19 February 2026 @ 02:13 pm

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Querido Gustavo de 2011,

Aqui quem escreve é o Gustavo de 2026. Acabei de reencontrar aquele post com as metas que você criou no passado, e isso me fez lembrar de quando o mundo ainda parecia pequeno — e de quanto nós caminhamos desde então. Foi importante ter escrito aquilo naquela época, e é igualmente importante resgatar isso agora. Algumas coisas demoraram, mas chegaram.

Esse blog/diário guarda detalhes de uma fase decisiva, especialmente na adolescência, quando eu me sentia deslocado numa cidade pequena que parecia não ter sido feita para pessoas como eu — e, de certo modo, não era mesmo. Hoje consigo olhar para a nossa história e para os traumas com mais clareza. Entendo que tudo o que vivemos, inclusive a dor de não nos sentirmos pertencentes, ajudou a construir quem eu sou. Foi isso que me impulsionou a sair do buraco em que um dia estivemos.

Em 2011, meu corpo e minha mente buscavam isolamento. Eu procurava lugares onde pudesse ficar só e imaginar um mundo melhor. Lembro da "Rua da Feira", quase vazia, com duas casas abandonadas — uma delas marcada por um suicídio. Às vezes eu pensava que aquele poderia ser o meu fim também, porque havia dias em que a esperança parecia inexistente. Quase ninguém passava por ali, e isso me fazia sentir alheio à cidade, mas, ao mesmo tempo, estranhamente presente nela.

A Rua Santo Antônio tinha um efeito parecido. Era calma demais. No seu caminho, levava a um canto com fazendas e casas dispersas, sem comércio, e também dava acesso a um bairro/distrito honomino grande, isolado, com fama de perigoso. No meio desse caminho havia uma casa específica que alimentava outra fantasia: “Se eu der certo, se minha orientação sexual for compatível com essa cidade, eu vou morar aqui, com tal pessoa.” Nada daquilo era concreto. Eram projeções. Mas foram essas fantasias que nos impediram de desistir.

Muita coisa aconteceu desde então. O sonho de escapar geograficamente, ao som de Counting Down the Days da Natalie Imbruglia, virou realidade. Em 2026, aos 34 anos, realizei a maior parte daquelas metas: morei em três países, visitei mais de quinze, falo três idiomas. Algumas metas ficaram pelo caminho — em parte porque já não fazem sentido hoje —, mas olhar para o percurso já é motivo de orgulho.

Sei que demorou 15 anos para escrever essa resposta, mas eu queria poder te abraçar agora e dizer que estamos na nossa melhor versão até aqui. Que se fechar naquele quarto por medo de não pertencer foi uma fase. Que hoje estamos mais livres. E que, pelo nosso bem-estar, decidi abandonar a competição constante que nosso cérebro insistia em impor.

A internet, que foi refúgio naquele tempo, se tornou um espaço mais sombrio. Estou aprendendo a lidar com isso para preservar nossa sanidade. Desenvolvemos um transtorno de ansiedade ao longo do caminho, mas tenho cuidado de nós. Ainda existe incômodo com a barriga, apesar das dietas e do efeito sanfona, mas perdi o medo da academia. Estou entendendo que talvez a maior batalha sempre tenha sido interna. E sigo, um dia de cada vez.

Nem tudo está perfeito. Ainda há frustrações e ansiedades. Mas, olhando para trás, há razões concretas para termos orgulho. O mais importante é que eu estou aprendendo a te compreender e a te acolher. Receba meu abraço daqui. Vai ficar tudo bem. Eu te amo, te aceito, nos perdoo — e perdoo também tudo o que precisou acontecer para que chegássemos até aqui. ♥

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11 February 2026 @ 03:47 pm
Como mencionei em um post anterior, já faz um tempo que decidi entrar de verdade no meu processo de cura do condicionamento que o sistema me impôs. Sendo realista, isso é quase impossível por completo, mas entendi que dá para viver com pequenas frestas de descondicionamento: aprender a me amar e me respeitar sem parecer que estou encenando algo tirado de um livro de autoajuda ou vivendo uma fantasia.

Esse processo tem sido, talvez, a coisa mais confusa que já vivi. Por um lado, eu entendo que crescer ouvindo que eu nunca fui suficiente, que nunca seria amado por causa da minha aparência ou da minha orientação sexual, e ainda ser bombardeado todos os dias por mensagens que reforçam que pessoas como eu não merecem muito além do que já viveram, deixa marcas profundas. Por outro, quando bate a frustração de ver que quem não está nesse processo parece estar mais feliz, dá vontade de desistir e voltar atrás. Só que eu já entendi que não tem mais volta.

Eu já enxerguei coisa demais. E talvez seja justamente isso que dói: estar nesse meio-campo, onde ainda não alcancei o que almejo, mas também não consigo mais ser o Gustavo de antes.

Tenho saído de aplicativos que me fazem mal, aprendido a dizer não, evitado pessoas que não me agregam e ainda me trazem carga emocional negativa. E, no fim, sinto que estou me afastando de muita coisa, sempre me perguntando se estou fazendo certo.

Em uma das minhas análises, me veio a frase:
“O que dói não é só não estar sendo desejado agora. É a sensação de que, quando você finalmente decide se respeitar, o mundo não oferece nenhuma alternativa menos violenta. Ou você se submete ao jogo (apps, esforço, imploração velada) ou fica no deserto. Essa é a injustiça que você está nomeando.”

E a realidade confusa é essa. Será que, se eu ainda estivesse postando thirsty trap ou elogiando macho que nem tem interesse em mim no Instagram, eu estaria mais feliz? Será que, se eu aceitasse qualquer pessoa do Tinder — que me usava como apoio no começo e depois sumia — eu me sentiria menos só?

No fundo, eu já sei a resposta. O difícil é internalizar o processo.

Já faz um tempo que estou sozinho, que não me sinto visto — como minha criança interior sempre pede, numa tentativa de reconciliação pelos anos em que ela esteve abandonada — e eu não morri. Só preciso aceitar que é um processo. E que, em algum momento, vai ficar tudo bem.

Tem muita coisa mudando na minha cabeça e, de quebra, o trabalho também foi para um caminho mais difícil, o que me deixa com menos tempo e mais estresse e ansiedade. Parece que estou enfrentando sete dragões ao mesmo tempo.

Mas nem tudo é pesado. Se por um lado abandonei redes sociais que antes eram meu playground, por outro estou recuperando tempo e menos distração para hobbies que eu tinha deixado de lado. E isso, de certa forma, é uma maneira mais saudável de me reconciliar com o meu passado.

Essa travessia entre dependência de validação e autonomia emocional tem sido o ponto da minha vida. Vamos ver por quanto tempo eu navegarei nesse barco, e aonde isso vai me levar.
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