.900 ocorrências em 2024/25, no âmbito do Programa Escola Segura.

No ano letivo 2024/2025 a Polícia de Segurança Pública (PSP) registou 3.897 ocorrências, o que representa uma diminuição em comparação com o ano anterior, em que foram contabilizadas 4.107 ocorrências em contexto escolar, segundo os dados da PSP enviados à Lusa.

(…)

A Guarda Nacional Republicana (GNR) registou 88 situações de abandono escolar no corrente ano letivo até 31 de dezembro de 2025 no âmbito da Operação Escola Segura, anunciou esta terça-feira a força de segurança.

Dentro das ocorrências de natureza não criminal, onde se inserem as situações de abandono escolar, a GNR registou também 16 situações de comportamento aditivo e 77 situações de perturbação das atividades escolares, das quais 54 por alunos, 14 por familiares e nove por outros, segundo dados enviados à Lusa.

A Operação Escola Segura 2025/26 abrange 88.429 utentes da comunidade escolar, entre alunos, professores, auxiliares de educação e encarregados de educação.

A GNR é responsável pela segurança de 4.436 estabelecimentos de ensino, que reúnem 668.083 alunos.

No âmbito desta operação foram realizadas 6.330 ações de sensibilização nas escolas.

A GNR iniciou a operação “Escola Segura” 2025/2026 em setembro de 2025 para assinalar o regresso às aulas com um conjunto de ações dirigidas aos alunos, professores e encarregados de educação que pretendem sensibilizar “para a necessidade de adoção de comportamentos de autoproteção, ao nível da segurança em geral, de comportamentos inclusivos no seio da comunidade e prevenindo comportamentos desviantes da ordenação social”.

Na operação Escola Segura do ano letivo 2024/2025, a GNR apreendeu 73 armas em ambiente escolar, destacando-se 53 armas brancas, seis armas de fogo e cinco de ar comprimido e registou 2.354 crimes em ambiente escolar, destacando-se a ofensa à integridade física voluntária simples (890), a ameaça e coação (374) e o furto (183).